A Bíblia Sob Escrutinio

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Texto

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A BÍBLIA

SOB

ESCRUTÍNIO

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SUMÁRIO

Prólogo...7

01 - O Grande Questionamento...9

02 - As Origens...16

03 - As Influências...23

04 - O Universo...26

05 - A Bíblia...31

06 - O Relato da Criação...41

07 - Mitos e Lendas...47

08 - A Evolução...56

09 - O Dilúvio...70

10 - O Êxodo...77

11 - Os Patriarcas...84

12 - O Caso Davi...89

13 - O Machismo...93

14 - Deixai vir a mim as Criancinhas...98

15 - Injustiça, Crueldade e Violência...107

16 - A Escravidão...114

17 - As Incoerências...121

18 - As Contradições...130

19 - Jeová v/s Jesus...139

20 - Os Evangelhos...144

21 - A Construção do Mito Jesus...153

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23 - Jesus e as Profecias...173

24 - Um Jesus Irado...181

25 - Os Apóstolos...189

26 - Morte e Ressurreição...195

27 - Falsificadores...204

28 - As Profecias...219

29 - O Fim do Mundo...231

30 - Os Sinais do Fim...236

31 - O Século Catorze...243

32 - O Crescimento Populacional...250

33 - Raízes Mitológicas...255

34 - Os Dragões...264

35 - Sansão v/s Hércules...273

36 - O Politeísmo no Antigo Israel...277

37 - Um Deus Provador...288

38 - Um Deus Narcisista...295

39 - A Teoria do Supermercado...304

40 - Conclusão...315

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01 - O GRANDE QUESTIONAMENTO

A vida do ser humano é curta e passageira, cheia de imprevistos

e mudanças que podem levá-lo do êxtase ao desespero, uma caminhada cheia de obstáculos rumo a morte. Sem a menor chance de fugir dessa verdade cruel, o ser humano tenta de todas as formas encontrar uma explicação que possa amenizar esta triste sina. Do intelecto humano já surgiu de tudo, desde imortalidade da alma a reencarnação, de vida eterna no céu ao tormento eterno no inferno de fogo ou talvez uma chance de purificação num purgatório ou limbo, sem falar num paraíso junto a Alá ou um estado de elevação espiritual chamado nirvana, tudo isto baseado numa sensação chamada por muitos de fé, palavra essa que denota firme convicção em algo a despeito de qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, portanto algo sem evidência ou comprovação clara.

Desde os tempos remotos o ser humano tenta desvendar este mistério. Os antigos povos sumérios e acadianos já tinham suas crenças sobre vida após a morte e algum tipo de adoração a antepassados falecidos. Os mortos eram enviados para um mundo subterrâneo do qual não havia retorno. Os vivos reverenciavam os mortos, pois acreditavam que assim garantiriam o bom andamento das coisas no mundo dos vivos. Não existia concepção de julgamento pós-morte entre os mesopotâmicos. Acreditava-se que o “espírito” dos mortos atravessava um rio até o “sombrio” mundo dos mortos, onde permaneceria pela eternidade (Jeremy Black and Anthony Green. Gods, Demons, and Symbols of Ancient Mesopotamia, Fifth University of Texas Press Printing, 2003).

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Os maias, astecas e incas chegavam a fazer sacrifícios humanos, arrancando o coração da vítima ainda por pulsar e bebendo seu sangue diante do Deus Sol, numa tentativa de prolongar sua vida e acalmar sua divindade. Nas festividades da colheita os astecas davam as vítimas de sacrifícios taças de chocolate para que as almas chegassem mais rápido ao céu de uma forma que agradasse as divindades, pois o chocolate era considerado o alimento dos Deuses. As vítimas sacrificiais deveriam ser perfeitas e havia grande honra em conhecerem e serem escolhidas pelo imperador, tornando-se, depois da morte, espíritos com caráter divino que passariam a oficiar junto aos sacerdotes (Guy Annequim, Religião e Ciência entre os Maias, A Civilização dos Maias. Rio de Janeiro, Otto Pierre Editores, 1977).

No antigo Egito o processo de mumificação era uma tentativa

de vencer a morte. Quando o corpo morria sua alma ia para o Reino dos Mortos. Enquanto a alma residia nos Campos de Aaru, o Deus Osíris exigia pagamento pela proteção que ele propiciava. Acreditava-se que colocando bastante riqueza junto ao morto, ele teria mais facilidade em sua outra vida. Obter a recompensa no outro mundo era uma verdadeira provação, exigindo um coração livre de pecados e a capacidade de recitar encantamentos, senhas e fórmulas do Livro dos Mortos.No Salão das Duas Verdades, o coração do falecido era pesado contra uma pena da verdade e justiça, retirada de um ornamento na cabeça da deusa Maet. Se o coração fosse mais leve que a pena, a alma poderia continuar, mas, se fosse mais pesado, a alma era devorada pelo demônio Ammit (Rosalie David, Religião e Magia no Antigo Egito. Difel, 2011. ISBN 9788574321165).

No poema épico Odisseia, Homero refere-se aos mortos como “espectros consumidos”. Uma ultravida de eterna bem-aventurança existiria nos Campos Elísios, mas estaria reservada

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para os descendentes mortais de Zeus. Em seu Mito de Er, Platão descreve almas sendo julgadas imediatamente após a morte e sendo enviadas ou para o céu como recompensa ou para o submundo como punição. Depois que seus respectivos julgamentos tivessem sido devidamente gozados ou sofridos, as almas reencarnariam. O Deus grego Hades é conhecido na mitologia grega como rei do submundo, um lugar gélido entre o local de tormento e o local de descanso, onde a maior parte das almas residiam após a morte. Os romanos tinham um sistema de crenças similares quanto à vida após a morte, com Hades sendo denominado Plutão. O príncipe troiano Enéas, que fundou a nação que se tornaria Roma, visitou o submundo de acordo com o poema épico Eneida (Junito de Souza Brandão, A vida após a morte na Grécia Antiga. “Mitologia Grega", Vol. II. Petrópolis, Vozes, 2004).

Povos tribais na Melanésia, na Polinésia, na Nova Guiné, na Índia, na Ásia, na África e nas Américas do Sul e do Norte, acreditam que os espíritos dos mortos são capazes de infligir todo tipo de danos aos vivos, sendo os parentes próximos considerados como os mais letais (James George Frazer. The Belief in Immortality and the Worship of the Dead. Londres, Macmillan, 1913).

Todas estas crenças refletem a inconformidade do ser humano diante da morte. Muitas pessoas não satisfeitas com a esperança do além túmulo desenvolveram crenças relacionadas com poções mágicas, águas milagrosas ou árvores da vida que supostamente poderiam prolongar a vida eternamente.

Os alquimistas chineses criaram vários elixires contendo cinábrio, enxofre, arsênico e mercúrio. Joseph Needham fez uma lista de imperadores que morreram provavelmente por ingerirem esses elixires. Na mitologia grega a Ambrosia, o manjar dos deuses do Olimpo era tão poderoso que se um mortal o comesse,

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ganharia a imortalidade. Segundo os alquimistas europeus, um elixir poderia ser sintetizado por meio da Pedra Filosofal prolongando a vida somente até que um acidente os matasse. Johann Conrad Dippel teria elaborado um óleo animal, chamado de Óleo de Dippel, que alguns acreditavam ser o elixir da longa vida. Uma destacada lenda urbana diz que o cientista Isaac Newton criou e bebeu essa poção, mas em vez de proporcionar-lhe a vida eterna, proporcionou-proporcionar-lhe a morte.

O clássico mito sumério “A Epopéia de Gilgamés”, uma das mais antigas obras literárias conhecidas narra a incessante busca do herói por uma fonte milagrosa que curava e tornava a pessoa imortal. Pausànias, geógrafo e historiador grego do 2º século d.C., misturando lenda e realidade, falava de uma fonte que chamava de Calatos, situando-a próximo a Náuplia, no Peloponeso, na qual Hera se banhava para parecer sempre jovem e bela a Zeus, seu marido. Alexandre, o Grande, teria procurado pela fonte da juventude (ou pelo rio da imortalidade) durante sua campanha na Índia. Uma das razões pelas quais Fernando e Isabel, os Reis Católicos da Espanha, patrocinaram as viagens de Cristóvão Colombo era encontrar a fonte da juventude. O explorador espanhol Juan Ponce de León (1460-1521) tinha mais de 50 anos quando empreendeu a procura da fonte da juventude e do rio da imortalidade (Gonzalo Fernández de Oviedo, Historia General y Natural de las Indias, Livro 16, Capítulo XI). Obviamente, todos estes esforços se mostraram inúteis e acabaram em desilusão. Alguns escritos religiosos da antiga Caldeia afirmam que próximo de Eridu havia um jardim com uma misteriosa árvore sagrada plantada por divindades, cujas raízes eram profundas e os ramos atingiam o céu. Era protegido por espíritos guardiões onde nenhum homem poderia entrar. Na antiga literatura babilônica há frequentes referências à árvore da vida. Representações da árvore são frequentes em baixos-relevos e selos de alabastro. Seus frutos

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supostamente conferiam vida eterna aos que comessem deles. Os antigos egípcios, também possuíam lendas similares sendo que numa delas se apresentava a crença de que, depois do Faraó morrer, havia uma árvore da vida da qual teria de comer para se sustentar no domínio do seu pai, Rá. Na mitologia grega acreditava-se que nos Jardins das Hesperides, localizado numa ilha do oceano existiam as maçãs de ouro. Eram muito famosos na antiguidade, pois era lá que fluíam as fontes de néctar pelo divã de Zeus, ali a terra exibia as mais raras bênçãos dos deuses. Os persas possuíam uma tradição duma árvore da vida, a haoma, cuja resina conferia a imortalidade. A tradição chinesa menciona sete árvores maravilhosas. Uma delas, que é de jade, conferia a imortalidade pelo seu fruto. A mitologia escandinava fala de uma árvore sagrada chamada Yggdrasill, sob uma de suas raízes emanava uma fonte em que residia todo o conhecimento e toda a sabedoria. A mitologia nórdica fala de uma Deusa chamada Iduna que guardava numa caixa as maçãs da imortalidade, que os Deuses partilhavam a fim de renovar a juventude. Segundo a bíblia, a árvore da vida era uma das duas árvores especiais que Deus colocou no centro do jardim chamado Éden. O primeiro casal humano foi impedido de alcançar esta árvore após terem desobedecido ao mandamento divino. Foram assim expulsos desse jardim ou paraíso original. Como forma de impedir que alguém voltasse a entrar no jardim e consequentemente comesse dos frutos da árvore da vida, Deus colocou criaturas sobre-humanas chamadas querubins, que possuíam uma espada de fogo que girava continuamente. (Count Eugene Goblet d'Alviella, Symbols: Their Migration and Universality. Dover Publications, 2000. ISBN 978-0486414379).

Estes exemplos nos mostram que o ser humano desde seus primórdios, busca desesperadamente achar um sentido para a vida, um objetivo para sua existência. De onde viemos? O que

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fazemos aqui? Para onde vamos? Porque a vida é tão atribulada? O que significa a morte? Esses e muitos outros questionamentos têm angustiado a humanidade. Quando a morte lhe parecia iminente o pintor francês Paul Gauguin pintou um quadro descrito como “derradeira expressão da força artística”. O livro “Paul Gauguin 1848-1903: O Sofisticado Primitivo” (em inglês) diz: “O espectro da atividade humana abrangido pelo quadro cobre todo o curso da vida, do nascimento à morte... Ele interpretava a vida como um grande mistério.” Gauguin chamou esse quadro de “De onde viemos? O que somos? Para onde vamos? (D’où venons-nous? Que sommes-nous? Où allons-nous?). O quadro de Gauguin levantou perguntas sobre o sentido da vida. Alguns preferem não pensar muito sobre tais assuntos, acham que devemos viver a vida da melhor maneira possível, sem muita preocupação com este tipo de questão, pois refletir sobre isso não levará a nada e acabaremos frustrados e se insistirmos neste tipo de questionamento ficaremos deprimidos.

Mas o intelecto humano não se contenta em apenas aceitar as coisas como são, afinal é isso que nos separa dos demais animais, que simplesmente vivem suas vidas sem questionar o sentido dela. Os animais irracionais não questionam sua origem, o objetivo de estarem aqui e para onde vão, suas preocupações se resumem em conseguir alimento, fugir dos predadores e perpetuar a espécie através do acasalamento, aliás, nem podemos dizer que essas coisas são uma preocupação, mas sim um instinto natural que comanda suas vidas. Já o ser humano é um animal racional, que acumula conhecimento através das eras, tem a capacidade de se auto avaliar e aprender de seus erros. Porém é imprevisível nos seus atos, pode num momento fazer coisas terríveis e em outro demonstrar o mais sublime amor. Tanto é assim que não nos conformamos em ser um animal mais evoluído, não, precisamos ser algo mais, é necessário haver

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um propósito para nossa existência, temos de fazer parte de algo maior, afinal somos segundo a bíblia a imagem de Deus, criados a sua semelhança, filhos de um ser superior que se preocupa conosco, que está interessado em nossas decisões, que se importa com nossas ações. Desta forma nos sentimos importantes, queridos e amados, quem não gosta de si sentir assim? Esta crença num ser transcendental massageia nosso ego, eleva nossa autoestima. “Se não existisse Deus, então seria necessário inventá-lo” já dizia Voltaire (Si Dieu n'existait pas il faudrait l'inventer. Collection complette des oeuvres de Voltaire. Volume 22, página 406). Esta frase define bem a necessidade do ser humano de crer em algo superior. E realmente a humanidade desde o começo de sua história tem de alguma forma criado algum tipo de deidade, recorrendo a está nos momentos de dificuldade. Há traços de religiosidade nas mais antigas formas de expressão, desde desenhos rupestres encontrados em cavernas datados do período Paleolítico às formas de escrita mais primitivas como as cuneiformes e os hieróglifos egípcios.

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m grande parte das civilizações antigas observamos diversas deidades invocadas para muitos e variados propósitos como abençoar as plantações, ajudá-los em suas guerras, protegê-los de doenças, terem êxito em seus projetos, entre outros assuntos cotidianos. Os babilônicos adoravam Marduc, Ishtar, Tiamat, Tamuz, Ea, Anu, Adad entre outros. Os antigos egípcios adoravam vários Deuses como a tríade Ísis, Osíris e Hórus, o Deus Sol Amom-Rá e até mesmo o rio Nilo, pois graças as suas enchentes estendia-se um vale fértil que dava precioso alimento para aquela nação. Os maias, incas e astecas adoravam o Sol, a Lua, as estrelas e os trovões, por que eram coisas e fenômenos que não entendiam. Aquele estrondoso barulho de um trovão era incompreensível para aqueles primitivos humanos. Parecia-lhes que um Deus falava com eles, um ser superior emitindo sua imponente voz e coincidentemente após sua fala a chuva trazia vida e alimento, tão essenciais para a sua sobrevivência. Entretanto, a medida que as civilizações evoluíam, seus Deuses tinham que evoluir também, para satisfazer um intelecto de pessoas um pouco mais cultas. Passou-se a entender melhor certos fenômenos naturais e as pessoas não se contentavam mais com Deuses simples e rudimentares. Tornou-se necessário criar Deuses mais complexos, mais interessantes para satisfazer um ser humano mais analítico, mais questionador, assim surgiram os Deuses Greco-romanos, mais pessoais, parecidos conosco, tendo angústias e conflitos. Alguns passaram a interagir conosco, vivendo entre nós, tendo filhos que se tornaram poderosos, filhos de Deuses com humanos, eram fortes, uma força descomunal, como Hércules da mitologia grega ou os Nefilins descritos na

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bíblia. Surgiram Deuses para satisfazer cada faceta do ser humano, por exemplo, na mitologia grega o amor era personificado por Afrodite, a guerra por Ares, a sabedoria por Atena, a caça e a vida selvagem por Ártemis, a morte por Hades. Havia um panteão de Deuses tendo como pai Zeus e mãe Hera, viviam no monte Olimpo, um lugar muito acima de nós e ali articulações e conspirações aconteciam entre eles, tornando-os muito parecidos conosco (Sarah Iles Johnston [Editor], Religions of the Ancient World: A Guide. Belknap Press of Harvard University Press, 2004. ISBN 978-0674015173).

Paralelamente com este movimento surge entre os povos semitas nômades que viviam na Mesopotâmia entre os vales férteis do rio Tigre e Eufrates, uma nova tendência na religiosidade das pessoas. Surgia a noção de um Deus único, pessoal e perfeito, diferente da cultura helenística. Ele não tinha angústias ou conflitos pessoais, estava bem acima de nós, não apenas na questão de poder, mas também na personalidade, não tinha fraquezas como o ser humano ou os Deuses Greco-romanos. Toda culpa pelo sofrimento humano passa a recair sobre nós mesmos. Surge o conceito de que pecamos contra este único Deus todo poderoso e criador de todas as coisas. Teríamos virado as costas para ele, o rejeitamos, e visto que “não conseguimos” tomar decisões corretas sem a ajuda dele, passamos a sofrer as consequências desse ato de rebeldia.

Movimentos migratórios a procura de novas pastagens levaram certos semitas à região próxima do rio Jordão, região conhecida na época por Canaã. Ali segundo a bíblia, Abraão, patriarca de uma grande e próspera tribo, erigiu um altar e sacrificou um animal para demonstrar a este Deus único que tinha consciência de sua condição pecaminosa e ansiava uma reconciliação. Algum tempo depois tentou sacrificar seu próprio filho segundo ele a pedido de Deus, que no momento do sacrifício

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intercedeu aceitando um animal no lugar. Este acontecimento viria a influenciar todo um modo de pensar, primeiramente dos descendentes de Abraão que viriam a ser os hebreus (que significa andarilho ou “aquele que atravessa para o outro lado”) ou israelitas, devido ao nome de um neto de Abraão chamado Jacó, também conhecido como Israel. Segundo Abraão, Deus lhe prometeu que entre seus descendentes surgiria um enviado dele, que morreria a fim de redimir a humanidade. Esta promessa influenciou fortemente a linhagem de Abraão, que através dos tempos se tornou uma grande nação. Toda essa crença moldou o Judaísmo, a religião de uma das doze tribos de Israel, a tribo de Judá.

Milênios depois surgiu um pregador entre os judeus e se auto proclamou o Messias que significa ungido ou escolhido. Este personagem influenciou fortemente a religiosidade das pessoas de sua nação. Não pretendia criar uma nova religião, antes tentava reformar um sistema religioso que considerava corrompido. Dava atenção aos pobres e menos favorecidos, condenando os líderes religiosos judaicos que na sua concepção eram hipócritas. Depois de um curto período de pregação, este homem foi preso, torturado e morto às mãos da autoridade romana que na época subjugava toda aquela região. Este triste desfecho causou um grande frenesi entre seus seguidores, que de uma maneira impressionante divulgaram a mensagem de que seu líder havia sido ressuscitado dentre os mortos.

Surgiu assim uma forte tendência religiosa que de uma maneira sutil e progressiva foi tomando o lugar da adoração politeísta de origem grega. Esta mensagem de um Deus preocupado e interessado numa reconciliação, chegando a ponto de enviar um representante para interceder por nós, ou como muitas religiões afirmam, Ele próprio vindo e intercedendo por nós, mostrou-se muito atraente em comparação com os Deuses

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soberbos e egoístas que se divertiam com o ser humano. Aos poucos esta nova religiosidade foi tomando conta de todo o Império Romano, crescendo de tal forma que em apenas três séculos tornou-se a religião oficial de Roma. Seu poder tornou-se tal que seus líderes religiosos tiravam e colocavam imperadores a seu bel prazer. Diante de tanto poder, seus clérigos ficaram corruptos, veja só que ironia, a mesma corrupção que seu fundador séculos antes combatia. Depois de quase um milênio de abusos como venda de indulgencias, inquisições e cruzadas, explorando o povo e derramando muito sangue inocente, surgiram alguns reformadores que começaram a questionar certos abusos. Homens como João Calvino, Martim Lutero, John Wycliffe e Jan Huss começaram um movimento de reforma que causou muitas divisões. Aparecem assim novas religiões, tentando encontrar aquela original mensagem, porém sem muito sucesso. Entretanto esta crença tornou-se a base da fé de bilhões de pessoas (Willard G. Oxtoby and Amir Hussain, World Religions: Western Traditions. Oxford University Press, 3ª edição, USA, 2010. ISBN 978-0195427172).

Qualquer pessoa que more na Europa ou nas Américas conhece muita bem esta história que resumidamente acabo de contar, porque de uma forma ou de outra a esmagadora maioria de tal população teve sua religiosidade influenciada pelo cristianismo. A figura de Jesus Cristo é amplamente conhecida e reverenciada de diversas formas. Só para se ter uma ideia, os cristãos como são conhecidos os seguidores de Cristo estão subdivididos em vários ramos ou vertentes diferentes. Segundo alguns dados recentes, calcula-se que dos sete bilhões de seres humanos existentes hoje em nosso planeta, dois bilhões professam ser cristãos, destes, um bilhão são adeptos do catolicismo, os restantes estão divididos entre protestantes, anglicanos, ortodoxos, de fronteira, pentecostais,

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neopentecostais, entre outras. Cada um tem sua própria maneira de interpretar e viver os ensinos de Jesus. Dentro dessas principais divisões existem milhares de subdivisões ou pequenas religiões que diferem em alguns pontos ou dogmas, transformando o cristianismo numa grande árvore cheia de galhos, cada qual defendendo ferrenhamente sua maneira de pensar, infelizmente alguns de forma fanática e intolerante.

Em outra região de nosso planeta encontramos mais de um bilhão de outros seres humanos que professam uma fé diferente da fé cristã. Tudo começou quando um jovem árabe ficou revoltado com o poder exercido em Meca, um influente centro de adoração no oriente médio, onde existe a Caaba, que segundo a tradição islâmica foi originalmente construída por Adão, seguindo um protótipo celestial e depois do dilúvio reconstruída por Abraão e Ismael, seu filho com uma serva egípcia chamada Agar. Trata-se de um edifício em forma de cubo onde se reverencia um meteorito negro. Incomodado e descontente com os ensinos da religião árabe, como o politeísmo e animismo, a imoralidade nas assembleias, as bebedeiras, jogatinas e danças, o sepultamento em vida de bebês do sexo feminino indesejados, entre outras coisas, este jovem que tinha o costume de ir a uma caverna meditar, afirmou que numa destas ocasiões recebeu um chamado de Deus para ser profeta. Segundo a tradição mulçumana, um anjo chamado Gabriel lhe revelou a vontade divina. Depois de treze anos de perseguição por parte dos líderes religiosos árabes, ele transferiu seu centro de atividades de Meca para Medina ao norte. Esta emigração tornou-se um marco importante na história islâmica, sendo esta data o ponto de partida no seu calendário.

Com o tempo Maomé como já era conhecido obteve domínio sobre Medina, tanto religioso como político. Daí em diante Maomé reunificou as tribos árabes, nascendo assim outra

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doutrina religiosa ensinando a submissão a Alá, um Deus único e todo poderoso que escolheu Maomé como seu principal profeta, e o conjunto de seus escritos, o Alcorão, como seu livro sagrado. Parecido com a fé cristã em alguns de seus ensinos, como de um Deus único, um livro sagrado e incentivo a uma vida devota a Deus, tal crença conquistou bilhões de adeptos, influenciando a vida e a religiosidade destas pessoas (Karen Armstrong, A History of God. Ballatine Books, 1993. ISBN 0-345-38456-3).

Este breve resumo da origem da religiosidade humana, desde os tempos primitivos passando pelas religiões greco-romana, cristã e islâmica nos leva a seguinte conclusão: a angústia e a ansiedade do ser humano devido a coisas que ele não consegue entender o induz a tentar achar na religião uma resposta que conforte sua inquietude. À medida que o ser humano evolui, a religião se torna também mais evoluída para suprir esta sociedade mais questionadora. Conforme notamos na história das religiões, o surgimento de novas tendências não raro acontece devido ao descontentamento de certas pessoas ou classes com o poder religioso então estabelecido.

Podemos ver um exemplo disso em Sidarta Gautama, ou Buda, como é popularmente conhecido. Insatisfeito com o sistema de castas do hinduísmo, religião predominante na Índia, Buda cria uma nova maneira de entender o sofrimento humano, disseminando esse ensino por onde passava, atraindo a si muitos discípulos. Da mesma forma Jesus criticou duramente os líderes religiosos judaicos, Maomé revoltou-se com certas práticas da religião árabe, Martim Lutero e João Calvino protestaram contra o poder exercido pelo catolicismo.

Portanto toda religião existente hoje se origina da insatisfação para com outra, que da mesma maneira surgiu do protesto para com outra e assim sucessivamente até chegarmos às religiões mais primitivas como o animismo e as religiões tribais, formas

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bem simples de adoração, que por fim tem suas origens no próprio ser humano, nos seus processos de raciocínio, suas necessidades, seus temores e neuroses. Toda e qualquer religião origina-se do ser humano, é desenvolvida e estabelecida pelo ser humano e reformada ou mudada devido à evolução do próprio ser humano. Qualquer afirmação de que existe uma orientação ou uma intervenção divina no surgimento de determinada religião, nada mais é do que uma tentativa do próprio ser humano de dar uma confirmação ou uma auto afirmação para sua fé. Visto que todas as manifestações religiosas são na realidade fruto da própria mente humana, nenhuma pessoa ou religião pode afirmar possuir a “verdade” sobre assuntos relacionados com a fé.

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religiosidade é uma área muito pessoal e particular de cada um e sofre a influência de vários fatores que podem determinar o rumo religioso que uma pessoa tomará. De certa forma somos influenciados pela religião predominante em nosso meio ou no lugar que nascemos. As pessoas que nascem e vivem nas Américas tem forte inclinação a serem cristãs, isto porque os países que colonizaram as Américas eram de cultura cristã. A América Latina por ter sido colonizada por Portugal e Espanha, países com forte influência católica, teve impregnada em sua cultura a religiosidade católica. Podemos notar isso pela privilegiada localização de suas igrejas sempre no ponto inicial de fundação das cidades. Ao se fundar uma cidade a primeira coisa a se construir era uma igreja. A própria Igreja Católica enviava missionários aos países colonizados para catequizar o povo nativo. Os jesuítas tiveram um papel de destaque nestas missões. Portanto não é de admirar que países como Brasil e México tenham fortemente arraigados em sua cultura a religiosidade católica. Trata-se de uma tradição de séculos que vem sendo passada de pai para filho através de gerações. Por isso existem mais católicos na América Latina do que em qualquer outro lugar do mundo.

Já na China, por exemplo, país que não foi colonizado por uma nação cristã, a realidade religiosa e totalmente diferente. Metade da população chinesa que chega a mais de um bilhão de pessoas, não professa fé alguma, isto porque a China vive um regime Comunista desde 1949, que desestimula a população ter uma religião. A outra metade da população segue crenças

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populares chinesas que fazem parte deste país a milênios como o Budismo, Confucionismo e o Taoísmo.

Nos países árabes a realidade religiosa é islâmica, uma cultura e tradição completamente diferente tanto da China como das Américas. No mundo árabe, noventa por cento da população vive a fé mulçumana. Tanto na China como nos países árabes os cristãos são uma minoria quase insignificante, assim como também nas Américas os mulçumanos e os budistas são a minoria

(Pew Research Forum on Religion & Public Life e The Association of Religion Data Archives). Esta realidade existe porque as pessoas em geral não gostam de ser diferentes da maioria, querem ser aceitos no meio em que vivem, por isso em geral seguem a religião que seus pais e avós seguiam, ou que a maioria em sua comunidade segue. A possibilidade de uma pessoa que nasceu e vive nas Américas ser cristã é muito grande, porém um chinês dificilmente se tornaria um cristão, pois no mundo oriental a cultura cristã e mínima, quase insignificante. A chance de um chinês se tornar cristão é a mesma de um brasileiro se tornar budista, existe essa possibilidade, mas é muito remota, como também é remota a possibilidade de uma pessoa nascida no mundo árabe se tornar um cristão. A grande verdade e que a maioria das pessoas escolhe sua religião pelo lugar que nasce ou que vive.

Não podemos desconsiderar também certos fatores pessoais que podem fazer com que alguns desenvolvam sua religiosidade ou até mesmo mudem sua inclinação religiosa. Talvez a morte de um ente querido, um acidente pessoal, um revês financeiro, uma desilusão amorosa, uma doença, são algumas situações que podem levar uma pessoa a buscar conforto e amparo em alguma religião, talvez sendo mais assíduo em sua própria religião de origem ou mudando de religião. O inverso também acontece,

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pessoas antes religiosas perdem sua fé devido a certas mudanças drásticas em suas vidas.

Todas estas variantes exemplificam bem a complexidade do ser humano. Nós temos características ímpares, temos um universo próprio e peculiar, que pode ser moldado por diversas circunstâncias como criação familiar, o ambiente em que vivemos, traumas sofridos, conflitos, tendências e influências, que de uma forma ou de outra contribuem para a construção de uma personalidade. Portanto fica difícil determinar de forma individual qual rumo uma pessoa tomará na sua busca por respostas as suas angústias e questionamentos.

Infelizmente muitos seguem o caminho do fanatismo religioso, que tanto mal tem causado em nossa sociedade. O ser humano mais perigoso é aquele que não admite a possibilidade de estar errado. Muitas religiões tentam impor suas crenças sobre outras pessoas, fazendo uma verdadeira lavagem cerebral. Esta forma agressiva de conversão tem tido grande aceitação nas classes mais pobres e menos instruídas. Tal população recebe bem a mensagem de que foi escolhida por Deus e que vai ser abençoada tanto nesta vida como na vida após a morte. Para quem não consegue ver uma perspectiva de realização em sua vida, encontra na mensagem de certas religiões uma maneira de se sentirem importantes, queridos, participantes de algo maior, isso faz bem para sua autoestima.

Por outro lado, tais religiões na maioria das vezes causam um estado de inércia intelectual, inibindo qualquer tentativa pessoal de evoluir como ser humano, transformando seus adeptos em marionetes nas mãos de certos líderes religiosos que manipulam as massas construindo para si grandes impérios as custas da inocência e ingenuidade de seus rebanhos. Este tipo de fanatismo normalmente vem acompanhado de intolerância e preconceito, levando a atitudes ignorantes e até mesmo violentas.

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asta analisarmos com um pouco mais de profundidade a grandiosidade do universo, para percebermos como são pequenas nossas divergências sejam elas culturais, econômicas, raciais, religiosas, políticas e filosóficas.

Vivemos num minúsculo planeta situado no sistema solar que por sua vez faz parte da galáxia Via-Láctea. Nós, insignificantes seres humanos, estamos como que presos neste planeta, pois se nos afastarmos apenas alguns quilômetros em direção ao espaço morreremos por falta de uma atmosfera que nos permita respirar. Com muita determinação, gastando bilhões de dólares, usando os mais renomados cientistas, após muitas tentativas, unindo todo o conhecimento tecnológico acumulado por anos de estudo, conseguimos ir à Lua, um satélite natural que gira em torno de nosso planeta. Calcula-se que daqui algumas décadas conseguiremos fazer uma viagem tripulada a Marte, o planeta mais próximo do nosso, pode-se dizer “aqui do lado”. Mas para isso, usando toda nossa ciência, levaremos segundo alguns cálculos otimistas, dois anos para ir e dois anos para voltar, isto se não acontecer nenhum imprevisto, porque já enviaram algumas pequenas naves sem tripulação e o resultado não foi o esperado. Agora pense, todo esse esforço para chegarmos em nosso vizinho, o planeta Marte. Só que depois de Marte a uma sucessão de planetas como Júpiter, Saturno, Netuno, e após estes saímos de nosso sistema solar entrando em um novo sistema, tendo no centro uma estrela e vários planetas girando em sua volta. Calcula-se que apenas em nossa galáxia exista cem bilhões de estrelas semelhantes ao nosso Sol, a maioria com vários planetas

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girando em torno de tais. Para termos uma ideia basta olharmos para o céu numa noite estrelada.

Se o homem conseguisse viajar a velocidade da luz, aproximadamente trezentos mil quilômetros por segundo, algo impossível com a atual tecnologia humana, vemos isto acontecer apenas em filmes, na vida real creio que a humanidade levará milhões de anos para chegar a este conhecimento, mas suponhamos que num futuro distante o ser humano consiga viajar a velocidade da luz, que tal façanha se torne possível, sabe quanto tempo levaríamos para atravessar a nossa galáxia, a Via Láctea? Levaríamos cem mil anos! Isto mesmo, apenas para atravessar a nossa galáxia. Agora você faz ideia quantas galáxias existem? Calcula-se que existam mais de cem bilhões de galáxias no universo e aproximadamente cem bilhões de estrelas em cada galáxia. Astrônomos estimam que cerca de ¾ dessas estrelas possuem planetas ao seu redor, isto nos leva a dez sextilhões de planetas no universo, o número um seguido de vinte e dois zeros. Existem mais planetas do que os grãos de areia de todas as praias do mundo. É totalmente contrário as leis da probabilidade afirmar que somos a única espécie inteligente do universo, seria no mínimo um desperdício muito grande de espaço. Consegue perceber nossa insignificância diante da imensidão de nosso universo? (Carl Sagan, Pálido Ponto Azul. Companhia das Letras, 1994. ISBN 0-679-43841-6).

Nosso planeta assemelha-se a uma grande espaçonave que vaga a esmo pelo universo infinito, tendo nele o necessário para nossa sobrevivência. Não conseguimos nem mesmo ir a Marte, quanto mais sairmos de nosso sistema solar ou de nossa galáxia. Parecemos uma pequena formiguinha que não consegue chegar à fazenda vizinha, quanto mais a outro país ou continente (Carl Sagan, Cosmos. Editora Francisco Alves, 1980. ISBN 0-375-50832-5).

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Realmente nossa pequenez e fragilidade são claramente expostas quando ocorre um fenômeno natural em nosso planeta, como um furacão, um terremoto, um maremoto ou a erupção de um vulcão. Todos esses nos fazem parecer pequeninos insetos incapazes de fazer algo em favor da sobrevivência

Portanto quem confinado dentro deste pequeno planeta pode afirmar que não existe vida em outros planetas? Não conseguimos nem sair daqui! Quem pode garantir que em outros sistemas ou galáxias não existam civilizações talvez bem mais evoluídas que a nossa e simplesmente tais seres preferem não se intrometer em nossos insignificantes assuntos, ou talvez sejam primitivos demais e assim nem fazem ideia de que existimos. Já pensou que situação peculiar? Eles não conseguem sair de lá e nós não conseguimos sair daqui!

Todas estas possibilidades existem e ninguém preso a este pequeno planeta pode provar o contrário, estamos impotentes, viajando por este vasto universo, sem o menor controle de nossa direção, não sabemos nem mesmo para onde estamos indo. Diante de tudo isso, qualquer fanatismo, intolerância, preconceito ou divergência torna-se insignificante. Basta olharmos para o nosso processo de envelhecimento para termos uma atitude mais modesta e humilde. Ficamos inquietos e incomodados com a brevidade e futilidade da vida. A maioria das pessoas preza a vida, porém não se conforma com a morte, o fim abrupto e sem escape que todos mais cedo ou mais tarde se confrontam. É desolador observar a decadência física do ser humano, observar pessoas precisando da ajuda de outras para fazerem tarefas que na sua juventude seriam banais, ver o corpo definhar sem que nada possa ser feito para interromper esse cruel processo.

Esta é uma realidade que todos vão enfrentar, a duração da vida do ser humano é como um breve instante diante dos bilhões

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de anos do universo, por isso precisamos parar com a ideia de que somos o centro do universo, que tudo gira em torno de nós e que todo esse vasto cosmos foi criado em nossa função. Todo esse pensamento egocêntrico criado por nosso intelecto tem contribuído para que o ser humano fique cada vez mais arrogante e prepotente, e nossa sociedade cada vez mais individualista e possessiva. É fundamental que o ser humano entenda sua pequenez e tire de seu coração toda essa arrogância e prepotência que tanto mal tem causado a seu semelhante.

É claro que precisamos de amor próprio e autoestima, ter um objetivo nesta nossa curta e passageira vida, entretanto, estes nunca devem se basear numa mentira ou ilusão, também nunca devem nos levar a pensar que somos melhores que os outros, que somos os donos da verdade, que nossa religião, raça, etnia ou posição social nos coloca num nível superior aos demais humanos.

Já observou que a grande maioria das guerras e atrocidades cometidas pelos seres humanos foram motivadas por sentimentos religiosos? Judeus contra palestinos islâmicos em Israel, católicos contra protestantes na Irlanda, mulçumanos contra hindus na Caxemira, croatas (cristãos católicos) contra sérvios (cristãos ortodoxos), ambos exterminando bósnios (muçulmanos) na antiga Iugoslávia (guerra dos Bálcãs), afegãos e iraquianos xiitas contra jihadistas sunitas no mundo árabe, católicos contra mulçumanos nas cruzadas, os tribunais da inquisição católica, entre outros (Christopher Hitchens, God Is Not Great: The Case Against Religion. Atlantic Books, 2007. ISBN 978-1843545866). Mais recentemente, depois dos atentados de 11 de Setembro, que tanto espanto causou a humanidade, percebemos ainda mais claramente como o sentimento religioso pode levar o ser humano a fazer coisas terríveis. Diante de todas as consequências deste ataque, como a guerra ao terror iniciada pelos Estados Unidos

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contra alguns países do mundo islâmico, como o Iraque e o Afeganistão, ficamos cada vez mais perplexos com os resultados funestos que o sentimento religioso provoca em nossa sociedade. É claro que tais atitudes radicais foram cometidas por extremistas religiosos. Obviamente não estamos dizendo aqui que todos os religiosos estão no mesmo patamar de fanatismo e intolerância, existem religiosos que jamais cometeriam atos dessa natureza, mas o ponto em questão é que a religião contribui para que pessoas desenvolvam tais sentimentos.

Sim, as religiões em geral tem tido um papel fundamental na disseminação de sentimentos como intolerância, preconceito e egocentrismo, que tantos males tem causado a humanidade. Tais religiões usam alguns livros chamados de “sagrados” para propagar seus conceitos que estimulam tais sentimentos nocivos. A bíblia e o alcorão são alguns dos muitos livros que atribuem sua autoria a alguma deidade e reivindicam para si o papel de guia espiritual da humanidade. A partir de agora, vamos analisar de uma maneira mais profunda um destes livros, a bíblia.

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05 - A BÍBLIA

Um livro que tem contribuído bastante para o desenvolvimento

de um raciocínio egocêntrico, intolerante, preconceituoso e extremista é a bíblia. Em especial no mundo cristão este livro tem exercido uma influência enorme nas pessoas, guiando seu modo de pensar e agir de uma maneira impressionante. É engraçado como a maioria das pessoas segue um livro que nem sabem ao certo de onde vem, como foi escrito e traduzido e de que forma chegou até nós. Se perguntarmos a maioria dos religiosos eles simplesmente dirão que tal livro foi inspirado por Deus e pela graça divina chegou até nós.

Entretanto, estes têm pouco conhecimento sobre a bíblia, e o pouco que sabem lhes foi passado por outras pessoas que também pouco sabem e assim sucessivamente até chegarmos a algum líder de uma determinada religião que tem um pensamento totalmente influenciado por alguma doutrina ou tradição. No geral tais líderes moldaram seu modo de pensar e não admitem a possibilidade de estarem errados, passando esta mentalidade para os demais, não raro através de uma estrutura muito bem organizada, criando nas pessoas uma sensação de segurança através de uma comunidade unida em determinada doutrina. Pessoas que no geral vivem sem muita perspectiva e esperança, que tem problemas e não conseguem conviver com eles, tem obstáculos e não conseguem superá-los, encontram na religião e em sua particular interpretação da bíblia um porto seguro para seus questionamentos, uma bengala emocional para suas angústias. Infelizmente, tais ensinos não passam de mera ilusão, uma fantasia criada para apaziguar as dúvidas existenciais e as incertezas da vida.

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Apesar da bíblia conter algumas partes interessantes do ponto de vista histórico e alguns ensinos proveitosos para certos aspectos de nossa vida, no geral trata-se de um livro cheio de contradições e incoerências, escrito por homens, contendo ideias e pensamentos puramente humanos. Para descobrir isto, basta fazermos uma análise profunda, deixando de lado fanatismos religiosos e extremismos fundamentalistas, para entendermos a natureza humana dos escritos bíblicos. Com certeza é muito difícil fazer uma análise imparcial e racional de um livro que vende milhões de cópias a cada ano e que tanto influência as pessoas. Entretanto se faz necessário uma análise objetiva, visto que bilhões de pessoas tem baseado sua vida, muitos até perdendo sua vida em nome desse livro.

Segundo a tradição judaica, a bíblia começou a ser escrita por Moisés a 3500 anos atrás. Depois de milagrosamente ter libertado seu povo do jugo egípcio, Moisés acampa junto com uma multidão no sopé do monte Sinai. Ali ele deixa seu povo e sobe o monte onde conversa com Deus e recebe as tábuas da lei, os famosos 10 mandamentos. Depois disso ele passa a liderar seu povo por uma peregrinação pelo deserto que por causa da falta de fé deles durou 40 anos. Durante estes longos anos Moisés teria escrito os primeiros 5 livros da bíblia. Os judeus passaram a chamar estes livros de torá ou livro da lei tornando-se a base da fé e tradição daquela nação. Em adição a estes 5 livros foram incluídos outros livros históricos dos judeus, contando as epopeias de reis, juízes, profetas e sacerdotes. Além disso, cânticos, orações e poemas foram catalogados durante séculos, sem contar muitos profetas que registraram suas predições, bênçãos e maldições. Portanto podemos dizer que a maior parte da bíblia, o chamado Velho Testamento nada mais é do que um livro da cultura judaica, assim como também os gregos, os romanos, os egípcios, os chineses entre outros tem sua cultura

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registrada em livros que na sua grande maioria estão repletos de mitos e lendas, contadas de geração após geração, e que em determinado momento foram colocados por escrito. Apesar dos judeus se auto proclamarem o povo escolhido do Deus mais poderoso de todos os Deuses, todas as outras nações também se consideram um povo especial, protegido por uma determinada deidade que consideram a mais poderosa. Este tipo de pensamento era comum entre os povos antigos e os judeus não eram diferentes, eles se consideravam especiais, escolhidos por Deus e baseavam este pensamento nas suas vitórias sobre outras nações. Quando perdiam as batalhas ou eram subjugados por outros povos eles providencialmente culpavam a si mesmos, dizendo que sua derrota se devia a sua infidelidade ou falta de fé em seu Deus. Esta forma de encarar as coisas era bastante prática, pois explicava qualquer tipo de desfecho que ocorria em sua história, e sua deidade nunca era rebaixada ou humilhada. Quando parte da nação era destruída, seus profetas habilmente colocavam a culpa em seu próprio povo. Faziam isto às vezes antes das batalhas, observando a inferioridade numérica ou certa desorganização em seu exército, talvez notando um semblante desanimado em seus combatentes ou algum outro indício que os fazia prever o desfecho de determinada situação.

Este tipo de mentalidade me lembra a de alguns religiosos atuais que adaptam qualquer situação da vida a sua crença religiosa. Se a pessoa é fiel à igreja e tem prosperado ou tudo corre bem, eles atribuem isso às bênçãos de Deus. Se acontecer algum problema, Deus está provando a fé da pessoa. Por outro lado, se a pessoa sai da igreja ou não é fiel, e prospera, é o diabo que a está ajudando. Se acontecer algum problema é porque a pessoa abandonou a igreja e Deus não a está abençoando mais. Observe que se passam milênios, mais a mentalidade das pessoas continua a mesma.

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Mas voltando a questão das histórias judaicas, estas eram contadas e recontadas, aumentadas, exageradas e no final quando eram registradas já estavam totalmente deturpadas e nada mais eram do que mitos e lendas. Tirando a crendice religiosa de lado, quem pode em sã consciência dizer que tem certeza da data exata em que determinado livro bíblico foi escrito? Ou quem foi seu escritor? São livros escritos há milênios, em épocas remotas, tempos tão antigos que a própria escrita em si estava em seus primórdios. Antes da invenção do alfabeto, a escrita consistia em simples pictogramas ou sinais silábicos, onde cada símbolo representava uma sílaba. Como a língua usa centenas de sílabas, isto significava a memorização de centenas de sinais. Os primeiros pictogramas eram esboços simples de objetos familiares. Com o tempo estes evoluíram de acordo com os instrumentos e superfícies de escritas que no fim ficaram bem diferentes dos desenhos originais. Este processo ocorreu com todas as línguas antigas. Estes símbolos evoluíram para os primeiros esboços de letras. Realmente o desenvolvimento da escrita de simples desenhos ao alfabeto complexo que existe nas línguas modernas demonstra que seria uma ingenuidade muito grande acreditar que a bíblia que temos hoje contêm exatamente as mesmas palavras e ideias de quando foram originalmente escritas. Mesmo que tivéssemos os originais em mãos, mesmo assim seria impossível traduzi-los de maneira exata, pois são línguas mortas que se perderam com o tempo. Mesmo os maiores eruditos em sistemas cuneiformes e hieróglifos, hebraico clássico e sinais pictóricos, jamais poderiam afirmar que conseguem traduzir com absoluta precisão estas formas antigas de escrita. Mesmo que tivéssemos os originais, pois a realidade é que não temos, não chegamos nem perto de ter algum escrito original do antigo testamento. O melhor que temos são cópias de cópias que foram sendo feitas através de séculos, e não temos nenhuma

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noção do que aconteceu durante este processo. Como vimos à própria língua foi mudando com o tempo, foi evoluindo. O hebraico clássico, por exemplo, era escrito sem os caracteres que correspondem as nossas vogais, as pessoas na época completavam os sons vocálicos com a mente. Posso ilustrar com algumas palavras no português que hoje todos conhecem mesmo sendo abreviadas. Se você observar as letras Ltda, saberá que significa limitada, palavra muito usada no comércio. Se observar Dr, saberá que significa doutor. Mas agora imagine uma pessoa que achar uma inscrição destas uns 3000 anos no futuro. Será que ele conseguiria entender quais as letras que se usa hoje para completar a abreviação DR ou Ltda? É impossível saber ao certo quais os sons vocálicos que os judeus usavam lá no passado, assim o hebraico clássico é uma língua impronunciável, portanto indecifrável. Outro desafio é saber ao certo a época da escrita ou o provável escritor de determinado livro bíblico. Fica difícil saber se determinado dito profético foi realmente falado antes ou depois do fato consumado, ou se determinada história foi verdadeira ou se foi depois de muitos séculos mistificada, acrescentada de exageros para se torna um épico.

Durante todo este processo de cópias e recopias seguido por um longo período de traduções (Hebraico clássico para o Aramaico, depois para o Grego, depois para o Latim e finalmente para as línguas modernas) aconteceram muitos erros tanto intencionais (o escriba muda ou acrescenta algo para apoiar seu conceito teológico) como não intencionais (o escriba pula uma linha ou deixa a pena escorregar ou borrar). Além disso, temos hoje numa mesma língua várias versões da bíblia que diferem e discordam entre si. Só na língua portuguesa a inúmeras versões da bíblia como a Bíblia de Jerusalém, Matos Soares, João Ferreira de Almeida (que já foi revista e corrigida várias vezes),

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Figueiredo, Ave Maria, Tradução do Novo Mundo, Bíblia na Linguagem de Hoje entre outras.

Este mesmo panorama encontra-se em muitos outros idiomas, como o inglês (Rheims-Douay, King James Version, Young, English Revised, Emphasised Bible, American Standart, An American translation, New English Bible, Today English Version, New Jerusalém Bible), espanhol (Valera, Moderna, Nácar-Colunga, Evaristo Martin Nieto, Serafin de Ausejo, Cantera-Iglesias, Nueva Bíblia Espanhola), alemão (Luther, Zürcher, Elberfelder, Menge, Bibel in heutigem Deustch, Einheitsübersetzung), francês (Darby, Crampon, Jerusalém, TOB Ecumenical Bible, Osty, Segond Revised, Français Courant) e italiano (Diodati, Riveduta, Nardoni, Garofalo, Concordata, Parola Del Signore). O que vou citar das versões em língua portuguesa servirá de base para exemplificar as diferenças e discordâncias que existem em todas as línguas citadas.

A versão Matos Soares e Ave Maria contêm 73 livros que são considerados inspirados por Deus. Já a Tradução do Novo Mundo, João Ferreira de Almeida, Bíblia de Jerusalém, Figueiredo e a Bíblia na Linguagem de Hoje, contêm 66 livros, os demais livros são considerados por tais, livros apócrifos, ou como eles dizem, não inspirados por Deus. Cada lado apoia seu ponto de vista citando manuscritos antigos que conforme você deve estar imaginando, alguns contêm tais livros e outros não. A João Ferreira de Almeida, a Bíblia de Jerusalém e a Tradução do Novo Mundo usam de alguma forma o tetragrama hebraico que os judeus usavam como nome de Deus (YHVH), e visto que o hebraico clássico não usava caracteres que correspondem as vogais que usamos hoje no português, eles tentaram incluir algumas vogais por sua própria conta, assim você encontra em uma Jehovah, outra Javé, ainda outra Yahweh. Alguns vertem alguma forma deste nome em alguns versículos,

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outros preferem colocar em outros versículos diferentes e existem versões que vertem em mais de 7000 lugares, praticamente por toda a bíblia, diferente de outras que não vertem em lugar nenhum como a Figueiredo, Ave Maria, Bíblia na Linguagem de Hoje e a Matos Soares, que preferem não entrar nesta confusão e simplesmente colocam o título SENHOR com letras maiúsculas, um tipo de polêmica que não chega a lugar nenhum, porque na realidade ninguém sabe realmente como os judeus chamavam seu Deus, e para mim, pessoalmente, este tipo de assunto não tem a mínima importância, porque afinal, pelo que sei, as pessoas religiosas consideram seu próprio Deus grande demais para ser englobado ou resumido em um simples nome, seja este qual for, mas polêmicas religiosas a parte, voltemos as diferenças e discordâncias das versões da bíblia.

Algumas traduções colocam certos versículos, enquanto outras consideram tais trechos espúrios, acréscimos de algum copista para apoiar determinada doutrina, ou introduzir algum ponto de vista pessoal. Assim para que não haja diferença de versículo de uma para outra (aquela numeração para facilitar a localização dos trechos) eles colocam pequenos traços no lugar de trechos não desejados, tentando manter uma certa uniformidade que na realidade não existe, pois apesar de seus esforços, a certos trechos em que não houve um acordo e você corre o risco de ler numa bíblia o Salmo 37 e na outra ser o 38, ou ler um trecho numa bíblia considerado inspirado por Deus e na outra bíblia você se deparar neste mesmo trecho com um constrangedor traço, ou mesmo ler um livro inteiro que algumas bíblias consideram a mais pura palavra de Deus e em outras este mesmo livro nem existir.

Existem também relatos que encontramos em algumas versões enquanto que em outras simplesmente desapareceram. Veja por exemplo o clássico caso de 1ª João 5:7, 8. Em algumas traduções

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da bíblia, como a Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, você lê da seguinte forma: “Porque são três os que dão testemunho: o espírito, e a água, e o sangue, e os três estão de acordo”. No geral, as traduções que vertem dessa maneira são feitas por pessoas que não acreditam na doutrina da trindade. Mas em outras versões feitas por pessoas que acreditam na trindade, como a João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada Fiel, você lê assim: “Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um” E três são os que testificam na terra: o Espírito, e a água e o sangue; e estes três concordam num”. Não é muito difícil entender porque os trinitaristas vertem da segunda maneira, enquanto os antitrinitaristas preferem verter da primeira forma. A expressão “o Pai, a Palavra e o Espírito Santo são um” apoia a doutrina da trindade, por isso os antitrinitaristas abominam este trecho dizendo que se trata de um acréscimo ao texto original. Ambos os lados desta questão citam manuscritos antigos para apoiar sua tradução. Mas o problema é que existem manuscritos antigos e respeitáveis que vertem tanto de uma forma como de outra. Existem vários casos assim e cada tradutor escolhe aqueles manuscritos que melhor se encaixam com seus conceitos. Outro fato interessante diz respeito à escolha de palavras que cada tradutor resolve colocar em sua versão da bíblia. Visto que grande parte da bíblia foi escrita originalmente em hebraico clássico, uma língua morta, a única solução é traduzir a bíblia de outras traduções em línguas um pouco mais modernas, como o grego e o latim e mesmo assim a uma dificuldade extrema em traduzir textos de tais línguas, pois existem expressões que simplesmente são impossíveis de traduzir de maneira exata, além de palavras que não tem um correspondente nas línguas atuais. Assim cada tradutor resolve colocar determinada palavra que para ele exprime melhor o que ele acha que o escritor bíblico quis

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expressar. Por causa disso, você lê determinado trecho bíblico em uma versão e chega a uma conclusão, já em outra você lê o mesmo trecho e chega a outra conclusão completamente diferente, porque a maneira como o tradutor resolveu traduzir, a escolha de palavras e expressões, influencia muito a maneira de entendermos o texto. Na verdade as línguas diferem não só na gramática e na etimologia, mas também no modo em que as ideias são construídas numa sentença. Pessoas que falam línguas diferentes pensam de formas diferentes. Portanto, a forma de traduzir um texto bíblico de línguas antigas para idiomas modernos depende muito do ponto de vista do tradutor. É por isso que hoje vemos tantas religiões completamente diferentes nos seus ensinos, que afirmam basear sua doutrina na bíblia. Tal paradoxo acontece não só pelas diferenças de tradução, como também por causa das diferenças de interpretação.

O objetivo de mostrar alguns destes fatos é demonstrar que para uma pessoa razoável, torna-se extremamente difícil acreditar que as histórias narradas na bíblia são plenamente confiáveis e a mais precisa descrição dos fatos históricos. Levando em conta que os povos antigos tinham o costume de criar lendas e mitos envolvendo a história de seus antepassados, com o objetivo de aumentar a autoestima de seu povo, colocando-os como especiais e sua deidade como a mais forte, e analisando que a maioria destas histórias eram passadas de pai para filho, de geração após geração, e que quando chegaram a ser registradas, já estavam muito distantes do fato propriamente dito, e levando em consideração toda a trajetória que descrevi desde as línguas passadas até hoje, é realmente impossível acreditar que tais histórias ocorreram exatamente como são narradas nas bíblias que temos atualmente. É claro que não estamos dizendo que estas narrativas foram totalmente inventadas, é óbvio que elas surgiram de acontecimentos reais, o ponto em questão é que quando foram

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registradas já se tratavam de lendas, estavam cheias de descrições fantasiosas como é comum em uma transmissão oral, envolvendo várias gerações, e mesmo já registradas, não temos como saber o que aconteceu depois de milênios de cópias e traduções. Tais cópias eram feitas à mão, pois como sabemos não existiam máquinas fotocopiadoras, computadores ou internet.

Portanto decifrar o passado é como montar um quebra cabeças onde faltam inúmeras peças, envolve um trabalho exaustivo de comparações entre todos os registros antigos dos diversos povos, análise dos achados arqueológicos mais relevantes, tentar saber quem esteve envolvido, quais suas origens, suas intenções, seus motivos, as reações da época, um longo trabalho de dedução e filtragem, tentando deixar de lado os mitos e lendas, as epopeias e as fantasias, tentando nos apegar ao que realmente aconteceu, deixando para trás fanatismos religiosos, extremismos, radicalismos, fundamentalismos e preconceitos que ofuscam nosso melhor entendimento da história.

Certamente não temos a pretensão de sermos os donos da verdade, dizer que temos à verdade absoluta, que sabemos exatamente como tudo aconteceu em todos os detalhes, não, longe disso, procuramos melhorar nosso entendimento, chegar um pouco mais perto da verdade, pois sabermos exatamente todos os detalhes do que realmente aconteceu nestas narrativas do passado longínquo seria possível somente se tivéssemos condições de estar lá, vivendo na época, junto com as pessoas, observando os acontecimentos pessoalmente. Mas como sabemos, isto é impossível. Assim, a partir de agora vamos analisar algumas narrativas encontradas na bíblia de um ponto de vista puramente histórico, tentando chegar um pouco mais perto do que realmente aconteceu (salvo alguma indicação, todas as citações bíblicas encontradas neste livro são da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, revisão de 1986).

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06 - O RELATO DA CRIAÇÃO

Os primeiros registros antigos surgiram á 5500 anos atrás. Acha

isso muito tempo? Para nós meros humanos, que temos uma perspectiva de vida em torno de 80 anos pode parecer muito, entretanto o intervalo de tempo que nos separa destes primeiros escritores, com seus rústicos e simples textos representa muito pouco em comparação com o imenso período anterior a isso chamado de pré-história.

Conforme vários achados paleontológicos comprovam, os primeiros pré-humanos conhecidos viveram nas savanas e florestas tropicais da África à cerca de 7 milhões de anos. O “homo hábilis”, hominídeo que vivia a cerca de 3 milhões de anos sobrevivia da caça e da coleta de alimentos e tinha uma postura vertical que trazia a vantagem de libertar as mãos para a manipulação. Esta associação dos movimentos das mãos com os olhos estimulava o cérebro. Ao longo de milênios estes foram aperfeiçoando algumas aptidões enquanto aumentavam as dimensões do cérebro.

À aproximadamente 500.000 mil anos o “homo erectus”, um hominídeo dotado de cérebro mais volumoso, aprendeu a dominar o fogo e sabia fazer roupas e abrigos que lhe permitiu sair da África e colonizar regiões mais frias. A nossa própria sub espécie o “homo sapiens”, surgiu a apenas 100 mil anos, com as capacidades intelectuais básicas de que hoje gozamos. Tudo isso ocorreu durante o período glaciário. A 15 mil anos, o clima começou a melhorar e o gelo começou a derreter. A Terra transformou-se, a vida vegetal e animal começou a se estender por áreas antes desoladas. A 10 mil anos esses seres humanos colonizaram quase todas as partes habitáveis do planeta. As

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comunidades humanas começaram novos modelos de sobrevivência, nascendo assim pequenas aldeias de agricultores no Oriente Médio, ao norte da China, no México e Peru. Estas novas formas de viver baseadas na agricultura substituíram a caça e a mera coleta de alimentos como sustento da vida humana. Foi uma transformação fundamental de consequências radicais e irreversíveis. Começa o desenvolvimento das cidades e a invenção da escrita, nascendo o que chamamos de história (Marina de Andrade Marconi e Zelia Maria Neves Presotto, Antropologia: Uma Introdução - 7ª Ed. Editora Atlas, 2011. ISBN 978-8522452170).

Este ser humano mais questionador não se conformava em ser apenas um animal mais desenvolvido, em simplesmente ter um ciclo de vida como os demais animais e no final morrer. A morte não poderia ser o fim de tudo como aparentava ser. Com o tempo esta inconformidade com o fim abrupto da vida levou o ser humano a outro importante momento, ele começa a questionar o sentido da vida. Experiências tais como sonhos, visões, alucinações e o estado inerte de cadáveres levaram alguns povos primitivos a concluir que o corpo é habitado por uma alma. Visto que eram frequentes os sonhos com entes queridos falecidos, presumia-se que uma alma continuava a viver após a morte, deixando o corpo para morar em árvores, rochas, rios, etc. Por fim os mortos e os objetos nos quais se dizia que as almas habitavam vieram a ser adorados como Deuses. Outras tribos começaram a concluir que existia uma força impessoal ou poder sobrenatural que dava vida a todas as coisas. Tal crença provocou sentimentos de reverência e temor no homem, uma reação emocional diante do desconhecido. Ainda outros clãs tentaram controlar sua própria vida por imitar o que viam acontecer na natureza. Por exemplo, pensava-se que poderiam provocar chuva por borrifar água no solo junto com trovejantes batidas de tambor, ou que

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poderiam causar dano a seu inimigo por espetar alfinetes num boneco. Isto levou ao uso de ritos, feitiços e objetos mágicos em muitos aspectos de sua vida. Quando estes não funcionavam como se esperava, o homem passou então a tentar aplacar os poderes sobrenaturais e a suplicar a ajuda deles em vez de tentar controlá-los. Algumas comunidades primitivas chegaram até mesmo a criar um tipo de neurose ligada a figura do pai. Os filhos homens que tanto admiravam como odiavam o pai que dominava o clã, rebelavam-se e matavam o pai. Para adquirir o poder do pai, estes bebiam seu sangue. Mais tarde, por causa do remorso, eles inventavam ritos e cerimônias para reparar sua ação. Com o tempo a figura do pai virou uma deidade. Estas várias formas de crenças e ritos foram sendo compartilhados entre os diversos povos primitivos, começando assim a surgir lendas e mitos sobre os Deuses e suas relações com os humanos (Mircea Eliade, História das Crenças e das Ideias Religiosas Volume 1 - Da Idade da Pedra aos Mistérios de Elêusis. Editora Jorge Zahar, 2010. ISBN 978-8537801123). Alguns humanos começam a se considerar especiais, criados por um ser superior que os fizeram a sua imagem e semelhança, designando-os para cuidar da terra e subjugar todos os demais animais. A sua vida agora passa a ter um objetivo e a morte transforma-se apenas em uma passagem para um nível de vida superior, semelhante a dos Deuses. Surgiram diversas formas de manifestações de fé em diversos tipos de deidades. Estas manifestações vão se tornando mais complexas, seus rituais mais elaborados, orações como uma forma de comunicação e líderes para interceder entre os Deuses e os homens. Observamos assim os primeiros passos do que chamamos hoje de religião. Junto com esta religiosidade, começa a se desenvolver algumas lendas sobre um começo perfeito, onde as pessoas viviam felizes em um lugar maravilhoso, onde havia uma relação harmoniosa entre os seres humanos e suas deidades.

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Grande parte das civilizações antigas possui algum tipo de lenda nesse sentido. Com os judeus não foi diferente, o relato sobre o início do mundo registrado na bíblia foi uma espécie de condensação de várias lendas contadas e recontadas através de inúmeras gerações. Portanto, analisando de maneira razoável, não podemos considerar o relato bíblico de Gênesis sobre a criação como história verídica. Este registro mais se parece com um conto de fadas, como Branca de Neve e os Sete Anões, Chapeuzinho Vermelho, Papai Noel, Cinderela, Alice no País das Maravilhas e muitas outras historinhas que contamos as crianças para fazê-las dormir. Devo admitir que se trata de um conto bem elaborado, que inclui um lindo jardim, animais como leões e tigres mansos como um gatinho, uma cobra falante, uma misteriosa árvore com frutos proibidos e ainda outra árvore com frutos que podem dar vida eterna. Temos aí todos os ingredientes de uma fábula maravilhosa. Contudo, bilhões de pessoas creem realmente que tal mito é verdadeiro. Esta credulidade que as pessoas tem na bíblia me deixa espantado, até mesmo perplexo devido ao fato de que todas as ciências, como a astronomia, geologia, biologia, paleontologia, antropologia, arqueologia, história, linguística e filosofia mostram claramente de maneira inequívoca as incoerências e erros científicos encontrados na bíblia.

Veja por exemplo o caso da astronomia. No livro bíblico de Josué 10:12, o escritor deste texto relata Josué no meio de uma guerra clamando a Deus que fizesse o Sol ficar imóvel, para que pudesse terminar sua batalha durante o período de claridade, facilitando assim a identificação e exterminação de seus inimigos. Na continuação do relato no versículo 13, Deus responde o clamor de Josué fazendo o Sol ficar imóvel ou parado. Qualquer criança de 5º série do ensino fundamental sabe que não é o Sol que gira em torno da Terra, mas justamente o contrário, a Terra é que gira em torno do Sol. Portanto se a bíblia fosse um livro

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Referências

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