Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 8, p. 61249-61257 aug. 2020. ISSN 2525-8761
A Memória do Esquecido: narrar para dar existência
The Memory of the Forgotten: narrating for existence
DOI:10.34117/bjdv6n8-515
Recebimento dos originais:08/07/2020 Aceitação para publicação:24/08/2020
Vanja Jugurtha Bonna
Especialista em Saúde da Família e Comunidade Médica da USF Novo Paraíso II
Professora da Faculdade de Medicina da UNIC Bacharel em Ciências Sociais
E-mail: [email protected]
RESUMO
Um bairro existe através das histórias de seus moradores, pela forma com a qual eles se apropriam de seu espaço, com a qual tecem suas relações e com a qual se percebem e são percebidos como pertencentes àquele lugar. Suas vidas, seus anseios, suas derrotas e vitórias são, como de qualquer outro cidadão, invisíveis para a sociedade. A observação dessa realidade através do olhar de um narrador leva a uma transformação: a visibilidade de vidas totalmente anônimas dentro de sua rotina, a preservação da memória do fato narrado. Com este fim, nasceu o blog Histórias do Paraíso, que reúne pequenas narrativas cujos personagens, reais, são os moradores de um bairro periférico de Cuiabá. Compreendendo a periferia como uma terra sempre distante e esquecida dentro das grandes cidades, trazer à tona seus problemas, as questões de seus personagens, suas histórias, restaura, em alguma medida, esse narrador perdido no tempo, que retira da própria experiência aquilo que conta, e que conta para não perder, conta para fazer existir.
Palavras-chave: Narrativa, Memória, Bairro. ABSTRACT
A neighborhood exists through the stories of its residents, by the way in which they appropriate their space, with which they weave their relations and with which they perceive and are perceived as belonging to that place. Their lives, their yearnings, their defeats and victories are, like any other citizen's, invisible to society. The observation of this reality through the eyes of a narrator leads to a transformation: the visibility of totally anonymous lives within their routine, the preservation of the memory of the narrated fact. To this end, the blog Histórias do Paraíso was born, which gathers small narratives whose characters, real, are the residents of a peripheral neighborhood of Cuiabá. Understanding the periphery as an ever-distant and forgotten land within the big cities, bringing up their problems, the issues of their characters, their stories, restores, to some extent, this narrator lost in time, who removes from his own experience what he tells , and that counts not to lose, counts to make exist.
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1 INTRODUÇÃO
Conhecer e entender as relações e códigos existentes em um bairro, assim como sua cultura e valores, é uma tarefa difícil para uma pessoa de fora. O blog Histórias do Paraíso, que comecei a escrever em 2009, nasceu como uma tentativa de perceber os ambientes e as pessoas aos quais dediquei a maior parte do meu tempo, no exercício da medicina, e sempre em locais periféricos – incluída (no meu papel de médica) e, simultaneamente, excluída (como não participante) daquelas realidades. Deste lugar de ambivalência, quase neutro, coloco-me no papel de observadora em dois momentos distintos: no fim da década de oitenta, quando atuava como única médica da região em um povoado no interior do Mato Grosso, e nos anos de 2009 e 2010, quando comecei a registrar minha percepção do bairro em que trabalho desde 1994, na periferia de Cuiabá, onde me encontro até o presente momento (2018).
Escrever sobre episódios vividos por moradores em relação aos cuidados da saúde, suas dificuldades, alegrias e tristezas, entendo, sobretudo, como uma tentativa de dar visibilidade a uma realidade muitas vezes desconhecida de grande parte da população, realidade a qual eu tive (e tenho) acesso. Walter Benjamin (2014, p.1) avalia que o narrador e a arte de narrar estão em vias de extinção. Segundo o autor, a capacidade – que parecia algo inabalável – de trocar experiências se encontra em desuso e as pessoas, atualmente, sentem-se extremamente incomodadas se estimuladas a fazê-lo: “É como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências” (BENJAMIN, p. 1). Falar e ouvir, portanto, têm sido práticas a cada dia menos vivenciadas. Com o fim de recuperá-las, em alguma medida, nasce este trabalho.
Elemento estruturador da memória, a narrativa é responsável pela construção da história de lugares e pessoas, que se formam a partir de relatos de quem viveu e/ou participou de determinados fatos. Dessa forma, o presente artigo entende a narrativa como ferramenta válida para a criação/preservação de uma memória. Por compreender a periferia como uma terra sempre distante e esquecida dentro das grandes cidades, trazer à tona seus problemas, as questões de seus personagens, suas histórias, restaura esse narrador perdido no tempo, do qual fala Walter Benjamin em “O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov” (2014), que retira da própria experiência aquilo que conta, e que conta para não perder, conta para fazer existir.
1.1 POR QUE NARRAR?
Segundo Motta (2012, p.56 ), o mundo é feito de palavras, a realidade é concebida da forma como é descrita e narrada. Se não existissem palavras, o homem não existiria tal qual é conhecido hoje, uma vez que a linguagem é essencial ao ser humano, é a forma de expressão e de
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questionamento do mundo. Portanto, narrar é a maneira de entender e explicar o mundo, adotada pelo homem. A cultura de uma sociedade só existe porque ela é transmitida através de gerações até ser introjetada e incorporada fazendo parte definitiva, mas não imutável, de cada uma das pessoas que a compõem.
Embora essenciais, a narrativa e o narrador, conforme vimos com Benjamin (1994, p.8), estão rareando na atualidade, já que nela não existe o tédio. O tédio, segundo o autor, “é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência”: habituadas a notícias – breves, instantâneas, rasas – e não a narrativas – cuja preocupação não é com a descrição do fato em si, como um relatório, mas com a experiência do narrador –, o homem contemporâneo não tem tempo de sentir tédio, e sem ele desaparece o dom de ouvir:
Nada facilita mais a memorização das narrativas que aquela sóbria concisão que as salva da análise psicológica. Quanto maior a naturalidade com que o narrador renuncia às sutilezas psicológicas, mais facilmente a história se gravará na memória do ouvinte, mais completamente ela se assimilará à sua própria experiência e mais irresistivelmente ele cederá à inclinação de recontá-la um dia. Esse processo de assimilação se dá em camadas muito profundas e exige um estado de distensão que se torna cada vez mais raro. Se o sono é o ponto mais alto da distensão física, o tédio é o ponto mais alto da distensão psíquica. O tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência. O menor sussurro nas folhagens o assusta. Seus ninhos – as atividades intimamente associadas ao tédio – já se extinguiram na cidade e estão em vias de extinção no campo. Com isso, desaparece o dom de ouvir, e desaparece a comunidade dos ouvintes. Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas. Ela se perde porque ninguém mais fia ou tece enquanto ouve a história. Quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido. Quando o ritmo do trabalho se apodera dele, ele escuta as histórias de tal maneira que adquire espontaneamente o dom de narrá-las. Assim se teceu a rede em que está guardado o dom narrativo. E assim essa rede se desfaz hoje por todos os lados, depois de ter sido tecida, há milênios, em torno das mais antigas formas de trabalho manual. (BENJAMIN, 1994, p. 8, grifos nossos)
Segundo Assumpção (2017, p. 4), “o fato narrado é parte do narrador, ou seja, é a sua representatividade na experiência existencial”. O leitor vai vivenciar aquele fato em outro tempo, o presente, e certamente irá interpretá-lo com o olhar lapidado por suas vivências e cultura. Portanto, a narrativa não é uma notícia que vem pronta, sem margem a interpretações, ela se recria a cada leitor e em cada tempo.
Apesar de existirem críticas sobre formas de narrar, uma vez que o narrador seleciona sempre um aspecto em detrimento de outros, Zygmunt Bauman (2005 p.26) defende que “histórias são como holofotes e refletores – iluminam partes do palco enquanto deixam outras na escuridão. Se iluminassem igualmente o palco todo, de fato não teriam utilidade”. Segundo o autor, é necessário separar o relevante do irrelevante para que o fato seja mais bem compreendido e interpretado, é missão das narrativas incluir e excluir, salientar e apagar, fazer com que o leitor/ouvinte veja o essencial.
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Narra-se, assim, para manter viva uma experiência, para torná-la comunicável, para que exista na memória das pessoas e torne-se real. Para que seja o elo entre a realidade vivida e a imaginada, entre o narrador e o leitor.
2 NARRATIVA E MEMÓRIA
A memória, segundo Legoff (2008, p. 419) possibilita o homem atualizar informações e impressões passadas, num processo contínuo de reciclagem e reavaliação. Essa memória individual, de acordo com Assumpção (2017, p. 6-7), é responsável pela formação da memória coletiva, e muitas vezes se apoia nela para conseguir ver e apresentar um fato com maior clareza. Na verdade, a memória individual é, segundo o autor, passível de mudança, pois representa um fragmento, um ponto de vista da memória coletiva, e essa por sua vez, por ser uma construção coletiva, é submetida a transformações e flutuações.
Nas palavras de Pollack (1992, p. 201), são elementos constitutivos da memória individual e coletiva: “em primeiro lugar os acontecimentos vividos pessoalmente, e em segundo lugar os acontecimento que eu chamaria de ‘vividos por tabela’, ou seja, acontecimentos vividos pelo grupo ou coletividade à qual a pessoa se sente pertencer”. Nesse caso, muito embora o indivíduo não tenha parte no acontecimento, este apresenta tal magnitude no seu imaginário que torna difícil, passado algum tempo, ter clareza sobre sua participação.
É a própria cidade, afinal, que narra suas histórias (ASSUMPÇÃO, 2017, p. 6 ): nela, o passado – que já não existe – está presente em cada canto e revive na memória escrita e falada de seus moradores. Nesse sentido, assim como a cidade, o bairro também vive e conta suas histórias.
2.1 NARRATIVA E BAIRRO
A cidade é um espaço urbano heterogêneo, onde diferentes culturas, raças, religiões, organizações políticas e sociais vivem em confronto, gerando disputas de poder e tensões entre os diversos grupos que a compõem. Segundo Prata (2010, p. 16), a legibilidade da cidade e de suas representações reside no reconhecimento dessas lutas, pelo fato de vários discursos diferentes, e algumas vezes opostos, dividirem o mesmo espaço. Dessa forma, a cidade propicia a vivência de vários tempos, que se fazem presentes, por exemplo, na sua arquitetura. Apesar de imóveis, esses fragmentos do passado passam a ganhar vida quando rememorados e narrados, e isso ocorre através da memória coletiva.
Na evolução de uma cidade surgem os bairros e suas subdivisões. Segundo Teixeira (1986, p. 66 ), um bairro urbano tem uma feição e uma alma únicas, o que o torna singular. E, conforme a
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autora (1986, p. 67 apud Soares, 1959), “a noção de bairro tem uma origem popular mais geográfica, mais rica e mais concreta do que qualquer outro tipo de definição”.
O bairro, pensado por urbanistas e sociólogos, deveria ser heterogêneo, com moradores de classes sociais distintas para que a diversidade favorecesse a tolerância, a compreensão. Mas, de acordo com Gonçalves (1998, p. 21-22), isso não acontece: ao contrário, o que se verifica a partir dessas aproximações são mais conflitos e frustrações, segundo estudo feito pelo autor (1998).
Podemos compreender o bairro como um espaço intermediário entre o anonimato da cidade e a privacidade da casa (GATO, 2011, p. 7): lugar de trocas afetivas, reconhecimento, identificação – lugar de memória. Como a da cidade, a memória do bairro também é construída por meio da narrativa de seus moradores. A história é recontada através dos anos e inclui mesmo aqueles que não participaram de um tempo ou de um fato específico, mas que se sentem parte dessa história, como parte são de seu grupo social.
Um bairro é rico de narrativas embora elas permaneçam, na grande maioria das vezes, desconhecidas, incógnitas, diluídas nas ruas da cidade.
2.2 NARRATIVA E VISIBILIDADE
A alma de um bairro, portanto, reside nas relações dos seus moradores, sua cultura, seus desejos, seus conflitos: por isso se diz que, como um coração, é pulsátil e vivo. Tudo isso, quando narrado, constitui sua memória coletiva e seus personagens e conflitos deixam de ser invisíveis tornando-se parte da história.
Por tudo o que vimos até aqui, é possível compreender a narrativa como uma ferramenta poderosa, capaz de, em alguma medida, dar vida e voz, por exemplo, àqueles que são esquecidos e marginalizados pelo sistema social e político, a um bairro “invisível” dentro da cidade: lugar de gente que não desempenha nenhuma função reconhecida socialmente, de cuja existência a sociedade abriria mão de bom grado (BAUMAN, 2009, p. 24).
Ao trazer à tona um lugar como esse – suas relações, seus códigos, seu sofrimento, sua alegria –, o narrador compartilha com o leitor uma experiência: dessa forma, tem-se o ator, o narrador e o leitor dividindo, em tempos e lugares diferentes, a mesma vivência – o que acaba por, de certa maneira, aproximá-los.
Nesse contexto, apresento o blog Histórias do Paraíso – essa tentativa de marcar a existências de pessoas que, embora reais, são tão invisíveis. Elas fazem parte do meu cotidiano, do cotidiano da cidade. Basta um pouco de esforço para enxergá-las.
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3 HISTÓRIAS DO PARAÍSO
Assim, essa ferramenta foi criada com a intenção de preservar e socializar histórias de moradores do bairro Novo Paraíso (de onde deriva o nome do blog), localizado na periferia da cidade. Um bairro com altos índices de violência, dependência química, gravidez na adolescência, entre outros graves problemas sociais e econômicos.
Entre as histórias desse bairro, estão também outras, que se passaram há mais tempo, na década de oitenta, em um povoado do interior do Mato Grosso – sem luz, água encanada, agência de correio ou telefone –, povoado de casas de palha, que, por sua pobreza e invisibilidade, guarda muitas semelhanças com o bairro em questão – meu primeiro contato com o abandono.
Na Unidade de Saúde deste povoado, cerca de 700 km distante da capital, não havia cadeiras, material de trabalho ou medicamentos, condições mínimas de trabalho: escrever, nesse caso, era uma forma de enfrentar o medo, a solidão e, principalmente, a invisibilidade. Apesar de se tratar de um povoado – e não de um bairro, sobre o qual venho escrevendo até aqui –, as relações, pautadas pela dificuldade, davam-se da mesma forma, sobretudo pelo tamanho do lugar.
A partir deste momento, dedico-me a apresentar o blog, traçando uma relação com tudo o que escrevi anteriormente, identificando o papel da narrativa neste contexto. Para isso, destaquei sua importância em três aspectos: na construção e conservação da memória, na difusão de valores, no poder de visibilidade.
a) Tecendo a memória e escrevendo a história:
Os trechos a seguir descrevem como era a vida numa área remota de Mato Grosso, na década de oitenta, levando-nos a um tempo onde lugares como o descrito não contavam com televisão, telefone ou correio, sendo a união e a solidariedade necessárias para a sobrevivência:
As noites, quando não são de lua, são escuras, muito escuras. Dez da noite, o motor a diesel, única fonte de energia da cidade, é desligado e resta a escuridão. As luzes bruxuleantes das velas, das lamparinas e dos lampiões a gás iluminam o interior das casas e, lá fora, as pessoas recolhem as cadeiras das portas, onde há pouco conversavam com os vizinhos, contando causos – às vezes ao som de uma viola –, tomando um cafezinho passado na hora. As crianças que ainda brincam, tal como as cadeiras, também são recolhidas, as casas se trancam e, aos poucos, os sons das vozes vão sumindo, vão se apagando junto com as luzes. Eu já me habituei a essa rotina. Fico conversando com os vizinhos ou lendo até o sono chegar, antes da escuridão reinar. Eu durmo cedo, porque nunca sei se dormirei a noite toda. Ela é sempre um mistério para mim, escondendo em suas sombras histórias de dor e dos doentes que vêm me buscar de repente, no meio da madrugada. (BONNA, 2009).
Em outro trecho da mesma narrativa, é possível visualizar aspectos da cultura popular, transmitida através de gerações. O caso descrito se passa numa residência onde uma mulher
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encontrava-se em trabalho de parto, acompanhada por uma parteira leiga (uma vez que não existiam hospitais próximos).
Deviam ser duas horas da manhã, a noite deveria ser só silêncio: um galo cantando ao longe, o coachar de um sapo, passos sem dono no cascalho, passos da noite. A casa era pequena, iluminada por velas e, assim como a maioria das casas da região, de adobe e coberta com palhas. O quarto não era pequeno, mas se tornava pela quantidade de pessoas que nele circulava, além de cachorros e galinhas que toda hora tinham de ser retirados para, logo em seguida, retornarem. A moça gemia e chorava deitada numa cama baixa, a seus pés, sentada, encontrava-se a parteira, cujas ordens – água pra molhar os lábios da filha, chá de gengibre para acelerar o trabalho de parto – faziam com que a mãe da moça entrasse e saísse a toda hora do quarto. (BONNA, 2009)
Nesses lugares, a cultura é, na maioria das vezes, transmitida oralmente, de pais para filhos e compartilhada pela sociedade em que estão inseridos. Sem nunca ter estado na presença de uma parteira até então, senti-me de fora daquele grupo social, incapaz de entender certos códigos ou “regras sociais”. Em outro momento, isso ficou ainda mais claro, como no caso das “meninas do cabaré”, como eram chamadas as mulheres que se prostituíam no povoado: elas moravam separadas do resto da população, numa rua afastada, a mesma em que trabalhavam. Saíam raramente, e não participavam de festejos ou festas da cidade. Para que pudesse atendê-las, foi necessário criar um horário especial na Unidade de Saúde, quando não houvesse possibilidade de cruzarem com algum morador. Era uma regra imposta pela sociedade local, reconhecida e acatada por todos, inclusive por elas:
São meninas-mulheres de riso fácil, enchem qualquer ambiente de alegria. Fortes e frágeis, decididas e inseguras, risonhas e tristes. Disfarçam com maquiagem as olheiras de noites mal dormidas e os maus tratos sofridos. Fumam e bebem e, apesar de atrevidas, respeitam os limites impostos pela sociedade. Solitárias e solidárias damas da noite. Aprendo com elas a olhar além, respeitando individualidades e histórias de vida, sem fazer julgamentos precipitados. Aprendo, principalmente, a capacidade de rir da vida. ( BONNA, 2009)
b) A narrativa difundindo os valores do bairro:
Como acabamos de ver, os lugares possuem vida própria e valores que seus moradores compartilham entre si e, de acordo com Gonçalves (1998, p. 23), tal partilha de símbolos, linguagens, festas, rituais, de um modelo familiar e educacional, favorece os laços e diminui as tensões, sendo, portanto, necessária para uma convivência harmoniosa entre vizinhos. É assim no bairro onde trabalho, como podemos ver no trecho abaixo, que mostra sentimentos compartilhados entre os moradores a respeito da violência e sua banalização entre os jovens:
Para as crianças, chapinhar na lama e brincar de polícia e bandido são as fontes de prazer. Agora, que ainda estão aqui brincando na porta de casa, a polícia é encarada com respeito. Respeito que mais tarde se transformará em raiva e revolta, porque crescerão vendo seus pais, irmãos e vizinhos sendo agredidos e presos. Não entenderão exatamente porque isso só acontece a eles. Hoje, jamais ouviram falar de injustiça social. Cumprimentam-me e me
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abraçam quando ando pelas ruas. Eu os conheço desde antes de olharem o mundo pela primeira vez. Detenho-me em seus rostinhos alegres e sujos, seus olhos cheios de sonhos, comuns a todas as crianças. Mesmo E.1, um dia, já partilhou deles. Com o tempo, os sonhos se transformarão em pó e acabarão misturados com o pó. Lá se vão eles rindo, brincando, correndo no pó, sem saber que pisam os sonhos de outras crianças, que hoje já não sonham mais, já nem vivem mais. (BONNA, 2009)
c) Narrar para dar visibilidade:
As pessoas, com suas dores, seus medos, suas angústias, suas alegrias são imperceptíveis à sociedade de um modo geral. Sobretudo as pessoas pobres. A maioria vive a vida inteira sem ninguém tomar conhecimento de sua existência, apenas os mais íntimos. A narrativa torna o cotidiano das pessoas, antes oculto, algo aparente. Uma das narrativas discorre sobre isso, sobre a solidão do invisível.
“Hoje, deparei-me de uma forma súbita com sua morte. Doeu, doeu muito, sabê-lo sozinho, deitado no chão, o rosto sem face coberto de moscas. Doeu-me ter consciência das minhas limitações e da indiferença do sistema diante de sua morte. Seu sorriso negro apagou-se para sempre. Carregou sua dor e sua história, no caixão barato como sua vida. Seus pertences poucos e sua identidade são testemunhas silenciosas de sua existência, de sua
passagem imperceptível pela vida e de sua partida solitária para a morte.” (BONNA, 2010) 4 CONCLUSÃO
Narrar, penso eu, é um importante instrumento para dar visibilidade e voz aos menos privilegiados, àquelas vidas consideradas sem importância, descartáveis e inexistentes na realidade das grandes cidades. É através da narrativa que se revelam as relações sociais que permeiam o cotidiano de um bairro e/ou cidade, assim como seus contrastes e contradições. Acredito que o blog
Histórias do Paraíso cumpre o papel de registrar vidas e exibir as complexas ligações entre a cidade
e o bairro, entre o bairro e seus moradores, constituindo o que Benjamin chama de narrativa – sobretudo porque, em meu papel social no bairro em questão, não conseguindo separar o lado pessoal do profissional, o sentimento da razão, aproximo-me do que o autor diz sobre a arte de narrar: “ela não está interessada em transmitir o “puro em si” da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele” (BENJAMIN, 1994, p. 1).
Ao narrar essas histórias, elas passam a pertencer também ao leitor que agregará a ela a sua percepção tornando-se, a partir de então, parte de sua memória. Ao revelar o mundo desconhecido do cotidiano da periferia, esta terra distante, eu divido minha experiência com o outro, fazendo dele participante da narrativa, perpetuando-a.
1 “E.” foi um dos jovens moradores que vi nascer e que, no contexto dessa narrativa, havia sido encontrado morto nas ruas do bairro, assassinado.
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BAUMAN, Zigmunt. Confiança e Medo na Cidade. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2009, 92 p.
BENJAMIN, Walter. O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov;. Território de Filosofia in https://territoriosdefilosofia.wordpress.com/2014/09/13/o-narrador-consideracoes-sobre-a-obra-de-nikolai-leskov-walter-benjamin/comment-page-1
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