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IMPRENSA E TERRORISMO POLÍTICO

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Academic year: 2021

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Imprensa e Terrorismo Político

José Amaral Argolo ©

Doutor em Comunicação e Cultura (ECO-UFRJ), Pós-Doutorado em Jornalismo (ECA-USP), Professor Associado da Escola de Comunicação da UFRJ e Assessor Permanente do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra.

Resumo

Breves anotações sobre a origem da palavra Terrorismo. Um pouco sobre a História das ações extremistas. A Difusão dos episódios e seus efeitos multiplicadores. A criação dos personagens que alimentaram a literatura de ficção. Uma advertência para a humanidade.

Palavras-chave: Imprensa. Terrorismo Político. História Política. Movimentos Radicais. Apropriação Literária.

Abstract

Brief notes on the origin of the word terrorism. A little about the history of extremist actions. The broadcast of the episodes and their multiplier effects. The creation of the characters who fueled fiction literature. A warning to mankind.

Keywords: Press. Political Terrorism. Political History. Radical Movements. Literature Ownership.

Martelo e Bigorna

1

Impossível decodificar as mensagens subliminares e derivadas do espetáculo proporcionado diante das câmeras pelo terrorismo, principalmente quando a escolha dos alvos recai sobre aeronaves civis, representando, por extensão, pavilhões nacionais: Alitalia, Lufthansa, El Al, Air France, ou instalações comerciais e diplomáticas, caso não seja efetuado um mergulho profundo na sua gênese.

Indispensáveis, por conseguinte, as referências sobre a motivação ou o instante perturbador que desintegrou bloqueios psicológicos e/ou humanitários e impeliu pessoas comuns a práticas de outras formas incogitáveis pela oportunidade única e duvidosa de (excetuado o tiranicídio, ato legítimo quando o pressuposto é restituir a paz social) legar à História das Nacionalidades um registro ainda que fugaz.

O terror como ferramenta de coerção, jamais como sistema modulado, remonta àquele amanhecer das tribos e caracterizava-se, inicialmente, pela surpresa e ímpeto do ataque acrescido da força física dos agressores; posteriormente, às

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determinantes supra-assinaladas, juntaram-se a astúcia dos feiticeiros (estes, aos olhos pouco esclarecidos, aparentemente exerciam controle sobre a fúria dos elementos) e as táticas dos lordes da guerra, incluindo ingredientes misteriosos e ferramentas eficazes de destruição (catapultas, fogo grego etc.); mais à frente essas ações passaram a conjugar um mix de Razões de Estado e de propostas de dominação, religiosidade exacerbada e indissociada do implacável braço secular.

Época em que, no Ocidente, ganharam vulto os Tribunais do Santo Ofício, Cortes de Instrução e sentenças que levaram à morte nas fogueiras, e por intermédio de outros suplícios, uma imensa quantidade de indivíduos acusados de heresia; dois séculos depois surgiram outros sintomas que motivaram ações ainda mais draconianas tanto nas Américas como no Continente Europeu, tais como: a ascensão ao Poder na França do chamado Terceiro Estado e de um novo way of thinking que decidia o castigo a ser aplicado aos reis: a forca, o machado ou a pesada lâmina da guilhotina.

O revolucionário francês Saint-Just acentuava, a propósito, que a monarquia

era o crime, e assim, de acordo com ele, ninguém podia reinar na inocência,portanto,

todo rei seria antecipadamente culpado; até porque, a partir do momento em que um simples mortal desejava ocupar o trono, estava fadado à morte violenta.

No perigeu do Segundo Milênio, sofisticou-se a prática do extremismo por intermédio de um coquetel de ingredientes que se estendiam das antecâmaras dos supremos e quase sempre difusos interesses do Estado, ao desgaste motivado pela desigualdade econômica e aos desequilíbrios na órbita militar; do fanatismo religioso à superioridade derivada dos investimentos maciços em tecnologias de ponta. Variáveis estas com post scriptum idêntico: abastecido e retroalimentado pelos órgãos de difusão, gradualmente mais interativos, presentes, imediatos e... exagerados!

Robert Badinter2 acentua que, “historicamente, a prática do terrorismo

representava o único método de ação dos oprimidos”. Sob esse viés, centenas de milhares (melhor seria dizer milhões) de vidas foram sacrificadas na luta pela liberdade.

Com o passar do tempo, as transformações observadas tanto na conjuntura internacional como nas que se referem ao tecido social, desgastaram princípios arraigados e imprimiram novo ritmo ao processo. Basta uma comparação entre os episódios registrados pelas diferentes mídias para notar a quase inexistência das aspirações dos Estados Nacionais e/ou o ideário defendido por essa ou aquela organização apresentada como extremista ou radical.

Existem exceções. Quando é razoável a interação entre os segmentos étnicos, religiosos e laboriais de uma sociedade; quando o objetivo maior é a independência, a recuperação da autonomia e o retorno à plenitude do estado de direito, é comum os cidadãos emprestarem solidariedade àqueles combatentes invisíveis da liberdade, oferecendo-lhes armas, abrigo e alimentos; proporcionando-lhes documentos e alternativas de fuga e, até mesmo, participando como coadjuvantes de ações clandestinas.

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Exemplo notável dessa colaboração espontânea por parte da população de uma região ocupada militarmente foi a tática da picada de mosquito (uma

incomoda, milhares enlouquecem) — utilizada pelos grupos de partizans que

atuaram na retaguarda das forças do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial, afetando a capacidade de luta das tropas engajadas nos combates e dispersando-as no exato momento em que os comandantes divisionários ou de corpos-de-exército delas mais necessitavam.

Tais ações (e operações psicológicas, como acontecem hoje) compreendem todo um conjunto de manobras: da elaboração e difusão de panfletos (confeccionados em gráficas improvisadas), às pichações em logradouros públicos, incêndios e sabotagem, tanto nas máquinas-ferramentas como no aparato destinado ao esforço de guerra. Essa reiteração diária e sistemática provoca efeitos que se estendem da desconfiança ao desassossego e, deste, ao pânico.

Durante a campanha da Wehrmacht no Leste europeu, as fábricas alemãs de parafusos, molas para pistolas e submetralhadoras e chassis reforçados para os caminhões, mantiveram (em que pesem os danos causados pelos bombardeios estratégicos) quase inalteradas as suas cotas de produção; no entanto, certa quantidade de materiais tornava-se inútil ao primeiro manuseio.

Parafusos aos milhares eram limados próximo às bases e a parte danificada recoberta por uma camada de graxa ou cera de abelha; as molas, por sua vez, eram habilmente “trabalhadas” de modo a não suportarem o ritmo de fogo exigido, fragmentando-se em pleno combate; quanto aos chassis, apresentavam empenos que dificultavam ou impediam o encaixe nas carrocerias dos caminhões, tratores e tanques.

Uma vez descobertos, os transgressores eram punidos exemplarmente, do que se aproveitavam os birôs de Propaganda e Contrapropaganda de Guerra para — por intermédio dos matutinos/vespertinos, programas de rádio e cinejornais —, de um lado, destacar a coragem dos povos oprimidos e, como contrapartida, justificar a adoção de métodos radicais contra os covardes “assassinos das sentinelas” e “conspiradores embuçados”.

À semelhança dessas picadas de mosquito em tempos de guerra total, a emissão de boatos amplia o espectro do extremismo oportunista. A simples conjectura sobre um derrame de notas falsas (em tempos de instabilidade financeira e “pacotes econômicos” inesperados) induz lojistas e consumidores a adotarem cuidados com o que simplesmente não existe.

Em momentos assim, além do receio daqueles que vivem do comércio, aparecem espertalhões vendendo dispositivos eletrônicos de toda ordem, alardeando sistemas infalíveis de rastreamento telefônico, câmeras dotadas de lentes especiais que identificam volumes de metal do tamanho de um maço de cigarros etc. Essa indústria paralela também se beneficia do terrorismo.

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Tempos de Paz

Se, ainda que resumidamente – conforme supra-assinalado – o fenômeno do extremismo é multiplicado em tempos de guerra, interpretação idêntica deve ser aplicada em períodos de paz. Paz simbólica (é claro!), pois não é o que se nota em metrópoles como o Rio de Janeiro, Nova Iorque, Los Angeles, Londres, Paris, Moscou, onde, para reprimir conflitos interraciais ou derivados do crescimento descontrolado da delinquência comum, até mesmo as Corporações Armadas são convocadas a intervir.

Para confundir e assustar, no bojo desses imbróglios de natureza econômica e política, avulta uma espécie de terrorismo negro, dizimando inocentes aos magotes e construindo personagens que se utilizam de táticas diabólicas, capazes de induzir os cidadãos mais crédulos sobre a adequabilidade e legitimidades das ações.

Eis, como exemplo, uma referência quantitativa e histórica sobre o paradoxo representado por esse terrorismo: entre 1968 e 1976 – conforme levantamento feito pela equipe do jornal L’Osservatore Romano (ver Hemerografia: Il terrorismo

politico I, II, III, IV) – ocorreram 1200 ações internacionais; destas, 38,4% na Europa

e 27,5% na América Latina.

Em 1968, ano tumultuado pela Ofensiva do Tet (no Vietnam), passeatas e protestos estudantis na França e nos EUA, além do final melancólico da Primavera

de Praga, as ações terroristas representavam 18% da violência política em todo

o mundo (os conflitos estudantis totalizavam 40%, os distúrbios raciais 18% e as demais rivalidades étnicas 9%).

Cinco anos depois (1973), essas operações alcançavam 46% desse mesmo indicativo (violência política) . Itália e República Federal da Alemanha, cujos governos apresentavam indiscutível maturidade política, lideravam as estatísticas; pesquisas realizadas na épocarevelaram também que as facções engajadas na confrontação com as forças de segurança no chamado Bloco Europeu (excetuados os países tutelados pela antiga União Soviética) exibiam perfis absurdamente díspares.

Numa das bases dessa pirâmide, organizações ultranacionalistas e separatistas (irlandeses, ucranianos, corsos, bascos...); na outra, grupos agindo em apoio aos partidos e/ou movimentos legalizados de ultra-esquerda empenhados na sustentação da luta contra o imperialismo (Brigate Rosse, Fração do Exército

Vermelho, leia-se Grupo Baader Meinhof etc.); no vértice, planejando iniciativas em

série, os braços armados das facções islâmicas mobilizadas numa campanha cada vez mais violenta contra os interesses norte-americanos e israelenses no Oriente Médio. Isoladas das demais, embora não menos atuantes, grupos irregulares operando abrigados nos serviços de informações.

As lideranças desses grupos extremistas aproveitavam-se da aparente inércia dos órgãos de segurança para agir. Daí a importância dos estudos sobre a gênese e operacionalidade desses grupos. François Bourricaud, pesquisador francês, foi um desses pioneiros na tentativa de explicar o que ocorreu em alguns Estados Nacionais. Ele partiu do princípio segundo o qual o terrorismo germina e toma corpo nos países onde inexiste equilíbrio social, jurídico e administrativo:

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De acordo com François Bourricaud, esse equilíbrio dependia,

(...) antes de mais nada, de duas condições: que haja um acordo mínimo entre os dirigentes para o funcionamento das instituições e um poder de arbítrio e decisão localizado que, no Ocidente, se traduz pelo sufrágio3.

Acrescenta que essas violações da legalidade apontavam exatamente para as falhas da sociedade. Por exemplo: na Europa Ocidental, a atuação dos grupos extremistas indicava que as causas sociais e políticas não eram as mais significativas, atribuindo-se relevo àquelas motivações de natureza essencialmente ideológica.

Com efeito, estabilidade, índices reduzidos no que tange à delinquência comum, sólida base educacional e hospitalar, governos e Parlamentos operativos e bem articulados, seguridade social disponibilizada em patamares elevados, tudo contribuía (e ainda contribui) para respaldar o conceito observado há quase dois séculos por Alexis de Tocqueville (autor do clássico A Democracia na América). Segundo este, “a monotonia opressiva provoca periodicamente o acionamento do fanatismo religioso e político”.

Além disso, nos Estados autoproclamados liberais, os governantes costumam atribuir maior valor aos aspectos econômicos, relegando os demais (sejam eles patrióticos, comunitários e voltados à solidariedade) a um plano secundário, proporcionando um distanciamento ainda maior entre os que estão abrigados no coração do Poder e aqueles outros interessados em promover modificações no sistema político.

No princípio era o abismo

Examinado sob o sentido lato, terrorista (adjetivo) é todo aquele indivíduo que se utiliza de métodos ultraviolentos para impor a sua própria verdade (ou, por extensão, a da organização à qual está vinculado) ao corpo social. Não por acaso, Albert Camus, pensador, dramaturgo e romancista franco-argelino, além de ganhador do Prêmio Nobel de Literatura4, acentuava:

O revolucionário é um homem antecipadamente condenado. Não pode se permitir relações apaixonadas nem possuir coisas ou seres amados. Devia mesmo despojar-se do seu nome. Tudo nele se deve concentrar numa única paixão: a Revolução.

Alguém, portanto, capaz de, sem qualquer hesitação de ordem sentimental, colocar uma bomba-relógio num teatro, lançar mísseis de ombro do tipo AT4 ou RPG contra aeronaves civis em pleno pouso/decolagem, ou detonar explosivos plásticos num ônibus escolar de modo a impactar a Opinião Pública, convencê-la sobre a possibilidade de outros atentados ainda mais violentos e, como derivadas dessas práticas impiedosas, obter vantagens políticas, econômicas, religiosas ou, até mesmo, militares.

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Discrepâncias de tempo no Calendário Romano fizeram com que a chamada Civilização Ocidental ingressasse antecipadamente no Terceiro Milênio, ao influxo de transformações não calculadas e intensificadas pelo acesso às novas tecnologias.

Todavia, mesmo com a evolução dos softwares, a multiplicação e a dinâmica das redes de comunicação online, cresce e subsiste o legado de Fobo e Deimos: terror do desconhecido, medo da morte — impulsionados pela ameaça do cogumelo radioativo. Basta,para isso, que um ou mais indivíduo(s) amparado(s) em sólidos conhecimentos técnicos e exercendo função de confiança rompa(m) o lacre dos gabinetes especiais e acione(m) as chaves de duplo comando; que um

gangster/extremista, com veleidades científicas e muito dinheiro, contrate cientistas

deserdados em seus países de origem e produza um artefato miniaturizado, como descreveu o romancista britânico Frederick Forsyth em O Quarto Protocolo, posteriormente respaldado por intermédio das declarações do general reformado Alexander Lebed (ver abaixo); que, por ambição e deslealdade para com seu próprio país, um ou mais físico(s) nuclear (es) talentoso(s) e mal remunerado(s) venda(m) segredos nucleares a um ditador de republiqueta ou guru de uma dessas inúmeras seitas abrigadas nas montanhas ou escondidas nos labirintos das metrópoles.

Entrevistado por Jaime Spitzcovsky para a Folha de S. Paulo, edição de domingo, 23 de novembro de 1997 (sob o título: General Russo alerta contra Terror

Nuclear, Primeiro Caderno, página 20), Alexander Ivanovitch Lebed, na reserva

desde 1995 e terceiro colocado no pleito que conduziu Alexander Ieltsin ao poder na Rússia, em 1996 (tendo sido nomeado Secretário do Conselho de Segurança – órgão que, ainda hoje, define as estratégias de segurança do Kremlin – afastado pouco depois das funções pelo próprio Ieltsin), ao ser indagado sobre a situação das Forças Armadas russas, naquele momento da História, ressaltou5:

O outrora forte Exército soviético e o complexo industrial-militar soviético tornaram-se perigosos, principalmente para o próprio país. Com a atual reforma militar e a diminuição do tamanho das Forças Armadas, primeiro dispensam os militares, depois sobra uma enorme quantidade de armas e munições muito perigosas, e não há ninguém que cuide disso. Isso pode levar a consequências catastróficas, sem nenhuma guerra. Imaginemos apenas uma avaria qualquer num reator nuclear de um submarino desativado.

Respondeu, também, a outra indagação ainda mais pontual e preocupante formulada pelo jornalista; qual seja:

“O senhor, há pouco tempo, levantou questão sobre a (s) maleta (s) nuclear (es). Existe a possibilidade de terrorismo nuclear?” (a hipótese em pauta era o desaparecimento de algumas dessas maletas nucleares, cuja existência fora confirmada pelo Chefe de Governo, Bóris Ieltsin). Lebed:

É, por isso, que eu levantei o problema. Esses sistemas existem, a última versão se chama RAS 115, uma outra versão se chama RAS 115-01, são dispositivos muito compactos: 45 cm X 45 cm X 30 cm, pesam 30 quilos. Cabem numa maleta. [Cada qual] É acionada por uma só pessoa. Mas a maleta jamais foi empregada, ela nunca foi utilizada para fins bélicos. Mas é uma arma ideal para os terroristas. As possibilidades do terrorismo nuclear e da chantagem são simplesmente colossais. Mas o problema não é apenas as maletas, mas são as pessoas que as fabricaram. A área que antes estava fechada e onde foram fabricadas as maletas foi uma

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espécie de paraíso na Terra.

Hoje é uma região em crise econômica, como todo o mundo da ciência na Rússia, em debandada geral. Então, se eu sei fazer um artefato assim, e se eu sou despedido, sempre poderei achar pessoas que darão condições, poderão me pagar e poderei fazer a (s) maleta (s) em outro lugar.

Então, eu espero que sejam eliminadas todas as maletas existentes, todas as tecnologias de sua fabricação. E devem ser achadas todas as pessoas que as fabricavam, dando-lhes condições de uma vida decente para que elas não fiquem tentadas a vender os seus conhecimentos e aptidões6.

Esse terrorismo de fonte abstrusa vem, infelizmente, conquistando adeptos em todo o mundo, a tal ponto que foi criada uma espécie de Bolsa Paralela com o único propósito de contratar cientistas e pesquisadores — muitos deles militares da reserva outrora engajados em projetos especiais junto aos seus respectivos governos — quadros de apoio técnico ambiciosos etc.

As mídias difundem, diariamente, as declarações inquietantes dos governantes (especialmente ocidentais) diante do sucateamento do aparato nuclear da antiga URSS e, também, a respeito do perigo derivado dos depósitos de armamento deixados para trás após a desincorporação da Ucrânia, Bielorrússia e outros países sob a tutela de Moscou.

A técnica para a preparação de bombas atômicas não constitui segredo e, até mesmo,os diagramas mais complexos podem ser copiados por qualquer internauta. Todavia, as tecnologias utilizáveis pelas organizações terroristas avançaram em outros campos, oferecendo produtos letais a custo baixíssimo, principalmente aqueles originários da indústria químico-farmacêutica.

Por exemplo: a partir de amostras do DNA retirados de espécimes da fauna é possível alterar códigos genéticos em laboratórios e, em seguida, disseminar determinadas bactérias superativadas, como a do botulismo, ou viabilizar hiperatividade cerebral por intermédio da admissão de uma quantidade de ácido lisérgico nos dutos de água potável de uma unidade militar, indústria, shopping center, escola, universidade ou hospital. O ácido lisérgico (LSD) – como de conhecimento público – é inodoro, insípido e transparente; quase impossível, portanto, de ser detectado.

Notícia publicada na edição de 26 de novembro de 1997de O Globo (como título-forte da página 38) procura reforçar essa assertiva ao informar que o Iraque teria produzido até 200 toneladas da arma química VX, gás que ataca o sistema nervoso e “é cem vezes mais mortal que o Sarin. Esse composto causa paralisia e os músculos involuntariamente estrangulam os órgãos vitais”7.

O então secretário de Defesa dos EUA, William Cohen, afirmou que o estoque iraquiano do gás VX seria suficiente para matar toda a população do planeta. Segundo ele, 25 países dominavam (na época) a tecnologia para a produção desses agentes químicos (entre os quais o Anthrax, Tabun e Botox) e alertou para o perigo desses arsenais caírem em mãos de terroristas.

Os fatos subsequentes provaram que, relativamente ao Iraque, as afirmativas do Secretário de Defesa eram infundadas.

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Um pouco de História

Na Antiguidade os “deuses” cobravam (por meio dos sacerdotes ou xamans) pesados tributos para não incomodar os mortais com sua fúria. Riachos de sangue e pilhas de cadáveres são mencionados pelos antropólogos que estudaram as práticas rituais entre Incas (Peru) o os Astecas (no México).

Séculos depois os colonizadores britânicos, donos de um império onde o sol

jamais se punha, sofreram imensas perdas decorrentes da atuação noturna e quase

ininterrupta dos bhuttootees thugs (adoradores de Khali, na Índia), hábeis na arte de estrangular com fios de seda. Comenta-se que, entre Benares e Bombaim, existem mais sepulturas das vítimas sacrificadas em honra à Deusa da Vingança do que dormentes naquele trecho da estrada de ferro que serve de ligação entre as duas cidades.

Mesmo a Europa dita “civilizada” serviu como palco para incontáveis perseguições e atrocidades. Entre as vítimas destacam-se Jacques de Molay (Grão-Mestre da Ordem dos Cavaleiros do Templo) e Giordano Bruno (filósofo e professor em Paris), ambos queimados como heréticos; Galileu Galilei (matemático, físico e astrônomo, descobridor da lei da queda dos corpos e enunciador dos princípios da inércia e da composição dos movimentos) forçado a abjurar de joelhos sua doutrina para escapar ao suplício que lhe prometiam os inquisidores; sem esquecer de citar ainda o massacre dos Huguenotes na trágica Noite de São Bartolomeu (23 de agosto de 1572).

Entretanto, é o terrorismo político que oferece aos pesquisadores da ultraviolência o campo mais extenso para prospecções, a começar por sua natureza indiscriminada, como observou Paul Wilkinson8:

Bem distinto do perigo de que sejam feridas pessoas que não foram pré-selecionadas como alvos, há o subproduto inevitável do terror generalizado de que outros possam ser feridos.

A lógica desse raciocínio: uma vez que a ausência de discriminação ajuda a espalhar o medo, se nenhuma pessoa constitui o alvo em particular, rigorosamente ninguém pode se considerar seguro.

Wilkinson enumerou, em seguida,as características do extremismo político; quais sejam: indiscriminação, imprevisibilidade, arbitrariedade, capacidade de destruição impiedosa e a natureza implicitamente amoral e antinomista do desafio terrorista.

Acrescentou que o terrorismo político propriamente dito é tão somente o que se pode chamar de uma política continuada que, por sua vez, envolve a deflagração do terror organizado, seja de parte do Estado, de um movimento ou facção, ou mesmo de um pequeno grupo de indivíduos.

Outro aspecto importante para o trabalho dos pesquisadores diz respeito a difícil delimitação da fronteira entre motivações políticas e intenções criminosas, bem como da delimitação entre guerra e terror. No que tange ao primeiro caso vale considerar a opinião de Walter Laqueur9:

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Para mim é nítida. Matar um homem é crime. Quem teria a pretensão de fazer com que o terrorismo fosse condenável, que o assassinato de um ditador ou de um tirano fosse um crime? Ninguém, a menos que se afirmasse um partidário irredutível da não violência, de recusar, em qualquer circunstância e em nome de princípios morais, a utilização da força. Assassinar Hitler, em 1923, teria sido um ato de terrorismo, mas esse ato teria salvado milhões de vidas humanas. O terrorismo torna-se crime a partir do momento em que passa a atacar pessoas que não são nem opressores nem carrascos, que não torturaram nem assassinaram. É o caso da maioria dos atos terroristas recentes.

Agora, durante um conflito de amplas proporções pode acontecer de as tropas ou grupamentos especiais mobilizadas contra os “inimigos do Estado”virem a ser acionadas contra cidadãos comuns para “preservá-los” de um horror ainda maior.

A história do nazismo reservou exemplos. Se, por um lado, tem-se o terror desencadeado pela Gestapo contra a Rosa Branca, organização universitária de resistência liderada pelos irmãos Hans e Sophie Scholl, ambos presos e executados quase que imediatamente (ele, a machadadas; ela, guilhotinada), sob a acusação de disseminação de propaganda pessimista e insidiosa contra o Reich no momento em que a Wehrmacht suportava duros reveses no Leste.

Do outro, Hannah Arendt, no conjunto de reportagens publicadas originariamente na revista New Yorker e, posteriormente, agrupadas no livro intitulado Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal10,

ofereceu aos leitores, além de uma tese polêmica sobre o massacre administrativo (praticado pelos burocratas da SS e do SD), exemplo grotesco sobre como os diferentes segmentos da Opinião Pública de um país podem ser dessensibilizados a tal ponto que, em meio à destruição total, a violência praticada pelo Estado pode perpassar como se fora uma dádiva.

Ei-lo, como publicado:

Aconteceu em Konigsberg, na Prússia Oriental, uma região completamente diferente da Alemanha, em janeiro de 1945, alguns dias antes de os russos destruírem a cidade, ocuparem suas ruínas e anexarem a província inteira. A história é contada pelo conde Hans Von Lehnsdorff, no seu Ostpreussiches Tagebuch (1961). Ele permanecia na cidade, como médico, para cuidar dos soldados feridos, que não podiam ser evacuados; foi chamado para um dos imensos centros para refugiados, do lado do campo, que já estava ocupado pelo Exército Vermelho. Aí, ele foi abordado por uma mulher que lhe mostrou uma varicose, adquirida há muitos anos, que ela queria tratar agora, porque tinha tempo. “Eu tentei explicar que era mais importante, para ela, ir-se embora de Konigsberg e deixar o tratamento para uma época posterior. Para onde você quer ir? – perguntei-lhe. “Ela não sabia, mas dizia que todos eles seriam trazidos para o Reich. E então ela acrescentou, surpreendentemente: ‘Os russos nunca nos pegarão. O

Führer jamais o permitirá. Muito antes disso ele nos gasificará.”

Moderna Tradução

Tambours!

Ordem de Antoine de Santerre, chefe da Guarda Nacional de Paris, para abafar as últimas palavras de Louis XVI.

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O sentido atual para o vocábulo sobre o qual repousa o tema dessa pesquisa foi externado, inicialmente, por Louis-Antoine Saint Just durante a Grande Revolução de 1789, quando parcela representativa do Terceiro Estado – apoiado por uma parte da burguesia – apeou do Poder tanto a nobreza como o clero e lhes ensinou o caminho da guilhotina!

Todavia, antes de qualquer digressão filosófica sobre essa matéria, faz-se necessário enunciar os fatores que contribuíram para a construção de uma relativamente longa Era do Terror na França; quais sejam: a desordem interna proporcionada pelos acontecimentos subsequentes à Tomada da Bastilha, e a iminência de grave perigo externo; isto é: a confrontação armada com os exércitos da Segunda Coalizão: Espanha, Inglaterra, Áustria, Sardenha, Prússia e Holanda.

O que aconteceu na França – além do extermínio de boa parte da noblesse

d’épée e da noblesse de rasse (nobreza da espada e da raça) – foram períodos

pontuados pela redução ou exacerbação desse Terror.

Cronologicamente: o primeiro teve como pique o massacre de 2 a 6 de

setembro de 1792 (o assassinato de 1368 pessoas decorreu do confronto exacerbado entre a religião e o Estado). Duramente atingida pelas medidas revolucionárias, a Igreja Católica deixou de exercer o controle sobre a educação, acatou a proibição pública do uso das vestes sacerdotais e foi obrigada a suprimir algumas ordens religiosas. Os sacerdotes, além disso, viram-se forçados a jurar plena obediência à recém-aprovada Constituição Civil do Clero.

Um segundo momento se estendeu do dia 17 de setembro de 1793 – quando entrou em vigor a Lei dos Suspeitos (reforçada pela Lei de 22 do Prairial, firmada a 10 de junho de 1794) – a 28 de julho de 1794.

Em seguida, houve a fase que os historiadores denominaram O Grande Terror, deflagrado entre os dias 10 de junho e 27 de julho de 1794, o mais violento de todos. Somente na cidade de Paris, 1376 homens e mulheres foram executados. O quarto e último, denominado Terror Branco,de maio a junho de 1795, levou à dizimação de centenas de jacobinos11. Dos quatro períodos supra-assinalados, o segundo e

o terceiro são os que mais interessam à pesquisa, uma vez que, em decorrência das leis de exceção, foram perpetrados massacres e execuções em cascata jamais observadas na História daquele país.

Quanto aos diplomas legais que respaldaram as ações revolucionárias, o primeiro deles assegurava ao Comitê de Salvação Pública (integrado por doze personalidades) 12, bem como aos respectivos agentes subordinados, poderes para

prender sem aviso prévio qualquer émigré, funcionário público destituído de função que não houvesse sido reintegrado, opositores à Revolução ou à guerra travada contra as forças estrangeiras. Vale registrar: mesmo entre os émigrés, alguns se mostravam declaradamente favoráveis à utilização do psicologismo do medo e do terror como ferramentas de coerção, a exemplo do conde de Montmorin, ele próprio ministro do Exterior sob o reinado de Luís XVI.

Disse ele:

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Tratava-se, pois, de um dispositivo legal que forçava todas as pessoas declaradamente não engajadas no processo revolucionário (situação aplicada aos católicos e burgueses), a viverem sob a ameaça constante da prisão ou da morte. Na sua gênese, o objetivo desse instituto jurídico era assegurar uma aparente unidade do povo em meio à guerra que se anunciava e poderia esmagar o país (a referência no caso é a Segunda Coalizão).

Por sua vez, a Lei datada de 22 do Prairial (fruto da estratégia adotada por Maximillien Robespierre contra o seu maior adversário político na ocasião, o advogado e jornalista Georges Danton) era ainda mais draconiana: estabeleceu a aplicação de pena de morte para os que defendessem a restauração da monarquia e caluniassem a recém-instaurada República (estendendo a sanção, entre outras possibilidades, àqueles que difundissem notícias falsas, roubassem ou causassem dano às propriedades públicas e dificultassem o transporte de alimentos às tropas engajadas na luta contra os estrangeiros); atribuía plenos poderes às cortes de Justiça para que autorizassem – ou negassem – aos acusados o direito de constituírem advogado ou convocar testemunhas; por fim, autorizava esses tribunais a dar por concluídos os inquéritos a qualquer momento.

Como se presume, as sementes do Terror não germinam em solo árido. Deve haver água suficiente e jardineiros hábeis para que se transformem em cardos. Ora, dentre os personagens que se destacaram nesta fase turbulenta da História, cinco homens com ideias ao mesmo tempo tão próximas e divergentes: os já citados Maximillien Robespierre e Georges Danton, bem como Camille Desmoulins e Louis-Antoine de Saint-Just,seguiram a trilha da guilhotina, máquina infernal inventada pelo Dr. Joseph Ignace Guillotin (membro dos Estados Gerais e, ele próprio, executado posteriormente), montada inicialmente na Place de Grève no dia 25 de abril de 1792; o último deles, Jean-Paul Marat, foi assassinado com uma facada na banheira da sua casa (a 13 de julho de 1793) por uma jovem simpatizante dos

girondinos14: Charlotte Corday.

Tribunos e/ou jornalistas, esses homens agiram com certa liberdade ao longo da Grande Revolução, agudizando questões ou – como pode ser observado mais tarde – tentando amenizá-las por intermédio de artigos assinados e/ou pronunciamentos públicos. Nesta época, na Capital, proliferaram jornais com títulos retumbantes: Révolutions de France e, em seguida, Le Vieux Cordelier (ambos pertencentes a Camille Desmoulins); L’Ami du People – rebatizado Journal de La

République Française (de propriedade de Jean-Paul Marat), Le Patriote Français

(de Jean Pierre Brissot), periódicos estes de curta existência, confecção artesanal e tiragens reduzidas, ainda que eficazes no quesito influência sobre o conjunto da Opinião Pública.

Ao longo desse período, cristalizavam-se as possibilidades do emprego da mídia impressa como ferramenta de apoio ao terror praticado e justificado como prerrogativa do Estado (nada muito diferente dos dias de hoje quando Estados Nacionais se arvoram no direito de agir como e onde bem entenderem, inclusive fora das suas fronteiras internacionais)

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Vieux Cordelier, um apelo favorável à decretação do fim do Terror 15

Exterminaríeis todos os vossos inimigos pela guilhotina? Jamais houve maior loucura. Podeis vós destruir um inimigo no cadafalso sem fazer dois outros entre sua família e seus amigos? Eu sou de opinião muito diferente daqueles que clamam que é necessário manter o Terror como a ordem do dia. Confio em que a liberdade será assegurada e a Europa conquistada, tão logo vós tenhais um Comitê de Clemência.

Curioso o destino desses homens, principalmente o de Desmoulins. Afinal, foram por ele proferidas – sobre uma das mesas do Cafè de Foy, nas imediações do Palais Royal – as palavras de incitação à desordem, no dia 12 de julho de 1789, denunciando a intempestiva exoneração do financista Jacques Necker, ministro das Finanças de Louis XVI, e a hipótese de intervenção dos regimentos alemães e suíços em plena capital sublevada do país. Fatos estes que levariam – quarenta e oito horas depois – à tomada e destruição da Fortaleza-Prisão da Bastilha, episódio épico no qual o governador Bernard-René Jordan, Marquês de Launay, após assegurar às lideranças dos revoltosos que não atiraria com seus canhões e 114 soldados contra o povo enfurecido, acabou preso e quase que imediatamente decapitado. Sua cabeça foi espetada na ponta de uma lança e exibida nas ruas de Paris.

Tanto a cabeça de Camille Desmoulins como a de Danton tinham já sido pedidas por Robespierre (o qual, por sua vez, temia a dissolução do Comitê de

Salvação Pública e o fim do Reino do Terror). Esses dois revolucionários, ambos com

34 anos, contam os historiadores, subiram calmamente os degraus que conduziam ao patíbulo na Praça da Revolução, na tarde de 5 de abril de 1794. Maximillien Robespierre e seu amigo Louis-Antoine de Saint-Just também não tardaram a percorrer caminho semelhante, o que aconteceu na tarde de 28 de julho daquele mesmo ano.

Pesquisas recentes informam estarem corretos esses números: 18 mil mortos e 300 mil cidadãos franceses presos ou despojados das suas propriedades durante o Reino do Terror.

Sena, rive gauche

O que vou dizer-lhes não é uma defesa. Não estou tentando escapar do castigo imposto pela sociedade que ataquei. Além do mais, só reconheço um tribunal capaz de julgar-me – eu próprio – e o veredito de qualquer outro não tem importância para mim.

Emile Henry16 Paris, margem esquerda do Sena, primeira metade do século XIX. Exatamente ali, na mais cosmopolita e revolucionária das capitais europeias, ativistas de variadas tendências reuniam-se para discutir o provável “futuro do Estado” e as fórmulas capazes de minorar o sistema de semiescravidão do operariado. Três dentre esses

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homens e mulheres conquistaram notável projeção: Pierre-Joseph Proudhon, Michael Alexandrovich Bakhunin e Karl Marx. Os dois primeiros eram anarquistas; o último, na vanguarda das correntes socialistas, teórico do comunismo pleno.

Embora esses três homens tenham logrado passar à História pela força das próprias ideias, a denominação revolucionário profissional deve ser aplicada integralmente a Michael Bakunin, ex-combatente nas barricadas (da Comuna) de Paris e nos levantes de Praga e Dresden. Capturado em seguida e mantido preso na Fortaleza de Pedro e Paulo, escapou através da Sibéria e foi parar no Japão, de onde seguiu para os Estados Unidos da América e retornou ao continente europeu. Na Espanha, sob a sua orientação, foi criado o maior movimento anarquista do mundo17.

A fidelidade à História exige, porém, que seja creditado aos italianos o mérito de colocar em prática a tese da Propaganda pela Ação. Carlo Pisacane, republicano extremista, após rejeitar o título de Duque de San Giovanni – que, aliás, lhe cabia de direito – disse:

A propaganda do pensamento é uma quimera. As idéias são uma consequência da ação e não o contrário, e o povo não será livre quando for educado, mas educado quando for livre18. A partir da inspiração proporcionada por Carlo Pisacane aos anarquistas italianos, foram desencadeadas insurreições em cascata. Daí por diante aconteceram atentados a chefes de Estado (Espanha, EUA, Itália, França, Áustria), que impactaram a Opinião Pública. Essas ações individuais conquistaram espaço no imaginário popular, alimentaram e retroalimentaram a imagem dos militantes anarquistas protegidos pelas sombras e escondendo, sob os respectivos capotes, bombas de fabricação artesanal.

Outro importante revolucionário, Piotr Kropotkin, utilizava o seu jornal (Le

Révolté) como tribuna para justificar as ações práticas. Por exemplo, na edição de

25 de dezembro de 1880, salientou19:

A revolta permanente pela palavra falada e escrita, pelo punhal, pelo fuzil, pela dinamite (...), tudo o que não pertença à legalidade, é bom para nós.

Em sua análise sobre o terrorismo anarquista praticado no final do século XIX, Daniel Guérin explica que este20:

Apresentava, em seus aspectos dramáticos e anedóticos, um cheiro a sangue que cativou o gosto do grande público. Todavia, se o terrorismo constituiu, naquela época, uma escola de energia individual e de coragem, que merece respeito; se ele teve o mérito de chamar a atenção da Opinião Pública para a injustiça social, ele aparece, hoje, como um desvio episódico e esterilizante do anarquismo. O terrorismo anarquista é uma recordação do passado.

Ressalte-se, porém, que não foram tão somente os anarquistas que recorreram aos métodos violentos supra-assinalados para impor as ideias-força que

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abraçavam. Leon Trotsky, em uma das suas obras provavelmente menos conhecidas no Brasil: Stálin, o Militante Anônimo, recorda o período turbulento em que o futuro senhor absoluto da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, conhecido pelo apelido de juventude, Koba, agia na clandestinidade, explodindo poços de petróleo e dinamitando ferrovias.

Acrescenta o teórico da Revolução Permanente que o curso da insurreição podia ser traduzido com clareza pelas estatísticas do terror. Em 1905, ano que historicamente marca a impulsão dos bolcheviques, 233 pessoas foram assassinadas; 768, em 1906; e 1231, em 1907.

Sobre a “mitificação dos mártires”

Ao receber do corpo de jurados a confirmação da sentença de morte que lhe fora atribuída e seria aplicada por intermédio de uma injeção letal, Timothy McVeigh, 29 anos, não esboçou qualquer reação. Responsável pela colocação de um carro-bomba que explodiu, no dia 19 de abril de 1995, em Oklahoma City (no estado do Colorado), o ex-soldado condecorado durante a campanha no Golfo Pérsico teria pela frente dois ou três anos numa prisão de segurança máxima até o julgamento dos inúmeros recursos impetrados por seu advogado, Richard Burr, e a execução.

McVeigh não foi e nem será o único dentre os açougueiros do século XX a se beneficiar com o espetáculo proporcionado pelas mídias; a projetar-se como uma espécie de “vingador solitário”; como representante de um segmento social oprimido pelo establishment norte-americano. O argumento principal apresentado na sua defesa perante o juiz de Direito foi o da indignação demonstrada por seu cliente uma vez consumada a invasão seguida de incêndio do rancho onde estavam abrigados centenas de adeptos da seita Davidiana – em Waco (Texas) – situação essa bastante grave que exigia a adoção de represálias.

“Mártires das causas”, tantos os planejadores como os agentes de campo das

organizações extremistas mortos durante confronto com as forças de segurança ou – caso de Timothy McVeigh – condenados à morte (após julgamentos nem sempre conduzidos adequadamente), costumam ser elevados à estatura de heróis. Sem que disponham do glamour dos semideuses, mas com direito a homenagens, discursos inflamados durante os respectivos funerais e outras formas de exteriorização da simpatia.

Assim era observado nas reportagens teledifundidas, quando caixões lacrados contendo os corpos de ativistas do Exército Republicano Irlandês (IRA), mortos por unidades britânicas de contrainsurgência (antes da dissolução do braço armado da organização), eram carregados por multidões nas ruas de Belfast; ou, em seguida ao autoextermínio de um ativista palestino, numa rua qualquer de Tel Aviv, Haifa, Hebron ou outra grande cidade israelense.

São basicamente jovens que perpassam aos olhos da opinião pública como “sentinelas” da justiça e da verdade. Quanto ao auto-extermínio dos chamados

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ainda maior, principalmente se acompanhada de intenso morticínio. Para tanto existe uma explicação: a eliminação de um ou mais inimigos durante a operação é, geralmente,interpretada como ponto de honra.

Sob este ângulo, vale comparar esse hipotético extremista morto em uma explosão aos antigos heróis da mitologia. Da mesma forma que Héracles – herói nacional da Hélade – precisou ser purificado pelo fogo para (simbolicamente) despir-se dos elementos mortais representados por sua própria mãe, Alcmena, o extremista cumpre desígnios quase sagrados.

De volta ao episódio que motivou o atentado de Oklahoma City, ou seja, a tragédia dos davidianos.

Às 6h5min,de 21 de abril de 1993, após 51 dias de cerco ininterrupto, iniciado a 28 de fevereiro, originário este, por sua vez, de uma incursão fracassada que resultou na morte de quatro agentes do Departamento de Álcool, Tabaco e Armas

de Fogo (ATF), além de ferimentos em 16 pessoas, agentes do Federal Bureau of Investigation (FBI) e do já citado ATF, apoiados por tanques da Guarda Nacional

dos EUA, atacaram a ala principal do Rancho Apocalipse, ocupado por dezenas de fanáticos integrantes da seita Ramo Davidiano, liderada por David Koresh (batizado Vernon Howell).

Inicialmente os agentes federais injetaram gás lacrimogêneo nas brechas abertas nas paredes de madeira pela ação dos carros de combate, enquanto seguidores de David Koresh revidavam disparando submetralhadoras (ao término do tiroteio foram recolhidas 268 armas, incluindo rifles de precisão, carabinas e pistolas automáticas, bem como 8100 cartuchos), no esforço desesperado para rechaçar a invasão. De repente, às 12h5min, teve início um incêndio incontrolável — com ventos de 45 km/h — que se estendeu por muito tempo apesar dos esforços despendidos pelo Corpo de Bombeiros.

Ao fim da operação de rescaldo, os agentes federais encontraram 86 corpos carbonizados e nove sobreviventes entre os davidianos: cinco americanos, dois ingleses, um australiano e um hispano-americano. O então presidente Bill Clinton, que fora empossado 100 dias antes para exercer o seu primeiro mandato, sofreu pequeno desgaste perante a opinião pública (18% segundo pesquisas) por ter sido favorável ao ataque; todavia, as críticas recaíram bem mais sobre o FBI (33%), enquanto 23% das pessoas consultadas responsabilizaram a Secretária de Justiça, Janet Reno.

O episódio em si não teria provocado tantas consequências (até porque a Segunda Emenda à Constituição assegura, a qualquer cidadão, a prerrogativa de comprar ou portar armas e apoia o direito de o Estado utilizar a força quando, dentro ou fora do território dos EUA, venha a sentir-se ameaçado ou desafiado), não fosse por um detalhe: a direção do FBI confirmou o que muita gente suspeitava: as suas equipes somente partiram para o ataque porque, do lado de fora do Rancho

Apocalipse , ligeiramente afastados, “dia a dia, minuto a minuto, câmeras, lentes,

microfones e computadores esperavam e seus operadores cobravam o desfecho”. As imagens do incêndio no Rancho Apocalipse, permeadas por gritos, disparos e explosões, transmitidas coast to coast ao vivo e a cores para 150 milhões

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de telespectadores por uma legião de repórteres, apresentadores, técnicos e cinegrafistas — acampados desde o início da operação em barracas, station wagons ou nos apartamentos dos 16 hotéis de Waco— motivaram intensa reverberação nos EUA, particularmente nas universidades e centros de pesquisa de Comunicação.

O episódio supra-assinalado serviu como confirmação da força das mídias quando querem provocar e/ou acelerar o desfecho de uma situação.

Batismo de sangue

Em muitos episódios registrados pela crônica diária, cujos resultados implicam mortos e feridos (estejam estes comprometidos ou não com o aparato de Segurança e Informações do Estado), o que acontece de fato é uma espécie de rito sangrento e

iniciático que transforma um indivíduo comum em um quadro confiável.

Assim aconteceu com Ilich Ramirez Sanchez, quando disparou com uma pistola Beretta — à queima-roupa — no rosto de Edward Sieff, vice-presidente da Federação Sionista da Grã-Bretanha, na semana seguinte ao Natal de 1973, ferindo-o gravemente e, poucos dias depois (janeiro de 1974), jogou uma granada contendo explosivo plástico no interior do banco israelense Hapoalim (em plena City), provocando muita destruição, embora sem vítimas. Ele deixou de ser classificado entre os integrantes dos quadros de apoio da Frente Popular para a Libertação da

Palestina (comandada por Waddi Haddad), e obteve ampla respeitabilidade no

submundo do terrorismo.

Registre-se, aliás, que esses episódios impulsionaram a trajetória do extremista venezuelano junto aos serviços secretos continentais, que o rotularam como o terrorista mais perigoso em operação na Europa Ocidental. Essa reputação foi reforçada após o atentado no Le Drugstore, um complexo de lojas com entrada pelo Boulevard Saint Germain, no coração de Paris. Carlos arremessou uma granada de mão do tipo M26 sobre centenas de jovens, matando duas pessoas e ferindo mais de 30.

Entrevistado tempos depois pelo jornalista e escritor britânico David Yallop, um alter ego do terrorista venezuelano explicou as verdadeiras razões dessa notoriedade21.

As pessoas comuns têm muito poder, muita influência. E isso se manifesta naquilo a que chamam Opinião Pública. Essa gente pode não ligar para os palestinos. Elas certamente não ligam para os membros do Exército Vermelho. Mas atire uma granada no meio delas, aí vão ligar muito.

A captura de Ilich Ramirez Sanchez no Sudão (1994) — materializada de forma melancólica — ocupou por três dias o eixo do noticiário internacional. Examinado friamente, pouco, bem pouco, diante do papel que ele representou durante quase vinte anos de operações clandestinas no Oriente Médio e Europa Continental.

Alguns títulos dos principais diários e revistas do País sobre a prisão de

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Globo

: Carlos, o terrorista, enfim está preso (16 ago. 1994); O ocaso do

Chacal e de um estilo do terror (21 ago. 1994); Jornal do Brasil

: Carlos é preso após ser caçado por vinte anos (16 ago. 1994);

Veja

: O Chacal vai para a jaula (24 ago. 1994);

O Estado de S. Paulo

: Chacal enfrenta a Justiça fazendo piadas (17 ago. 1994); Espião convenceu Cartum a entregar terrorista (17 ago. 1994); A

prisão de Carlos, o homem que sabe demais (18 ago. 1994); Jornal da Tarde

: Prisão marca fim da era do terror (17 ago.1994)

Durante as sessões de interrogatório a que foi submetido em local secreto nos arredores de Paris, o ex-Inimigo Público Número 1 não demonstrou inquietação quanto à hipótese de represálias. Sua atenção estava, isto sim, voltada para o noticiário dos jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão a seu respeito. Ele sabia que os repórteres, editorialistas e escritores contribuíram para impulsionar a sua lenda, de tal maneira e com tamanha ênfase, que seria inconveniente desmenti-los. Convidado a expressar sua opinião, Frederick Forsyth ressaltou que o venezuelano não passava de um blefe como agente do terrorismo islâmico22:

[...] Assim, o que tem esse homenzinho venezuelano extremamente brutal e essencialmente malsucedido que tanto fascina o Ocidente? Acredito que existem três fatores, todos eles falhos. Em primeiro lugar ele sempre gozou de publicidade, e a publicidade é uma dama inconstante. Ela gosta de ser lisonjeada. Carlos a lisonjeava com uma arrogância e atitudes bombásticas cujas recompensas apareciam sob a forma de centimetragem nas colunas da Imprensa.

[...] Em segundo lugar, ele tinha fama - assiduamente alimentada - de ser mulherengo. Na condição de terrorista proeminente, ele, sem dúvida, tinha a seu fácil dispor a classe habitual das mulheres super excitadas e sexualmente disponíveis que rejeitavam a classe média de onde provinham.

[...] Em terceiro lugar — e nisso é preciso lhe dar crédito — ele era um camaleão humano, deslocando-se pela Europa inúmeras vezes sem ser identificado.

Um outsider perigoso

Todo indivíduo que, observa Howard Becker23, voluntária e individualmente,

ou por associação, desrespeita as normas estabelecidas pelos grupos sociais, numa determinada época e região, é visto como marginal ou desviante. Eram assim os chamados wandervögel (pássaros errantes pacíficos) da Alemanha antes do nacional-socialismo, ao contrário, por exemplo, dos holligans britânicos ou de uma parcela dos rappers das ruas de Nova Iorque, quase sempre provocadores.

Esse desvio será maior ainda caso o transgressor provoque danos ao patrimônio do Estado ou de uma pessoa em particular. O terrorista é um outsider no mais elevado patamar.

Ao desafiar o sistema em vigor, passa a apresentar uma valoração superestimada sobre a causa que abraçou. Além do mais, como consequência dos treinamentos que o capacitaram a integrar a organização extralegal, incorpora no seu imaginário uma formidável crença na própria infalibilidade/letalidade (o que não

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é de todo irreal). Por fim, a partir do momento em que assume o ônus previsível da morte em combate, da execração pública e o risco da prisão por longas temporadas, reforça a resistência destinada a suportar a aspereza dos interrogatórios.

Poderes, poderes

Se, ainda que en passant, foi aberto um hiato na narrativa para ressaltar as características psicológicas desse “novo homem” a serviço do terror, porque não fazê-lo tomando como parâmetro sua associação com as tecnologias de destruição e, também, de informação?

Por hipótese: admita-se que uma organização extremista invista o que amealhou no mercado formal/aberto de equipamentos eletrônicos e compre sistemas capazes de interferir na programação de uma emissora de rádio ou televisão; e mais: que consiga inserir no chamado horário nobre sob a forma de

inserts ultrarrápidos (três, quatro segundos) do tipo:

“Amanhã, às l7h15min, explodiremos um dos alicerces da Ponte Rio-Niterói. Vencer ou Morrer - Grupo Liberdade”

Até que as contramedidas eficazes sejam ativadas, ao custo provável de milhares de dólares, o mal já estaria feito. Ainda que os extremistas consigam viabilizar uma única transmissão, o balanço final seria favorável; mesmo porque, somente com muita rapidez (e ainda assim numa pequena cidade), as forças de Segurança conseguiriam rastrear e localizar essa minúscula emissora, transportada no interior de uma station wagon, rapidamente desmontável e, em seguida, suas peças principais novamente carregadas em mochilas do tipo escolar para esconderijos distantes uns dos outros.

A prévia advertência sobre uma bomba dotada de dispositivo de tempo à semelhança de algumas operações do Grupo denominado Euzkadi Ta Askatasuna

Batasuna – ETA (Pátria Basca e Liberdade) colocada aqui ou acolá; as ações

clandestinas e escalonadas; a contrapartida representada pela manutenção em

Alerta Vermelho das equipes de guerra eletrônica, dos grupos especializados no

desmonte de bombas e de retomada e resgate; implica um custo elevado para os cofres públicos. Sem falar dos transtornos derivados da retenção no tráfego, blitzen nas avenidas e estradas de acesso à metrópole, região etc.

Outros exemplos interessantes a serem pesquisados são os hackers, isto é, indivíduos que, pelo prazer de violar os códigos de segurança, acessam ilegalmente os mais complexos sistemas de computadores e são habilidosos o suficiente para interferir nas redes vitais para a segurança de um país.

Imaginem alguém capaz de invadir as defesas eletrônicas da National

Aeronautics and Space Administration (Nasa) ou do Centro de Operações do North American Aerospace Defense Command (Norad), anulando senhas, reprogramando

ou congelando os códigos de comando. A indústria cinematográfica explorou razoavelmente bem essa em Goldeneye (produção de 1994). O Agente 007 é

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convocado a desarticular o plano mirabolante no qual um expert em computação tenta e quase consegue apagar as informações bancárias do Reino Unido, transferindo online os depósitos para a conta do vilão.

Imaginação à parte, há alguns anos um desses hackers norte-americanos, filho de um militar de alta patente classificado no Departamento de Defesa (Pentágono),acessou arquivos contendo as planilhas do orçamento das Corporações Armadas (Exército, Marinha, Força Aérea e Corpo de Fuzileiros Navais), e promoveu tamanha confusão que, pela primeira vez, os chamados falcões do Pentágono se convenceram da vulnerabilidade daquela rede e providenciaram novos sistemas de proteção eletrônica.

A propósito, a sucessão de escândalos e denúncias derivadas do vazamento de aproximadamente quinhentos mil documentos (principalmente telegramas enviados pelos serviços diplomáticos não somente norte-americanos em todo o mundo) levados a termo pelo Wikileaks, provocou uma revolução nos meandros dos serviços de Inteligência dos EUA.

Walter Laqueur ressalta que, nos últimos tempos, cresceram as especulações sobre o terrorismo informático e a guerra cibernética:

Um funcionário anônimo do Serviço Secreto americano vangloriou-se de que, com US$ l bilhão e vinte hackers competentes, ele poderia parar os Estados Unidos24.

Os hackers, entretanto, não oferecem tanto perigo quanto os crackers (categoria mais agressiva entre os computer maniacs) que, além de invadir os

softwares e descobrir os segredos contidos nos arquivos, tentam destruí-los por

intermédio da inoculação de vírus (programas criados especificamente para este fim); ou, pior que tudo, deletando os dados ou tornando-os irrecuperáveis até para os mais experientes analistas e programadores.

Um cracker dotado de conhecimentos aprofundados sobre química poderia, por hipótese, acessar os computadores/sistemas de um laboratório farmacêutico e, mediante comandos ainda mais sofisticados, alterar nos arquivos as fórmulas de alguns medicamentos e, em seguida, reprogramar os equipamentos da linha de produção, minimizando ou maximizando a dosagem de um ou mais insumos.

Não é difícil visualizar um renovado Dr. Strangelove (personagem de um dos filmes de Stanley Kubrick produzido nos anos sessenta),de carne e osso, revirando/ misturando, a milhares de quilômetros de distância, os arquivos da Inteligência Francesa, modificando relatórios de pesquisas ou alterando informações nas

homepages das corporações financeiras.

Tampouco deve ser olvidada a ameaça representada pela inclusão online de um ou mais sites destinados a oferecer “conselhos úteis” àqueles que pretendem enveredar pelos caminhos do extremismo. É o caso, por exemplo, de um (deplorável, grifo nosso!!!) Verdadeiro Livro Negro: Introdução aos explosivos, confecção de

bombas caseiras e diversas dicas sobre o assunto.

Esse documento, que pode ser impresso em doze páginas firmadas pelo “autor” (possivelmente um engodo para distrair a atenção dos incautos), um engenheiro e

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professor, secundado pela sigla G.E.T (Grupo dos Estudantes Terroristas), enuncia quais os principais fabricantes de explosivos no País, define critérios para a escolha e manuseio do material destinado à produção de petardos caseiros, e ensina como preparar dispositivos de tempo. Tudo isso com o suporte de ilustrações e diagramas de fácil compreensão e apresentando risco ínfimo para os futuros candidatos a imitar extremistas como Abu Nidal e Yahya Ayyash.

Inspiração para Best-Sellers

O simples fato de todos aqueles homens terem a habilidade de conseguir reputação limpa depois de uma existência de crimes e traições bastava como condição para seu ingresso na S.P.E.C.T.R.E. (Sociedade Política Especializada em Contra-Espionagem, Terrorismo, Rapinagem e Extorsão). Ian Fleming

Entre as nações econômica e tecnologicamente mais desenvolvidas, o terrorismo com formatação ideológica, religiosa ou mesmo embasado em propósitos de chantagem financeira, não somente ocupa generoso espaço nos blocos de noticiário como invade e se instala no imaginário coletivo por intermédio de obras ficcionais elaboradas pelos mestres do gênero, tais como Ian Fleming, John

Le Carré, Frederick Forsyth, Tom Clancy etc.

Nos anos cinquenta, sob o denso nevoeiro da Guerra Fria, alguns desses autores consolidaram reputação e conquistaram milhões de admiradores graças às tramas bem urdidas, apresentando quase sempre vilões multimilionários e discretamente sustentados, em seus vícios e idiossincrasias, pelos serviços secretos daqueles países do (hoje extinto) Bloco Socialista, bem como agentes coadjuvantes hiperinteligentes e glamurosos.

Tais personagens, idealizados como contrapartida ao proclamado “cientificismo mecanicista” da Alemanha Oriental, República Democrática da China e URSS (em relação a esta última, o simples fato de ter enviado a primeira nave tripulada ao espaço, além de dispor de um formidável aparato de propaganda, contribuiu para que se transformasse no alvo preferido dos escritores do gênero), proporcionaram um conjunto de aventuras que, mesmo consolidadas as mudanças derivadas da perestroika, além de superada a fase crítica da corrida armamentista, continuam atraentes para os (as) leitores (as) .

Ian Fleming, ex-agente do Serviço Secreto Britânico (assistente do contra-almirante John Godfrey nomeado diretor da Divisão de Inteligência Naval, e envolvido diretamente, entre outras missões, no planejamento de uma operação de sabotagem contra postos defensivos alemães durante a Segunda Guerra Mundial), pode não ter sido o primeiro a explorar esse caminho, mas abriu portas para que outros ficcionistas, aproveitando-se da prévia experiência como repórteres de agências noticiosas internacionais ou freelances bem-sucedidos, retroalimentassem as estratégias da Guerra Fria e construíssem pontes imaginárias unindo os serviços

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de segurança ocidentais (muitas vezes empenhados em disputas nem sempre cordiais pela hegemonia operacional numa região), “alertando” a Opinião Pública sobre os perigos do totalitarismo que, acreditavam, ameaçava a Europa Ocidental.

Fleming tornou-se um expert na criação de histórias mirabolantes, para a satisfação dos leitores e glória eterna do Agente 007 (Sean Connery e Roger Moore que o digam!), o superespião com licença para matar, concessão imaginária que pressupõe um status incomum.

Em Thunderball, por exemplo, a trama gira em torno do roubo de duas bombas atômicas transportadas num bombardeio Williers Vindicator da Royal Air

Force, mediante o assassinato da tripulação por um agente traidor infiltrado.

Segue-se o impasSegue-se: ou as potências ocidentais aceitariam pagar 100 milhões de libras em barras de ouro em troca dos artefatos nucleares, ou milhares de vidas humanas escolhidas, aleatoriamente, seriam sacrificadas, sem falar dos prejuízos materiais incalculáveis. Com o auxílio da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA)— e o apoio de um moderníssimo submarino nuclear norte-americano — James Bond resolve a questão.

Outra aventura: Auric Goldfinger, milionário excêntrico que não se envergonha em roubar no jogo de cartas, é o financista do Smersh25 (abreviação

russa para Smyert Shpionam, ou seja, Morte aos Espiões). Sua meta: com o auxílio de algumas das maiores quadrilhas de gangsters norte-americanos, assaltar Fort

Knox (o superprotegido depósito das reservas de ouro dos EUA), transportar em um

trem de carga a res furtiva para os porões um navio de guerra soviético “casualmente ancorado em visita de cortesia nas proximidades” e, de passagem, eliminar – por intermédio de gás venenoso – toda uma divisão do Exército e tropas da Guarda Nacional. Alguns reveses, um romance frustrado e... vitória para 007!

Sir Hugo Drax é o arquivilão em O Foguete da Morte. Atuando sob disfarce como se fora um empresário britânico ultranacionalista,é, na verdade, ex-oficial nazista (e agente duplo sob as ordens de Moscou). Com ajuda do próprio Governo de Sua Majestade, constrói um míssil poderoso que, tão somente pelo fato de saberem da sua existência, os países do Bloco Oriental se curvariam diante do Reino Unido. Só que o verdadeiro alvo do experimento é Londres. A destruição da capital do Império serviria como compensação parcial pela derrota militar do Terceiro

Reich e, ao mesmo tempo, agradaria os falcões do Exército Vermelho. Chamado a

investigar um estranho assassinato, 007 sofre algumas queimaduras e arranhões, mas resolve tudo e... adeus ameaça!

Morte no Japão revela um James Bond mais humilde. Acionado para colaborar

com o Serviço Secreto japonês na tarefa de eliminar um falso botânico (identificado ao longo da história como Ernest Blofeld, a quem derrotara em Thunderball) que - iludindo a boa-fé das autoridades japonesas — construíra em seu castelo-fortaleza, no litoral, um jardim repleto de flores e frutos venenosos, répteis e insetos peçonhentos. O agente britânico cumpre a missão. Quanto ao criminoso, que somente aparece aos olhos dos visitantes disfarçados com uma armadura de

samurai, vinha estimulando o desejo de milhares de suicidas em potencial. Para

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costumes do Japão, disfarça-se como pescador, casa-se com uma linda pescadora de pérolas, entra no santuário de Blofeld, duela com ele e... happy end !

É fácil depreender o pânico que o antigo e sempre renovado espectro do comunismo representava para os povos da Europa Ocidental, principalmente devido às demonstrações de força do aparato militar soviético durante o bloqueio e a construção do Muro de Berlim, na repressão ao levante húngaro (1956) e na Primavera de Praga (1967). Mesmo a derrota política imposta pelo então Presidente norte-americano John Kennedy ao Primeiro-Ministro Nikita Khruschev e seu staff, por ocasião do episódio dos Mísseis de Cuba, não conseguiu afastar esse temor generalizado.

O acirramento da disputa pela hegemonia mundial entre as duas superpotências (a China ainda não manifestara abertamente as suas aspirações a um lugar no topo do ranking) trouxe consequências funestas no varejo da luta contra o terrorismo. Grupos como a Organização do Exército Secreto (OAS), Fração

do Exército Vermelho (Baader-Meinhof), Exército Republicano Irlandês, Frente Popular para a Libertação da Palestina, Brigate Rosse, Pátria Basca e Liberdade, Exército de Libertação da Córsega etc., não somente invadiram o noticiário, como

obrigaram os ficcionistas a um amplo repensar sobre as tramas e personagens. Não havia mais centimetragem disponível nas páginas (sequer na lucrativa indústria cinematográfica) para heróis glamorosos, ricos, bem vestidos e assediados por mulheres com nomes exóticos: Vesper Lynd, Gala Brand, Tiffany Case... Os editores exigiam pragmatismo, ações realistas, locações urbanas conhecidas. A suave tintura romântica, até então visualizada, cedeu lugar a paixões, ainda que momentâneas e arrebatadoras; insinuações aqui e ali sobre a performance sexual dos heróis cederam vez a um novo estilo, privilegiando a descrição crua dos “embates” em lugares como garagens, escadas de edifícios residenciais e automóveis estacionados junto aos postos de vigília.

Houve ainda, durante breve período, algumas iniciativas no sentido de transportar dos livros para as telas do cinema heróis caricatos mobilizados contra psicopatas e organizações terroristas. Destacam-se os exemplos de Flint (James Coburn), Modesty Blaise (Monica Vitti), Napoleon Solo (Robert Vaughn) e

Illya Kuriakin (David McCallum) – os dois últimos agentes da U.N.C.L.E. (“Tio” em

inglês), poderosa agência de contraespionagem norte-americana empenhada na anulação de operações de sabotagem planejadas pelos comunistas. Tais produções registraram certo sucesso de bilheterias no Brasil, mas não passou disso.

A chacota literária e cinematográfica evoluiu de tal maneira que, como contrapartida ao bombardeio midiático ocidental preocupado em apresentar aos olhos do público os líderes soviéticos como trogloditas e as centrais de treinamento dos agentes secretos daquele país respectivamente como terroristas sem alma e antros de tortura e de aperfeiçoamento das artes negras, um escritor (não se sabe se a convite do Kremlin) idealizou a personagem de um “espião” quase tão charmoso como 007, culto, elegante e capaz de desarticular “operações de sabotagem” elaboradas contra o seu país pelo MI-6 (britânico). Não teve, porém, o mesmo êxito editorial.

Durante esse período, uma disputa feroz pela supremacia comercial perturbava os proprietários dos principais diários europeus. De um lado, jornais

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