MUSEU NACIONAL DE ARQUEOLOGIA IMPRENSA NACIONAL ‑CASA DA MOEDA
peninsular. Estado da questão,
problemáticas arqueológicas e
perspetivas de desenvolvimento
do campo de estudo
virgíliohipólitocorreia* 1
RESUMO
O presente trabalho pretende apresentar um quadro geral de evolução da produção e uso da ourivesaria arcaica no Ocidente da Península Ibérica e uma dis‑ cussão aprofundada das linhas de força desse quadro, tentando fazer a apresenta‑ ção sistemática da ourivesaria conhecida em Portugal da Pré ‑História ao período Romano.
Questões técnico ‑estilísticas, cronológicas, socioculturais e de enquadra‑ mento arqueológico mais geral são feitas nesse âmbito.
Palavras‑chave:Ourivesaria−IdadedoBronze−IdadedoFerro
ABSTRACT
This paper aims to present a general picture of trends in production and use of archaic jewellery in the West of the Iberian Peninsula, and a thorough discussion of its main lines of development, trying to make a systematic presentation of jewellery known in Portugal from Prehistory to the Roman period.
Technical and stylistic, chronological and socio ‑cultural issues and questions about its wider archaeological framework are discussed in that context.
Keywords:Jewellery−BronzeAge−IronAge
* Centro de Estudos de Aequeologia, Artes e Ciências do Património; Museu Monográfico de Conímbriga, 3150 -220 Condeixa, e ‑mail: [email protected]
1. INTRODUÇÃO: PORQUÊ ESTE ARTIGO?
Em 2013 coincidiram as edições de duas obras muito significativas sobre a ourivesaria antiga do território português, designadamente o livro que constitui o relatóriofinaldoprojetoAuCorre(GuerraeTissot,2013),queestudouacoleção doMuseuNacionaldeArqueologiadopontodevistadaanalítica,tendoemvista asuaconservaçãoerestauronoambienteemqueatualmente(desde1980)se encontra, na chamada Sala do Tesouro, e o livro Ourivesaria Arcaica em Portugal: O brilho do poder(Correiaetal.,2013),ediçãodosCorreioseTelecomunicações de Portugal, associada a uma série filatélica sobre o mesmo tema. Sendo também 2013oanoemquesecelebrao120.ºaniversáriodoMuseuNacional(oquefoi tambémmotivoparaaemissãofilatélicareferida)entendeuacomissãoredatorial d’O Arqueólogo Português fazer focar um artigo de fundo da revista nas coleções doMuseu(A.Carvalho,com.pes.):equecoleçãomaisemblemáticadoqueade ourivesaria?
A minha participação nas duas primeiras iniciativas mencionadas levou a que me fosse endereçado convite para participar, na presente forma e data, na terceira. Agradeço, penhorado, o convite, mas esta forma já consagrada pel’O Arqueólogo Português – mas que se desvia um pouco da forma mais tradicional de as revistas construírem os seus números, através da receção de propostas de artigos autonomamente apresentadas por autores que conduziram investigação num determinado tema e a pretendem expor ao público e ao juízo dos seus pares – necessita, porventura, no caso vertente, de alguma explicação, tal como pode julgar ‑se necessitando justificação esta concentração de esforços editoriais num único tema em época de escassez de recursos. Darei tal justificação em dois aspetos: o da relação deste trabalho com as duas outras publicações referidas e o dos objetivos a que ele se propõe.
próprios materiais. Diga ‑se que, para a maioria dos casos, contava ‑se apenas com asanálisesdeAxelHartmann(1982)edeVolkerPingel(1992),comaslimita‑ ções inerentes à tecnologia utilizada por estes investigadores, que era a que estava disponívelnaépoca,peloqueoprojetoAuCorreaportaaoestudodaourivesaria antiga em Portugal um contributo notável pelos dados inéditos que recolhe.
Não é, todavia, caso de se considerar estar tal problemática fechada, bem pelo contrário, como se tentará demonstrar.
OlivroeditadopelosCTTintegra‑senumasériemuitonotável,degrande sucesso, dirigida para o grande público, mas recorrendo sempre a material de qualidade científica. Nesta ocasião foi possível reunir numa única obra os con‑ tributos dos principais investigadores que se têm dedicado ao tema no país: Rui Parreirafoi(comClaraVazPinto)responsávelpeloprimeirocatálogosumário dacoleçãodoMNA(ParreiraePinto,1980)equeanosmaistardeiniciou(com BarbaraArmbruster;ArmbrustereParreira,1993)apublicaçãodoseuinventário sistemático,aqualinfelizmentefoilogointerrompida;umsegundovolumedessa sériecontariacomocontributodeArmandoCoelhoFerreiradaSilva(2007),que tinha estudado a ourivesaria do Norte do país na sua obra sobre a cultura castreja (naprimeiraediçãodaobra,de1986)–euprópriocolaborarianessesegundo volume, tendo desenvolvido algum trabalho, nomeadamente acompanhado no MNAporAméliaFernandese,sobretudo,AnaIsabelPalmadosSantos,porvezes publicadodeformaesparsaemvárioslocais(Correia,1995;2005;2006;2007; Correiaetal.,2007).
A obra em causa é, portanto, a primeira apresentação sistemática da ouri‑ vesaria conhecida em Portugal da Pré ‑História ao período Tardo ‑romano, mas com as limitações de espaço e de tratamento dos temas inerentes a uma obra de divulgação, com o aparato crítico reduzido a um apêndice e a discussão dos temas radicalmente reduzida à indicação de algumas linhas de força.
Inicio por este último ponto a definição dos objetivos do presente trabalho: sendo possível estabelecer um quadro geral de evolução da produção e uso da ourivesaria arcaica no Ocidente da Península Ibérica, uma discussão mais apro‑ fundada das linhas de força desse quadro em moldes científicos, suportada por aparato crítico, está por fazer.
Segundo objetivo, que decorre do primeiro, é a abertura de perspetivas acerca do que pode ser o desenvolvimento da investigação da ourivesaria arcaica dentro dosestudosdearqueologiaemgeral.Salvoraríssimasexceções(entreelasA Cul‑ tura Castreja do Noroeste de Portugal e o Ensaio de História Regional dedicadoàBaixa
Estremadura,porJoãoLuísCardoso,2004),aourivesariaestáausentedemuitos estudos gerais de várias épocas e regiões, mesmo quando existem evidências e algumaspeçassãoreferidas;estaéumasituaçãoparadoxal,admitindoopressu‑ posto de que se trata de um dos elementos por excelência de representação das elites.
Por último, as características intrínsecas do material abrem portas a uma introdução forte nesse desenvolvimento da investigação do contributo das ciên‑ ciasetecnologiasdaQuímicaedaFísica.Aciênciaeatecnologia,independen‑ temente do seu tipo, custo, extensão ou quantidade, não nos vão responder – a nós, arqueólogos – a nenhuma pergunta que não saibamos já colocar, a priori; este trabalho pretende desenvolver precisamente esse aspeto: pensar que pergun‑ tas gostaríamos de ver respondidas. Para tal parece correto iniciar este exercício por uma reflexão acerca daquilo sobre o que nos interrogamos: as peças de ouri‑ vesariaqueconhecemos(easoutrasqueimaginamosteremexistido,masnão chegaramaténós).
2. DEPOSIÇÕES, OCULTAÇÕES E ACHADOS. OS CONTEXTOS DA OURIVESARIA.
O problema dos achados de ourivesaria é diretamente condicionado pelo perene valor do metal. O valor venal dos objetos arqueológicos é um fator de primeira grandeza no conjunto de questões que leva à perda para a ciência, à destruição, à mutilação e à ocultação de informações acerca dos achados ocasionais;defactomuitoschegamaosmuseuscomaintermediaçãodosourives, que tradicionalmente se recusam a dar informações concretas acerca de «Quem achou? Onde apareceu? Havia mais?». O mesmo ocorre, por exemplo, com a numismática romana, mas nesse campo é já sabido que pelo menos uma parte dos achados será publicada por colecionadores ou, através deles, por numismatas com competência, e a investigação aprendeu a incorporar nos seus raciocínios o elemento estatístico de «amostragem» acerca de tesouros que, tendo ‑se medido em quilos aquando da data de achado, são referidos na bibliografia por dezenas deespécimes.Nadadesemelhanteexisteparaaourivesariaarcaica(Correiaetal., 2013,p.63‑66;Vilaça,2006a).
Em abstrato, podemos dividir os achados em várias categorias que nos dão indicações sobre o processo pelo qual o objeto chegou até nós. Por exemplo, quanto à intencionalidade, que pode originalmente ter sido positiva ou negativa: adeposiçãodapeçafoiintencionalounãointencional;nestaordemdeideias, um achado que na origem não foi sujeito a um processo intencional de coloca‑ ção no local onde veio a ser encontrado pertence à categoria das peças «perdidas acidentalmente».Umachadointencional(expressãoincorretaqueéaparáfrase
encontrado.
As preocupações rituais podem ser de variadíssima ordem, não sendo efi‑ caz pormenorizá ‑las, mas também a preocupação utilitária pode revestir ‑se de diversos aspetos alternativos significativos: a utilidade da ocultação pode ser emergente(comoumaocultaçãoemconjunturadepossívelrouboousaque)ou estudada(comomedidadesegurança,porexemplo);pode–noquedizrespeito aosenvolvidosnoprocessodedecisãodaocultação−serprivadaeparticular,ou pode ser coletiva.
Parece correto distinguir «ocultação» de «deposição» atendendo à publici‑ dade do ato. Ocultação é algo que se quer secreto ou reservado a uns poucos esco‑ lhidos;deposiçãoéumatopúblicoetestemunhado.Ocasotípicodadeposiçãoé a oferenda funerária, mas existem outros, nomeadamente no domínio religioso. Esta distinção é de importância primordial na reconstituição dos processos que conduziram à não recuperação do material ocultado ou depositado.
Acomplexidadecomeçaasurgirquando,numexercíciodereductio ab absur‑ dum,seperguntar«Comosedistingueumaocultaçãoparticulardecarácteremer‑ gente,deumadeposiçãodeumobjetonumespaçosacronãoconstruído(tem‑ plum in aere)?»,nainexistênciadeobservaçõesadicionais.
Mas estas questões podem ser levadas mais longe, dentro do domínio con‑ creto dos fenómenos post ‑deposicionais, nomeadamente através de uma Dispu‑ tação de Quintiliano que é muito preocupante para os raciocínios comummente desenvolvidos pelos arqueólogos.
ADisputatioCCCLXXIIIdeQuintiliano(cit.Ormerod,1997,p.264)relatao seguinte caso: um viúvo enterra a sua mulher com as joias que lhe pertenciam e voltaacasar;maistardeécapturadoporpirataseescreveparacasapedindoque sejapagooseuresgate;amulherabreotúmulodasuapredecessoraeenviaas joiascomopagamento;oenteadoprocessaamadrastapelaviolaçãodotúmulo da sua mãe, mas entretanto o pai regressa e deserda ‑o.
Este caso de contornos burlescos deve ser lido à vista da provisão do Direito CivilRomano(Paulo,I.21.11)dequeomaridopoderetirardodotedasuamulher as despesas que fez com o seu funeral. Ora, o título 21 em que a provisão 11 se enquadra é dedicado aos sepulcros, o que indica que se fala precisamente dum aspeto do caso de Quintiliano: a abertura de túmulos para recuperar valores aí depositados.
Esta questão jurídica parece estar em flagrante contradição com a provisão da LeidasDozeTábuas(X,8)quantoàdeposiçãonostúmulosdegrandesquantida‑
desdeouro.Admita‑seque,seaquantidadedeourofossepequenaoincómodo de o retirar do túmulo poderia ser dispensado e, com ele, os aspetos certamente mais desagradáveis da operação. Mas estar ‑se ‑á aqui perante uma situação mais complexa? Seria a deposição nos túmulos uma alternativa ao depósito de partes dafortunajuntodosmeiosconsuetudinariamenteconsagrados(osbanqueiros, oscofresdospatronos),queaLeiteriatentadocombater?
Outra questão, independente desta, mas igualmente rica de perspetivas para os arqueólogos:
• Serão os preceitos aqui mencionados (deposição de joias nos túmulos, com seuslimiteseproscrições)exclusivosdeRoma?Terãooutrassociedadesutilizado a deposição funerária como forma de entesouramento recuperável (com seus interditos e permissividades)? As respostas em que penso para estas perguntas são, respetivamente, não e sim, propondo como conclusão provisória que, prova‑ velmente, as deposições funerárias foram entendidas nalgumas, senão em muitas, situações, como deposições recuperáveis, um pouco ao modo como as «oculta‑ ções» estudadas, privadas ou coletivas, podiam ser.
E parece dispensável revisitar a historiografia para sustentar que todas as ofer‑ tasatemplosnaAntiguidadeforam,quasepordefinição,propriedadepúblicaao dispor dos poderes do momento quando a situação foi considerada suficiente‑ mentegrave.TalveznaGréciahouvessemaisescrúpuloseemRoma,noperíodo das guerras civis, se tenha atingido um nadir no temor expectavelmente associado a estas questões, mas a noção a reter é, porventura, que um depósito ritual que nunca foi recuperado, deve ter assistido a um qualquer fenómeno, outro que a simples permanência do respeito religioso.
Parece possível sustentar, portanto, que existe um continuum nas permuta‑ çõespossíveisentreasintençõesoriginaisnacolocaçãodeumobjeto(sejauma joia)numasituaçãodeterminadaeasuarecuperaçãoemtemposhodiernospela investigação. Isto vai no sentido de dizer que situações muito diferentes na ori‑ gem e no processo podem ter resultados documentalmente muito semelhantes e situações comparáveis podem, por circunstâncias não determináveis, chegar aos dias e olhos de hoje de forma aparentemente dissemelhante. Neste sentido, a discussão das intenções originais e dos processos supostos, sem o aporte concreto de dados de observações de terreno, é uma discussão metafísica e não ‑científica.
Uma análise aprofundada dos contextos tem obviamente valor, como Raquel Vilaça(2007,p.23‑27)muitobemdemonstrou,masaprópriaaberturadepers‑ petivas aos caminhos que conduzem à deposição, no que significam de entendi‑ mento da atividade consciente e autónoma dos manipuladores dos objetos prévia à deposição, leva a pensar que certamente não será na contextualização dos acha‑ dos de ourivesaria, maioritariamente sempre suposta e não verificável, que reside
buiçãodaarqueometria,semdesprimorparaosseusfautores).
3. O QUE LUZ E É OURO
Os achados de ourivesaria representam, na sua globalidade, um indicador significativo de uma atividade – a mineração e transformação de metal precioso – que representou indiscutivelmente um papel muito importante nas sociedades antigas e que, para além disso, produziu artefactos cuja utilização era central na afirmação e representação das elites dessas sociedades, sendo por isso legítimo atribuir ‑lhe valores simbólicos que permitirão compreender alguns fenómenos que nelas ocorriam.
Olhando, de uma forma muito geral, para todo o período coberto pelo estudo da ourivesaria arcaica, do iiimilénioa.C.aoséculovid.C.,verificamosumaapa‑ rente evolução que interessará aprofundar, para verificar a possibilidade de estar‑ mos perante um desses fenómenos sociais relevantes que importa compreender.
De forma simplificada, pode afirmar ‑se que ao longo do iii milénio e pri‑ meiro terço do ii milénio os achados que conhecemos são, essencialmente, depo‑ siçõesfunerárias.AgrandemaioriadosachadosdoIImiléniosão,todavia,acha‑ dos isolados, que se supõem ser fruto de ocultações não recuperadas ao longo desse período. Os inícios do imilénioedaIdadedoFerrorevertemasituação, e voltam a tornar ‑se comuns as deposições funerárias, ocorrendo apenas algu‑ mas ocultações cuja composição permite, por vezes, oferecer alguma explicação quantoàsuaorigem;noentanto,aolongodesteperíodoaprogressivararefação do metal precioso é evidente e vai, sobretudo a partir do século iia.C.tornar‑se ainda mais sensível devido à presença regular da amoedação.
Este panorama não se restringe aos achados de ouro, acontece também comosdepósitosdebronze(Gibson,2007;Vilaça,2007,p.19‑27).Oii milénio assiste a um conjunto de fenómenos, de que os depósitos de metal fazem parte, que levanta questões muito interessantes relativamente à visibilidade ou invisibilidade do registo arqueológico, que se dividem meio ‑por ‑meio entre aquelas que são imanentes do próprio registo e aquelas que são operativas, fruto das possibilidades e dificuldades da investigação arqueológica (Jorge, 1998, p.151‑167).Sãodefactorarososcasosdeexamededeposições/ocultaçõesnoseu contexto arqueológico mais lato, exercício por outro lado pouco frutuoso, dada a disparidade de informações existentes, como no caso, a alguns títulos excecional, deClarosMontes(Paço,1965,p.162;Calado,2001,p.32e240).
Considerandoasobservaçõesfeitasnopontoanterioracercadaslimitações doestudocontextualdosachadosdeourivesaria(porissomesmo,jáaquiredu‑ zidosaumadistinçãosimplistaentreocultaçõesedeposiçõesfunerárias),oexer‑ cício de partir do estudo dos depósitos para uma contribuição substantiva ao estudo do período é desde logo assumida. Há no entanto um elemento imanente do registo que se pode considerar importante, que é o volume de metal ocultado.
É claro que não existe um algoritmo que permita transformar o volume de metal conhecido na atualidade numa aproximação ao volume de metal recu‑ peradonaAntiguidade.Essealgoritmonãoexistepoisasvariáveisqueteriade incluir são grandezas desconhecidas, nomeadamente:
• Qual é a rendibilidade das distintas fontes de matéria ‑prima para a ourivesaria? • Qual é a taxa de reutilização de metal, através da transformação de objetos mais antigos, na produção de ourivesaria em cada período?
• Qual a incidência de situações em que objetos ocultados, depositados ou con‑ servados em uso no seio das sociedades, foram recuperados ou mobilizados para a sua transformação em novos objetos?
• Qual a taxa efetiva de sobrevivência no registo arqueológico das peças deposi‑ tadasaolongodostempos(quetalveznãosejaidênticaparatodososperíodos)? Não obstante, é possível, e porventura vantajoso, examinar estas questões com maior pormenor e recorrendo a alguma informação arqueológica de base. 3.1. A matéria ‑prima
ÉpossívelqueatéaoestabelecimentodecontactosregularescomosFenícios, com o incremento da procura de metal precioso que estes causaram, as sociedades peninsulares não se tenham dedicado à mineração propriamente dita. Parece ser estaaliçãodadapelainvestigaçãodamineraçãonaregiãodeHuelva(Blancoet al.,1970;BlancoeRothenberg,1981,p.169‑170)eamesmaconclusãopoderá talvezserintuídaapropósitodeAljustrel(DomergueeAndrade,1971;Alarcão, 1997, p. 100‑102), embora aí com menos suporte. Até essa época, portanto, o ouroseriarecuperadoatravésdalavagemdeareiasfluviais(Healy,1978,p.31‑35) e essa é de facto a situação a que Estrabão, escrevendo num período anterior ao do grande desenvolvimento da exploração aurífera peninsular em época imperial, se refere.
Esta exploração aurífera romana é potencialmente responsável pela oblitera‑ ção de muita evidência anterior, a ter existido. No entanto, deve ser introduzido aqui um módico de proporção, que se pode exprimir da seguinte forma: a explo‑ ração propriamente mineira pré ‑histórica deve ter sido suficientemente modesta para não ter deixado traços nas zonas de exploração romana pois, e por analogia, nos locais onde a exploração romana aconteceu, a exploração moderna dessas
que foram interessantes à sua pequena escala em determinados momentos (designadamentenaIdadedoFerro),massuficientementenão‑importantespara serem ulteriormente abandonadas, sobreviveram reconhecivelmente em zonas limitadas(CorreiaeParreira,2002,p.44‑45).
Existe um problema subsidiário a este, que tem que ver com a natureza do metal explorado. É possível que algum ouro e alguma prata fossem recuperados comosubprodutodaexploraçãodocobrenafaixapiritosadoSudoeste(Healy, 1978,p.26),jánaIdadedoBronze.Eégeologicamenteplausívelquealgumouro fosse recuperado nas mesmas operações que conduziam à exploração do estanho em meio aluvionar. No entanto, o mais provável é que a parte mais substancial do aporte de metal nobre à circulação na pré ‑história fosse o bateio, a lavagem das areias fluviais para a recuperação de ouro em palhetas ou pepitas.
Arendibilidadedestemétodo,pelosdadosmodernos,émuitíssimovariável, desde frações de grama por tonelada até cerca de 10 gramas por tonelada. Estes dados modernos, todavia, provêm sobretudo de explorações comerciais em áreas dedepósitosaluvionaresnaaltabaciadosriospeninsulares(DomergueeHerail, 1978,p.40‑41),havendoindicaçõesdequeosteoressobemdabaseparaotopo dosdepósitosesobemtambémdemontanteparajusante;éportantopossível, mas restaria para ser determinado, que os teores continuariam a subir ao longo do curso dos rios, até às zonas onde a exploração pré ‑histórica teria lugar.
Esta última afirmação não parte de nenhum apriorismo. Parece de facto pouco provável que as sociedades da pré e proto ‑história tenham explorado intensivamente as jazidas aluvionares das altas bacias, onde realmente nunca se encontraramvestígiosdeocupaçõessignificativasdessaépoca;PlínioeEstrabão concorrem na coincidência das zonas de produção de ouro em zonas montanho‑ sas e desérticas, o que algumas análises paleoambientais corroboram (Domer‑ gueeHerail,1978,p.22‑26).Aexploraçãopré‑históricadessaszonas,aexistir, revestir ‑se ‑ia provavelmente de um carácter episódico, desligado das correntes essenciais de desenvolvimento do sistema agropastoril.
Aqui reside a principal dificuldade deste tema: a necessidade de associar umaatividadeintrinsecamenteinvisívelnoregistoarqueológico(jáqueoúnico instrumento seu específico – a bateia – não seria reconhecido como tal mesmo quefosseencontrado,eventualidadejáporsiduvidosa),possivelmenteconduzida em pequena escala e de forma irregular, com o padrão de povoamento e ocupação doespaço(Jorge,1999,p.121‑124),noqueasituaçãosedistinguedosaspetos ligados à mineração de outros metais (O’Brien, 2007), de forma diretamente
ligada à diferente rendibilidade dos depósitos e dos mecanismos a jusante no seu processo de transformação e utilização dos produtos.
Haverá um instrumento que permitirá analisar esta questão. Se for possí‑ vel demonstrar uma preferência de localização de povoados do ii milénio junto de rios com condições de exploração de areias auríferas, esse seria um elemento explicativo importante. Infelizmente tal preferência, a ser visível, não foi ainda demonstrada.
Ainterpretaçãoalternativaéadequeaexploraçãodeareiasauríferasnão era uma preocupação crucial da localização dos povoados, porque a atividade era suplementar ao sistema agropastoril, nuclear na economia. Esta atividade, irregu‑ lar e episódica decorreria em zonas marginais dos territórios dos povoados, nas praiasfluviaissujeitasamodificaçõesdecontornodeumanoparaoutro(circuns‑ tânciasquepotenciariamamobilizaçãodemetalnossedimentos),nospequenos troços de rio sujeitos a secas periódicas, que podem chegar à sua completa seca (que no Alentejo se designam por «pegos») e, nas mesmas circunstâncias, nos valesderibeirasperiodicamenteexpostas;emsuma,locaisquepoderiam,ealiás deveriam, desempenhar um papel muito importante no sistema agropastoril, designadamente na alimentação e transporte dos gados, pois são os mesmo locais onde os rebanhos se dessedentam e atravessam, mas que, pela sua própria impor‑ tância, dificilmente são controlados de forma estrita por um único povoado, se a situação for olhada num espetro cronológico suficientemente amplo.
É todo um conceito de paisagem que necessita de ser convocado para a com‑ preensão desta questão, com o papel dos rios, das linhas de água, no seu centro. O rio une, não separa, não é uma fronteira. Mas o rio, ponto de convergência, é inevitavelmentepontodeconflitooudenegociação.Ariquezaauríferadorio, oferecida episodicamente à(s) sociedade(s) que à volta dele habita(m) (e, por vezes, esse dom foi retribuído com outras ofertas ritualizadas) é um elemento principal da relação destas sociedades com a natureza, na medida em que é um recurso natural essencialmente não utilitário, manipulado única e simplesmente em funções ritualizadas de representação social é, em suma, a forma natural de exprimir uma função cultural.
O que, no entanto, nos reconduz à efetiva rendibilidade do bateio. Qual seria a expectativa normal de uma operação fluvial e o que poderia essa atividade representar a montante de uma fileira económica e artesanal produzindo objetos de adorno?
Existem indícios de que ao carácter episódico da atividade que se propõe ter sido dominante, poderia ter estado associado uma taxa de sucesso muito signifi‑ cativa(vejam‑seasreferênciasmodernasemCelestinoeBlanco,2006,p.26‑27), sobretudo no que se poderia designar como o sucesso anormal estocasticamente distribuído, ou seja, em certas ocasiões a rentabilidade de uma operação poderia
com eternidades de metal acumulado sem nunca ter sido explorado. Mesmo descontando a senescência natural dos depósitos (que eventualmente seriam arrastadosparaooceano),existiriamcertamentezonaslocalizadasderiqueza imensurável.
• Em segundo lugar, a expansão do sistema agropastoril que se tinha iniciado no vi milénio e conhecido desenvolvimentos importantes ao longo do iv e sobretudo do iii milénio teria implicado importantes movimentos de deflorestação e de sub‑ sequente erosão nos depósitos aluvionares das altas bacias dos rios, assegurando um fluxo contínuo de sedimentos ricos em mineral que em parte atenuariam os efeitos de esgotamento das operações em zonas localizadas ao longo do período estudado e que serão talvez os principais responsáveis pela reputação da riqueza aurífera da Hispânia nas fontes clássicas.
Independentemente de toda a análise possível da ecologia do ouro, o que é manifesto da evidência conhecida é que existe ao longo do iimilénioa.C.um movimentosustentadodeaumentodopesodosobjetosproduzidosnessemetal; não sendo possível, pelas razões antes expostas, imaginar credivelmente que as quantidades de ouro utilizadas pudessem ser produto de uma única operação de recolha de metal, ou mesmo de operações de recolha de metal continuadas aolongodotempoemáreasdelimitadas(poisédifícilimaginarcomosearma‑ zenariaometalatéàsquantidadesmanipuladasserematingidas),élogicamente necessário imaginar que o ouro vai sendo transformado paulatinamente, e que sucessivos objetos se combinam até atingir o volume que comunidades em con‑ creto(ouindivíduoscompapeldeterminantenasdecisõesdessascomunidades) deliberaram reunir numa só joia.
É esta situação que explica a frequente ocorrência de: i)cadeiasdeespirais encadeadas;ii)«ouroemmeada»,porvezesassociadoaobjetoscujaaparência é a de material recusado; iii) conjuntos complexos, normalmente com objetos aparentementerecusados(MariaAméliaFernandesinArmbrustereParreira1993, p.180;Correiaetal.2013,p.36‑39).
Estas três formas de conservação do ouro, prévias à produção de objetos utilizáveis como joias, são indicadores de três fenómenos distintos, ou de três momentos diferentes no processo de acumulação que proponho interpretar como «a cadeia trófica do ouro».
Asespiraisrepresentam,segundoestateoria,aformaprimáriadeconser‑ var o ouro próximo da sua fonte de recoleção, reunindo várias características
importantes para facilitar a sua manipulação, a produção dos objetos e, inclu‑ sive, fenómenos de intercâmbio primário do metal: a transformação do ouro em fios não levanta problemas técnicos que não pudessem ser resolvidos por técnicasmetalúrgicaselementares;umaespiraléumaformanaturaldearma‑ zenar um fio metálico em boas condições de conservação e com economia de espaço;aestandardizaçãodasespiraisoferecedesdelogouminstrumentode medida da quantidade de metal, podendo no limite funcionar como instru‑ mento pré ‑monetal.
Oouroemmeada(dequeoachadomaisemblemáticoéopequenoescon‑ derijo de Sequeade, que foi ocultado dentro de um vaso troncocónico típico do BronzeMédiodoNortedopaís;Soeiro,1982)representa,provavelmente,uma forma tecnologicamente menos evoluída de realizar o mesmo passo tecnológico que as espirais. Porventura, pode ter sido recorrente que algumas comunidades, manipulando menos frequentemente o metal precioso e por isso não dispondo da mesma aptidão técnica, simplificassem dessa forma o processo de transforma‑ ção e armazenagem das pepitas.
Os conjuntos complexos, que por vezes combinam as duas formas mencio‑ nadas com objetos (ou seus fragmentos) em distintos estados de conservação, deverão recobrir diferentes estádios de aproximação à produção final de joias: nalguns casos poderão representar uma acumulação primária de metal de uma comunidade ou de um proprietário, feita ao longo do tempo sob metodologias que foram evoluindo, noutros poderão ser verdadeiramente «depósitos de fundi‑ dor»,ocultadosouperdidosantesdaoperaçãofinaldefundição(sendoocaso maisrevelador,porventura,otesourodeBélmez;Almagro,1977,p.56).
Em qualquer caso, a tipologia dos objetos incluídos nesses conjuntos, se der indicações cronológicas, estabelece um terminus ante quem para a ocultação.
Dois casos parecem merecer atenção especial, pois os objetos associados dão indicações potencialmente reveladoras da extensão cronológica do pro‑ cesso:otesourodeMéridanoBritishMuseum(Almagro,1977,p.35‑38)eo tesourodeChaves(Armbruster,2000,p.202):oprimeiroconjuntoincluiuma dita «tobillera» que, se se tratar efetivamente de um «basket ear ‑ring», situaria a deposição no Bronze Antigo (Briard, 1998, p. 118‑122) o segundo conjunto inclui um bracelete de tradição Villena‑Estremoz que alarga o espetro crono‑ lógicoatéépocasmuitomaistardiasdaIdadedoBronzeeredirecionaaárea geográficadestefenómenodoAtlânticoparaoMediterrâneo(cf.Ruiz‑Gálvez, 1988,p.108‑111),comoaliástambémacontece,mascommenoscertezas,com oconjuntodeSãoMartinhodeAlcácerdoSal(Armbruster,2000,p.208;Cor‑ reiaetal.,2013,p.88‑91).
Trata ‑se, em suma, de um processo de duração milenar e de grande espetro geográfico.
bilidadedematéria‑primanoterritóriodascomunidades;aabundânciadeoutros recursosquepermitissem,porintercâmbio,obteressemetal;acapacidadede,por meioscoercivos,arrecadarrecursospertencentesacomunidadesvizinhas;enfim, a inteligência das elites na gestão das reservas, através do dom, do intercâmbio edosaque(todoselescomumelementodereciprocidadenãonegligenciável), determinariam finalmente a riqueza relativa de uma comunidade e a fração dessa riqueza imobilizada nas grandes joias.
E os achados demonstram que essas joias são por vezes reutilizadas para a produção de outras mais pesadas.
Esta situação, todavia, carece de mais exame.
Enquanto elemento de representação, as joias seriam utilizadas, não, talvez, numa base quotidiana, mas como elemento circunstancial: isto pode ser observado pelo facto de a maioria das grandes peças não mostrarem um acentuado desgaste pelouso,sendonestepontooscolaresdaSenhoradaGuia(Kalb,1992)umaexceção.
A situação pode ser facilmente reconstituída: cada exposição de uma joia é ocasião de insegurança; pode dar‑se um acidente, um roubo ou um saque. E quanto mais importante a joia, mais agudos os riscos.
Pode portanto postular ‑se que, quanto mais importante a joia, mais condicionada estaria a sua exibição, e a escolha das ocasiões em que tal aconteceria constituiria o elemento central da ritualidade das circunstâncias da sua exposição, porpartedessacomunidade.Istoconstituiriaa«biografia»dasjoias(Gosdene Marshall,1999,p.174‑176).
Esta «biografia» seria uma condicionante muito forte ao desenvolvimento da cadeia trófica do ouro, pois haveria limites, do foro mitológico e ritual, ao sacrifício de peças específicas para a produção de outras maiores ou mais pesadas, condicionantesmaisfortesaté–pode‑sepostular–queolimitelogístico(pelo menosparacertascomunidades).
Deve ‑se portanto crer que a «biografia» das peças tem um potencial mito‑ poiético,ligadoà«genealogia»quesubjazà«biografia»(op.laud.,p.176‑177)e diretamente proporcional à limitação ritual das circunstâncias de exposição das peças. Quanto maior o investimento colocado numa joia, seja em quantidade de metal utilizado, seja sobretudo na memória das peças já de si notáveis que foram sacrificadas para a produzir, menos frequentemente essa peça será exposta, seja por precaução, seja como forma de assegurar a permanência do seu alto valor ritual e mitológico e, no limite, a «melhor peça de todas» nunca encontra uma situação suficientemente especial para ser mostrada.
É por esta forma que as comunidades operam o que já foi identificado como sendo a «retirada» intencional das peças do seu esquema social. Mas não se deve por tal pensar que essas peças não continuaram a existir nesse esquema, ao nível da mitologia partilhada por conjuntos de comunidades e, dessa forma, continua‑ ram a desempenhar o seu papel.
3.4. Transformações territoriais e investigação
O último elemento do algoritmo impossível que foi acima proposto para acompreensãoglobaldovolumedemetalmanipuladonaAntiguidadeéoda sobrevivência dos objetos no registo arqueológico e da sua efetiva recuperação: há um elemento que é necessário abordar na compreensão deste aspeto e da sua eventual modificação, que é o do possível incremento do volume dos nossos conhecimentos através de um programa de deteção remota por recurso a deteto‑ resdemetais,quepaísescomoaDinamarcaouoReinoUnido(Thomas,2012) levam a cabo utilizando para tal a cooperação de amadores voluntários que utili‑ zam tais aparelhos como atividade de lazer.
Recentemente o programa dinamarquês foi avaliado positivamente como um significativo mas rendoso investimento, que teria, para além de aumentar osconhecimentos,aberto,naverdade,novoscaminhosdeinvestigação(Dobat, 2013,p.718‑719).
A atual legislação portuguesa não permitiria imaginar um programa desse género,poisautilizaçãodedetetoresdemetaiséproibidapelaLein.º121/99,de 20 de agosto. E, acrescento desde já, ainda bem que assim é.
Não considero convincentes os argumentos sistémicos a favor da integração da atividade de detetorismo na prática científica, pois é evidente que se trata, sem‑ pre, de uma atividade baseada em princípios não científicos, irresponsável quanto aoscontextosdosobjetosefrequentementeprejudicialàsuaconservação(sobre‑ tudo quando é levada a cabo sobre sítios mais complexos e não vocacionada paraalocalizaçãodedeposiçõesisoladas,oquenuncaacontece).Etãopoucose encontram, a meu ver, suficientes exemplos relevantes de achados exemplarmente contextualizados – que todavia existem – para contrabalançar estes aspetos.
Reputo, portanto, o foco colocado neste género de programas como sendo um epifenómeno da arqueologia antiquarista e pré ‑científica. E creio melhor direcio‑ nado o investimento na melhoria das capacidades públicas de acompanhamento e vigilância das transformações territoriais que irão paulatinamente trazendo à superfície as evidências da ourivesaria arcaica que ainda se mantém soterradas.
E se é da recuperação de objetos impressionantes que se trata, há sempre tare‑ fasaempreender,comoéocasodeumbraceletedatradiçãoVillena‑Estremoz, proveniente de Portalegre, recentemente transacionado num leilão internacional (infra fig.23).
com a matéria disponível, não com aquela desejada para uma situação ótima. E há também um elemento não quantificável nem determinável com precisão, que pode e deve ser trazido à discussão: não devemos rejeitar a hipótese de o acumular de achados, cristalizado numa qualquer peça a identificar que reúna características, não inéditas, mas até aí não perfeitamente identificadas noutras peças, venha a trazer à atualidade dos conhecimentos disponíveis algum fenó‑ meno ou conjunto de processos que até aí não estavam considerados. Mas esta é umaconcessãológicagratuita;seequandotalocorrerainvestigaçãoincorporará esse dado – até lá há que trabalhar com o material acessível.
E é neste universo que importa adiantar aquela perspetiva que, na introdu‑ ção do presente texto, foi erigida em primeiro dos seus objetivos: uma discussão aprofundada das linhas de força do quadro geral de evolução da produção e uso da ourivesaria arcaica no Ocidente da Península Ibérica.
Esta discussão pode, mas não deve, afastar ‑se da questão central da produção daspeças,enquantoresultadodaintervençãodeumindivíduo(oartífice)sobre uma quantidade específica de matéria ‑prima, seja em bruto, seja sob a forma de objetos a reciclar.
Deste ponto de vista, a designação destes indivíduos como «demiurgos» justifica ‑se na medida em que se está perante algo mais que a simples transformação, por processos mecânicos ou físico ‑químicos, de uma qualquer matéria anódina. Pelo contrário, trata ‑se da intervenção especializada de um indivíduo sobre um elemento essencial da representação de um grupo social. E todas as permutações possíveis da posição desse indivíduo nesse grupo são possíveis: pertence ‑lhe, não lhe pertence e é chamado a intervir ad hoc; exerceafunçãopermanentemente, ouapenasepisodicamente;temumestatutoelevado,outemumestatutopouco privilegiado;esseestatutomodifica‑secomaexecuçãodeumaoperaçãoespecífica, ou não, e modifica ‑se no sentido da melhoria do estatuto ou pelo contrário, e essa modificaçãodependedosucessodaoperação?Asperguntaspodemmultiplicar‑ ‑se (o que parece não estar sempre presente nalguns posicionamentos sobre a questão,cf.Turek,2013,p.150‑153;Gorguesetal.,2013).
A problemática vai diretamente ao cerne de um debate que é simultanea‑ mente técnico e epistemológico, que se prende com a possibilidade e a conve‑ niênciadeumaanáliseaprofundadadaobradeumartífice(oudeumaoficina), seequandopodeserdeterminadacomoconjuntodiscreto(nosentidomatemá‑ ticodotermo)pelassuascaracterísticastécnico‑estilísticas,servirdebaseauma estruturatemporalquepermiteseriarasproduções.Afiguraemblemáticadeste
paradigmaéSirJohnBeazleyeoseuestudodacerâmicaática(Morris,1994), por vezes criticado pela sua alegada insuficiência antropo ‑cultural, mas admitido pelos seus críticos como base indispensável de trabalho, ainda que por vezes relu‑ tantemente(RobertsoneBeard,1991).Eéimportantesalientarqueametodolo‑ gia pode – e foi ‑o com sucesso – ser extrapolada para meios congéneres de data muitoanterior(Davison,1968)emesmoparaambientestecno‑culturaiscomple‑ tamentediferentes(Strom,1971).Aposiçãosensata,creio,éadeadmitirtodas as metodologias úteis, se e até onde elas se revelarem verdadeiramente úteis, ou seja, se produzirem um avanço do conhecimento que ilumine aspetos da reali‑ dade que, de outra forma, permaneceriam obscuros, sem cair em maneirismos de interpretação(Snodgrass,1994,p.198).
De um ponto de vista muito concreto, este que é o método de melhor tra‑ dição nos estudos de metalurgia antiga implica, no que à ourivesaria arcaica diz respeito, por um lado, uma muito maior atenção à técnica de execução das peças,individualmenteconsideradas,nalinhadoqueBarbaraArmbrustervem fazendo com assinalável sucesso nas coleções nacionais (e não só). Por outro lado, torna ‑se necessário colocar entre parêntesis a prática mais comum da «busca do paralelo», que frequentemente dispersa a observação de semelhanças formais sem significado objetivo, ficando a valorização desses paralelos à discrição dos preconceitos subjacentes aos programas de investigação específicos em que cada investigadorseenquadra(formal,informalouatéinconscientemente).Esteé«the method»(cf.Burgess,2007,p.xvi).
4.1. Os primeiros objetos de adorno
Amaiorpartedosmaisantigosobjetosdeadornoemouroconhecidosnoter‑ ritórioportuguês(eporváriasrazõesconcomitantessãoelesosqueprincipalmente permitem descrever a situação para todo o ocidente da Península Ibérica e, por extensão,paramuitadaEuropaAtlântica)poderiamtersidoproduzidosapartir de uma única pepita de ouro, de uma dimensão assinalável, mas não extraordiná‑ ria, entre aquelas referidas nas fontes mais antigas que antes foram mencionadas. Estes adornos são conhecidos de sítios funerários nos estuários do Tejo, SadoeAlgarve.Existeportantoumacoincidênciageográficaentreprocessosgeo‑ morfológicos, tal como se podem reconstituir, e achados arqueológicos, no sen‑ tido de indicar um processo indutivo de compreensão das propriedades de um material disponível, em certa abundância, na natureza, por parte dos primeiros metalurgistas.
Mas, sem que as condições de jazida e o nosso conhecimento sobre elas sejam o suficiente para uma análise pormenorizada, é claro que a difusão do uso destes adornos metálicos é muito larga e muito rápida, mantendo uma simplici‑ dade técnica marcante.
Aparentemente,osartíficesdoiii milénio imaginaram duas formas de tra‑ balhar as pepitas: alongá ‑las em fios, que enrolaram formando espirais, usadas comoanéis,talcomoestáarqueologicamentedocumentado;outransformá‑las em finas lâminas que podem ter sido usadas sobre o crânio, como diademas, ou sobre o pescoço ou o colo como peitorais, ou nos braços, como braceletes lisos, ou que, eventualmente, podem ter sido usados aplicados noutras partes da anatomia, não diretamente, mas como aplicações sobre o vestuário. Esta última hipótese é sobremaneira sugestiva quando se consideram as efetivas condições deconservaçãodealgunsdestesobjetosmaisantigos,daAntadoZambujeiro, Alcalar(Correiaetal.2013,p.22‑24),MoitadaLadra(CardosoeCaninas,2010, p.93)ouLaPijotilla(CelestinoeBlanco,2006,p.96‑97),ondenenhumaforma imediatamente reconhecível é discernível – pode ‑se estar perante aplicações de vestuário, em moldes que a documentação arqueológica não permite reconstituir.
Reconstituição sobretudo difícil considerando o uso que, em certas situações, foidadaaoourocomonocasododepósitodeVillaverdedelRio(Fernandez, 1983;CelestinoeBlanco,2006,p.33)emqueumafaixaáurea,queemqualquer outrasituaçãoseriainterpretadacomoumcinturãoouumdiadema(eoseuuso finalnãoinvalidaesseusooriginal),foiutilizadaparamanteragrupadoumcon‑ junto de pontas de seta em cobre, de tipo Palmela.
Trata ‑se de facto de utilizações muito particulares de um metal precioso em situações a todo o título excecionais, mas que permitem algumas observações suplementares. Entre estas estará o facto de as placas de ouro mostrarem nalguns
Fig. 1 – Objectos de adorno de casal Pardo: a) espiral de casal Pardo 1; b) placa e contas de Casal Pardo 1; c) placa e conta de Casal Pardo 2. MNA. DGPC/ADF
Fig. 2 – Anel espiralado do Monte da Pena. MNA. DGPC/ADF
Fig. 3 – Anel espiralado da Srª da Luz. MNA. DGPC/ADF
Fig. 4 – Fragmentos de diadema de Mira d’Aire. MNA. DGPC/ADF
casos um padrão decorativo, de triângulos preenchidos por traços paralelos a um dos lados que, vindo a ser um elemento muito característico de toda a ourivesaria atéaosalvoresdaIdadedoFerro,remonta,enquantomodeloartístico,àdecora‑ ção dos ídolos ‑placa dos monumentos megalíticos.
EétambémnestemomentodetransiçãoentreofinaldoCalcolíticoeosprimei‑ rosmomentosdaIdadedoBronze(c.2300a.C.;cf.Jorge,1999,p.73),quesurgem, segundo a perspetiva que aqui se vai seguindo, os primeiros objetos cujo peso torna improvável que resultem da transformação de uma única pepita, pois o seu peso ultrapassaoexpectável:odiademadaQuintadaÁguaBrancaeobraçaldearqueiro deoutrasepulturatambémachadaemVilaNovadeCerveira(Correiaetal.,2013, p.27‑28),emamboscasosassociadosasimplesaroseespirais,nemsempreproduto deumtrabalhoapuradoe,nocasodaQuintadaÁguaBranca,comumaespadade cobrearsenical,numadeposiçãocomparalelosemÁtios(Armbruster,2000,p.199). 4.2. A afirmação sumptuária das elites da Idade do Bronze
Algunsdosobjetosdesteperíodo,quenoschegaramcomoachadosisolados, podem provir de sepulturas individuais do horizonte de transição do Calcolí‑ ticofinalparaaIdadedoBronzeAntiga.Estassepulturas,conhecidasdemaneira pouco sistemática, facilmente dariam origem a achados em que a deficiência da observação não verifica o carácter funerário do contexto, sendo de insistir neste ponto pois é evidente que a fragilidade de algumas peças e o seu bom estado de conservação abonam em favor de um soterramento em condições muito protegi‑ das, tais como uma sepultura pode oferecer.
Uma deposição cuidada pode oferecer idêntica proteção, mas globalmente considerado o problema, que estejamos perante espólios funerários de que ape‑ nas estes elementos foram recolhidos parece a hipótese mais provável.
Astipologiaspresentesnestesconjuntossãosimples,individualmentecon‑ sideradas, mas formam um conjunto diversificado, o que se pode considerar de
Fig. 5 – Placa da Moita da Ladra. MNA. DGPC/ADF
outrosdiademasemfitacomoodeSardoninho(Correiaetal.,2013,p.40‑41), pendentes que devem ter sido utilizados como brincos, como os de Estremoz
Fig. 8 – Possível conjunto de Estremoz. A) diadema; b) pendente. MNA. DGPC/ADF Fig. 9 – Diadema de Évora. MNA. DGPC/ADF
Fig. 10 – Diadema da Lourinhã. MNA. DGPC/ADF
Fig. 11 – Gargantilha de Vale de Moinhos. MNA. DGPC/ADF Fig. 7 – Conjunto da Ermegeira. A) contas; b) pendentes. MNA. DGPC/ADF
(talvezpartedeumconjuntocomodiademadamesmaproveniência)eErme‑ geira(ArmbrustereParreira,1993,p.154‑157),epeçassui generis como as de Mira Daire (Cardoso, 2004, p. 204, que todavia rebaixa demasiado a datação maisverosímil,cf.ArmbrustereParreira,1993,p.42).Especialmentenotáveis sãoasgargantilhasarticuladascomoasdeGolada(Armbruster,2000,p.204), Monte dos Mouros (id., p. 205) ou Vale de Moinhos (Armbruster e Parreira, 1993, p. 60‑63), sendo esta última decorada por puncionamentos, como o diadema do Sardoninho ou os pendentes da Ermegeira. Ainda com a mesma decoração,conhecemoslúnulascomoadeCabeceirasdeBasto(Armbrustere Parreira, 1993, p. 56‑59). Este aspeto da decoração sugere a associação a este grupodotorquesderematesdiscoidaisdeAlegretee,porextensãodosoutros torquesdamesmaclassedeGesteiraedeVilaNovadeSãoBento(Armbrustere Parreira,1993,p.50‑55).Destaforma,esteconjuntoreforçaemmuitoasobser‑ vações de Jacques Briard (1998, p. 116‑120) sobre as relações atlânticas entre finais do iii e meados do iimiléniocom(toda)afachadadoocidentepeninsular (cf.Brandherm,2002).
Do ponto de vista da tecnologia, há uma observação a fazer, motivada pelo conjuntodoSardoninho.Aguardaepomodopunhaldesseconjuntoforamfun‑ didospelométododaceraperdida;araridadedoachadojáfoibemsalientadaeo achadodeAlange(CelestinoeBlanco,2006,p.99),quepertenceàmesmaclasse, não a diminui em absoluto. O domínio da técnica da cera perdida em datas tão recuadas,todavia,talveznãosejacompletamentecerto(ficandoentreparêntesisa contadeourodoZambujal,querequermaisexame).
Pode tratar ‑se, no caso do Sardoninho, de um fenómenodesobrevivênciadeumapeça(odiadema) durante bastante tempo até à sua deposição, pois a peçadeAlangeindicariaapertençadesteselementos áureosassociadosaarmasaoBronzedoSudoesteem momentos algo posteriores, como também o punhal deBelmequesugere(Schubart,1974).
Há uma classe problemática de objetos ligada a esta fase de utilização de objetos de ouro: as aplica‑ ções discoidais, normalmente apelidadas de «botões». Em rigor, o único testemunho diretamente asso‑ ciáveléopardebotõesdeParedesdeCoura(Arm‑ brustereParreira,1993,p.166‑167),masoconjunto de lúnula e aplicações está longe de ser seguramente umconjunto(id.,p.56).Nãosabemos,portanto,se nesta fase relativamente arcaica tais aplicações já eram de utilização corrente.
Fig. 12 – Lúnula de Cabeceiras de Basto e Botões de Cabeceiras de Basto. MNA. DGPC/ADF
Fig. 13 – Torques de Alegrete. MNA. DGPC/ADF Fig. 14 – Torques de Serpa. MNA. DGPC/ADF
Fig. 17 – Conjunto funerário da Quinta da Água Branca. MNA. DGPC/ADF
Fig. 15 – Torques de Gesteira. MNA. DGPC/ADF Fig. 16 – Conjunto funerário de Vila Nova de Cerveira. A) braçal de arqueiro; b) espiral. MNA. DGPC/ADF
Poroutrolado,peçasúnicas,comoabrácteadeSobreiral,NinhodeAçor, CasteloBranco(ArmbrustereParreira,1993,p.172‑173),porcompletainexis‑ tênciadeparalelos,nãopodemserfacilmenteatribuídasaqualquerépoca(esão maisfrequentementecolocadasnesteespetrocronológico).
De qualquer forma, parece seguro dizer que a maioria dos conjuntos de aplicaçõesdiscoidaisparecepertenceraoextremofinaldaIdadedoBronzeeà IdadedoFerro(Correiaetal.,2013,p.86‑91)eumaorigemmaisantiga,aexis‑ tir – o que, por outro lado, pouco teria de estranho – necessita ainda de melhor comprovação.
4.3. Tradição e inovação nos objetos de prestígio de meados do II milénio O aspeto do domínio da técnica da cera perdida, que brevemente se exami‑ nou, é importante, pois essa técnica vai ser decisiva para o desenvolvimento pleno daourivesariatípicadaIdadedoBronze.
Este desenvolvimento corporiza ‑se na existência de duas tradições muito distintas quanto à técnica utilizada e, consequentemente, também quanto aos aspetos decorativos, verdadeiramente fenomenológicos, que os seus produtos permitem. Há inclusive, alguma distinção propriamente tipológica nos conjuntos de objetos produzidos.
As duas tradições em causa são as normalmente designadas de Villena‑ ‑EstremozedeSagrajas‑Berzocaña,aindaque,paraestaúltima,seriamaisapro‑ priada a designação Sagrajas ‑Portel, pois ao segundo local corresponde a mais pesadapeçaconhecida,quehojeseconservaemSaint‑Germain‑en‑Laye(Correia, 1993,p.105‑122).
Aspeçasemblemáticassão,respetivamente,osbraceletesdecoradosporpuas e os colares fusiformes decorados por triângulos preenchidos, mas a panóplia de objetos é muito mais vasta que isso.
Ressaltam,nomeadamente,natradiçãodeVillena‑Estremoz,osvasose,na de Sagrajas‑Portel, os braceletes de forma idêntica (reduzida em escala, obvia‑ mente)aostorques,quetodaviasão,viaderegra,lisos.
Esta diferença tipológica poderá ter chegado a constituir uma verdadeira dife‑ rença na forma de expressão social de comunidades ligadas mais estritamente a
Fig. 19 – Parte do conjunto de espirais de Vale de Viegas. MNA. DGPC/ADF
Fig. 20 – Tesouro de São Martinho. MNA. DGPC/ADF
uma ou outra das tradições, mas o panorama é mais complexo do que isso, por várias ordens de razões.
Em primeiro lugar está a transmissão de peças dentro do espaço peninsu‑ lar, que permitiria a manipulação conjunta de objetos de uma e de outra das tradições, ainda que isso não se verifique de uma forma impressiva nas deposi‑ ções recuperadas pela investigação; as produções da tradição Villena‑Estremoz parecem ter tido uma maior difusão no espaço peninsular do que as da tradição Sagrajas ‑Portel, que são mais «atlânticas», mas não é claro que existam depósitos onde peças claramente de um e outro estilo tenham sido depositados em con‑ junto. Este elemento é tanto mais paradoxal, quanto sabemos que estas peças foram, por vezes, manipuladas conjuntamente, no que constitui, aliás, um dos elementos centrais do ponto que a seguir se desenvolverá.
Uma observação muito importante a reter no desenvolver desta questão é a produçãodejoiasembronzenopovoadodaSenhoradaGuia,emBaiões(Silva etal.,1984).
Em primeiro lugar, diga ‑se que se trata efetivamente de produção, pois esta‑ mos indiscutivelmente em presença de um depósito de fundidor, existem peças
Fig. 22 – Tesouro de Chaves. A) Bracelete; b) aros em cadeia; c) anel espiralado. [FOTOS DO MUSEU DA REGIÃO FLAVIENSE]
que podem ser interpretadas como falhas de fundição, mas as joias, em concreto, parecem ter sido incorporadas no conjunto torêutico «em estado novo»: são por isso, com elevado grau de certeza, produções locais.
Quanto à tipologia, há braceletes fusiformes, idênticos aos da tradição Sagrajas ‑Portel, decorados com padrões de triângulos preenchidos como os tor‑ ques. Este pormenor nunca foi identificado em peças de ouro, mas o estilo das peçaséclaríssimo(talvezfuturosachadosvenhamacolmataressafalhapresente no conhecimento disponível). Estes braceletes coexistem com braceletes cane‑ lados, cujo melhor paralelo são os braceletes da tradição de Villena‑Estremoz (e,semembargo,estesmostramtambémdecoraçõesdetriângulos).
Note ‑se, por fim, que outros bronzes do depósito mostram à evidência a existência de contactos com o Mediterrâneo Oriental (Silva, 1990) e uma das peças,atravésdamadeiraconservadanoseuinteriorofereceuumadataC14que, calibradaadoissigma,seestendeentre1215e420a.C.,peloqueépoucoútil, mas que, pelas condições específicas do achado, indica que o depósito poderá ter sidofechadonoséculooitavo(Vilaça,2006b,p.91),terminus ante quem para o desenvolvimento destes fenómenos no domínio da produção artística.
Asituaçãoindica,porventura,queadiferençadeestiloeramaissignificativa do que em primeira análise se poderia pensar – que a origem de um objeto se mantinha associada à sua manipulação e que essa sua distinta «filiação» reduzia a possibilidade da sua «promiscuidade» na deposição junto a peças de outra ori‑ gem;masoacumulardeaspasàvoltadetermosessenciaisdafrasedenunciao carácter muito problemático do que aqui se afirma. E, por outro lado, o caso dos
Fig. 26 – Braceletes de Colos. MNA. DGPC/ADF
Fig. 25 – Anel de Trindade, Museu Rainha D. Leonor, Beja. MNA. DGPC/ADF
bronzesdaSenhoradaGuiamostraquehaveriamargemparaosartíficessuficien‑ temente aptos manipularem algumas destas técnicas segundo agendas particula‑ res, no que se virá a revelar um aspeto determinante em períodos futuros.
Em segundo lugar está a produção, porventura levada a cabo por oficinas não diretamente ligadas nem a uma nem a outra tradições, de objetos não carac‑
Fig. 27 – Bracelete tubular, de proveniência desconhecida. MNA. DGPC/ADF
Estrada, Barbanza, Regoufe e da Beira Alta (Armbruster, 2000; Correia et al., 2013, s.v.).TalvezosarosdeBougado(Silva,2007,p.370,n.os557‑558)perten‑ çam a este grupo, e talvez a sua distribuição principal no Noroeste Peninsular não seja mero efeito de inventário desigual, mas testemunho de uma oficina, prolífica mas de características específicas técnico ‑estilisticamente não muito marcadas.
Em terceiro lugar está a existência de conjuntos excecionais, cuja integração no panorama geral prima facie não pode ser feita, talvez porque as circunstâncias de produção e deposição dos objetos, à partida, foram excecionais. É o caso do tesourodeCaldasdeReyes(Armbruster,2000,p.202;Correiaetal.,2013,p.40), comalgunsobjetosúnicos;pelasuadimensão,éocasodoprópriotesourode Villena(Soler,1965)eé,nãopeladimensãodeconjunto,maspelaquantidade de metal colocado em peças específicas, o caso de alguns dos mais emblemáticos torques fusiformes.
O padrão de utilização das joias neste momento surge como profundamente dividido entre grandes concentrações e pequenos conjuntos, cujo carácter utilitá‑ rio pode ser mais facilmente admitido. Estes conjuntos surgem, por vezes, asso‑ ciados a espirais isoladas ou agrupadas, o que constitui, aliás, uma perturbação suplementar na reconstituição da utilização das joias, como no caso do achado de Chaves(Silva,2007,p.361,n.º536;Armbruster,2000,p.202),quelevaacolocar a hipótese de se tratar de uma peça em mau estado de conservação amortizada com uma reserva de ouro «em meada».
O mais interessante é, todavia, verificar como neste período central da Idade doBronzeumobjeto–obracelete(ArmbrustereParreira,1993,p.86‑147)–é o item dominante da produção de ourivesaria, mesmo que não lhe pertençam os objetos mais importantes, nem em termos de complexidade técnica nem em quantidade de metal utilizado.
Há nesta constatação um caminho de investigação muito importante que pesquisará como este facto se relaciona com as fórmulas de expressão das socie‑ dadesnoqueàsuaformadevestirdizrespeito(Sorensen,1997).Seobraceleteé ubíquo como joia, o que se deve imaginar como forma de expressão socialmente reconhecível: um padrão de afirmação onde é a importância do metal utilizado que é representativa? (a multiplicação de braceletes nalguns achados indicaria estefacto);seriaoestiloindividualizadodosbraceletesumelementogenerica‑ mente reconhecido e valorizado, como antes se sugeriu? ou estaria a diferenciação da comunicação baseada noutros elementos, nomeadamente em aspetos do ves‑ tuário que, perecível, não podemos analisar? ou existiriam estratégias distintas de utilização dos braceletes sobre a anatomia dos seus utilizadores?
Fig. 30 – Braceletes de achados isolados. A) Bouça; b) Santo António; c) Monte Airoso; d) Urra; e) Monforte; f) Soalheira; g) Vila do Conde; h) Redondo. MNA. DGPC/ADF
Fig. 31 – Braceletes da Herdade das Cortes. MNA. DGPC/ADF
Fig. 32 – Tesouro da Senhora da Guia (Baiões). MNA. DGPC/ADF Fig. 33 – Colar de Serrazes. MNA. DGPC/ADF
Estão nesta classe de interrogações aquelas que podem ser feitas a propósito dos torquesdesecçãoquadrada(quenalgunscasosseencontrarammuitoenrolados, formandobraceletes).Parecem,emprimeiraanálise,corresponderaumperíodo terminaldoBronzeFinal,surgindo,porumlado,associadosaelementosdatradi‑ çãoSagrajas‑Portelemconjuntosjáevoluídos(Baleizão,Vilaça,2007,p.67‑69)e, por outro, sendo conhecidos já com decoração de estampilhas, no que parecem ser objetostípicosdaIdadedoFerro(colardeMalhada,Correiaetal.,2013,p.60‑61).
Mesmoqueaassociaçãomorfocronológicasejaderejeitar(emparticulara associação unívoca do uso das estampilhas como decoração com a cultura halls‑ tática,quecarecehojedebasedesuporte),háporventuraumelementoestilístico significativo a ter em conta, no quadro das interrogações feitas.
4.4. O final da Idade do Bronze e o início da Idade do Ferro
Aimportânciadaquestãoestilísticanousodasjoiasécolocadaemespecial evidência devido ao próprio processo de evolução das produções conhecidas no Ocidente da península, a partir do período final do iimilénioa.C.Estaquestãojá tem sido tratada, mas parece incontornável, neste ponto, regressar sobre a argu‑ mentaçãoexposta(Correia,2007;Correiaetal.,2013,p.55‑61).
As duas tradições da ourivesaria que se cristalizam ao longo da Idade do Bronze,adeVillena‑EstremozeadeSagrajas‑Portel,passam,apartirdeumdeter‑ minado momento, a ser combinadas de várias formas, seja através do que podem ter sido peças reutilizadas, até à produção de peças autónomas, que bebem numa e noutra técnica e numa e noutra inspiração, num fenómeno que, nas produções dejoiasembronze,jápôdeservistonaSenhoradaGuia.Podem‑se,defacto, identificar três modos distintos de combinar os distintos contributos técnicos, que são talvez reveladores de outros tantos momentos sucessivos de uma evolu‑ ção técnico ‑estilística:
1–Acombinaçãodepeçase/oufragmentosdepeças,produzidasnumenoutro ambiente, como o colar de Sintra, pertencente à tradição Sagrajas ‑Portel, que uti‑ liza como peça de fecho o que pode tratar ‑se de uma secção reaproveitada de um braceletedetradiçãoVillena‑Estremoz.
2–Aproduçãodepeçasdeumaeoutratradição,quesecombinamnumapeça única,comoobraceletedeCantonha.
3–Aproduçãodepeçasqueutilizamdispositivostécnicosedecorativosdeambas as produções, como os braceletes do Norte de Portugal, que usam as puas da tra‑ diçãoVillena‑Estremozparadecoraçãodapartetubulareosdispositivosdefecho pormacho/fêmeaeadecoraçãodetriângulosincisosdatradiçãoSagrajas‑Portel. E a evolução detetável nas joias, individualmente consideradas, oferece ainda a individualização de pelo menos outros dois modos ou momentos, destacados já daestritadependênciadastradiçõesdaIdadedoBronze:
los,inspirados,masnãocompletamentedeterminadospelostipostradicionais; iii)autilizaçãodeconhecimentosartísticosdeinspiraçãooriental.Defendeu‑se já que o tesouro de Moura é o expoente deste último momento na evolução dessa oficina ocidental, parece todavia importante acrescentar um outro con‑ junto: o tesouro do Carambolo (Mata Carriazo, 1970; Perea e Armbruster, 1998).
ExisteumapossívelrelaçãofilogenéticaqueligaosbraceletesdoCarambolo ao estilo escolhido pelos braceletes mais significativos produzidos no Ocidente dapenínsulaaolongodaIdadedoBronze,queimportasalientarparasuporte desta última afirmação.
Fig. 36 – Tesouro de Álamo. MNA. DGPC/ADF
Aorigemdestafileirafilogenéticaéobraceletecaneladosemdecoraçãode proveniênciadesconhecidaqueoMNAconservanasuacoleção(Armbrustere Parreira,1993,p.128‑129;Correiaetal.,2013,p.42).Opontodeligaçãosão os mencionados braceletes do Norte de Portugal, do Museu Nacional Soares dos Reis, que mostram a escolha de um padrão decorativo alternando faixas decora‑ dasetoroslisos;ohalskragen do tesouro de Moura mostra uma escolha seme‑ lhante, mas de distinta realização, com toros decorados como as joias de Sagrajas‑ ‑PorteleplacasdecoradasporfiosdispostosemSSsubparalelos.Finalmenteos braceletesdoCarambolomostramaalternânciaentrefaixascommeiasesferas lisasefaixascomaplicaçõesestampadas;asmeiasesferaslisasjáseencontravam nosbraceletesdeTorreVã,aestampagemdemotivosvaiencontrar‑seempeças deimportaçãomuitoprecocecomonodiademadeCastroMarim,queserásegui‑ damente abordado. Emsuma,osbraceletesdoCarambolomostramumaforteligaçãoaocon‑ juntodepeçasquedemonstramaformacomoa(s)oficina(s)doOcidentepenin‑ sularnatransiçãoentreosmiléniosoperou(aram)afusãoetransformaçãodas tradiçõesdaourivesariadaIdadedoBronzeemalgooriginal,únicoeendémico. Asuapertençaaestecírculodeve,portanto,seradequadamentevalorizada.
E, a este título, ocorre analisar as características principalmente apontadas em abono do carácter orientalizante do conjunto, a saber: os peitorais em forma de «pele de boi» e o colar com pseudo ‑escaravelhos. Destes últimos, o próprio facto de se tratar de pseudo ‑escaravelhos diz bem do seu carácter incerto quanto àorigem;quantoaospeitorais,mostramumaformaque,deutilitáriae,nalguma medida, valorizada por ser de carácter pré ‑monetal, se tornou muito comum numapluralidadedesituações(dispositivosarquitetónicos,cerâmicaritual,etc.; CelestinoeBlanco,2006,p.83‑86)doBronzeFinalemdiante,devendosercolo‑ cadaaomesmoníveldautilizaçãodogranuladonosbraceletesdeTorreVãouda filigrana decorativa no halskragen de Moura.
Fig. 39 – Bracelete de Cantonha. MNA. DGPC/ADF Fig. 38 – Colar de Sintra (réplica no MNA). MNA. DGPC/ADF
de joalharia, que não vimos ainda mencionada na bibliografia disponível: a pro‑ ximidade entre os braceletes do Carambolo e algumas peças da necrópole de Halstatt(Platz‑Horster,2002,p.17‑18;Eluére,1988,p.200‑201).Semaprioris‑ mos indicados por questões geográficas, cronológicas ou histórico ‑culturais, dir‑ ‑se ‑ia que as peças de Halstatt copiam, em lâmina de ouro, a construção mais complexadasdoCarambolo.Levantadaaquestão,éclaroquesenecessitaráde uma avaliação muito direcionada para verificar se a hipótese é credível, mas a priori não devemos rejeitar a hipótese de ter havido importações de objetos penin‑ sulares para a área circum‑alpina (cf. Spindler, 1973) que teriam dado lugar à execução de objetos de tipologias particulares, estabelecendo um padrão, que se tornará recorrente no centro da Europa, da imitação em lâmina de ouro de peças de produção mediterrânica, maciças ou compósitas.
Fig. 40 – Braceletes de Torre Vã: a) e b) par de braceletes; c) aspecto da decoração; d) pormenor dos terminais.. MNA. DGPC/ADF