Aimportânciadaquestãoestilísticanousodasjoiasécolocadaemespecial evidência devido ao próprio processo de evolução das produções conhecidas no Ocidente da península, a partir do período final do iimilénioa.C.Estaquestãojá tem sido tratada, mas parece incontornável, neste ponto, regressar sobre a argu‑ mentaçãoexposta(Correia,2007;Correiaetal.,2013,p.55‑61).
As duas tradições da ourivesaria que se cristalizam ao longo da Idade do Bronze,adeVillena‑EstremozeadeSagrajas‑Portel,passam,apartirdeumdeter‑ minado momento, a ser combinadas de várias formas, seja através do que podem ter sido peças reutilizadas, até à produção de peças autónomas, que bebem numa e noutra técnica e numa e noutra inspiração, num fenómeno que, nas produções dejoiasembronze,jápôdeservistonaSenhoradaGuia.Podem‑se,defacto, identificar três modos distintos de combinar os distintos contributos técnicos, que são talvez reveladores de outros tantos momentos sucessivos de uma evolu‑ ção técnico ‑estilística:
1–Acombinaçãodepeçase/oufragmentosdepeças,produzidasnumenoutro ambiente, como o colar de Sintra, pertencente à tradição Sagrajas ‑Portel, que uti‑ liza como peça de fecho o que pode tratar ‑se de uma secção reaproveitada de um braceletedetradiçãoVillena‑Estremoz.
2–Aproduçãodepeçasdeumaeoutratradição,quesecombinamnumapeça única,comoobraceletedeCantonha.
3–Aproduçãodepeçasqueutilizamdispositivostécnicosedecorativosdeambas as produções, como os braceletes do Norte de Portugal, que usam as puas da tra‑ diçãoVillena‑Estremozparadecoraçãodapartetubulareosdispositivosdefecho pormacho/fêmeaeadecoraçãodetriângulosincisosdatradiçãoSagrajas‑Portel. E a evolução detetável nas joias, individualmente consideradas, oferece ainda a individualização de pelo menos outros dois modos ou momentos, destacados já daestritadependênciadastradiçõesdaIdadedoBronze:
los,inspirados,masnãocompletamentedeterminadospelostipostradicionais; iii)autilizaçãodeconhecimentosartísticosdeinspiraçãooriental.Defendeu‑se já que o tesouro de Moura é o expoente deste último momento na evolução dessa oficina ocidental, parece todavia importante acrescentar um outro con‑ junto: o tesouro do Carambolo (Mata Carriazo, 1970; Perea e Armbruster, 1998).
ExisteumapossívelrelaçãofilogenéticaqueligaosbraceletesdoCarambolo ao estilo escolhido pelos braceletes mais significativos produzidos no Ocidente dapenínsulaaolongodaIdadedoBronze,queimportasalientarparasuporte desta última afirmação.
Fig. 36 – Tesouro de Álamo. MNA. DGPC/ADF
Aorigemdestafileirafilogenéticaéobraceletecaneladosemdecoraçãode proveniênciadesconhecidaqueoMNAconservanasuacoleção(Armbrustere Parreira,1993,p.128‑129;Correiaetal.,2013,p.42).Opontodeligaçãosão os mencionados braceletes do Norte de Portugal, do Museu Nacional Soares dos Reis, que mostram a escolha de um padrão decorativo alternando faixas decora‑ dasetoroslisos;ohalskragen do tesouro de Moura mostra uma escolha seme‑ lhante, mas de distinta realização, com toros decorados como as joias de Sagrajas‑ ‑PorteleplacasdecoradasporfiosdispostosemSSsubparalelos.Finalmenteos braceletesdoCarambolomostramaalternânciaentrefaixascommeiasesferas lisasefaixascomaplicaçõesestampadas;asmeiasesferaslisasjáseencontravam nosbraceletesdeTorreVã,aestampagemdemotivosvaiencontrar‑seempeças deimportaçãomuitoprecocecomonodiademadeCastroMarim,queserásegui‑ damente abordado. Emsuma,osbraceletesdoCarambolomostramumaforteligaçãoaocon‑ juntodepeçasquedemonstramaformacomoa(s)oficina(s)doOcidentepenin‑ sularnatransiçãoentreosmiléniosoperou(aram)afusãoetransformaçãodas tradiçõesdaourivesariadaIdadedoBronzeemalgooriginal,únicoeendémico. Asuapertençaaestecírculodeve,portanto,seradequadamentevalorizada.
E, a este título, ocorre analisar as características principalmente apontadas em abono do carácter orientalizante do conjunto, a saber: os peitorais em forma de «pele de boi» e o colar com pseudo ‑escaravelhos. Destes últimos, o próprio facto de se tratar de pseudo ‑escaravelhos diz bem do seu carácter incerto quanto àorigem;quantoaospeitorais,mostramumaformaque,deutilitáriae,nalguma medida, valorizada por ser de carácter pré ‑monetal, se tornou muito comum numapluralidadedesituações(dispositivosarquitetónicos,cerâmicaritual,etc.; CelestinoeBlanco,2006,p.83‑86)doBronzeFinalemdiante,devendosercolo‑ cadaaomesmoníveldautilizaçãodogranuladonosbraceletesdeTorreVãouda filigrana decorativa no halskragen de Moura.
Fig. 39 – Bracelete de Cantonha. MNA. DGPC/ADF Fig. 38 – Colar de Sintra (réplica no MNA). MNA. DGPC/ADF
de joalharia, que não vimos ainda mencionada na bibliografia disponível: a pro‑ ximidade entre os braceletes do Carambolo e algumas peças da necrópole de Halstatt(Platz‑Horster,2002,p.17‑18;Eluére,1988,p.200‑201).Semaprioris‑ mos indicados por questões geográficas, cronológicas ou histórico ‑culturais, dir‑ ‑se ‑ia que as peças de Halstatt copiam, em lâmina de ouro, a construção mais complexadasdoCarambolo.Levantadaaquestão,éclaroquesenecessitaráde uma avaliação muito direcionada para verificar se a hipótese é credível, mas a priori não devemos rejeitar a hipótese de ter havido importações de objetos penin‑ sulares para a área circum‑alpina (cf. Spindler, 1973) que teriam dado lugar à execução de objetos de tipologias particulares, estabelecendo um padrão, que se tornará recorrente no centro da Europa, da imitação em lâmina de ouro de peças de produção mediterrânica, maciças ou compósitas.
Fig. 40 – Braceletes de Torre Vã: a) e b) par de braceletes; c) aspecto da decoração; d) pormenor dos terminais.. MNA. DGPC/ADF