Análise Psicológica (1995), 1-2 (XIII): 145-155
Vinculação
e
Estilos de Comunicação
da Criança
MANUELA VERÍSSIMO (*)
TERESA BLICHARSKI (**)
I;: I;:STRAYER
(***)
ANTÓNIO
J .
SANTOS (*
* *
*)
Um dos objectivos da psicolinguística é, sem dúvida, o de criar um quadro conceptual que in- clua os padrões gerais do desenvolvimento da linguagem (Goldfield, 1987). Nas últimas três décadas, e por influência da perspectiva cogni- tivista de Piaget (1 952), muitos psicolinguistas defenderam que a linguagem é governada por princípios universais e específicos a espécie humana (e.g. Lenneberg, 1967; Chomsky, 1975).
Só na década de oitenta, começaram alguns in- vestigadores a considerar seriamente a impor- tância da diversidade existente ao nível do de- senvolvimento da linguagem da criança (Bates, Bretherton & Snyder 1988; Goldfield, 1987; Goldfield & Snow, 1985; Nelson, 1981). Tal re- novação no campo da investigação em psico- linguística deve-se, em parte, aos resultados do
(*) Psicóloga. Doutoranda-na Université du Québec A Montréal, Laboratoire d’Etologie Humaine, Mon- tréal (Québec), Canadá.
(* *) Psicóloga. Investigadora do Laboratoire de Ecologie Culturelle et du Développement Humain, Toulouse, França.
(***) Psicólogo. Professor Catedrático da U.F.R. de Psychologie, Université de Toulouse le Mirail, Tou-
louse, França
(****) Psicólogo. Professor Auxiliar do ISPA. Uni- dade de Investigação em Eco-Etologia.
estudo de Nelson (1981) sobre os estilos de comunicação das crianças.
i . ESTILOS DE COMUNICAÇÃO DA CRIANÇA O estudo de Nelson (1981), demonstrou que
as crianças utilizam um de dois estilos de lin- guagem, o referencial ou o expressivo. As crianças com um estilo referencial utilizam fre- quentemente palavras que denominam objectos, por seu lado, as crianças com um estilo expres- sivo utilizam pronomes, expressões persona- lizadas e palavras funcionais. A existência de considerável variabilidade, quer ao nível quali- tativo (diferentes estilos de linguagem), quer ao nível quantitativo (número de palavras profe- ridas), apoia uma perspectiva social do desen- volvimento da linguagem. Segundo esta pers- pectiva, a interacção social é considerada como o
motor da aquisição da linguagem (Snow, 1989).
As palavras adquirem significado através do uso constante na troca de informações sobre o
mundo dos objectos e das relações sociais. É através da interacção social que a criança inter- naliza e desenvolve as representações mentais relativas a cada palavra.
A maioria dos investigadores no domínio do desenvolvimento da criança, defende uma visão
muitifacetada da comunicação precoce em que a linguagem, o comportamento não-verbal e a to- nalidade afectiva são considerados meios comu- nicativos importantes (Trevarthen & Logotheto, 1987; Valsiner, 1987; Lamb & Wosniak, 1990). Contudo, a maioria dos estudos empíricos foca essencialmente uma só parte do sistema comu- nicativo, a linguagem oral, logo excluindo vir- tualmente todos os outros modos de comu- nicação. Ainda que, a linguagem oral seja fundaL- mental para a transmissão da cultura, a tona- lidade afectiva e o comportamento não-verbal
são também meios poderosos neste processo, so- bretudo no sentido de assegurar a troca de informação entre a criança e a mãe. Por exem- plo, o mesmo tipo de informação oral é inter- pretado pela criança de forma diferente ern função da tonalidade afectiva em que é emitida (Ratner & Settner, 1991), ou seja, esta é também importante para a manutenção e eficácia do pro- cesso comunicativo.
2. VINCULAÇÃO E ESTILOS DE COMUNICAÇÃO
Segundo Bowlby (1 969), a relação de vincu- lação entre a mãe e a criança orienta todas as re- iações futuras da criança e portanto, influencia o seu desenvolvimento social e cognitivo. Entre as características principais das relações de vin- culação seguras, a harmonia e a sincronia afecti- va entre a mãe e a criança podem favorecer o de- senvolvimento de estilos particulares de comu- nicação por parte da criança. Por outro lado, as crianças identificadas como tendo uma relação de vinculação segura exploram mais activamente o ambiente, um facto que pode potencialmente implicar diferenças no modo de comunicar. 0 : s
primeiros estudos sistemáticos realizados sobre esta problemática, indicam associações fracas, ou mesmo inexistentes, entre tipos de vinculação e estilos de comunicação da criança (e.g. I. Bre- therton, E. Bates, L. Benigni, L. Camaioni, & V Volterra, 1979). No entanto, o tipo de vincula-
ção foi classificado a partir da situação-estranha (Ainsworth, Blehar, Waters, & Wall, 1978), uni procedimento que restringe a avaliação de faixas etárias em que, muito provavelmente, os estilos de comunicação se definem. Este impedimento foi ultrapassado com a introdução do Attachment
Behaviour Q Sort (Waters, & Deane, 1985), instrumento que permite, não só, avaliar o tipo de vinculação de crianças mais velhas, como também, obter uma descrição pormenorizada do comportamento vinculativo da criança.
Os resultados de um estudo prévio de Blichar- ski e Veríssimo (1 992), revelaram a existência de uma relação entre o tipo de vinculação, obtido a partir do instrumento acima referido, e o estilo de comunicação da criança. Especificamente, a existência de diferenças significativas no uso da linguagem e troca de informação em função do tipo de vinculação: as crianças identificadas co- mo seguras apresentam um estilo comunicativo efusivo e meta-cognitivo, enquanto que, as crian- ças identificadas como inseguras apresentam um estilo comunicativo centrado nos objectos. No presente estudo, são examinados três aspe- ctos da comunicação mãe criança: a linguagem oral, a troca de informação e a tonalidade afe- ctiva. A interacção mãe-criança foi filmada du- rante uma sessão de jogo semi-estruturada e posteriormente codificada através de três sis- temas de classificação independentes por obser- vadores altamente treinados.
Técnicas recentes de análise das interacções sociais entre crianças recorrem a sistemas de codificação computadorizados que, ao relacionar dados obtidos através de diferentes taxonomias, proporcionam um registo comportamental mais completo da interacção social (Strayer, Moss, &
Blicharski, 1989). A fusão dos três sistemas de classificação acima referidos, com base nestas técnicas e procedimentos de codificação, permite uma descrição pormenorizada e multifacetada da actividade comunicativa na díade mãe-criança, assim como, o exame da diversidade de estilos
de comunicação das crianças incluídas na nossa
amostra. De acordo com a perspectiva social, o desenvolvimento das capacidades comunicativasé constrangido pelo meio linguistico e relaciona1 que rodeia a criança. Especificamente, dois fa- ctores têm merecido especial atenção na litera- tura, o estilo comunicativo da mãe e o tipo de vinculação existente na díade mãe-criança. Este estudo explora, precisamente, o segundo factor. O seu objectivo principal consiste primeiro, na identificação dos estilos de comunicação das crianças e, subsequentemente, na avaliação da associação entre os estilos e as dimensões que
descrevem o comportamento vinculativo da criança.
3 . MÉTODOS
3.1. Sujeitos
A amostra utilizada neste estudo é composta por 52 díades mãe-criança. Os sujeitos fazem parte de um projecto longitudinal mais vasto sobre o desenvolvimento da criança, realizado no Laboratoire d’ Éthologie Humaine - Univer- sité du Québec a Montréal sob a orientação do Prof. F. F. Strayer. O objectivo principal desse projecto de investigação, consiste no estudo da influência da família e dos grupos de pares no desenvolvimento cognitivo e social da criança. A amostra inclui o mesmo número de crianças de ambos os sexos e a média de idades é de 30
meses. Em termos de estatuto socio-económico, as crianças são consideradas como pertencentes a classe média, a partir dos níveis de habilitações literárias e rendimento do agregado familiar (Strayer et al., 1989).
I
3.2. Procedimentos
As famílias incluídas nesta amostra foram visitadas no seu domicílio, quando a respectiva criança tinha aproximadamente 30 meses de idade. Durante a visita, um membro da equipa apresentou A mãe vários jogos de tipo educativo e pediu-lhe que brincasse com o seu filho(a). A sessão de jogo semi-estruturado entre a mãe e a criança foi registada em vídeo, a duração média de cada sessão foi de 1 hora e 30 minutos. A in- teracção mãe-criança foi codificada a partir da observação directa do vídeo, após uma sessão de treino de aproximadamente seis semanas. Um segmento de 20 minutos foi codificado por três equipas independentes recorrendo a três sistemas de classificação distintos: a taxonomia dos actos de linguagem; a taxonomia de troca de infor- mação; e a taxonomia da tonalidade afectiva.
O procedimento de codificação é idêntico para as taxonomias de actos de linguagem e de troca de informação. Com base no procedimento de amostragem focal, dois observadores treina- dos codificaram simultaneamente, um o compor-
tamento da criança, o outro o comportamento da mãe. Um código identifica o membro da díade e outro código o tipo de comportamento emitido. Todos os comportamentos foram codificados e, em caso de dificuldade (por exemplo, discurso muito rápido ou ambíguo), o visionamento do registo-vídeo foi interrompido e revisto. Através da utilização de um microprocessador específico (OS3) conectado com o sistema de vídeo, o tempo real de ocorrência de cada registo de comportamento foi automaticamente gravado.
No que diz respeito a taxonomia da tonalidade afectiva, o método de amostragem utilizado foi o instantâneo. O estado afectivo dos dois parceiros foi codificado, cada 1 O segundos, por três obser- vadores treinados. Embora, o procedimento seja bastante simples, optou-se pela utilização de três observadores dado ser necessário emitir um julgamento subjectivo.
3.3. Taxonomias
Taxonomia dos actos de linguagem: Esta ta- xonomia é baseada na teoria dos actos de lin- guagem de Searle e Vanderveken (1985) e no estudo empírico de Feider e St. Pierre (1987). A teoria dos actos de linguagem é baseada numa visão pragmática da linguagem na qual é salien- tado a sua função essencialmente social. A fide- lidade inter-observadores foi calculada através de um kappa de Cohen (1 960), em três momen- tos distintos, respectivamente no princípio, meio e fim da sessão de codificação. O índice man- teve-se sempre superior a .85 (Feider, Blicharski, Darjan, & Strayer, 1989; Blicharski, 1991).
Taxonomia de troca de informação: Esta taxo- nomia complementa a anterior através da adição do conteúdo das actividades da mãe e da criança. O objectivo desta taxonomia, consiste na análise da troca de informação entre a mãe e a criança.
As categorias desta taxonomia baseiam-se na li-
teratura sobre resolução de problemas. Especifi- camente, tácticas e estratégias de representação são descritas em função da sua importância na prossecução de determinados objectivos. A fide- lidade inter-observadores foi também calculada no princípio, meio e fim da sessão, os valores do kappa de Cohen mantiveram-se sempre acima de 0.80 (Strayer et al., 1989).
Taxonomia da tonalidade ufectiva: A taxono-
mia da tonalidade afectiva foi desenvolvida com
o objectivo de determinar o estado afectivo da criança e da mãe durante a sessão de jogo (Ma- nikowska, 1991; Naud, 1991). É composta por uma escala de cinco níveis de afecto: (1) zan- gado; (2) aborrecido; (3) neutro; (4) interesse;
(5) prazer. O acordo inter-observadores foi ana- lisado através do alpha de Cronbach (1951). O valor de alpha foi sempre superior a 0.80 para cada um dos cinco graus da tonalidade afectiva (Manikowska, 1991; Naud, 1991).
3.4. Attachrnent Q Sort
Os itens foram traduzidos para francês e pos- teriormente retrovertidos para inglês, de forma i i
controlar possíveis problemas de validade da tradução. Os itens que mudaram de significado na retroversão foram alterados convenientemen- te. O Attachement Q Sort, é composto por 100 itens que descrevem o comportamento vincula,- tivo da criança em relação a mãe. Como todos o:;
instrumentos baseados na técnica do Q Sort, o:;
itens são distribuídos numa escala de 9 pontos, de uma forma quasi-normal. Ainda que, este ins- trumento seja normalmente submetido
A
mãe, neste trabalho de investigação optou-se poi- utilizar observadores para evitar a subjectividade: materna. Todas as descrições foram conduzidas por observadores treinados do ponto de vista teó- rico e técnico dos aspectos relativos A avaliação, depois de observarem cerca de 8 horas de inter- acção mãe-criança previamente filmada.4. RESULTADOS
4.1. Estilos comunicativos
O primeiro objectivo, consistiu na sincroni-, zação dos dados obtidos a partir dos três sis-, temas independentes de codificação. Teorica- mente, a fusão dos três conjuntos de dados pro- porciona 320 combinações possíveis. No en- tanto, uma analise descritiva preliminar revelou frequências reduzidas de ocorrência dos estados afectivos ( i ) , (2) e ( 5 ) . Face a estes resultados, foi realizada uma primeira redução dos dados.
Os estados afectivos (1) zangado, (2) aborrecido
e (3) neutro, foram agrupados numa nova categoria denominada afecto baixo. Os estados (4) interesse e (5) prazer, foram agrupados numa categoria designada afecto alto. A redução da informação sobre os estados afectivos, diminuiu substancialmente o numero teórico de possíveis unidades de comportamento de 320 para 128.
4.2. Procedimentos de fusão
Os dados das três taxonomias foram final- mente agrupados com base no tempo de ocor- rência, através de programas, em linguagem Pascal, desenvolvidos especialmente para este trabalho por F.F. Strayer. Após este procedi- mento, cada nova categoria de comportamento de comunicação inclui informação ao nível do ti- po de acto de linguagem, tipo de troca de infor- mação e tipo de tonalidade afectiva. Das 128 combinações possíveis, 102 foram identificadas, contudo, um grande número destas combinações ocorreram com frequências extremamente bai- xas. No sentido de possibilitar a continuação do trabalho, foram apenas retidos os comporta- mentos que ocorreram pelo menos uma vez em metade da amostragem total. Como resultado fi-
nal, apenas 28 comportamentos de comunicação respeitaram o critério referido. Na Tabela 1, são apresentados a média, o desvio padrão e a soma dos 28 comportamentos.
4.3. Estilos de comunicação
Embora a maioria dos investigadores con- corde que a descrição detalhada da natureza e di- versidade do comportamento da criança deve fornecer as bases empíricas para a investigação sistemática do desenvolvimento da comunica-
ção, não existe semelhante consenso sobre os métodos a utilizar. As análises descritivas podem ser realizadas do ponto de vista quantitativo ou qualitativo, cada uma envolvendo métodos espe- cíficos. As descrições quantitativas representam variações individuais em termos de diferenças nas dimensões estudadas. Decorrendo do modelo linear, esta técnica foca normalmente a compara-
ção da co-variância entre escalas ou factores de- terminados teoricamente. Embora a perspectiva quantitativa seja importante para contrastar mé- dias em grupos preestabelecidos, raramente
TABELA 1
Média, Desvio-Padrão e Total das Unidades de Comunicação
Média D.P. TOTAL Expressivo-O bjectivo-Baixo Expressivo-Perceptual-Baixo Expressivo- Aprovaçãso-Baixo Assertivo relacional-Perceptual-Baixo Assertivo relacional-Aprovação-Baixo
Pedido de informação relacional-Perceptual-Baixo Pedido atenção/acção-Perceptual-Baixo Expressivo-Objectivo-Alto Expressivo- Funcional-Alto Expressivo- Aprovação-Alto Expressivo-Tarefa- Alto Expressivo-Distanciamento-Alto Assertivo relacional-Objectivo-Alto Assertivo relacional-Perceptual-Alto Assertivo relacional-Funcional-Alto Assertivo relacional-Aprovação-Alto Assertivo relacional-Distanciamento-Alto Assertivo relacional-Objectivo-Alto Assertivo relacional-Perceptual- Alto Assertivo reiacional-Aprovação-Alto Pedido Atenção/Acção-Objectivo-Alto Pedido Atenção/Acção-Perceptual-Alto Pedido AtençãoIAcção-Aprovação-Alto Assertivo descritivo-Objectivo-Alto Assertivo descritivo-Perceptual-Alto
Pedido de informação descritivo-Objectivo-Alto Pedido de informação descritivo- Perceptual-Alto
1.96 4.98 1.65 1.85 1 .O4 1.12 1.27 13.94 3.38 13.19 2.13 4.37 5.73 14.10 1 .o2 8.12 1.10 2.3 1 5.02 1.35 2.27 5.38 1.58 1.54 4.27 1.56 2.96 2.27 4.43 2.20 2.77 1.62 1.42 1.83 8.93 2.75 10.44 3.07 3.19 5.81 10.75 1.38 10.38 1.54 2.97 5.02 1.67 3.02 5.46 1.70 1.75 5.05 2.32 3.22 102.00 259.00 86.00 96.00 54.00 58.00 66.00 725.00 176.00 686.00 111.00 227.00 298.00 733.00 53.00 422.00 57.00 120.00 26 1 .O0 70.00 1 18.00 280.00 82.00 80.00 222.00 81.00 154.00
Nota: o primeiro temo indica o tipo de linguagem, o segundo o tipo de troca de informação e o terceiro a tonalidade afectiva
permite a identificação dos grupos naturais que existem na amostra.
Hinde (1983), numa crítica ao modelo linear, foi um dos primeiros investigadores a apontar as falhas inerentes a assunção de que a variabili- dade existente num continuo teórico é homo- génea. Bronfenbrenner (1 992), numa critica si- milar, sublinhou o problema da assunção da homogeneidade da regressão na comparação entre dimensões relevantes para o estudo do desenvolvimento. Por exemplo, quando é re- portado que duas variáveis estão correlacionadas
a
S O ,
muitos investigadores assumem que este resultado é compartilhado por todos os ele- mentos da amostra. Segundo Bronfenbrener(1992), a magnitude da associação pode variar de forma dramática quando distinguimos as crianças com resultados de níveis alto, médio e baixo.
No intuito de superar as críticas dirigidas aos métodos quantitativos tradicionalmente utiliza- dos no estudo da diversidade de estilos de co- municação, utilizámos uma analise de tipo qua-
TABELA 2
Médias das Unidades de Comunicação em função do Estilo de Comunicação Grupo 1 Grupo 2 Grupo3
Expressivo- Aprovação-Baixo -.36 -.30 0.99
Assertivo relacional-Aprovação-Baixo -.5 1 -.I7 1 .o5
Expressivo-Distanciamento-Alto .48 -.59 0.05
Assertivo relacional-Objectivo-Alto -.40 .64 -0.05
Assertivo relacional-Perceptivo- Alto -.55 .6 1 0.03
Assertivo relacional-Funcional-Alto -.36 .60 -0.25
Assertivo relacional-Aprovação-Alto -.50 -.O5 0.88
Pedido de informação relacional-Objectivo-Alto -.37 .63 -0.28 Pedido de informação descritivo-Objectivo-Alto -.O4 .50 -0.62
Expressivo-Objectivo-Alto .56 -.3 1 -0.47
hierárquica de clusters. Esta técnica de análise multivariada examina e revela a diversidade comportamental existente na amostra, possi- bilitando a identificação de grupos de criança:$ qúe utilizam os comportamentos de comunicação de forma semelhante. No cálculo da matriz de proximidades foram utilizadas distâncias eucli- dianas, dado que análises precedentes demons- traram ser o índice que melhor estabilizava í i
distribuição dos sujeitos. Através dos resultados desta análise, foram identificados três grupos, o primeiro agrupamento (Grupo 1) é composto por 2 1 crianças , o segundo (Grupo 2) por 18, I:
finalmente o terceiro (Grupo3) por 13.
4.4. Descrição dos estilos
Subsequentemente, foi efectuada uma série de análises de variância com o objectivo de iden- tificar
os
comportamentos de comunicação que caracterizam cada grupo. Dado o elevado núme- ro de variáveis em relação ao número de su- jeitos, o valor de significância foi estabelecido 11p<.005 para todas as comparações univariadas. Como se pode verificar através da leitura da Tabela 2, dez dos vinte e oito comportamentos comunicativos diferenciam significativamente
os três estilos de comunicação.
As crianças incluídas no Grupo 1, apresentam um modo de comunicação caracterizado por re- gulação da actividade da mãe. A análise do uso das unidades de comunicação indica que estas
I50
crianças dominam a situação de jogo com a mãe, orientando-a constantemente para a activi- dade referindo factos e objectos. Breve, estas crianças comandam todas as actividades, um facto que pode indicar uma mãe desinteressada ou algo submissa.
As crianças no Grupo 2, referem frequente- mente os seus sentimentos e os da mãe. O seu estilo comunicativo indica interesse e prazer na
sua actividade de jogo. Estas crianças caracteri-
zam-se por utilizar a mãe como fonte de infor- mação acerca da actividade em curso, nomeada- mente sobre a localização e funcionamento dos objectos. De um modo geral, estas crianças apre- sentam um estilo comunicativo expressivo e centrado nos aspectos relacionais.
Finalmente, as crianças do Grupo 3 apresen- tam um estilo comunicativo caracterizado por um estado emocional extremo, passando de afecto alto a baixo com extrema rapidez. Num dado momento, brincam com a mãe de uma for- ma exuberante, para passarem de uma forma quase imediata a darem sinais de aborrecimento. Estas crianças aprovam frequentemente o com- portamento materno e pedem atenção constan- temente.
Os três estilos de comunicação acima apresen- tados, resultam da combinação da informação proveniente dos três sistemas de classificação in- dependentes. Através do procedimento de fusão, caracterizámos o estilo comunicativo das crian- ças a partir de como se sentem emocionalmente,
TABELA 3
Média, Desvio-padrão e Alpha para cada Escala
Escala Média D.P. Alpha
Exploração Resposta aiferencial Afecto Social Autonomia Percepção Perseverança 5.06 5.58 6.79 6.23 6.51 5.21 5.70 1.14 0.58 0.92 0.98 1 .o2 0.75 0.69 0.89 0.80 0.76 0.82 0.73 0.74 0.63
o que fazem com os objectos e o tipo de lingua- gem oral que utilizam. A série seguinte de aná- lises, foi efectuada com o objectivo de avaliar as associações existentes entre os estilos de comu- nicação e o comportamento vinculativo da crian- ça.
4.5. Medidas do Attachment Q-Sort
Tradicionalmente, os valores de cada sujeito
são correlacionados com valores-protótipo, ou seja, que traduzem uma relação de vinculação ideal. Num estudo recente Strayer, Veríssimo, Vaughn e Howes (1 995) desenvolveram oito es- calas empíricas relacionadas com as áreas con- ceptuais elegidas na elaboração original do ins- trumento (Waters & Deane, 1985): 1 ) proximi- dade-exploração (que descreve o balanço entre a actividade exploratória e a procura da mãe);
2)
resposta diferencial a mãe (que avalia a reacção a mãe em comparação com outros adultos); 3) envolvimento social; 4) afecto positivo; 5) auto- nomia; 6) percepção social; 7) perseverança; 8) uso de objectos. Apenas a escala de uso de objectos foi abandonada, uma vez que demons- trou uma coerência interna extremamente baixa. No presente trabalho, as sete escalas previa- mente validadas foram utilizadas para descrever a ligação mãe-criança. Na Tabela 3, são apresen- tados os valores da média, desvio-padrão e coe- ficiente alpha referentes a cada escala. De um modo geral, as escalas possuem forte coerência interna, situação similar a apresentada por Strayer et al. (1995).
4.6. Estilos comunicativos e vinculação Para examinar a associação entre os estilos comunicativos e as escalas de vinculação, foi realizada uma série de análises discriminantes. Nestas análises, as sete escalas de vinculação foram utilizadas como preditores e os estilos de comunicação como critério. Na primeira análise global, só a primeira função discriminante foi significativa (p<.05), explicando 25% da va- riância total e classificando correctamente 45% dos casos. Em seguida, os três estilos comuni- cativos foram comparados dois a dois. A análise discriminante entre os Grupos 1 e 2 foi signifi- cativa (p<.05), explicando 20% da variância total e classificando 68% dos casos correcta- mente. As crianças do Grupo 1, apresentaram ín- dices elevados ao nível da escala proximidade- exploração (p<.O5), enquanto que, as crianças do Grupo 2 apresentaram os valores mais elevados ao nível da escala de percepção social (p<.05). As restantes escalas não diferenciam estes dois estilos de forma significativa. A análise discri- minante entre Grupos1 e 3 foi também signi- ficativa (p<.03), explicando 26% da variância total e classificando correctamente 73.08% dos casos. As crianças do Grupo 1, mais uma vez, apresentaram índices elevados ao nível da escala proximidade-exploração (p<.O5), enquanto que, as crianças do Grupo 3 apresentaram os valores mais elevados ao nível da escala social (p<.O5). Não foram encontradas diferenças significativas entre
os
Grupos 2 e 3.Resumindo, as crianças que apresentam um estilo comunicativo regulador (Grupo 1) preo-
FIGURA 1
Médias das Escalas de Vinculaçâo em função do Estilo de Comunicação
Diferencial
Tipo 1
Autonomia Afecto
T i p o 2
cupam-se em manter a proximidade com a mãe, não são sociáveis e manifestam dificuldade para notar e interpretar os sinais afectivos da mãe:. Este grupo de crianças apresenta um tipo de relação insegura com a mãe, dado o elevado va- lor obtido na escala do balanço entre proximi- dade e exploração. As crianças com um estilo expressivo (Grupo2) apresentam o valor mais elevado na escala da percepção social, isto é, são crianças que estão atentas aos sentimentos dos outros, nomeadamente da mãe. Finalmente, as crianças com um estilo afectivo oscilante (Grupo
3)
são as mais
sociáveis.Social Perseve- rança
Tipo 3
Percepção
5 . DISCUSSÃO
Este trabalho demonstra que é possível ca- racterizar o processo comunicativo através de três diferentes facetas, a linguagem oral, a troca de informação e a tonalidade afectiva. Através da análise hierárquica de clusters, foram iden-
tificados três grupos de crianças com estilos de comunicação significativamente diferentes. Es- tes resultados estão, até certo ponto, de acordo com a dicotomia apresentada por Nelson (1 981), uma vez que foi identificado
um
grupo expres- sivo.No
entanto,não foi
possível identificarum
152grupo referencial. Este facto vem ao encontro de críticas recentes, as quais referem que a dicoto- mia referencial vs expressivo não é mais do que uma flutuação transitória em vez de uma verda- deira diferença no uso da linguagem. A identi- ficação, neste estudo, de três estilos diferentes de comunicação, indicia a existência de uma maior variabilidade ao nível dos percursos de aquisição e desenvolvimento. Este resultado pode ser ex- plicado pela utilização de métodos de análise multivariada ou pelo nível de recolha dos dados, visto que ambos permitem captar de forma mais adequada a diversidade inerente ao processo co- municativo.
O primeiro estilo, denominado regulador, ca- racteriza-se pela total dominância da situação de jogo por parte da criança: é ela que dita as regras e orienta a actividade. As análises relativas ao comportamento vinculativo demonstraram que estas crianças procuram manter-se em proximi- dade com a mãe, factor que normalmente é asso- ciado a relações do tipo inseguro. As caracterís- ticas que estas crianças apresentam ao nível da vinculação são também visíveis no seu compor- tamento comunicativo, pois mantêm a proximi- dade com a mãe através do controlo das acti- vidades em que estão envolvidas. As crianças que exibem os outros dois estilos de comunica-
ção não apresentam diferenças entre si ao nível do comportamento vinculativo, os resultados in- dicam que ambos os grupos mantêm uma relação segura com a mãe. O grupo de crianças com um estilo de comunicação expressivo apresenta o va- lor mais elevado na escala de percepção social, isto é, são crianças atentas e que conseguem in- terpretar convenientemente os sinais emitidos pelos outros. Esta capacidade é também visível ao nível do seu estilo de comunicação, uma vez que estas crianças se referem frequentemente aos seus sentimentos e aos da mãe. Finalmente, o grupo com um estilo comunicativo oscilante ao nível afectivo é considerado ao nível das escalas do comportamento vinculativo como extrema- mente sociável.
Os resultados obtidos neste estudo, revelam que as crianças com um estilo particular de co- municação apresentam diferenças na forma co- mo se relacionam com a mãe, ou seja, indicam a existência de uma associação clara entre o modo de comunicação da criança e o tipo de vincula-
ção estabelecida com a mãe. Na nossa opinião,
estes resultados enquadram-se na perspectiva teórica de seleccionismo social recentemente proposta por autores como Edelman (1 987), Strayer (1989) e Gottlieb (1991). Segundo esta perspectiva, durante o processo de desenvolvi- mento o potencial comportamental, inicialmente difuso, é progressivamente estruturado por ex- periências individuais (Gottlieb, 1991). A inter- acção com parceiros familiares leva a criança a consolidar padrões particulares de participação social (Strayer, 1989). No entanto, este processo implica que modos alternativos de funciona- mento estejam cada vez menos disponíveis, isto é, durante o processo de desenvolvimento existe uma perda progressiva do potencial comporta- mental inicial no intuito de optimizar as funções adaptativas do mesmo (Edelman, 1987). O con- ceito de canalização epigenética, subjacente a es- ta perspectiva, sugere que experiências passadas restringem a variação possível de reacção em contextos futuros, ou seja, que o passado expe- riencial orienta a criança a adoptar e consolidar diferentes modos de funcionamento social.
Concomitante ao interesse em descrever e classificar os estilos comunicativos da criança, existe uma preocupação fundamental em clari- ficar como a variação de padrões de experiência social, neste caso de vinculação, leva a criança a adoptar trajectórias de desenvolvimento espe- cíficas. Contudo, a falta de diferenças significa- tivas a este nível entre os dois últimos tipos de comunicação indica a existência de outros facto- res envolvidos neste processo. Aliás, esperar
que a relação de vinculação entre a mãe e a criança explicasse de uma forma inequívoca a aquisição de um estilo de comunicação particular por parte da criança, seria adoptar uma perspe- ctiva reducionista do contexto social. Concluin- do, investigações futuras nesta área devem con- templar o estudo de outros factores de ordem so-
cial e relaciona1 que caracterizam o meio am- biente onde a criança se desenvolve.
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RESUMO
A maioria dos investigadores, no domínio do de- senvolvimento da criança, defende uma visão mul- tifacetada da comunicação precoce em que a lingua- gem, tipo de informação e tonalidade afectiva são con- siderados meios comunicativos importantes. Contudo, estudos empíricos sobre a comunicação mãe-criança raramente examinam em simultâneo estes três aspectos do processo comunicativo. No presente estudo, 52
díades mãe-criança foram filmadas em casa durante uma sessão de jogo semi-estruturado. Os dados obti- dos a partir de três taxonomias (actos de linguagem, tipo de informação e estado afectivo) foram rela- cionados com base no tempo de ocorrência. Análises hierárquicas de clusters dos índices obtidos revelaram três estilos comunicativos. As crianças do primeiro
cluster orientam a actividade da mãe; as crianças do segundo cluster centram-se na actividade de jogo; e as crianças do terceiro cluster apresentam um estilo co- municativo ambivalente ao nível afectivo. Subsequen- temente, as medidas de vinculação foram utilizadas
com preditores dos estilos comunicativos. Análises discriminantes revelaram que as crianças do primeiro cluster apresentam os valores mais elevados na escala de exploração-proximidade. Estas crianças, alternam a sua actividade de exploração com o olhar para a mãe, um padrão também visível no seu estilo comunicativo. Globalmente, os resultados demonstram a existência de uma associação entre os estilos comunicativos e o
tipo de vinculação mãe-criança.
ABSTRACT
Most developmental researchers endorse a multifa- ceted view of early communication, where language, information-exchange and affective tone contribute concurrently to the ongoing construction of shared meanings. However, empirical studies of mother-child communication have seldom succeeded in simul- taneously treating these aspects of the communication process. In this study, 52 mother-child dyads were fil- med during semi-structured play at home. Data from three independent coding procedures (speech acts, information content and affective states) was merged on the basis of onset time. Cluster analyses using these merged indices revealed three primary communicative styles. Children in the first cluster were orienting maternal behaviour to the activity. Children in cluster two were involved in t h e play activity. Finally, children in cluster three presented an ambivalent communication style. Subsequently, observer based attachment measures were related t o the child communication styles. Discriminant function analyses showed that cluster one children presented the highest values on the exploration-proximity balance scale. These children balance their exploration activity with looking to mother; a pattern which is also visible at the communication level. Taken together these findings provide evidence for a link between mother-child relationship and diversity in communicative styles of 30 month old children.