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Sistema penitenciario

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T1SESE

DE

JOSÉ

RODRIGUES

DS

FIGUEIREDO

Q234

I

J.AM

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935

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•^rxr^f

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(2)
(3)

THESE

APRESENTADA E PUBLICAMENTE SUSTENTADA

EM

NOVEMBRO

DE 1864

2o$è

Boí)riguc0

ire

fx^aúxè^o

NATURAL

DA

MESMA

PROVÍNCIA

FILHO LEGITIMO DE JOSÉRODRIGUES DE

WGUEIRÈDO

ED.CLOTILDES

AUGUSTA

VELASCO CARNEIRO

PAIRA ©©TíltR

©

©IRî

DE

> UJi^-B@<S^

BAHIA

TYPOGRAPBIA

POGGETTI,

DE

TOMHO

&

C

Kiasa

do

Corpo

Santo

n.°

4?

(4)

FACULDADE DE

MEDICINA DA

BAHIA.

DIRECTOR

O

J?jr.m0

Swr, Conselheiro

&è*.

JToão

JBajtiisla

dos

Anjos.

vigb-ií)diiuegv@r

Ex.

mo

Siir. Conselheiro Dr. Vicente Ferreira de Magalhães.

OSSnS.DOIITORHS I •*ANISO. MATETUAS QUE LECCIONAM

. . ., ..- i Physica cm geral, oparticularmente em suas -Cons.Vicente Ferreira deMagalhães. .] appiicaçõrsaMedicina.

FranciscoRodrigues daSilva Chimicae Mineralogia.

AdrianoAlvesdeLima Gordilho , . . Anatomiadescripliva.

!>."ANNO.

AntóniodeCerqueira Pinto Chimicaorgânica. Physiologia.

António Marianorio

Bomhm

BotânicaeZoologia.

AdrianoAlves deLimaGordilho. . . . Repetiçãode Anatomiadcseripliva.

5.'ANNO.

EliasJoséPcdroza Anatomiageralcpathologica. Joséde GóesSiqueira Pathologiageral.

Physiologia.

4.»ANNO.

Cons.ManoelLadisláoAranhaDantas. . Pathologia externa.

AlexandreJosédeQueiroz Pathologiainterna.

,. .,• „. •-„c. -~ j Partos, moléstiasde mulherespejadascdemeninos.

MatinasMoreiraSampaio

\ rcccúmascidos.

'ó.°ANNO.

AlexandreJoséde Queiroz Continuação de Pathologiainterna.

JoaquimAntóniod'01iveiraBotelho . . Matériamedicactherapeutica.

. . . .„rrol ,,. ) Anatomiatopographica, Medicina operatória, e

JoséAntónio deFreitas

J apparelhos

C.°ANNO.

AntónioJosé Ozorio Pharmacia.

Salusliano Ferreira Souto Medicinalegal.

DomingosRodrigues Seixas Hygienc,eHistoriadaMedicina.

AntónioJosé Alves Clinicaexternado3.*e4.°anno.

AntónioJanuáriode Faria Clinicainlernado5.°e0." anuo.

(D»»<D883?<D2&8§.

RozendoAprigio Pereira Guimarães. .}

Ignacio JosédaCunha I

PedroRibeiro deAraújo ) Secção Accessoria. José Ignacio de Barros Pimentel• • -\

VirgílioClimacoDamazio /

José AlTonso Paraizo deMoura. . . .\ Augusto Gonçalves Martins I

DomingosCarlosdaSilva >Secçao Cirúrgica.

AntónioAlvaresdaSilva \

Demétrio CyriacoTourinho /

Luiz Alvares dos Santos > SecçãoMedica.

JoãoPedrodaCunhaValle

^ JerónimoSodic Pereira -<

88<Ê5&83?&&8í)»

O

I3xm. %r.E>r. l'i:i<jinii»t« fi»ii;ío

da

Silva.

©

Sr. E>r. Tlioiuaz «1'Aquiiio Ciaspar.

(5)

MEMORIA

MEU

PAE

«Oh!meupae,oli'.meupae'.comoamemoria

Mereflecte,alta noite luaimagem

Porentre

um

veu de involuntário pranto,n (A. H.)

*

E

Vós

meti

Deus

consenti,

ao

menos,

«jwe

eu

coSlotjne,

so-bre a

lage,

que

esmagou

tnaita

ventura

minha,

esta

pobre

(6)
(7)

sx

Assim

como

só a Tntelligeneia de

um

Deus, podéra definira excellencia de

vosso coração, minha Mãe, assim

também

só ellaforacapaz de fielmente

dizer-tos quanloéo amor, que vos dou.

(8)
(9)

Ilffll

Ml

E

um

desmaiado signal (Taquillo de quejáestaescerla: do verdadeiro

amor

fraterno quetanto nos felicita.

AO ILLUSTRISSIMO SENHOR TENENTE CORONEL

ttkaláu

Carneira

fú\)o

Muito folgodemaisessa occasião ter de demonstrar-vos o profundo

reco-nhecimento e amisade que vostributo.

A

EXMS

êVÚUS

D,

fflffiMOTM

AIBBI

Irmã, que tendessido no sentir comnosco oprazer ou a dor; permetti que

eu

também como

irmão vos offerecaminha these.

S*O(XS—u»

(10)

AO

ILLUSTRISSIMO

SENHOR

DOUTOR

JOÃO

ESTA1SL411

DA

SILVA

LISBOA

MEU MESTRE E AMIGO

Pelodivinopredicado da intclligencia e pelo saber, muitos dos vossos

discí-pulosavantajados, de

mim,

andão; daquelles, porém, que vos dcdicãosincera

e profunda amisadea

nenhum

cedo o lugar dedianteiro. Aindaimperfeito este

trabalho vosé >levido; tendes sempre sidoo caracter maispor

mim

estudado

do severo eresumido plutarcho,

em

quea minharazão tem hidobuscaro

(11)

AOS

EXCELLENTISSMOS SENHORES

fâonde/ffeito c/onamad

aSmvoM

m c/étaániano c/a ó/c/ua juorneà

tZèoitto)* 'IfycSo*c/e &/tveàa

'gommenc/ac/o?' g?aa/ó

^eteàa

^Scnáào

DE

IflUITA

E SINCERA

AJIISADE

E

E COMO A

TYPOS IMITÁVEISDE HONRADEZEDE VERDADEIRO AMIGO

EU

(12)

£<D8

amos

ranHiw

mkbds

Joaquim de Carvalho Bctlainio

Javnie Soares Serva

António Carlos Pires de C. Albuquerque

Olímpio Henriques deSouza

Dr. José António da Silva Serva

José Alves Guimarães

Joaquim de Calazans

José de Teive e Argollo

Não

vos lembraes,

meus

amigos, que sempre que

um

denós, na jornada que

tãounidosfazemos por este mundo, procura

um

peito

em

que recoste a fronte

abatida pelo desalento e a fadiga porfiamos todos

em

ver qual será oprimeiro

em

daroarrimo ao pobre doamigo?

Gomo,

pois, hojeque colho

uma

flor

rús-ticanabeirada nossa estrada, não vol-a offerecêra?

M.

SALVADOR

PIRES

DE

CARVALHO E

ALBUOLEROUE

Sincera,perdurável e profunda amisade.

A

MEMORIA

BO

MEU

AMIGO

E

COLLEGA

JOSÉ

HENRIQUES

S*E

]ff

EIKEIjIíES

Saudade do

amigo,

c

homenagem

eterna

á

tât>

grande

(13)

JJDS

MM

iKIl!E§

OS ILUSTRÍSSIMOS SEXUOKES DOUTOllKS

António

«José

Alves

António Alvares

da

Silva

António

«9anuario

de

Faria

Francisco

Efiotlrigues

da

Silva

Salustiano

Ferreira Souto

«?oaqui&n

António

ISotellio

Alexandre

«José

ele

Queiroz

Domingos

Rodrigues

Seixas

Hcmctrio

Cyriaco

Touririho

Não

é somente

como

prova de alta e desinteressada estima, que offereço-vos

minha these; falia aqui

também

um

coração brasileiro, que estremee-sc de gozo vendo

cm

vós, scienciaprofundae real,aclimadac florescente n'cstc

que-rido paiz.

A

TODOS

OS

ESTUDANTES

DA

FACULDADE DE

MEDICINA

DA

BAHIA

E

ESPECIALMENTE AOS

MEUS

COLLEGAS

DE

ANNO.

Como

penhor dos mais ardentes desejos de que se torne a classe cada vez maisrespeitável pela fraternidade patriotismo e saber.

(14)

AO

ILUSTRÍSSIMO

SNR.

2\ú\o

$t

Mme}£$

Nascida espontaneamente a amizade, que vos dou, tem o conhecimento de

vossas raras qualidades fortificando-a.

É

isso

uma

promessa de perpetuidade;

Deos o permitia.

<EiC2> UU*ZL>5Z2* SJSTJÍCa.;.

JOSÉ

ilTOIIO

SIL7A

SSR7A

i

â

ma

w&wmwmmma

wawzmà

Fraca demonstraçãode amisade tão acrisolada, que não precisade arrimar

se, paraexistir, no muito que sou grato ásvossas delicadesas.

"ii i ' "ififiV"iinfl

MEJMLOJíSIA

UE

MIIHA.

JkWÓ

Veneração

e

s&aaaiigaíle.

(15)

» B AOS ILL.mo3 SENHORES

Augusto

Franco

Velasco

Dr. António

Joaquim

Franco Yelasco

É

diminuta,

meus

Tios,

porem

sincera, esla prova que vos dou do quanto

vos quero.

AO ILUSTRÍSSIMO

semor

DOUTOR

JOSÉ

PIRES

DE

CARVALHO

E

ALBUQUERQUE

&

SWii

JÍSS<B8aa8SIS?aS38S2íl

8J122232&

De

altaestima e profundorespeito.

MAJOR

NICOLÁO

CARNEIRO

DA

ROCHA

E

SUA

EZCELLSUTISSIUA

FilQLIA

A

vossa arnisademe é

um

respeitado legado.

AO

ILLUSTRISSIMO

SENHOR

JOÃO

IGNACI0

DE

AZEVEDO

is

bisa

KU8ZAanvTi88xiML

fahisxa

(16)
(17)

SYSTEMÂ

PENITENCIÁRIO

sm

(18)
(19)

Nous monlrerons d'abordqueparloullesmoeurg «

ont imprime aux lois leurnalure, leurcaractere, leurphysionomie.

Mattf.r. Influence ãesMwurssurleslois.

I.

-O

passarem asgentes porjuntoda cadeia antigaou da

Peni-tenciaria moderna mal sabemellas, queallise levanta o pa-drão

em

queestáesculpido o seuestadosocial.

Dos costumes, dareligião,do governo, doprogresso, da

fei-ção de

um

povo finalmenteéacadeiaapliotographia.

É

o

ras-gão dovôo,quecobre,ouaulcera nojenta,ouaformaesbelta

ou a saúde do corposocial.

E

por ventura certa d'essa verdade é quea sciencia

moderna

seassentacontemplandoa cadeiaao

mesmo

tempoquerumina a

solu-ção dos maiYaltosproblemasda medicinasocial.

A

marcha dahumanidade tem acompanhado a cadeia; e onde os direitosdo

homem

sãoreconhecidos, conhecidos

também

sãomelhoramentos d'ella.

II.

Um

elemento religioso, que nobilitando o individuofizesse valerosseus

di-reitos, ao

mesmo

tempo que refreasse os seusdesmandos, faltava á sociedade

pagãa, e ella

em

busca de

um

arrimo c

sem

empicilio quea contivesse, de

todo entregou-se ao despotismo do maiornumero.

O

individuo, si

bem

qne átomo componente do todo social, era cousa que

desapparecia

sem

valor e postergada, quando fallava o interesse geral.

Que

importava que o

ramo

da arvore cahisse decepado, quando necessário era

de-safogal-a.

Onde

estava a caridade que apanhando-o procurasse dar-lhe nova

(20)

vingança; o criminoso se consubstanciava

com

ocrime, oou desapparecia

am-puta Io Io corpo social, ou soffria apena quepelo terror o cohibisse de no

fu-turo novamente perpretar a acção prohibida, tão somente porinteressesd'ella.

O

terror era, e deviade ser a única baze possível da penalogia pagãa.

As-sim não nos devemadmirar as descripções dascadeias e dos carcereirosde

Ro-ma.

A

Tullianum

como

a descreve Salustio (1) era

um

cárcere enterrado a

doze pés abaixo da superfície da terra, os seus tectosabobadas ennegrecidas,

a luz não penetrava, o ar era pestífero, o cbão

immundo.

A

Mammertino

era Outra prizão, que junto aoCapitólio se estendia sob o chão (2)

E

mãe

ou

espo-sa que alli quizesse levar alimento do corpo ou do espirito havia de pagar o

que marcasse o carcereiro, ainda que descomedidamente. (3)

III

Quando

porém, no meiodo charco

em

que patinhava ahumanidade, surgio

a luz do Ghristianismo, a cadeiaescurecidapelas trevas infernaesdo desespero

começou a alumiar-sc da esperança ebristãa.

Os

encarcerados não podião ser

esquecidospelo Cbristo: entre os bemavenlurados estão aquellesqueos vizitão.

Os

diáconos e asdiaconisas instituídos pelos apóstolospara serem a

conso-laçãodosafflictoslevavão-na, e

também

alimentos aos encarcerados.

Os

arce-bispos e bisposnão cessavão de pregar aos fieisafrequência nasprizõespara

materialeespiritualmente soccorrerem aosnecessitados.

Certamente, porem, que abenéfica influenciado Ghristianismo, então

perse-guidopelospovos c pelos reis, não poderá deixar de serténue e quasi sumida,

ede sabirdo curto alcancede almas christãas, que

desempenhassem

os sagra-dosmandamentos de suareligião; c sódotempode Constantino

Magno começou

a suainfluencianasleiscivis e criminaes, influencia que foiseestendendo pelos

temposdos imperadores Constâncio,Valentiniano, Tbeodosio c principalmente

Justiniano, que no desespero de ver neutralisadas pela corrupçãod'cntão as

boas disposições dos seus antecessores sobre prezos eprizões, formalmente

en-carregouaos arcebisposa visita c o cuidadod'ellas

O

que erão as cadeiasnesses tempospode-se ver de

um

relatórioque Libanio

dirigio a Tbeodosio.

«Os governadores paraagradarem aalgum poderoso

prendem

aquelles que

pelasleis não

devem

se-lo; e abi osdeixão definhar,

sem

se

darem

ao trabalho dejulgal-os.Muitosmorrem, oupelo

mão

arque produz o accumulo de pessoas

(d)lit.porJuliusLcsPrisons.

(2) Fleury—II.Ecclesiaslique—paginas7ov.1.' (3) Julius op.cit.Laurcnt—Etudcs-vol.5."paginas875.

(21)

5

em um

logarinsufficiente,ou por outras misériasque ellcs leni dealiisoflrcr. d

Que

os esforços eboas intenções d'csses imperadores, e dos bispos c da

Igreja,que

recommendão

cm

seusconcílios (Nicea) eassembleas do clero

(Or-leans) (1)odever tiacaridade para

com

os prezos, havião de sernullificados, é

cousa racional, attendendo áprofundidade da lepra moral, que lavrava então.

A

correcção do prezo, parlo de almasangélicas e profundamentereligiosas, não

podiacalar no espirito publico;eo que valem reformas, que não asaprovaelle,

cque

com

cilasnão seidentifica ?

De

certo quea correnteza as levará logo que

lhesfaltaroapoio de

quem

asengendrou, c teve força paravivifical-as, si

bem

quede uma

vidacphemera. Sca razãonão tivesse jamostrado que assim devera

sueceder,ofado de ao depoisno século9.°oimperador Leão reviveras leis

be-néficassobre as prizões, e de recommendarqueosarcebispos c mais

membros

do clero,

uma

vez pelo

menos

na semana, vizitassemos prezos para indagarem

de suas necessidades, curarem os doentes, nutrirem os pobres,

vem

demons-trarque ascaritativasdisposições de Justiniano tinbão setornado lcltra morta.

E

como

poisnegar osmelhoramentos, que oCbrislianismo trouxe á tacs focos

da desgraça,se

vemos

que osque aindasobrenadavão no lodo da corrupção, a

elle estendião osbraços

como

ramo único,

em

queos infelizes podião se

segu-rar? Eraquantosepodia fazerentão;que para corpos gangrenados de nada

va-lem médicos cmedicamentos, ainda os mais poderososevirtuosos.

IV.

Esse estado lastimoso dahumanidade não podia por mais tempo exit-lir, que

ahi estavaa Providencia para impecer de cxlendcr-seás gerações futuras.

E

os

bárbaros doNorte, dizendo-scosvingadores deDcos, atirarão-se sobreo

mun-do antigo, que necessitava de sangue puroe são para reanimar-se renovado.

Com

os invasores veio

um

principio desconhecido,

como

já vimos na

legis-lação antiga, principio que,já existindonoChristianismo, não tinhapodido suf-fieienlemcntc introduzirseno estado civila individualidade.

E

verdade,porem,

que, transfigurado pela barbaria, elle não era então mais do que odireito do mais forte.

E

o combatejudiciárioc a muletapecuniária estabelecida pela

equi-dade tão somente resolvem, c

accommodão

as questões, e supprema sciencia

do pretor (2)

Além

d'istO existia nasleis,que regulavão tão desordenada sociedadea maior

(I) JllliUS.

(-2) Laurcnt— Eludesvol.7.»

(22)

G

confusão, e tanta era ella, que

bem

dizia S. Leão, que asleis

em uma

localida-deerão tantasquantas asnacionalidadesexistentes. (1)

Do

conhecimento d'esse estado de cousas

bem

se pode inferir qual devera desero estadodas prisões, e o valordas disposições de Justiniano sobre pre-zos e cárceres. Estas, que tinhão despertado no império

ephemero

de

Theodo-rico, cahirão outravezno

somno

de séculos para ao depois serem,

como

vere-mos, despertadas peloslegistas do occidente da Europa.

De

outro lado então, verdadeira planta exótica, crescia e desenvolvia-se o

direitoecclesiasticono moio d'esse cahos, do qual havia de sahir a sociedade

moderna.

E

em

quantodominava o direitoda forçajáa força social, sustentada pelo direito romano,jáa força individual sustentada pelo germanismo, a Igreja hiapregandoe practicando,que ocrimeéaviolaçãode

uma

leidivina;quea

pe-na é

uma

expiação, «Sepuno não é parainflingir

um

mal, e sim para corrigir aquelle, que commette o mal.»

E

como

materialmente ella nao podesse

des-truiros cárceres horríveisdo feudalismo, ouimpedir as arbitrariedadesd'elle,

o direito deazylo, e a

excomunhão

erão afincadamente empregados para apoio dos fracos. Assiminegáveis são os grandesbenefícios, queprestou a Igreja

em

epochadetanta barbaria, cujacrueldade daspenasjápenetravaaté

em

algumas

ordens religiosas.

Em

alguns mosteiros, diz Fleury, havia cárceres

chamados

Vade in pace, onde sem luz, nutrindo-se apenas de pão e agoa, e completa-mentesegregados de seus companheiros, se finavão desesperados os infelizes religiosos, que, se julgava, merecião penatão barbaraeanti-christãa. (2 )

Quando, porém, odireito romano, sacudido dapoeira de doze séculos,

co-meçou

aser estudado

em

Bolonha, e transplantado para as nações occidentaes

da Europa, as disposiçõesde Justiniano e outros imperadores sobre os

incar-cerados forão adoptadase mandadas praticar

em

varias nações.

Na

Itália

em-bora desdeo século 10 e 11 já se encontrassemessas leipraticadas

em

algu-mas

prizões,

com

tudo foi só no século 16 que

em

Milão e

Génova

teve lugar

a creação de certas juntas encarregadas de velarem pelo

bem

estarphysico e

moral do prezo; egrandesforão os serviçosprestados por ellas.

De

que servira essa transplantação epromulgação das leis romanas?

De

que

servirão as evangélicas tradições da Igreja?

A

verdadeira caridade não podia

existir nos corações deentão.

E

improfícua é ella quandoprecisa de

insinua-ções dasleis para existir.

O

estado dasprisões daEuropa era omais

desconso-lador até o século dezoito. Ainda aqui falhavão na pratica asleis, porque erão

descordes do espirito da sociedade da epocha, e a cadeiasempre ha de ser o

reflexod'ella.

Os

tempos erão de luetas sanguinárias e inexoráveis. Luctavão ofeudalismo

(1) Laurcnt—op.cit.

(23)

os populares c o absolutismo, luclavão entre si os nações, luetava a Igreja

buscando afogar

em

sangue as heresiase sehisinas, que, senascião, mais

eres-cião; era

uma

lueta,

em

que ciladepunha as suas sempre victoriosas ebris-tãas armas de persuasãopelapalavra e pelo exemplo para permitlir asde

uma

intolerância cruel e insaciável, e assim dando ella própriapela inquisição aos

seculares liçõespraticas de cárceres

medonhos

e requintes de tortura.

Considere-sc agora que compaixãopoderiainspirarem sociedade assim

cons-tituída, que trazia os lábios sempre ensopados na baba da raiva, coração

sem-pre a ferver de vingança aquelle (pie oflendera os seus chamadosdireitos, c

desprezaraassuas leis?

Em

epoehas

em

que reina o arbítrio, que outra leipôde

existir quoo terror?

De

certo que o cadafalso, a tortura, a mutilação, o cárcere

doentio serião as taças

cm

que clle se refocillariaparavingar-se, acobertada

com

o

nome

dajustiça.

Ainda bem, que se os princípios dos Gregorios c S. Ríartinhos erão

esque-cidos pelos homens, vivião ellcs, atravessando os séculos, e surdamente

pre-preparando o futuro, c

cm

vez

cm

quando se revelando quando achavão

cora-ções que os aninhavão.

Os

Glaudc Bernard, os Yiccntcs de Paula penetrarão nos antros horríveis,

onde exisliãoosdesgraçados para consolarem-nos, c osconverterem.

De

certo,

porem, que seus esforços serião gollas

dagoa

lançadas no abrazado areal dos

dezertos.

O

abominável systcma

coiumum

era o único seguido.

Cárceres de velhos castellos feudaes, espaços abertos nos muros que

cer-cavãoas cidades, masmorras, velhas torres erão aproveitadaspara servirem de

prizão, c quando algumafabrica era determinadamente edificada para tal fim,

era a segurança aúnica condição buseada. Espaços erão tão estreitos as vezes,

que osprezos vivião

em

pranchas suspensas por não teremlogarno chão.

No

meio d'essa apinhoada gente vivia identificada

com

as enxovias a varíola e a febre das prizões; e taes erão seus estragos ajudados pela fome,

queaquclles

mesmos

que tinhão obrigação devizitaren as prizões, d'ellas

fu-gião espavoridos >< inspeccionando apenas o exterior do edifício,

sem

nem

olhos lançarem para oinferno do interior»

; porque o contagio era infallivel

nosque lãpenetravão.

Na

prizãode Marshalsea na Inglaterratodos os dias

mor-ria

um

prezo, e no verão oito.

Não

erão estes os únicosflagellos dos

desgra-çados, ainda estavão sujeitos á avidez e crueldade dos seus carcereiros.

Di-gamos

mais que

em

alguns paizes,

como

em

a Inglaterra, o logar do

carce-reiro era comprado. Então subião de ponto as extorsões de taes homens; porque elles, obrigados a alimentarem e a vestirem os prezos, furtavão a

co-mida devida á cada

um

d'elles, e perseguião aquclles que julgavão que tinhão

dinheiro; etudo era meio de renda.

As

paixões as mais ignóbeis erão açuladas

(24)

ff

era permittida

sem

pagar certa quantia ao abominável guarda. Concluamos

dizendo que deenvolta

com

os encarcerados andavão osloucos.

Ninguém

julgue cfficaz a crueldade detacs prisões para arepressão dos

crimes: augmentavão sempre, e o

numero

das reincidências era elevadíssimo.

O

homem

a tudo se habitua; a impressão

dos primeiros dias se apaga pelo uso, ao

mesmo

tempo (pie variavão e requintavão osgozos materiaes, e mais

seaguçavão os sentidos na experiência de brutaes sensações pelo ajuntamento

daqucllesalumnos-mestros da eschola normal da corrupção.

t.

É

o século dezoito

um

dosmais proveitosos e insignes vestígios da marcha

progressiva da humanidade.

Às

classes desprotegidas e atéentão desprezadas

da sociedade sonhão e buscão possuir os seus direitos naturaes e

incontestá-veis. Servassubmissase ignoranteshontem,ellashoje alevantão-se para

enca-rardefrente, apalpar e depois rir-se dos Ídolos,que a sua boa fé hontem

hy-perbolizavae mystificava.

E

aolevantarem omantofulgurante de

uma

exterio-ridadeimponenteacharãolodo ao

em

vez dos cabedaes imaginados.Então a

so-ciedade tevefé

em

si

mesma,

despedio os tutores, eabroquelada

com

philoso-phia aprezentou-sepossante, esobranceira áspreoceupações herdadas.

E

ca-minhando sobreasruinasdosedifícios do passado, que

cahem

sobosgolpesdo

seu alvião, lançou os alicerces do

monumento

dofuturo. Verdade que

infeliz-mente embriagada pelas victorias muita vez desconhece e insulta Aquelle que

dá força ao seubraço. Deos hade tercerrado os ouvidos às blasphcmiasdo»

ebiios pelasideias;porque ellessão osartífices da suagrande obra

a

regene-ração dos opprimidos.

Essa revolução moral queabala, magnetizando asmultidões, certamente que

será resentida pela cadeia

tãonecessitada d'clla.

E

assim foi.

As

leis de sangue, que região quasi toda a Europa, começarão então a ser

abaladas pelosDelidos c Penas de Beccariae Commentariosás leisInglezasde

Blakstone; (1) e essa discussãopenal muito mais notável se tornou na livre

In-glaterra, ondeprojectos de revogação de certasleis barbaras se aprezentarão

nacaza dos

communs,

e a questão penitenciaria

começou

avulgarmente ser tractada, despertado o vulgo por

um

Pamphleto aprezentado por

Denne

sobre

as cadeias, quepassa peloprimeiro que desenvolvidamente discutio na

Ingla-terraosystema de separaçãocellular. (1)

Ein algunslugares as ideiasde reformapeniteneiaria fôrão até a praclica.

Em

(25)

Roma

instituio-se a celebre Prisão—hospital—moral deS. Miguel, eme tinira

por mote

Pai

um

estcoercere poenas Ímprobos, nisi probosefficiasdisciplina

Em

Gand

formou-se a

Maison de

Force—

sob os princípios do trabalho

em

commum.

Na

Suissacomeçou apratica dacellula solitária,

mas

tão somentepara

castigo disciplinardo estabelecimentopenal, quejaera conceituado.

Erão, porem, exemplos destacados precursores dacruzada, quehaviãode

le-vantaros sustentadores dosdireitosdo

homem,

aindadecahidopelocrime, eda

grandeverdade do evangelho.

Como

outr'ora de pobres pescadores sahirão

os-depozitarios epropagadores damaissanctadasreligiões,a religião social,si

as-sim

me

posso exprimir, devia deterpor apóstolos os filhosdo vulgo.Dideroto

filho docutileiro,Voltaire de

um

notário,estendem os seus estudos

philosophi-cosatéanalysareamplificar asdoutrinasdeBeccaria.

O

primeiro dos verdadeiros

apóstolosda reformapenitenciariano século dezoito, não sendo elles,é

um

que

como

elles sahio dos populares: é Howard,é ofilho doespecieirode

Wâlting-Strectelevado aocargo deHigh

SheriífdeBedford, é ainda aquelle

em

favor

doqualas próprias virtudes e as ideias, que vão grassando, fazem

com

que se

esqueção esses regulamentos, quedeterminão

um

county-marjnate para

pre-encher talcargo.

O

deplorabilissimoestado dascadeias inglczascasamarguras soffridas

duran-te a sua detenção

cm uma

escura e suja masmorra

em

Brcst, para ondetinha:

sido levado prisioneiroporcorsários Francezes, excitarão a alma evangélica ú

cruzadado melhoramento penitenciário.

Diversas c repetidas vezes viajou toda aEuropa desdeaSuécia atéKcrson,.

desde Portugal até a Rússia, cporseusescriptos despertou aattenção

indigna-dada Europapara o estado

deshumano

emiserável,

em

quejaziao osinfelizes

prezos.

Às

cadeias francezas erão horríveis.

O

cárcere c as torturasaindaerão

usados.

Não

imperavao despotismoillimitado dos Luizes quatorze equinze?

Raio desol da

manhãa

dareforma penitenciaria,

Howard

se entrega de

co-ração ecabeça á grandeobra; elle falia no Parlamento, insta, pedee roga,

es-creve,viaja, reúne amigos para levarem a cabo o intento de levantarem

uma

prizão modelo, alcança do Parlamento umbilt,

mandando

erigir duas

peniten-ciarias,

uma

para cadasexo. Obstáculos

porem

apparecem, ja pela morte de

alguns dos

membros

da cominissão encarregada, japela discordância entre os

outros sobrea localidade

em

quedeviaelevar-se o edifício, e finalmente porquo

o governo atarefado

com

a luela da Independência americana,

com

a

guer-ra naval que sustentava contraa França, eatemorisado

com

osgermens

revo-lucionários,, que hião serevelando na população britânica nãotinha « tempo*

nem

gosto para experiência de seiencia social. »

Os

esforços, porém, de

Howard

de todo não se perderão; pois que dois>

condados fSussex e Glouceslcr) levantarão duaspenitenciarias sob o

princi-pio de separação cellular, que forão asprimeiras

em

que a ideia de reformar

o moral do prezo materialmente separando-os rcatisou-se

em

larga escala,.

(26)

IO

e taes forão osseus resultados, que a faina da excellencia d'elles atravessou

osannos alé hoje.

Digno de nota é o echoque as palavras, os cscriptos e os esforços do grande

philantropo hião achando nas multidões.

A

suaobra sobre as prisões traduz-se

em

varias lingoas, pampltletos apparecem discutindo a ideia, c alguns

ho-mens

tornão-se os continuadores de sua missão.

A

Philosophia da Historia,

que quizer procurar arazão do phenomeno, ha deconhecer que

Howard

era

um

filho das ideias que germinavão, e até abrotavão por entre algumas

populações.

Uma

revolução social se preparava, a cadeia havia de senti-la.

VI.

Mais adiantada na Inglaterra a revolução social, mais adiantada

também

se

achava a reforma das prizões, que na França. Foi quando a sua revolução

scintillou, ao finalizaroséculo dezoito, queas prizõescomeçarãoamerecer mais alguma attenção,

A

assembleaconstituinte, depois o Conselho dos quinhentos,

e finalmenteNapoleão ouvirãoo relatório afflictivo das misériasd'ellas,

epropu-zerão medidas, quea agitação do tempo nãopermittio hirem avante;

sobrevi-vendoapenas aMaison de Force, creação de Napoleão.

Os

governos travados

cm

tão renhidaguerra, maiscuidando

cm

fazer soldados, que

emendar

o vicio,

nãopodião prestar a devida attenção ás prizões; e somente naInglaterra

em-quanto ogovernoseatarefava comalueta, a causa da reformapenitenciarianão

morria, lavrando pelo contrario nos corações dos particulares aesperança de

suapróximarealisação.

E

seBentham

com

o seu Panopticone Samuell Romilly propunhão reformaspenaes e das prizões, não

menos

popular era a ideia até entre o bello sexo.

A

roda de Miss Fry reunião-se asLadies Prizon

Associa-tions

com

o fim decuidarem do

bem

estar moral c physico dos encarcerados.

Associaçõesessas que tantaextensão tomarão, que quasi todasas prizões

In-glezas erão protegidas por taes duplamente encantadoras sociedades.

Todos tinhão

em

mente que os sonhos de Horrardhavião de ser realizados; pois que, se envolvido nasneblinas doamanhecer nasce o sol dos trópicos, não impedeissoqueao meiodiabrilhe elle

em

todoo seu esplendor.

VII.

Ideiastão salutares e generosas

como

asque no século passado se intentarão, e começarão atomarcorpo naEuropa, não podião deixar de atravessando o

(27)

li

humano

não encontrava no seu caminho embaraços ccontrariedades nos

des-troços de

uma

velhasociedade, que ainda moribundaresistia ásinnovações.

Francklin, levando seu filho a receber abençãodo velho philosopho

deFer-ney, eraallegoria da gratidão donovoEstado aoséculo que se findava.

As

sua-ves theorias e esforços de Iloward havião de achar echo na segundapátriade

Penn.

Ao

mesmo

tempo

que na Europa o philontropo Howardtrabalhava, e

dedica-va-se ao allivio dasmiseri as dos encarcerados, formava-se na Pensilvânia a

Society foralhvia ting the miseries of Public Prisons, cujo era

um

dos

encar-gossubstituirpela prizão ccllular a mutilação, o cadafalso eos açoites, apenas

copiadas das barbaras leisda velha Europa. (1)

Acabada

a guerra da independência americana,quesuspendera suaútilacção,

continuarão os seus humanitários trabalhos, osquaes se

bem

que intentados

com

affinco ezelo, forão

com

tudo longas experiências

sem

resultado definitivo.

E

aideiaque tinha reunidoa philantropica sociedade, espalhando-se pelosEsta

-dos-Unidos formou outras, cujos ensaios resentirão-se daproverbial

extrava-gânciado povo americano.

No

estado deMaine (porex.) cidade de Thomaston,

levarão o systema cellularaté oponto de construírem verdadeiras furnas:erão

cellulas subterrâneas,

um

pouco mais longasque

uma

sepultura, dedous pés

delargura, para

onde

se desciapor

uma

escada, cque erão fechadas por

alça-pão deferro.

A

luz e o arentravão por fendas abertas no tecto, e paraque o

prezonadavisse fora desuacova, ahipenetravão por tubos

em

zig-zag.

Bem

se

pôdeprever que fim tiverão aquelles infelizes sujeitos átal regimen, (1)

Eis portanto até onde

podem

chegar os desvarios de alguns reformadores,

queporelles estragão, e desaecreditão ideias sãaseproveitosas.

Depois de infelizes experiências dotrabalho

em commum,

sem

separação

al-guma

dos criminosos, váriosEstados que as intentarão,reconhecendo a

inuti-lidade eerro de qualquer systema, quenãoseapoia, na separação realdos

indi-víduos, começarão aenxergar acellula,

como

oúnicomeio profícuo

em

tal

cou-saconseguir. Eraisso

em

1816.

Nova-York

erigio

Auburn,

Philadelphiadous annos depois elevava Pitlsburgo

e

m

Richmond,eontrosestadoscomeçarão

também

a ensaiar osystemacellular.

A

solidãoabsoluta

sem

trabalho,

sem

as consolações doreligioso erão apedra

principalde

um

systema, que levavao rigoraoponto de não quererqueo prezo

visse

quem

lhedava aexiguarefeição, que

cm

algumas cadeias (Richmond) hia até tersomente pãoe agoa.

Ao

ladod'issoasconstrucções erão defeituosas,

pa-redes delgadas, que permittião se

communicarem

os prezos, cellulasapertadas,

malarejadas, malallumiadas, eaténãoaquecidasnoinverno.Entãoas loucuras,

ascongelaçõesemil outras moléstiasfulminandoaquelles que erãosubmettidos

(28)

i*

àtãorigoroso edefeituoso regimen, e desacreditando-o, fizerão abandonar

uma

ideia, queperderaasuaindole, e tornara-se deformeja pela ignorância,japela obstinação dos seus executores

em

fecharemouvidose olhosárazão para só

ou-viremas fabulase lisonjasde sua phantasia.

VIII.

Reconhecidos os

damnos

dosystema até então practicado não buscarão os

americanos na execuçãod'elle,voragem

em

quese

somem

alteradas e

desacre-ditadas asmaisvirtuosasreformas,ascausas do mallogro das esperanças

com

to-daconfiança depositadas, naideia capital da separação cellular.

Não

porquea

issoseoppõeasmais das vezesavaidadehumana, que mais folgadedescarregar

sua culpa

em

estafermo, quepela

mudez

perfilhe os erros alheios,que confessar

o próprioengano. Era noanno de 1825.

Nova-York

derade

mão

ao systema de

solidão cellular, cacompanhadade muitos dos outros Estados adoptara

um

outro

systema, que,emboraja existisseporalgum tempo na Europa, ella amplifica e

aperfeiçoa.

É

osystema de trabalho silencioso

em commum,

que toma

também

o

nome

dologaronde primeiro éexercido naAmerica-Auburn

O

prezoa

noi-te

dorme

em

suacellula,de dia trabalha

em

ofticina

em

commum

com

seus

com-panheiros,

ecomo

sequerestabelecer amaiorvigilância paraimpossibilitar-se

acommunicação d'elles entre si, as paredes das officinas são crivadas de pe-quenos buracos, poronde guardas espião-nos, alem dos que dentro das

mes"

mas

sallas fazem o

mesmo.

Á

menor

infracção, aoarbítrio do guarda, lávai o

azorrague ainda maisaviltar aquelle, cujoprimeiro cuidado serialevantar-lhe

o sentimento de própria dignidade. Todo manejo detal systema repouzasobre

uma

couza—

o

medo

docastigo

eaincapacidade e prejuízos detal meio

adian-temostraremos.

A

necessidade reconhecida por lodosos partidos de impedir-se

aintelligenciados educandos entre sinãoconsegue a disciplina, epelo

contra-rio é

uma

escola aperfeiçoada, onde se aprendea illudiros preceitos e os ho-mens; éainda

um

despertadorde sentimentosmais próprios paradesenvolverem

o ódio entre ovicio eosseus perseguidores, quetrazeremessabrandurade

ani-mo, que fazendoo culpadoreconheceropróprioerro,fal-ocaminharpara o

arre-pendimento.

Auburn

sópreenche

um

fim

o lucro; a cadeiapodendo

sustentar-sepelo ganho dos encarcerados.

Éo

templo do dollarworship.

Eraacadeia da gente commerciante.

Mais tarde fez-se sentir no Estado de

Nova-York

a necessidade de

uma

outra prizão: as550 cellulasde

Auburn

já não bastavão, e outra penitenciaria

foi erigida

em

Singsing juntoaspedreirasde

mármore

do rioHudson, que

de-vião ser trabalhadas,

como

são, pelos prezos. Então,

bem como

o

domador

de

(29)

tre-13

mulas obedecem aosacenos da vara magica do domador, assim

Elam

Lynds

guia

cem

criminosos para construírem elles mesmos, apenas ajudados por

algunsartífices livres, asuanova prizão.

E

esse

numero

de prezos, que ao depois foi elevado a mil, eracontido na

maiscstricta obediência «

sem

azilos para recebe-los,

sem

muralhaspara

con-te-los.» Tocqueville espantado pelo

pbenomeno

attribue a causal única «á

firmeza decaracter, á energia da vontade de

um

homem»

porém

se

atender-mos

que a mais rigorosa e terrível disciplina ahi existia, se attendermos que

os guardas vivião constantemente armados declavinas epistollas, se

atten-dermos que, logo que estes meios falbaram, rebelliões arrebentarão logo,

fa-cilmente conceberemos que antes ao estado de embrutecimento, aos

homens

terem-se tornado verdadeiros atomatos pelo terror, deve-seattribuir o facto,

que ámoralisação conseguida do prezo.

Nem

Elam

Lynds punha a reforma moral do prezo

em

duvida,

como

também

as

mesmas

rebelliões, o facto de

um

prezo amputaras próprias pernas

por não poder mais, desesperado, soffrer o castigo que lhe acarretava o seu

instincto de liberdade diversas vezes queintentou fugir, tentativas de

assassi-nato de Lynds e outras apontadas por Glay Crawforde Ducpetiaux deixão ver

quecila não existia, e qual o rigor dadisciplina.

De

outro lado a quakeriana Pbiladelphia, para

quem

a reforma moral do

preso é mira buscada

com

o mais louvável empenho, não se deixando levar

pelos exagerados gabos que

um

estudo superficial dava então á

Aubum,

pelo

fulgor phantastico,

com

queanovidade arevestira, mandara estudar e discutira

cm

seu parlamento osprincípios d'aquellesystema,e habilitada

com

esse estudo

e

com

as lições que lhe tinha dadoa infelizexperiência de Pittsburgo, alevanta

GherryHill, verdadeiro typo architeclonico depenitenciarias embora

excessi-vamente ostentosa seja a sua fabrica, que mais

um

castello feudal, que

uma

prisão se parece.

Ahi é conservada a disciplinasolitária de Pittsburgo,

porem

augmentada do

trabalhona ccllula.

Entregando-se, porém, a

uma

philosophia nimiamente secularPbiladelphia

confiavademasiadamente na solidão, e no trabalho,

como

meiosmoralisadores,

epoucaattenção prestava a baze de todaa educaçãopenitenciaria

a religião.

A

principio ella abrio as portas a todos quantos quizossem entornarna cellula

osconselhos e as consolaçõesreligiosas, ao depois

nomeou

um

só capellão, que

foio próprio a dizer aCrawford «que lhe erãoprecisos apezarde sua dedicação

tres mezes para visitar suecessivamente todos os presos. » (I) Eis os dous gandessystemasque a Europa ao depois imitoue tem reformado.

(!) Ducpetiaux— Sy>temcpcnltonciaircvol.1.* F

(30)

*4

ix.

Refeitas de forças as nações curopeas depois do batalhar detantos annos, e

cuidadosos do

bem

publico aquelles governos, que o aguilhão necessário das

revoluções tinha tornado sollicitos de seus deveres, e tementes da opinião

pu-blica, aquelles emfirn a

quem

dirigia opensar dos

homens

sensatos, e não os

caprichos de

uma

vontade absoluta, começarão os ventos do occidentea trazer

os rumoresdos grandes melhoramentos ephilosophicas reformas, porque

pas-sava proveitosamente o systema de prisões nos Estados-Unidos.

E

deslembra-dospor ventura de que a semente da arvoreque fruetificavana terra ubérrima

da America da

mesma

Europatinha sido levada, elles enviarão nolahilidadcs,

que láfossem estudar o machinismo e segredo dos systemas. Tocqucville e

Beaument e depoisDoinetz e Blouet pela França; pela Prússia o Dr. Julius e

Crawford pela Inglaterra forão osenviados.

Divulgados econhecidos ao depois d'isso os systemas americanos d'elles se

apoderouoespirito discutidordo século, e

com

as relações dosvisitantes entre as

mãos

cada sciencia volveo e revolveu o lado da questão que lhe competia.

A

Hygiene, aPhysiologia,aPsychologia, a Criminalogia, a Estatísticac

Archite-ctura, cada

uma

concorreo

com

o seu contingente para a edificação do

monu-mento àmoralisação.

E

se

em

algunspaizespôde se attribuir essa dedicação no alevantamento de

tão cxcellente cauzaa

amor

das novidades, e porque « no meio das tormentas revolucionariasa opinião publica apodera-se muita vez de

uma

ideia, a

repre-senta por

uma

palavra sonora »,

em

outros, porém, a reforma penitenciaria era

grito intimo e consciencioso de

uma

philantropia sãa e formada atravez dos

tempospelo conhecimento e pratica dosdireitosdo

homem.

O

systema de CherryHillfoi o geralmente seguido, quer pela revelação que

fezCrawford dasmisériasdo systema do Auburn, oceultadas pelovéo de

uma

apparencia enganadora, querpelosgraves defeitosdapenitenciaria deGenebra,

querpelarepugnância doscastigos corporaes, que são o « apoioprincipal

d'a-quellesystema. » (1

)

A

Inglaterra construio Pentonvillc, e a França Mazas, asquaes,

embora

hajão

muitasoutras prisões sob o

mesmo

systema, são os typosd'ellc

cm

cada

um

dospaizes.

Ao

semostrarem os erros, defeitos e lacunas do systemade solidão, o génio

perseveranteecordialmente dedicado dos philantropos inglezes, se algumavez

parecia descoroçoado, era para mais adiante supprir

com

adequados meioso

que necessitavaderemédio; e presentemente pode estagrande nação gabar-se

(31)

.*

de ter

um

systema penitenciário que a honra, tornando-se só

em

talprogresso.

O

systema Irlandez, que ao depois descreveremos, e desde jà dizemos que o

adoptamos, é

uma

gloriado

homem

e doGhristianismo.

Na

França, porém, onde Mazas nunca passou de

um

typo architectonico de

prisões, opulento de obras d'arte, porem pobre decaridade e cuidados de

co-rações dedicados, verdadeiraexterioridade c ofiicialismo francez, corpo coberto

de brocados

com

alma enlameada, (1) ibrão o resultado das vigílias de sábios,

e esforçosde alguns

homens

revogadospelo decreto apenas do ministro

Persi-gnyallegandotãosomentepelascondiçõesdispendiosasquetrazosystema

cellu-lare porque « le goucemementrenonce 1'applicationde ceregime

d'emprisionne-ment pours'en leniràceluide laseparationparquartiers.

O

quevale o individuo, o quesignifica apcnalogia christãa,que consideração

merecem

melhoramentos modestos e

sem

estrondo paraaquelles paizes

em

que

impera o absolutismo militar, ou

em

que as regalias e formas eonslitucionaes

não passão de pura formalidade?

Ainda antes de realizar-sea reformapenitenciariana França,jáTocqueville

punha

em

duvida a sua exequibilidade «

Na

America,dizia elle. omovimento

que determinou a reforma das prizões foi essencialmente religioso.

Na

França aopinião publica se mostra pouco favorável a tudo queo zelodo

clero protege,cpor seu turnoo cleroexperimenta pouca sympathia por tudoque

se aprezenta sob os auspícios de favor popular.

Na

falta da religião ficava a

Philantropia para reformar criminosos. Entre nós a philanlropiaé

um

acto de.

imaginação, nasce na cabeça, não vae ao coração.

O

segundo obstáculo que

contémas nossasleisse acha

em uma

centralisação excessiva.

As capacidades, todas asin telligencias se prendem a

um

só objecto

a vida da sociedade

poli-tica;resulta d^ssoque ellesgaslão sua energia intellectual

em

discussões úteis

ao governo,

porem

estéreis ao

bem

estarsocial. » (2)

Estarápor ventura Tocqueville descrevendo oestado social de

um

outro Paiz

que, situado

em

opposlo hemispherio, muito caronos deve ser?

Na

Inglaterra,Bélgica, Prússia, Suissa e EstadosUnidos progridee floresce o

systema penitenciário.

Na

França decahio, n'Áustria, Espanha, Portugal e Brazilestá

em

miserável

estado.

(1)Não exascro—veja-se Ayres doGouveiae opróprioPieiraSaneiaoquedizem.

(32)

Taraque garantir o

homem

decaindo? Para que ouvir oclamorchristão, que

ievantão alguns monomaniacos da reforma moral doprezo? Eis opensar

d'a-quellcs governos para osquaes são lettra mortaas constituições.

Será por ventura

um

erro repetir ainda que a cadeia é a photographia do

(33)

The h\story of lhe wortdaccordinply, prese:

»

us wilh asuccessionofcrime?and punishments,and

ntpresent lhe seriesappearslobeasfarasremoved

fromatcrmination as atauy previous periodIn the

annals of lher<ice.

(Conoú sNatcheofUax).

I.

É

a pcnalogia

ama

sciencía que tem de ser reconstituída aluz dasinsinuações

da Physiologia humana.

Com

oprogredirdos estudossociaes,

com

o clarãodasestatísticas, tão

impor-tuno aos princípiosillusorios, tcin-sc conjunctamente patenteado a

incapacida-ded'clla

cm

darresultados úteisao

bem

estar dasociedade.

Verdade ó (pie' vai ellaabandonando as preoceupações que lhe herdarão as

epochas passadas,

mas

reconhece-se o constrangimento

com

que d'ellas se

desapega.

Longe de estudaras causas geraes c individiuves do crime, as disposições

or-gânicas inberentes ao pensamento do

homem,

e formar a sua tbcrapeulica ou

prophilaxia

em

conformidade

com

os conhecimentos adquiridosportal estudo

tem cilalançadomão,

como

habitualmente faz o charlatanismo,- de

um

sómeio*

de

um

só medicamento moraly para curar e prevenir toda casta de moléstia moral.

Esse meio é o terror,jaapplicado paraempecer acontaminação dosque

tes-femunhão ocrime, japara curaraquellcs que, doentes drclle,

podem

lernovos

accessos.

E

opciorequemuita vez ao

em

vezde medica torna-se cirúrgica;para

queao aspecto do

membro

amputado, pelo terrível dasanguináriaoperação cuide

rada

um

daulcera, que podetrazer-lhe aamputação,,

como

se fossedado atodos

serem médicos desi

mesmos

\

E

éesteoseumeio favorito,justamente

como

omais fácil de tratar-ser

embo-ra incerto e fracodeacção.

E

então ellaexagerada ou apaixonadamente diz

com

o>

Conde

Joseph de Maistre: Otez da monde cet agenl incomprchensible?(o

carras-co] dans

Vmtant

mêm

1'ordrefaUplace au

dum,

b&trones s'abimmtet

(34)

cietêdisparai,(1) ou enlão

com

Baccariarepete, que

acompanha

sempre aoque

pôde ser criminosoalembrançaque ajustiçasocial o espreita, e o hade apanhar

e castigar. (2)

É

um

triste legadoeste

modo

de pensar dostempos

em

que aobservação das

leis haturaes, eo estudo do

homem,

imperfeitos cedião o logar as propensões

durasesanguinárias das epochaspassadas.

Hojejá se vae dissipando esseaffíictivo

modo

deveras cousas, e as fogueiras o ferro candente e as mutilações desaparecerão dos códigos,

porem

ainda se

ouvem

os martelos doartífice elevando o cadafalso, ou o estalodos açoites;

as-sim

como

aindase vê a iinmoral e perversora enxovia.

Quando, porém,liberta dos preconceitos ruins a Penalogia consultar

impar-cialmenteos factos, c a razãocerrando os ouvidosas doutrinas envelhecidas de

incompleta scieneia do

homem

para ouvir as naturalissimas explicações da

Psychologia

physiologica hodierna, então ha de cila conhecer quãocurto èo

alcance, quão incerta é a acção, quão contingente é a efficacia do seu meio

fa-vorito.

Os

espíritospensadorescompenetrados da grandeza das altas questões

socia-estem sido locados da anomalia apparcnte que aprezenta, a amplificaçãoque

cada vez mais vae tomando o

numero

de crimes, a despeitode

com

elles

pro-gredirem

também

as eondcmnações, c o que ainda maisdeve admirar, é essas

mesmas

condemnações guardarem

uma

relação constante

com

o

numero

de

ac-cusados, e terdiminuta influencia a natureza maisterrífica cVessa ou d'aquella

pena.

É

um

fado demonstradopelasestatísticas feitaspor Queteletna França e

ua Inglaterra por variasvezes e pessoas.

(3)0

crescimento do crime na

pró-pria Inglaterraédosargumentos mais poderosos contra a pena,quesó

atemo-riza.

Em

nenhum

paizas leissãomaissanguinárias,

em

nenhum

paiz o supplicio

extremo era, e é mais frequenteadespeito dosfavores dojury, mais horrores

não podião haver que nas presingangas, nas Cadeiaspublicas c particulares dos

condados no Van Dicmen e

em

nenhum

paiz o crime é mais desenvolvido.

Até 1812 a 1815 tantaera a desbumana confiança que havia naeflicacia do

carrasco, que era a única doutrina adoptada a defendida por Palcy, isto é de

sivecping into lhe net ereri/ crimewhich nnderpossible circumstance

may

merit

ilealli, and sing hng out a small proportion ofeach class actiially to undergo

execution

e nãoobstante cresciasempre ocrime,por tal forma quepelo ater-rorizador crescimento d'elle nomearão-se commissões para inquerirem as

cau-sas, e os remédios de tão atiliclivo estado; e reconhecendo a inefficacia do

medo, a commissão presididapelo Coronel Davics (

em

18o0 ) opinou que

ha-M) Soirlos—S'.Pcteríburgo vol. 1/ pag.49.

(2i CH. porClay.

(35)

IO

via dons

modos

de prevenir o

crime—

ou reformando os prezos, ou affastando

doalcance d?

ellcsos

mãos

caracteres (1).

Um

eriminalogista, queainda crênacfficaciade tal meio, diz-nos:

La

erainte arjitde quelquesorte

comme

contrepoids mecaniqne

aux

impulsions criminclles.

Mais

son effetpeut s^affaiblirdejour en joursi la seduetion da crime croit en

proportion. (2)

Sc sahindo do recintodosfactos e autoridades entrarmos

com

arazãona

con-trovérsia, ainda o terrornão se podosustentarincólume dosgolpesque lhe

des-carregarmos, por que são ellesosda verdade.

E

de feito:

Anula quando todas as tendências e os motivos que levão o

homem

a

com-mellcr actosreprovados fossem idênticos

em

todosos indivíduos, aindaquando

a acção do

medo

fosse uniforme

em

todas as organisações, ainda assim

incer-tosterião sido os resultados.

A

que movei se dirige o

medo?

A

um

só—ao

inte-resse

ode não sofTYer

um

mal, que injuria moral ou physicamente.

O

queé a satisfação de

uma

inclinação, de

um

desejo, de

uma

paixão desordenada

em-fim? Outrointeresse; logotemos

em

luetadous interesses, dos quaeso

segun-do,jáporsi poderoso, pôde ser reforçado por

uma

occasião favorável tal

como

a somhra danoite, oermo, circumstancias propiciasa perpetração do crime, e

a esperançaemfim deimpunidade desarreigavcl do coraçãohumano, e

enrobus-tecida pelas caricias fallazesda própria paixão.Certamente queo equilíbrio

rom-per-se-ha, e o movimento tomando a direcção da força mais poderosa ha de

arrazarafrágil e movediça barreira do temor. Nos

mesmos

casos

cm

que o

me-do tem a acção é cila transitória e duvidosa. Crer n'elle é construir

uma

casa

nas margensalagadiçasdo rio caudaloso; se a tarde mira-sc ella na superfície

dasagoas somnolentas,anoite se a enchente despejar-se desatinadalá irá

em

destroçosaquella

mesma

que blazonava-se ha pouco

cm

sua negligente

segu-rança.

E

porem

na occasião

em

que o analysamos á luz da naturesa psychica do

homem,

quemais manifesta se torna a incapacidade detal meio.

Um

homem

reconhecidamentenobre de qualidades moraes, virtuoso, porque

aborrece o crime, possa de

momento

commetter

um

acto reprovado é cousa

concebível, e porcertojá observada.

Uma

causa

momentânea

e allucinadora

pôdepor suaviolência leval-o a commetteraquillo

mesmo

quealguns instantes

antes ellc reprovava caborrecia.

Com

estes não devemos dcinorar-nos; pois que é evidente que

nem

antes

(1) Clay'sMemotrs—png.208 c seguintes,

(36)

nem

depois de sua acção leve influencia a pena.

O homem

de

bem

sóconhece

oCódigo de sua consciência. Onde, porém, sufticientementenos

demoraremos

éna classe dos

homens

mais animalisados, digamos assim, que humanisados.

É

nessa classe qne encontraremos a generalidade dos criminosos: d'esscs

ho-mens

que tem pensamento, sensibilidade evontade, funecionando

em uma

in-feliz anormalidade, anormalidade nascida, ou de

um

defeito orgânico do

cére-bro congénito

com

o individuo, oudenãoter sido esse órgão convenientemente

polido e desenvolvido por educação moralisadora, e sim aberradopela

intoxi-cação lenta havida nas péssimas doutrinas e

máximas

de

uma

sociedade

cor-ruptora emá, ou ainda noimpério absoluto e dilatado de hábitos e propensões,

que vão assenhoreando-se da vontade do individuo, atéque afinal,embora

de-baixo dos pés conheçaoabysmo, a fatal forçaparaahi oimpelle dominado.

A

primeira hypothese que, demonstrada

como

está hoje na Physiologia—

a

instrumentalidade do cérebro no desenvolvimento daintclligencia, e relação

in-tima da organisação d'elle

com

a potenciaintellectual fora jáde fácil

compre-hensão, senão houvesseamontoadosfactos na sciencia, confirmando-a.

Diz

um

celebre escriptor—During the letst thirtij years

my

attention was

becn directed to lliis subject, and Ihaveobserved the criminal brain in the

prisons of most of thecountries ofEurope, and oflhe United- States of

Nortk

America; andevenj where the lype was the samc.

Several ofthegovemors oftheprisons have become acare ofthe fact. (i)

Deve-se admittir, pensa outro, que aPhrenologia semelhante atodas as

ou-tras extravagâncias, tem algumaporção de verdade

em

si:porque

inquestiona-velmente existe bastante realidade

cm

muitas das observações cranioscopicasde

Gall.

Alguém

que observar

com

algum

cuidado as formas e as dimensões de

differentes cabeças, perceberá logo que

uma

cabeça chata c contrahidamuito

ordinariainentoesla sobre os

hombros

de depravados criminosos.

A

segunda hypothese é

tambem

um

facto reconhecido pela sciencia c pelos

homens

práticos.

Em

um

cérebro que vive

em

inacção por faltadoestimulo da

cultura intellectual, e por deleixo

em

procurar-sc desenvolver as

qualida-des moraes, necessariamente quebra-se o equilíbrio entre as justas

aprecia-ções das couzaseaspropensidades animaes; e assimdominandoestas, decerto,

que as acções hão deserconformes

á força influente.

A

terceirahypothesedemonstrão-naos factose a razão.Aquellc prezo de

Sing-sing, queamputou suas próprias pernas, porque vio que não

devia fugir,

mas

nao tinha forças para dominar o impulso do instincto da liberdade, é

um

dos

muitosexemplos quediariamente nos

offerece o tracto doshomens.

É

essa

mo-estia moral aque vulgarmentesedáo

nome

deespíritosfracos, é a d'esses «

ver-(i

(37)

21

dadeiros autómatos pensantes,porque muitosindivíduos ha cuja vontade jamais

temsido

chamada

em

acção por devidoexercício, eque gradualmenteperdem o

poder desenvolvel-os, tornando-sc merascreaturasdohabito edo impulso. » (1)

Ora si assimé,se o erro parte sempre de

um

defeito psychico, mais ou

menos

superavel,éverdade, pode o temor porventurasuppril-o? Pode elle dar talou

qualaperfeiçoamento ao cérebro mais ou

menos

defeituoso, despertaras

quali-dadesmoraes eaintelligencia, que

dormem

prezasnosenvoltórios demãos

há-bitos e péssimas

máximas?

Podeelle fortificar

uma

vontade tocada deatrophia

pelainacção?

Não

de certo, que aacção do

medo

é

uma

eunica, e cada umd'es_

sesestados pathologicos necessita de meiosdiversos e apropriados asi

mesmo

quesomente

uma

educação

bem

dirigida pode fornecer.

Aindaquando o terror fossemeioeducador,é evidente que deveria crescerde

intensidade na razãodirecta da anormalidade moral do sujeito, oraé factoque,

quandoo rigorda penaébuscado

como

meio de punição, rihabito de

testemu-nhal-o enfraquece asua acção sobre a sensibilidade dosindivíduos; logo temos

o meio diminuindo deefficacia na razão inversa da necessidade d'elle.

E

alem

d'isto «muitos

homens

tornão-se criminosos por imprudência natural e

predo-minância de audácia: nelles operigo opera

como

urndesafio,estimulando-osa

provocaros castigosameaçadores.» (2)Eis oprópriomeiopreventivo

originan-do aquillo

mesmo,

quequer impedir1

Por tanto se o terror, extreme de outrosmeios, è essencialmente inefficaz

em

prevenir crimes,

cm

fazer renascera moralidade

em

um

individuo, é

con-clusão legitima de tal premissa que muito diversamente do que tem pensadoa

generalidade dos penalogistasdeve ser consideradaa cadeia.

O

crime só previne a moralisação das massaspor educação conveniente.

A

cadeia sóé efficazmentepreventiva no tanto que corrigindo o culpado, obsta a

reincidência, e entrega ao juiso e culto das multidões a bellcsa moral do

ho-mem,

quediz na praça publica:euera cego, seguia ocrime, porque

phantasia-va-lhebellezas, hoje queoenxergoabomino-o,porque conheço-lhe a

asquerosi-dade ou então porque ellatornada

em

hospício de monomaniacos prejudiciaes

ao desenvolvimento social, impede mecanicamente omal dos actos dictados por

perigosa c incurável insânia.

Paraalcançar-se

porem

esses resultados necessárioé que distinga-sc na

ca-deiadousfins, aque dá ella complemento, eque temsido geralmente

confun-didos.

O

primeiro é" apunição propriamente do criminoso mais ou

menos

livre; por

quese

em

muitos casostão rudimentarexisteopoderdo livre arbítriopelo

equi-(1) Larpcnler— flumannPliysiology. (2) Conibc-Naturcof. mauPay.2S3.

(38)

»«

librio, ou domínio

em

queotemoimpério de propensões congénitas, ou adqui-ridas, tornando quasi injusta qualquer pena pela irresponsabilidade moral do

agente,

em

outros existeelle capaz de arcar

com

as instigações das paixões, c

6 portanto castigavel.

É

puramentea satisfação de

uma

leieterna.

E

então a prisão é o instrumento dajustiça social, cuja origem não nos compete presentementediscutir, e cuja

pena deveestarna rasão directada responsabilidade moraldo individuo.

A

differença de criminalidade dos perpetradores deactos reprovadose

idên-ticos

em

sua revelação material é reconhecida até pelo direito Ecclesiastico.

Os

grandes d'este mundo, diz o concilio do undécimo século,

devem

soffrer

penitenciasmaisfortesque ospobres; porque não ha igualdade entre os

robus-tos c os fracos,

ambos

não

podem

supportar cargos iguaes; é

como

si se

met-tera na

mesma

linha o doentec o são. (1 )

O

segundo fim ó a educação moraiisadora do condemnado, é ocomplemento

necessáriodo primeiro, é

um

dever inescusável dasociedade.

Não

porque

apre-cieegoisticamente,

como

fazem algunspenalogistas, amoralisação doprezo

co-mo

meio de «garantiro futuro» (2) sim, porque despresando-a, longe de ser

isso

uma

«negligencia reprehensivel» (3) commettia a sociedade christãa

um

crime, poisque postergava os preceitos da religião sobre os culpados

clara-mente demonstradosno direitoecclesiastico, commettia

uma

injustiça

clamoro-sa para

com

o

mesmo

condemnado, e lançava

mão

de meios, que não achavão na efficaciapreventivaa desculpa de sua crueldade.

É

o que vamosdemonstrar.

(1)Laurcnt—Eludesvol.7 pag.159.

(2

)

Chnuvcau—TheorlcduCod. pag.49.

(39)

La lajusticecivile a son or^aneetson symbole dans le bourreau.Tel n'etpus le senti-inent de1'Eglise; ellepunit non pourinfiigerun

mal,mais parcharilépour celui quiafuit lemal.

(Lalrent— La Fkodalité etl'Eclisb. pag.156.)

II.

A

intima correlaçãoquelia entre asdoutrinas daPenitenciaria dos philantro» posmodernos, eas lheoriaspcnacs dodireito Ecclesiastico, certamente

surpre-henderaa

quem

n'issoattentasse, sejanão foracouza de esperarpelacongruen_

ciaquequalquer ideiabenéfica â humanidade sempre hade ligar-se

com

o

evan-gelho, e asdoutrinasdosPadres daprimitivaIgreja. (1)

Acima

de tudo colloca a Igreja aregeneração e asalvação do criminoso. Ora

é Gregório

Magno

estabelecendoos preceitos, que

devem

dirigir os ecclesiasticos

nocastigo doculpado. «

A

caridade, e nãoo furor osanime; se castigão os

cri-minosos éporqueosamão, aspenastemporaes são para substituir os fogosdo

inferno. »

Um

conciliodeToledoestabeleceque «o fimda pena ó corrigir; paracorrigir e precisousarantesde benevolênciaquede severidade, antesde exhortaçõesque

de ameaças, antes de caridade quedeauetoridade. »

Buscarapena

como

occasião de educar eis o grande preceito da doutrina

ec-clesiastica.

A

possibilidade de alcançar-se a regeneração de

um

peccador, e o

dever de

empenhadamente

trabalhar-se para conseguil-a a

bem

dos nossos

des-graçados irmãos,são os preceitos estabelecidosportodas aslettrasdo evangelho.

Como

pois

uma

sociedade, que seorgulha deser cbrislãa, esquece-se de

pra-ticar tãosanctas theorias?

A

uma

sócausaattribuo,e équequando noséculo

duo-décimooslegistasdo occidenteforãoaBolonha buscar no direito romano armas

[V,Todabase(Testeperíodo sobre odireito ecclesiastico c tiradadaricaobradoeruditoe

(40)

SJ

com

que esmagassema feodalidade,delatrouxerão asalmas contagiadas da niím

penalogia pagãa.

Sc,porem,impeUida por orna phílosophia bastarda a justiça social, fechar os

ouvidos ao evangelho, reflectindo, hade perceber a monstruosidade suaegoísta

justiça.

Ainda encarado socialmentemereceocriminosoosmaiores cuidados da socie-dade. Se asociedade foi dada ao

homem

como

« meio de soccorro,

como

meio

de desenvolvimento, » claro é, que entre ellaeoindividuo ha deveres mútuos

a cumprir.

E

secriminosoé aqnellcque colloea o obstáculodo crime na estradado

des-envolvimento social,

também

o é ella, quando não allumia

com

a luz da

instrucçáo, aos que, cegos do espirito, não

podem

convenientemente enchergar no borisonle a estrella, que os

chama

ao alto destino do

homem.

E

sobe seu

crime deponto,si altendermosquepôde aignorânciacegar ao individuo,

porem

jamais ao Estado

como

um

todo.

É

deleixo criminoso oseu descuido

em

instruir

asmultidões de seusdeveres.

É

desprezo do alto fim para que foi creado por

Deos.

E, portanto,pódcsedizer que oprópriocrimeè

uma

pena impostapor Deos

à sociedade.

E

ainda aconfirmação da inexorável lei das causase efleitos.

Da

anemia prolongada nasce a hypertrophia do coração, da anemia moral

nasce ahypertrophia das más propensões—o crime!

O

cérebro comprimidopelamalignae férrea

mão

da ignorância bojapelos

es-paços que lhedeixão osdedos, queo esmagão, estes espaços sãoosmoldesdos

mãosinstinctos.

A

herançatomaaobra deDeosaleijada pelos

homens

e o lega

ao futuro. Eis a génesisdosgrandes criminosos.

É

geral o clamor contra a sociedade quedeixarevolverem no

embruteci-mentoas ultimascamadassociaes, os viveirosdos crimes; e issosedá naquelles

mesmos

paizes onde mais cuidadosmerece dos governos o

bem

estar publico.

É

oque reconhecem

bomens

eminentes de todo o

mundo

intelligente.

E

que força os governos tirariâo da mola moral, seelles soubessem dirigir,

ou

quizessem animar a sua acção! (1) Thedangerous classes in England, no

less than in France consist ofthose

whovn

vice orpoverty or ignorance gene-rally ali three have placedin a state oficarfarc with social order. Sociely has

-donenothing for them, andthey aresouredandbrutalised. (2)

Por tanto, si muitos dos criminosos, senão asuatotalidade, são

actualmen-tevictimas da própria sociedade,nãolhesdeve ella

uma

retribuição, quando

in-(1)Regler—LcsCla?sesD.tngereuses— Pag. 2G3vol.l.« \%PhylosorhyofRagged Schuls-Fag.33.

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