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Os desafios de pensar uma educação democrática

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Academic year: 2021

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ICHF - INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA GCP – Departamento de Ciência Política

Disciplina: Artigo monográfico em Licenciatura Professor Doutor e orientador: Ari de Abreu

Odinei Mota Cavalheiro

Artigo Monográfico

NITERÓI 2018

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Artigo monográfico apresentado a Universidade Federal Fluminense, à Disciplina de Ciência Política e ao Departamento de Educação, como avaliação final de curso. Tendo como orientador o Professor Doutor Ari de Abreu.

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Resumo

Pensar a Educação Pós o fim do Regime Militar, em 1989 tornou-se uma grande questão. Não que o caminho já não tivesse começado a ser trilhado, mas pela primeira vez em muitos anos, conseguimos deslumbrar um oceano de possibilidades e desafios.

Abriu-se um espaço para o diálogo que antes nunca tivemos. Assim, trouxe ao presente as urgências e a atenção que a educação sempre exigiu, porém, antes negligenciada. Por mais que não tenhamos ainda alcançado o que uma sociedade justa e igualitária demanda, a importância do espaço criado torna-se vital. Pois, é dele que podemos reivindicar, exigir o pleno Direito Constitucional.

O que torna urgente pensar, é que mesmo com o fim do período mais sombrio e triste de nossa história recente, a estrutura de poder nunca se dissipou. Continua exercendo seus "Direitos" a fim de perpetuar uma relação desigual.

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Palavras chaves: Educação Democrática; Educação Pública; Pedagogia Das Famílias; Desigualdade.

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SUMÁRIO

1 Resumo

2 Conceituação de uma Educação Democrática. 3. Das fragilidades das circunstâncias.

4. A escola como obstáculo. 5 O Capital Cultural.

6 Considerações finais. 7 Referências Bibliográficas

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Educação Democrática

Herdamos uma Estrutura seriamente excludente, que ainda nos faz sentir o extremo desequilíbrio no acesso a oportunidades. Os índices pós primeiros anos da nossa redemocratização revelam o tamanho do problema, pois ficou constatada que uma geração fora privada de livre exercício de pensar.

A educação nunca foi tratada com o devido zelo, porque estamos falando de algo que liberta o indivíduo, que o prepara para um horizonte de possibilidades. Estamos falando de um período registrado, tendo o Rio de janeiro como exemplo, em que fica claro o abismo que estivemos e estamos mergulhados. Números que revelam, entre falta de acesso à escolaridade ao analfabetismo funcional, fruto de uma leviana dissimulação da realidade educacional.

A escola pública não foi capaz de tornar o acesso democrático ao saber, pois foi pensada e utilizada para reproduzir os interesses de uma Elite. Uma vez identificado esse papel, houve a urgência em emergir uma nova visão a respeito da escola pública que visasse romper com essa ideologia. Segundo Alba Zaluar e Maria Cristina, a pedagogia das famílias é o fator que confronta a visão ideológica (Pedagogia da escola), despertando um campo de resistência que visa a ascensão social do individuo.

“Para dimensionar a importância da escolarização do cidadão e na qualificação do trabalhador oriundo dos seguimentos mais pobres, alguns recortes se fazem necessário”

ZALUAR&CRISTINA, 13, Antropolítica Nº3, 2º semestre 1997

Essa visão sobre a pedagogia das famílias, no entanto, apresenta-nos uma fragilidade: As famílias estão mais preocupadas em garantir postos de trabalho com carteira assinada, do que assumir posições de decisões e comando. Posições essas, que foram destinadas a elites. Dessa forma, qual é o papel real de uma educação democrática? Que

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democracia, cuja perspectiva é a luta pela igualdade de oportunidades, foi alcançada? Estamos diante de uma realidade que faz que indivíduos estejam "presos", sobretudo, de existir plenamente.

Das fragilidades das circunstâncias

O perfil social daqueles que frequentam a escola pública no Brasil, deve ser analisada de acordo com a realidade específica de cada grupo escolar. Levando em conta fatores como: Violência, evasão escolar e realidade econômica. Esse tripé demonstra, nos dias atuais, quais são os eventos primordiais do dia a dia escolar. A violência não apresenta-se de uma única forma. O jovem é vítima de uma violência sistêmica, antes mesmo de pôr os pés dentro da escola. Onde muitas vezes, a escola torna-se uma fortaleza física diante de dura realidade que o cerca, como vimos em recentes episódios no Rio de Janeiro. Muitos professores, alunos e funcionários usando a escola como "abrigo" contra assaltos, bala perdida e da própria morte. Nota-se que o espaço escolar, diante da dificuldade passa por uma ressignificação. Deixa de ser um ambiente apenas de escolarização e toma contornos de um moderador das relações sociais, onde cabe a ela, dar vazão a questões intrínsecas a ambientes familiares como: Educação, mediador de conflitos da família.

Esses são alguns dos exemplos da nova dinâmica do papel escolar. Talvez o pior deles seja a imersão dessas escolas em ambientes totalmente hostis a prática escolar. Conviver num ambiente em que o saber é um ato de resistência diário pode ser incrivelmente perturbador. Notícias diárias de alunos que são envolvidos com o “movimento” é notória e vem crescendo diante da escalada da violência, professores que não aguentam mais conviver com essa rotina perturbadora e suas constantes ausências, a baixa frequência de alunos. Daí pensar no total desamparo oferecido sistematicamente pelo Estado, é um passo. Ataques as disciplinas como Sociologia, Filosofia, a proposta para o “novo” Ensino Médio, são constantemente discutidas por professores e tida como aterrorizantes. Criar um abismo de acesso a educação, é transferir essa mesma condição para a sociedade.

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Um grupo restrito tendo acesso a todas as disciplinas, enquanto a educação pública pensa em prover o ensino a funções cujo preparo é intermediário, não parece um ensino democrático que de oportunidade de crescimento a todos os seus cidadãos de forma igual e justa. O ensino técnico, proposto pelo Estado, tem como caráter principal, criar uma mão de obra permanente e cristalizada para uma parte pequena e privilegiada da população, reservando um exército de mão de obra com baixa qualificação, tendo em consideração a diferença de anos de aprendizado que refletem diretamente na remuneração alcançada. O que podemos enxergar é que: devido ao momento crucial e histórico pelo qual estamos passando, ou seja, de ilegitimidade aliada a crise econômica, sonegar o acesso universal com a desculpa de estar preparando uma mão de obra qualificada é extremamente perverso. Como tão bem observa em seu texto, Alba Zaluar e Ana Cristina, acerta em cheio ao tocar na autoestima. Estamos falando de um ambiente onde não há o reconhecimento da sua realidade de forma crítica. O jovem não vê sua realidade como sendo uma parte crucial de responsabilidade do Estado que devia lhe atender. Quando o jovem não se vê como detentor de deveres e sobretudo DIREITOS, ele não se enxerga como cidadão e por contrapartida, como um indivíduo vivente da sociedade. A sua realidade o “cega” para essas questões, pois o massacra dia após dia, colocando-o em um ciclo vicioso de falta de oportunidade dia após dia. É uma realidade cruelmente repetida as 06 horas da manhã quando o despertador o acorda.

Com uma realidade perturbadora como essa, o Capital Cultural de um jovem torna-se extremamente conflitante com o saber oferecido pela escola. Há uma quase que total independência de saberes. Como fazer dessa forma, o jovem conformar sua realidade em um ambiente que este não reconhece. Um ambiente que destoa em tudo de sua realidade. Onde o soar do sinal é tido como o melhor momento do dia, como o momento de libertação.

“O problema da autoestima do menino pobre ou não branco não está portanto dependente apenas da discriminação ou menosprezo pela sua cultura, nem da repetição de série, mas é resultado também do

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fracasso ou dificuldade de dominar os instrumentos culturais que a escola deveria lhe dar”

ZALUAR&CRISTINA, 21, Antropolítica Nº3, 2º semestre 1997

Quando não muitas vezes a frequência é baixíssima, a escola é vista como um ambiente onde o aluno tem somente a escolarização. O aprendizado multidisciplinar é visto pelo aluno como “chato”. Isso ocorre não pela falta de preparo dos professores somente, mas também pela lógica do aluno em não reconhecer o instrumento como parte de sua vida.

O currículo mínimo é uma ferramenta do Estado que criada com o objetivo de medir e assegurar uma quantidade mínima de conteúdo, de acordo, é claro, com seu entendimento sobre o que é mínimo. Nele, o Estado nos diz o que é necessário o aluno aprender durante o ano letivo. O que o Estado não concebe é que ao engessarmos o conteúdo, pelo pouco tempo que um professor tem em preparar determinados conteúdos, o saber que o aluno está trazendo para a escola está sendo desprezado. A escola passa a ser uma reprodutora de conteúdos disciplinares, onde o aluno não se vê e isso esta diretamente ligado a evasão escolar.

Um projeto de Educação Democrática nunca será bem-sucedido enquanto estiver pensando em uma escola modelo e não contemplando seus agentes principais, que são professores, funcionários e alunos. Todos nós somos mais que um número, seja ele funcional ou de matrícula.

A realidade de um aluno está além da escola, mas não se realiza sem a escola. Como exigir de um aluno dedicação quando ele está mais preocupado com o horário do lanche ou do almoço que é servido ao final da manhã. Há relatos de colegas nossos em que os alunos pedem que os horários de saída sejam antecipados. Como dividir as atenções do aluno com a fome? É a realidade cruel que vivenciamos não contempla um amparo social. Podemos por vezes pensar que não cabe a escola vivenciar e dar vazão a essa

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enormidade de laços complexos. Mas a pergunta que fica é: Então nosso trabalho terá sido bem-feito? Ou melhor, terá êxito?

Uma reforma que não se dedique a ser Democrática não será suficiente. O indivíduo deve ser visto como um SUJEITO TOTAL. Ser visto como um sujeito total é ser visto com dignidade, respeito. Dito isso, só uma coisa consegue dar dimensão a tudo isso: Ser cidadão!

A escola como obstáculo

O modelo de escola que vemos nos dias de hoje, principalmente no Rio de Janeiro, privilegia o afastamento do aluno. A escola tornou-se um ambiente conservador e que em nada estimula a criatividade ou desafia o estudante. A começar pelo cenário na sala dos professores. Muitas vezes é desolador o quanto chegam reclamando de alunos, notas, comportamento e sobretudo: salário. Estar no “front” do problema, onde a guerra é travada dia a dia é por vezes penoso.

É comum presenciar algum relato sobre um professor novo, que estima seus alunos e tem uma dinâmica e didática diferente, a seguinte frase: “Ele está fazendo isso porque é novo”, Ou seja, como pensar em mudar algo em meio a um ambiente tão comprometido com o arcaico, o conservadorismo.

“O conhecimento exige uma presença curiosa do sujeito em face do mundo. Requer uma ação transformadora sobre a realidade. Demanda uma busca constante. Implica em invenção e em reinvenção”

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Tentar inovar em um ambiente assim, é ir não somente contra a maré que impulsiona o aluno a bater de frente com a escola e o professor, mas também é enfrentar a resistência dos companheiros professores. Existem ainda aqueles que uma vez sentindo-se incomodados com as dinâmicas do dia a dia, resolvem, uma vez estando em sala de aula, alterar a forma como entendem que deva enfrentar a crise pela qual passamos na educação. Como resposta, a esse sentimento, buscam a luta política e esquecem da sala de aula.

É difícil dar vazão a esses dois mundos. O professor político tem que conciliar planos de aulas, planejamentos, atividades alternativas, testes e provas e ainda sim frequentar e atuar em um ambiente de discussões políticas. O que percebemos, ainda sim é um sindicado pouco coeso, com muitas vozes dissonantes e que poucas vezes conseguem vitórias relevantes para o movimento. No Rio de Janeiro, nesse ano de 2018, completará quatro anos em que os professores não recebem aumento. Se esse não é um caso gritante onde as demandas dos professores não estão sendo ouvidas por falta de uma representatividade forte, nada mais o é.

A última greve que ocorreu no Rio de janeiro, a adesão foi significante e por longos 5 meses (durou de 02/03/2016 a 26/07/2016) e o resultado foi considerado pífio. Nada além do corte de ponto foi “conseguido” pelos professores. Ainda em 2018, a luta dos professores para não serem descontados em 14% pelo governo estadual, conforme proposta para combate a crise no Estado, foi levada a votação na Alerj. Houve mobilização e protesto, que foi prontamente rechaçado pela presença da Polícia Militar, que inclusive, adentrou no prédio da Alerj e prendeu um professor que lá estava, quebrando assim um preceito legislativo e constitucional.

Isso só mostra o tamanho desprestigio pelo qual passa a classe e pela falta de voz que concilie o movimento. Quando isso acontece, os professores tendem a cada vez mais tentar se fazer representar e esfacelar o movimento em diversas forças políticas. Dito isso, em que condições o professor conciliará seu tempo com o tempo que demanda um aluno, uma turma ou um projeto? O professor antes de mais nada é um ser extremamente político, onde uma vez tendo consciência, uma revolução pode ser iniciada. Tanto pelo ensino da disciplina, quanto pela consciência emancipadora que a educação trás consigo.

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Mas como persuadir esse imenso capital? Como trazer a vida essa enormidade de potencial? Antes de mais nada é preciso acreditar que a mudança pode também ocorrer como uma célula de resistência que age de dentro do sistema. Fazer da escolarização um ambiente de nascimento de um micropoder que se revelará não em um dia, uma semana, mas que não tardará. Talvez, um contratempo sejamos nós, os professores. Não nos enxergamos como capazes ou dispostos a tal tarefa. Sobretudo, seria necessário um amplo e silencioso “boicote” ao padrão estadual de pensar a educação.

São desafios como esse que teríamos de nos comprometermos, porém isso, diante de uma classe desunida, torna-se muito mais complicado. Ainda podemos ver o quanto a política invadiu a escola. Se não é mais com a nomeação que antes ocorria, agora se faz com os diversos grupos que não se conciliam, ao menos com um projeto que emancipe o pensar escolar.

Diante desse quadro, como tão bem observou Alba Zaluar e Maria Cristina, a evasão torna-se uma realidade, onde tem o aluno, do sexo masculino, aquele que mais deixa a escola. Antes de mais nada, é preciso ressaltar que o mesmo não o faz por desgostar da escola, mas sim pelo simples fato de não gostarem de estudar. Agora soma-se ao desinteresse, a constante e tentadora concorrência da criminalidade, que a todo momento tenta cooptar para as fileiras do crime, jovens cada vez mais novos.

Há também, devido à fragilidade do núcleo familiar, seja pela ausência do pai, seja pelo número de indivíduos da família (ausência de planejamento familiar), ou ainda pela realidade econômica de uma família marcada pela falta de acesso a escolarização, o desinteresse pelos estudos, aliado a total privação de perspectivas relacionadas ao seu futuro.

Isso acontece porque antes demais nada, o aluno não enxerga a sua realidade e o motivo de sua condição. Ele está inserido num ambiente que não o liberta, simplesmente num sistema que não o quer. É essa a grande verdade. A progressão automática só vem, admitir. Alegadamente, todo esforço do mundo é realizado para que o aluno perca sua identidade e se transforme em uma estatística para a Secretaria de Educação. Dessa forma, a escola terá viabilizado uma série de “recomendações”. A verdade

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pura e simples é somente uma: Os resultados servem para camuflar a péssima qualidade do ensino.

Tenho observado que outro grande desafio está diretamente relacionado com um ponto de vista descrito acima. Quando notamos a pouca referência escolar familiar, estamos falando de um ambiente que também em nada parece desafiador. Cabe tocar nesse assunto novamente, pois uma coisa merece ser observada: O Capital Cultural. Qual referência de mundo o aluno tem para si ou até mesmo, qual ele consegue reconhecer como sendo parte de algo que ele pode alcançar. Temos tido a experiência com alguns alunos que vivem em Niterói e São Gonçalo, que nunca entraram em um Museu ou simplesmente não sabem o que é pegar um metrô. Chegamos ao cúmulo de não exigir que os mesmos conheçam os mais importantes pontos turísticos de nossa cidade. Isso seria exigir em demasiado diante da sua realidade.

De certo modo, determinadas famílias não veem os estudos como uma parte íntima do conhecimento. Tem em si, uma nítida obrigação de tarefa, onde quanto antes de termina, melhor é. Afinal, que tipo e capital cultural foi sendo transmitido com o passar dos anos? Que capital foi sendo construído ao longo de anos? Sabemos que hábitos simples, sendo bem cultivados podem ser influenciadores que irá contra uma realidade que por vezes se mostra cruel.

“conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de superconhecimento e de inter-reconhecimento ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, como conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns (passíveis de serem percebidas pelo observador, pelos outros ou por eles mesmos), mas também são unidos por ligações permanentes e úteis”

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O Capital Cultural transmitido a um jovem de origem carente é

extremamente específico. É frágil e forte ao mesmo tempo. Frágil no que diz respeito a falta de acesso. Agora o espetacular é perceber o quanto ele, se trabalhado de forma correta, pode ser absurdamente forte. Um jovem que pode vir a passar por situações extremas, terá uma disposição mental, olhos para a realidade aguçados. Cabe dizer aqui, que esse Capital não obedece uma ordem lógica de fatos e preponderância.

Os professores podem ser alimentados todos os dias com relatos específicos e singulares a respeito da realidade do aluno. Da forma como o aluno enxerga sua vida, mesmo que ele próprio não consiga ver. O professor deixa de ser uma via de mão única de conhecimento, podendo absorver e aprender muito com seu aluno. Isso é de extrema importância, pois o aluno se sente relevante. O conhecimento está “ali”, sendo criado dia após dia e a importância disso é: o aluno passa a se ver dentro da escola. Se achar relevante naquele ambiente.

Temos noções específicas disso quando, na escola, realizam-se trabalhos que demandam comprometimento dos alunos: tais como: festas juninas, feiras. Atividades assim tornam o aluno presente porque cabe a ele pôr a “mão na massa” e dar aquele evento, sua identidade. Cria uma coisa chamada comprometimento. Quando o aluno toma como parte de sua tarefa, um determinado trabalho escolar, está criando um laço que mais vezes sugerido e estimulado, pode fazer com que o aluno passe a enxergar o ambiente escolar como parte pertencente de sua construção.

Muitas vezes, notamos que um aluno de comunidades carentes do Rio de Janeiro, são os primeiros e as vezes os únicos de sua família que estão tendo a oportunidade de frequentarem uma escola. É nesse ponto que o Capital Cultural torna-se tão sensível. Quando a evasão escolar ocorre, muitas vezes provocado por essa lacuna que abre mediante a falta de compreensão da importância de quão transformadora a educação pode ser, a realidade social do aluno é impactada severamente de forma negativa.

Como fazer a tomada dessa dimensão de importância? Uma das coisas que mais poderiam ajudar nessa tarefa é a derrubada dos muros da escola. A tarefa pode ser

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física, mas deve ser, sobretudo, ser ideológica. Um projeto que no mínimo deva envolver a comunidade. Como um imenso convite que traga escrito: “nós estamos aqui e enxergamos vocês”. Dessa forma, torna-se tão indispensável que cada escola tenha um programa específico.

Como promover uma mudança dessa magnitude se estamos preocupados com um curriculum mínimo? Como promover uma mudança se a escola não recebe os fundos necessários? Também vale salientar que existe uma estrutura arcaica e burocrática que serve, não para manter o controle sobre uma determinada “qualidade”, mas sim uma forma de perpetuar uma condição de dependência do Sistema. Essa falta de emancipação tem o claro interesse de atender a demandas políticas, culturais e estruturais tão conhecidas em nosso país desde muito tempo.

Não é de surpreender que ainda em 2018 tenhamos convivido com o fantasma de um projeto de lei que trata da “escola sem partido”. Ou seja, são grandes as amarras que impossibilitam o professor de realizar o que deve e pode ser feito. Ao tempo em que verificamos o quanto é necessário mudanças em como pensar a escola, o Estado, representado aqui na figura de uma elite privilegiada e conservadora de poder em suas mãos, se articula política e ideologicamente para interferir no ensino. Mostrando o quão “perigoso” pode ser uma Educação Democrática. Aqui cabe bem esse termo, pois escancara de onde deve se dar o enfrentamento.

A fenda crescente e evidente na qualidade do ensino tem sua origem desde o início da formação educacional. Como bem sabemos, a escola é o primeiro ambiente socializador da criança. Quando observamos as imensas dificuldades pelas quais uma mãe passa para conseguir vagas para seus filhos, reflete diretamente na sociedade.

Na verdade, uma mãe que procura uma creche para seu filho, está também pleiteando, além de uma vaga para o início da escolarização, uma oportunidade de buscar uma atividade. Como mudar uma realidade, se algo tão básico não está sendo ofertado por um Estado que deveria garantir o acesso universal a educação. Essa conta, esta estourando no ensino médio. Estamos formando de forma progressiva (como o sistema ensina), um

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exército de estudantes que estão sendo postos para fora de uma possibilidade de disputar o mercado e mudar sua realidade.

“A educação beneficia muitas pessoas além do estudante. Beneficia os futuros filhos dos estudantes que receberão uma educação não formal no lar; beneficia vizinhos que serão influenciados favoravelmente pelos valores sociais desenvolvidos nas crianças pela escola, inclusive pela tranquilidade reinante na vizinhança durante o período escolar”

MESSIAS, 52, A educação e suas potencialidades

A educação tem o poder de promover não somente a mudança no âmbito do desempenho escolar, mas sobretudo, na esfera da sociedade. Trazendo indivíduos que viviam a margem do conhecimento, a margem da sociedade e inserindo-os em um mundo de solidariedade. É pela educação que teremos uma mudança na forma de pensar a sociedade em que vivemos. Baseado nisso, a vida social muda completamente porque interfere na visão de mundo que cada indivíduo e como ele se coloca na sociedade.

Um sujeito que tem acesso a meios que o possibilitam de pensar o seu mundo, a sua realidade, é um alguém apto a interferir no mundo. Essa é a diferença entre nosso país e outras nações que apostaram no desenvolvimento e ampliaram o acesso à educação de qualidade, pois não há outro caminho possível para alcançarmos um país mais justo. É somente dessa forma que combateremos os mais altos índices de violência que existe nos quatro cantos do Brasil. Uma realidade dura, como dissemos aqui, que disputa, em pé de desigualdade, vidas com a escola.

O fator remuneração esta intrinsecamente ligado a escolarização e somente a igualdade de oportunidades romperá com um enorme lastro de desigualdades que reina em nosso país. Esse é um dos pontos que mais incomodam a dita Elite brasileira. Não aceitam políticas afirmativas que visem contrabalancear essa equação de desigualdades. Uma vez que as cotas sociais se colocam como uma ferramenta social, que busca dar legitimidade,

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identidade e acesso aqueles a quem o Estado negligenciou por anos. Politicas de inclusão ferem o ego daqueles que sempre foram privilegiados nesse país e segundo os quais, fazem parte de uma “bolsa” de privilégios.

O grande problema da meritocracia brasileira é que ela é baseada na mais completa falta de sanidade e justiça social. O status que ela criou é como uma torre de marfim, onde do alto ela sugere os arranjos de um tabuleiro e determina sempre o vencedor. Dessa forma, romper com essa realidade maquiada e manipulada, somente é possível com a educação. A infraestrutura necessária ao indivíduo tem de ser aquela capaz de fazê-lo romper com a ideologia. Esse processo, tão bem desenhou Gramsci:

O intelectual orgânico servirá de elo de ligação entre a infra e a superestrutura, entre dirigentes e dirigidos, deverá por um lado elaborar e difundir a ideologia e por outro ―assegurar à classe uma certa homogeneidade e uma consciência de seu lugar na sociedade‖ (MACCIOCCHI, 1980, p. 198.)

Gramsci entendeu como poucos o papel que o intelectual, e tomamos aqui o papel a figura do professor, como expoente maior dessa transição de rompimento. A importância do professor no processo de conscientização é fundamental, pois cabe a ele, se a ponta da lança.

Nesse emaranhando de fatos e observações abordadas durante essas poucas páginas, um assunto não foi abordado e cabe falar: O professor tem o direito de desistir? Com todas as letras: SIM. Uma educação democrática não pode passar pela imposição de manter um professor a qualquer custo em sala e fazer com que ele entenda o papel que tem. Primeiro que é pesado demais. Não pode ser um papel imposto. Tem que ser uma causa abraçada. Um compromisso com a mudança, pois ela passa por um enfrentamento que ultrapassa os muros da escola e segundo porque ao dificilmente uma postura assim partiria do alto. Essa é uma postura rebelde que nasce como uma revolução: do povo. É o professor

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esse representante. É ele o indivíduo capaz de ser o elo entre o aluno e a fragmentação do sistema. É por tornar essa realidade visível ao aluno que o professor é o indivíduo certo para começar essa onda.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

A conclusão que chegamos é que os desafios que se colocam a nossa frente são os maiores possíveis e muitas vezes inimagináveis. Chegamos ao ponto de ter menos de 3% de jovens que se formam ou entram na faculdade, interessados em um dia se tornarem professores. Admitamos, temos nossa parcela de culpa. Temos nos empenhado o quanto podemos, porém, as nossas escolhas não estão surtindo o efeito desejado. Dia após dia, estamos perdendo e essa não é uma visão fatalista, mas sim uma visão realista.

A educação Democrática tem por finalidade criar um eco de solidariedade entre aqueles que entendem o papel da escola e aqueles que precisam ser “afetados” por uma visão crítica que valorize e revele o seu papel social.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHARLOT, BERNARD, Relação com o saber e com a escola, entre estudantes da periferia. Éducation, Socialisation et Colletvités Locales (ESCOL), Université Paris, Tradução por Neide Luzia de Rezende, Cad Pesq,. São Paulo, n 9, p 47-63, maio 1996. FIORELLI, Silva Illezi, A imaginação Sociológica: desenvolvendo o raciocínio sociológico nas aulas com jovens e adolescentes. Simpósio Estadual de Sociologia Secretaria de Educação do Paraná Curitiba, 20 a 22 de junho 2005.

SPOSITO, Maria Pontes, Algumas reflexões e muitas indagações sobre as relações entre juventude e escola no Brasil. Abramo, Helena Wendel; Branco, Pedro Paulo Martoni (orgs.) Retratos da juventude brasileira: análises de uma pesquisan nacional. São paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2008. p.87-128.

LEVIN, M. Henry, Educação e Desigualdade no Brasil, Ed. Vozes, Petrópoles, 1984. ZALUAR, A e CRISTINA, Maria, Antropolítica, 2º Semestre de 1997, Niterói n. 8, p.1-142.

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