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Ceratocone e retardo mental entre irmãos

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Academic year: 2021

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Ceratocone e retardo mental entre irmãos

Keratoconus and mental retardation in siblings

Celso Boianovsky <1l

Denise de Freitas <1l

Rita Cristina M. R. Moura <1l

Marcial F. Galera <2l

"' Departamento de Oftalmologia da Escola Paulista de Medicina.

"' Disciplina de Genética da Escola Paulista de Medicina. Endereço para correspondência: Dr. Celso Boianovsky - Rua Botucatu, 822 - Vila Clementino - São Paulo - SP. CEP 04023-062.

1 5 8

RESUMO

Apresentamos dois irmãos com a associação de retardo mental e ceratocone bilateral, filhos de pais consangüíneos, onde a avaliação genealógica sugere um padrão de herança autossômica recessiva. Uma nova síndrome monogênica pode ser sugerida. Um dos pacientes foi submetido a transplante de córnea penetrante e evoluiu com úlcera corneana infecciosa, com boa resposta ao tratamento clínico. Bons resultados podem ser obtidos se a indicação de transplante de córnea em retardados mentais for criteriosa.

Palavras-chave: Ceratocone; Retardo mental; Transplante de córnea.

INTRODUÇÃO

Existe uma maior prevalência de ceratocone em pacientes com retardo mental. Enquanto numa população normal encontramos uma relação de 1 paciente com ceratocone para cada 1 000 pessoas, a prevalência entre re­ tardados mentais varia de 5 a 1 5% 1 •2 A progressão da doença leva à perda de acuidade visual e conseqüente limi­ tação das atividades do paciente. A situação leva ao difícil dilema de cor­ rigir ou não, cirurgicamente, pacientes com retardo mental. O objetivo de nosso trabalho é apresentar dois ir­ mãos com retardo mental e cerato­ cone, filhos de pais consangüíneos, discutir a etiopatogenia da doença e a indicação de transplante de córnea.

RELATO DOS CASOS

Caso 1 (IV-3): R. B. C. S ., 1 0 anos, sexo masculino, filho de pais com exa­ me oftalmológico normal e consangüí­ neos, mãe refere gestação e parto sem intercorrências, apresenta atraso do desenvolvimento neuropsicomotor. Os pais perceberam o surgimento de

sin-tomas oculares em ambos os olhos (AO) aos oito anos de idade, quando foi feito o diagnóstico de ceratocone. Exame físico: peso, altura e perímetro cefálico proporcionais à idade. Não foram evidenciados desvios fenotípi­ cos. Exame psiquiátrico revelou com­ portamento autístico. Exame oftalmo­ lógico: acuidade visual indicou per­ cepção luminosa em ambos os olhos porém sendo incapaz de acompanhar objetos . Pouca colaboração para a biomicroscopia. À ectoscopia verifi­ cou-se hiperemia conjuntiva! e hidrópsia comeana severa em AO. Pressão intra-ocular bidigital aparen­ temente normal. Mapeamento de reti­ na impossibilitado em função de opa­ cidade comeana. O paciente foi trata­ do com dexametasona O, 1 %, beta­ bloqueador e midriático tópicos, apre­ sentando melhora importante após 30 dias.

Caso 2 (IV-6): M. C. S., 1 7 anos, sexo feminino, pais com exame oftalmológico normal e consangüíneos, mãe refere gestação e parto sem in­ tercorrências, apresenta atraso do de­ senvolvimento neuropsicomotor. Os pais perceberam o surgimento de sinto­ mas oculares em AO aos sete anos de

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idade, quando foi feito o diagnóstico de ceratocone. Há um ano passou a apresentar dificuldade para exercer suas atividades básicas pessoais (como deambular sem a ajuda dos pais), im­ pedida pela baixa acuidade visual. Exame tisico: peso, altura e perímetro cefálico proporcionais à idade. Não foram evidenciados desvios fenotípi­ cos. Exame oftalmológico: acuidade visual de movimento de mãos em am­ bos olhos. A biomicroscopia revelou a presença de ceratocone avançado e leucomas em AO. Pressão intra-ocular bidigital normal. Retina sem altera­ ções através de oftalmoscopia indireta. Em função da boa colaboração, com­ portamento geral da paciente e conscientização dos pais, optou-se pela realização de transplante de córnea penetrante em OE. Não houve intercorrências no período pós-opera­ tório até que no 80º dia a paciente apresentou úlcera corneana na junção doador-receptor, sem fator desenca­ deante aparente, cuja cultura revelou

Streptococcus pneumoniae. Iniciou-se

terapia com colírios forticados (cefalo­ tina 50 mg/ml e garamicina 1 4mg/ml).

I

II

Ili

IV 2 3

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Após três semanas de tratamento hou­ ve melhora do quadro restando ao final leucoma cicatricial paracentral. No quarto mês pós-operatório a paciente apresentava acuidade visual de conta dedos a dois metros no olho operado e deambulava sem a ajuda dos pais.

DISCUSSÃO

Deve-se ou não realizar transplante de córnea em pacientes com retardo mental? Acredita-se que a associação de ceratocone com retardo mental se deva ao fato desses indivíduos estarem constantemente esfregando os olhos, e a maior prevalência de ceratocone em pacientes atópicos reforça esta teoria 1

• 3• 4 •

Possíveis alterações morfológicas ocu­ lares como diminuição de rigidez escleral poderiam tornar pacientes com retardo mental mais vulneráveis a este tipo de trauma, uma vez que apresentam também maior incidência de hidrópsia 5 •

Pacientes com retardo mental têm uma maior susceptibilidade ao trauma no pós-operatório, quer seja auto-infli­ gido quer por outros retardados

men-HEREDOGRAMA

tais em instituições. VÔLKER-DIEBEN et al 5 analisando resultados de trans­ plante de córnea em pacientes porta­ dores de síndrome de Down encontra­ ram 3 3 % de insucesso devido, na grande maioria, à infecção bacteriana (9,7%) e ao trauma (6,5%). Porém, pacientes com síndrome de Down di­ ferem dos relatados nesse estudo pois os mesmos possuem maior susceptibi­ lidade a diversos tipos de infecções, o que poderia favorecer o surgimento de ceratites infecciosas 5

H0VDING et al 6

obtiveram bons resultados utilizando a epiceratofacia no tratamento de cera­ tocone em retardados mentais. Essa técnica não corrige opacidades cicatri­ ciais ou hidrópsia, porém evita com­ plicações que podem surgir com o transplante penetrante como rejeição, endoftalmite ou deiscência da sutura 7•

Antes de se indicar um transplante em um paciente com retardo mental, deve-se testar a tolerância à instilação de colírios e a habilidade em cooperar com exames oftalmológicos. Sobretu­ do, avaliar se os pais estão motivados e com disponibilidade para se dedicar ao paciente em tempo integral - pelo

Legenda: 4 5 6

D

o

1 => masculino, normal => feminino, normal => abortamento espontâneo

=> natimorto de sexo indefinido

-- => consangüinidade

C) ou [:] => x = múltiplo dos individuos normais • ou • => ceratocone e retardo mental

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menos nas primeiras semanas de pós­ operatório 7•

Ainda, neste relato, a associação de ceratocone bilateral e retardo mental com repetição na mesma irmandade poderia nos sugerir uma síndrome monogênica. O padrão de herança su­ gerido pelo heredograma é autossômi­ co recessivo devido a consangüinidade parental e ao fato de que os dois afeta­ dos são de sexos diferentes. Duke­

Elder e colaboradores 8 revisaram vá­

rios casos na literatura onde o ceratoco­ ne está associado a um herança autos­ sômica recessiva, porém isoladamen­ te, sem a presença de retardo mental. Isto poderia ser uma nova síndrome, uma vez que não há relatos de casos de ceratocone associado à retardo mental e sem desvios fenotípicos, com herança autossômica recessiva, descritos na lite­ ratura 9.

CONCLUSÃO

A indicação de transpl ante de córnea em pacientes com retardo

men-1 6 0

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tal deve respeitar critérios como com­ portamento do paciente e conscien­ tização dos pais para que bons resulta­ dos sejam atingidos, levando em consi­ deração o binômio ri sco-benefício . Embora a associação ceratocone e re­ tardo mental já estej a bem estabeleci­ da, acreditamos que neste relato possa­ mos estar frente a uma nova síndrome com padrão de herança autossômica recessiva.

SUMMARY

We present two siblings with the association of bilateral keratoconus and mental retardation, whose parents were consanguine. Genetic

avaliation revealed an autossomal recessive inheritance. One patient underwent penetrating keratoplasty and developed an infectious keratitis in which clinicai treatment was successful. Good results can be obtained in penetrating keratoplasty for mentally retarded patients

if

they

are elegible for the procedure.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HAUGEN, O. H. - Keratoconus in the mentally retarded. Acta Ophthalmol. (Copenh.), 70: 1 1 1

-1 -14, -1 992.

2 JACOBSEN, L. - Ophthalmology in mentally retarded adults. A clinica! survey. A cta Ophthalmol. (Copenh .. ), 66: 457-462, 1 988.

3 WAISBERG, Y.; TANURE, M. A. G.; SANTOS, U. R. - O hábito de coçar os olhos em pacientes com ceratocone. Rev. Bras. Oj/almol., 49(6): 8-14, 1 990. 4 WAISBERG, Y.; KATINA, J. H. - Ceratocone associado a cegueira congênita e compressão dígito­ ocular. Arq. Bras. Qfialmol., 52 (1): 28-30, 1989.

5 VÔLKER-DIEBEN, H. J.; ODENTHAL, M. T. P.; D'AMARO, J. & KRUIT, P. - Surgical treatment of corneal pathology in patients with Down's syndrome. Journal of lntellectual Disability Research, 37: 1 69-1 75, 1 993.

6 H0VDJNG, G.; HAUGEN, O. H.; BERTELSEN, T. - Epikeratophakia for keratoconus in mentally retarded patients. Acta Ophthalmol. (Copenh.), 70: 730-735, 1 992.

7 FRANTZ, J. M.; INSLER, M. S.; HAGENAH, M.; MCDONALD, M. B.; KAUFMAN, H. E. -Penetrating keratoplasty for keratoconus in Down's syndrome. Am. J. Ophthalmol., 109: 1 43-147, 1 990.

8 DUKE-ELDER, S.; LEIGH, A. G. - Keratoconus. ln: Duke-Elder, S.,ed. Diseases of the outer eye: vol 8, part 2, System ofOphthalmology. St. Louis, Mosby, 964-976, 1 965.

9 WINTER, R. M. & BARAITSER, M. - The London dysmorpho/ogy database. Oxford University Press, 1 990.

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