Antonio Carlos Lima Nogueira comenta as estimativas da safra de grãos brasileira para o período 2014-2015, com base no levantamento realizado pela CONAB.
Agentes Financeiros e Apropriação da Renda Nacional: Cenário de Mudanças?
V G M
A “PEC das Domésticas” Como Exemplo Emblemático das Conquistas Sociais Recentes
C F B R , V G
M Os Pagamentos de Benefícios da Seguridade Social e a Distribuição Intermunicipal de Renda
R N C , F L P
Retomada do Crescimento e Fundamentos Macroeconômicos
A L , L M L
O Brasil em Busca de Seu Futuro
I D N C
Estabilidade do Desemprego e Aumento dos Rendimentos Reais, Mas a Geração de Empregos Formais...
V M S
O Otimismo do IDE e o Pessimismo da FBCF: o que acontece com o investimento no Brasil?
M A F T A Economia do Crime Agricultura A C L N Mercado de Trabalho J P Z C No segundo artigo da série sobre inanceirização e distribuição de renda, Vivian Garrido Moreira discute o papel dos investidores institucionais na dinâmica distributiva no Brasil. Rogério Nagamine Costanzi e Filipe Leite Peixoto analisam os pagamentos do INSS em nível municipal e suas repercussões em relação à distribuição intermunicipal de renda. p. 41 p. 3 p. 6 Cristina Fróes de Borja Reis e Vivian Garrido Moreira fazem uma re lexão sobre a natureza do trabalho doméstico no Brasil e sobre os avanços contidos na PEC das Domésticas. p. 9 José Paulo Zeetano Chahad elenca um conjunto de fatores que sugerem um aumento na taxa de desemprego, em 2015, no mercado de traba-lho brasileiro. Antonio Lanzana e Luiz Martins Lopes argumentam que a retomada dos investimentos no Brasil depende da realização de reformas e do forta-lecimento do tripé macroeconômico. Iraci Del Nero da Costa defende mudanças sociais, econômicas e institu-cionais no Brasil e questiona se o(a) próximo(a) presidente terá condições de implementá-las. Vera Martins da Silva comenta alguns resultados do mercado de trabalho brasileiro atual, com ênfase nos rendimentos reais auferidos e na formali-zação do emprego. Marcelo Allain e Frederico Turolla mostram que o investimento direto estrangeiro voltado ao investimento produtivo (FBCF) está em trajetória decrescente no Brasil. p. 18 p. 24 p. 32 p. 34 p. 36 p. 44 Sérgio Almeida propõe um modelo teórico que uni ica as duas visões dominantes sobre as causas da violência, oferecendo uma teoria mais
Conselho Curador Juarez A. Baldini Rizzieri (Presidente) André Franco Montoro Filho Carlos Antonio Rocca Denisard C. de Oliveira Alves Fernando B. Homem de Melo Francisco Vidal Luna Heron Carlos Esvael do Carmo Joaquim José Martins Guilhoto José Paulo Zeetano Chahad
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Os indicadores Catho-Fipe, desenvolvidos pela Fipe em parceria com a Catho, oferecem uma visão mais apro-fundada e imediata do mercado de trabalho e da economia brasileira. As informações disponíveis em tempo real no banco de dados da Catho e em outras fontes públicas da Internet permitem agilidade na extração e cálculo dos números. Desta forma, é possível acompanhar a situação imediata do mercado de trabalho, sem a necessidade de se esperar um ou dois meses para a divulgação dos dados ofi ciais. Todos os indicadores são divulgados no último dia útil de cada mês, com informações sobre o próprio mês.
O primeiro indicador é uma estimativa para a taxa de desemprego calculada pelo IBGE, a Taxa de Desempre-go Antecipada. A Fipe calcula também um índice que acompanha a relação entre novas vagas e novos currí-culos cadastrados na Internet, o Índice Catho-Fipe de Vagas por Candidato (IVC). Este indicador é mais amplo do que a taxa de desemprego, porque traz informações sobre os dois lados do mercado: a oferta e a deman-da por trabalho. Além desses dois indicadores, o Índice de Salários Ofertados permite o acompanhamento dos salários oferecidos pelas empresas que estão em busca de novos profi ssionais.
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Estimativas Preliminares da Safra de Grãos 2014-2015
Antonio Carlos Lima Nogueira (*)
A avaliação das estimativas de produção de grãos é essencial para os diversos atores do agronegócio brasileiro, que operam nas etapas de insumos, processamento e dis-tribuição. Essas informações são úteis para as projeções de preços, estoques e demanda de produtos e serviços de apoio à agricultura. Este artigo oferece uma análise re-sumida do primeiro levantamento para estimativa da safra de grãos brasileira 2014-2015, publicada pela Companhia Brasileira de Dis-tribuição (CONAB) no endereço www.conab.gov.br.
A área plantada estimada para a safra 2014/2015 deve variar entre 56,23 e 58,34 milhões de hecta-res, uma estimativa de redução de 1,2% até um aumento de 2,5%, a depender do andamento do plan-tio, em relação à área cultivada
na safra 2013/2014, que totalizou 56,94 milhões de hectares. Consi-derando a estimativa de produti-vidade média de 3,45 mil kg/ha, calcula-se o volume total de grãos. A produção da safra 2013/2014, de 195,47 milhões de toneladas, deve ter uma redução de 0,7% até um acréscimo de 3,2% para a safra 2014/2015, ficando entre 194 a 201,65 milhões de toneladas. Esse resultado representa uma redução de 1,46 a um aumento de 6,18 mi-lhões de toneladas.
Esses dados revelam a relativa es-tabilidade da confiança dos produ-tores em mobilizar recursos finan-ceiros e materiais para o plantio da nova safra. Trata-se de uma notícia positiva, tendo em vista a estagna-ção econômica do País no primei-ro semestre de 2014. A partir de agosto, aparentemente teve início
a recuperação, segundo as últimas estatísticas divulgadas pelo Banco Central. A estabilidade ou possível crescimento na produção agrícola nessa nova safra representa um alento para sustentar a atividade econômica no início de 2015, além de uma garantia para evitar o des-controle nos preços de alimentos. Os autores do relatório destacam a cultura da soja, responsável pelo possível aumento de área plantada. A estimativa é de que o aumento da área cultivada com a oleagino-sa fique entre 1,4 e 5,5% (426,8 a 1.663,6 mil hectares). Com isso, a área plantada ficaria entre 30,6 e 31,8 milhões de hectares, com uma participação média de 54,45% do total. Aplicando-se a estimativa de produtividade de 2,9 ton/ha (crescimento de 1,7% sobre a safra anterior), espera-se uma produção
total entre 88,8 e 92,4 milhões de toneladas de soja, com crescimento de 3,2% a 7,4% sobre o ciclo ante-rior.
As informações indicam a per-manência dos incentivos para a concentração já histórica da pro-dução agrícola brasileira de soja. Esse desempenho está apoiado em um conjunto de competências tecnológicas e vantagens de custo e clima favorável, em que pesem as grandes lacunas na infraestrutura de transporte e armazenagem. Espera-se o atendimento das ne-cessidades internas e externas do produto, sendo que as exportações poderão aumentar se as condições econômicas dos países importa-dores apresentarem melhorias no próximo ano, o que não está des-cartado.
A segunda cultura mais repre-sentativa em área plantada é o milho. Para o milho primeira safra, a exemplo do que ocorreu na safra passada, a expectativa é de que haja redução na área em torno de 4,1 a 10,9% (274,3 a 719,4 mil hectares), área possivelmente cul-tivada com soja. A projeção para a soma da primeira e segunda safras indica que a cultura ocuparia uma área entre 15 e 15,5 milhões de hectares (28% do total). Com a aplicação da produtividade estima-da de 5,08 ton/ha, a produção estima-das duas safras deve ficar entre 76,6 e 78,9 milhões de toneladas, resul-tantes de quedas entre 4,1 e 1,2% em relação à safra anterior.
As estimativas para o milho podem provocar mudanças relevantes no mercado, seja em preços, seja em disponibilidades. Por apresentar um balanço mais estreito de oferta e demanda interna, gerando menor disponibilidade para exportação, a redução prevista poderá gerar movimentos distintos dos compra-dores em relação à safra anterior, como a importação do produto, a depender das cotações internacio-nais. Cabe destacar a inserção do milho em diversas cadeias produ-tivas, como o uso para alimentação de aves e suínos ou ingrediente na indústria de alimentos.
A terceira cultura em área plan-tada é o feijão, que apresenta três safras no ciclo. Somente a primeira safra é estimada no relatório, com redução de 4,3 a 8,3% (50,3 a 96,2 mil hectares). Com esse resultado, a soma das três safras deve atingir cerca de 3,2 milhões de hectares (6% do total). Com a aplicação da produtividade estimada de 988 kg/ha (redução de 4,3%), a pro-dução deve atingir entre 3,1 e 3,2 milhões de toneladas, com quedas de 7,3 a 5,5% em relação ao ciclo anterior.
Os resultados negativos esperados para o feijão também poderão pro-vocar mudanças nos preços, com tendência de alta. Neste caso, trata--se de um produto direcionado somente ao mercado interno. Ainda que tenha relevância como alimen-to básico, a demanda interna tende a se reduzir com a melhoria da
renda da população, com a subs-tituição por produtos mais caros como carnes ou queijos.
O arroz ocupa a quarta posição em área plantada e deverá apresen-tar queda de 5,8 a crescimento de 4,0%, resultando em 2,2 e 2,4 mi-lhões de hectares, o que representa 4,2% do total de produtos. Aplican-do-se as estimativas de produtivi-dade, de 5,3 ton/ha (aumento de 4,3%), atinge-se a produção entre 11,9 e 13,2 milhões de toneladas, que representa queda de 2,0% e aumento de 8,7% em relação à safra anterior. Neste caso, as pers-pectivas são positivas em razão do aumento da produtividade, mas a grande variação entre as previsões de área e produção não permite avaliar os impactos no mercado. O produto também é direcionado ao mercado interno, o que implica influência significativa na dispo-nibilidade e preços ao consumidor. A quinta posição em área plantada é ocupada pela cultura do algodão, que deverá apresentar uma redu-ção na ordem de 4,2 a 15,4% (46,8 a 173,2 mil hectares). Com isso, a área ocupada deverá ficar entre 948 e 1074 mil hectares, que repre-senta 1,7% da área total. Aplican-do-se a produtividade estimada de 2,4 ton/ha, calcula-se a produção entre 2,3 e 2,6 milhões de tonela-das de algodão em caroço e entre 1,5 e 1,7 milhões de toneladas de algodão em pluma, que indicam quedas de 12,6 a 0,9% em relação ao ciclo anterior.
Na situação mais pessimista, a quebra de safra do al-godão deverá produzir efeitos significativos no merca-do. A inserção do produto em cadeias agroindustriais de alimentação animal e óleos (algodão em caroço) e têxteis (algodão em pluma) revela a complexidade das interações possíveis. Aparentemente, o mercado de algodão em pluma tem sido afetado pelo aumento das importações de produtos têxteis em razão dos possí-veis excedentes de produção dos países asiáticos e da fraca demanda dos países desenvolvidos. Essa condi-ção deve estar promovendo a reducondi-ção na demanda da matéria-prima brasileira pelas indústrias locais ou eventuais importadores.
A análise das estimativas para os principais produtos da safra 2014-2015 da CONAB revela uma situação de estabilidade ou pequeno crescimento para os dados agregados de área e produção. Entretanto, a elevada concentração em soja e milho parece compensar a situação relativamente negativa para as culturas de feijão e algodão, enquanto as perspectivas são pouco conclusivas para o arroz, em razão da dispersão dos
resultados. Os dados ainda indicam que o agronegócio brasileiro possui um enorme potencial de expansão e diversificação da sua produção de grãos, o que poderia trazer menor volatilidade aos mercados e o fomento de diversas cadeias produtivas para o processamento desses produtos, com possíveis ganhos disseminados para outros setores da economia.
(*) Pesquisador no Centro de Conhecimento em Agronegócios (PENSA) da USP e professor na FATEC São Paulo. (E-mail: [email protected]).
Por que o Desemprego Deverá Retornar em 2015
José Paulo Zeetano Chahad (*)
Nem mesmo fundamentando-se em sólidas estatísticas é possível dizer com precisão até quando o cenário de baixo desemprego com pouca criação de vagas perdurará. Contudo, observando-se o quadro econômico atual, um fato parece inevitável: o desemprego deverá retornar lentamente neste final de ano e, em maior nível, em 2015, não sendo surpresa observarmos uma taxa entre 6%-8% em um futuro próximo. O resultado da eleição presidencial não deve alterar esta conclusão, ainda que uma vitória da oposição possa, talvez, amenizá-la. Quais fatores me levam a esta con-clusão?
(a) Estamos um pouco além da cha-mada “recessão técnica”, numa situação pior de verdadeira estag-nação econômica, cujo mal maior é gerar desempregados, por si só. As taxas de crescimento do PIB têm apresentado tendência nitidamente crescente, princi-palmente após 2010. De acordo com as previsões da OCDE, o País deverá crescer 0,3%, em 2014, e 1,4% em 2015, valores irrisórios para que se consiga manter a taxa de desemprego nos baixos níveis em que hoje se encontra;
(b) Este quadro de baixo crescimen-to não é localizado, encontrando--se disseminado pelos principais ramos da atividade econômica, com implicações negativas para o emprego setorial. O emprego na Indústria, segundo os dados do IBGE, teve a 34ª queda mensal consecutiva em julho de 2014. Houve recuo de 3,6% em relação ao ano de 2013. O pior é que se reduziram as horas pagas e a fo-lha de pagamentos real. No setor Serviços, maior absorvedor de mão de obra, a situação não é me-lhor. As receitas reais vêm caindo desde 2013, e as projeções de crescimento do PIB do setor não passam de 1,0% em 2014, repe-tindo o mesmo valor em 2015, de acordo com as contas nacionais do IBGE. Este é o pior resultado do setor desde 2003. Ele decorre, basicamente, devido à retração do consumo das famílias num ambiente inflacionário e à perda de dinamismo da Indústria e do Comércio. Neste setor, o clima de incertezas também predomina, prevendo-se um crescimento de somente 3,0% nas vendas de Na-tal (foi de 5,1% em 2013), assim
como os empregos temporários crescerão pífios 0,8%, contra 3,2% em 2013.
(c) Existem fatores menos visíveis desta contínua queda das varia-ções do PIB e do emprego. Desde 2002 tem havido uma resposta cada vez menor da variação do emprego à variação do PIB. Ou seja, mesmo desconsiderando o baixo crescimento, as variações da produção têm demandado cada vez menos mão de obra. Em outras palavras, a chamada elas-ticidade emprego-produto tem se reduzido sistematicamente, um fator contributivo para menor geração de vagas. Esta é uma tendência pouco vista na mídia, mas aparece claramente em es-tudos acadêmicos (ver CHAHAD; POZZO, 2014). Isto significa que, mesmo com o bônus demográfi-co, a tendência do emprego tem sido crescer mais vagarosamente que o PIB, e, mais cedo ou mais tarde, isto se refletirá na eleva-ção das taxas de desemprego. Poder-se-ia argumentar que se esta relação emprego-produto está caindo é porque o nível de produtividade está aumentando.
Isto é verdade, mas apenas sob a ótica estatística, posto que o setor produtivo está utilizando cada vez mais técnicas poupadoras de mão de obra, e não porque a produtividade do trabalhador está, de fato, aumentando, como seria o desejável;
(d) O quadro de inflação em cres-cimento é outro fator a contri-buir com a perspectiva de maior desemprego. Existem estudos mostrando que o custo de se combater a inflação tem crescido no Brasil. Em 2006, o próprio presidente do Banco Central, Ale-xandre Tombini, juntamente com outro economista, Sergio Alves, mostrou que a Curva de Phillips (que mostra uma relação inversa entre inflação e desemprego), já naquela época, estava se tornan-do mais “achatada” (Valor Econô-mico, 13/14/15 de setembro de 2014, p. C3). Em trabalho mais recente, com dados a partir de 2003 e uma metodologia mais robusta, Machado e Portugal, em um estudo para o próprio Banco Central do Brasil chegaram à mesma conclusão (MACHADO; PORTUGAL, 2014). Isto signi-fica que o combate à inflação, o principal mal a ser extirpado no atual momento da economia brasileira, tende a gerar cada vez mais desemprego no mercado de
trabalho brasileiro com o passar dos anos, para cada ponto percen-tual de queda na inflação.
(e) É fato notório que existe uma forte inanição do nível de inves-timentos, que está muito aquém de seu potencial de crescimento. Isto não provém da falta de ape-tite empresarial para investir, mas, sim, do quadro desfavorável no momento atual da economia. Como se sabe, investir amplia a capacidade produtiva potencial, a qual, regra geral, gera mais e melhores empregos. As estima-tivas do IBRE/FGV, baseadas nos dados das contas nacionais do IBGE, são de que a Formação Bruta de Capital Fixo cairá 7,9%, em 2014, levando a taxa de inves-timentos com relação ao PIB para 17,0%, uma cifra bem abaixo do seu potencial (em 1989 chegou à cifra de 26,9%!). Esta situação de desestímulo aos investimentos não se reverterá em curto e médio prazos pois, embora a taxa de juros afete realmente a dinâmica dos investimentos, o que lhe dá mais força são as expectativas de longo prazo fundamentadas na existência de um marco re-gulatório e segurança jurídica transparentes (isto é, regulari-dade e transparência nas regras institucionais para a tomada de decisão de investir pelo setor
produtivo privado). Tal fato foi, e tem sido, ignorado pelo atual governo federal, entre tantos outros equívocos de políticas eco-nômicas, e um novo governo terá que batalhar muito para reverter este quadro. Como a maturação do investimento leva tempo, o aumento das oportunidades de emprego também demorará a surgir, pressionando as taxas de desemprego;
(f) Ainda que o bônus demográfico, originado pelas transformações da estrutura etária populacional em tempos recentes, tenha aju-dado a manter baixas as taxas de desemprego, sua contribuição marginal tende a se esgotar aos poucos. Com a estagnação per-durando, haverá uma piora nas condições do mercado de traba-lho, com a deterioração da renda individual e das famílias. Aquela parcela conhecida como “nem trabalha, nem estuda, nem pro-cura emprego” passará a sentir no bolso as dificuldades da queda da renda real (também devido à alta inflação), fazendo reverter os ganhos que teve devido às condições favoráveis no mercado de trabalho, especialmente advin-das da conjuntura internacional benéfica após a crise de 2008. Ao retornar para um mercado de trabalho desaquecido,
procuran-do emprego, numa situação de escassez de novas vagas, tenderá mais a engordar as estatísticas de desemprego do que preencher novas vagas;
(g) Outro elemento a considerar como fonte potencial de ele-vação do desemprego refere--se à conjuntura internacional, que sempre impacta a atividade econômica interna. Atualmente (setembro de 2014), se ela não é propriamente de forte retração, tampouco revela grandes ven-tos favoráveis de crescimento brasileiro. A recuperação ame-ricana não parece ser tão forte como se esperava; a China está desacelerando: o mercado imo-biliário chinês encontra-se em queda, assim como a produção industrial, que recuou em agosto deste ano 6,9%, relativamente ao mesmo período do ano ante-rior (The Wall Street Journal); o Japão encontra-se em situação
recessiva, pois seu PIB reduziu--se 1,8% no terceiro trimestre deste ano. Por fim, temos a Zona do Euro, com baixo crescimento (0,8% em 2014) e tentando re-verter este quadro com a adoção de políticas monetárias expan-sionistas consideradas como condição necessária, porém, não suficiente para uma sólida re-cuperação. Neste sentido, o FMI afirma que existem sinais claros de desaceleração despontando nos países emergentes. Dentre as principais razões, a Instituição aponta para a falta de dinamismo da produtividade em gerar cres-cimento, mas, principalmente, porque as relações comerciais são uma importante razão para a desaceleração, posto que os mercados emergentes estão so-frendo impacto negativo por um crescimento mais fraco de seus parceiros comerciais (ver jornal Valor Econômico, 20/21/22 de setembro de 2014, página A11).
Por estas razões, e para meu des-gosto como economista, cidadão e brasileiro, acredito que a volta do crescimento do desemprego está eminente. Não se trata de previ-sões catastrofistas, mas, sim, uma leitura mais crítica das atuais con-dições vigentes na economia brasi-leira que ninguém, racionalmente, pode negar que estejam ocorrendo. Referências
CHAHAD, José Paulo; POZZO, Rafaella Gu-tierre. Mercado de trabalho no Brasil na primeira década do século XXI: evolução, mudanças e perspectivas. Revista Ciência
e Trópico, 2014.
MACHADO, Vicente da Gama; PORTUGAL, Marcelo Savino. Phillips curve in Brazil: an unobserved components approach.
Central Bank Working Papers, n. 354,
May 2014.
VALOR ECONôMICO, setembro de 2014.
(*) Professor da FEA/USP e Pesquisador da FIPE. (E-mail: [email protected])
Agentes Financeiros e Apropriação da Renda Nacional: Cenário
de Mudanças?
Vivian Garrido Moreira (*)
1 O Papel Dos Investidores Insti-tucionais na Dinâmica Distribu-tiva
No primeiro artigo desta série sobre financeirização e distribuição de renda, foram mostrados aspec-tos teóricos da relação entre essas duas variáveis e uma breve expo-sição sobre o caráter concentrador da dívida pública no Brasil, alimen-tada por altas taxas de juros que se concentram e formam ganhos para o setor financeiro da economia. Concluímos apresentando os inves-tidores institucionais como uma peça fundamental que alimenta a engrenagem de financiamento da dívida pública. Destacam-se neste cenário os fundos de pensão que compõem o regime de capitalização como uma alternativa ao regime
de repartição simples, constituin-te do INSS no Brasil. No presenconstituin-te artigo, vamos discutir um pouco mais sobre a participação desses agentes na dinâmica distributiva e introduzir as mudanças recentes neste cenário que, aparentemente, podem estar mitigando os notáveis ganhos do setor financeiro.
A experiência recente tanto do Brasil quanto da maioria dos pa-íses que vêm adotando o sistema de capitalização tem mostrado que, ao contrário do que deveria ser, a poupança drenada pelos fun-dos e pelo sistema financeiro em geral tem sido muito mais aplicada no próprio mercado financeiro e muito menos no financiamento de projetos de infraestrutura e desen-volvimento (ver Gráfico 1). Para
os fins deste trabalho, são fatos relevantes: i) existe uma tendência mundial a abandonar o sistema previdenciário público e adotar o privado; ii) atualmente, os investi-dores institucionais são os maiores captadores de poupança do sistema capitalista e os maiores credores da dívida pública dos Estados; iii) esses mesmos agentes são os com-bustíveis mais fortes da indústria financeira. Logo, parece existir aí uma inconsistência: os agentes que deveriam sobressair no fomento do capital produtivo acabaram se tornando os maiores responsáveis pelo fomento do capital portador de juros. Parece também existir uma outra pergunta por trás des-sas questões. Por que os sistemas previdenciários públicos vêm per-dendo importância nas últimas
Gráfico 1 – Brasil – Composição de Ativos dos Fundos de Pensão (R$ Bilhões)
Fonte: Superintendência Nacional de Previdência Complementar – PREVIC. Posição em 31/12/2010.
décadas? Existe um argumento de que tais sistemas seriam ineficien-tes e insustentáveis, principalmen-te devido ao envelhecimento da população. De outro lado, exalta-se uma suposta eficiência nos regimes de capitalização. Se de um lado é verdadeiro que o vínculo explícito entre contribuição e benefício é algo mais “transparente”, de outro, parece estranha a valorização da esfera financeira vis-a-vis o cres-cimento da importância mundial dos fundos em geral. Afinal, se os
regimes privados são mais efi-cientes na geração de incentivos à poupança, onde está a “falha” no processo de utilização dessa pou-pança para novos investimentos, conforme prescreveria a aborda-gem ortodoxa? E, se os regimes de repartição possuem uma inefici-ência de base, tanto na geração de incentivos quanto no fato de gera-rem “desperdício” de outras fontes para a provisão de benefícios, por que a sua existência histórica, no interior do Welfare State, foi mais
capaz de engendrar um mecanismo de investimento? Finalmente, não seria esperado de uma aborda-gem que prima pela eficiência uma forma de otimização do uso das poupanças ociosas no sistema eco-nômico? Então, deve estar havendo algum tipo de uso ótimo, mas não exatamente dentro da abordagem convencional. É neste ponto que se compreende uma das formas nas quais os grandes grupos de capital atuam na reprodução da lógica fi-nanceira.
Um fato pouco divulgado, entre-tanto, é que a geração do suposto déficit da previdência brasileiro se dá mediante desconsideração de uma série de receitas próprias da mesma, conforme demonstra Gen-til (2007). Nesse caso, para onde estão se direcionando essas recei-tas? A maior parte delas agrega e ajuda a gerar a condição de
superá-vit primário. “Como consequência de mais este artifício metodológi-co, o superávit do orçamento da se-guridade social é automaticamente incorporado ao orçamento geral da União, resultando na geração dos elevados superávits primários ao longo dos últimos oito anos.” (GENTIL, 2007, p.15). Em outras palavras, ajuda a pagar os juros da
dívida cujos maiores detentores são os grandes capitais e fundos. Num mecanismo circular − mais simples e menos arriscado do que o da inversão produtiva − os fun-dos captam recursos de um lado e são restituídos, a curto prazo, pela aplicação desses recursos em títulos e ações de elevada rentabi-lidade. Como a fonte de poupança,
tanto para os fundos, como para a parte da arrecadação do governo que legalmente está vinculada à previdência social mas não é uti-lizada para isto, são em geral pro-venientes da classe trabalhadora, o mecanismo redistributivo do trabalho para o capital portador de juros fica claramente perceptível. A despeito disso, ao reforçar a va-lorização financeira, essa estrutura se opõe à valorização do trabalho, caracterizando uma dinâmica tí-pica dos processos de formação de “bolhas”. De acordo com Paulani (2008) essa é uma diferença funda-mental entre os dois regimes, pois, no de repartição, quanto maior a participação dos salários na renda maior o nível de equilíbrio finan-ceiro e atuarial do sistema, dado o vínculo entre empregos formais e contribuições. Já o sistema de capitalização, a rigor, por ser de natureza particular, não exige o vínculo empregatício e pode ser fomentado por quaisquer indivídu-os com quaisquer fontes de renda.
Isso fica evidente nos países em que os cidadãos mais ricos (que ge-ralmente não são os assalariados), obtendo mais vantagens num plano de previdência privada preferem não contribuir para o regime públi-co, uma ideia que pode reforçar o distanciamento entre classes e iso-lar os mais ricos dentro dos altos círculos financeiros. De qualquer modo, o emprego formal tende a ser parcialmente antagônico ao sistema de capitalização , pois, ainda que mais pobres, os indivídu-os interessadindivídu-os nestes planindivídu-os por algum motivo estão à margem dos contratos com carteira assinada e desconto em folha.
Entretanto, colocando uma possí-vel contratendência para o sistema de capitalização no Brasil, deve-se notar a trajetória de recuperação real do salário mínimo nos últimos anos (em conjunto com o próprio aumento da formalização). Esta tendência, quanto mais continuada, mais se opõe à evolução da
capita-lização privada da previdência, na medida em que o sistema previden-ciário público de repartição sim-ples coevolui, fundamentalmente, com o salário mínimo.
Para além da recuperação do sa-lário e formalização do emprego, tem-se observado também nos últimos anos uma queda na média da taxa de juros praticada para o pagamento da dívida pública. Estes fatores conjugados tendem a redu-zir a força com que os investidores institucionais, principalmente os fundos de pensão, vinham protago-nizando os ganhos do setor finan-ceiro. A queda das taxas de juros incidentes sobre os títulos públi-cos e também algumas mudanças quanto aos prazos e indexadores dos mesmos, inclusive as próprias taxas de juros, configuram uma perda para esses agentes, que des-perta a atenção sobre a possibili-dade de que o setor financeiro no Brasil possa estar passando por uma transformação estrutural.
Gráfico 2 – Evolução na Composição da Dívida Pública Federal
Gráfico 3 - Alongamento do Prazo Médio (Anos)
Fonte: Tesouro Nacional.
Os dados acima mostram mudança nas escolhas po-líticas dos anos recentes, que não apenas reduz os serviços da dívida pública pela redução dos juros como também retira da variação da Selic a fonte de indexação de boa parte dos títulos, transferindo-a para os índices de preços. Além disso, o alongamento dos prazos de vencimento desafoga as contas públicas e a pressão sobre os demais agentes econômicos. São escolhas que, concomitantemente a outras políticas como a do salário mínimo, a formalização e qualifi-cação da mão de obra, o próprio fortalecimento da Previdência Social acarretado indiretamente apontam de forma concreta para um esforço de mudança no que tange às flagrantes discrepâncias distributivas obser-vadas no Brasil. A partir disso, cabe perguntar: esta-ríamos diante de uma mudança estrutural, na qual, gradualmente o setor financeiro perderá sua posição
relativa no quadro distributivo brasileiro? Ou será que é possível esperar uma recomposição dos seus ganhos, moldada às novas formas sociais e políticas vigentes? 2 Possível Inflexão na Apropriação da Renda Apesar da deterioração distributiva vivida por mais de uma década após a abertura dos anos 90, com forte destaque para os agentes financeiros na apropriação de renda, sua distribuição funcional tem apresentado sinais de melhorias aproximadamente pós-2003 e com mais clareza desde o ano de 2005. Já a distribuição pessoal também vem apresentando melhoria, esta, porém, já antes do começo dos anos 2000, caracteri-zando um movimento um pouco mais consolidado que o anterior, muito embora, também historicamente, tenha apresentado tendência predominante de piora.
Gráfico 4 – Composição do PIB pela Ótica da Renda
Fonte: IBGE/Sistema de Contas Nacionais. Elaboração própria.
Obs.: até o período em que este texto foi escrito, não estavam disponíveis dados para além de 2009.
Pelo lado da distribuição pessoal, o Índice de Gini vem demonstrando, conforme mencionado, uma queda mais sólida:
Gráfico 5 – Evolução do Índice de Gini no Brasil: 1990-2009
Com o aumento do salário mínimo nos últimos anos, esta “assimetria” tem diminuído, dado que o Índice de Gini capta este efeito. Isto é importante, pois reflete melhoria na distribuição de renda pela via do mercado de trabalho, o que é condição essencial para pensar um processo sustentável de cres-cimento. Além disso, na medida em que o sistema da Previdência Social está fortemente vinculado ao salá-rio mínimo e é totalmente captado pela PNAD, reforça-se também esta via, digamos, mais estrutural, de redução da desigualdade.
A política de valorização do salário mínimo, ao aumentar a inserção de trabalhadores na apropriação e repartição da renda nacional tem fomentado a ideia de uma possível “nova classe média” no cenário brasileiro. O surgimento da mesma tem sido fenômeno razoavelmente apontado e até aplaudido como indicativo de inclusão de grupos anteriormente à margem do pro-cesso e das benesses do cresci-mento econômico brasileiro. Cabe a um estudo crítico avaliar até que ponto isto é verdade ou, se assim for, quais suas consequências pro-váveis no longo prazo. Os dados le-vantados ao longo desta pesquisa,
ao apontarem para alguma pecu-liar mudança, mais visível a partir de 2005, encontraram sintonia entre três processos: o primeiro, de redução relativa do endividamento público, associado à redução da taxa Selic e à própria desindexa-ção parcial da dívida à mesma; o segundo, de aumento significativo do endividamento privado e parti-cularmente das famílias; o tercei-ro, de ascensão da tal nova classe média. Os três, conjuntamente, sinalizam um processo bem visível de reestruturação estratégica do setor financeiro, que surge como resultado das novas opções polí-ticas dos governos deste período, Lula e Dilma. O rearranjo do setor financeiro em direção às famílias corre paralelamente à expansão do mercado de trabalho que, ao criar mais vínculos formais, eleva as expectativas e garantias de sol-vência, criando uma mecânica de incorporação ao sistema bancário e creditício em paralelo à criação de novos empregos. A expressiva bancarização da população brasi-leira emerge concomitantemente ao próprio estabelecimento da nova classe média, numa estra-tégia bem-sucedida dos agentes financeiros objetivando repor as
perdas relativas que começam a se delinear com o financiamento do setor público. Entre 2005 e 2011, nada menos do que 35 milhões de brasileiros passaram a ter acesso aos serviços bancários. (ACMINAS, 2012). Concretamente, em 2005, 84 milhões de brasileiros possuíam conta em banco. Em 2011, mais de 118 milhões.
A trajetória razoavelmente con-tinuada de queda da taxa SELIC (apesar de seu novo reajuste no último ano, mas que ainda não a recoloca nos patamares elevadíssi-mos dos anos 90 e início dos 2000) e de sua vinculação majoritária à dívida pública nos últimos anos, bem como, mais recentemente, as políticas de expressa redução das taxas de juros do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, sina-lizando uma “não alternativa” aos bancos comerciais senão acatá-las, impulsionam ainda mais a neces-sidade de reposição das perdas e criam novos estímulos à geração de créditos às famílias. A partir do crescimento da bancarização, multiplicam-se as possibilidades do endividamento em larga escala. Observemos o quadro notável de expansão do crédito nos anos con-siderados.
O volume total de crédito superou a marca de 50% do PIB no último ano do gráfico acima, o que signi-fica que praticamente dobrou em uma década, em pontos percentu-ais do PIB. No Gráfico 6, observa-se não apenas o crescimento das duas fontes de crédito, mas também a elevação proporcionalmente maior daqueles com recursos livres re-lativamente aos recursos direcio-nados. Os recursos livres são mais abundantes entre os bancos comer-ciais e foram mais disponibilizados às pessoas físicas no período em questão embora também tenham apresentado participação impor-tante no financiamento de capital de giro de pessoas jurídicas. Os re-cursos direcionados predominam entre os bancos de
desenvolvimen-to, destacando-se o BNDES, e mais disponibilizados às pessoas jurídi-cas, embora o crédito habitacional também mereça destaque. Dentre os empréstimos concedidos com recursos livres às pessoas físicas, nota-se maior peso na aquisição de veículos e no crédito pessoal. Chama a atenção, portanto, a ex-pansão de crédito com recursos livres para as famílias, satisfazen-do aos novos padrões de consumo que a elas se associam. Se compa-rarmos todas as modalidades de crédito oferecidas aos diferentes agentes econômicos, veremos que nenhum outro cresceu tanto quan-to aquele para as pessoas físicas, sendo que o período que se segue
aos anos Lula compreende o maior salto deste crescimento.
Simultaneamente ao aumento do crédito privado como percentual do PIB, vem a redução percen-tual da dívida pública. A série mais alongada mostra uma clara mudança de trajetória da dívida total aproximadamente após o ano de 2003 e também uma relativa “troca” de dívida externa por dívi-da interna. Vale observar que em 2012, a dívida líquida atinge 35,1% do PIB, percentual muito próximo daquele verificado em 1994, ano a partir do qual estes números crescem até a duplicação em 2002 e depois decrescem até voltarem à magnitude de 1994.
Gráfico 6 – Crédito/PIB (em %)
Gráfico 7 – Evolução da Dívida Líquida do Setor Público (% PIB)
Fonte: Banco Central /Febraban.
Finalmente, a análise comparativa dos dois fenômenos acima facilita a visualização clara de outra “troca”: a do endividamento público pelo endividamento privado, mantendo o setor financeiro numa posição confortável. É a partir deste ponto que começa a ficar claro que, a despeito de algumas mudanças na com-posição dos ganhos do setor financeiro, não parece haver motivos para afirmar que, como um todo, este setor perdeu sua posição no ranking de apropriação da renda nacional. Neste sentido, vale investigar mais a fundo as condições envolvidas na trajetória recente de endividamento privado, a fim de verificar se é pos-sível avançar nessas conclusões. Este é o assunto do próximo artigo.
Referências
ACMINAS – ASSOCIAÇÃO COMERCIAL E EMPRESARIAL DE MINAS GERAIS. Breve discussão sobre o atual cenário creditício brasileiro. Estudo de 16 de outubro de 2012 elaborado pelo Departamento Econômico.
GENTIL, D.L. A falsa crise do sistema de seguridade social no Brasil: uma análise financeira do período 1990-2005. 2007. Disponível
em: <http://www.coreconrj.org.br/ced/artigo_denise_gen-til_reforma_da_previdencia.pdf>.
PAULANI, L. Seguridade social, regimes previdenciários e padrão de acumulação: uma nota teórica e uma reflexão sobre o Brasil. In: FAGNANI, E.; HENRIQUE, W.; GANZ LUCIO, C. (Org.). Previdência
Social: como incluir os excluídos? São Paulo: LTR, 2008, p. 21-30. Sites
Banco Central do Brasil: <http://www.bcb.gov.br/pt-br/paginas/ default.aspx>.
Febraban: <http://www.febraban.org.br/>. IBGE: <http://www.ibge.gov.br/home/>. Ipeadata: <http://www.ipeadata.gov.br/>.
Tesouro Nacional: <http://www.tesouro.fazenda.gov.br/>.
(*) Doutora em Economia pelo IPE-USP. (E-mail: [email protected]).
A “PEC das Domésticas” Como Exemplo Emblemático das
Con-quistas Sociais Recentes
1Cristina Fróes de Borja Reis (*) Vivian Garrido Moreira (**)
Às 7 horas a empregada chega à casa da patroa. Prepara um café, as torradas no forno, espreme o suco de laranja das crianças, põe a mesa. Beberica o seu cafezinho às pressas, estava precisando, le-vantou tarde para pegar o ônibus antes das 6, lá do outro lado da cidade. Atrasou uns 15 minutos em relação ao horário combinado, mas a patroa não falou nada. Nem pode falar, afinal quase nunca o serviço acaba antes das 16h.
Já deixa as roupas brancas de molho, bate as coloridas. Enquanto isso, tira a mesa, rega as plantas, arruma as camas, organiza o quar-to. Um monte de roupa espalhada por aí. Pega logo os banheiros, pe-diram pra caprichar nos azulejos. Pendura as roupas coloridas, põe as brancas na máquina. Dez horas da manhã. Amassa uma banana com mel para cada criança, separa o feijão e reserva. Lembra-se de botar a mistura pra descongelar, melhor evitar o microondas. Li-geirinho, tira o pó da casa, arras-ta e põe no lugar os móveis para passar o aspirador de pó, depois o pano de chão. Corre pra terminar o almoço, patroa chega esbaforida,
só tem uma hora pra vir do traba-lho/almoçar/ levar crianças pra escola/ voltar pra lá e pergunta: cadê? Arroz e verdura saem num instante.
Casa vazia, 13h30. Ela liga o rádio pra distrair. Capricha na cozinha: limpa o fogão, dá um trato na pia, seca as louças, passa pano no chão com desinfetante. Organiza a gela-deira e também o armário das
tu-pperwares (que bagunça!). Só falta
a área de serviço e aquela pilha de roupa pra passar. Pelo menos três camisas, dezenas de calças e ca-misetas, nossa, que calor! Será que almoçou? Não, correria foi tanta que não lembrou. Melhor se trocar logo e aproveitar que acabou de dar 16 horas, talvez ainda dê para conseguir sentar no ônibus, os pés latejam. Faltou limpar as janelas! Amanhã se dá um jeito...
O dia a dia apertado de uma empre-gada doméstica se repete em mi-lhares de lares brasileiros. Ou me-lhor, milhões, pois há 6,3 milhões de empregados domésticos no Bra-sil segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2012,2 cont ando t ambém
cozinheiros(as), governantas(os), babás, lavadeiros(as), faxineiras(as), vigias, motoristas particulares, jardineiros(as), acompanhantes de idosos, caseiros(as) etc. O tra-balhador doméstico é aquele que presta serviços durante três ou mais dias na casa do empregador. As empregadas domésticas, pois a ampla maioria é constituída de mulheres (cerca de 90%), tiveram seus direitos por muito tempo li-mitados e defasados em relação às outras relações empregatícias. Como afirma a historiadora Lorena Féres da Silva Telles em seu recente livro Libertas entre sobrados:
mu-lheres negras e trabalho doméstico em São Paulo (1880-1920), “apenas
em 26 de março de 2013, quase 125 anos depois do fim da escravidão, a aprovação do Projeto de Emenda Constitucional conhecido como ‘PEC das Domésticas’ estendeu à categoria direitos básicos”.3 Isto é,
a aprovação da PEC (66/2012) sig-nificou incorporar o trabalhador doméstico ao Artigo 7º da Consti-tuição, o que implica conferir-lhes os direitos já em vigor de jornada de trabalho de 8 horas diárias e 44 horas semanais, garantia de salá-rio mínimo, pagamento de horas
extras e adicional noturno, assistir às normas de saúde, higiene e se-gurança; proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão do traba-lhador por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil, proibição de qualquer discriminação ao porta-dor de deficiência. E ainda, o traba-lho doméstico é vedado a menores de 18 anos, desde o Decreto 6.481, de 12 de junho de 2008. (DIEESE, 2013).4 Em agosto último, entrou
em vigor a lei que prevê multa entre de R$ 402,53 até R$ 805,06 para o empregador que não assinar a carteira de trabalho do emprega-do emprega-doméstico. Outras regulamen-tações ainda estão tramitando, como auxílio-creche, seguro para acidentes de trabalho, salário-fa-mília, fundo de garantia por tempo de serviço e seguro-desemprego.5
Seria essencial, também, cuidar dos direitos das diaristas.
Como desde a escravatura o tra-balho doméstico não era tratado como uma relação profissional, o enquadramento da categoria junto ao artigo 7º da Constituição é uma conquista enorme. O tra-balho doméstico é um paradigma mesmo porque expressa diversas das desigualdades da sociedade brasileira: de gênero, de raça, de escolaridade, de rendimento. Como afirma o DIEESE, “o emprego do-méstico permanece como uma das principais possibilidades de inserção no mercado de trabalho para as mulheres, sobretudo as ne-gras e mais pobres”, apresentando, ainda, o perfil mais frequente das trabalhadoras menos escolariza-das entre as mulheres ocupaescolariza-das. A remuneração média dos serviços domésticos (excluindo ocupados sem rendimento) mantém-se histo-ricamente abaixo do valor do salá-rio mínimo no Brasil, o que estava
bastante relacionado ao fato de a maioria não ter carteira assinada (os dados da PNAD mostram que em 2012 somente cerca de 30% do emprego doméstico era formal). Nas regiões metropolitanas, em média, os serviços domésticos cor-respondem à ocupação de quase 30% das trabalhadoras. Observan-do o percentual relativo ao serviço doméstico nos dois gráficos abaixo, evidencia-se a relevante diferença entre o exercício do mesmo por mulheres negras versus não negras. As empregadas domésticas negras constituem cerca de 60% do total, e na média do País recebem menos por hora trabalhada do que as não negras (R$ 3,96 e R$ 5,06 em 2011, segundo cálculos do DIEESE usan-do dausan-dos da PNAD). Essas e outras razões apontam para a importân-cia da exigênimportân-cia de assinatura e a multa para o descumprimento da lei.
Tabela 1 – Distribuição das Mulheres Ocupadas Segundo Setor de Atividade nas Regiões Metropolitanas e Distrito Federal, em 2012 (% do Total de Mulheres Ocupadas)
Gráfico 1 – Distribuição das Mulheres Ocupadas, Negras e Não Negras por Setores de Atividade Selecionados, Regiões Metropolitanas e Distrito Federal – 2012
Fonte: Convênio DIEESE, SEADE, MTE/FAT e instituições regionais. PED - Pesquisa de Emprego e Desemprego. Elaboração: DIEESE.
A operacionalidade das medidas e a fiscalização do seu cumpri-mento ainda são questões a serem equacionadas. De todo modo, a lei é disruptiva em muitos sentidos. Primeiro, e mais importante, por garantir os direitos dessas traba-lhadoras. Segundo, por começar a modificar as relações domésticas, diminuindo a assimetria de poder em prol de um ganho no poder de barganha e valorização das empre-gadas. Terceiro, porque está con-tribuindo para o amadurecimento da estrutura do mercado de tra-balho. Como a lei chega dentro de contexto econômico de ampliação do emprego e maior formalização, as pessoas demitidas nos casos de empregadores que não quise-rem ou não tivequise-rem recursos para seguir as determinações da lei e tiverem que abrir mão do serviço de doméstica devem ser realocadas com mais facilidade no mercado de trabalho do que seriam se o empre-go e os salários não tivessem sido sustentados através da política econômica. Pouco a pouco a estru-tura do mercado brasileiro vai se modernizando, no que diz respeito às economias urbanas mais desen-volvidas. A realidade dessas econo-mias, há algum tempo, desconhece faxineira atuando como cozinheira, motorista atuando como despa-chante, porteiro atuando como eletricista ou encanador e gorjeta atuando como pagamento. Pode ser bom para uns, ruim para outros, mas um inquestionável imperativo no real caminho da igualdade. É,
sem dúvida, uma transição grande, pela qual estamos engatinhando. Aliás, a dinâmica econômica defla-grada desde 2003 que resultou em queda do desemprego em níveis históricos e no aumento sustenta-do sustenta-do rendimento médio da popu-lação − em especial desde a política de valorização do salário mínimo em 2007 − vem acompanhada do crescimento relativo do poder dos trabalhadores, principalmente no caso da mão de obra que recebe menores rendimentos. Consideran-do a posição na ocupação Consideran-do traba-lho principal, de 2004 para 2012 a média do rendimento do trabalha-dor doméstico em termos nominais foi a que mais cresceu (2,39 vezes), seguida pelos trabalhadores por conta própria (2,29), empregados (2,03) e empregadores (2,02). Este provavelmente é um fator que con-tribuiu para que as entidades de classe lograssem maior sucesso no andamento de reinvindicações an-tigas. O poder de barganha (ou, ge-nericamente, a reivindicação de di-reitos) é, ele próprio, elevado com o aumento da participação social, não o contrário. Tal como ocorreu em raros outros momentos da his-tória brasileira e mundial, durante fases de ascensão do ciclo econô-mico, com maior taxa de ocupação e a elevação do rendimento das famílias, as massas trabalhadoras passam a exercer mais pressão po-lítica. Como clamam os movimen-tos das ruas desde o ano passado, diversas mudanças institucionais e estruturais são demandadas − por
exemplo, a melhoria dos serviços públicos, condições mais dignas de trabalho e de vida, maior repre-sentatividade na política etc. Essas demandas são legítimas e apresen-tam grande potencial para fazer com que a sociedade evolua. Infe-lizmente, a história tem mostrado também que a reação conservado-ra muitas vezes é impiedosa, blo-queando e revertendo o progresso das reduções de desigualdades em curso (dentro do país e entre paí-ses), como se viu nas décadas de 60 e 70 – com o estabelecimento das ditaduras militares nos países em desenvolvimento e o desmantela-mento do Estado do Bem-Estar nas economias desenvolvidas.
A ruptura de desigualdades his-tóricas, das quais o emprego do-méstico é um bom exemplo, não constitui tarefa simples nem, muito menos, rápida. A implementação de um marco legal bem delimita-do, como o proposto pela “PEC das domésticas” cumpre o papel-chave de ancorar um longo e complexo processo de mudança. Isto porque a ideia de não encarar a natureza profissional do trabalho doméstico, como a de qualquer outra profis-são, encontra-se profundamente impressa em caracteres culturais da sociedade brasileira. A relação senhor-escravo (ou, mais frequen-temente, senhora-mucama), no seio da atividade doméstica, imbu-ída de toda a intimidade que não vê as horas extras trabalhadas, a própria flexibilidade de horários e a prontidão para toda e qualquer
“emergência”, encontra-se ainda presente na memória cultural de nossa sociedade e afasta consigo o conjunto de condições impes-soais do trabalho profissional. A visão ainda muito comum de que o patrão (patroa) mais está “aju-dando” o(a) empregado(a) do que efetivamente contratando os seus serviços o(a) autoriza moralmente a dispor desse serviço com a fle-xibilidade mínima que se espera como recompensa. Uma considerá-vel inversão de valores duplamente acatada entre as partes, já que nem mesmo o empregado costuma ver de outra forma.
Do mesmo modo, ao ajudar com módicas quantias mensais, pro-gramas ou entidades filantrópicas, sem desmerecer o eventual impac-to deste tipo de ação, o tradicional representante das classes média e alta brasileiras legitima-se em seu posto de cidadão atuante que faz a sua parte “para um mundo me-lhor”, mas que, ao mesmo tempo, reclama à mídia e aos órgãos com-petentes uma solução para o ta-manho das filas nos aeroportos. Guardando para outro momento o (grave) problema de infraestrutura que obviamente permeia este tipo de questão − e que constitui outra etapa fundamental das políticas públicas de incorporação social − o que está por trás de tal insatisfação é, sobretudo, a incompatibilidade entre dois modelos de socieda-de. São eles o da manutenção em equilíbrio de uma estrutura so-cial assimétrica e funcional e o da
repartição de iguais oportunida-des, inclusive de participação nos mercados, que acompanha a rein-serção social. Nesse sentido, vale sublinhar que enquanto a figura do senhor “ajuda” a figura do empre-gado (que simbolicamente também pode ser exercida por qualquer agente amparado por programas filantrópicos), assegura-se o equi-líbrio funcional que mantém as duas classes acomodadas: se de um lado a classe monetariamente mais abastada não se exime de uma su-posta responsabilidade moral de repartir o excedente que carrega, de outro, também não se vê revo-lução ou reinvindicação em escala suficiente que desequilibre o status
quo. Esse equilíbrio funcional que
aparentemente beneficia ambas as partes é, na verdade, o eixo de sus-tentação dos próprios excedentes acumulados na direção das classes mais abastadas. Ao contribuírem, ao seu ver, para uma sociedade “mais justa” as classes média e alta acomodam a desigualdade numa zona de conforto relativo.
No que as políticas de inserção social avançam, para as quais é crucial a definição de limites e imposições legais, gradualmente desequilibram esta estrutura as-simétrica e fazem emergir a insa-tisfação dada pela consciência de que a montagem da mesma não é rígida. Os avanços das políticas so-ciais no Brasil, não sem tempo, de-flagraram dessa forma um conjun-to de manifestações, oriundas do despertar de que uma nova
monta-gem estrutural é possível. Porém, ao contrário do que alguns dizem, foi antes pela (inicial) reinserção, que pela exclusão de cidadãos, que essas manifestações emergiram, por exemplo, nas ruas.
Assim, arrancar as raízes culturais que historicamente dividem a so-ciedade brasileira em classes dis-tantes passa pelo desconforto de reorganizar a referida estrutura, o que implica muitas vezes aero-portos lotados, estacionamentos sobrecarregados por aqueles que, finalmente, financiam seu próprio automóvel, trânsito congestionado por outros que reivindicam publi-camente seus direitos nas ruas, greves de garis, motoristas e co-bradores de ônibus, de professores da rede pública etc. Passa também pelo verdadeiro peso financeiro de arcar com todas as condições tra-balhistas que uma relação profis-sional exige, o que é radicalmente distinto de relações amistosas e certamente mais caro que o preço da filantropia da “consciência tran-quila”. Passa, enfim, pelo reco-nhecimento de que igualdade não se atinge com favores, mas com incorporação e exigência legal de direitos.
Em síntese, alguns passos impor-tantes foram tomados para atenuar o abismo que separa os patamares de remuneração entre trabalho “qualificado” e “não qualificado” no País. Falando de forma mais direta, entre o trabalho braçal e o traba-lho intelectual. Uma das heranças
coloniais mais fortes e absurdas, no nosso ponto de vista, é justamente a desvalorização do trabalhador braçal − pois o empenho necessário e a importância do que ele realiza deveriam ser motivos para maior reco-nhecimento. E no momento atual da economia, seria muito mais profícuo, tanto para a evolução da socie-dade quanto para o crescimento econômico de forma menos assimétrica, que se preservasse o emprego e o rendimento real do trabalhador, de forma a consolidar as transformações estruturais em direção à redução daquela desigualdade e sustentar a demanda efetiva. Especificamente no caso do emprego doméstico, quem é dono(a) de casa tem bem a noção do tanto de esforço físico e disciplina necessários para dar conta do traba-lho contínuo, orgânico, muitas vezes invisível e pouco valorizado, de se cuidar de um lar. Entretanto, o valor desse trabalho precisa ser reconhecido, afinal, confere ao local onde se passa as horas da vida mais íntimas o zelo, a limpeza, a decência, o aconchego e o prazer para se realizar as atividades diárias. Ao cuidar da casa as domésticas cuidam dos moradores dela. A tendência é de que este serviço seja cada vez mais de luxo, por-tanto, nada mais justo do que pagar-se bem por isso. Um país mais desenvolvido requer necessariamente um processo de valorização das pessoas que estão nas bases do tecido social e da produção de bens e serviços nacional. E, justamente, o enquadramento no artigo 7º da Constituição, com concessão de direitos trabalhistas e aumento de salário real foram aspectos estruturais e institucionais imprescindíveis para esse processo deslanchar.
Referências
ARANTES, José Tadeu. A longa transição de escrava a empregada doméstica. Agência Fapesp, 03 de setembro de 2014.
DIEESE. O emprego doméstico no Brasil. Estudos e Pesquisas, n. 68, agosto de 2013.
RICHARD, Ivan. Denúncia de informalidade no trabalho doméstico será anônima. Agência Brasil, 07 de agosto de 2014.
1 Este artigo é uma versão revisada do texto publicado nos blogs Brasil
Debate e Luis Nassif online em 23 de setembro de 2014.
2 A PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) é realizada pelo IBGE com o objetivo de produzir informações básicas para o estudo do desenvolvimento socioeconômico do País. Disponível em: <http://www.sidra.ibge.gov.br/pnad/default.asp?o=1&i=P> 3 Extraído de Arantes (2014).
4 DIEESE (2013). 5 Richard (2014).
(*) Professora da UFABC, bacharel em Economia pela USP, mestre e doutora pela UFRJ; com doutoramento sanduíche na University of Cambridge. (E-mail: [email protected]). (**) Economista. Mestre pela UFRJ e doutora em Desenvolvimento Econômico pela USP com doutoramento sanduíche na University of London. (E-mail: [email protected]).
Os Pagamentos de Benefícios da Seguridade Social e a
Dis-tribuição Intermunicipal de Renda
Rogério Nagamine Costanzi (*) Filipe Leite Peixoto (**)
1 Introdução
O pagamento de benefícios no âm-bito da Seguridade Social brasileira tem papel fundamental na prote-ção da sociedade frente a riscos sociais como desemprego, idade avançada e incapacidade laboral, além de combater ou amenizar a pobreza, uma vez que, se não exis-tissem os referidos benefícios, a proporção de brasileiros em situa-ção de pobreza seria muito maior. Em função desse papel, a Segurida-de Social acaba auxiliandona redu-ção das desigualdades regionais ou intermunicipais de renda e consu-mo. Apesar dos avanços recentes relativos ao índice de distribuição de renda, o Brasil ainda é marca-do por elevada desigualdade de rendimento entre as pessoas, bem como por expressivas diferenças de renda entre as regiões do País. Há estudos anteriores1
que já apon-taram para o papel dos benefícios pagos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) na transferên-cia de renda das cidades mais ricas para as mais pobres do País. Isso se constata quando se somam todos os benefícios previdenciários
con-cedidos à população de determina-do município e, respectivamente, todas as contribuições previdenci-árias recolhidas.
Com objetivo de atualizar esses estudos, o presente artigo está or-ganizado da seguinte forma: a) na segunda parte serão apresentados os dados dos pagamentos de be-nefícios pelo INSS por municípios e como eles afetam a distribuição intermunicipal de renda; b) na ter-ceira parte serão feitas as conside-rações finais.
2 Pagamentos de Benefícios do
INSS e a Distribuição Intermu-nicipal de Renda
Atualmente, o INSS responde pelo pagamento de cerca de 31,62
mi-lhões de benefícios, sendo 27,3 milhões de caráter previdenciário e 4,3 milhões assistenciais (não contributivos). Certamente, os as-sistenciais têm natureza redis-tributiva intrínseca, mas mesmo entre os previdenciários existem aqueles que têm caráter redistri-butivo, mais especificamente os benefícios rurais.
Uma primeira análise que foi con-siderada é a relação entre o valor do pagamento de benefícios do INSS e o Produto Interno Bruto (PIB) para cada um dos municípios brasileiros. O valor dos benefícios considera, além dos pagamentos previdenciários, as despesas com benefícios assistenciais como os de prestação continuada da Lei Or-gânica da Assistência Social (BPC/ LOAS). Entretanto, considera-se o valor líquido dos benefícios, ou seja, excluindo descontos, inclu-sive, de crédito consignado. Em relação aos valores da arrecadação, são consideradas apenas as contri-buições de caráter previdenciário ou vinculadas ao Fundo do Regi-me Geral de Previdência Social (FRGPS); por outro lado, não são consideradas as demais receitas da seguridade social necessárias ao financiamento dos benefícios con-cedidos. Por essa razão, os valores de arrecadação das contribuições previdenciárias são inferiores ao da despesa com os benefícios, ou seja, a arrecadação é suficiente para cobrir 85% do total3
de bene-fícios, o que denota alta relevância do estudo no tocante a seus
im-pactos na distribuição regional ou intermunicipal de renda.
Portanto, essa abordagem consiste em fazer uma análise da relação entre a arrecadação e despesa da Previdência Social, por décimo de municípios ordenados pelo PIB per
capita, sendo que o primeiro
con-templa aqueles com PIB per capita mais baixo e, consequentemente, de forma inversa, o último décimo agrega aqueles com o PIB per
capi-ta mais elevado.
Dessa forma, os municípios foram ordenados pelo PIB per capita, de tal sorte que os mais pobres ou mais ricos, respectivamente, são aqueles que têm menor ou maior
PIB per capita, sem levar em con-sideração a distribuição da renda nas cidades. Os dados de PIB, PIB
per capita e benefícios são de 2010.
Feitas essas considerações pode-se notar pelo Gráfico 1 que prevalece uma relação inversamente propor-cional entre o PIB per capita e a relação Benefícios / PIB em %, ou seja, quanto menor (maior) o PIB
per capita maior (menor) tende a
ser a relação Benefício / PIB em %. Portanto, dito de outra forma, para os municípios mais pobres, os benefícios do INSS da Previ-dência Social tendem a ter maior importância relativa. Por exemplo, enquanto para os municípios que estão entre os 10% mais pobres
do Brasil a relação benefícios / PIB chega a 20%, a referida relação vai caindo até chegar ao seu nível mais baixo para os 10% mais ricos, quando cai para o seu nível mais baixo, que é de 4,4%. Analisando esse mesmo dado de outra forma, pode-se inferir que os benefícios do INSS correspondem, por exemplo, a 20% do PIB dos municípios (1.º décimo) mais pobres do Brasil. A relação inversamente propor-cional entre a relação benefícios / PIB em % e PIB per capita fica clara quando se percebe que a relação cai na medida em que sobe para cada décimo de cidades com maior nível de renda per capita.
Gráfico 1 – Relação Benefícios INSS / PIB em % por Décimo de Municípios por PIB Per Capita – 2010
20,0 18,9 18,2 14,3 11,5 10,1 8,8 8,2 7,3 4,4 0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 em %
decímo de munícipios PIB per capita Beneficio/PIB em %
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do Ministério da Previdência Social e IBGE.
Obs: O 1.º décimo corresponde aos 10% dos municípios com PIB per capita mais baixo e assim, sucessivamente, para os demais décimos. Benefício/PIB em %
Embora os dados da relação bene-fícios do INSS / PIB sejam impor-tantes, acabam não levando em consideração que há arrecadação de contribuições sociais para que seja possível o pagamento dos be-nefícios. Nesse sentido, é funda-mental levar em consideração o valor dos benefícios líquidos, ou seja, o valor dos benefícios menos a arrecadação das contribuições previdenciárias por município para ter uma visão mais adequada dos impactos sobre a distribuição
re-gional de renda ou intermunicipal. Da mesma forma, também, no caso dos benefícios líquidos prevalece a relação inversamente proporcio-nal entre PIB per capita e a relação benefícios líquidos / PIB em %, ou seja, a relação tende a ser maior (menor) para as cidades mais po-bres (ricas) ou com menor (maior) PIB per capita.
Como pode ser visto no Gráfico 2, a relação benefício líquido / PIB em % é de 18,4% para os municípios
que estão entre os 10% mais po-bres ou que têm o menor PIB per
capita, valor que vai caindo até se
tornar negativo em -1,9% para os 10% mais ricos, ou seja, nesses a arrecadação é maior que o paga-mento dos benefícios. Também fica clara pelos dados do Gráfico 2 a relação inversamente proporcio-nal entre PIB per capita e a relação benefícios líquidos / PIB em %, ou seja, quanto menor o PIB per
capita maior tende a ser a relação
referida.
Gráfico 2 – Relação Benefícios Líquidos INSS / PIB em % por Décimo de Municípios por PIB Per Capita - 2010
18,4 16,9 16,0 11,7 8,7 7,4 4,1 3,9 1,3 -1,9 -5,0 0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 em% Décimo Beneficio Liquido/PIB em %
Benefício Liquido = Benefício - Arrecadação
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do Ministério da Previdência Social e IBGE.
Obs: O 1.º décimo corresponde aos 10% dos municípios com PIB per capita mais baixo e assim, sucessivamente, para os demais décimos. *Benefício líquido = benefício - arrecadação
Benefício Líquido/PIB em % Benefício Líquido = Benefício – Arrecadação
A relação inversamente proporcional entre PIB per
ca-pita e a relação benefícios / PIB e benefícios líquidos /
PIB em % fica clara, respectivamente, pelos Gráficos 3 e 4. Como podem ser notados pelos referidos gráficos, municípios com PIB per capita baixo tendem a ter alta
relação benefício / PIB e benefício líquido / PIB em %, ou, de forma inversa, cidades com alto PIB per capita tendem a ter baixa relação benefício / PIB e benefício líquido / PIB.
Gráfico 3 – Relação Benefícios INSS / PIB em % dos Municípios Brasileiros - 2010
Gráfico 4 – Relação Benefícios Líquidos INSS / PIB em % dos Municípios Brasileiros em 2010
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do Ministério da Previdência Social e IBGE
Nas Figuras 1 e 2 são apresentados os mapas com os dados da relação de benefícios / PIB e benefícios líqui-dos / PIB em % para todas as cidades ou municípios do País. Pela observação dos mapas, pode-se notar
que há uma grande importância no interior da Região Nordeste, mas também muita relevância no interior do Sudeste e Sul.
Figura 1 – Relação Benefício do INSS / PIB em % para Municípios do Brasil em 2010
Figura 2 – Relação Benefício Líquido do INSS / PIB em % para Municípios do Brasil em 2010
3 Considerações Finais
A análise da relação da proporção de benefícios da Previdência Social com o PIB dos municípios mostrou que aqueles com menor PIB per capita tendem a rece-ber mais do INSS do que contribuem, considerando a soma dos recolhimentos das contribuições pelos tra-balhadores desses municípios. Isso quer dizer que há uma transferência de renda para os municípios mais pobres. É sabido que em muitos desses municípios a renda dos aposentados é uma importante fonte de consumo de bens e serviços e, consequentemente, fa-vorece a manutenção da economia local e a geração de empregos. Isso demonstra a importância da Segurida-de Social para a economia brasileira, principalmente para os municípios cujo PIB per capita apresenta va-lores baixos.
De forma inversa, aquelas cidades com maior PIB per
capita tendem a ter essas relações com valores
me-nores ou até mesmo negativos. Tal fato denota que os pagamentos de benefícios do INSS melhoram a distri-buição regional ou intermunicipal de renda ao trans-ferir recursos dos municípios mais ricos para os mais pobres do País. De forma mais precisa, os 10% mais ricos do País transferem renda para o restante do País. Essa característica redistributiva dos pagamentos do INSS decorre, em especial, da previdência rural e dos pagamentos dos benefícios assistenciais como o BPC/ LOAS.
Portanto, todos os dados indicam que o pagamento de benefícios do INSS tem como impacto a melhora na distribuição regional ou intermunicipal de renda com transferência das cidades mais ricas para as mais pobres.
1 Ver artigo Previdência Social e Redistribuição de Renda Inter-municipal, de autoria de Rogério Nagamine Costanzi e Edvaldo Barbosa, em informe de Previdência Social de abril de 2009, disponível em: <http://www.previdencia.gov.br/arquivos/of-fice/3_090608-155706-828.pdf>.
2 Dados de junho de 2014.
3 A despesa total utilizada com benefícios líquidos foi de R$245,6 bilhões e a arrecadação foi de R$ 207,7 bilhões.
(*) Bacharel em Economia pela FEA/USP, Mestre em economia pelo IPE-USP, Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental do Governo Federal e Mestre em Gestão de Sistemas de Seguridade Social pela Universidade de Alcalá/Espanha e Organização Ibe-roamericana de Seguridade Social (OISS). O autor teve passagens pelo Ministério da Previdência Social (assessor especial do Ministro e atual Diretor do Departamento do Regime Geral), Ministério do Trabalho (assessor especial do Ministro), Ministério do Desenvolvimento Social, IPEA e Organização Internacional do Trabalho (OIT). A opinião ex-pressa neste artigo é de responsabilidade dos autores e não exprime a posição das instituições citadas. (E-mail: [email protected]). (**) Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental do Governo Federal, em exercício no Ministério da Previdência Social. (E-mail: [email protected]).