Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 5, n. 10, p. 19538-19545 oct. 2019 ISSN 2525-8761
Corpos, saberes e sustentabilidade
Bodies, knowledge and sustainability
DOI:10.34117/bjdv5n10-174
Recebimento dos originais: 17/09/2019 Aceitação para publicação: 14/10/2019
Glaciene Januário Hottis Lyra
Instituição:Universidade do Estado de Minas Gerais E-mail: [email protected]
Marcos Paulo Ribeiro Gouvea
Instituição:Universidade do Estado de Minas Gerais E-mail: [email protected] RESUMO
Gênero é um grande convite ao novo. A tudo que se faz e se renova todos os dias. A viagem proposta por “Corpos, Saberes e Sustentabilidade” te levará a um mundo de possibilidades, uma grande revolução no lidar com outro. Historicamente o preconceito segrega e finda vidas, fazendo com que determinados padrões sejam impostos a diversidade da existência humana. Qual é o seu papel no teatro da vida? De que forma o planeta pode evoluir com suas atitudes sustentáveis? Qual pegada ecológica você deixará como legado? O amor ao próximo e o respeito são fórmulas para a criação de um novo mundo, onde você pode ser exatamente o que quiser.
Palavras-chave: Sustentabilidade. Gênero. Sexualidade. Mercado de trabalho ABSTRACT
Genre is a great invitation to the new. Everything that is done and renewed every day. The journey proposed by “Bodies, Knowledge and Sustainability” will take you to a world of possibilities, a great revolution in dealing with another. Historically, prejudice segregates and ends lives, causing certain standards to be imposed on the diversity of human existence. What is your role in the theater of life? How can the planet evolve with its sustainable attitudes? What ecological footprint will you leave behind? Love of neighbor and respect are formulas for creating a new world where you can be exactly what you want.
Keywords: Sustainability. Genre. Sexuality. Labor market.
1 INTRODUÇÃO
Diante de tamanha desigualdade social e expressões da questão social, a vida em sociedade no mundo moderno se torna uma tarefa desafiadora. Ao passo que lutamos por
Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 5, n. 10, p. 19538-19545 oct. 2019 ISSN 2525-8761 sobrevivência, podemos ser força na vida de outras pessoas. Fruto de palestras, mesas redondas e discussões críticas de um grupo livre de pesquisa constituído na unidade Carangola da Universidade do Estado de Minas Gerais, de maneira a dar protagonismo a personagens reais colocados à margem da sociedade, nasce “Corpos, Saberes e Sustentabilidade”.
Nesta pesquisa, percorreremos o conceito de gênero e suas mutações com o passar do tempo. A a importância da discussão de gênero nas escolas e universidades, analisando o processo de relação dos corpos LGBT’s com o meio em que vivem, levando em consideração fatores histórico- culturais. Chegaremos então ao pilar fundamental da obra: questionamentis e dados quanto aos espaços de trabalho que não são ocupados por pessoas LGBT´s na sociedade atual e suas responsabilidades nas pautassustentáveis.
Correlacionar gênero a sustentabilidade é uma tarefa um tanto quanto confusa para alguns escritores. Essa visão é decorrente da percepção primária que se tem do conceito “sustentável” limitado a estratégias e planos de ação que visam manter a natureza preservada para nossos sucessores. Para que um indivíduo colabore efetivamente com a manutenção do meio ambiente é necessário, primeiro, que este se entenda parte do todo, produto pertencenteao meio. Aceitar a enorme diversidade dos grupos sociais e suas características particulares é mão única rumo às transformações sociais, visto que somos biologicamente dotados de capacidade transformadora e temos algo aoferecer ao mundo.
Os dias de hoje são resultado de uma sociedade culturalmente construída em regime patriarcal e heteronormativo, conceitos estes não aceitos pela nova geração de pensadore por terem como referência o senso comum consolidado, ou seja, verdades absolutas e afirmações sem embasamento científico, que em muitos momentos causam segregação e exclusão. ALVES (1944) escreveu: “Meu corpo é o resultado de um enorme feitiço. E os feiticeiros foram muitos: pais, mães, professores, padres, pastores, gurus, líderes políticos, livros,TV”.
É necessário compreender esse processo de formação e ir contra o que é segregante, fazendo desta forma que a sustentabilidade social seja pensadacomo fator chave à qualidade de vida dos cidadãos e preservação do planeta. Assim, levando como base os estudos de Haraway, Alves, Pitanguy e Cavalcanti e ainda dados de pesquisas já realizadas, o estudo coloca em discussão valores que são impostos para todos, mas que só são favoráveis a uma parcela da sociedade, causando expressões da questão social como o “hetero-esbranquiçamento” do mercado detrabalho.Trata-se de entender e pensar o que está além do acumulo material e preservação do planeta: as pessoas.
Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 5, n. 10, p. 19538-19545 oct. 2019 ISSN 2525-8761 2 METODOLOGIA
Como forma metodológica de condução deste trabalho, foi aplicado a revisão bibliográfica. A junção dos pensamentos dos autores pesquisados corrobora a ideia da diferenciação de gênero e sexo bem como explicita a segregação que os corpos LGBT’s sofrem tanto na sociedade quanto no mercado de trabalho. Pesquisadores como ALVES (1944), HARAWAY (2004), ALVES e PITANGUY (1985), entre outros, têm apresentado trabalhos bastante significativos quanto ao estudo de gênero e o papel de cada indivíduo na sociedade. Buscam mostrar a importância de respeitar o outro em sua diversidade e singularidade, fazendo efetivo todos os direitos e deveres sociais\fundamentais trazidos na Constituição Federal de1988.
A coleta dos dados aqui apresentados se deupor meio do Google Acadêmico e plataforma Scielo quanto a separação de artigos, livros e reportagens acerca do assunto proposto pela pesquisa e ainda dados coletados ao longo da discussão do grupo de pesquisas nas jornadas de palestras e eventos percorridos com a presente temática ao longo dos anos de 2017 e 2018.
1. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Gênero é o que diferencia socialmente os indivíduos, sem levar em consideração apenas os fatores biológicos. Constituem-se então, os gêneros masculino, feminino ou ambos em um só corpo. No campo social existem diferenças entre homens e mulheres, diferenças essas que foram estabelecidas com o passar do tempo, modelos segregantes pensados para uma sociedade que se opõem à atual, o que já explicita uma necessidade urgente de evoluçãoembora a mentalidade de alguns se mantenha presa a padrões do passado.
Diferente do termo sexo, que relaciona as características biológicas próprias de cada indivíduo, como por exemplo, possuir pênis ou vagina, gênero é entendido como a forma pela qual as pessoas se reconhecem, vivem e se identificam na sociedade, podendo ter como base o papel social do gênero masculino ou o papel social do gênero feminino, não levando em conta o fator do sexo biológico, mas sim a percepção individual de cada um sobre o que é ser homem ou mulher, ambos ou nenhum destes. Para HARAWAY (2004, p.81) “precisamos de regeneração e não de renascimento, e o sonho utópico da esperança de um mundo monstruoso sem distinção de gênero faz parte do que poderia nos reconstituir”. O autor fala da regeneração de pensamento, da alma.
Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 5, n. 10, p. 19538-19545 oct. 2019 ISSN 2525-8761 ALVES e PITANGUY (1985) definem gênero como uma construção sociocultural, que atribui a homens e mulheres papéis diferente dentro da sociedade e depende dos costumes de cada lugar, da experiência cotidiana das pessoas, bem como da maneira como se organiza a vida familiar e política de cada povo. E por estas característias própriam devem ser respeitados.
Com relação à classificação, é necessário explicar a diferença entre dois principais grupos de gênero: os cisgêneros e os transgêneros. Indivíduos que se identificam socialmente com as características biológicas atribuidas ao nascer, são chamados de cisgêneros ou homens e mulheres cis. Já os que nascem com determinadacaracterística biológica mas se reconhecem de maneira diferente e optam por processos de transição, por se reconhecem no papel social diferente do fator biológico e, em alguns casos se reconhecem no papel social de ambos os gêneros, são chamados de humanos transgêneros, logo, homens e mulheres trans.Assim, como o conceito de gênero, a raça humana e suas verdades são mutáveis.
Por entender que as questões da percepção do sexo estão muito além da vertente biológica, necessita de interação com o tecido social, os projetos pedagógicos desta temática fomentam a ideia de que não se nasce homem ou mulher, mas torna-se. Os determinantes instituídos a masculino/feminino são reflexos de um processo de construção que agrega inúmeros fatores sociais e culturais específicos de cada ambiente. Dizer que a cor rosa é para meninas e a cor azul é para meninos estabelece uma normatividade que, no futuro, reflete de formaassustadoranasrelaçõespessoaisdeumgrupo.Essegravefatorfazcomque pessoas LGBT´s, mais especificamente os corpos transgêneros, não encontrem espaço na sociedade, em específico, no mercado de trabalho, pois foi desenvolvida ao longo no tempo a ideia de que o ser humano é aquilo que nasce, e os que fogem dessa regra são rotulados como aberrações e\ou doentes.
Toda essa padronização se transforma, então, em intolerância e ódio para com as vidas que pertencem a comunidade. De acordo com o Grupo Gay da Bahia (GGB), o país bateu todos os recordes a respeito da morte de pessoas LGBT contabilizando 445 homicídios, cerca de um membro a cada 19 horas. Um aumento de 30% se comparado ao ano de 2016.Apesar dos inúmeros avanços a respeito dos direitos e representatividade LGBT, o Brasil ainda figura no topo dos países que mais matam membros da comunidade. Os dados são confirmados pela Anistia Internacional a partir do relatório divulgado que constatou os índices até o ano de 2017. Segundo Jurema Weneck, diretora executiva da Anistia Internacional “Infelizmente o Brasil é o país do mundo onde ocorre o maior número de
Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 5, n. 10, p. 19538-19545 oct. 2019 ISSN 2525-8761 assassinatos destes grupos. Isso deixa evidente o quanto o Estado tem falhado na preservação da vida, na forma com que as forças de segurança atuam e na responsabilização pelas vidas perdidas ao longo de anos”.
A respeito do mercado de trabalho, um estudo realizado pela Consultoria Santo Caos em 14 estados brasileiros mostrou que 43% dos 223 entrevistados, profissionais LGBT´s de diversas áreas, afirmam ter sofrido discriminação por sua identidade de gênero ou orientação sexual dentro do ambiente de trabalho. Um segundo dado vem da empresa de recrutamento Elancers, relatando que 38% das empresas brasileiras não adicionariam ao grupo de colaboradores os corpos LGBT´s para cargo de chefia e 7% não contratariam em nenhuma hipótese. O comunicador social Jean Soldatelli, sócio da empresa Santo Caos descreveque:
Muitas empresas temem ter sua imagem associada à do funcionário e com isso perder clientes, ter a credibilidade abalada. As empresas refletem aquilo que está colocado na sociedade. E a homofobia está presente na população.
É alarmante o fato de profissionais com um bom currículo não serem contratados por questões tão pessoais, pior ainda é saber que isso se agrava quando se remete ao meio acadêmico, pois atualmente os modelos de universidade no país não oferecem apoio jurídico, social ou psicológico aos que escolhem passar pela transição.
De acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), a situação dessas, que na divisão LGBT carregam um fardo social ainda mais pesado, é ainda mais chocante: 90% dos corpos da categoria ainda estão se prostituindo no país. Mesmo tendo bons currículos, acabam rejeitadas nas entrevistas por não serem sequer compreendidas em seu autorreconhecimento. Soldatelli explica que:
É uma realidade trágica. No estudo nós encontramos muito poucas travestis (em locais de trabalho), de forma que não foi possível fazer um recorte. Mas é claro que há diferenças no tratamento de lésbicas em relação a gays, e destes em relação a travestis, por exemplo. Diferenças associadas a fetiches machistas – no caso das lésbicas – e diferentes níveis de discriminação.
O termo sustentabilidade faz referência a um conjunto de ações humanas objetivadas em suprir as necessidades atuais dos indivíduos sem prejudicar asgerações futuras. Os processos de desenvolvimento econômico ou material só podem ser classificados como
Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 5, n. 10, p. 19538-19545 oct. 2019 ISSN 2525-8761 sustentáveis quando não produzem malefícios à natureza.As campanhas da pauta sustentável abordam a preservação do meio ambiente como sendo fator primordial para melhoria da qualidade de vida e preservação da raça humana, mas não seria ao contrário? É necessário fortalecer as relações, combater os critérios que separam, reconhecer as habilidades de cada indivíduo e estabelecer normas de convivência de forma onde a equidade de gênero seja uma realidade, para que possa assim pensar em estratégias de preservação, tanto da raça humana quanto do meio ambiente.
O homem é parte do meio, a espécie mais evoluída do ponto de vista do próprio homem. Se os LGBT´s têm a percepção de que não pertencem ao todo, como podem contribuir para a manutenção do planeta? A escritora Crystiane Bagatelli afirmou em uma palestra que:
Em tempos de tanta conscientização sobre a sustentabilidade do planeta há de se dar igual importância a reciclagem da ação do Ser Humano no que se diz respeito ao seu semelhante, a falta de amor ao próximo pode não destruir o planeta, mas com certeza pode destruir a humanidade.
Sustentabilidade vem do latim sustentare, corresponde a sustentar, favorecer e conservar. Segundo CAVALCANTI (2003) o termo supracitado significa a possibilidade de se obterem continuamente condições iguais ou superiores de vida para um grupo de pessoas e seus sucessores em dado ecossistema.Os projetos da área de sustentabilidade social que visam a melhoria da qualidade de vida dos indivíduos necessitam de espaço, e este espaço só será possível quando o acesso à informação for facilitado e não escondido, como acontece.
É preciso pautar a sustentabilidade social como prioritária, pois a raça humana está definhando para a autodestruição. Ainda prevalecem arraigados em todo o mundo conceitos ultrapassados da vida em sociedade. É preciso respeitar o ser humano em suas particularidades e escolhas, para que este respeite a natureza como sendo parte dela. O que de fato é. Sem nenhuma destinção.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Certamente não há o que se concluir a respeito de gênero. Enquanto permanecermos vivos, sobreviventes de nós mesmos, haverá o que se falar e se atualizar. Estamos em constante transformação e mutação, cada um de nós. Não há mais espaço para gaiolas ou prisões do pensamento. O importante por agora, como em toda história do homem na terra, é traçar estratégias para disseminação do amor e da tolerância, rompendo com a ideia de que
Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 5, n. 10, p. 19538-19545 oct. 2019 ISSN 2525-8761 somos todos iguais e levando a mensagem de que somos difentes. Únicos. Individuais. E não há nada de imperfeito nisso.
Diante dos estudos acumulados, afirma-se que para se alcançar a sustentabilidade social é preciso entender gênero e a responsabilidade de cada um dos papéis sociais dentro da perfeita harmonia da vida. Dentrodessa perspectiva, o conhecimento (saberes) será carro-chefe para alcançar esta realidade que para muitos é utópica. Conhecimento é a capacidade de agir do homem, é o que cada um carrega consigo por onde passa. É o grande transformador de vidas e destinos. É necessário apegar-se às informações, dar sentido a elas e transformá- las em caminhos para que esses possam ser usados como via única para a transformação social e ambiental do planeta Terra num lugar livre e justo, onde podemos ser exatamente o que somos, sem medo. Vida.
REFERÊNCIAS
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