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22º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental

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22º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 14 a 19 de Setembro 2003 - Joinville - Santa Catarina

I-102-AVALIAÇÃO FÍSICA, QUÍMICA E TOXICOLÓGICA DO SEDIMENTO PRODUZIDO EM ESTAÇÕES DE TRATAMENTO DE ÁGUA (ETAs) PARA ABASTECIMENTO PÚBLICO

Adilson Ben da Costa(1)

Professor/Pesquisador da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Mestre em Química Analítica Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutorando em Química Analítica pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Lilian Rodrigues de Lima

Química Industrial pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Agente Técnico de Saneamento.

Eduardo A. Lobo

Professor Titular/Pesquisador da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Doutor em Ciências Aquáticas pela Universidade de Tóquio – Japão.

Débora Monteiro Brentano

Acadêmica do Curso de Ciências Biológicas da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Bolsista do programa PIBIC – CNPq.

Endereço(1): Universidade de Santa Cruz do Sul, Departamento de Biologia, Av.

Independência, 2293 – Santa Cruz do Sul – RS – CEP: 95860-000 – Brasil – Tel: +55 (51) 3717 7519 – Fax: +55 (51) 3717 7530 – e- mail: [email protected]

RESUMO

O fornecimento de água tratada (potável) à população é uma medida de saneamento fundamental para assegurar a erradicação de doenças de veiculação hídrica, sobretudo com a crescente sobrecarga das águas superficiais, principalmente nas proximidades de zonas urbanas e/ou industriais. Contudo, os resíduos produzidos pelas estações de tratamento de

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águas (ETAs), principalmente o sedimento dos tanques de decantação e filtração, são habitualmente descartados no próprio manancial de captação de água sem tratamento prévio. Neste contexto, o objetivo principal deste estudo foi avaliar as características físicas (umidade, sólidos totais fixos e sólidos totais voláteis), químicas (Fe, Al, Cu, Mn, Ni, Zn e Cu) e toxicológicas (teste ecotoxicológico com Daphnia magna) do sedimento produzido em duas ETAs, de modo a levantar informação científica básica para estudos futuros que visem o tratamento e disposição final destes resíduos. Entre todos os metais determinados, apenas a concentração de ferro não indicou diferença significativa entre as amostras analisadas. Entretanto, concentrações significativamente superiores de zinco, cobre,

alumínio, níquel e cromo foram identificadas na amostra do sedimento coletado na ETA-2. Além disto, a água intersticial do sedimento de ambas as ETAs é extremamente tóxica ao microcrustáceo Daphnia magna (sendo que a ETA-2 apresentou-se mais tóxico). Desta forma, faz-se necessária a reavaliação dos procedimentos atualmente utilizados no descarte deste tipo de resíduo, buscando processos sustentáveis de tratamento e disposição final. PALAVRAS-CHAVE: Sedimento de ETA, Toxicidade, Metais.

INTRODUÇÃO

O fornecimento de água tratada (potável) à população é uma medida de saneamento fundamental para assegurar a erradicação de doenças de veiculação hídrica, sobretudo com a crescente sobrecarga das águas superficiais, principalmente nas proximidades de zonas urbanas e/ou industriais.

Considerando os diferentes níveis de comprometimento da qualidade das águas superficiais, os sistemas de tratamento utilizados podem ir desde simples processos de filtração e desinfecção, até unidades completas de tratamento de águas as quais utilizam tipicamente processos unitários de coagulação, floculação, decantação, filtração,

desinfecção e fluoretação. Desta forma, a qualidade da água bruta define a quantidade de insumos e as etapas de tratamento necessárias para torná- la adequada ao consumo humano, e conseqüentemente as características dos resíduos gerados.1 Na tabela 1 pode-se observar a diversidades de reagentes utilizados em ETAs, bem como sua finalidade.

Tabela 1. Principais reagentes utilizados em estações de tratamento de águas.1

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Função Reagentes Ajuste de pH Ácido clorídrico Ácido sulfúrico Hidróxido de cálcio Coagulação Cloreto férrico Sulfato de alumínio Desinfecção Cloro Fluoretação

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Flúor-silicato de sódio

Remoção de sabor, odor e oxidação Permanganato de potássio

Controle de algas Sulfato de cobre

Remoção de sabor e compostos orgânicos Carvão ativo

Segundo Richter,1 o principal resíduo gerado pelas ETAs são os sedimentos resultantes da coagulação da água bruta, acumulado nas unidades de decantação (60 a 95%) e de filtração da estação (5 a 40%).

Apesar de diversos estudos1,2 terem sido desenvolvidos visando avaliação quantitativa e qualitativa deste tipo de resíduo, pouco se conhece quanto às suas características

toxicológicas. Estudos ecotoxicológicos são importantes na caracterização complementar de águas (efluentes líquidos e águas naturais), pois a concentração das substâncias químicas, potencialmente tóxicas em uma amostra, muitas vezes é inferior ao limite de detecção de métodos analíticos convencionais.3 Assim, testes ecotoxicológicos reduzem as limitações encontradas nas análises físicas e químicas, fornecendo informações diretas sobre o perigo potencial de um resíduo para a biota aquática.4

Além disto, à grande diversidade de substâncias químicas (orgânicas e inorgânicas) numa amostra, torna inviável a sua completa caracterização física e química, não só do ponto de vista analítico como econômico. Mesmo quanto uma grande quantidade de variáveis físicas e químicas são determinadas em uma amostra, os resultados analíticos dificilmente

fornecem informações de efeito sinérgico. O sinergismo é um fenômeno que explica que a toxicidade da mistura das substâncias químicas presentes na amostra é maior do que espera-se pela simples soma da toxicidade destas.5

Neste contexto, o objetivo principal deste estudo foi avaliar as características físicas, químicas e toxicológicas do sedimento produzido em estações de tratamento de águas (ETAs), de modo a levantar informação científica básica para estudos futuros que visem o tratamento e disposição final destes resíduos.

MATERIAIS E MÉTODOS AMOSTRAGEM

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Para o desenvolvimento deste estudo foram coletadas amostras do sedimento retido nos tanques de decantação de duas ETAs, identificadas como ETA-1 e ETA-2, após 30 dias de operação.

A ETA-1 utiliza processos unitários de floculação, decantação, filtração, cloração e fluoretação, apresentando uma capacidade de tratamento de 120 L h-1. Já a ETA-2, além dos processos unitários utilizados na ETA-1, utiliza pré-cloração e pré-alcalinização, apresentando uma capacidade de tratamento de 429 L h-1. As ETAs captam água bruta de rios diferentes, e ambas utilizam sulfato de alumínio como floculante.

As amostras foram coletadas com auxílio de uma draga de Peterson, em 16 pontos

distribuídos sobre a superfície das unidades de decantação de cada ETA (2 decantadores da ETA-1 e 3 da ETA-2). Volumes iguais (100 mL) destas sub-amostras foram

homogeneizadas para preparação de amostras compostas, representativa de cada ETA. ANÁLISE DAS AMOSTRAS

As variáveis físicas e químicas consideradas para este estudo foram, umidade, sólidos totais fixos, sólidos totais voláteis e metais (Al, Fe, Mn, Cu, Ni, Zn e Cr), os quais foram

analisados em 5 replicatas. Visando fornecer informações complementares à caracterização física e química das amostras, testes de toxicidade utilizando o microcrustáceo Daphnia magna Straus (Fig. 1) como organismo teste foram realizados.

Os sólidos totais fixos e voláteis foram determinados por gravimetria, utilizando-se 2 g de amostra e aquecimento a 105 oC para determinação de sólidos totais, e 500 oC para determinação da fração fixa e volátil.6 A determinação de metais foi realizada por

espectrometria de absorção atômica com sistema de atomização por chama.3 O tratamento das amostras foi realizado por decomposição assistida por microondas, em sistema fechado, utilizando 100 mg de amostra, 500 m L de HF, 500 m L de HNO3 e 200 m L de H2O2, adaptado de Flores (1997).7

O organismo teste Daphnia magna, foi cultivado em laboratório segundo a norma ISO 6341 (1989)8. Como amostra foi utilizada a água intersticial dos sedimentos, deparada por decantação.

Os organismos foram submetidos a testes agudos, com duração de 48h, em que se determinou a concentração efetiva inicial mediana, CE(I)50 48h, determinando a

concentração de amostra no início do ensaio, que causa efeito agudo a 50% dos organismos em 48h, nas condições de ensaio. A CE(I)50 48h foi calculada utilizando-se os métodos estatísticos Probit Method para dados paramétricos e Trimmed Sperman-Karber para dados não paramétricos. 9, 10

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Os resultados receberam tratamento estatístico, trabalhando-se com a medida de tendência central entre as amostras da ETA-1 e da ETA-2. Para comparação das mesmas utilizou-se o teste U de Mann-Whitney. Trabalhou-se com níveis de 5% de significância.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Os resultados de sólidos totais indicaram diferenças significativas entre o sedimento da ETA-1 e ETA-2, que apresentaram concentrações de 9,3 e 15,8%, respectivamente (Fig. 2). Estes resultados alertam para a elevada umidade deste resíduo, justificando a utilização de sistemas de adensamento natural ou mecânico (filtro prensa, centrifuga ou filtros rotativos) deste sedimento, possibilitando a recuperação da água e dos insumos utilizados.11

Figura 2: Comparação entre as concentrações de sólidos totais fixos (STF) e voláteis (STV), e umidade das amostras de sedimento das ETAs pesquisadas.

A elevada concentração de metais (Fig. 3 e 4), principalmente alumínio e ferro, também justificam a utilização de procedimentos de tratamento e reciclagem deste resíduo, como o proposto por Carrión (1984)12 obtendo recuperações de até 90% do sulfato de alumínio. Além disto, cabe ressaltar que os resultados de metais estão expressos em peso úmido, ou seja, a adoção de procedimentos de adensamento deste resíduo podem aumentar

significativamente a concentração destes elementos.

Entre todos os metais determinados, ape nas a concentração de ferro não indicou diferença significativa entre as amostras analisadas. Entretanto, concentrações significativamente superiores de zinco, cobre, alumínio, níquel e cromo foram identificadas na amostra do sedimento coletado na ETA-2.

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Figura 3: Comparação entre as concentrações médias (± desvio padrão) de alumínio, ferro e manganês (base em peso úmido) das amostras de sedimento das ETAs pesquisadas.

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Figura 4: Comparação entre as concentrações médias (± desvio padrão) de cobre, níquel zinco e cromo (base em peso úmido) das amostras de sedimento das ETAs pesquisadas. Esta diferença significativa na composição dos sedimentos deve-se, provavelmente, às características físicas e químicas da água dos mananciais de captação, implicando assim na necessidade de utilização de quantidades diferentes de insumos durante o processo de tratamento da água.

Os resultados dos testes ecotoxicológicos apontam para uma maior toxicidade na água intersticial do lodo da ETA-2, em relação à ETA-1, conforme figura 5.

A água intersticial do sedimento de ambas as ETAs é extremamente tóxica ao

microcrustáceo Daphnia magna, fato possivelmente explicado pela elevada concentração de metais, potencialmente tóxicos, no sedimento. Além disto, a maior toxicidade apresentada pelo sedimento da ETA-2, pode ser explicada pelo uso de processos de pré-cloração, produzindo um sedimento com sub-produtos do cloro, entre eles trialometanos, reconhecidamente tóxicos e carcinogênicos.13

Figura 5: Comparação entre os resultados de CE(I)50 48h para as ETAs pesquisadas. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados deste estudo indicaram uma elevada concentração de metais no sedimento gerado pelas ETAs pesquisadas, principalmente ferro e alumínio, justificando o

desenvolvimento e adoção de tecnologias (economicamente viáveis) que possibilitem a reciclagem destes resíduos. Além disto, a toxicidade da água intersticial destes sedimentos

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alerta para a necessidade da imediata adoção de processos sustentáveis de tratamento e disposição destes, especialmente no que diz respeito àquele gerado por ETAs que utilizam processos de pré-cloração.

AGRADECIMENTO

Os autores desejam expressar seus agradecimentos à CAPES, CNPq, FAPERGS e ao Curso de Química da Universidade de Santa Cruz do Sul.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

RICHTER, C. A. Tratamento de lodos de estações de tratamento de água. São Paulo: Edgard Blücher, 2001.

BARROSO, M. M. , CORDEIRO, J. S. Problemática dos metais nos resíduos gerados em estações de tratamento de água. In: XXI Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental. Anais.

FONSECA, A. L. Avaliação da qualidade da água na Bacia do Rio Piracicaba através de testes de toxicidade com invertebrados. 1997. 183p. Tese (Doutorado em Hidráulica e Saneamento). UFSCar, São Paulo. 1997.

NUNES, D. C. L.; Fonseca, A. L. Avaliação da eficiência da ETE (Estação de Tratamento de Efluente) da indústria Mahlet/Itajubá utilizando bioensaios de toxicidade aguda com microcrustáceos. In: VII Congresso Brasileiro de Ecotoxicologia, 2002, Vitória. Livro de Resumos VII Ecotox. Vitória, 2002, p. 163.

ZAGATTO, P. A. et al. Toxicidade de Efluentes Industriais na Bacia do Rio Piracicaba. Revista CETESB de Tecnologia – Ambiente, São Paulo, n. 1, v. 1, p. 39-42.1988. APHA- AMERICAN PUBLIC HEA LTH ASSOCIATION. Standard methods for the examination of water and wastewater. 20 ed. Washington, 1999.

FLORES, E. M. Procedimento combinado para decomposição e determinação de elementos-traço por espectrometria de absorção atômica e desenvolvimento de sistema gerador de hidretos em microescala. In: Tese de Doutorado. UFRGS. 1997. 128p.

ISO 6341 INTERNATIONAL STANDARD. ISO 6341: water quality – Determination of the inhibition of the mobility of Daphnia magna Straus (Cladocera, Crustacea). USA: 1989. 7 p.

WEBER, C. I. Method for measuring the acute toxicity of efluents and receiving water to freshwater and marine organisms. EPA, Cincinnati, Ohio, 1993. 253p.

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HAMILTON, M. A.; RUSSO, R. C.; THURSTON, R. V. Trimmed Spearmann-Karber metod for calculation of EC50 and LC50 values in bioassais. Burlington research inc. fci. tecnol. n. 11, v. 7, p. 114-119. 1979.

BERNARDO, L. D. Métodos e técnicas de tratamento de água, v.1, Rio de Janeiro, ABES, 1993.

CARRÍON, J. P. Extracción de sulfato de alumínio de lodos de plantas de tratamento de agua. Hojas de divulgación técnica, 23, CEPIS – Centro Panamericano de Ingenieria Sanitária y Ciencia del Ambiente, 1984.

TOMINAGA, M. Y., MÍDIO, A. F. Exposição humana a trialometanos presentes em água tratada. Revista de Saúde Pública, 33 (4), 1999.

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