Guerra Civil na França e a Comuna de Paris - Um Conflito de
Legitimidades.
Rael M. Matos
O Objeto deste ensaio consistiu, como já indica o subtítulo, no trato bélico dos eventos que permearam a Comuna. Dito em termos menos gerais; o que busquei aqui fazer foi transmitir ao leitor interessado aquilo que pude perceber quanto às diferentes perspectivas que os governos – tanto dos communards1 como dos versalheses – tiveram
acerca da guerra que travaram.
No que concerne à metodologia usada, o leitor pode ter a sensação de estar lendo um trabalho de história militar; dado as alusões a termos militares como armamentos e etc., e o objetivo primário do ensaio ser a natureza da guerra civil. Entretanto, embora não tenha sido minha intenção inicial fazer deste um trabalho de história militar, é possível que minha escrita possa ter ser encaminhado para tal ao longo do percurso, deixo ao leitor a conclusão acerca dessa questão. Quando escrevo que não foi meu intuito principal fazer deste um texto de história militar, me refiro ao fato de que embora meu objeto primário tenha destoado dos trabalhos mais comuns sobre a Comuna de Paris ao abordar a natureza da guerra entre as duas partes, meu objetivo secundário (e que compõe de certo modo uma conclusão) foi o de relacionar as perspectivas das potências combatentes para com seus modos de governar. Em outras palavras, como a condução da guerra reverbera na própria natureza dos estados versalheses e comunal, entendendo que foi justamente a existência dessas perspectivas particulares que levaram ao desfecho já conhecido da Comuna de Paris, e assim buscando mostrar, como a inteligibilidade dos conflitantes acerca de sua querela em armas se relaciona com a questão mais abordada pelos historiadores acerca da Comuna; o debate sobre a natureza do governo comunal.
Ao abordar-se a história, acredito que é de demasiada importância que se saiba quem e da onde fala o intérprete daqueles fatos. Uma vez que o parágrafo anterior já descreve aquilo que pretendo escrever, gostaria de me apropriar do que resta dessa introdução do texto para apresentar ao leitor ao menos o percurso que teria me levado ao contato – e subsequentemente – ao estudo dos eventos ocorridos em Paris e seus arredores no primeiro semestre de 1871.
Lembro-me de como meu interesse acerca da Comuna foi despertado pelo subtítulo da primeira obra sobre a mesma com a qual tive contato: A Comuna de Paris – Os
assaltantes do Céu2de Horácio González. A ideia do assalto do céu – cuja qual mais
1 O termo designa os combatentes insurretos de paris que levantaram o governo municipal. Referir-me-ei a eles geralmente nessa nomenclatura.
tarde eu descobriria era de autoria de Marx, K (no original Den Himmel zu stürmen3) –
seduziu minha curiosidade quase que por completo; como poderiam um punhado de operários, civis, cuja mente não estava voltada à Guerra, dominarem não somente uma força regular do exército, como suprimir um estado administrativo e tomar seu lugar? Era como tomar o céu de assalto como disse Marx. K, González. H e muitos outros.
Assim, após esse pontapé ingênuo e certas leituras que me mostraram o quão equivocado eu me encontrava no que diz respeito ao contexto daquele assalto, que formulei esse ensaio, buscando que aquilo que pude perceber da visão desta guerra pelos “vencidos” e “vencedores” (se me é permitido usar um termo equivocado, mas aqui serve ao banal propósito da frase) e como essa se entrelaçou aos demais aspectos que mais comumente foram abordados pelos estudos sobre o Assalto do Céu.
1.
Antecedentes a 18 de Março de 1871.
Não é de minha intenção alongar-me por demais acerca dos eventos que levaram a proclamação da Comuna no Hôtel de Ville4, ou ponderar sobre os tempos em que o bonapartismo agoniza5. Entretanto, por mais que esmiuçar esses eventos não esteja no
horizonte deste trabalho, é de suma importância tratar ao menos de levantar os aspectos que compuseram o pano de fundo onde a Comuna instalou-se, e assim sendo esse item propõe-se a estabelecer uma ideia básica do período em que a guerra franca- prussiana estava para se tornar uma guerra civil, abordar-se-á aqui o período da III república francesa, do fatídico domingo de quatro de Setembro de 1780 até o ainda mais fatídico 18 de Março de 1871.
É quatro de Setembro de 1870, a ilusão napoleônica de que os chassepots6 franceses
em muito superavam os Drysers7 germânicos de Bismarck, e a falha em não traçar
estratégias que tomassem em conta a malha ferroviária germana mostram seus resultados. A capitulação de Napoleão III em Sedan reabre um vácuo de poder na política francesa, sendo este disputado por legitimistas8, orleanistas, bonapartistas e
republicanistas (que se subdividiam por si só em outras escolas de direção e de pensamento) isso para permanecer nas principais forças que aspiravam ao poder.
3 Conforme no original da carta que Marx escreveu para Dr. Kugelmann, onde primeiro foi expresso tal ideia.
4 Edifício do governo municipal de Paris.
5 A expressão encerra a discussão sobre a crise das diretrizes politicas e econômicas da direção politica bonapartista. Para ver mais consultar GONZALES, H. “Nos tempos que o bonapartismo agoniza, o turbilhão ideológico” in: A Comuna de Paris – os assaltantes do céu. Editora brasiliense. Segunda edição. 1982. São Paulo.
6 Rifles de infantaria da guarda nacional francesa na segunda metade do século XIX. 7 Rifles de infantaria do exercito prussiano na segunda metade do século XIX. 8 Linha politica que advogava o retorno da dinastia dos Bourbon ao trono.
Entretanto, a França ainda encontra-se em guerra, portanto, faz-se necessária uma liderança imediata. A república é proclamada. Proclamada como um governo de defesa nacional, sua característica provisional vai pairar sobre ela como um fantasma; ora diminuindo a vitória dos republicanistas, ora incitando o imaginário dos comunnards e legando discussões sobre esse caráter aos historiadores futuros.
Maurice Agulhon já havia nos alertado acerca dessa característica provisional que a forma de governo republicana possuía no imaginário político francês do século XIX; para o autor, 1830, 1848, 1849 e a proclamação do segundo império são evidências dessa forma de sociabilidade política9. De maneira não exatamente igual, mas
conservando o mesmo principio Marx, K. também mencionara o provisionalismo, concebido como uma medida de defesa nacional e não uma conquista social, um período interregno e necessário para a resolução do problema prussiano. Entretanto, provar que assembléia de defesa nacional possuía uma orientação majoritariamente restauradora, e que assim planejava a volta a monarquia quando do fim do problema prussiano, parece difícil. Assim sendo, qual a importância dessa suposta característica provisional alegada pelos autores?
À revelia de considerarmos verídica ou não a assertiva de Marx, K e Engels, F. de que a assembleia formada pelo governo de defesa nacional era de orientação majoritariamente feuillant10, parece-me mais difícil contestar o efeito que a mera
possibilidade de uma assembleia restauradora teria sobre o imaginário dos parisienses
communards. Aqui reside a importância dessa questão, o temor de uma restauração
monárquica parece ser um dos pontos que fomentaram o contexto que permitiria a Comuna ocorrer onde e quando ocorreu.
O raciocínio que desenvolvo aqui é o mesmo de Hobbsbawm, E. quando analisou o movimento industrial inglês do século XVIII em A Era das Revoluções. A premissa, já conhecida pelos historiadores, mas por vezes relegada, de que um acontecimento é fruto não somente de seus atores mas também de seu contexto, é também valido aqui. A Comuna é possibilitada pela sociabilidade política francesa e todo seu acúmulo desde 1789, o pensamento político revolucionário rupturista, o nacionalismo exacerbado, bem como pelo movimento industrial francês que trouxe a força dos trabalhadores a reboque;
9 Agulhon, M. Porque a republica?. In:1848 – O aprendizado da republica. Paz e terra. 1991. Rio de Janeiro. Pg. 9 – 32.
quer sejam chamados de proletários, operários, ou plebeus11, a força do movimento
trabalhista na década de 1870 é, como bem aponta Willard, C., inegável.
Menciono a questão do forte patriotismo por ser ele um elemento chave para a oposição do governo municipal ao governo Versalhes. Quando Gambetta, um republicano de esquerda, assume a III república e o cargo de diretor civil da guerra, o governo composto era de defesa nacional. Tivesse ele se mantido fiel a esse objetivo ao invés de empreender em realocações da burocracia e fugas de balão, talvez a esquerda moderada de Thiers, Favre, Jules Ferry, Trochu e Cia. tivesse sido mantida longe do comando da França, e assim essa poderia ter se dirigido para longe de um armistício encarado como vergonha nacional, e subsequentemente, uma tentativa às escuras do dia 18 de Março de 1871, que ao tentar desarmar a subscrição popular dos canhões parisienses, resultou em um amanhecer no qual o Hôtel de ville hasteava uma bandeira distinta da tricolor, e a República francesa, a União e pátria foram colocadas “et
danger”.
2.
Vocês assinaram a convenção de Genebra? – A perspectiva de
guerra dos versalheses.
O título deste item conserva certa eloqüência quando faz alusão a uma das características principais da perspectiva de guerra dos versalheses: a de que os
communards não eram seus iguais. Entretanto, antes de adentrarmos a perspectiva e
funcionamento da guerra em si para esses combatentes, é importante compreender o que era a guerra civil para estes, o que estava jogo naquele conflito e da onde este tirava sua legitimidade. De tal modo será possível contextualizar-se com mais proficiência as atitudes de guerra do governo de Versalhes.
No exercício de compreender o que era exatamente aquele conflito para o lado em questão, é importante ressaltar mais uma vez o que já foi abordado no primeiro item; que a III república não nasce no conflito civil, nasce como um governo de defesa nacional. Nas mãos de Gambetta e da esquerda republicana, a França ainda está guerra nacional contra os prussianos, o translado do governo para Versalhes (para fugir de uma Paris que se encaminharia para o sítio dos germanos) é projeto desse diretor da guerra. É, entretanto ao governo republicano moderado, de Jules Favre, Trochu, e, principalmente Thiers (se há uma cabeça a quem se dê os créditos pela vitória versalhesa, essa é o historiador moderado) que me refiro quando escrevo versalheses. A
11 Dificilmente é possível conceber os trabalhadores das manufaturas do XIX como proletariado característico do nosso tempo, este subproduto da ”revolução” industrial não se assemelha aos trabalhadores das manufaturas de cinco a dez empregados da primeira metade do XIX francês. Existe ainda a distinção feita por Rémond, R. entre os trabalhadores de manufaturas e o grande contingente de trabalhadores ferroviários, mediante as distintas condições de trabalho das quais os últimos gozavam em detrimento dos primeiros. Para tal distinção ver RÉMOND, R. A Era da Democracia, (cap. 3) in: O século XIX: 1815 – 1914, editora Cultrix, terceira edição, 1974, São Paulo.
idéia que o termo encerra refere-se ao governo que desfez o objetivo da defesa nacional e lançou-se após a capitulação ao conflito civil. Ao menos é essa uma das perspectivas possíveis, visto que nos discursos de legitimidade de Thiers, em momento algum deixará de ser mencionada a defesa nacional como objetivo de Versalhes, a diferença reside que se antes a França travava uma guerra de defesa nacional contra um inimigo externo, agora travaria contra um de natureza interna.
Se conferir crédito aos discursos de Thiers, sou levado à conclusão óbvia de que de alguma maneira esse inimigo interno era potencialmente mais perigoso do aquele que se encontrava as portas de Paris sob o comando de Bismarck. Potencial de perigo tão grande que teria levado o governo francês que ainda tinha recursos para empreender na guerra, capitular ante o inimigo, e arcar com os penosos custos desta rendição; dentre eles o pagamento de uma pesada indenização de guerra.
Sou assim levado para a interpretação de como Versalhes encarava o conflito que iniciara, e o que estava em jogo para ela no mesmo. Se me é permitido usar mais uma frase de eloqüência; Versalhes encontrava-se entre os drysers prussianos e os chassepots da guarda nacional que antes azuis, agora mais pareciam um mosaico, azuis, vermelhos, tricolores, democratas...
O que gostaria que essa frase transparecesse é o impasse em que se encontrava o governo da união, tendo de um lado um inimigo histórico, travando uma guerra já quase vencida e que possivelmente acarretaria pesados prejuízos à França, e do outro lado a possibilidade de uma insurreição, que pelos membros que a iriam compor e pelas ideias que poderiam vir a ter, colocavam em perigo a própria sociedade, o status quo da sociedade liberal francesa. Versalhes temia a democracia, os empregados, igualdade e outros símbolos que enxergava na (mais uma vez o termo possível) paris insurreta.
Ainda que os prussianos oferecessem um perigo material, desestruturar a sociedade francesa, sua economia, sua força militar, seu orgulho, esses eram materiais, poderiam ser reconstruídos. Para Versalhes, Paris oferecia um perigo ideológico, o abalo de destruição da própria noção de França e sua sociedade, uma completa subversão da ordem moderada. E fosse verdade ou não, como bem sabia Thiers o imaginário, o simbólico oferecia uma força e um perigo que não deveriam ser subestimados.
Assim, na impossibilidade de enfrentar os dois inimigos, combater nas duas frentes, Versalhes escolherá aquele que lhe apresenta maior dano, aquele que não estaria disposto a fazer acordos, aquele não é seu igual, “que não assinou a convenção genebra”, que só poderia ser vencido em uma guerra sem trégua e sem misericórdia como diria um dos panfletos de Gallifet. O que Versalhes não enxergou, ou não quis correr o risco de arriscar, é que é a sua opção em esvaziar o front externo para lutar no front interno que criou esse segundo front. Tivesse o governo continuado a ser de defesa nacional, dificilmente Paris teria sido insurreta, tivesse esse se preocupado em organizar a vitória da frança republicana ao invés de retirar dos habitantes de Paris o meio de assim fazê-lo, provavelmente os communards não teriam se levantado para fazer o que o II império não foi capaz, e a III república escolheu não fazer.
Assim, é essa a guerra que Versalhes irá travar, sem reconhecimento do outro como igual, sem conceder-lhe o status de beligerante, não fazendo distinção de alvos civis e
não-civis, não se empenhando em negociações de troca de prisioneiros. Fará emprego incansável da propaganda contra os communards, perpetuando a imagem de facínoras, de vilões que desejam a destruição da França, das pétrolouses, mulheres que sem nenhum respeito pelos símbolos da França ateariam fogo e petróleo aos mesmos, e fariam irrompem em colunas de fogo a história dos franceses inscritas naqueles monumentos. Essa foi guerra que Versalhes travou contra a comuna, como mostra esse discurso de Thiers proferido a Assembléia:
“There exists no conspiracy against but that of Paris, which compels us to shed french blood. I repeat it again and again. Let those impious arms fall from the hands which hold them, and chastisement will be
arrested at once by an act of pace excluding only the small number of criminals.”12
Ou ainda:
“He would enter Paris with the laws in his hands, and demand a full expiation from the wretches who had sacrificed the lives of soldiers and destroyed public monuments.”13
É válido notar que esta poderia ter tido duas dimensões, ou ainda poderíamos falar de duas guerras; Versalhes travaria contra a comuna duas guerras, uma de dimensão material e outra simbólica.
A guerra simbólica foi justamente esta das propagandas, do uso dos discursos de legitimidade, da percepção intelectual de Thiers em não ceder o velho Blanqui aos
communards nem mesmo em troca de 100 arcebispos, pois Blanqui daria aos parisienses
uma cabeça, enquanto os arcebispos dariam a Versalhes símbolos mártires da vilania parisiense.
Ainda no que compete a dimensão simbólica, o gênio de Thiers esteve em conceder vantagem a Versalhes por perceber muito antes de Paris a importância, e mesmo a existência da guerra de propaganda, da importância das ações, do uso dos discursos de legitimidade e dos símbolos. Versalhes foi capaz de estancar Paris culturalmente, os ideais, a legitimidade, o projeto de governo que os communards desejavam transmitir aos outros locais da França foi impedido ao ponto que a comuna usou uma estratégia do próprio Gambetta, levar seus panfletos de propaganda mediante balões. Versalhes conseguiu com sucesso, e com contribuição da própria comuna, isolar Paris do restante da França.
Isolar Paris foi também a estratégia central de Versalhes no que concerne a dimensão material da guerra. Enquanto União, Versalhes provinha-se de todas as vantagens que o governo federal poderia dispor; o uso dos oficiais de marinha, a maioria dos generais de academia, o uso da malha ferroviária para deslocamentos rápidos quando necessários, os funcionários administrativos que ao deixar Paris esvaziaram-na administrativamente e outras vantagens de um governo federal. Grosso
12 Marx, Henrich K. & Lenin, V.I. Civil War in France: The Paris Commune, International publishers, quarta edição, 1976, Nova York. Cap. 3
modo, sua única desvantagem era aquela talvez mais importante no futuro imediato; a quantidade de soldados, de homens disponíveis para a batalha. Entretanto, também nesse quesito Versalhes receberia da Comuna uma substanciosa ajuda.
Assim sendo, a estratégia de Versalhes era simples, sitiar Paris com seus recursos federais, enquanto as negociações com Bismarck prosseguiam, quando sua força numérica fosse re-estabelecida e liberada das prisões prussianas, após alguns ataques a fortes e locais estratégicos de Paris, deveria ser lançado um assalto final e fulminante a cidade insurreta.
Se Versalhes conseguiu executar sua lógica de guerra exatamente como planejara, isso se deveu em alguns aspectos ao modo como Paris enfrentou essa logística bélica, como os insurretos se portaram na batalha e o potencial que tiveram de atrapalhar a logística versalhesa. Assim sendo, debruçar-me-ei agora sobre o outro lado da guerra; dos parisienses, dos insurretos, dos communards.
3.
Porque não o Banco de Paris? – A perspectiva de guerra dos
communards.
Distante vinte um km de Versalhes, o governo insurreto dos parisienses no Hôtel
de Ville também possuía sua própria perspectiva da guerra, sua lógica e logística de
como a travar, bem como extraia (à sua própria maneira) sua legitimidade a partir de uma série de elementos constitutivos desta (e nesse tópico, o título do item em questão mais uma vez demonstra uma eloqüência que será esmiuçada mais adiante). É importante que analisemos esses elementos de maneira semelhante à qual conduzimos o estudo sobre as mesmas questões do lado versalhês, visando assim o conhecimento (que parece-me) mais completo da guerra civil francesa.
É importante também que eu mencione aqui, que ao tratar da guerra para os parisienses, por muitas vezes as ideias escritas tem profunda relação com tópico seguinte (e final) do ensaio, visto que é indissociável a natureza da perspectiva
communard de guerra e sua natureza per se. Tentei, na medida do possível, ater-me e
priorizar aqueles aspectos mais relativos ao tópico em si, mas seria tolice acreditar que teria tido sucesso em eliminar do leitor qualquer sensação dessa permeabilidade. Pareceu-me ainda, (não somente ao longo destes dois itens) que a natureza do ensaio em si é essa, de tratar o tempo todo de temas e ideias profundamente interconectáveis, e assim procurei escrever de maneira a respeitar essa característica, de modo que acredito que um leitor não teria problemas para entender o artigo, caso por exemplo, fosse começar a leitura de trás para frente.
Passadas essas características de metodologia e literatura, gostaria de passar para o modo como os communards viam o conflito que travaram. E aqui, parece-me que também Paris travou (semelhante a Versalhes) duas guerras, ou até sob outra óptica (agora diferente de Versalhes) dois momentos de guerras diferentes.
Essa idéia pode ser explicada pelas ações tomadas pela municipalidade parisiense e pelo Comitê Central da Guarda Nacional. Enxergue-se essas guerras como; uma guerra de defesa nacional contra o inimigo externo, uma guerra de defesa nacional
contra o inimigo interno, uma guerra conforme as convenções ou uma guerra sem misericórdia, uma guerra contra os símbolos do regime que Versalhes representava ou uma guerra de emancipação. Seja como for, parece inegável que mesmo com sua efemeridade, a Comuna de Paris teve tempo suficiente para entender de maneiras diferentes o conflito no qual estava inserida, o que é evidenciado inclusive pelo modo como o poder foi modificando-se dentro da estrutura comunal.
Para o teórico da guerra do XIX Carl Von Clausewitz, a guerra seria a política continuada por outros meios, o movimento bélico como uso da força para impor-se os objetivos políticos. Se para os versalheses é possível utilizar-se dessa lógica e compreender qual era seu objetivo político, parece difícil fazer o mesmo para com a Comuna e divisar um projeto político claro que seria imposto através da guerra. As atitudes de guerra dos communards parecem gritar que seu solo objetivo é o da defesa da Patrie et danger. Como evidência desse fato, parece-me apresentar-se o não-ataque da Comuna a Versalhes na semana inicial da guerra civil, e a predileção dos parisienses pela convocação de eleições municipais.
Esse fato parece corroborar para mim com a ideia que no início da insurgência naquele dezoito de março, os insurretos concebiam o conflito ainda como uma guerra de defesa nacional contra um inimigo externo (cujo segundo império e a terceira república falharam em vencer) devendo sua força militar ser preservada para batalhar com este, e não contra um contra tempo momentâneo de um ex-governo que falhou em sua missão. Tenha a Comuna falhado em conceber Versalhes como um inimigo em potencial, ou tenha tido essa ciência e optado de fato pela guerra contra os prussianos, o que permanece aqui é o fato de que a comuna concebia a guerra como defesa nacional (algo que vai perdurar até o fim, e o que segundo comitê de salut publique é ainda outra forte expressão) estando em jogo a defesa da Pátrie et danger.
Há ainda outra questão que complexifica a escolha da comuna do não-ataque: sua legitimidade. A comuna retirava sua legitimidade principalmente de duas ideias; a primeira como já ficou clara, era aquela da defesa da pátria francesa em perigo, da defesa da frança em si, fruto do imaginário político herdado pelos movimentos políticos que remontavam a 1789, e a segunda das lutas democráticas e as heranças de 1848.
É dessa idéia democrática que depreende o toque final da lógica comunal de convocar eleições as assembléias gerais ao invés do ataque fulminante a Versalhes. Tendo a Comuna deposto o governo que queria entregar a França ao inimigo, o primeiro passo da defesa da nação estava garantido, a força militar disponível estava retida em Paris, defendendo o que agora era o coração da defesa francesa e guardando para a batalha contra os prussianos, e a agora Paris precisava da convocação para legitimar sua existência e suas ações enquanto governo perante os parisienses e franceses. Por trás dessa escolha estava o próprio core da legitimidade da guarda nacional; a institucionalização de um governo de sufrágio universal. Nas palavras de González, H.
“Procurar um objetivo militar que implicasse sair dos muros da cidade, asseguraria talvez a continuidade material da revolução, mas enfraqueceria de início o único ponto indiscutível que congregava todas as
Seria válido ainda, quando da perspectiva militar, observar ainda as questões posteriores ao possível assalto de Versalhes, pois como Lissagaray, P.H. escreveu, a comuna não teria condições de administrar Paris e Versalhes. Entretanto tal questão fica fora do escopo deste ensaio.14
Assim, de modo semelhante à questão da convocação para as eleições, é possível observar outras atitudes da logística de guerra parisiense; como o decreto da tomada das fábricas cujos donos tivessem abandonado a Paris sitiada, mais do qualquer prospecto de projeto socialista que envolvesse a propriedade privada, era a propriedade nacional que estava em jogo, tivesse seu proprietário abandonado Paris, ele teria abandonado a França, justificando assim a lógica da expropriação.
Outro exemplo reside na questão que dá nome a esse tópico; aquela do Banco Nacional da França.
Para Marx, erro maior do governo insurreto, a tomada do banco em Paris teria garantido um desfecho “mais vitorioso” para a “Paris operária”, pois teria colocado Versalhes em uma situação onde a negociação poderia pender para o governo dos
communards. Entretanto, mais uma vez, tal raciocínio é sobrepor o projeto do
interpretador sobre o projeto da Comuna parisiense. Desde o início Marx via na insurreição parisiense um erro, pois a mesma não teria forças para lograr a vitória e sua derrota reverberaria nos movimentos da AIT. Para o pensador, o erro político da comuna com a questão do banco foi o de minar o projeto da AIT.
Entretanto, ainda que houvesse membros da AIT no governo eleito em Paris, o projeto parisiense era aquele de defesa nacional, não defesa do socialismo da AIT, é preciso (novamente) enxergar as ações do governo municipal por seus próprios projetos, não pelos nossos.
Na posição de um governo que retirava sua legitimidade da defesa da nação francesa, seria uma incongruência a Comuna apropriar-se de um Banco (cujo nome diz) Nacional, propriedade assim da França inteira e não somente de Paris. Afinal, não lutaram os parisienses para proteger (dentre outros modos de defender a França) a economia francesa do déficit que os versalheses dariam aos cofres nacionais ao assinar um armistício que tinha como condição o pagamento de uma altíssima indenização?
É preciso que se tenha em mente ainda, que qualquer tomada do Banco teria levado a economia francesa perto da ruína, visto a queda que o valor do papel moeda teria, assim como a queda que os papéis de investimento teriam sentido, em uma economia profundamente influenciada pelo crédit-Lyonaiss15.
É valido apontar ainda, que essa questão não se dividia apenas entre tomar ou não o banco. A comuna, ciente de sua desvantagem financeira e da necessidade que a guerra impõe de capitais, dirigiu aos diretores do Banco Nacional o pedido de uma linha
14 Para tal, ver obra completa referenciada no índice bibliográfico.
15 Sistema de credito do banco nacional da França no século XIX. Iniciado a partir da economia industrial de 1830. Teria nessa época enorme peso na macro economia francesa e gravitaria ainda mais força a partir da segunda “revolução” industrial e o advento do “capital financeiro”.
de crédito, numa tentativa de usufruir dos recursos da França para salvar a própria França.
A questão acerca do Banco Nacional evoca ainda outro aspecto, a mudança na perspectiva da guerra. Este é um momento no qual não somente a Comuna já divisa em Versalhes seu inimigo principal, como já se da conta de que Versalhes trava uma guerra sem prisioneiros e misericórdia. Trata-se do início do que seria também uma mudança nas estratégias de guerra parisienses, não mais incursões de guerra padrões (divisadas e lideradas pelos poucos oficiais de carreira do lado parisiense) seria suficiente, a comuna travaria uma guerra contra os símbolos do antigo governo, contra a Coluna de Vendôme e os arcebispos de Paris. Era o caminho do segundo comitê de Salut Publique, o instrumento máximo poder substituiria o Comitê central da guarda na direção da guerra civil
Assim sendo, se Willard, C. opina que é fácil apontar os erros da comuna 150 anos depois, devemos lembrar-nos que não estamos aqui para ser “amigos da comuna”
16 e sim para analisar o passado de modo concreto. Entretanto, se no outro extremo por
diversas vezes essa predileção pela convocação sobre o ataque foi tachado como erro político, é preciso que saibamos divergir entre um erro político e um erro militar.
Tachar a escolha da comuna como erro político é não enxergar a mesma por seus próprios projetos políticos, mas sim por aqueles de quem a interpreta, é desejar que a comuna anseie por algo que ela não o fazia, planejar algo que não desejava, e atuar como jamais teria feito. Sobre a óptica de erro militar por outro lado, supõe-se que o beligerante teria falhado em obter (seja por meio de suas estratégias, seja por não ter sido capaz de avaliar com precisão o contexto do conflito em questão) a vitória – puramente – militar do conflito.
Tratar dessas questões de projeto político implica entretanto, em tratar do que foi o governo comunal enquanto estrutura política, em estabelecer se tinha, e qual teria sido sua direção política natural e sua direção política de guerra. É isso que será abordado agora no último item, aonde já se tendo usado as atitudes de guerra como evidência, far-se-á uma definição a posteriori dos fatos sobre a natureza política do governo insurgente.
4.
O cabo de guerra ideológico com a Comuna de Paris.
O estudo dos modos de condução da guerra deveria servir como uma das evidências materiais para a inteligibilidade das diretrizes do governo insurreto de Paris. Entretanto, ainda que se apresentem este e outros modos de compreender a Comuna de Paris, o que me parece é que a memória é o instrumento utilizado para dar corpo a essa inteligibilidade. Dentro da própria historiografia, diferentes ramos político-filosóficos empreendem um exercício perpétuo de apropriação da Comuna em um constante cabo de guerra ideológico, seja este disputado por anarquistas, marxistas comunistas, marxistas não-comunistas ou não-marxistas.
Preocupa-me, tanto que a Comuna de Paris – enquanto evento cujos atores tiveram as mais variadas afiliações, origens sociopolíticas e econômicas, nacionalidades – possa ser tratada através de um viés tão reducionista que busca encaixar esse mosaico complexo dentro de uma única afiliação político filosófica, quanto esta visão de que a 1871 seria um prêmio para as diferentes vertentes políticas que insurgiram-se no XIX, passível assim de ser apropriada, e o mais preocupante; moldada.
Mais pertinente e historiográfico, parece-me, compreender a Comuna enquanto um complexo amálgama de elementos (como a vasta maioria dos eventos humanos) das mais diversas orientações sociopolíticas.
É assim, a esse intuito que este último item prestar-se-á; tentar delinear em linhas gerais as características políticas (em uma escala macro) do governo comunal, com base nos evidências materiais da condução da guerra, e na compreensão da mesma enquanto amálgama de elementos socialistas, anarquistas, democráticos e nacionalistas. Tem de levar-se em conta ainda, um elemento que é, a meu ver, fundamental nesse tipo de análise; o de que a Comuna era um (se a considerarmos como um) estado de guerra, um tipo de estado excepcional em sua condução, além de sua característica de efemeridade, significando que me parece difícil apontar com essa profunda certeza (que os socialistas-marxistas demonstram) a orientação estrita de um governo em dois meses de existência e em tal estado excepcional.
O que proponho com as ideias do parágrafo anterior, é essa dupla concepção, de que Paris não apresentava essa orientação política tão clara (ainda que tivesse seus decretos e affiches) pois não constituía um estado com tendências melhor delineadas e uma diretriz política clara. Constituída por diversos agentes sociais populares, A Comuna apresentava somente duas grandes tendências, a do movimento nacional e do movimento democrático.
A primeira, saída diretamente da sociabilidade política francesa e ressaltada pela conjuntura de guerra nacional, fez desse o objetivo principal da guerra da Comuna; a proteção da Patrie et danger. O segundo, como bem mostrou Willard, C., herdeiro direto da mesma tradição política que remonta a 1789 e fortifica-se nos movimentos sociais de 1848 constituía o projeto de pilar político do governo comunal; o de uma sociedade democrática, com os projetos relacionados à representação popular comunal. Entretanto, a própria conjuntura de guerra levaria a comuna aos poucos a pender a balança mais para a luta nacional, visto que a democracia direta poderia comprometer a vitória nacional. É mais uma evidência de que tivesse a comuna diversos projetos, esboçasse diversas perspectivas democráticas, socialistas, operárias, não poderia tratar-se senão de perspectivas, uma vez que todas foram influenciadas pelo força de gravidade que a guerra exerce.
A questão final aqui é a de que tivesse a Comuna seus elementos anarquistas (como a representação municipal, por exemplo, para se ater ao mínimo) tivesse as orientações operárias que os socialistas a querem dar, (embora Rémond, R. já tenha demonstrado que há uma diferença entre o trabalhador francês antes da segunda revolução industrial e o do século XX, e ainda com o trabalhador ferroviário do século XIX), ou ainda o projeto mais acabado de democracia que ela inclusive chegou a
implantar, todos não passavam de perspectivas, passíveis ou não de serem concluídas, gravitadas em segundo plano dada importância primária da salvação nacional, e impossibilitadas de serem postas à prática pela semana sangrenta de Maio.
Seja como for, é provavelmente essa característica efêmera que impediu qualquer concretização de projeto político-social e que legou à Comuna de Paris esse espaço tão amplo nos imaginários políticos do XIX, XX e XXI, que desperta nosso interesse profundo nesse evento. Como aurora ou como crepúsculo, a insurgência de 1871 tem um lugar marcado no XIX como um dos divisores de águas para as lutas e as sociabilidades políticas contemporâneas.
Bibliografia:
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