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Introducao a Teologia - Justo-Gonzalez

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Academic year: 2021

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JUSTO L. GONZALEZ

ZAIDA M. PÉREZ

(2)

I

n t r o d u ç ã o à

T

e o l o g i a

C

r i s t ã

lUSTO L G O N ZÁLEZ

ZA ID A M. PÉREZ

Quando o livro finalmente foi publicado, originalmente em espanhol, nos alegramos da receptividade que teve. Além disso, logo tivemos a grata surpresa de receber um pedido para publicá-lo também em inglês, de modo que, agora, é usado em vários seminários e universidades nos Estados Unidos e em outras partes do mundo anglo- saxão. Agora, sua publicação em português vem proporcionar mais alegria para nós.

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E sabido de todos que o Brasil é um dos países em que há maior vitalidade, desenvoltura em quase todas as igrejas, e que essa vitalidade se estende tanto para a evangelização quanto para a reflexão e o estudo. Por isso, estou seguro de que esse país cumprirá um papel cada vez mais importante na vida da igreja universal no século vinte-e-um. Vamos nos alegrar muito se este nosso livro puder contribuir com esse futuro, nem que seja em um mínimo grau !

Estimado leitor ou leitora que agora tem este livro em suas mãos, receba-o como a humilde contribuição de dois irmãos que te convidam, não só a aprender teologia, mas também a fazê-la. E se nesta vida atarefada você encontrar alguns momentos para isso, eleve uma oração a Deus por nós e por todos os nossos leitores !

Justo L. González Ju s t o L. Go n z á l e z nascido em Cuba e posteriormente naturalizado nos Estados Unidos. Eminente e prolífico historiador da igreja e teólogo, ministro ordenado metodista.

Za id a MALDONADO PÉREZ professora assistente de estudos teológicos no Asbury Theological Seminary.

VISITE NOSSO SITE: w w w .ed ito r a a ca d cm ia cr ista .co m .b r

ACADEMIA

(3)

JUSTO L. GONZALEZ

e

ZAIDA M. PÉREZ

INTRODUÇÃO A

TEOLOGIA CRISTÃ

Tradução:

SiLVANA PeRRELLA BrITO

2006

ACADEMIA

(4)

© E ditora A cadem ia C risfã © A E T H

Título original:

In tro d u cció n a Ia T eologia C ristiana

Supervisão Editorial: L uiz H enrique A. Silva R ogério de L im a C am pos P aulo C appelletti

Layout, e arte final: Pr. R egino da Silva N ogueira,

Tradução:

Silvana Perrella Brito

Revisão:

B runa Perrella B rito

Capa: Jam es Valdana

Assessoria para assuntos relacionados a Biblioteconomia: C laudio A ntonio G om es

D ados Inte rn a cio n a is de C atalogação na P u b licação (C IP )

G 643Í G onzáiez, Justo L.

Introdução à teologia cristã. / Justo L. G onzáiez, Z aid a M aldonado Pérez; trad. Silvana P errella B rito. - S anto-A ndré, SP : E d ito ra A cad em ia C ristã Ltda, 2006.

T itulo original: Introducción a la T eologia C ristiana

14x21 cm ; 2 80 páginas ISB N 8 5 -9 8 4 8 1 -1 1 -4

1. Teologia - Prolegôm enos 2. D eus I. Título

C D U -230.Í

ín d ice s para ca tá lo g o sistem ático:

1. Teologia 23

P ro ib id a a re p ro d u ç ã o to ta l o u p a rc ia l d e s ta o b ra, p o r q u a lq u e r fo rm a ou m eio e letrô n ico e m ecân ico , inclusive através de processos x erográficos, sem perm issão ex p ressa da ed ito ra (Lei n° 9 .610 de 19.2.1998).

Todos os direitos reservados à

Ed it o r a Ac a d e m ia Cr is t ã Lt d a.

Rua M arin a, 333 - S anto A n d ré C ep 0 9 0 7 0-510 - São P aulo, SP - B rasil F o n e fa x ( I I ) 4 4 2 4 -1 2 0 4 / 4 4 2 1 -8 1 7 0 E m a il: a c a d e m ia c ris ta @ g lo b o .c o m Site: w w w .e d ito ra a c a d e m ia c rista .c o m .b r

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ín d ic e g e r a l

Prefácio à .edição brasileira...9

Ca p í t u l o I - O Que é a Teologia?... 13

1. A função da teologia... 15

a) A teologia como explicação da realidade... 15

b) A teologia como sistematização da doutrina cristã... 17

c) A teologia como defesa da fé e como ponte até os não crentes...19

d) A teologia como critica da vida e da proclamação da igreja...22

e) A teologia como contemplação... 25

2. A teologia e a filosofia...27

a) A oposição entre ambas às disciplinas... 28

b) A coincidência entre as duas disciplinas... 29

c) O escalonamento entre as duas disciplinas...29

3. A teologia e as ciências físicas e naturais... 31

4. A teologia e as ciências sociais e hum anas...33

a) A realidade humana interessa para a teologia...34

b) A s condições sociais e humanas afetam a teologia...35

5. A teologia como conhecimento, disciplina e sabedoria...37

(6)

7. Os limites da teologia... 44

a) Teologia e contexto...4 4 b) A apalavra Humana a respeito de D eu s... 47

C a p í t u l o II - Quem é Deus?... 4 9 1. O conhecimento de D e u s ... ... 50

a) Revelação natural... ... 50

b) A revelação na história...5 3 c) A revelação em Jesus C risto...58

d) A revelação nas Escrituras...60

e) Fé e razã o...6 4 2. As provas da existência de D eus...66

a) A s provas com base no mundo criado...67

b) A s provas com base na razão pura...69

c) O valor e os limites de tais provas...70

3. A Palavra de D eus... 72

a) A palavra é a ação criadora...72

b) A palavra é o próprio D e u s... 74

c) A Bíblia como palavra de D e u s... 75

4. O Deus T rino... 76

a) O subordinacionismo... 78

b) O modalismo... 80

c) A doutrina da Trindade...80

d) A Trindade como modelo para os crentes...8 1 C a p í t u l o III - O que é o Mundo? Quem Somos? .... 8 3 1. A doutrina da criação... 84

a) O desafio das heresias...84

b) A resposta da igreja nos credos...89

2. Criação e ciência...92

3. A criatura hum ana... 98

a) O ser humano é parte da criação... 98

b) O ser humano se distingue do restante da criação...101

(7)

4. O ser humano é pecador...106

a) A queda... 106

h) O alcance e poder do pecado... 109

5. Nossa responsabilidade coijiQ criatura de D eu s... 113

a) Nossa responsabilidade para com o restante da criação... 114

b) Nossa responsabilidade para com os outros.... 116

Capítulo IV - Quem é J e su s C r is to ? ...119

1. A pessoa de Jesus C risto... 119

a) Jesus no Novo Testamento...120

b) Jesus na experiência da f é...123

c) O desenvolvimento da doutrina cristológica... 124

2. A obra de Jesus Cristo... 129

a) Jesus Cristo como pagamento pelo pecado... 130

b) Jesus Cristo como exemplo salvador... 133

c) Jesus Cristo como vencedor...135

d) Jesus Cristo como cabeça de uma nova humanidade... 138

3. Dimensões da salvação... 141

a) A salvação e a obra do salvador... 141

b) Uma salvação integral... 144

c) O processo da salvação: justificação e santificação... 147

Capítulo V - O que é a Ig reja ? ...151

1. Imagens da Igreja no Novo Testamento...155

a) A Igreja como corpo de Cristo...155

b) A Igreja como povo de D e u s...159

c) Outras imagens da Igreja... 161

d) Realidades sociais da Igreja no Novo Testamento... 163

2. As marcas ou sinais da Igreja... 164

a) A Igreja é una... 164

1) A unidade na Igreja an tiga... 165

2) Na Idade Média, a unidade era vista como sujeição à mesma hierarquia...166

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3) Com o advento da Reforma Protestante, a

ênfase caiu sobre a unidade de doutrina .... 167

4) Em tempos mais recentes... 168

5) Isso tem dado origem ao movimento ecumênico moderno...170

b) A igreja é santa... 172

1) Primeira solução: criar uma Igreja mais santa...172

2) Segunda solução: criar dois níveis de Igreja... ... 174

3) Terceira solução: A Igreja santa é a invisível...176

4) Outra possível solução: redefinir a santidade... 177

c) A Igreja é católica... 178

d) A Igreja é apostólica... 182

Capítulo VI - Como v iv e a Ig reja ? ...189

1. A Igreja vive pela Palavra...190

2. A palavra e os sacramentos... 193

a) Os sacramentos em g era l...194

h) O batism o...203

c) A comunhão... 209

d) O mundo como sacramento... 218

Capítulo VII - Qual é a n o ssa E sp e r a n ç a ? ...221

1. A esperança em busca do entendimento... 225

2. O Reino de D eu s... 229

a) A esperança de um futuro m elhor... 230

b) O alcançe do R ein o...234 c) O caráter do Reino... 235 d) Cidadãos do Reino... 240 3. A vida etern a ... 243 A utores m e n c io n a d o s ... 253 ín d ic e o n o m á stic o ...265 ín d ic e de te x to s b íb lic o s ... 269

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PREFÁCIO À EDIÇÃO

BRASILEIRA

O que é que significa teologia? Com essa per­ gunta, há várias décadas, minha filhinha de seis anos me perguntava o que era aquilo que eu fazia. O pai de uma de suas amiguinhas era pilo­ to de aviação; o de outra era barbeiro; e o de outra era professor. Mas ela havia ouvido alguém dizer que seu pai era teólogo. Teólogo? O que é isso? Tentei responder a ela da melhor maneira que pude, dizendo que o que eu fazia era ensinar, e que era algo semelhante a ser um professor. E assim dei o assunto por terminado - pelo me­ nos até que ela fosse um pouco maior e pudesse entender melhor.

Na semana seguinte, porém, a mesma pergun­ ta surgiu em outro contexto. Eu estava falando com um estudante prestes a graduar-se como semina­ rista, quando por um momento me dei conta de que aquele jovem não sabia o que era a teologia! Ele havia recebido uma educação teológica exce­ lente. Tinha lido Calvino, Schleiermacher e Barth e estudado toda a história do pensamento cristão.

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Entretanto, assim como minha filha, não sabia “o que é que significa teologia”! Se alguém tivesse lhe perguntado que lugar teria a teologia em seu ministério, ou então O que ele deveria fazer como teólogo, não saberia como responder.

Foi então que, examinando o currículo de nos­ sa escola e os prontuários individuais, notei algo que era evidente: em nenhum curso desse currí­ culo, e em momento algum, nos preocupávamos com a questão fundamental do que é teologia, para que serve e como se faz.

A partir daquele dia, visitei muitos seminários, institutos bíblicos e escolas teológicas em vários países e continentes, me fazendo a mesma pergun­ ta. Com notáveis exceções, o que vi é que, na maio­ ria dos casos, confunde-se a teologia com a doutri­ na, de modo que um curso sobre “teologia” é, na verdade, um resumo - e às vezes uma defesa - das doutrinas da igreja particular que sustenta a ins­ tituição docente. Em outros casos - e poderíamos dizer, em outro extremo - existem cursos em que a “teologia” parece ser especulação sobre temas reli­ giosos, como se fosse uma filosofia que se ocupa da fé e da religião.

Em alguns currículos, a teologia é mera apolo­ gia, já que consiste em aprender argumentos para refutar aos que duvidem das doutrinas. Em todos esses casos, ficava claro que o estudante de teologia não tinha um chamado para ser teólogo ou teóloga, mas sim para repetir o que os outros haviam dito. A “teologia”, mais do que uma atividade, era um conteúdo que alguém aprendia e, depois, usava

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segundo a necessidade do caso - como um médico que pega de sua maleta o remédio para cada doen­ ça em particular.

Dado esse entendimento do que é teologia e de quem a faz, não era, então, surpreendente que tan­ tos cursos de teologia, em vez de ensinar os estu­ dantes a serem teólogos, se contentassem em ensiná-los o que outros teólogos haviam dito.

Por isso, quando aAsociación para la Educación Teológica Hispana (AETH), nos Estados Unidos, me convidou juntamente com a colega Dra. Zaida Maldonado Pérez para escrevermos um livro rela­ tivamente simples de introdução à teologia, não tive outra alternativa senão aceitar com entusias­ mo. O que nos era pedido era um livro que, ao mes­ mo tempo que desse aos leitores e leitoras certa informação básica sobre o que os principais teólo­ gos disseram acerca das diversas doutrinas e da própria teologia, expusesse a eles brevemente uma variedade de opiniões que os estimulasse a fazer teologia por si próprios.

E começamos imediatamente a tarefa. Como uma maneira de facilitar a leitura em dois níveis diferentes, usamos dois tamanhos de letras, de modo que é possível ler o livro todo sem parar, ou também - em um nível mais simplificado - é pos­ sível ler seguindo somente as letras de tamanho maior. Antes de sua publicação, fizemos um experimento com algumas de suas partes, pedin­ do a estudantes que as lessem, e esses estudan­ tes nos fizeram comentários bastante úteis e cor­ retos.

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Quando o livro finalmente foi publicado, origi­ nalmente em espanhol, nos alegramos da recepti­ vidade que teve. Além disso, logo tivemos a grata surpresa dè receber um pedido para publicá-lo tam­ bém em inglês, de modo que, agora, é usado em vários seminários e universidades nos Estados Unidos e em outras parte do mundo anglo-saxão. Agora, sua publicação em português vem propor­ cionar mais alegria para nós.

E sabido de todos que o Brasil é um dos países em que há maior vitalidade, desenvoltura em quase todas as igrejas, e que essa vitalidade se estende tanto para a evangelização quanto para a reflexão e 0 estudo. Por isso, estou seguro de que esse país cumprirá um papel cada vez mais importante na vida da igreja universal no século vinte e um. Vamos nos alegrar muito se este nosso livro puder contribuir com esse futuro, nem que seja em um mínimo grau!

Estimado leitor ou leitora que agora tem este livro em suas mãos, receba-o como a humilde con­ tribuição de dois irmãos que te convidam, não só a aprender teologia, mas também a fazê-la. E se nes­ ta vida atarefada você encontrar alguns momen­ tos para isso, eleve uma oração a Deus por nós e por todos os nossos leitores!

19 de Fevereiro de 2006 Justo L. Go n zalez Decatur, G A

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Cap ítu lo I

O QUE É A TEOLOGIA?

Quando perguntamos o que a teologia é, o mais comum e imediato é ir para as raízes da palavra. Dizemos, então, que “teologia” vem de duas raízes gregas; “theos”, que significa “Deus”, e “logos”, que significa “estudo, razão ou tratado”. Concluindo, teologia é a disciplina que estuda Deus. Isso é o que dizem muitos manuais introdutórios e, até certo ponto, está correto.

Mas a realidade é que, quando afirmamos que a teologia é “a disciplina que estuda Deus”, não dissemos muita coisa. Cada disciplina define seu método com base no objeto de seu estudo. Assim, por exemplo, a física baseia-se na observação do modo como os corpos físicos se comportam, e a astronomia na observação dos movimentos dos cor­ pos siderais. Por outro lado, a matemática é uma disciplina abstrata, que não requer observação de coisa alguma, mas somente de quantidades aritmé­ ticas, formas geométricas etc. A história não pode observar diretamente os acontecimentos de que se ocupa e, portanto, estuda os documentos, restos

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arqueológicos e outros indícios que dão testemu­ nho desses acontecimentos. Resumindo, cada dis­ ciplina tem seu método próprio e esse método tem que concordar, de algum modo, com o tema e obje­ to de seu estudo.

Levando isso ao campo da teologia, vemos en­ tão que não basta dizer que é a ^'disciplina que estuda Deus”, mas que também é necessário con­ siderar quem é este Deus que a Teologia estuda e como 0 conhecemos. Sobre isto trataremos no pró­ ximo capítulo, todavia podemos adiantar que conhecemos a Deus por sua revelação, que é de suma importância para a teologia.

Ainda: os métodos que cada disciplina empre­ ga têm relação direta com seus propósitos. Muitas disciplinas têm, por sua vez, um propósito pura­ mente intelectual ou cognitivo e outras, um propó­ sito prático. A meteorologia, por exemplo, estuda os fenômenos atmosféricos não só para entendê- los melhor, mas também para poder predizê-los e assim nos ajudar a preparar-nos melhor diante das tempestades, das secas etc. A história, que freqüen­ temente se apresenta como o estudo desinteressa­ do dos acontecimentos passados, na realidade pos­ sui também o propósito de entender e interpretar 0 presente, e apontar em direção ao futuro. Até a astronomia, que se dedica a estudar corpos distan­ tes, tem também o propósito de nos ajudar a en­ tender as marés, a radiação, as tempestades sola­ res e seu impacto nas transmissões de rádio etc.

Do mesmo modo, quando nos perguntamos “o que é a teologia?”, estamos nos perguntando

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para que serve, qual ou quais hão de ser seus pro­ pósitos.

Por tudo isso, até o fim deste capítulo, conti­ nuaremos a nos perguntar qual é o propósito da teologia, para depois passarmos a outros temas que nos ajudarão a entender o que é a teologia e como se faz teologia.

1. A função da teologia

Através da história, quem tem se dedicado aos trabalhos teológicos tem concebido sua tarefa de muitas maneiras diferentes.

a) A teologia como explicação da realidade

Foi neste sentido que primeiro se utilizou o ter­ mo “teologia” séculos antes do advento de Jesus Cristo, entre pagãos. Assim, os gregos antigos cha­ mavam de “teólogos” os poetas e outros autores que explicavam a origem das coisas mediante mitos acerca dos deuses. Na igreja cristã, às vezes a teo­ logia é entendida como a explicação da realidade, freqüentemente com conseqüências funestas. Assim, por exemplo, quando Galileu, primeiramen­ te, sugeriu que o Sol não dava voltas ao redor da Terra, como se pensava então, mas o contrário, as autoridades eclesiásticas condenaram-no, porque sua explicação da realidade não coincidia com a que os “teólogos” davam.

Ainda que, em certo sentido, a fé cristã - e, portanto também a teologia - nos ofereça uma

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explicação da realidade, o que nos oferece não é tanto uma explicação de como as coisas funcio­ nam, ou de como se formaram, senão antes o seu lugar nos propósitos de Deus. Como veremos mais adiante, confundir estas duas coisas é confundir a teologia com as ciências físicas. Quando faze­ mos tal coisa, corremos o risco de subordinar a fé cristã às vicissitudes e novos descobrimentos des­ sas ciências.

O exemplo de Galileu alerta-nos para os peri­ gos que implicam esse modo de entender a teolo­ gia. Se a teologia é a explicação de como funciona a realidade, qualquer outra disciplina tem que se sujeitar a ela. Por isso, era dito, na Idade Média, que a teologia era “a rainha das ciências”. Alguns teólogos insistiam que a terra era o centro físico do universo, porque Josué 10.13 disse que “o sol se deteve e a lua parou”. Logo, nenhum astrôno­ mo teria o direito de afirmar o contrário, e Gali­ leu foi condenado por isso. Hoje, sabemos que Galileu tinha razão. Portanto é preciso tomar cuidado com qualquer teologia ou interpretação da Bíblia, que pretenda explicar como as coisas são, como funcionam etc. A teologia afirma que tudo quanto existe é criação de Deus e que tudo tem um lugar no plano de Deus. Mas como essas coisas funcionam é assunto da incumbência de outras disciplinas, e não da teologia.

Quem sabe o ponto em que mais se vê esse pe­ rigo, nos dias de hoje, está em ler as histórias do Gênesis como uma explicação cientifica da ori­ gem das coisas. Essa leitura do Gênesis como uma história literal da origem das coisas choca-se não

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somente com as teorias cientificas de hoje - que no fim das contas não são mais teorias mas tam­ bém com o próprio Gênesis. Assim, por exemplo, em Gênesis 1 Deus criou primeiro os animais e por último 0 ser humano, enquanto que em Gê­ nesis 2 a ordem é inversa. Se tomarmos as histó­ rias do Gênesis como descrições científicas, nos veremos condenados a dizer que o Gênesis se con­ tradiz.

b) A teologia como sistematização da doutrina cristã Desde de os primeiros tempos na história da Igreja, viu-se a necessidade de sistematizar a fé cristã ou pelo menos seus pontos essenciais. Já em meados do século II, havia o que se chamava “regra da fé”, que era uma breve lista desses pontos essenciais, com ênfase especial naqueles que alguns negavam.

Até 0 fim desse mesmo século e princípio do terceiro, o grande sistematizador da fé cristã foi Orígenes, cuja obra Acerca dos Primeiros Princí­ pios cobre todos os pontos essenciais da fé cristã,

desde as doutrinas de Deus e da criação até a escatologia. A partir de então, têm-se escrito cen­ tenas de obras de “teologia sistemática”, cujo pro­ pósito é, precisamente, apresentar a doutrina cristã como um todo ordenado e coerente.

Essa função da teologia é importante, ainda que não deixe de ter seus perigos. Como sistemati­ zação da doutrina cristã, pode servir de ponto de referência sobre cuja base julga qualquer doutri­ na ou idéia que alguém sugira. Era assim que a

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igreja antiga usava a “regra de fé”. Assim, por exemplo, se alguém sugerisse que alguma coisa não era criação de Deus, mas do Diabo, era fácil res­ ponder-lhe de imediato que a regra de fé afirmava que Deus é “criador do céu e da terra” ou “criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis”. Ou mes­ mo, se alguém negava a vida eterna, a encarnação de Jesus Cristo etc.

A teologia pode ter a mesma função para nós hoje. Se, em meio a um estudo bíblico, alguém su­ gerir uma interpretação de um texto que contra­ diz a mensagem de todo o restante da Bíblia, e de antemão nos preparamos teologicamente, esse conhecimento teológico nos ajudará a reconhecer o erro do que se propõe e a ver se não é possível interpretar o texto de outra maneira.

Esse modo de entender e de empregar a teolo­ gia tem também seus perigos. O mais importante disto está em que de tal modo queiramos sistema­ tizar e classificá-lo, que damos a nosso sistema uma autoridade que não deve ter.

Esse foi 0 grande perigo da teologia no século XIX, contra o qual um teólogo luterano dinamar­ quês, SoREN K jerk eg a a ed , insistiu que o ser hu­ mano existente, pelo fato de existir, quer dizer, de estar no tempo e no espaço, não pode jamais sistematizar toda a realidade. Disse ele: “Queres dizer que não há tal sistema? De modo algum. Toda a realidade é um sistema, para Deus; mas nunca para nós”.

Vemos um exemplo disso no modo em que o teólogo calvinista Jerônimo Zanchi, no fim do

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século XVI, tentou provar a doutrina da predes­ tinação. Segundo Zanchi, visto que Deus é oni­ potente e onisciente - quer dizer, pode tudo e sabe tudo - Deus sabe e determina tudo o que há de acontecer, e não existe tal coisa como liberdade humana. O que Zanchi fez com tal argumento é pretender que Deus tem que se ajus­ tar a nossa compreensão da onisciência e da oni­ potência. Mas o certo é que, se Deus é de verda­ de onipotente, Ele não tem o porquê de se ajustar aos argumentos de Zanchi nem de qualquer outro teólogo. Se Deus é verdadeiramente onisciente, saberá como permitir que exista a liberdade huma­ na, ainda quando o “sistema” de Zanchi não dê lugar a ela.

Outro perigo da sistematização excessiva da teologia é que a mensagem e a obra de Deus parecem reduzir-se aos três ou quatro pontos do sistem a. Isso acontece, por exemplo, quando reduzimos a mensagem da Bíblia a um “plano de salvação” em três, quatro, ou doze pontos; e pare­ ce que basta conhecer esses pontos, de tal modo que a Bíblia fica sobrando.

c) A teologia como defesa da fé e como ponte até os não crentes

Desde datas bem antigas, viu-se a necessida­ de de defender a fé diante de quem a criticava, assim como de preparar o caminho para que os não crentes pudessem aproximar-se do evange­ lho. Assim, por exemplo, quando a igreja cristã começou sua pregação no meio do Império Roma­ no e de sua cultura greco-romana, havia quem

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zombasse dos cristãos porque não tinham deuses visíveis. Alguns até os chamavam de “ateus”, por essa mesma razão. Diante de tais críticas e acusa­ ções, alguns líderes intelectuais do cristianismo começaram a buscar pontes entre sua fé e cultu­ ra circundante. Uma dessas pontes foi encontra­ da no que alguns dos mais distintos filósofos da antiguidade - especialmente Platão - haviam dito sobre o Ser Supremo. Segundo esses filósofos, sobre todos os seres visíveis deve haver um pri­ meiro Ser, infinito e imutável, do qual a existên­ cia de todos os demais seres é derivada. Unindo essa antiga afirmação filosófica com a doutrina cristã, esses antigos teólogos cristãos - persona­ gens como Justino, Clemente de Alexandria e Orí­ genes - afirmaram que o mesmo Ser a quem os cristãos chamavam “Deus” ou “Pai” era aquele que os antigos filósofos haviam chamado de Ser Su­ premo, Beleza Suprema, Bondade Suprema, Pri­ meiro Motor etc. Desse modo, mostravam que a fé cristã não era tão irracional como diziam e que os cristãos, longe de serem “ateus”, adoravam a um Ser que estava acima do todos os supostos deuses pagãos.

Isto é o que se conhece como a “função apolo­ gética” da teologia. Nesse contexto, “apologia” quer dizer “defesa”. Por isso, aqueles primeiros auto­ res, que escreveram obras desse tipo, recebem o nome de “Apologistas” ou “Apologetas”. E, por cau­ sa deles, a teologia que se dedica a esse tipo de tarefa recebe o nome de “Teologia Apologética” ou simplesmente “Apologética”.

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Indubitavelmente, essa tarefa é importante e valiosa. Por exemplo, se não fosse por causa da­ queles primeiros apologistas do segundo século, e por quem continuou sua tarefa no século tercei­ ro e quarto, o cristianismo não poderia ter entra­ do em diálogo com a cultura circundante. Certa­ mente, no livro de Atos vemos primeiro a Pedro, logo a Estevão e por último a Paulo, todos judeus, defendendo a fé cristã em presença de outros judeus que não a aceitavam. No dia de hoje, visto que existem tantos argumentos contra a fé cris­ tã, é necessário refutá-los, se não essencialmente para provar a verdade dessa fé, ao menos para remover os obstáculos falsos que se colocam no caminho dela. Assim, por exemplo, a teologia em sua função apologética pode ajudar-nos a refutar os argumentos dos ateus, que afirmam ser impos­ sível crer em Deus.

Por outro lado, contudo, a teologia como apolo­ gética apresenta também seus perigos. Sobre isso voltaremos em outro capítulo ao tratar sobre as “provas” da existência de Deus. Em todo caso, par­ te do perigo está em que o argumento apologético é como uma ponte em tráfico, flui nas duas dire­ ções: não somente serve para convencer os não- crentes, mas também pode convencer os crentes, torcendo o conteúdo de sua fé.

O exemplo mais claro disso vemos nos argu­ mentos dos “apologistas” do segundo século, a quem já nos referimos, e no modo em que seus pensamentos têm impactado a doutrina de Deus. Quando esses apologistas enfrentaram a cultura greco-romana, viram-se na necessidade de defen­ der sua fé em um Deus único e invisível, quando nessa cultura os deuses eram muitos e também

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vistos nas estátuas que se colocavam nos tem­ plos. Para responder a essas críticas, os apologis­ tas recorreram aos escritos de Platão que fala­ vam de um Ser Supremo, e disseram que esse era o Deus dos cristãos. O grande valor de tal argumento estava em conseguir, para a procla­ mação da fé, 0 apoio de um dos mais respeitados pensadores da antiguidade, Platão. O grande perigo estava em que os cristãos chegassem a pen­ sar - como de fato fizeram - que a maneira que Platão fala do Ser Supremo é melhor e mais exa­ ta que a maneira que a Bíblia fala de Deus. Como conseqüência disso, boa parte da teologia cristã começou a conceber Deus como um ser impesso­ al, impassível, afastado das realidades humanas e, portanto, muito distinto do Deus de Israel e de Jesus Cristo, que se envolve na história humana, sofre com aqueles que sofrem, responde as ora­ ções etc.

d) A teologia como critica da vida e da proclama­ ção da igreja

Outro modo de entender a função da teologia é vê-la como uma crítica da vida e da proclamação da Igreja á luz do Evangelho. A Igreja tem a incum­ bência de proclamar o evangelho e de vivê-lo. É uma tarefa que nós enfrentamos conhecendo nos­ sa incapacidade. Como seres humanos e pecado­ res, nossas palavras estão sempre muito distantes de ser a palavra de Deus. Como instituição huma­ na, a igreja leva também o selo da falibilidade e do pecado humano. É somente pela graça de Deus que

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nossas palavras podem levar a palavra Dele. E só pela graça de Deus que a proclamação da Igreja pode ser a proclamação da palavra Dele, e que a organização e as ações da Igreja podem ser sinais do Reino.

Apesar de nossa falibilidade e de nossa depen­ dência da graça de Deus, temos a obrigação de íazer tudo quanto está ao nosso alcance para que nossas palavras e nossas ações sejam reflexo da Palavra e dos propósitos de Deus. Essa é a função da teologia como crítica da proclamação e da vida da Igreja.

Como crítica da proclamação e da Igreja, a teo­ logia examina o que a igreja disse, e o julga e cor­ rige a luz do Evangelho - não para criticá-lo, no sentido negativo da palavra, mas para que se ajuste melhor a esse Evangelho. Assim, por exemplo, a teologia pode ser um dos critérios que aplicamos cm nossos sermões, lições e escritos, para assegu­ rarmos de que - na medida em que é dada a nós humanos - nossas palavras sejam fiéis ao Evan­ gelho.

Como crítica da vida da Igreja, a teologia exa­ mina o que a Igreja faz e como se organiza, e o julga a luz do Evangelho - não para criticá-lo, mas |)ara que se ajuste melhor ao que a própria Igreja |)roclama. Por exemplo, ao preparar o pressuposto da Igreja ou ao determinar suas estruturas e sis­ temas de governo, é importante que nos pergunte­ mos: “Como isso reflete o Evangelho de Jesus Cris­ to? A função da Teologia, como crítica da vida da Igreja, é precisamente essa”.

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O teólogo do século XX que mais se destacou por esse entendimento da teologia foi o alemão

K a r l B a r th . B a r th viveu em um momento em que a teologia havia se voltado para uma série de sis­ temas intelectuais e doutrinários com grande valor apologético, e que faziam com que o cristia­ nismo aparecesse como algo muito aceitável, mas diziam pouco sobre a vida e missão da Igreja. Especialm ente quando o nazism o começou a ganhar força, e muitos cristãos se deixaram levar por ele e começaram a pregá-lo desde o púlpito, e quando a maior parte da Igreja alemã se mostrou incapaz de resistir-lhe, B a r t h viu a necessidade de insistir na função da teologia como crítica da vida e proclamação da Igreja. A Igreja que pro­ clamava e sustentava as doutrinas nazistas de­ via submeter-se ã crítica da teologia, que lhe mostrava que não era fiel ao Evangelho que dizia proclamar.

Em nossos dias, essa função crítica da teolo­ gia continua sendo necessária. Por exemplo, quan­ do a Igreja e os cristãos parecem desinteressar- se dos pobres, ou quando parece dizer que tudo o que importa é o “êxito” que obtemos nessa vida, ou que a fé cristã leva á “prosperidade”, ou pare­ ce render-se diante das doutrinas da moda, a teologia tem de chamá-la a uma nova obediência ao Evangelho.

O ponto fraco da teologia, assim entendida, é que corre o perigo de tornar-se demasiadamen­ te eclesiocêntrica. Se a função da teologia está em criticar a vida e proclamação da Igreja, não tem nada o que dizer a quem não é parte dessa Igreja? Em suas piores manifestações, esse tipo de teologia se torna um diálogo entre teólogos

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O U se não entre cristãos, como se o restante do

mundo não existisse. Naturalm ente, em tais casos 0 que acontece é que temos esquecido de que o que a teologia tem de criticar é a procla­ mação da Igreja - quer dizer, seu encontro com

0 restante do mundo. Se a teologia não chama a Igreja a esse encontro, possivelmente ela mes­ ma necessita da mesma crítica que se supõe ser sua própria função.

e) A teologia como contemplação

Um modo de entender a função da teologia, que foi muito comum na antiguidade, mas que a modernidade parece ter esquecido, é a teologia como contemplação. Quando se dizia que alguém era “teólogo”, freqüentemente queria-se dizer o que hoje entendemos por “místico”. Por isso, desde da­ tas bem antigas, começou-se a chamar o autor do Apocalipse de “João o teólogo”. Por essa razão, o título de “teólogo” foi reservado, na antiguidade, para aqueles autores que se destacavam por seu espírito contemplativo.

O valor dessa ênfase na “contemplação” como parte essencial da teologia está em que neutrali­ za a tendência moderna de pensar que a teologia é uma disciplina como outra qualquer, e que para dedicar-se a ela basta estudá-la. Ao falar de teo­ logia como “contemplação”, sublinha-se o caráter devocional da teologia - de uma disciplina que, por assim dizer, não se tem de fazer somente sen­ tado em um escritório, mas também de joelhos

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■ ' ' - < . ^

- .diante de um altar. E por isso que, no século IV, Gregório Nazianzo, um dos primeiros autores a discutir o que é a teologia, disse que um dos pri­ meiros passos do teólogo deve ser “polir seu pró­ prio ser teológico até que brilhe como uma está­ tua”.

Por outro lado, o perigo desse modo de en­ tender a teologia, sobre tudo em nossos tempos tão individualistas, é que fiquemos presos pe­ las visões particulares. Em tal caso, basta que alguém diga que teve uma visão para que lhe seja dada autoridade teológica. Ainda que não reste dúvida do valor e da veracidade de certas visões, também é certo que através de toda sua história a Igreja tem-se visto na necessidade de se cuidar das supostas “visões” de indivídu­ os que pretendem ter revelações particulares, que no final contradizem boa parte do Evange­ lho. Possivelmente aqui, como em outros casos, seja bom recordar o que diremos posteriormen­ te sobre a relação da teologia e a comunidade da fé.

Resumindo, a teologia e sua função podem

ser entendidas de vários modos. A maioria deles não contradiz os outros, mas se complementam. Possivelmente, devido à situação em nossas Igre­ jas, deveríamos dar prioridade a teologia como

crítica da vida e da proclamação da igreja, ainda que dando lugar também a teologia como siste­ matização da doutrina, como ponte até os não crentes e como contemplação. O que tudo isso implica será visto no curso das páginas que se­ guem.

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i A teologia e a filosofia

Por toda uma série de razões, através da his- í.ória da Igreja, tem existido uma relação estreita s'ntre a teologia e a filosofia. Tanto é assim, que, ! 'm algumas tradições cristãs, exige-se o estudo da lilosofia como pré-requisito aos estudos teológico. 11^’ssa relação tradicional entre ambas disciplinas ;ie deve por varias razões: (1) O tema de estudo de -smbas parece ser o mesmo. Tanto a teologia como .iigumas escolas filosóficas tratam a respeito do , :entido da vida, dos valores éticos, das realidades ( iltimas etc. (2) Ambas parecem ser disciplinas re- hitivamente abstratas. (3) A filosofia parece ser l íiioia introdução ideal a teologia. Por outro lado, -xistem razões para pensar que a filosofia pode í var a teologia por caminhos errados e que, por­ i .mto, é melhor separar as duas disciplinas.

O modo pelo qual vemos a relação entre a filo- :;ofia e a teologia é, em si mesmo, uma questão i í ológica, pois depende de nossa teologia. Por isso, I través da história da Igreja, têm existido diver- :;:is posturas a respeito da filosofia e seu lugar na li í ologia, desde quem vê as duas disciplinas como

limigas até quem as vê como aliadas. ■ !') A oposição entre ambas às disciplinas

Existiram, na antiguidade - como existem hoje muitos que pensavam que a única coisa que a [ò;;ofia podia proporcionar para a vida da Igreja M('a o erro.

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O mais notável entre aqueles que sustentaram essa opinião foi Tertuliano, que viveu no norte da África, no fim do século II e principio do III. Ter­ tuliano estava preocupado com as muitas doutri­ nas que circulavam em seu tempo, particularmen­ te as dos gnósticos e as de Marcião, que contradiziam aspectos essenciais do Evangelho. Havia quem sustentasse que somente a realidade espiritual era boa e, portanto, Deus não era o criador do mundo físico. Havia quem negava a realidade do corpo físico de Jesus. Havia quem dizia que o amor de Deus era tal que Ele nunca julga nem castiga. Tertuliano estava convencido de que a origem de todos os erros estava na filosofia. Portanto, refe­ rindo-se a Atenas e a sua Academia como símbo­ los da filosofia, Tertuliano declarava: “O que tem a ver Atenas com Jerusalém? O que a Academia com a Igreja?”.

Em outras épocas, outros teólogos sustentaram posições semelhantes. No século XX, K a e l B a rth ,

quem já mencionamos, rejeitou o uso da filosofia na teologia. Isto foi devido em parte porque, nas gerações imediatamente anteriores vários pensa­ dores alemães haviam produzido sistemas nos quais a teologia e a filosofia se confundiam. E foi devido também porque, em vista de seu entendi­ mento da teologia e sua função, B a r th pensava que a teologia devia ser uma disciplina autôno­ ma, que em nada dependia da filosofia ou de qual­ quer outra disciplina.

b) A coincidência entre as duas disciplinas

Repetidamente, tem havido teólogos que têm insistido em que, visto que a verdade é uma, a

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filo-Sofia e a teologia, no final da contas, dizem o mes­

mo - ou quase o mesmo. Tipicamente, tais teólo­

gos tomam a filosofia do momento e tratam de mostrar que coincide com a fé cristã.

Tal foi, por exemplo, a postura de Orígenes no século III com respeito ao platonismo, a de Juão Escoto Erígena, no século IX, a respeito do neo­ platonismo, a de H e g e l e dos hegelianos no XIX,

e, no XX, a de R u d o l f B u ltm a n n com respeito ao existencialismo.

c) O escalonamento entre as duas disciplinas A terceira postura, que tem sido comum entre

os teólogos cristãos, coloca-se entre os dois extre­

mos que acabamos de ver. Esta terceira opção é a

de escalonar a filosofia e a teologia, de modo que a primeira parece servir de introdução a última.

C o m o exemplo de dois modos nos quais tal escalonamento se entende e justifica, podemos tomar a Justino Mártir e a Tomás de Aquino.

Justino Mártir foi o principal dos apologistas do século II. Em sua Apologia, impôs-se a tarefa de mostrar como e porque o cristianismo podia reclamar para si o melhor da filosofia antiga. Isso

fez com base na doutrina do “logos” ou “Verbo”. Os filósofos gregos explicavam que se a mente hu­ mana pode entender o universo, isso se deve por­ que há um principio comum de racionalidade, o

“logos”. Tudo quanto os humanos sabem, o sabem

p o r esse logos, que lhes inspira esse conhecimen­ to. Pois bem, visto que o Quarto Evangelho disse

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que em Jesus o logos ou Verbo de Deus se fez car­ ne, J u stin o argumenta que tudo quanto qualquer ser humano tem conhecido, tem-no conhecido por inspiração do mesmo Verbo que se encarnou em Jesus. Logo, os cristãos podem apropriar-se de tudo que os filósofos souberam, que não é senão revelação do mesmo logos ou Verbo. Mas, visto que os cristãos têm visto o Verbo encarnado, seu conhecimento é superior ao dos filósofos.

Esse uso da doutrina do logos ou Verbo tem sido freqüente entre teólogos de todas as épocas. Nos séculos quarto e quinto, Agostinho empregou a doutrina do Verbo para explicar todo conhecimen­ to humano. E século XIII, Boaventura escreveu um tratado sob o título de Cristo mestre único de todos no qual declara que “a luz da mente criada

[quer dizer, humana] não basta para entender coi­ sa alguma sem a luz do Verbo eterno”.

Tomás de Aquino viveu no século XIII, quando a filosofia aristotélica começava a abrir espaço na Europa Ocidental. Tomás insiste que a verda­ de é uma, e, que, portanto, o conhecimento adqui­ rido pela filosofia não pode contradizer ao da teo­ logia. Sua postura poderia se diagramar dizendo que a filosofia, por meio da razão, ascende até a verdade, enquanto que na teologia a verdade desce por meio da revelação. Isto quer dizer que a ver­ dade teológica é mais segura que a filosófica, e que, portanto quando ambas parecem se contra­ dizerem deve se concluir que a razão filosófica está errada. Mas também quer dizer que a filoso­ fia, porquanto procede da base da razão, produz um entendimento da verdade mais profundo que

0 da teologia. Tem certas verdades, como a dou­ trina da Trindade, que só pode ser conhecida pela

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revelação, e que, portanto são incumbências exclusivas da teologia. Têm outras que não são necessárias para a salvação, que, portanto não são reveladas. Mas há outras, como a existência de Deus, que ainda que possam ser conhecidas pela razão são necessárias para a salvação. Tais verdades Deus têm revelado, para que a salvação das pessoas não dependa de sua intehgência.

Em certa medida, o modo no qual concebemos a função da teologia determina o modo pelo qual concebemos sua relação com a filosofia. Se a teolo­ gia é antes de tudo a explicação da realidade, é fácil confundi-la com a filosofia, que é uma dessas explicações. Isso foi o que sucedeu, por exemplo, quando a filosofia de H e g e l pareceu ter desenvol­ vido um sistema que explicava toda a realidade, e os teólogos que a seguiram dificilmente consegui­ ram distinguir entre esse sistema e a teologia cris­ tã. Se a teologia é antes de tudo apologia, a filoso­ fia adquire importância especial, pois se torna a ponte para convencer os não-crentes da verdade da fé cristã. Se a teologia é antes de tudo crítica da vida e da proclamação da Igreja, a filosofia não é mais que um dos muitos elementos do mundo, no qual a Igreja vive e onde tem lugar sua procla­ mação.

3o A teologia e as ciências físicas e naturais

A partir do século XV, houve no mundo oci- «íental toda uma série de descobrimentos que revolucionaram o modo como se concebia o uni­

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verso. Já não era o Sol que girava em torno da Terra. O mundo já não se limitava a três partes, que antes haviam sido vistas como um reflexo da Trindade: Europa, Ásia e África. Agora, a enfer­ midade começou a ser entendida de um modo diferente com o descobrimento de micróbios, hor­ mônios e genes. Desde os espaços iiiteratôiDicos até os espaços interestelares, as ciências naturais - a zoologia, a biologia, a física, a astronomia etc. - abriram-nos os horizontes e revolucionaram o universo.

Isso provocou conflitos freoiüentes com a teolo­ gia, sobretudo com aquela teologia que via a si mesma como interpretação da realidade. Se, por exemplo, a teologia “sabe” que o Sol e todos os astros giram em torno da Terra, terá de opor-se às novas concepções astronômicas. Se “sabe” que as enfermidades se devem unicamente a demônios, não poderá aceitar a medicina moderna. Se “sabe” que Deus fez o mundo em exatamente seis dias, não poderá entender e nem aceitar os descobrimen­ tos da paleontologia.

Logo, o modo em que vemos a relação entre a teologia e as ciências naturais dependerá do modo em que vemos a função da teologia. Se for a descri­ ção da realidade, o conflito com as ciências natu­ rais será inevitável. Se for a sistematização da doutrina cristã, defesa da fé ou crítica da procla­ mação da Igreja, tal conflito será diferente ou não existirá.

É importante assinalar, contudo, que a teolo­ gia se interessa, com certeza, pelas realidades

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físicas que as ciências naturais estudam. Doutri­ nas tais como a criação, a encarnação e outras indicam que Deus se interessa pelo universo físi­ co e pelo corpo humano. Portanto a teologia tam­ bém há de se interessar por esse universo e de considerar o que as ciências físicas e naturais nos dizem sobre ele.

Uma frase tradicional que foi usada por muito tempo para expressar a relação entre a teologia e as demais disciplinas é: a teologia é a rainha das ciências. Isso se justificava afirmando que, visto que a teologia se ocupa de Deus, que reina sobre

0 universo, a teologia há de reinar sobre todas as ciências que se ocupam das criaturas. Natural­ mente, tal entendimento da teologia tem sido parte dos conflitos mencionados acima. Mas se recordarmos que Deus reina sobre as criaturas não como um tirano, mas como Deus de amor, e que seu reinado se manifesta sobretudo na cruz, temos de dizer que, se de fato a teologia tem algum reinado, o terá só, e unicamente, quando se colocar a serviço de todas as demais ciências.

4o A teologia e as ciências sociais e humanas Durante o século XIX e especialmente duran­ te o XX, desenvolveram-se várias disciplinas rela­ tivamente novas ou que, pelo menos, não haviam íilcançado antes a categoria de ciências. A antro­ pologia, a psicologia, a sociologia e a economia, por ^‘xemplo, ainda que tenham antecedentes em épo- ‘•as anteriores, têm adquirido força em tempos mais

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recentes. Isso, por sua vez, suscita a pergunta da relação entre tais disciplinas e a teologia.

Por algum tempo, pensou-se que tais discipli­ nas não eram de modo algum da incumbência da teologia. Depois disto, a teologia - semelliante à filosofia - trata sobre as verdades eternas, e as verdades dessas outras disciplinas são, no melhor dos casos, passageiras e superficiais.

Contudo essas disciplinas e seus estudos rela­ cionam-se com a teologia, pelo menos por duas razões:

a) A realidade humana interessa para a teologia Se a teologia se interessasse somente pela natureza de Deus, possivelmente poderia desen­ tender-se das ciências sociais. Mas se a teologia relaciona-se com a vida e com a proclamação da Igreja, e se essa tem que levar, afinal, sua procla­ mação em um contexto humano, essas ciências se tornam extremamente importantes. Para enten­ der o contexto no qual a Igreja vive e proclama a sua mensagem, assim como para entender a pró­ pria Igreja, as ciências sociais e humanas são imprescindíveis.

Ainda: em sua tarefa de julgar a proclamação e a vida da Igreja à luz do Evangelho, a teologia tem apontado, repetidamente, que a Igreja não pode se esquecer das dimensões humanas, econô­ micas e sociais da mensagem bíblica. Na Bíblia, por exemplo, ordena-se repetidas vezes, ao povo de Deus que se ocupe das pessoas desamparadas

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tais como as viúvas, os órfãos, os estrangeiros e os pobres (Êx 22.21-23; 23.9; Lv 19.9-10; 23.22; Dt 14.:29; 24.17-22; 27.19; Is 1.17; Jr 7.6; 22.3; Ez 22.7, 29; Zc 7.10; Ml 3.5; Me 12.40; Lc 20.47). Além dis­ so, isso não é unicamente uma questão de ética, mas também um reflexo do caráter do próprio Deus, que se ocupa dos desamparados (Dt 11.17-19; SI 10.14, 18; 68.5-6). O que tudo isso quer dizer é que, se a teologia há de chamar a Igreja para a obediência, tem que entender tudo quanto lhe seja possível sobre realidade humana da qual a Igreja participa e pela qual tem que responder.

b) As condições sociais e humanas afetam a teo­ logia

Um dos resultados do desenvolvimento de todas essas ciências é que hoje compreendemos muito mais que antes, a ponto de nossa perspecti­ va e condição afetarem o que vemos e como vemos. Por exemplo, graças à psicologia agora sabemos algo sobre o modo como as realidades do incons­ ciente e do subconsciente afetam a maneira em que pensamos e sentimos. A sociologia nos diz tam­ bém que o modo como vemos as coisas depende muito das nossas circunstâncias sociais.

O que tudo isso implica é que os teólogos não podem mais falar como se fossem espíritos desen­ carnados, mas devem considerar suas circunstân­ cias sociais, assim como as da Igreja e as da huma-

f'idade em geral. As ciências sociais e humanas iiios ajudam a alcançar essa compreensão.

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A modernidade caracteriza-se por sua ênfase na objetividade cientifica. Seu ideai é o experi­ mento no cientifico, não intervém senão para observar o que ocorre. Na pós-modemida/de, afir­ ma-se que esse mesmo cientificisaio, ao desenhar seu experimento e ao decidir o que liá de investi­ gar 6 o que não, está interviíido noresultado. Não tem tal coisa como um experimento totalmente

objetivo.

O que isso implica para a teologia é ope o teó­

logo também intervém no que vê e diz, e que essa intervenção rela.cioiia-se, grandemente, cora suas

circunstâncias sociais, culturais etc. Toda essa lei­ tura da Bíblia é, necessariamente, uma ÍEiterpre-

tação. O próprio texto bíblico é uma interpreta­ ção da experiência do autor e do povo de Deus. Se sua própria interpretação reflete as circuns­ tâncias do teólogo, 0 mínimo que esse pode fazer é conhecer e compreender essas circunstâncias. Além disso, visto que quem escute ou leia tam­ bém 0 fará a partir de suas próprias perspecti­ vas, 0 teólogo tem de compreender essas perspec­ tivas. Logo, precisamente a fim de ser o mais fiel que lhe for possível, o teólogo tem de avaliar o que as ciências sociais e humanas lhe dizem a respeito de si mesmo, da Igreja e da sociedade.

Falar de “perspectivas” não implica cair em um relativismo absoluto. Para entendermos isso, po­ demos pensar em uma paisagem. A paisagem está aí, é objetiva. Mas cada observador a vê de sua própria perspectiva. Quem pretende ver a pciisa- gem e descrevê-la sem perspectiva alguma, ou com uma perspectiva universaJ., engana a si mesmo f. engana aos demais. Isto quer dizer que a paisa­ gem não é real? Certamente não. O que se quex'

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dizer é que a paisagem apresenta-se sempre a par­ tir de um ponto de vista. De igual modo, a revela­ ção de Deus é real e firme; mas sempre a recebe­ mos e a interpretamos de onde estamos.

Em tal situação, para entender a paisagem o melhor possível, o que temos de fazer é comparti­ lhar nossas perspectivas e experiências com outros observadores. Isso se relaciona com o caráter comunitário da teologia, sobre o qual vol­ taremos mais adiante.

5. A teologia como conhecimento, discipli­

na e sabedoria

Sem dúvida, a teologia requer conhecimento. Ainda em seus níveis mais rudimentares, requer conhecimento da Bíblia, da Igreja e da realidade humana. Naturalmente, cada um destes conheci­ mentos pode ser aprofundado. Por exemplo, o conhecimento da Bíblia é aprofundado mediante o estudo dos idiomas em que ela foi escrita original­ mente para, assim, não ter de depender de tradu­ ções. Aprofunda-se também mediante o conheci­ mento da geografia das terras bíblicas, da história de Israel, dos costumes e tradições das culturas semíticas e greco-romanas etc. Também se apro­ funda mediante o conhecimento dos gêneros lite­ rários e das formas em que se produzia a literatu­ ra na antiguidade. O conhecimento da Igreja, ainda que seja parte da experiência de todo crente, pode também se aprofundar mediante o estudo da histó­ ria da Igreja, da sociologia da religião etc. O conhe­ cimento da sociedade, que também todos nós temos

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já que somos parte dela, aprofunda-se mediante as ciências sociais que acabamos de discutir. Essas ciências, além disso, nos ajudam a entender a pers­ pectiva a partir da qual lemos o texto - se, por exemplo, o lemos a partir de uma posição de poder ou de dependência.

Por todas essas razões, a teologia requer conhe­ cimento, mas não se limita a isso. E importante reforçar isso, porque a modernidade tem ressalta­ do tanto a importância do conhecimento que tem perdido de vista as outras dimensões da teologia como disciplina e como sabedoria.

A teologia é uma disciplina. Essa palavra é usa­ da em dois sentidos e ambos se aplicam à teologia. No primeiro sentido, uma “disciplina” é mn campo de investigação. Assim dizemos, por exemplo, que a geografia é uma disciplina ou que a matemática, é uma disciplina. A teologia é uma disciplina nes­ se sentido, pois é um campo de investigação com sua própria metodologia.

Mas a teologia é uma “disciplina” particular­ mente no segundo sentido. Nesse sentido, uma dis­ ciplina é um regime de vida a que nos submete­ mos para alcançar alguma meta. Tal é a disciplina de quem se prepara para competir nos jogos olím­ picos. Nesse sentido, a teologia é uma disciplina porque requer de quem se dedica a ela que se sub­ meta a uma disciplina. Essa vai mais além de um regime de estudo - ainda que certamente requeira tal regime. A teologia é todo um processo no qual quem pratica não somente busca entender e inter­ pretar as Escrituras e a doutrina cristã, mas que

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busca também que essas Escrituras e essa doutri­ na se formem. Não é então questão de meramente ler a Bíblia, por exemplo, como quem quer se in­ teirar de algo, mas é sobretudo questão de lê-la para que a Bíblia lhe dê forma a vida e ao pensa­ mento.

Isso é 0 que queremos dizer ao afirmar que a teologia é também uma forma de sabedoria. Tem uma enorme diferença entre o conhecimento e a sabedoria. O conhecimento nos diz como são as coisas; a sabedoria ensina como nos relacionamos com elas. Infelizmente, muitas vezes a teologia tem enfatizado tanto seu caráter de conhecimento que tem se esquecido de que, principalmente, tem de ser sabedoria.

É por isso que, por volta do fim da Idade Mé­ dia, Tomás de Kempis disse que “nas Escrituras, mais que argumentos sutis, temos que buscar nosso proveito”, e no século XVI o reformador

U lr i c h Zuínglio disse que “saberás que Deus está atuando dentro de ti quando ver que sua Pala­ vra te renova e que se torna mais preciosa do

que antes, quando somente escutavas doutrinas humanas”. O que esses dois autores e muitos ou­ tros querem dizer é que o que se deve de buscar nas Escrituras e, portanto, na teologia, mais que conhecimento - os antigos diriam “ciência” - ou seja, sabedoria.

Gregório Nazianzo, quem já citamos, declara que a teologia não deve ser ocupação de qualquer um, mas somente de quem está verdadeiramente comprometido com ela e com o Deus da teologia.

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para quem “não faz dela um tema de agradável de conversa, como aqueles que fazem comentários depois das corridas, ou do teatro, ou de um con­ certo”. Pelo contrário, a teologia deve ser ocupa­ ção de quem “tem sido purificado no corpo e alma, ou pelo menos está sendo purificado”. Isso não quer dizer que a teologia está unicamente ao alcance de cristãos perfeitos, mas sim que ela não há de ser mero entretenimento intelectual, nem tarefa de quem não está convencido de que lhe vai nisso a própria vida. Com palavras que bem podiam se aplicar a muito do que hoje se chama teologia, Gregório continua: “Por que tanto dese­ jo e rivalidade em falar sem cessar? ... Por que temos nossas mãos atadas e armadas nossas lín­ guas? Não elogiamos a hospitalidade, nem o amor fraterno... nem nos surpreendemos com a gene­ rosidade dos pobres, nem com as vigílias notur­ nas, nem com as lágrimas de arrependimento... Hás de governar tua língua sem importa-lhe o preço? Não podes abortar teus insaciáveis discur­ sos?” Parte da sabedoria está em saber quando falar e quando calar - ou, como diremos mais adiante, em reconhecer os limites de nosso pró­ prio trabalho teológico.

6. A teologia e a comunidade da fé

Ainda que freqüentemente nos esqueçamos disso, a teologia é função da Igreja, e não unica­ mente de teólogos especializados ou de cristãos individualmente. A fé cristã se vive na comunida­ de dos crentes, a Igreja. De igual modo, a teologia há de ser feita no seio dessa comunidade.

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Naturalmente, quem se dedica ao assunto terá que separar momentos de solidão para o estudo, a reflexão e a escritura. Mas, ainda nesses momen­ tos de solidão, deverá considera-se parte da comu­ nidade da fé. A teologia não é questão de fazer des­ cobrimentos individuais. Sua crítica da vida e proclamação da Igreja deve ser feita não de fora, mas de dentro, como parte da mesma comunida­ de, cuja fé e vida são colocadas sob o juízo da pala­ vra de Deus.

Certamente, aqueles que se dedicam ao estu­ do da teologia encontrarão pontos nos quais é ne­ cessário fazer um chamado para a reforma da vida 0 proclamação da Igreja. Mas esse chamado só tem valor quando não se faz individualmente, mas sim quando encontra eco na fé da própria Igreja - ou, ao menos, em uma parte dela.

E importante sublinhar isso, porque o indivi­ dualismo dos tempos modernos freqüentemente nos faz imaginar que os grandes teólogos são aque­ les que se opõem a toda a Igreja, como heróis soli­ tários. Mas o certo é que os grandes teólogos têm sido aqueles cuja obra tem encontrado eco na fé e na vida da Igreja.

Um dos casos mais típico é o modo como ima­ ginamos Lutero e sua obra. E certo que, no deba­ te de Leipzig, acusado por seus inimigos que cita­ vam a autoridade do Concilio de Constança, Lutero declarou que um cristão, com sua Bíblia, tem mais autoridade que todos os concílios, e que na Dieta de Worms enfrentou o imperador e as

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autoridades imperiais com seu famoso “Estou na

rocha”. Mas isso não quer dizer que fosse o herói

solitário que temos imaginado. O que Lutero que­ ria dizer em Leipzig era qtie a autoridade da Bíblia é tal, que quem a tenha de sua parte tem mais autoridade que qualquer concílio - não por estar só, rnas por estar com a Bíblia. O próprio Lutero opôs-se tenazmente ao “falsos profetas” que logo surgiram, cada um com sua própria idéia sobre o que a Bíblia falava. E o que lhe deu forças

para continuar com sua doutrina da justificação pela fé foi o fato dessa doutrina encontrar eco eni

boa parte da comunidade da fé, que a reconheceu como bíblica.

Da mesma forma que Lutero, Calvino e os de­ mais reformadores insistiram sempre no caráter comunitário da fé cristã e, portanto, no caráter comunitário da teologia. Tanto Calvino como Lutero foram estudiosos assíduos da tradição cris­ tã, e não se apartaram dela a não ser quando seus estudos da Bíblia o fizeram indispensável. Mais tarde, o mesmo pode ser dito de João Wesley, que declarou que “não há santidade que não seja social”. O que Wesley queria dizer com isso é que a vida cristã é vida em comunidade. De igual modo, a verdadeira teologia cristã é teologia em comunidade.

Por outro lado, esse fato de que se faz teologia dentro da comunidade da Igreja pode ser levado a tal ponto que a teologia perca sua liberdade e, deste modo, sua função crítica. Se a teologia não pode dizer senão o que a Igreja já disse, não tem

0 porquê dizê-lo. Tal teologia pode ter uma fun­ ção apologética, como apresentação da a quem está fora da comunidade; mas não pode ter uma

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função crítica diante da vida e da proclamação da Igreja.

Um acontecimento extremo sobre isso nós vemos na tendência de prestar tal autoridade à tradição e aos ensinamentos da Igreja, que a teo­ logia não pode senão repetir o que sempre se tem dito, não podendo usar as escrituras para corri­ gir a Igreja. Já no século V, Vicente de Lerins declarou que somente há de se crer ou ensinar o que tem sido crido “sempre, em todas as partes, e por todos” - (quod ubique, quod semper, quod ah omnibus creditum est). Além do fato de que bem pouco tem sido crido tão universalmente, essa for­ mula limita a teologia à repetição do passado, sacraliza o que a Igreja declara ser sua tradição, e, assim, torna-se muito difícil a crítica da vida e da proclamação da Igreja à luz do Evangelho.

Algo parecido declarou, no século XVI, o Con­ cilio de Trento em seu esforço para refutar a insistência do protestantismo na autoridade das Escrituras.

Mas não é só entre católicos que encontramos essa atitude. Também em alguns círculos protes­ tantes, ainda que se insista na autoridade das Escrituras, somente se admite um modo de inter­ pretá-las, e quem discorda um pouco de tal inter­ pretação se torna persona non grata. Em tal caso, ainda sem perceber isso, temos caído em posição muito semelhante ã de Vicente de Lerins - ainda que sem a amplitude e a universalidade desse último.

Resumindo: no trabalho teológico, a relação entre o indivíduo e a comunidade é dialética ou circular: O indivíduo oferece um juízo sobre a pro­

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clamação e a vida da Igreja, com base na sua leitura do Evangelho, mas sempre como membro e partí­ cipe dessa mesma comunidade da fé. A comunida­ de reconhece a justiça ou falta de justiça do que se diz. Com base nesse reconhecimento, o sujeito con­ tinua ou corrige o que diz e pensa. E o círculo con­ tinua...

De certo modo, depois de todos os velhos deba­ tes sobre a Escritura e a tradição entre católicos e protestantes, temos de dizer que também a rela­ ção entre Escritura e tradição é dialética ou circu­ lar. Certamente, o evangelho deu origem a Igre­ ja. Então, foi a Igreja que reconheceu o evangelho

nos livros que hoje formam o Novo Testamento e, portanto, os incluiu nesse cânon como sua regra de fé e prática. Mas essas Escrituras são interpre­ tadas a partir de uma tradição. E assim o circulo continua...

7. Os limites da teologia

Nas páginas anteriores, assinalamos alguns dos perigos de certos modos de entender ou de fazer a teologia. Não obstante o mais grave de todos os perigos do qual a teologia se aproxima é o de não reconhecer seus próprios limites. Vejamos alguns.

a) Teologia e contexto

O modo mais freqüente pelo qual a teologia se ultrapassar seus próprios limites é esquecendo-se

Referências

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