Ainda que a pessoa de Cristo tenha ocupado o centro da atenção nos debates cristológicos, 0 certo é que a obra de Cristo é pelo menos tão im portante como sua pessoa. De fato, se a pessoa de Jesus Cristo nos interessa, isso acontece porque é nosso Salvador. Como diria Melanchthon, o amigo e sucessor de Lutero, “reconhecer os benefícios de Cristo é conhecer a Cristo” - e, conseqüentemente, o contrário também é certo, não conhecer os benefí cios de Cristo, não o ter por Salvador, é não conhe cê-lo, por mais que saibamos a respeito de sua pes soa e das diversas teorias a respeito dele.
Desde os inícios do próprio cristianismo, os crentes têm declarado que Jesus Cristo é o Senhor e Salvador, e têm diversas imagens e metáforas para explicar como isso é. Essas imagens são o que os teólogos chamam “teorias da redenção”, ou seja, modos de entender a obra salvadora de Jesus Cris to. Vejamos algumas delas.
a) Jesus Cristo como pagamento pelo pecado De todas as teorias ou imagens que temos de estudar aqui, está é a mais conhecida, ainda que não seja a única nem tampouco a mais antiga. Segundo essa teoria, Jesus Cristo veio para pagar por nossos pecados, e sua morte na cruz é, com efeito, 0 pagamento por esses pecados. Por razões óbvias, esta postura recebe, às vezes, o nome de “teoria jurídica da expiação”. Outras vezes, para contras tá-la com a segunda teoria que exporemos, lhe é dado o nome de “objetiva”, e diz-se que aquela outra é “subjetiva”. Ainda que haja autores que des crevam as obras de Cristo em termos jurídicos e de pagamento pelos pecados, suas formulações clássi cas vêm de Anselmo de Cantuária, no século XII.
Anselmo expôs sua teoria da expiação em um livro famoso intitulado “Por que Deus se fez hu mano'? Segundo Anselmo, o pecado constitui uma injúria contra Deus e, portanto, quem peca fica em débito com Deus por causa dessa injúria. Na sociedade feudal em que Anselmo vivia, quando se cometia uma injúria ou um insulto contra alguém, pensava-se que era necessário reparar o dano honrando a pessoa injuriada com honras opostas a própria injúria. Em tais casos, o mon tante da injúria media-se segundo a dignidade do ofendido, enquanto que o montante de honra se media segundo a dignidade de quem o ofere cia. Assim, por exemplo, uma leve injúria contra um monarca é uma falta muito grave; mas se um plebeu quer honrar a esse mesmo monarca, isso
lhe será muito difícil, pois a honra que o plebeu oferece é medida em termos de sua própria posi ção social, e não da do rei. Se então o pecado im plica em uma dívida por parte do pecador huma no que injuriou o Deus infinito, essa dívida é impagável, pois a injúria é infinita, e o humano não 0 é.
É sobre essa base que Anselmo explica por que Deus se fez humano. O pecado, como dívida hu mana, teria que ser pago por um humano. Como dívida contra o Deus infinito, requeria um paga mento infinito. Logo, a única maneira de conse guir um pagamento adequado para a dívida con traída foi a de 0 próprio Deus tornar-se humano, de modo que o pagamento ou “satisfação” para com a dívida fosse, ao mesmo tempo, humano e infinito.
Esse modo de entender a obra de Cristo, que é 0 mais comum tanto entre protestantes como entre católicos, apresenta algumas vantagens e algumas desvantagens. Do lado positivo, nos dá um sentido claro da grandeza do nosso pecado, que foi tal que o próprio Deus teve de sofrer por ele. O pecado acarreta dor ao próprio Deus, e não é algo que podemos ignorar somente pedindo per dão, ou que podemos desfazer com boas intenções ou ações.
Por outro lado, o aspecto negativo, esse modo de entender a obra de Cristo nos apresenta um Deus justiceiro e até vingativo, cuja dignidade é tal que toda ofensa tem de ser paga até a última gota de sangue. Em alguns casos, isso chega ao
extremo que há crentes que imaginam Deus Pai como justiceiro e austero, enquanto Deus Filho, que se dá na cruz, é amoroso e perdoador. Não é preciso dizer que isso tem conseqüências funestas para a fé cristã.
Além disso, essa interpretação da obra de Cris to se centra de tal modo na cruz, que o resto da vida de Jesus não parecer ter maior importância. Assim, por exemplo, a encarnação não é senão o modo pelo qual Deus se faz capaz de pagar o preço pago na cruz. E a ressurreição não é senão o triun fo final, o “aspecto bom”, que Deus pronuncia sobre Jesus. A ressurreição, ainda que confirme o valor do que foi feito na cruz, não é parte da obra salvadora de Jesus Cristo.
Uma antiga variante desse modo de ver a obra de Cristo, como pagamento pelo pecado, afirma que na cruz Cristo nos comprou, sim; mas não da dívi da contraída com D eus, mas do poder de Satanás. Segundo essa visão - que já aparece em alguns dos mais antigos autores cristãos - o peca do fez com que a humanidade fosse escrava de Sa tanás, que não estava disposto a conceder-lhe a liberdade a não ser por um alto preço. Esse foi o preço pago por Jesus na cruz. Tal opinião tem a vantagem de que não é Deus, mas Satanás quem requer o sacrifício de Jesus, e, portanto não ten de a estabelecer um contraste entre o Pai e o Filho no que se refere ao seu amor pela humanidade.
Em certos elementos da tradição cristã, sobre tudo durante a Idade Média, a visão de Deus como justiceiro e vingativo se estendeu não só ao Pai,
mas também ao Filho. Em tais casos, começou-se a recorrer a intercessão da Virgem Maria como pessoa amável e capaz de entender a condição humana.
b) Jesus Cristo como exemplo salvador
Outro modo de entender a obra salvadora de Jesus Cristo, que alguns têm proposto como alter nativa a postura anterior, é vê-lo como um grande exemplo que mediante seu amor e suas demons trações de misericórdia nos abre caminho até Deus. Segundo essa opinião, Cristo nos salva porque, vendo-o sofrer por nós, e vendo nele um amor tal que perdoa até aqueles que o crucificaram, nos convida e nos move a amar a Deus. Então, movi dos por esse amor, deixamos o pecado e seguimos uma vida justa e santa.
Às vezes, para distingui-la da interpretação anterior, lhe é dada o nome de “subjetiva”, e aque la 0 de “objetiva”. O primeiro que a propôs de modo adequado foi Abelardo, que viveu no século XII como Anselmo de Cantuária. Mais tarde, a partir do século XIX, foi a forma na qual a teologia libe ral entendeu normalmente a obra de Cristo - sobretudo o teólogo alemão Al b r e c h t Ri t s c h l, que
escreveu uma vasta obra na qual refutava a teo ria “objetiva” e propunha a alternativa de Cristo como exemplo salvador.
Essa doutrina tem a vantagem de não nos apre sentar Deus como um soberano cuja honra foi ferida
e que requer que lhe seja pago em sangue e sofri mento. Pelo contrário, segundo essa postura a ali enação entre Deus e os homens não é tanto da parte de Deus como da nossa parte. Somos nós que, por nossos pecados e talvez porque tememos a Deus indevidamente, nos afastamos de Deus mais e mais. Além disso, essa doutrina sublinha a dimen são afetiva de nossos pecados e de nossa relação com Deus; enquanto a integração jurídica o reduz todo a dívidas e pagamentos, essa outra interpre tação o faz questão de amor e de ser atraídos de novo ao amor de Deus.
Contudo, também essa teoria tem os seus pon tos fracos. Um deles é que não parece considerar o verdadeiro poder e caráter do pecado. Como temos visto, o pecado não se reduz a uma série de ações más ou contrárias à vontade de Deus. O pecado é um estado, um modo de ser, e até uma escravidão. Para livrar-se do pecado, não basta querer livrar-se, tampouco basta que alguém nos dê um exemplo de amor e nos inspire a agir devi damente.
Outro ponto fraco dessa teoria é que, se a obra de Cristo consiste simplesmente em um bom exem plo, nada há que impeça que encontremos uma salvação semelhante em qualquer outro exemplo que possamos seguir - como o de alguma pessoa muito santa, um mártir, etc. Se isso é suficiente para a nossa salvação, que necessidade há da encarnação de Deus em Jesus Cristo?
Por último, igual ao caso anterior, esse modo de entender a obra de Cristo se concentra de tal
modo na cruz, que é difícil ver que papel ocupa a ressurreição. À parte da cruz, essa teoria pode ver algum valor no resto da vida e dos ensinamentos de Jesus, como sinal do caminho que temos de seguir. Mas é difícil ver a importância da ressur reição para nossa salvação, além de comprovar que esse Jesus, cujos sofrimentos nos inspiram, é ver dadeiramente Deus.
c) Jesus Cristo como vencedor
Essa interpretação da obra de Cristo, freqüen temente combinada com a próxima que havemos de estudar, é a que se encontra, com maior fre qüência, nos antigos escritores cristãos; mas é tam bém uma interpretação que tem sido esquecida ou relegada ao segundo plano.
Não foi senão no século XX, graças aos estu dos históricos do teólogo sueco G u s t a v A u l é n , Christus Victor - Cristo vencedor que esse ter ceiro modo de entender a obra de Cristo foi reco nhecido em toda sua importância. A u l é n argu
menta, com razão, que essa teoria é tão “objetiva” como a jurídica. Freqüentemente, a une a quarta teoria que discutiremos aqui, visto que é assim que aparece na teologia cristã antiga - sobretudo na obra do teólogo do segundo século, Irineu d e L y o n . Se aqui temos separado essas duas, é para
reforçar suas ênfases distintas.
Segundo essa maneira de entender a obra de Cristo, o que o Salvador fez por nós foi derrotar
Satanás, que de outro modo nos teria subjugado e escravizado. No pecado original, e em todo o resto de seu pecado, a humanidade tem sido feita serva de Satanás, que não lhe permite agir como Deus deseja nem chegar a ser o que Deus quer. É em resposta a isso que Deus se encarna em Jesus Cris to, e como ser humano enfrenta os poderes de Satanás, dos quais se torna vencedor. Como ven cedor de Satanás, Jesus nos livra do pecado e de sua escravidão.
Da mesma forma que a teoria “jurídica”, essa interpretação tem o valor de levar muito a sério o pecado e seu poder. Mas, diferentemente daquela, não vê o problema humano em termos de uma dívi da que requer pagamento, mas sim em termos de uma escravidão que requer libertação e vitória so bre 0 opressor. O pecado não é algo que possamos nos livrar por nossos próprios meios, como parece implicar a teoria “subjetiva”, mas que requer a intervenção de Deus.
O outro ponto positivo em que essa posição ultrapassa as anteriores é que nela toda a vida de Jesus Cristo, desde sua encarnação até seu retor no em glória, tem importância para nossa salva ção. A encarnação é o momento no qual Deus, em Jesus Cristo, se introduz na humanidade que estava sujeita a Satanás, para aqui, entre nós, e por meio de cada passo em sua vida e cada uma de suas ações, ir vencendo Satanás. Isso é visto na história das tentações e também nos milagres de Jesus, que são como escaramuças contra os pode res do mal. Mas é visto, sobretudo, nos três dias
que vão da cruz até a ressurreição. Na crucifica ção, Satanás liberou toda a sua força e no momen to até pareceu vencedor. Mas a ressurreição é a vitória de Jesus Cristo, a partir da qual o poder de Satanás fica rompido. Isso nos permite ter agora vida nova até o dia da vitória final, com o retorno de Jesus Cristo.
É dentro do contexto dessa teoria que a igreja antiga interpretava a descida de Jesus ao infer no, no tempo entre sua morte e ressurreição. Efé sios diz que Jesus “havia descido primeiro as par tes mais baixas da terra”, e que por isso “levou cativo 0 cativeiro” (Ef 4.8-9) O que se entende então, dentro desse contexto, é que a crucificação foi 0 modo pelo qual Jesus se introduziu no cen tro do poder de Satanás, de onde surgiu vitorioso em sua ressurreição. Talvez, empregando uma metáfora moderna, poderíamos dizer que Sata nás acreditou ter Jesus em seu poder e o levou ao seu quartel general, onde o colocou no lugar mais seguro possível - “as partes mais baixas”, como diz Efésios. Mas, ao terceiro dia, Jesus manifes tou-se como uma bomba de tempo que explodiu com poder e se levantou dentre os mortos, com o qual não só ele se levantou, mas que, além disso, rompeu o poder de Satanás de ter sujeitado a humanidade.
A principal desvantagem dessa maneira de ver a obra de Cristo é que pode tornar-se difícil para nós, os modernos, acostumados como estamos a pensar em um mundo em que não há mais reali dades do que as que vemos, e a imaginarmos que o
mal não tem mais poder que o que nós decidimos conceder-lhe.
d) Jesus Cristo como cabeça de uma nova huma nidade
Esse quarto modo de entender a obra de Cris to o vê como 0 fundador de uma nova humanida de, de um novo corpo cuja cabeça é ele. Funda menta-se na visão que encontramos no Novo Testamento, segundo a qual Adão é a cabeça de uma humanidade caída, e Jesus é a cabeça de uma humanidade restaurada. Paulo declara que “assim como em Adão todos morrem, também em Cristo todos serão vivificados” (1 Co 15.22). Segundo essa visão, Jesus Cristo nos salva porque nos convida a unir-nos a ele e a seu corpo - a Igreja - como os membros se unem ou se enxertam ao corpo, ou os brotos a videira. Como o cabeça de uma nova huma nidade, Jesus Cristo é o começo de uma nova cria ção. Quem se une a ele participa dessa nova criação e de sua promessa. Além disso, esse novo corpo tem a força que não tinha o primeiro, pois enquanto Adão “foi feito alma vivente”, Jesus é “espírito que dá vida” (1 Co 15.45) - ou seja, que um tem que receber a vida, enquanto que o outro a dá.
Como dissem os anteriorm ente, na igreja antiga, em geral, essa visão da obra de Cristo aparece unida e misturada com a que acabamos de descrever - Cristo como vencedor de Satanás e do pecado. O modo como a vitória de Cristo se
faz efetiva para nós é, precisamente, que ele começou uma nova humanidade, e que nos unin do a ele e a essa nova humanidade somos parti cipantes de sua vitória sobre o pecado e sobre Satanás.
Isso pode ser visto nos escritos de Irineu de Lyon, que usa o termo recapitulatio para referir- se a obra de Cristo. Às vezes nos é difícil enten der isso, porque para nós hoje uma “recapitula ção” é um resumo, uma breve repetição do que foi dito ou escrito. Mas, etimologicamente, recapitu latio que dizer “re-encabeçamento” - em latim,
capt é “cabeça”. É uma palavra que se encontra no Novo Testamento, particularmente em Efésios 1.10, onde nos é dito que o mistério que Deus se havia proposto era “reunir todas as coisas em Cristo”. (A palavra grega que se emprega aqui para esse “reunir” é anakefalaiosis, que também inclui a raiz kefalé, “cabeça”). Logo, quando Iri- neu diz que Jesus Cristo “recapitulou” a humani dade, o que está dizendo é que ele lhe deu uma nova cabeça.
Quando, como no caso de Irineu, combinam-se as duas visões de Jesus Cristo como vencedor e como cabeça, isso implica que a vitória que a Cabeça alcançou será também - e até certo senti do já é - a vitória do corpo.
Da mesma forma que a imagem anterior de Cristo como vencedor, essa outra de Cristo como cabeça de uma nova humanidade tem a vantagem de que ela envolve toda a vida de Jesus Cristo. É precisamente fazendo-se humano que Jesus vem a ser um de nós, e pode, portanto encabeçar essa
nova humanidade. Através de toda a sua vida e especialmente de sua morte e ressurreição, Jesus desfaz o que foi feito por Adão.
Um valor adicional dessa visão é que sublinha a solidariedade da raça humana, tanto no pecado como na salvação. Se a velha humanidade é um corpo de pecado e perdição cuja cabeça é Adão, a nova é um corpo de santidade e salvação cuja cabeça é Jesus Cristo.
A principal dificuldade para entender a reden ção desse modo se encontra em nosso individualis mo moderno, que não nos permite entender como toda uma quantidade de pessoas individuais podem ser um só corpo com uma só cabeça, ou como a ressurreição e vitória dessa cabeça podem ser o começo da ressurreição e vitória de todo o corpo.
Resumindo: a obra redentora de Jesus Cris
to tem sido interpretada de diversas maneiras - das quais acabamos de esboçar as quatro princi pais. Nenhuma delas por si só consegue descrever tudo 0 que devemos a Cristo, ou tudo o que ele fez por nós. Cada uma delas sublinha algum elemen to importante e, portanto tem seu valor.
Vale a pena especificar que essas teorias não existem isoladamente do restante da teologia cris tã, mas que se relacionam com todos os outros aspectos da fé. Isso pode ser visto claramente no caso dos sacramentos (que estudarem os em outro capítulo). Em geral, quem sustenta a teo ria “jurídica” da redenção vê no batismo uma * lavagem dos pecados anteriores, ou até uma
espécie de remissão da dívida que havíamos con traído por esses pecados. A partir da mesma pers pectiva, a comunhão é vista como outro modo de alcançar esse perdão, quer seja mediante méri tos (como quando se pensa que a comunhão é o sacrifício repetido de Jesus Cristo) ou mediante o arrependimento (como em boa parte da tradição protestante mais recente). Quando se adota a teoria da visão “subjetiva” da redenção, tende-se a ver nos sacramentos símbolos ou advertências que nos levam de novo a reconhecer e ver o que Jesus Cristo fez por nós, e a responder em amor e arre pendimento. Quando se adota a visão de Jesus Cristo como vencedor do mal, e sobretudo quan do 0 vemos, também, como Cabeça de uma nova humanidade, o batismo é entendido como um ato de enxertar-nos nesse corpo, e na comunhão, e no culto em geral, como o meio pelo qual nos alimen tamos dele e permanecemos unidos a ele.