Cinema e história medieval: uma proposta de análise
Por: Rayane Araujo Lopes
Resumo: A apropriação de elementos medievais em diferentes recursos de indústrias culturais tem promovido discussões no campo teórico cultural e como essas representações estão sendo perpetuadas na sociedade. O presente trabalho constitui-se em analisar a apropriação desses elementos feitos pelo o cinema, a partir do mito arturiano, que foi retratado em diferentes versões pelas obras cinematográficas. Através da análise das obras Excalibur e Rei Arthur: A Lenda da Espada, duas adaptações do mito arturiano, pode-se fazer uma reflexão a partir da interpretação cinematográfica em um olhar mais contemporâneo sobre a época medieval.
Introdução
A obra cinematográfica, ao surgir no final do século XIX, traz uma reflexão importante acerca das relações sociais. No entanto somente a partir do século XX os historiadores passaram a considerá-la como um tipo de fonte histórico, refletindo sobre a relação existente entre a produção cinematográfica e a História e as suas diversas apropriações.
Ao se apropriar de elementos medievais, os filmes reproduzem muitas vezes um imaginário medieval que aproxima e desperta o interessa da sociedade contemporânea. Utilizando o conceito de desencantamento do mundo, de Max Weber, podemos compreender o interesse das pessoas em buscar elementos mágicos não presentes no mundo racional.
O mito arturiano foi uma das histórias que mais repercutiu nas produções audiovisuais, sendo uma fonte muito importante para o estudo da representação de elementos de um imaginário medieval na indústria cinematográfica.
O presente trabalho pretende estabelecer uma análise acerca da relação possível entre o cinema e a História e de como esse objeto cultural instiga o interesse das pessoas a partir de apropriações de uma determinada época, como a Idade Média. Ao refletir como isso é realizado pelas obras fílmicas, o filme do Rei Artur, por conter diversas adaptações, contribui para uma melhor análise sobre o uso que o cinema faz com relação aos conteúdos históricos medievais.
História e Cinema
O cinema passou a ter um grande papel na sociedade contemporânea, como meio de retratar elementos ligados as questões sociais. Também passou
a ser considerado pelos historiadores, a partir da Nova História Cultural, como uma fonte importante para pensadores que buscam entender as mentalidades e os aspectos que compõe as sociedades. Com a Escola dos Annales e a introdução dessa Nova História Cultural, há um interesse nos estudos ligados a esses novos objetos, que antes não era tratado pela história como fontes de pesquisa.
O estudo da relação entre o cinema e a história foi aprofundada por Marc Ferro, pioneiro nos estudos nesse campo. Ferro analisa a natureza do cinema e contribuir para que ela seja utilizada como um objeto de estudo. A partir do momento que o cinema se apropria de conteúdos históricos, segundo o historiador, é necessário analisar o conteúdo que é produzido pelas obras cinematográficas. [SHVARZMAN, 2013. p191].
No entanto, alguns cuidados são necessários ao se utilizar a obra fílmica como fonte de pesquisa. Segundo Pinsky, “as armadilhas de um documento audiovisual ou musical podem ser da mesma natureza das de um texto escrito”, o conteúdo audiovisual traz consigo a “ilusão de objetividade”, ou seja, é necessário que o historiador procure ir além do conteúdo que possui uma interpretação com muitas variáveis. [PINSKY, 2005. p240]
A obra fílmica ao retratar determinados acontecimentos históricos estimula o público em geral, a procurar saber mais sobre um determinado assunto. No entanto, essas obras muitas vezes não explicam com clareza sobre a realidade da época, o que faz com que os elementos históricos representados se tornem, por vezes, fantasiosos. Marc Ferro, em sua análise O filme: uma contra-análise da sociedade?”, ele fala sobre como as obras fílmicas apresentam esses feitos históricos e como isso é visto pelos historiadores. Ele entender que a linguagem do cinema se caracteriza por uma “interpretação incerta”, sendo, portanto, complicado para os estudiosos, lidarem com elas.
Ao abordar aspectos de uma sociedade, os filmes acabam reproduzindo o que Chartier vai chamar de representações. Segundo Chartier as práticas e
representações são noções que vão estar presentes nos objetos culturais. Assim o historiador cita que:
Tanto os objetos culturais seriam produzidos “entre práticas e representações”, como os sujeitos produtores e receptores da cultura circulariam entre estes dois pólos, que de certo modo corresponderiam respectivamente aos “modos de fazer” e aos “modos de ver”. [BARROS, 2003, p.157]
A obra fílmica constitui em si uma representação do que já ocorreu em um determinado tempo, e a partir disso passa a ser para o historiador um objeto de análise. Na obra aprendendo história, os autores Ferreira e Franco, discorrem que os filmes, ao abordar um conteúdo histórico, muitas vezes podem mesclar “realidade e ficção”, já que se tratam de uma manifestação artística marcada por uma livre interpretação e que acabam desconstruindo ou reafirmando memórias e, até mesmo, produzindo uma nova história. [FERREIRA, 2013, p.160]
Quando se trata de um determinado tempo na história, como a Idade Média, os filmes se apropriam de características e hábitos que eram existentes naquele tipo de vivencia. Representam bem os sentimentos envolvidos com a qual as pessoas se deparavam na maior parte do tempo, mas acabam errando em não explorar determinados fatos sobre muitas questões daquela época. É constante ver nos filmes uma insistência nas representações de uma “Idade Média Fantasiosa”, o que já havia sido muito difundido nos meios historiográficos, até que a historiografia do séc. XX mudou a perspectiva em relação a essa época. Dessa forma a visão de Idade Média passou a ser repensada por historiadores como George Duby e outros ligados à historiografia analítica.
O cinema faz parte de uma indústria cultural que, ao despertar o interesse das pessoas em produções que abordam o imaginário medieval, levanta questões sobre que noção possui o público em geral sobre o período medieval. Para entender o fascínio do espectador pelos elementos medievais, pode-se recorrer ao conceito de desencantamento do mundo, proposto por Weber. Essa
atração por uma época mais fantasiosa, em que há elementos místicos se deve segundo Weber há uma “desmagificação” do mundo, pois na mentalidade medieval, os seres mágicos faziam parte daquele mundo e nele interagiam com os seres humanos. O advento das novas religiões protestantes vai ser fundamental nesse processo de desencantamento, onde os elementos mágicos são esquecidos e a relação com elementos sobrenaturais, condenados. A racionalidade desse mundo contemporâneo vai se afastar desses seres mágicos e olhar seus elementos através da razão. É nesse sentido que a sociedade se aproxima dessa idéia de uma Idade Media fantasiosa, pois o mundo científico ao desprezar esses elementos mágicos, gera nos seres humanos em geral, um sentimento nostálgico por uma época que não é totalmente racional.
Mito Arturiano: uma analise das obras fílmicas.
A história do Rei Artur foi registrada em diversas narrativas. A literatura arturiana retrata o imaginário da sociedade medieval e repercute até hoje em diversas versões cinematográficas. É interessante analisar como a lenda de Artur perdura até hoje no imaginário social e principalmente a importância que alcança em relação à indústria cinematográfica.
O primeiro registro do mito arturiano, segundo Donnard foi realizado pelo autor Nennius na História Brittonum, que apresenta Artur como um “líder britânico”. Essa obra foi importante na construção da lenda e literatura sobre essa figura mítica. [DONNARD, 2009. p.3]
No entanto na obra Histórias dos Reis na Bretanha, realizado por Monmouth constitui o “primeiro relato de Artur como rei”. Em outras fontes há indícios de que Artur teria sido um guerreiro que contribuiu ao lado dos reis britânicos a impedir que os anglo-saxões invadissem o reino britânico. [Campbell, 2015, p.223]
Existem diversas interpretações sobre a história de Artur, histórias que foram ao longo da Idade Média sendo reproduzidas oralmente e posteriormente vieram a ser escrita, alcançando um papel importantíssimo na construção da cultura ocidental. Os romances arturianos correspondem a um período de 1150 até 1250, sendo de grande importância na historicidade da sociedade medieval. No cinema houve diversas adaptações em relação ao mito arturiano e é interessante compará-las como modo de observar as diferenças entre cada uma. Ao analisar dois filmes, como: Excalibur e a Lenda da Espada, que foram produzidas em épocas distintas, pode-se notar atribuições diferentes a cada filme e analisar como são incorporados aspectos atuais da mentalidade de cada tempo.
Excalibur:
A obra Excalibur, produzida por John Boorman durante o século XX, traz um enredo mais completo de todas as fases de Artur, desde a retirada da espada até durante o seu reinado, abordando a forma como essa figura mítica se transformou em um grande líder da Grã-Bretanha, e também mostrando, com evidencia, os cavalheiros como grandes heróis, uma visão já difundida no período medieval pela literatura cavalheiresca.
Merlin tem um grande destaque na obra, por ser um mago que vai conceder a excalibur ao Rei Uther que após sua morte enterra a espada em uma pedra, onde somente seu filho será capaz de retirar e assumir a partir desse instante seu trono. O reino que antes vivia em batalhas entre os senhores feudais, passa a se unificar com a ascensão de um novo rei.
Há uma cena em que Artur retira a espada da pedra, Merlin aparece e explica quem é seu verdadeiro pai. Os cavalheiros, no entanto, não aceitam de imediato e acusam Merlin de utilizar sua magia para que um bastardo, no caso Artur, conseguisse retirar a excalibur. A partir dessa cena podemos analisar o olhar que as pessoas tinham em relação ao mago naquela época. Os magos na Idade Média eram pessoas com vasta sabedoria e conhecimentos sobre
diversas áreas, no entanto não era bem vistos pela Igreja por serem herdeiros da “cultura pagã” germânica. A prática da magia e da feitiçaria era condenável segundo o imaginário cristão medieval.
Rei Arthur: A lenda da Espada
O filme mais recente sobre o mito arturiano é Rei Artur, produzido pelo diretor Guy Ritchie, aborda um ângulo interessante em relação ao mito. Logo no inicio, podem-se ver características marcantes sobre uma idéia fantasiosa, que fica claro com elementos míticos. No entanto, essa obra se distancia um pouco das outras que já foram realizadas, e isso se deve a uma interpretação mais livre em relação à lenda original.
É interessante observar que o filme, logo no inicio explora mais em relação à trajetória de Artur e o mistério envolvido com relação à espada e todo o passado ligado a ela. Essa produção, no entanto, modifica e constrói novas memórias, selecionando o que cabe ao seu momento de criação.
Na cena em que Artur retira a espada, diferente da versão do mito na obra Excalibur, o ambicioso Vortirgern irmão de Uther prende Artur para poder matá-lo e assumir o trono que tanto almeja, no entanto The Mage que é discípula de Merlin, é enviada para ajudar Artur a desvendar todos os mistérios de seu passado e assim conseguir conquistar o que lhe pertence por direito. Portanto, um dos pontos inovadores desta obra é o destaque que dá à figura da mulher. Na outras histórias o Mago Merlin é conhecido por ter acompanhado Artur até o ponto crucial de sua jornada, ou seja, a retirada da espada. Diferentemente das outras interpretações, ao invés do mago, a personagem The Mage enviada por Merlin, é encarregada de guiar Artur para que ele consiga traçar o seu destino.
JÁ QUE VOCÊ FALOU DOS CAVALEIROS NO PRIMEIRO FILME E DAS MULHERES NO SEGUNDO FILME, PENSE COMO AS MULHERES SÃO
RETRATADAS NO PRIMEIRO FILME E COMO OS CAVALEIROS SÃO RETRATADOS NO SEGUNDO FILME.
Conclusão
É possível refletir como o cinema vai abordar conteúdos históricos de uma determinada mentalidade, e as apropriações que vão ser feitas nessas expressões de arte. O filme como um produto cultural atrai as pessoas e acaba difundindo uma idéia que às vezes não condiz com a realidade da época. Essa reprodução de um imaginário medieval faz com que as pessoas tenham uma visão dessa época um tanto errônea.
E OS FATORES POSITIVOS DESSE CONTATO COM OS FILMES? SENTI FALTA DE QUE VOCÊ PENSASSE, NA SUA CONCLUSÃO, PORQUE O MITO DO REI ARTUR É TÃO IMPORTANTE PARA A SOCIEDADE OCIDENTAL A PONTO DE ELA VISITÁ-LO COM CONSTÂNCIA...LEIA O CAMPBELL.
Referências Bibliográficas
BARROS, José D’Assunção. História Cultural: um panorama teórico e historiográfico: Textos de História, 2003
FERRO, Marc. Cinema e História. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010
FERREIRA, Marieta de Moraes. Aprendendo História: Reflexão e ensino. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2013
PINSKY, Carla Bassanezi. Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005
SCHVARZMAN, Sheila. Marc Ferro, cinema, história e cinejornais: Histoire parallèle e a emergência do discurso do outro. Uberlândia: ArtCultura,2013 CAMPBELL, Joseph. As transformações do mito através do tempo. São Paulo: Cultrix,2015
DONNARD, Ana Maria. As fontes primárias para o estudo do mito arturiano: Breves considerações metodológicas sobre a Historia Brittonum. Uberlândia: Instituto de Letras e Lingüística ( ILEEL), 2009