Aula 8: Composic
¸˜
ao e inversas
1. Fun¸
c˜
oes inversas. Ra´ızes.
Uma fun¸c˜ao f : D → R diz-se injectiva se nunca tomar o mesmo valor duas vezes: Defini¸c˜ao 1: Dizemos que uma fun¸c˜ao f : D → R ´e injectiva num conjunto A ⊂ D se
x 6= y ⇒ f(x) 6= f(y) para quaisquer x, y ∈ A Se f for injectiva em D dizemos simplesmente que f ´e injectiva.
Naturalmente, qualquer fun¸c˜ao mon´otona ´e injectiva. Geometricamente, uma fun¸c˜ao ´e injectiva se qualquer linha horizontal n˜ao intersectar o gr´afico de f mais que uma vez.
Exemplo 1. A fun¸c˜ao f (x) = x2n˜ao ´e injectiva pois f (x) = f (−x). A fun¸c˜ao√x
´e injectiva pois ´e crescente. A fun¸c˜ao g(x) = mx + b ´e injectiva para m 6= 0. Exemplo 2. A fun¸c˜ao f (x) = 1
x ´e injectiva mas n˜ao ´e mon´otona.
Defini¸c˜ao 2: Dada uma fun¸c˜ao injectiva f : D → R com contradom´ınio f(D), chamamos inversa `a fun¸c˜ao f−1: f (D) → R que associa a cada y ∈ f(D) o ´unico
x ∈ D tal que f(x) = y.
Observac¸˜ao: ´E importante n˜ao confundir a fun¸c˜ao inversa de f , f−1(y), com o
inverso da fun¸c˜ao f , 1/f (x). S˜ao fun¸c˜oes completamente diferentes!
Exemplo 3. As tabelas seguintes representam uma fun¸c˜ao f : {0, 1, 2} → R injec-tiva com contradom´ınio f (D) = {2, 3, −5} e a sua inversa f−1: {2, 3, −5} → R:
x f (x) 0 2 1 3 2 -5 y f−1(y) 2 0 3 1 -5 2 x 1/f (x) 0 1/2 1 1/3 2 -1/5
As fun¸c˜oes est˜ao tamb´em representadas esquematicamente na figura 1.
2 3 −5 f−1 2 3 −5 2 1 0 2 1 0 f
Exemplo 4. A fun¸c˜ao f (x) = mx + b ´e injectiva para m 6= 0. f−1(y) ´e o ´unico
valor x tal que f (x) = y. Resolvendo
f (x) = mx + b = y
em ordem a x, obtemos x = y/m − b/m. Assim, f−1(y) = y/m − b/m.
Exemplo 5. A fun¸c˜ao f (x) = x2n˜ao ´e injectiva. No entanto f ´e injectiva no
inter-valo [ 0, +∞[ pois ´e crescente nesse interinter-valo. Para encontrar a inversa resolvemos a equa¸c˜ao y = x2obtendo x = ±√y. No intervalo [ 0, +∞[ x ´e positivo logo x =√y.
Assim, g(y) = √y ´e a inversa da restri¸c˜ao de f (x) = x2 ao intervalo [ 0, +∞[ .
f ´e tamb´em injectiva no intervalo ] − ∞, 0 ] pois ´e decrescente. Para encontrar a inversa resolvemos a equa¸c˜ao y = x2. Neste intervalo x ≤ 0 logo a inversa de f vai
ser a fun¸c˜ao h(y) = −√y.
Generalizando o exemplo 5 obtemos a no¸c˜ao de raiz ´ındice n. Para n ´ımpar, a fun¸c˜ao f (x) = xn ´e injectiva. Para n par, f (x) = xn n˜ao ´e injectiva, mas a sua
restri¸c˜ao ao intervalo [ 0, +∞[ ´e injectiva.
Defini¸c˜ao 3 (Ra´ız ´ındice n): Para n ´ımpar chamamos raiz ´ındice n `a fun¸c˜ao f−1(y) = √ny inversa de f (x) = xn:
y = xn⇔ x = √ny (n ´ımpar)
Para n par chamamos raiz ´ındice n `a fun¸c˜ao g(y) = √ny inversa da restri¸c˜ao de f
ao intervalo [ 0, +∞[ .
Para n ´ımpar, y = √nx ´e equivalente a x = yn. Em particular temos n
√
xn = x e √n
xn= x
Mas para n par ´e importante ter presente que √ny n˜ao ´e a inversa de xn:
x = 2k√ x ⇔ y = xn e x ≥ 0 y = x2k ⇔ x = 2k√x ou x = −2k√x e temos 2k√x2k = x mas 2k√x2k= |x|
Para n par, xn≥ 0 logo a equa¸c˜ao y = xn s´o tem solu¸c˜ao para y ≥ 0. Assim, para
n par, √ny s´o est´a definida quando y ≥ 0.
Os gr´aficos duma fun¸c˜ao f e da sua inversa f−1 est˜ao relacionados: O gr´afico
de f−1 ´e o conjunto dos pontos do plano da forma y, f−1(y). Pondo y = f (x)
obtemos
y, f−1(y)= f (x), x
Assim, os pontos do gr´afico de f−1 obt´em-se dos pontos do gr´afico de f
simples-mente trocando as suas coordenadas. Trocar as coordenadas dum ponto corres-ponde geometricamente `a reflex˜ao na recta y = x pelo que
Aula 8: Composi¸c˜ao e inversas 3
1 2
1 2
Figura 2. Gr´afico de f (x) = x2
para x ≥ 0 e da sua inversa f−1(x) =√x.
Exemplo 6. A fun¸c˜ao f (x) = 1
x tem a propriedade de ser igual `a sua inversa. J´a
t´ınhamos observado anteriormente que o seu gr´afico ´e sim´etrico em rela¸c˜ao `a recta
y = x.
As propriedades de f−1 est˜ao estritamente relacionadas com as propriedades de f :
Teorema 4: Seja f uma fun¸c˜ao injectiva, f−1 a sua inversa. Ent˜ao
(1) Df−1 = D′f e D′f−1= Df;
(2) f−1 ´e ´ımpar se e s´o se f for ´ımpar;
(3) f−1 ´e crescente/decrescente se e s´o se f for crescente/decrescente.
Demonstrac¸˜ao. Deixamos (3) como exerc´ıcio.
(1) Por defini¸c˜ao, o dom´ınio de f−1 ´e igual ao contradom´ınio de f . Por sua vez,
x est´a no contradom´ınio de f−1 quando a equa¸c˜ao x = f−1(y) tem solu¸c˜ao.
Esta equa¸c˜ao tem solu¸c˜ao y = f (x) precisamente quando x est´a no dom´ınio de f .
(2) Seja x ∈ Df, y = f (x). Ent˜ao x = f−1(y). Portanto
f (−x) = −f(x) ⇔ −x = f−1 − f(x)
⇔ −f−1(y) = f−1(−y)
portanto f−1 ´e ´ımpar se e s´o se f for ´ımpar.
Exemplo 7. √3x ´e a inversa de x3, cujo dom´ınio ´e R, logo o contradom´ınio de√3x
´e tamb´em R. x3´e ´ımpar e crescente logo √3x ´e tamb´em ´ımpar e crescente.
Exemplo 8. √a foi definida como a solu¸c˜ao positiva da equa¸c˜ao x2= a. Assim, a
est´a no dom´ınio da raiz quadrada se existir uma solu¸c˜ao positiva da equa¸c˜ao x2= a,
2. Composi¸
c˜
ao.
Dadas duas fun¸c˜oes f : Df → R e g : Dg→ R podemos produzir uma nova fun¸c˜ao
como se segue:
• Dado x ∈ Dg podemos calcular g(x).
• Se por sua vez g(x) estiver no dom´ınio de f podemos calcular f(g(x)). Chamamos a esta nova fun¸c˜ao a fun¸c˜ao composta e representamo-la por f ◦ g: Defini¸c˜ao 5 (Fun¸c˜ao composta): Dadas duas fun¸c˜oes f : Df → R e g : Dg →
R, a fun¸c˜ao composta (f ◦ g) ´e a fun¸c˜ao definida por (f ◦ g)(x) = f(g(x))
com dom´ınio o conjunto Df ◦g= {x ∈ R : x ∈ Dg e g(x) ∈ Df}.
´
E comum representar a composi¸c˜ao f ◦ g por
x−→ g(x)g −→ f g(x)f Exemplo 9. Consideremos as fun¸c˜oes
g(x) = 1
x − 1 e f (x) = √
x . Ent˜ao Dg= R \ {1} e Df = [ 0, +∞[.
• f ◦ g ´e dado por
(f ◦ g)(x) = f(g(x)) =»g(x) = …
1 x − 1 que podemos representar por
x−→g 1 x − 1 f −→ … 1 x − 1
O dom´ınio de f ◦ g ´e o conjunto dos pontos tais que x ∈ Dg e g(x) ∈ Df, ou
seja x 6= 1 e 1
x−1 ≥ 0. Portanto Df ◦g = ]1, +∞[ .
• g ◦ f ´e dado por
g ◦ f(x) = g(f(x)) = 1 f (x) − 1 =
1 √
x − 1 que podemos representar por
x−→f √x−→g √ 1 x − 1
O seu dom´ınio ´e o conjunto dos pontos tais que x ∈ Df e f (x) ∈ Dg, ou seja
x ≥ 0 e√x 6= 1. Portanto Dg◦f = [ 0, 1[ ∪ ]1, +∞[ .
Aula 8: Composi¸c˜ao e inversas 5
Exemplo 10. A fun¸c˜ao f (x) =√1 − x2´e a composi¸c˜ao das fun¸c˜oes
g(x) = 1 − x2 e h(u) =√u como podemos verificar:
h g(x)=»g(x) =p1 − x2
O dom´ınio de h ◦ g ´e o conjunto dos pontos x ∈ Dg tais que g(x) ∈ Dh. Como
Dg= R temos apenas a condi¸c˜ao g(x) = 1 − x2≥ 0. Portanto Dh◦g= [ −1, 1 ].
´
E ´util pensar na composi¸c˜ao de fun¸c˜oes f ◦ g como uma substitui¸c˜ao da vari´avel x por uma nova vari´avel u = g(x).
Exemplo 11. Voltemos `a fun¸c˜ao √1 − x2. Introduzindo uma nova vari´avel u =
1 − x2temos √1 − x2=√u.
Exemplo 12. Consideremos fun¸c˜ao
f (x) =1 + x √
x 1 +√4x
Introduzindo uma nova vari´avel u =√x vemos que 1 + x√x
1 +√4x =
1 + u3
1 +√u
Assim, f ´e a composi¸c˜ao das fun¸c˜oes g(x) =√x e h(u) = 1+1+u√3
u.
A introdu¸c˜ao duma nova vari´avel ´e frequentemente ´util na resolu¸c˜ao de problemas: Exemplo 13. Queremos achar os zeros de f (x) = x4− 3x2+ 2. Para isso
introdu-zimos a vari´avel u = x2. Ent˜ao
x4− 3x2+ 2 = u2− 3u + 2 (u = x2)
Podemos agora achar os zeros de u2− 3u + 2: obtemos u = 1, 2. Substituindo agora
u = x2 obtemos as equa¸c˜oes x2 = 1 e x2 = 2. x4− 3x2+ 2 tem portanto quatro
zeros: ±1, ±√2.
3. Exemplos de fun¸
c˜
oes
Polin´omios e fun¸c˜oes racionais s˜ao fun¸c˜oes que se podem construir usando apenas as opera¸c˜oes alg´ebricas elementares.
• Chamamos polin´omio a uma soma de fun¸c˜oes da forma f (x) = axn:
P (x) = a0+ a1x + · · · + anxn
• Chamamos fun¸c˜ao racional a um quociente de dois polin´omios P, Q: f (x) = P (x)
Um polin´omio de grau um ´e uma fun¸c˜ao da forma P (x) = mx + b com m 6= 0. O gr´afico de f ´e uma recta de declive m. |m| mede a inclina¸c˜ao da recta e o sinal de m diz-nos se a fun¸c˜ao ´e crescente ou decrescente. ´E importante recordar que o declive pode ser calculado do seguinte modo: Tomando quaisquer dois pontos x16= x2,
m = P (x2) − P (x1) x2− x1
Um polin´omio de grau dois ´e uma fun¸c˜ao da forma P (x) = ax2+ bx + c com
a 6= 0. O seu gr´afico ´e uma par´abola. O leitor pode verificar que qualquer fun¸c˜ao P (x) = ax2+ bx + c pode ser escrita na forma
P (x) = y0+ a(x − x0)2 com x0= −
b
2a e y0= c − b2
4a
A constante a controla a concavidade da par´abola, que ser´a tanto mais acentuada quanto maior o valor de |a|. O sinal de a diz-nos se a concavidade est´a voltada para cima ou para baixo.
x0
y0
Figura 3. Gr´afico da par´abola f (x) = y0+ a(x − x0)2
Repare que para y0 > 0 a fun¸c˜ao n˜ao tem zeros, para y0 = 0 tem um zero e para
y0< 0 tem dois zeros.
Podemos aproveitar para esbo¸car o gr´afico da fun¸c˜ao Uma das fun¸c˜oes racionais mais importantes ´e a hip´erbole f (x) = 1x:
• f ´e positiva para x > 0 e negativa para x < 0 • f ´e decrescente em ]0, +∞[ e em ] − ∞, 0[
• O gr´afico ´e sim´etrico em rela¸c˜ao `a origem pois f ´e ´ımpar
• O gr´afico ´e sim´etrico em rela¸c˜ao `a recta y = x pois se trocarmos as vari´aveis na equa¸c˜ao y = 1x obtemos a mesma equa¸c˜ao.
Aula 8: Composi¸c˜ao e inversas 7
x f (x) = 1
x
Figura 4. Gr´afico da fun¸c˜ao f (x) =1 x
Chamamos potˆencia a uma fun¸c˜ao da forma f (x) = xa. O exemplo mais simples
de potˆencia ´e um polin´omio da forma f (x) = xn, com n ∈ N. Para p, q ∈ N primos
entre si, temos
xpq =√qxp
o que inclui, para q = 1, o caso xp.
Dom´ınio: Para q par, xp/qs´o est´a definida para x ≥ 0. Para q ´ımpar, xp/q est´a
tamb´em definida para x < 0.
Paridade: Assumindo que q ´e ´ımpar temos • Para p par, xp/q ´e uma fun¸c˜ao par
• Para p ´ımpar, xp/q´e uma fun¸c˜ao ´ımpar
Monotonia: xp/q ´e crescente no intervalo [ 0, +∞[ . Para q ´ımpar, a paridade
implica que,
• Para p par, xp/q ´e decrescente em ] − ∞, 0 ]
• Para p ´ımpar, xp/q´e crescente em todo o seu dom´ınio.
Repare que no intervalo [ 0, +∞[ , as fun¸c˜oes xpq e x q
p s˜ao inversas uma da outra
pelo que os seus gr´aficos s˜ao sim´etricos em rela¸c˜ao `a recta y = x.
1
1 a =13
a = 3
Figura 5. Gr´aficos de xa (x ≥ 0) para a =1 3, 1 2, 2 3, 1, 3 2, 2, 3
Para a < 0, a fun¸c˜ao xa n˜ao est´a definida em x = 0. Para p, q ∈ N primos entre si
temos x−p/q = 1 q √ xp 1 1 a = −12 a = −2 Figura 6. Gr´aficos de xa (x > 0) para a = −1 2, − 2 3, −1, − 3 2, −2
Se uma fun¸c˜ao f puder ser escrita como uma combina¸c˜ao de polin´omios, fun¸c˜oes racionais e ra´ızes usando somas, produtos, quocientes e composi¸c˜ao, dizemos que f ´e uma fun¸c˜ao alg´ebrica.
Exemplo 14. O polin´omio
x3+ 3x + 2a
tem exactamente uma raiz x ∈ R. Essa raiz ´e dada pela fun¸c˜ao alg´ebrica x = f (a) = 3
»
−a +pa2+ 1 + 3
»
Aula 9: Fun¸c˜oes transcendentes 9
Aula 9: Func
¸˜
oes transcendentes
4. Fun¸
c˜
oes trigonom´
etricas e periodicidade
Antes de definirmos as fun¸c˜oes seno e coseno comecemos por recordar a sua des-cri¸c˜ao geom´etrica. Recorde que o c´ırculo trigonom´etrico C ´e a circunferˆencia de raio um centrada na origem:
C = {(x, y) ∈ R2: x2+ y2= 1}
A cada x ∈ R associamos um ponto Pxdo c´ırculo trigonom´etrico como se segue:
• Se x ≥ 0 partimos do ponto (1, 0) e percorremos uma distˆancia x ao longo do c´ırculo trigonom´etrico no sentido contr´ario ao dos ponteiros do rel´ogio. • Se x < 0 partimos do ponto (1, 0) e percorremos uma distˆancia |x| ao longo
do c´ırculo trigonom´etrico no sentido dos ponteiros do rel´ogio.
θ = 5π/2 θ = −π/2 θ = −3π
θ = π
Figura 7. A cada x ∈ R associamos um ponto no c´ırculo trigonom´etrico Ent˜ao cos x e sen x s˜ao as coordenadas do ponto Px: Px= (cos x, sen x).
Para definir rigorosamente as fun¸c˜oes seno e coseno come¸camos por notar que a x e a x + π correspondem pontos Px e Px+π do c´ırculo trigonom´etrico diametralmente
opostos. Portanto as suas coordenadas s˜ao sim´etricas pelo que deveremos ter cos(x + π) = − cos x e sen(x + π) = − sen x
Daqui segue facilmente que deveremos ter, para k ∈ Z,
cos(x + kπ) = (−1)kcos x e sen(x + kπ) = (−1)ksen x
Assim, uma vez conhecidos os valores do coseno no intervalo [ 0, π ], todos os outros valores ficam imediatamente determinados. Para definir o coseno em [ 0, π ] ´e mais simples observar que o coseno ´e injectivo neste intervalo e come¸car por definir a sua inversa, a que chamamos arco-coseno:
Defini¸c˜ao 6 (Arco-coseno): Chamamos arco-coseno `a fun¸c˜ao arccos : [ −1, 1 ] → Rem que arccos(x) ´e o comprimento do arco na metade superior do c´ırculo trigo-nom´etrico unindo o ponto A = (1, 0) ao ponto P = x,√1 − x2:
P
x
θ
A
Figura 8. A fun¸c˜ao arco-coseno A tabela seguinte mostra alguns dos valores do arco-coseno:
x −1 −√23 − √ 2 2 − 1 2 0 1 2 √ 2 2 √ 3 2 1 arccos x π 5π 6 3π 4 2π 3 π 2 π 3 π 4 π 6 0
Tabela 1. Alguns valores do arco-coseno Algumas propriedades do arco-coseno:
Teorema 7:
(1) O arco-coseno ´e decrescente. (2) arccos x + arccos(−x) = π. Demonstrac¸˜ao.
(1) Dados x1, x2 ∈ [ −1, 1 ], queremos mostrar que arccos x1 > arccos x2 sempre
que x1< x2. Come¸camos por tomar os pontos
A = (1, 0), P1= x1, » 1 − x2 1 e P2= x2, » 1 − x2 2
na metade superior do c´ırculo trigonom´etrico. Por defini¸c˜ao de arco-coseno, os comprimentos dos arcos AP1e AP2s˜ao
¯
AP1= arccos(x1) e AP¯2= arccos(x2)
Se x1< x2, o arco AP2 est´a contido no arco AP1 pelo que o seu comprimento
´e menor. Portanto
arccos(x2) = ¯AP2< ¯AP1= arccos(x1)
Concluimos que o arco-coseno ´e decrescente. (2) Come¸camos por tomar os pontos
A = (1, 0), P = x,p1 − x2, P
−= − x,
p
1 − x2 e B = (−1, 0)
na metade superior do c´ırculo trigonom´etrico. Ent˜ao ˜
Aula 9: Fun¸c˜oes transcendentes 11
Como o arco AB ´e a uni˜ao dos arcos AP e P B temos (i) ˜AB = ˜AP + ˜P B logo π = arccos(x) + ˜P B
Basta agora observar que os arcos P B e AP− s˜ao a reflex˜ao um do outro no
eixo dos yy pelo que tˆem o mesmo comprimento: (ii) ˜P B = ¯AP− = arccos(−x)
Substituindo (ii) em (i) obtemos π = arccos(x) + arccos(−x). Podemos agora facilmente definir coseno. O arco-coseno ´e decrescente logo ´e in-jectivo, e o seu contradom´ınio ´e o conjunto dos ˆangulos entre 0 e π. No intervalo [ 0, π ] o coseno ´e a fun¸c˜ao inversa do arccos:
x = cos φ ⇔ φ = arccos x (para ˆangulos φ ∈ [ 0, π ])
Para outros ˆangulos φ ∈ R, podemos escrever φ de maneira ´unica na forma φ = θ + kπ com θ ∈ [ 0, π[ e k ∈ Z: explicitamente
k = max{ m ∈ Z : mπ ≤ φ } e θ = φ − kπ Ent˜ao deveremos ter
cos φ = cos(θ + kπ) = (−1)kcos θ
e como θ ∈ [ 0, π[ , cos θ = arccos−1θ. Resumindo:
Defini¸c˜ao 8: Dado um ˆangulo φ ∈ R, escrevemos φ = θ + kπ com θ ∈ [ 0, π[ e k ∈ Z e definimos
cos φ = (−1)karccos−1θ
Observac¸˜ao: Qual o dom´ınio do coseno? cos φ est´a definido desde que θ esteja no dom´ınio de arccos−1, que ´e igual ao contradom´ınio do arccos. A nossa intui¸c˜ao
diz-nos (e est´a correcta neste caso) que o contradom´ınio do arco-coseno ´e todo o intervalo [0, π] e que portanto o coseno est´a definido para qualquer φ ∈ R, mas este ´e um resultado dif´ıcil de provar nesta altura.
Procedemos agora de modo an´alogo para definir seno. No intervalo−π2, π 2
o seno ´e injectivo pelo que podemos come¸car por definir a inversa a que chamamos arco-seno. Os outros valores do seno ficam ent˜ao determinados pela f´ormula sen(θ+kπ) = (−1)ksen θ.
Defini¸c˜ao 9: Chamamos “arco-seno” `a fun¸c˜ao arcsen : [ −1, 1 ] → R em que arcsen y ´e o comprimento do arco na metade direita do circulo trigonom´etrico unindo os pontos A = (1, 0) e Q = p1 − y2, y, afectada dum sinal alg´ebrico
negativo se y < 0:
arcsen(y) =
®˜
AQ se y ≥ 0
y Q + A θ y Q − A θ
Figura 9. A fun¸c˜ao arco-seno A tabela seguinte mostra alguns dos valores do arco-seno:
x −1 −√23 − √ 2 2 − 1 2 0 1 2 √ 2 2 √ 3 2 1 arcsen x −π 2 − π 3 − π 4 − π 6 0 π 6 π 4 π 3 π 2
Tabela 2. Alguns valores do arco-seno Teorema 10:
(1) O arco-seno ´e uma fun¸c˜ao ´ımpar. (2) A fun¸c˜ao arcsen ´e crescente. (3) arcsen x + arccos x = π
2. Demonstrac¸˜ao.
(1) Dado y ∈ [ 0, 1 ] tomamos os pontos
A = (1, 0), Q = p1 − y2, y e Q −=
p
1 − y2, −y
Ent˜ao por defini¸c˜ao de arco-seno,
arcsen y = ˜AQ e arcsen(−y) = −˘AQ−
Basta agora observar que o arco AQ−´e a reflex˜ao no eixo dos xx do arco AQ
portanto os dois arcos tˆem o mesmo comprimento: arcsen(−y) = −˘AQ−= −˜AQ = − arcsen y
(2) No intervalo [ 0, 1 ] o arco-seno ´e crescente. A demonstra¸c˜ao ´e completamente an´aloga `a que fizemos para o arco-coseno e fica como exerc´ıcio. Como arcsen ´e tamb´em positivo em [ 0, 1 ] e ´e ´ımpar, arcsen ´e uma fun¸c˜ao crescente em todo o seu dom´ınio.
(3) Primeiro consideramos o caso em que x ∈ [ 0, 1 ]. Come¸camos por tomar os pontos
Aula 9: Fun¸c˜oes transcendentes 13
na metade superior do c´ırculo trigonom´etrico. Ent˜ao os arcos AP e QB tˆem o mesmo comprimento pois s˜ao a reflex˜ao um do outro na recta y = x. Por defini¸c˜ao de arco-seno e arco-coseno temos
arccos x = ˜AP e arcsen x = ˜AQ = ˜P B
O arco AB ´e a uni˜ao do arco AP com o arco P B. O seu comprimento ´e π/2 logo
π 2 = ˜AB
= ˜AP + ˜P B
= arccos x + arcsen x
como quer´ıamos demonstrar. Falta ver o caso em que x ∈ [ −1, 0 ]. Ent˜ao −x ∈ [ 0, 1 ] logo j´a prov´amos que
(i) arcsen(−x) + arccos(−x) =π2
Agora arcsen(−x) = − arcsen x e arccos(−x) = π − arccos x como vimos no teorema 7. Substituindo em (i) obtemos
(− arcsen x) + (π − arccos x) = π 2
de onde se deduz facilmente que arcsen x + arccos x = π2. Podemos agora facilmente definir seno. O arco-seno ´e crescente logo ´e injectivo, e o seu contradom´ınio ´e o conjunto dos ˆangulos entre −π/2 e π/2. No intervalo [ −π/2, π/2 ] o seno ´e a fun¸c˜ao inversa do arccos:
x = sen φ ⇔ φ = arcsen x para ˆangulos φ ∈ [ −π/2, π/2 ]
Os outros valores do seno s˜ao completamente determinados pela equa¸c˜ao sen(θ + kπ) = (−1)ksen θ:
Defini¸c˜ao 11: Dado um ˆangulo φ ∈ R, podemos escrever φ de maneira ´unica na forma φ = θ + kπ com θ um ˆangulo em −π
2, π 2 e k ∈ Z. Definimos sen φ = (−1)karcsen−1θ
Observac¸˜ao: A mesma observa¸c˜ao que fizemos sobre o dom´ınio do coseno tamb´em se aplica aqui: o dom´ınio do seno ´e R mas para o provar precisamos primeiro de mostrar que o contradom´ınio do arco-seno ´e [ −π/2, π/2 ].
Algumas propriedades do seno e do coseno: Teorema 12:
(1) O arco-seno ´e a inversa da restri¸c˜ao do seno ao intervalo −π 2,
π 2
e o arco-coseno ´e a inversa da restri¸c˜ao do arco-coseno ao intervalo [ 0, π ].
(2) sen(φ + kπ) = (−1)ksen φ e cos(φ + kπ) = (−1)kcos φ.
(3) O seno ´e ´ımpar e o coseno ´e par. (4) sen2φ + cos2φ = 1.
Demonstrac¸˜ao. Provaremos (1) e (2) apenas para o coseno pois a demonstra¸c˜ao para o seno ´e completamente an´aloga.
(1) Basta provar para φ = π pois para φ ∈ [ 0, π[ , cos φ = arccos−1φ por defini¸c˜ao.
Para φ = π, queremos mostrar que
cos π = arccos−1(π) = −1
Para tal escrevemos π na forma π = θ + kπ. Ent˜ao θ = 0 e k = 1 logo cos π = (−1)karccos−1(θ)
= − arccos−1(0) = −1
(2) Dado φ ∈ R come¸camos por escrever φ = θ + nπ com θ ∈ [ 0, π[ e n ∈ Z. Ent˜ao φ + kπ = θ + (k + n)π logo, por defini¸c˜ao de coseno,
cos φ = (−1)narccos−1θ
cos(φ + kπ) = (−1)n+karccos−1θ
donde sai de imediato que cos(φ + kπ) = (−1)kcos φ.
(3) Como arcsen ´e ´ımpar, a sua inversa tamb´em ´e ´ımpar. Assim, por (1), o seno ´e ´ımpar no intervalo − π2,
π 2
. Dado φ ∈ R escrevemos φ = θ + kπ com θ ∈ −π 2, π 2 . Ent˜ao sen(−φ) = sen(−θ − kπ) = (−1)ksen(−θ) por (2)
= −(−1)ksen θ pois o seno ´e ´ımpar em −π 2, π 2 = − sen(θ + kπ) por (2) = − sen φ
portanto o seno ´e ´ımpar em todo o seu dom´ınio.
Vamos agora ver que o coseno ´e par. Dado φ ∈ R escrevemos φ = θ + kπ com θ ∈ [ 0, π[ . Ent˜ao −φ = π − θ − (k + 1)π logo, usando (2),
cos φ = (−1)kcos θ e cos(−φ) = (−1)k+1cos(π − θ)
Para mostrar que cos φ = cos(−φ) basta portanto verificar que cos(π − θ) = − cos θ para θ ∈ [ 0, π[ . Como π − θ ∈ [ 0, π ], usando (1) temos
cos(π − θ) = − cos θ ⇐⇒ π − θ = arccos(− cos θ) Pondo x = cos θ obtemos
π − arccos x = arccos(−x) que ´e o que nos diz o teorema 7.
(4) Seja x ∈ [ 0, 1 ]. Por defini¸c˜ao de arco-coseno e de arco-seno, o comprimento do arco unindo (1, 0) a (x,√1 − x2) ´e igual a arccos x mas ´e tamb´em igual a
arcsen√1 − x2, logo
Aula 9: Fun¸c˜oes transcendentes 15
Seja θ = arccos x = arcsen√1 − x2. Ent˜ao
x = cos θ e p1 − x2= sen θ
o que mostra que cos2θ + sen2θ = 1 no intervalo0,π
2]. Como cos
2θ + sen2θ
´e uma fun¸c˜ao par, esta igualdade permanece v´alida em−π2, π 2 . Dado φ ∈ R escrevemos φ = θ + kπ com θ ∈ −π2, π 2
. Ent˜ao, usando a al´ınea (2), cos2φ + sen2φ = cos2(θ + kπ) + sen2(θ + kπ)
= (−1)kcos θ2+ (−1)ksen θ2
= cos2θ + sen2θ = 1
Para k ∈ Z,
sen(θ + 2kπ) = (−1)2ksen θ = sen θ e cos(θ + 2kπ) = (−1)2kcos θ = cos θ Estas igualdades tˆem uma interpreta¸c˜ao geom´etrica simples: aos ˆangulos θ e θ + 2π corresponde o mesmo ponto P sobre o c´ırculo trigonom´etrico.
Defini¸c˜ao 13: Dizemos que uma fun¸c˜ao f : D → R ´e uma fun¸c˜ao peri´odica de per´ıodop se para qualquer elemento x do dom´ınio, x±p tamb´em estiver no dom´ınio e f (x ± p) = f(x).
As fun¸c˜oes seno e coseno s˜ao exemplos de fun¸c˜oes de per´ıodo 2π. Outra fun¸c˜ao peri´odica importante ´e a tangente:
Defini¸c˜ao 14: tan θ = senθ cosθ
A tangente ´e peri´odica de per´ıodo π: tan(φ + π) = sen(φ + π)
cos(φ + π) =
− sen φ
− cos φ = tan φ Teorema 15: A tangente ´e crescente no intervalo −π
2, π 2
.
Demonstrac¸˜ao. Come¸camos por ver que a tangente ´e crescente no intervalo 0,π 2 . Dados x, y ∈ 0,π 2
com x < y, queremos ver que tan x < tan y. Mas sen x < sen y e cos x > cos y logo
tan x = sen x cos x <
sen y
cos y = tan y
Como a tangente ´e tambem ´ımpar, e positiva em 0,π2, segue que a tangente ´e crescente em todo o intervalo −π
2, π 2
.
Defini¸c˜ao 16: Chamamos arctan `a inversa da restri¸c˜ao da tangente ao intervalo −π2, π 2 .
Podemos escrever o arco-tangente em termos do arco-seno. Para tal observemos a figura 10:
θ = arccos x = arcsen y = arctan t
x = cos θ y = sen θ t = tanθ
θ
x y
t P
Figura 10. Interpreta¸c˜ao geom´etrica do arctan.
Usando o teorema de Pit´agoras concluimos facilmente que sen θ = √t 1+t2.
Teorema 17: arctan t = arcsen√ t
1 + t2. Em particular, o dom´ınio de arctan ´e
R.
Demonstrac¸˜ao. Como as fun¸c˜oes
arctan t e arcsen√ t 1 + t2
s˜ao ambas ´ımpares, basta provar a igualdade para t ≥ 0. Seja θ = arctan t. Ent˜ao t = tan θ logo
t2= tan2θ = sen2θ
cos2θ =
sen2θ
1 − sen2θ
Resolvendo em ordem a sen2θ obtemos
sen2θ = t2
1 + t2
Como t ≥ 0, θ = arctan t ∈0,π 2
logo sen θ ≥ 0. Assim, sen θ = √ t
1 + t2
No intervalo 0,π 2
, o seno ´e injectivo com inversa arcsen logo arctan t = θ = arcsen√ t
1 + t2
Logaritmo e exponenciais
Logaritmos desempenham um papel fundamental no c´alculo e nas suas aplica¸c˜oes. Chamamos logaritmo a uma fun¸c˜ao log : ]0, +∞[ → R tal que
Aula 9: Fun¸c˜oes transcendentes 17
Dados a, x > 0 ´e comum definir logax como a fun¸c˜ao inversa da fun¸c˜ao f (x) = ax.
Esta defini¸c˜ao no entanto esbarra com o problema dif´ıcil de definir ax quando
x /∈ Q.1
´
E mais simples introduzir os logaritmos directamente e depois us´a-los para definir ax. Para cada t consideramos a regi˜ao do plano entre a hip´erbole y = 1
x e o eixo
dos xx, limitada pelas rectas verticais x = 1 e x = t (ver figura 11). O logaritmo de t ´e a ´area desta regi˜ao, afectada dum sinal alg´ebrico negativo para t < 1.
t 1 y = 1 x − (t < 1) 1 t y = 1 x + (t > 1)
Figura 11. Defini¸c˜ao geom´etrica do logaritmo
Como calcular esta ´area? Esta quest˜ao vai nos conduzir `a defini¸c˜ao anal´ıtica do logaritmo. ´E conveniente considerar mais geralmente a regi˜ao Ra,b por cima do
intervalo [ a, b ]:
Ra,b=(x, y) ∈ R2 : a ≤ x ≤ b e 0 ≤ y ≤
1 x
Para calcular a ´area desta regi˜ao procedemos do seguinte modo: dividimos [ a, b ] em n intervalos iguais e tomamos sobre cada um destes intervalos o maior rectˆangulo com base nesse intervalo que couber por baixo da hip´erbole y = 1
x. A soma das
´areas destes rectˆangulos ´e, para n grande, uma boa aproxima¸c˜ao da ´area de Ra,b.
Figura 12. Aproxima¸c˜ao da ´area para n = 5 e n = 10
O intervalo [ a, b ] tem comprimento b − a logo cada rectˆangulo tem largura b−an . A
altura de cada rectˆangulo ´e 1/xiem que x0, x1, . . . , xn s˜ao os v´ertices inferiores dos
1Uma vez definido ax
´
e tamb´em necess´ario mostrar que a fun¸c˜ao obtida satisfazax+y
=axay
, o que tamb´em ´e dif´ıcil.
rectˆangulos sobre o eixo dos xx. Assim, a ´area dos rectˆangulos ´e dada por ´
Area = (base) × (altura) = b − a
n ·
1 xi
Representamos por Sn(Ra,b) a soma das ´areas dos rectˆangulos:
Sn(Ra,b) = n X i=1 b − a n · 1 xi
A ´area de Ra,b´e certamente maior que Sn(Rab) mas podemos obter aproxima¸c˜oes
arbitrariamente boas tomando n suficientemente grande. Assim ´e natural escrever ´
Area(Ra,b) = sup{Sn(Rab) : n ∈ N}
Exemplo 15. Para calcular a ´area da regi˜ao R1,2dividimos o intervalo [ 1, 2 ] em
n intervalos iguais de comprimento 1
n. Tomamos para tal os pontos
x0= 1 , x1= 1 + 1/n , x2= 1 + 2/n , x3= 1 + 3/n , . . . , xn−2= 1 + (n − 2)/n , xn−1= 1 + (n − 1)/n, xn= 2 e calculamos as somas Sn(R1,2) = n X i=1 1 n· 1 1 + i/n = n X i=1 1 n + i Temos sucessivamente: S1= 1 2 = 0.5 S2= 1 3+ 1 4 = 0.5833 . . . S3= 1 4 + 1 5+ 1 6 = 0.6166 . . . A tabela seguinte mostra outras aproxima¸c˜oes:
n Sn
10 0.66877 . . . 100 0.69065 . . . 1000 0.69290 . . . 10000 0.69312 . . .
Para compara¸c˜ao, o valor exacto ´e 0.69315 . . ..
Observac¸˜ao: Este procedimento para calcular uma ´area, aproximando-a pela soma de ´areas de rectˆangulos, ´e um exemplo de integral, uma das no¸c˜oes fun-damentais do c´alculo.
Podemos agora definir logaritmo
Defini¸c˜ao 18: Seja x ≥ 1. Chamamos logaritmo natural de x a ln x = ´Area(R1,x) = sup{Sn(R1,x) : n ∈ N}
Para 0 < x < 1 chamamos logaritmo natural de x a
Aula 9: Fun¸c˜oes transcendentes 19
Exemplo 16. O logaritmo natural de 2 ´e a ´area da regi˜ao R1,2 que calcul´amos
aproximadamente no exemplo 15: ln 2 = 0.69315 . . ..
As propriedades do logaritmo s˜ao consequˆencia da seguinte observa¸c˜ao: Teorema 19: Para quaisquer t > 0 e s > 1,
´
Area(Rt,ts) = ´Area(R1,s)
Demonstrac¸˜ao. A observa¸c˜ao b´asica ´e a seguinte: se os pontos x0= 1, x1, . . . , xn−1, xn=
s dividem o intervalo [ 1, s ] em n intervalos iguais de comprimento c = (s − 1)/n, ent˜ao os pontos tx0= t, tx1, . . . , txn = ts dividem o intervalo [ t, st ] en n intervalos
iguais de comprimento (st − t)/n = t c. Sendo assim, Sn(R1,t) = n X i=1 c ·x1 i e Sn(Rs,st) = n X i=1 t c ·t x1 i = Sn(R1,t)
Portanto Sn(Rs,st) = Sn(R1,t) para qualquer n de onde sai de imediato que a ´area
de R1,s´e igual `a ´area de Rt,ts.
2/3 1 4/3 2
Figura 13. As duas regi˜oes sombreadas tˆem a mesma ´area Teorema 20 (Propriedades do logaritmo):
(1) ln(s t) = ln s + ln t (2) ln(s/t) = ln s − ln t (3) ln 1 = 0 (4) ln(xn) = n ln x (5) t − 1 t ≤ ln t ≤ t − 1. Demonstrac¸˜ao.
(1) Come¸camos por assumir que s, t ≥ 1. Ent˜ao ts ≥ s. Vamos usar o seguinte facto geometricamente ´obvio:2
´
Area(R1,ts) = ´Area(R1,s) + ´Area(Rs,ts) (ver figura 14) 2A demonstra¸c˜ao ´e dif´ıcil nesta altura.
1 s ts R1,s Rs,ts
Figura 14. Demonstra¸c˜ao do teorema 20 Ent˜ao
ln(ts) = ´Area(R1,ts)
= ´Area(R1,s) + ´Area(Rs,ts)
= ´Area(R1,s) + ´Area(R1,t) (teorema 19)
= ln s + ln t
Para 0 < s < 1 ≤ t temos dois casos ilustrados na figura seguinte:
s st 1 t (st < 1) ln t − ln(st) s 1 st t (st > 1) ln(st) − ln s
Figura 15. Demonstra¸c˜ao do teorema 20 Para st < 1 temos
− ln s = ´Area(Rs,1) = ln t − ln(st)
e para st > 1 temos
ln t = ´Area(R1,t) = ln(st) − ln s
Em ambos os casos deduzimos de imediato que ln(st) = ln s + ln t. Deixamos o caso s, t < 1 como exerc´ıcio.
(2) Pela propriedade (2),
ln s = ln stt= lnst+ ln t de onde tiramos que
lns
t = ln s − ln t
Aula 9: Fun¸c˜oes transcendentes 21
(4) Vamos provar o resultado por indu¸c˜ao. Para n = 0, ln x0 = ln 1 = 0.
Assu-mindo por hip´otese que ln(xn) = n ln x obtemos
ln(xn+1) = ln(xn· x) = ln(xn) + ln x = n ln x + ln x = (n + 1) ln x o que completa a demonstra¸c˜ao.
(5) Deixamos a demonstra¸c˜ao como exerc´ıcio. Repare no entanto que a regi˜ao R1,t
est´a contida no rect˜angulo com base t − 1 e altura 1 e cont´em o rectˆangulo com base t − 1 e altura 1t
1 t
1/t 1
Comparando ´areas, ´e geometricamente claro que (t − 1) · 1
t < ´Area(R1,t) < (t − 1) · 1
que ´e precisamente a propriedade (5).
Para s > t, s/t > 1 logo
ln s − ln t = ln(s/t) > 0
Assim, o logaritmo ´e crescente, e portanto ´e injectivo. Representamos a sua inversa por exp(y):
y = ln x ⇔ x = exp(y) Usando as propriedades do logaritmo podemos ver que Teorema 21: exp(x) exp(y) = exp(x + y).
Demonstrac¸˜ao. Seja u = exp x e v = exp y. Ent˜ao x = ln u e y = ln v logo exp(x + y) = exp(ln u + ln v)
= exp ln(uv) = uv
= exp(x) exp(y)
5. Exponenciais e o n´
umero de Nepper
Para a > 0 vamos agora ver como definir uma fun¸c˜ao f (x) = ax. Para x = n ∈ N
temos
an= a · a · · · a| {z }
e a0= 1. an satisfaz as rela¸c˜oes
an+m= anam e anm= anm
Queremos agora definir ax para x = p/q ∈ Q. Tomamos para j´a p, q > 0. Para
x = 1/q deveremos ter a1qq = a 1 qq pelo que a1qq = a logo a 1 q =√qa
Mais geralmente deveremos ter apq = (ap) 1
q pelo que
apq =√qap
Vamos agora ver como definir axpara x < 0. Deveremos ter a−x· ax= a−x+xpelo
que
a−x· ax= 1 logo a−x= 1
ax
Chegamos assim `a defini¸c˜ao
Defini¸c˜ao 22: Sejam p, q ∈ N primos entre si. Ent˜ao definimos apq =√qap e a− p q = 1 q √ ap
Qual o significado de axse x n˜ao for um quociente de inteiros? Por exemplo, o que
entendemos por 2π? Poder´ıamos usar a expans˜ao decimal de π para aproximar o
valor de 2π pela sucess˜ao
23= 8, 23.1= 10√
231≈ 8.57, 23.14 = 100√
2314≈ 8.82, . . .
Tal procedimento ´e no entanto trabalhoso. ´E bastante mais simples definir ax
usando logaritmos. Come¸camos por observar que
Teorema 23: Seja x ∈ Q e a > 0. Ent˜ao ln(ax) = x ln a.
Demonstrac¸˜ao. J´a mostr´amos este resultado para x = n ∈ N. Seja x = pq ∈ Q
com p, q ∈ N. Ent˜ao q lnÄapq ä = lnÄÄapq äqä = lnÄapqq ä = ln (ap) = p ln a Dividindo por q obtemos ln apq = p
qln a. Falta ver o caso em que x < 0. Como
−x > 0, j´a vimos que ln(a−x) = −x ln a logo
ln(ax) = ln Å 1
a−x
ã
= − ln(a−x) = −(−x) ln a = x ln a
o que termina a demonstra¸c˜ao.
Como ln(ax) = x ln a, ax = exp(x ln a) para qualquer x ∈ Q. Mas a express˜ao
exp(x ln a) faz sentido n˜ao apenas para x ∈ Q mas para qualquer valor de x. Po-demos portanto us´a-la para definir ax:
Defini¸c˜ao 24 (Exponencial): Seja a > 0. Chamamos exponencial de base a `a fun¸c˜ao
ax= exp(x ln a)
Aula 9: Fun¸c˜oes transcendentes 23
Teorema 25: axay= ax+y, axbx= (ab)xe axy= axy.
A fun¸c˜ao exp(x) ´e tamb´em uma fun¸c˜ao exponencial, com base e = exp(1):3
ex= exp(x ln e) = exp(x) pois ln e = 1 Defini¸c˜ao 26: Chamamos n´umero de Nepper a e = exp(1).
Para calcular o n´umero de Nepper temos que resolver a equa¸c˜ao ln x = 1. Podemos aproximar a solu¸c˜ao usando as sucess˜oes
xn= Å 1 + 1 n ãn e yn= Å 1 −n1 ãn Teorema 27: xn < e < 1/yn e 1 1 + 1/n < ln xn < 1 < ln(1/yn) < 1 1 − 1/n Demonstrac¸˜ao. Partimos da rela¸c˜ao
t − 1 t < ln t < t − 1 (t 6= 1) e substituimos t = 1 + 1/n e t = 1 − 1/n: 1/n 1 + 1/n ≤ ln(1 + 1/n) ≤ 1/n e −1/n 1 − 1/n≤ ln(1 − 1/n) ≤ −1/n
Agora basta multiplicar tudo por n ou −n, e usar as rela¸c˜oes n ln a = ln(an) e
−n ln a = ln(1/an). A rela¸c˜ao x
n< e < 1/yn segue de ln xn< 1 < ln(1/yn) pois o
logaritmo ´e crescente.
Alguns valores das sucess˜oes xn e yn:
n xn 1/yn
10 2.5937 . . . 2.8679 . . . 100 2.7048 . . . 2.7319 . . . 1000 2.7169 . . . 2.7196 . . . Para compara¸c˜ao, e = 2.7182 . . ..