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Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo

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Acórdãos STA Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo

Processo: 0350/16

Data do Acordão: 07-06-2017

Tribunal: 2 SECÇÃO

Relator: ISABEL MARQUES DA SILVA

Descritores: OPOSIÇÃO FALTA DE NOTIFICAÇÃO LIQUIDAÇÃO PRAZO DE CADUCIDADE SUSPENSÃO DE PRAZO INSPECÇÃO PEDIDO REVISÃO

Sumário: I - Não relevando o primeiro procedimento de inspeção para

efeitos de suspensão do prazo de caducidade do direito à liquidação – pois que nenhum acto de liquidação dele resultou –, e não tendo o segundo procedimento de inspeção,

devidamente autorizado pelo Director-Geral dos Impostos, ultrapassado o prazo de seis meses, o efeito suspensivo do prazo de caducidade do direito à liquidação decorrente da (segunda) inspecção externa não cessou, sendo relevante para o cômputo do prazo a suspensão verificada por força da

realização deste último procedimento de inspeção.

II - E releva igualmente no cômputo do prazo de caducidade a suspensão determinada pela apresentação do pedido de

revisão da matéria colectável, ex vi do disposto na alínea e) do n.º 2 do artigo 46.º da LGT (aditado pela Lei n.º 64-B/2011, de 30 de Dezembro), que se manteve até à notificação da decisão que sobre ele recaiu, pois que tendo o pedido de revisão sido apresentado pelo sujeito passivo em data em que já estava em vigor aquela disposição legal, a sua aplicação ao caso dos autos não envolve aplicação retroactiva da norma (artigo 12.º, n.º 2, parte final do Código Civil).

Nº Convencional: JSTA000P21959

Nº do Documento: SA2201706070350

Data de Entrada: 17-03-2016

Recorrente: A..., LDA

Recorrido 1: AUTORIDADE TRIBUTÁRIA E ADUANEIRA

Votação: UNANIMIDADE

Aditamento:

Texto Integral

Texto Integral: Acordam na Secção de Contencioso Tributário do Supremo

Tribunal Administrativo:

Relatório

-1 – A………, LDA recorre para este Supremo Tribunal

da sentença do Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga, de 28 de Outubro de 2015 que julgou improcedente a oposição por si deduzida à execução fiscal n.º 1775201301051130,

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instaurado pelo Serviço de Finanças de Felgueiras para cobrança coerciva de dívida de IRC e juros compensatórios referentes ao exercício de 2008, no montante global de €201.248,92, resultante de liquidação adicional, para o que apresentou as seguintes conclusões:

1.ª) O presente recurso vem interposto da sentença de 28 de novembro de 2015, que julgou improcedente a Oposição deduzida pela ora Recorrente à execução fiscal n.º

1775201301051130 instaurada para pagamento de IRC de 2008, com fundamento na falta de notificação da liquidação objeto da referida execução fiscal à Recorrente no prazo de caducidade, enquadrável nos termos do disposto no artigo 204.º, n.º 1, al. e), do CPPT;

2.ª) A sentença recorrida padece de erro na interpretação do artigo 46.º, n.º 1, da LGT e de erro na aplicação do artigo 46.º, n.º 2, al. e), da LGT, nos seguintes aspetos:

(i) considera suspenso o prazo de caducidade de liquidação de tributo com a notificação prévia para procedimento de inspeção prevista no artigo 49.º do RCPIT, apesar de a Recorrente não ter sido notificada de ordem de serviço da inspeção nem de despacho, nos termos previstos no artigo 51.º do RCPITA; (ii) não considera o período de duração superior a 6 meses de uma inspeção prévia com o mesmo âmbito, para efeitos de derrogar o efeito suspensivo proclamado;

Aplica a norma contida no artigo 46.º, n.º 2, al. e), da LGT que prevê o pedido de revisão da matéria colectável como causa de suspensão do prazo de caducidade, não obstante tal norma só ter surgido em data posterior à data em que se iniciou o prazo de caducidade considerado suspenso;

3.ª) O direito de liquidar o tributo em causa – IRC de 2008 – caduca no prazo de 4 anos a partir do termo do ano em que se verificou o facto tributário, nos termos do disposto no artigo 45.º da LGT, ou seja, a 1 de Janeiro de 2013, sem prejuízo das eventuais interrupções e suspensões;

4.ª) De acordo com o disposto no artigo 46.º, n.º 1, da LGT, o prazo de caducidade suspende-se “com a notificação ao contribuinte, nos termos legais, da ordem de serviço ou

despacho no início da acção de inspecção externa”, sendo que in casu a Recorrente nunca foi notificada da ordem de serviço da inspeção ou despacho no início da inspeção realizada em 2012, ao arrepio do previsto no artigo 51.º do RCPIT;

5.ª) Ao invés, os únicos atos de que a Recorrente foi notificada no âmbito dessa inspeção foram a comunicação prévia para procedimento de inspeção prevista no artigo 49.º do RCPIT e a nota de diligência para a conclusão do procedimento de

inspeção ao abrigo do artigo 61.º do RCPIT, que não

consubstanciam ordem de serviço nem despacho subsumíveis na norma contida no artigo 46.º. n.º 1, da LGT;

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6.ª) Conclui-se, assim, que o prazo de caducidade iniciado em 1 de Janeiro de 2009 não pode considerar-se suspenso a propósito da inspecção realizada em 2012, nos termos do disposto no artigo 46.º, n.º 1, da LGT;

7.ª) Acresce que, mesmo que a Recorrente tivesse sido notificada da ordem de serviço ou despacho referente a tal inspecção tivesse suspendido o prazo de caducidade, o que só por dever de patrocínio se equaciona, certo é que a suspensão do prazo de caducidade não poderia prevalecer, na medida em que a Recorrente já tinha sido alvo de acção inspectiva com o mesmo âmbito em 2010 e 2011 que durou mais de 6 meses, pelo que o efeito suspensivo teria sido anulado.

8.ª) Com efeito, nos termos do disposto no artigo 46.º, n.º 1, da LGT, o prazo de caducidade suspende-se com a notificação ao contribuinte da ordem de serviço da ação inspetiva ou

despacho, cessando tal suspensão caso a mesma ultrapasse o prazo de 6 meses, contando-se o prazo do seu início como se nunca se tivesse suspendido;

9.ª) A ratio das normas tributárias que preveem a caducidade no direito tributário prende-se com razões objectivas de

segurança jurídica, tendo o propósito último de gerar a definição da situação do obrigado tributário num prazo

razoável, cujo decurso conduz à preclusão do direito do Estado de promover a liquidação dos impostos que lhe sejam

eventualmente devidos;

10.ª) Esta mesma ratio está contida no artigo 46.º, n.º 1, parte final da LGT, que determina que a duração por tempo

considerado excessivo da ação inspectiva tendente à avaliação da necessidade de liquidar algum tributo tem como efeito a suspensão do efeito suspensivo atribuído à realização dessa ação inspetiva, ou seja, o contribuinte tem o direito à certeza jurídica de que não ficará sujeito à eventual liquidação de tributos ad eternum, na circunstância de impender sobre ele uma ação inspetiva;

11.ª) Esta mesma ratio justifica que a caducidade se tenha por verificada, mesmo que o prazo de realização da inspeção seja prorrogado nos termos legais (vg nos casos previstos no artigo 36.º do RCPIT), como é pacificamente aceite pela

jurisprudência (ex. douto Acórdão do TCA Sul, de 12 de maio de 2009 (Proc. n.º 02961/09), pois, se assim não fosse, sairia frustrada a intenção confessa do legislador de salvaguardar o contribuinte de ações inspectivas desnecessárias, longas e geradoras de incerteza quanto à sua situação tributária por incúria dos serviços da Autoridade Tributária (neste sentido veja-se os artigos 63.º, n.º 4, da LGT e 36.º do RCPIT, bem como a jurisprudência, de que destacamos o Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo, de 7 de maio de 2008, prolatado no âmbito do Proc. n.º 0102/08);

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12.ª) Se isto é inequívoco relativamente à prorrogação formal do prazo inicialmente estipulado para a realização da ação inspectiva, será naturalmente aplicável à situação de sucessão de ações inspetivas realizadas com o mesmo âmbito de

objecto e abarcando o mesmo período temporal, ainda que realizadas a coberto de ordens de inspeção diferentes, como é o caso tratado nos presentes autos, pelo que o período em que decorreram as duas ações inspetivas (que durou 216 dias) deve ser contado como um único, sob pena de se subverter a ratio legis da norma que condiciona o limite do período de suspensão do prazo de caducidade por força da realização de uma ação inspectiva;

13.ª) Se não fosse assim, estava descoberta a fórmula mágica para a Autoridade Tributária atropelar a garantia dos

contribuintes inerente à limitação da suspensão do prazo de caducidade em caso de demora excessiva do procedimento inspetivo, pois poderia simplesmente encerrar ações

inspectivas e retomá-las dois dias depois, para que nunca fosse ultrapassado ininterruptamente o prazo de seis meses findo o qual o período de suspensão se torna inócuo para efeito de suspensão do prazo de caducidade do direito de liquidação de tributos;

14.ª) Assim sendo, tendo a Recorrente sido objecto de ação inspectiva por período superior a 6 meses, nunca operaria qualquer suspensão do prazo de caducidade ao abrigo do n.º 1 do artigo 46.º da LGT, tendo o direito à liquidação do imposto em causa caducado em 1 de janeiro de 2013;

15.ª) Para além disso, mesmo que o prazo de caducidade se tivesse suspendido por período igual ao da duração da

inspeção ocorrida em 2012 – 27 dias -, o que só se equaciona por mero dever de patrocínio, o pedido de revisão da matéria colectável apresentado pela Recorrente em 16 de janeiro de 2013 não é causa de suspensão do mesmo, apesar de prevista no artigo 46.º, n.º 2, al. e), da LGT, uma vez que esta norma foi introduzida pela Lei n.º 64-B/2011, de 30 de dezembro, que só entrou em vigor em 1 de janeiro de 2012, uma vez que a lei substantiva tributária só dispõe para o futuro, nos termos do disposto no artigo 12.º da LGT e do princípio da

irretroactividade da lei fiscal, constitucionalmente consagrado o n.º 3 do art. 103.º da CRP (neste sentido, Acórdão do Tribunal Central Administrativo Norte, de 4 de outubro de 2007, Proc. n.º 00108/03.TFPRT.11);

16.ª) Inexistindo qualquer outro motivo de suspensão do prazo de caducidade iniciado em 1 de janeiro de 2009, deve o

mesmo ter-se por verificado no passado dia 1 de janeiro de 2013, tendo caducado o direito da Autoridade Tributária de liquidar IRC relativo ao período de 2008, pelo que, tendo a mesma sido notificada nas liquidações em causa ulteriormente,

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não são as mesmas exigíveis em sede de execução fiscal, por serem ineficazes perante o seu destinatário, nos termos do disposto no artigo 36.º, n.º 1, do CPPT.

Neste sentido, os Acórdãos do Supremo Tribunal

Administrativo (i) de 26 de junho de 1996, in “Apêndice ao Diário da República” de 18 de Maio de 1998, pág. 2182, (ii) de 5 de Março de 1997, in “Apêndice ao Diário da República” de 14 de Maio de 1999, pág. 760 e (iii) de 19 de Março de 1997, in “Apêndice ao Diário da República” de 14 de Maio de 1999, pág. 2493.

NESTES TERMOS,

Requer-se a V. Exas. que seja concedido provimento ao presente recurso, revogando-se a sentença que julgou improcedente a Oposição, com o que se fará Justiça.

2 – Não foram apresentadas contra-alegações.

3 - O Excelentíssimo Procurador-Geral Adjunto junto deste

Tribunal emitiu parecer nos seguintes termos: «(…)

Não sendo controvertido que o prazo para a liquidação do imposto era de 4 anos, nos termos do art. 45.º, n.º 1 da LGT e que a respectiva contagem se iniciou em 01.01.2009, nos termos do disposto no n.º 4 do mesmo preceito, a questão que se coloca é a de saber se, no caso, a notificação da liquidação ocorreu dentro do prazo de caducidade do direito à liquidação. De acordo com o disposto no artigo 46.º, n.º 1 da LGT o prazo de caducidade suspende-se com a notificação ao contribuinte da ordem de serviço ou despacho no início da acção de

inspecção externa, cessando, esse efeito, contando-se o prazo desde o seu início, caso a duração da inspecção externa tenha ultrapassado o prazo de seis meses após a notificação.

Como resulta dos factos provados, concretamente dos pontos 2 e 3, a Oponente, ora Recorrente, foi alvo de um primeiro procedimento de inspecção que decorreu entre 17.11.2010 e 24.05.2011 que não determinou a prática de “quaisquer actos tributários ou em matéria tributária” e que, por isso, não pode relevar para efeitos de suspensão do prazo para eventual liquidação do imposto pois nenhum imposto havia que liquidar em consequência dessa acção inspectiva. E esse

procedimento de inspecção, atenta a regra da continuidade inserta no art. 36.º, n.º 2 do RCPIT, não se prolongou pelo período em que decorreu o procedimento de inspecção iniciado com a “Carta-Aviso”, a que alude o ponto 8 dos factos

provados. O procedimento que teve lugar entre 17.11.2010 e 24.05.2011 concluiu-se na data em que a Oponente foi

notificada do resultado da acção de inspecção (ponto 3 dos factos provados). O procedimento autorizado pelo despacho de

(6)

03.07.2012 (ponto 5 dos factos provados) é um novo

procedimento de inspecção que se fundou no disposto no art. 63.º n.º 4 da LGT e não a continuação ou a prorrogação

daquela primeira acção inspectiva (cfr. o doc de fls. 125 para o qual remete o ponto 5 dos factos provados).

Mas, se o período em que decorreu a primeira acção inspectiva não releva na contagem do prazo de caducidade do direito à liquidação, o mesmo não se passa com o período em que decorreu o procedimento inspectivo a que aludem os pontos 6 e 9 e que culminou com o Relatório de Inspecção, notificado à Oponente, ora Recorrente, em 18.12.2012, data em que

cessou o respectivo efeito suspensivo que, salvo melhor

entendimento, se iniciou com a notificação a que alude o ponto 8 dos factos provados, ou seja, em 19.09.2012, e não com o início da própria acção inspectiva (cfr. os arts. 36.º e 49.º, ambos do RCPIT).

Releva ainda, para os mesmos efeitos, a apresentação do pedido de revisão, nos termos do art. 46.º, n.º 2, al. e) da LGT, pois essa causa determinante da suspensão do prazo de caducidade ocorreu já no domínio da vigência da norma introduzida pela Lei n.º 64-B/2011, de 30 de Dez., pelo que a sua aplicação o caso dos autos, ao invés do que vem alegado, não reveste, salvo o devido respeito, aplicação retroactiva da norma, nos termos do art. 12.º, n.ºs 1 e 2 do CCivil. A

suspensão por efeito da apresentação do pedido de revisão da matéria colectável, iniciando-se em 16.01.2013, manteve-se até 23.05.2013, data em que a Oponente, ora Recorrente, foi notificada da respectiva decisão (pontos 10 e 11 do probatório). Assim, tendo em conta os períodos de suspensão que relevam na contagem do prazo de caducidade, é de concluir que na data em que ocorreu a notificação da liquidação (ponto 12 do probatório) ainda não havia operado a caducidade do direito à liquidação.

Nesta conformidade, negando-se provimento ao presente recurso, sou de parecer que deverá ser mantida a decisão recorrida.»

Foram colhidos os vistos dos adjuntos do primitivo Relator. Em cumprimento do Despacho n.º 3/2017, do Exmo Senhor Juiz Conselheiro Presidente foram os autos distribuídos à actual Relatora.

A recorrente foi notificada do parecer do Ministério Público. Foi colhido visto da Exma Senhora Conselheira Dulce Neto, 2.ª adjunta da actual Relatora.

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Colhidos os vistos legais, cumpre decidir.

Fundamentação -4 – Questão a decidir

É a de saber se a sentença recorrida incorreu em erro de julgamento ao julgar improcedente a oposição deduzida, no entendimento de que a notificação da liquidação ocorreu dentro do prazo de caducidade em virtude da ocorrência de duas causas de suspensão do referido prazo (procedimento

inspectivo decorrido entre 21.09.2012 e 18.12.2012 e pedido de revisão, entre 16.01.2013 e 23.05.2013.

5 – Matéria de facto:

É do seguinte teor o probatório fixado na sentença recorrida:

1. Foi instaurado pelo Serviço de Finanças de Felgueiras o processo de execução fiscal n.º 1775203010511130, contra o oponente, para cobrança coerciva de IRC respeitante ao ano de 2008 e juros compensatórios, no montante global de €201.248,92. (conforme PEF apenso)

2. A oponente foi inspecionada pelos serviços de inspeção da Autoridade Tributária entre 17.11.2010 e 25.05.2011, por ordem de serviço n.º OI201002943, circunscrita aos exercícios de 2007 e 2008. (cfr. doc n.º 2 junto aos autos com a petição inicial)

3. Por ofício nº 36378/0504, datado de 14.06.2011, foi a

Oponente notificada do resultado da ação de inspeção da qual conta: “Para conhecimento, fica(m) por este meio notificado(s), nos termos do artigo 62.º do RCPIT, que da ação de inspeção levada a cabo por este Serviço, ao abrigo da Ordem de Serviço acima referida, não resultaram quaisquer actos tributários ou em matéria tributária que lhe sejam desfavoráveis.”

(cfr. doc. n.º 3 junto aos autos com a petição inicial)

4. Em 28.06.2012, foi emitida informação com pedido para a realização de novo procedimento inspetivo à oponente, cujo conteúdo se transcreve na parte que releva: (fls. 185,

verso/186 dos autos)

5. Do despacho emitido em 03.07.2012, pelo Sr. Diretor Geral, na sequência da informação referida em 4., consta “Autorizo”. (cfr. doc de fls. 125 constante do processo físico)

6. Por ordem de serviço nº OI201204984, data de 14.09.2012, foi determinada a inspecção externa à Oponente, relativa ao ano de 2008. (cfr. doc. de fls. 128 constante do processo físico) 7. O procedimento inspectivo referido em 6. Decorreu entre 21.09.2012 e 18.10.2012 (cfr. docs. n.º 4 e 5 junto aos autos com a petição inicial)

8. Por ofício nº 58368/0509, foi remetido à Oponente o documento que se identifica como “Assunto: Carta – Aviso”, recebida em 19.09.2012, da qual consta o conteúdo que se

(8)

transcreve em parte: “Nos termos da alínea l) do n. º 3 do artigo 59.º da Lei Geral Tributária (LGT) e do artigo 49.º do Regime Complementar do Procedimento de Inspeção Tributária (RCPIT) fica(m) notificado(s) de que a muito curto prazo se deslocará (ão) à morada acima referenciada, técnico(s) dos Serviços de Inspeção Tributária.// A visita do(s) técnico(s) tem como finalidade a verificação do cumprimento das

correspondentes obrigações tributárias e terá o âmbito e extensão a seguir indicadas: (…)”

(cfr. doc. n.º 6 junto com a petição inicial)

9. Em 29.11.2012, foi exarado o Relatório de Inspeção,

notificado à Oponente em 18.12.2012, do qual se transcreve as partes que relevam: (cfr. sentença, a fls. 186, verso/187 dos

autos)

(cfr. doc. n.º 5 junto com a petição inicial, e cujo conteúdo se dá aqui por integralmente reproduzido para todos os devidos e legais efeitos)

10. Em 16.01.2013 a Oponente apresentou, junto da Direção de Finanças do Porto, pedido de revisão da matéria tributável. (cfr. pedido de revisão da matéria tributável constante do processo administrativo apenso)

11. Em 23.05.2012, foi a Oponente notificada da decisão de indeferimento do pedido de revisão da matéria colectável. (cfr. pedido de revisão da matéria colectável constante do processo administrativo apenso)

12. Em 29.05.2013, a Oponente foi notificada da liquidação adicional de IRC e juros compensatórios, com o n.º de compensação 2013 00003936417, no montante global de €201.248,92. (cfr. doc. n.º 1 com a petição inicial)

13. A presente Oposição deu entrada no Serviço de Finanças de Felgueiras -1 em 25.09.2013 (cfr. doc. de fls. 17 e seguintes do SITAF)

6 – Apreciando.

6.1 Do alegado erro de julgamento da sentença recorrida na interpretação e aplicação das causas de suspensão do prazo de caducidade do direito à liquidação

A sentença recorrida, a fls. 184 a 192 dos autos, julgou

improcedente a oposição deduzida pela ora recorrente contra liquidação adicional de IRC relativa ao ano de 2008, no

entendimento de que não se mostrava caducado o direito à liquidação à data em que foi notificada a liquidação adicional que está na origem do processo de execução – 29.05.2013 (cfr. ponto 12 do probatório), mercê da suspensão do prazo de caducidade de 4 anos previsto no n.º 1 do artigo 45.º da Lei Geral Tributária (LGT) em cerca de 215 dias, em virtude de duas causas de suspensão, a saber, a primeira, a decorrente

(9)

do procedimento de inspeção externa que teve lugar entre 21.09.2012 e 18.12.2012, ex vi do disposto no artigo 46.º, n.º 1 da LGT; a segunda, resultante do pedido de revisão da matéria tributável nos termos e para os efeitos do art. 91.º da LGT, que igualmente suspendeu o prazo de caducidade entre 16.01.2013 e 23.05.2013, ex vi do disposto na alínea e) do n.º 2 do art. 46.º da LGT.

Alega a recorrente que a sentença recorrida padece de erro na

interpretação do artigo 46.º, n.º 1, da LGT e de erro na

aplicação do artigo 46.º, n.º 2, al. e), da LGT, (…) ao considerar suspenso o prazo de caducidade de liquidação de tributo com a notificação prévia para procedimento de inspeção prevista no artigo 49.º do RCPIT, apesar de a Recorrente não ter sido notificada de ordem de serviço da inspeção nem de despacho, nos termos previstos no artigo 51.º do RCPITA e ao não

considerar o período de duração superior a 6 meses de uma

inspeção prévia com o mesmo âmbito, para efeitos de derrogar o efeito suspensivo proclamado e ao aplicar a norma contida no artigo 46.º, n.º 2, al. e), da LGT que prevê o pedido de revisão da matéria colectável como causa de suspensão do prazo de caducidade, não obstante tal norma só ter surgido em data posterior à data em que se iniciou o prazo de caducidade considerado suspenso.

O Excelentíssimo Procurador-Geral Adjunto junto deste STA, no seu parecer junto aos autos e supra transcrito, pronuncia-se pelo não provimento do recurso, discordando embora da

sentença recorrida no que respeita ao início da suspensão derivada no procedimento de inspeção externa, que entende ter-se iniciado com a notificação a que alude o ponto 8 dos

factos provados, ou seja, em 19.09.2012, e não com o início da própria acção inspectiva (cfr. os arts. 36.º e 49.º, ambos do RCPIT).

Vejamos.

Em causa está a eventual caducidade do direito à liquidação adicional de IRC relativa ao ano de 2008 e juros

compensatórios, notificada à recorrente em 29.05.2013 (cfr. os números 1 e 12 do probatório fixado).

Não é objecto de controvérsia que o prazo de caducidade aplicável é o prazo regra de 4 anos previsto no n.º 1 do artigo 45.º da LGT, e que este prazo começou a correr no dia 1 de Janeiro de 2009, atento a que se está perante um imposto periódico (IRC) relativo ao ano de 2008.

A sentença recorrida fez relevar no cômputo deste prazo duas causas autónomas de suspensão do prazo de caducidade – inspecção externa e pedido de revisão da matéria colectável, previstas, respectivamente, no n.º 1 do artigo 46.º e na alínea e) do n.º 2 do artigo 46.º da LGT -, que teriam tido por efeito o de que o prazo que, se corresse ininterruptamente, teria

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terminado em 31 de Dezembro de 2012, fosse acrescido de cerca de 215 dias, não terminando antes do dia 3 de Agosto de 2013, ou seja, já após a notificação da liquidação adicional, sendo este o motivo da discordância da recorrente com o decidido.

Quanto à suspensão do prazo em virtude do procedimento de inspeção, alega a recorrente que nunca foi notificada da ordem

de serviço da inspeção ou despacho no início da inspeção realizada em 2012, ao arrepio do previsto no artigo 51.º do RCPIT, tendo apenas sido notificada da comunicação prévia para procedimento de inspeção prevista no artigo 49.º do RCPIT e da nota de diligência para a conclusão do

procedimento de inspeção ao abrigo do artigo 61.º do RCPIT, que não consubstanciam ordem de serviço nem despacho subsumíveis na norma contida no artigo 46.º. n.º 1, da LGT, daí

que pretenda que o prazo de caducidade iniciado em 1 de

Janeiro de 2009 não pode considerar-se suspenso a propósito da inspecção realizada em 2012, nos termos do disposto no artigo 46.º, n.º 1, da LGT ou mesmo que a Recorrente tivesse sido notificada da ordem de serviço ou despacho referente a tal inspecção tivesse suspendido o prazo de caducidade, (…), certo é que a suspensão do prazo de caducidade não poderia prevalecer, na medida em que a Recorrente já tinha sido alvo de acção inspectiva com o mesmo âmbito em 2010 e 2011 que durou mais de 6 meses, pelo que o efeito suspensivo teria sido anulado.

Ora, como muito bem diz o Excelentíssimo Procurador-Geral Adjunto junto deste STA resulta dos factos provados,

concretamente dos pontos 2 e 3, a Oponente, ora Recorrente, foi alvo de um primeiro procedimento de inspecção que

decorreu entre 17.11.2010 e 24.05.2011 que não determinou a prática de “quaisquer actos tributários ou em matéria tributária” e que, por isso, não pode relevar para efeitos de suspensão do prazo para eventual liquidação do imposto pois nenhum

imposto havia que liquidar em consequência dessa acção inspectiva. E esse procedimento de inspecção, atenta a regra da continuidade inserta no art. 36.º, n.º 2 do RCPIT, não se prolongou pelo período em que decorreu o procedimento de inspecção iniciado com a “Carta-Aviso”, a que alude o ponto 8 dos factos provados. O procedimento que teve lugar entre 17.11.2010 e 24.05.2011 concluiu-se na data em que a Oponente foi notificada do resultado da acção de inspecção (ponto 3 dos factos provados). O procedimento autorizado pelo despacho de 03.07.2012 (ponto 5 dos factos provados) é um novo procedimento de inspecção que se fundou no disposto no art. 63.º n.º 4 da LGT e não a continuação ou a prorrogação daquela primeira acção inspectiva (cfr. o doc de fls. 125 para o qual remete o ponto 5 dos factos provados). // Mas, se o

(11)

período em que decorreu a primeira acção inspectiva não releva na contagem do prazo de caducidade do direito à liquidação, o mesmo não se passa com o período em que decorreu o procedimento inspectivo a que aludem os pontos 6 e 9 e que culminou com o Relatório de Inspecção, notificado à Oponente, ora Recorrente, em 18.12.2012, data em que

cessou o respectivo efeito suspensivo que, salvo melhor

entendimento, se iniciou com a notificação a que alude o ponto 8 dos factos provados, ou seja, em 19.09.2012, e não com o início da própria acção inspectiva (cfr. os arts. 36.º e 49.º, ambos do RCPIT).

Ora, não relevando o primeiro procedimento de inspeção para efeitos de suspensão do prazo de caducidade do direito à liquidação – pois que nenhum acto de liquidação dele resultou –, e não tendo o segundo procedimento de inspeção,

devidamente autorizado pelo Director-Geral dos Impostos (cfr. o n.º 5 do probatório fixado), ultrapassado o prazo de seis meses – quer estes se contem, como propugnado pelo Ministério Público, da notificação da Carta-Aviso a que se refere o n.º 8 do probatório fixado, quer se contem do efectivo início da inspeção externa, como decidido pela sentença recorrida e propugnado também por este STA em Acórdão de 12 de Outubro último, rec. n.º 0353/16 -, o efeito suspensivo do prazo de caducidade do direito à liquidação decorrente da (segunda) inspecção externa não cessou, sendo relevante para o cômputo do prazo a suspensão verificada por força da

realização deste procedimento de inspeção.

E releva igualmente no cômputo do prazo de caducidade a suspensão determinada pela apresentação do pedido de

revisão da matéria colectável, ex vi do disposto na alínea e) do n.º 2 do artigo 46.º da LGT (aditado pela Lei n.º 64-B/2011, de 30 de Dezembro), que se manteve até à notificação da decisão que sobre ele recaiu, in casu até 23 de Maio de 2013 (cfr. o n.º 11 do probatório fixado), pois que tendo o pedido de revisão sido apresentado pelo sujeito passivo em 16 de Janeiro de 2013 (cfr. o n.º 10 do probatório fixado), data em que já estava em vigor aquela disposição legal, a sua aplicação ao caso dos autos não envolve aplicação retroactiva da norma (artigo 12.º, n.º 2, parte final do Código Civil) - cfr., entre outros, o Acórdão deste STA do passado dia 12 de Outubro de 2016, rec. n.º 353/16, que trata questão idêntica (referida, embora, ao IVA resultante da mesma acção de inspecção.

Tem, pois, de concluir-se que, atendendo aos dois períodos de suspensão do prazo de caducidade, (bem) relevados na

sentença recorrida, este prazo não se havia ainda completado quando, em 29 de Maio de 2013, a recorrente foi notificada da liquidação adicional, razão pela qual bem julgou a sentença recorrida ao julgar improcedente a oposição deduzida.

(12)

Pelo exposto se conclui que o recurso não merece provimento.

Decisão

-7 - Termos em que, face ao exposto, acordam os juízes da Secção de Contencioso Tributário do Supremo Tribunal Administrativo em negar provimento ao recurso.

Custas pela recorrente.

Lisboa, 7 de Junho de 2017. - Isabel Marques da Silva (relatora) - Pedro Delgado - Dulce Neto.

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