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ENTRE A PRÁTICA E A MILITÂNCIA - FEMINISMO E SERVIÇO SOCIAL
Profa. Dra. Mirian Faury
Faculdade de Serviço Social PUC/Campinas
Ao pensar sobre o panorama da questão social no Brasil hoje, não podemos esquecer que é resultado do longo período de “industrialização protegida que tivemos, desde o final do século passado até os anos 30 aproximadamente.
Disto resultou a constituição de um país com uma sociedade urbana industrial, pobre, desigual e periférica ao mundo capitalista.
No período compreendido entre os anos 30 e a II Grande Guerra, o processo de industrialização está se desenhando no país. Este período coincide com a expansão da escolaridade e participação feminina na vida pública - é por volta de 1 935 que as mulheres conquistam no Brasil, o direito ao voto.
No período situado entre o fim da Grande Guerra até 1 975, a sociedade brasileira vive um período de industrialização significativa - aumentam as taxas de crescimento, a renda média per capita, os padrões médios de vida, a urbanização, a mobilidade geográfica e social das populações, a estrutura das ocupações. O processo de mudança vê aparecer um significativo aparato estatal burocrático e o crescimento do gasto social. Estas mudanças e principalmente a alteração na estrutura das ocupações num período extremamente curto, foram muito significativas no que se refere a gênero, causando impacto principalmente sobre a família.
Este modelo teve e tem custos: endividamento do país, déficits públicos, crescimento e incompetência do setor estatal, práticas cartoriais, sistema de proteção social grande, caro, fagmentado e insuficiente.
Desde 1 983 o país vem atravessando um longo período de estagnação e crise com precariedade no mercado de tra balho ( inflação, desemprego aberto, terceirização ). O ônus desta precarização do mundo do trabalho, recaiu principalmente sobre as
www.ts.ucr.ac.cr 2 mulheres - apesar da crescente crise, houve aumento do número de mulheres no mercado de trabalho, com salário desproporcional em relação ao salário dos homens. Neste
contexto, a família teve que trabalhar mais, para ganhar menos, nesta última década. Apesar da crise e talvez por causa dela, podemos constatar uma certa realidade de avanços no que se refere a questão social: fortalecimento das instituições e do
processo democrático, descentralização do poder com atribuição de papéis mais significativos aos municípios, consagração de direitos na constituição, existência de sistema de proteção social muito embora precário e avanço considerável nos direitos da mulher e da criança.
Historicamente as Igrejas e mais especificamente a Igreja Católica, foram as responsáveis pela Assistência Social no Brasil. A primeira escola de Serviço Social é fundada em São Paulo, vinculada à Igreja Católica, visando maior envolvimento e participação dos leigos na chamada questão social.
“O Serviço Social enquanto profissão, nasce da necessidade de sistematização da Assistência Social, isso devido aos problemas urbanos gerados pelo advento do capitalismo industrial na Europa e, do ponto de vista do Brasil, os reflexos deste no contexto da América Latina”. ( Almeida, 1 988:22 )
Ainda segundo este autor, o marco do Serviço Social contemporâneo - o pós guerra, no Brasil tem como referência, o Serviço Social norte americano que enfatiza a importância do atendimento da população assistida, no plantão social. A influência da Igreja se faz sentir, posto que os estudantes de Serviço Social eram recrutados a partir de instituições católicas que se estruturavam a partir da “ação católica “ ( forma de organização de leigos ).
Na época do Concílio Vaticano II ( início dos anos 60 ), propõe-se transformações profundas na Igreja, uma delas, a organização e emancipação dos leigos, segundo a estrutura da Ação Católica. Neste período no Brasil, o desenvolvimento permite o debate das questões sociais, sob a égide da Doutrina Social da Igreja.
Em termos de América Latina, o debate das questões sociais, resulta no
movimento de reconceituação que traz para o interior do debate profissional, as questões discutidas pela sociedade civil. A década de 70 em quase todo o continente é marcada por governos militares, o que estimula a organização da sociedade civil e o conseqüente
www.ts.ucr.ac.cr 3 avanço das formas alternativas de organização popular. No Brasil por exemplo, destaca-se o papel das CEBs, o movimento de mulheres por creche, o movimento feminino pela anistia.
Influenciado pelo movimento de reconceituação, denomina-se o Serviço Social no Brasil, conforme a forma de abordagem:
- Serviço Social Institucional - baseado principalmente no trabalho assistencial, sendo desenvolvido nas instituições de bem estar, hospitais, empresas, etc.
- Serviço Social Alternativo - desenvolve -se junto aos movimentos populares que abrangem as formas de organização da população fora das instituições, recusando-se a aceitar a forma denominada assistencial.
No início dos anos 70, a tarefa assistencial é entendida como função que “ ... pretende solucionar os problemas imediatos apresentados por pessoas ou grupos, através de programas de emergência ... a função assistencial possui caráter de simultaneidade e complementaridade com a função de educação social.”
( Magalhães, 1 987:45 )
A nosso ver é nesta época que começa a se estabelecer o que estamos chamando de feminização do Serviço Social - participação significativa de mulheres no mercado do trabalho, nos programas sociais como beneficiárias, estruturação do movimento de mulheres no país, com reivindicações, lutas e conquistas que marcam o período e tem reflexos na sociedade e nas ações profissionais. Data desta década o início da reflexão teórica sobre o tema mulher que infelizmente não se expande no Serviço Social como em outras áreas de conhecimento.
Hoje prevalecem nas análises a perspectiva de análise da questão da mulher, centrada nas relações de gênero. Nesta visão temos a contribuição de Joan Scott que diz serem os gêneros masculino e feminino, construções sociais e históricas, devendo ser entendidos de forma relacional.
Nesta reflexão sobre a feminização do Serviço Social, a temática de gênero aparece em duas vertentes - a vertente da profissional ( aquela que exerce a tarefa profissional ) e a vertente da usuária ( aquela que é atendida, na tarefa ).
Com referência à questão da mulher, as quatro últimas décadas foram profícuas na produção de trabalhos sobre o tema. Data de 1 949 a publicação de duas grandes
www.ts.ucr.ac.cr 4 obras que marcaram profundamente o movimento de mulheres e a abordagem destes estudos: Macho e Fêmea de Margareth Mead e O Segundo Sexo de Simone de
Beauvoir. Teríamos nestas obras, “... resguardados os contextos de linguagem e questões particulares à época, em Mead, um estudo de gênero e em Beauvoir, um estudo sobre mulher “. ( Köfes, 1 993:27 )
Embora polêmicas hoje a denominação mais aceitável ou que pelo menos foi absorvida pela academia, sendo portanto mais encontrável, é a denominação estudos de gênero.
O conceito de gênero embora possa ser entendido de várias maneiras, tem um estatuto de objeto em si. Construído socialmente, tem modelos de conduta que variam conforme a sociedade. Não refere-se somente à relação macho e fêmea, mas também às relações internas das pessoas e às relações entre pessoas. Para Johan Scott, como categoria analítica seria o conhecimento sobre a diferença sexual - conhecimento entendido como sempre relativo, produzido por meios complexos, referindo-se não somente a idéias mas também às instituições e estruturas, práticas cotidianas, rituais, tudo o que constitua as chamadas relações sociais. Para Köfes o conceito de gênero seria o instrumento que mapeia um campo de diferenças - a distinção sexual. ( in Köfes, 1 993:27 )
Mas, toda esta construção intelectual e os próprios avanços do tema dentro da academia, só aconteceram pela força, importância e dinamismo do movimento de mulheres.
Mobilizada pela economia, pela política social, pela própria questão política da participação e da democracia, a temática mulher / gênero passa a fazer parte das
preocupações sociais. Nos países em desenvolvimento, a política do welfare foi a primeira a se preocupar com as mulheres.
Até 1 970 o papel da mulher era invisível nas teorias do desenvolvimento. Nesta década, motivadas / mobilizadas pelo movimento feminista, várias estudiosas da área da economia passam a pensar a questão da mulher e o desenvolvimento.
www.ts.ucr.ac.cr 5 Um clássico estudo de Ester Boserup feito neste período, inicia a reflexão e o debate sobre isto - as mulheres devem ser incluídas no processo de desenvolvimento pois são fonte valiosa de recursos!
A década da mulher instituída pela ONU ( 1 976 - 1 985 ), viu nascer a perspectiva da equidade ao se falar em direitos sociais e políticas públicas e
definitivamente, o tema mulher / gênero passa a fazer parte das agendas sociais dos governos.
Como na economia, várias áreas da produção do conhecimento: literatura, filosofia, política, medicina, demografia, psicanálise, história, antropologia, sociologia, etc ... começam a trabalhar a temática - primeiro pensando sobre ela e em seguida
produzindo conhecimento e propostas. Uma nova área de interesse acadêmico se instala, cursos são abertos, pesquisas são feitas, e a produção de textos começa a se ampliar. A pergunta que se coloca neste momento é: onde estava o Serviço Social e o que fazia?
Não temos ainda, um estudo aprofundado sobre como a temática gênero
passou a fazer parte do conjunto de atividades profissionais típicas do Serviço Social. Do que até o momento pudemos levantar, parece-nos que aparece primeiramente como preocupação vinculada à prática profissional no texto de Nobuco Kameyama intitulado A
prática profissional do Serviço Social, quando ao discorrer sobre uma proposta de
Metodologia da Ação , ao apresentar as fases ou etapas do trabalho, diz ao se referir ao 2o Momento da metodologia de ação denominada Nucleação ou Grupalização “ Na
nucleação ou grupalização o Assistente Social poderá definir a Unidade de Ação em termos de: a) Categorias sociais - quando a clientela é classificada segundo idade, sexo, raça, situações comuns... “ ( Kameyama, 1 981:152 )
Infelizmente só depois de ¼ de século da existência de estudos sobre
mulher/gênero na academia, o Serviço Social começa a se interessar pela temática, ainda assim, a meu ver, de forma tímida e incipiente.
Talvez, porque tenhamos medo ou não queiramos olhar para nós mesmas como profissão eminentemente feminina ! Afinal, como dizia uma Assistente Social por mim
www.ts.ucr.ac.cr 6 entrevistada ha uns quatro anos: “ a gente se desvaloriza por dois motivos, porque a
gente é assistente social e porque a gente é mulher “.
A feminização do Serviço Social é um fenômeno generalizado mas pouco estudado. O Serviço Social como profissão de mulher não foi nem introdutoriamente discutido em seus aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais. Para tanto se faz necessário uma certa reflexão histórica e relacional sobre o conceito de gênero.
O Serviço Social já se inicia no Brasil, como uma profissão feminina, fruto da implantação da primeira escola de Serviço Social como vimos anteriormente. Além do papel da Igreja Católica, não podemos esquecer os processos de urbanização e
industrialização vivenciados pelo país e a conseqüente expansão do comércio e serviços, mudando o perfil do trabalho e do trabalhador no país. Neste período também assinala-se uma maior e mais complexa organização do Estado, criando e implementando políticas sociais.
O gerenciamento dos problemas sociais decorrentes desta formação complexa, demandava uma nova categoria de profissionais. Quais os aspectos da condição
feminina que favoreceram a entrada nesta nova profissão de um número significativo de mulheres? Esta é uma pergunta que também está a demandar maiores estudos. No entanto podemos apontar um fato da observação da realidade - se por um lado existiu a feminização da categoria profissional das assistentes sociais, existiria uma tendência à masculinização no sistema de gestão dos projetos. Também poderíamos aventar que a feminização está associada à industrialização e expansão da escolaridade bem como ao processos de urbanização e participação feminina na vida pública. Lembremos que por volta de 1 935 quando se está desenhando o processo de industrialização do país, as mulheres conquistam o direito ao voto.
Temos que pensar também que o processo de feminização da profissão pode ter a ver com a construção do fenômeno pelas próprias mulheres e que isto poderia ser do seu próprio interesse.
Segundo Hypolito ( 1 997:55 ), num estudo sobre trabalho docente e relações de gênero, aplicáveis na nossa opinião ao Serviço Social, desde o seu início enquanto
www.ts.ucr.ac.cr 7 profissão, existem algumas característica que historicamente se situam de forma
adequada à profissão:
- proximidade das atividades, com as exigidas para a função de mãe;
- “habilidades” femininas que permitem desempenho eficaz numa profissão que tem como função, entre outras, cuidados;
- possibilidade de compatibilização de horários entre o trabalho profissional e o trabalho doméstico;
- aceitação social para que as mulheres pudessem exercer esta profissão.
Uma passagem do autor citado, é exemplar para a análise das mulheres no magistério e aplica-se perfeitamente ao Serviço Social. É só substituir quando da leitura do texto, a atividade:
“As relações estabelecidas entre a adequação do papel de mulher e o trabalho de ensinar crianças incluem, além do papel de mãe, as ditas “habilidades”
femininas: dona de casa e esposa. Essas funções exigem um desempenho baseado em característica que a mulher tem ou deveria ter: a docilidade, a submissão, a
sensibilidade, a paciência, etc.
O ideário da vocação, o ideário do ato de ensinar, entendido como sacerdócio, como missão, que considera o professor como aquele que professa, é algo anterior à feminização do magistério. Mas o magistério como profissão feminina é uma síntese mais acabada de todas essas relações, pois se constitui numa combinação entre vocação / ensino / maternidade / funções domésticas “ ( Hypólito,
1 997:57 ).
A nossa reflexão está apenas no início. Entretanto é fundamental para a nossa categoria de assistentes sociais, pensar estas questões e poder elaborar, adequar e avançar em relação ao tema/temas na prática profissional cotidiana.
Toda colaboração será considerada benvinda, além de necessária.
BIBLIOGRAFIA
www.ts.ucr.ac.cr 8 São Paulo. São Paulo, Centrais Impressoras Brasileiras Ltda., 1 988.
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