MULHERES PROFISSIONAIS DO SEXO: INTERFACES SOB A PERSPECTIVA DE GÊNERO
ARRUDA, S. F. A. OLIVEIRA, A. A.
INTRODUÇÃO
No Brasil, o tamanho do subgrupo de mulheres profissionais do sexo tem sido avaliada em 1% da população brasileira do sexo feminino 15-49 anos de idade, ou seja, mais de meio milhão de mulheres. Desde 2002, a prostituição foi adotada oficialmente como profissão no país (Ministério do Trabalho e Emprego, Classificação Brasileira de Ocupações. http://www.mtecbo.gov.br/cbosite/pages/home.jsf , acessado em agosto/ 2011), porem ainda é rodeada pelo estigma e discriminação, o que dificulta o acesso ao sistema de saúde e outras intervenções sociais (DAMASCENA, et al. 2011)
A expressão prostituição usualmente utilizada no singular certamente não descreve totalmente as diversas atividades que o termo engloba, pois, além da oferta de programas, a indústria do sexo é composta por diferentes serviços sexuais que são apresentados em bares, boates, casas de massagem, linhas eróticas, anúncios difundidos em jornal ou sites da internet, dentre outros.
Discorrer sobre a prostituição é falar da exploração do corpo e da sexualidade por um mercado consumidor desse serviço. Argumentos de ser a profissão mais antiga do mundo, frequente no senso comum, tentam naturalizar a prostituição com o uso do seu aspecto histórico. No entanto, vale lembrar que também a escravidão foi o primeiro trabalho” realizado para outro ser humano, desde os primórdios. E da escravidão surgiu o uso sexual de mulheres e adolescentes escravizados, explorados e até estuprados, como ainda observamos em guerras. Assim, argumentos de defesa da prostituição como algo intrínseco às relações humanas, não se sustentam.
A análise do mundo da prostituição verifica dois fatos: ela se fundamenta na desigualdade de gênero e nas desigualdades socioeconômicas, étnico-raciais e geracionais.
Esses pilares são revelados pelo universo dos “prostituídos”: geralmente mulheres, homossexuais, transgêneros, rapazes, jovens e adolescentes, de baixo nível socioeconômico (FIGUEIREDO e PEIXOTO, 2010). Desta forma, falar de prostituição sugere em reconhecer a multiplicidade e a heterogeneidade que caracterizam essa prática. Com relação ao exercício da prostituição, não devemos nos fundamentar em uma verdade única e que, embora existam visões clássicas sobre prostitutas e prostituição, é necessário aprender a conviver com a autonomia das prostitutas expressas por suas próprias elaborações intelectuais.
O exercício da prostituição não se compõe em experiência homogênea e estática, visto que seja frequentemente significada de forma característica por cada prostituta. Sair com vários homens, não escolher o parceiro, cobrar pelos serviços, expor a perda da virgindade, entre outros fatores, faz da “profissão” garota de programa uma escolha de vida que sofre, em pleno século XXI, muitos preconceitos e discriminações.
Nesse sentido, ao se considerar a época histórica em que estamos vivenciando, verifica-se que a prostituição é multidimensional por inúmeras facetas, entre elas momento social, histórico e cultural contemporâneo, mas que ainda sofre grande influência do passado.
OBJETIVO
Este estudo se inicia com a proposição de que as profissionais do sexo, em particular as de baixa renda, excedem as classificações normativas associadas ao gênero e sexualidade presentes em nossa sociedade, o que as torna objeto de intensa discriminação.
METODOLOGIA
Esta análise consta de uma revisão da literatura, desenvolvida nos meses de junho a agosto de 2011. Para efetivação desse estudo foram feita revisões da literatura que aborda a temática em questão, utilizando-se da análise de publicações científicas a partir de artigos disponibilizados em bases de dados indexadas, tais como: Medical Literature Analysis and
Retrieval System Online (MEDLINE), Scientific Electronic Library Online (SciELO), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), utilizando como descritores: mulher, profissionais do sexo, gênero e direitos reprodutivos.
Os dados obtidos nesse estudo foram analisados criteriosamente após uma leitura crítica e reflexiva de cada referência, sendo feito o recorte de alguns discursos. Após essa seleção, os dados foram analisados e fundamentados a luz da literatura, consistindo no produto final desse estudo.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
A prestação de serviços sexuais não consiste em opção viável somente para as mulheres pobres e desfavorecidas economicamente, mas pode ser também uma escolha realizada por mulheres que buscam vivenciar o estilo de vida boêmio. Assiste-se um deslocamento da dimensão da prostituição como uma escolha, sendo diluída sob uma visão basicamente higienista, quando é atribuída à prostituição a problemas relacionados a pobreza, doença familiar, viuvez, violência, falta de emprego, necessidade de sustento da família, dentre outras questões que antes não eram consideradas, mas que hoje faz parte do discurso da escolha profissional dessas mulheres, como por exemplo, a vontade de ter mais conforto, ou o desejo de cursar uma faculdade.
Conceituar prostituição como profissão significa reconhecer a existência de distantes práticas sociais, seja no campo das práticas trabalhistas, seja no das religiosas ou outras. Tal compreensão é efetiva para que possamos identificar o preconceito e as intolerâncias que, nos dias atuais, ainda caracterizam as relações humanas, esses indivíduos seriam desviantes em relação ao comportamento do ser humano dito como normal.
Na prestação de serviços sexuais, a prostituta frequentemente se encontra com distintas práticas sexuais e fantasias apresentadas pela clientela, possibilitando que ela reflita sobre os valores aceitáveis na busca pela aquisição do prazer e os valores elaborados socialmente. Essas situações permitem que a prostituta possa repensar a diversidade de papéis que podem ser assumidos pelas mulheres. As experiências vividas no exercício da prostituição também podem desestabilizar a percepção acerca da imposição da heterossexualidade como única forma viável para vivenciar a sexualidade. Na noite, as
mulheres tomam conhecimento de diferentes formas de vivenciar a sexualidade e isso pode levar ao questionamento da heteronormatividade (GUIMARÃES e MERCHÁN-HAMANN, 2005). A convivência em contextos prostitucionais também pode favorecer o estabelecimento de vínculos afetivos entre as próprias mulheres que exercem prostituição, abrindo a possibilidade de vivenciar relacionamentos homoafetivos.
Partindo dessas premissas observamos que parte da produção sobre prostituição apresenta a categoria gênero como uma diferenciação linear e quase fixa. As articulações entre os sistemas de gênero, as sexualidades, e as construções de identidade coletiva são temas complexos, com vasta produção teórica e sem expressivas concordâncias. Não há consenso na comunidade científica sobre o lugar ocupado pelo corpo, e pela sexualidade; a existência ou não de uma base biológica concreta e o possível alcance dos seus determinantes. Este é um aspecto que, longe de restringir-se aos estudos sobre essa problemática, perpassa a literatura sobre gênero e sexualidade. Não obstante, essa categoria também pode ser abordada na perspectiva dos papéis sexuais e pode ser pensada pela distinção sexo/gênero ou por leituras que contestam essa distinção. Gênero também pode ser refletido a partir da maneira como se constitui o sentimento individual e coletivo de identidade e, em alguns trabalhos, essa categoria é apresentada como uma diferenciação unidimensional e quase fixa. Novas aproximações e estudos acerca do trabalho sexual têm incitado contribuições que desestabilizam essa linearidade, tornando mais complexas as leituras sobre alocações de características consideradas femininas e masculinas e das relações diferentes de domínio que permeiam nichos específicos do mercado do sexo.
Assim, verifica-se que a prostituição é multidimensional por inúmeras facetas, entre elas o momento social, histórico e cultural contemporâneo, mas que ainda sofre grande influencia da construção sócio-historica da profissão, fato demonstrado pelo preconceito social, pela violência sofrida pelos próprios parceiros e clientes, sendo, inclusive, obrigadas a não utilizar o preservativo, violando assim seu direito de proteção as doenças sexualmente transmissíveis.
Relações de exploração são re-significadas pelas profissionais que apontam que trabalho mal pago é que configura escravidão, tal categoria pode auxiliar na compreensão de novas fronteiras onde profissionais do sexo tentam se legitimar exatamente pela falta de outras oportunidades de trabalho rentáveis. Novamente o capitalismo revela sua face coisificadora das relações cotidianas e transforma corpos em ferramentas, bem como existências transformam-se em produtos e serviços.
A assimetria de poder entre os gêneros, os valores da sociedade pós-moderna, que é conduzida pelas leis de mercado, a vivência da atividade como algo passageiro e a fragilidade do contrato de trabalho das Profissionais do Sexo são considerados fatores enfraquecedores do poder de negociação da categoria, aumentando a vulnerabilidade dessas mulheres. Salienta-se a necessidade dos serviços que trabalham com essa população, promoverem uma maior apropriação da atividade pelas Profissionais do Sexo, de modo a propiciar movimentos reivindicatórios da categoria pela melhoria das condições de trabalho, diminuindo o sentimento de desprazer em relação à atividade, coibindo possíveis abusos, além de diminuir a vulnerabilidade para DSTs, HIV e AIDS.
REFERÊNCIAS
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