UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PAULO EDUARDO SILVA MALERBA
O SINDICALISMO BANCÁRIO NOS GOVERNOS DO PT
CAMPINAS 2017
O SINDICALISMO BANCÁRIO NOS GOVERNOS DO PT
Tese apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para obtenção do título de Doutor em Ciência Política.
Profª. Drª. Andréia Galvão (orientadora)
Este exemplar corresponde à versão final da Tese defendida pelo aluno Paulo Eduardo Silva Malerba, em 13/12/2017, sob a orientação da Profª Drª Andréia Galvão.
CAMPINAS 2017
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
A Comissão Julgadora dos trabalhos de Defesa de Tese de Doutorado, composta pelas Professoras Doutoras a seguir descritas, em sessão pública realizada em 13/12/2017, considerou o candidato Paulo Eduardo Silva Malerba aprovado.
Titulares
Profª Drª Andréia Galvão – Universidade Estadual de Campinas
Profª Drª Ângela Maria Carneiro Araújo – Universidade Estadual de Campinas
Profª Drª Selma Borghi Venco– Universidade Estadual de Campinas
Profª Drª Patrícia Vieira Trópia –Universidade Federal de Uberlândia
Profª Drª Nise Maria Tavares Jinkings – Universidade Federal de Santa Catarina
A ata de defesa, assinada pelos membros da Comissão Examinadora, consta no processo de vida acadêmica do aluno.
A realização desse trabalho contou com a importante ajuda, parceria e contribuição de muitas pessoas e entidades. Nesse breve momento, quero deixar registrados.
Agradeço sobremaneira ao apoio desde sempre de meus pais, Paulo e Celeste, que incentivaram, apoiaram e se empenharam muito para que eu tivesse acesso ao universo das letras e dos estudos. Assim, eu pude considerar a trajetória acadêmica como uma possibilidade real – esse direito que, infelizmente, é reservado à minoria de nosso povo, marcado por profundas desigualdades no acesso aos bens culturais e educacionais. Um dos propósitos em seguir estudando e trabalhando é buscar transformar essa realidade. O suporte de minha família, incluindo minhas irmãs, Paula e Carol, e minha sobrinha, Duda, propiciaram o acolhimento e o apoio necessários para seguir em frente em todos os momentos.
Sou muito grato à minha esposa Maria, que durante os anos em que percorri o mestrado e o doutorado foi fonte de amor, estímulo e paciência, de mútua admiração e enriquecedoras conversas.
Minha orientadora Andréia Galvão foi figura central nessa pesquisa, pelo seus aconselhamentos, parceria e generosidade intelectual, que impulsionaram descobertas e abriram caminhos de novos e significativos conhecimentos. Desde o mestrado temos trabalhado juntos. Devo a ela, da mesma forma, agradecimentos pela paciência, pois fui um orientando envolvido nos trabalhos sindicais e políticos, ora desempenhei mandato parlamentar, ora fui candidato e, assim, dividi meu tempo em muitas atividades. Persistimos, acreditamos e, enfim, alcançamos este resultado.
Em minha banca de qualificação tive sugestões valiosas e críticas bastante construtivas dos professores Armando Boito Junior e José Dari Krein, indispensáveis para apontar direções e trilhas para realizar o estudo. Deixo registrada minha gratidão. Assim como à banca de defesa da tese que, por uma feliz coincidência, foi composta exclusivamente por mulheres, o que não é muito comum no mundo acadêmico, nem sindical. Agradeço a todas as professoras pela excelente arguição que realizaram, contribuindo para o aprimoramento de minhas reflexões e de meu trabalho.
tese, cederam materiais e dialogaram, em muitas conversas. Seria, talvez, injusto mencionar nomes e cometer o erro de não citar alguém, desse modo, agradeço aos dirigentes e ex-dirigentes do Sindicato dos Bancários de Jundiaí, pois sempre contei com o apoio desses importantes companheiros, que me respaldaram e tiveram a compreensão da dedicação que demanda a realização do doutorado; do Sindicato dos Bancários de São Paulo, fonte de muitas pesquisas e de documentos fundamentais da história do sindicalismo e dos trabalhadores brasileiros; da Fetec/CUT-SP, da Contraf/CUT e da Fenae, que forneceram subsídios muito necessários para aprofundar a pesquisa.
Aos amigos e amigas, que sempre estiveram ao meu lado nesse percurso, alguns desde a graduação. A Danielle Tega, que me ajudou na revisão deste texto e em tantos momentos de minha trajetória, com grande generosidade; Pedro Nolasco, Lucas Forlevisi, Sérgio Bianchini, de bons e preciosos diálogos. A Miriam Nutti, que me ajudou e disponibilizou diversos materiais de pesquisa. Os companheiros de Ciências Sociais e da pós-graduação em Ciência Política da Unicamp, Marcos Vieira, Felipe Dittrich, Paulo Silvino, Guilherme Aguiar, Arthur Aquino, Érika Amusquivar, Thiago Trindade, cada um em seu momento, caminharam comigo e foram importantes fontes de conversas informais e discussões acadêmicas. As queridas amigas Anabele Silva, Maíra Mansur e Bianca Calenzo, com as quais mantenho sempre o diálogo sobre o mundo do trabalho e sobre nossas vidas.
Agradeço aos professores e professoras que fizeram parte de minha formação, desde o começo aos últimos anos. Sem eles e sem elas não seria possível explorar o universo do conhecimento e apresentar alguma, ainda que modesta, contribuição. Aos funcionários do IFCH e da Unicamp, que sempre foram solícitos, na secretaria, na manutenção, no xerox, no CPD, na DAC, em todos os espaços indispensáveis para a universidade. Ao povo paulista e aos defensores da educação pública, minha gratidão, pois é quem sustenta uma universidade de excelência como a Unicamp, imprescindível no desenvolvimento intelectual e científico do país, algo que nos deixa a todos orgulhosos e comprometidos com seu aperfeiçoamento.
O cofre do banco contém apenas dinheiro; frustra-se quem pensar que lá encontrará riqueza.
A categoria bancária é uma das mais organizadas do país. Ao longo de sua história constituiu-se como importante referência para a classe trabalhadora em diversos setores. Esta tese tem por objetivo examinar a dinâmica do sindicalismo bancário durante os governos federais do Partido dos Trabalhadores (PT) (2003 a maio de 2016). Para isso, debate interpretações que foram feitas sobre esses governos e de que forma se moldaram as relações políticas com o movimento sindical. Busca-se compreender as continuidades e as mudanças nas dimensões políticas, de organização, reivindicação, negociação e mobilização dos bancários. O período foi permeado por reconfigurações sindicais, inclusive na categoria, que levaram a novos rearranjos políticos. A tese discute as estruturas sindicais, as disputas internas entre diferentes correntes e perspectivas, o perfil do trabalhador e seu engajamento em ações coletivas, as pautas de reivindicações e as atividades políticas construídas pelos sindicatos. Observou-se que o movimento sindical bancário manteve a capacidade de realizar mobilizações e logrou melhorias frente a uma conjuntura política e econômica favorável durante a maior parte do período. Com isso, ampliou conquistas econômicas, cláusulas sociais e na atuação sindical, que podem ser medidas pelo exame da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) e pela quantidade de greves que foram realizadas. Isso é algo que diferencia este contexto do período anterior. Por outro lado, permaneceram problemas relacionados às condições de trabalho e à flexibilização das relações de trabalho. Dessa forma, a tese analisa as terceirizações; o modelo de gestão realizada pelos bancos, que ocasiona forte pressão sobre os trabalhadores; as desigualdades de remuneração e oportunidades entre os trabalhadores; a estrutura sindical corporativa, que levou à fragmentação do setor financeiro em diversas categorias ao longo das últimas décadas, e, por fim, as medidas adotadas pelo sindicalismo para reverter a fragmentação, mas que ainda se revelam incipientes.
Palavras-chaves: Partido dos Trabalhadores - Brasil, sindicato bancários - Brasil, negociação coletiva do trabalho, participação política - Brasil, relações trabalhistas, greves e lockouts - Brasil
The banking category is one of the most organized in Brazil. Throughout its history it has constituted like important reference for the working class in diverse sectors. This thesis aims to examine the dynamics of banking syndicalism during the federal governments of the Workers' Party (PT). To that end, it debates interpretations that have been made about these governments and how political relations have been shaped by the trade union movement. It seeks to understand the continuities and changes in the political dimensions of organization, demand, negotiation and mobilization of bankers. The period was permeated by union reconfigurations, including in the category, which led to new political rearrangements. The thesis discusses union structures, internal disputes between different currents and perspectives, the profile of the worker and his engagement in collective actions, the patterns of demands and the political activities built by the unions. It was noted that the banking syndical movement maintained the capacity to mobilize and obtain improvements face a favorable political and economic environment during most of the period. As a result, it expanded economic achievements, social clauses and union activities, which can be measured by examining the Collective Labor Convention (CCT) and by the number of strikes that were carried out in the period. This is something that sets this context apart from the previous period. On the other hand, problems related to working conditions and flexibilization remained. Thus, the thesis also analyzes outsourcing; the model of management carried out by the banks, which causes strong pressure on the workers. The inequalities of remuneration and opportunities among workers; the corporate trade union structure, which has led to the fragmentation of the financial sector into several categories over the last decades, and, finally, the measures taken by trade unionism to reverse the fragmentation, but which are still incipient. Keywords: Workers Party – Brazil, Banking trade-union – Brazil, Workers Collective bargaining, Political participation – Brazil, Labor relations, Strikes and lockouts - Brazil
La catégorie bancaire est l'une des des mieux organisées du pays. Tout au long de son histoire il a constitué comme référence importante pour la classe ouvrière dans divers secteurs. Cette thèse vise à examiner la dynamique du syndicalisme bancaire au cours des gouvernements fédéraux du Parti des Travailleurs (PT). À cette fin, il débat des interprétations qui ont été faites à propos de ces gouvernements et de la façon dont les relations politiques ont été façonnées par le mouvement syndical. Il cherche à comprendre les continuités et les changements dans les dimensions politiques de l'organisation, de la demande, de la négociation et de la mobilisation des banquiers. La période a été imprégnée par les reconfigurations syndicales, y compris dans la catégorie, qui ont conduit à de nouveaux réarrangements politique. La thèse discute sur les structures syndicales, les conflits internes entre les différents courants et perspectives, le profil du travailleur et son engagement dans les actions collectives, les modèles de revendications et les activités politiques construites par les syndicats. Il a été noté que le mouvement syndical bancaire a maintenu sa capacité à se mobiliser et à s'améliorer dans un environnement politique et économique favorable pendant la plus grande partie de la période. En conséquence, il a élargi les réalisations économiques, les clauses sociales et les activités syndicales, ce qui peut être mesuré en examinant la convention collective du travail (CCT) et le nombre de grèves qui ont été menées au cours de cette période. C'est quelque chose qui distingue ce contexte de la période précédente. D'un autre côté, les problèmes liés aux conditions de travail et à la flexibilisation demeurent. Ainsi, la thèse analyse l'externalisation; le modèle de gestion effectué par les banques, ce qui provoque une forte pression sur les travailleurs; les inégalités de rémunération et d'opportunités parmi les travailleurs; la structure syndicale corporative, qui a conduit à la fragmentation du secteur financier en plusieurs catégories au cours des dernières décennies, et, enfin, les mesures prises par le syndicalisme pour l'inverser, mais qui sont encore naissantes.
Mots-clés: Parti des travailleurs - Brésil, syndicat bancaire - Brésil, négociation collective, participation politique - Brésil, relations de travail, grèves et lock-out - Brésil
GRÁFICO 1. INVESTIMENTOS PÚBLICOS NO BRASIL 43
GRÁFICO 2. CARTEIRAS DE CRÉDITO NO BRASIL 44
GRÁFICO 3. RENTABILIDADE DOS BANCOS ATUANTES NO BRASIL 47
GRÁFICO 4. COMPARAÇÃO ENTRE SPREAD E RSPL/ROE DOS BANCOS NO BRASIL 49 GRÁFICO 5. COMPARAÇÃO ENTRE SPREAD E RSPL/ROE DOS BANCOS NO BRASIL E
EM PAÍSES SELECIONADOS 50
GRÁFICO 6. EXPORTAÇÕES, IMPORTAÇÕES E BALANÇA COMERCIAL DE 1995 A 2016 51
GRÁFICO 7. EXPORTAÇÕES E IMPORTAÇÕES DE BENS E SERVIÇOS 52
GRÁFICO 8. PARTICIPAÇÃO PERCENTUAL NO PIB POR SETOR ECONÔMICO 53
GRÁFICO 9. VARIAÇÃO REAL DOS REAJUSTES SALARIAIS EM RELAÇÃO AO INPC 65
GRÁFICO 10. A EVOLUÇÃO DO EMPREGO BANCÁRIO 1990 - 2016 90
GRÁFICO 11. IDADE DO TRABALHADOR/A BANCÁRIO/A 98
GRÁFICO 12. PARTICIPAÇÃO DE HOMENS E MULHERES NO SETOR BANCÁRIO FONTE:
CENSOS FEBRABAN 2008 E 2014 99
GRÁFICO 13. ESCOLARIDADE DOS TRABALHADORES BANCÁRIOS 100
GRÁFICO 14. REMUNERAÇÃO REAL MÉDIA DOS BANCÁRIOS ENTRE 2004 E 2015 101
GRÁFICO 15. NÚMERO DE PROMOÇÕES DOS BANCÁRIOS 102
GRÁFICO 16. NÚMERO DE AGÊNCIAS BANCÁRIAS E CORRESPONDENTES
BANCÁRIOS (2007-2016) 146
GRÁFICO 17. PARTICIPAÇÃO DAS TRANSAÇÕES POR CANAIS INDIVIDUAIS 149
Índice de tabelas
TABELA 1. ACORDOS SALARIAIS POR ANO 66
TABELA 2. TEMPO DE EMPREGO NO SETOR BANCÁRIO 97
TABELA 3. ENTIDADES SINDICAIS BANCÁRIAS SEGUNDO SEU PORTE 118
TABELA 4 . TRABALHADORES DO RAMO FINANCEIRO 166
TABELA 5. REAJUSTES ENTRE 1995 E 2002: FENABAN (PARA BANCOS PRIVADOS E
ESTADUAIS) 183
TABELA 6. REAJUSTES ENTRE 1995 E 2002: ACORDOS DO BANCO DO BRASIL 184
TABELA 7. REAJUSTES ENTRE 1995 E 2002:ACORDOS DA CAIXA ECONÔMICA
FEDERAL 185
TABELA 8 - PROPORÇÃO DA PLR SOBRE O LUCRO LÍQUIDO DOS BANCOS 194
TABELA 9 - RELAÇÃO ENTRE RECEITAS COM SERVIÇOS E TARIFAS DOS BANCOS E
DESPESAS COM PESSOAL 215
Índice de quadros
QUADRO 1. DIRIGENTES SINDICAIS DA CONTRAF POR SINDICATO (ELEIÇÃO DE 2015) 109 QUADRO 2. DIRIGENTES SINDICAIS DA CONTRAF PELOS BANCOS EM QUE OS
DIRIGENTES SÃO EMPREGADOS (2015) 110
QUADRO 3. OS 15 MAIORES SINDICATOS DE BANCÁRIOS DO BRASIL (OUT/16) 116
QUADRO 4- DIAS DE GREVE DE TODA CATEGORIA BANCÁRIA (2004 A 2015) 212
QUADRO 5- REAJUSTES SALARIAIS DOS BANCÁRIOS ENTRE 2003 E 2015 (ACORDOS
COM A FENABAN) 219
QUADRO 6- DIREITOS ADQUIRIDOS PELOS BANCÁRIOS ENTRE 2003 E 2015 220
QUADRO 7- PRINCIPAIS ITENS DA CONVENÇÃO COLETIVA DE TRABALHO DA
ACT Acordo Coletivo de Trabalho
ANABB Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil.
APCEF Associação do Pessoal da Caixa Econômica Federal
BANDES Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo
BANESE Banco do Estado de Sergipe
BANESTES Banco do Estado do Espírito Santo
BANPARÁ Banco do Estado do Pará
BASA Banco da Amazônia
BB Banco do Brasil
BC/Bacen Banco Central do Brasil
BDMG Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais
BESC Banco do Estado de Santa Catarina
BNB Banco do Nordeste
BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
BPC Benefício de Prestação Continuada
BRB Banco de Brasília
BRDE Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul
BRICS Bloco de países: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul
CAGED Cadastro Geral de Empregados e Desempregados
CAT Central Autônoma dos Trabalhadores
CAT Comunicado de Acidente de Trabalho
CCS Cadastro de Clientes do Sistema Financeiro Nacional
CCT Convenção Coletiva de Trabalho
CDES Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social
CEF Caixa Econômica Federal
CESIT Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho
CGT Central Geral dos Trabalhadores
CLT Consolidação das Leis Trabalhistas
CMN Conselho Monetário Nacional
CNB Confederação Nacional dos Bancários
CNFBB Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil
CNI Confederação Nacional da Indústria
CONECEF Congresso Nacional dos Empregados da Caixa Econômica Federal
CONTAG Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura
CONTEC Confederação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Crédito
CONTRAF Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro
CSC Corrente Sindical Classista
CSD CUT Socialista e Democrática
CSP Central Sindical e Popular
CTB Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil
CUT Central Única dos Trabalhadores
DEM Partido Democratas
DIEESE Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos
FEBRABAN Federação Brasileira de Bancos
FEEB Federação dos Empregados em Estabelecimentos Bancários
FENABAN Federação Nacional dos Bancos - braço sindical patronal
FENAE Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal
FENASEG Federação Nacional de Empresas de Seguros Privados, de Capitalização e Previdência Complementar Aberta
FES Frente de Esquerda Socialista
FETEC Federação dos Trabalhadores em Empresas de Crédito
FIESP Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
FNT Fórum Nacional do Trabalho
FPSM Frente Povo Sem Medo
FST Fórum Sindical dos Trabalhadores
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
INPC Índice Nacional de Preço ao Consumidor
INSS Instituto Nacional do Seguro Social
MAIS Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista
MAS Movimento Alternativa Socialista
MBA Master in Business Administration
MES Movimento Esquerda Socialista
MNOB Movimento Nacional de Oposição Bancária
MPT Ministério Público do Trabalho
MRT Movimento Revolucionário dos Trabalhadores
MST Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
MTE Ministério do Trabalho e Emprego
MTL Movimento Terra, Trabalho e Liberdade
MTS Movimento por uma Tendência Socialista
MTST Movimento dos Trabalhadores Sem Teto
NCST Nova Central Sindical dos Trabalhadores
OIT Organização Internacional do Trabalho
PAA Programa de Aposentadoria Antecipada
PAC Programa de Aceleração do Crescimento
PAS Programa de Assistência Social
PCB Partido Comunista Brasileiro
PcD Pessoa com Deficiência
PCdoB Partido Comunista do Brasil
PCO Partido da Causa Operária
PDV Programa de Demissão Voluntária
PEA População Economicamente Ativa
PEB Pesquisa do Emprego Bancário
PIB Produto Interno Bruto
PLR Participação nos Lucros e Resultados
PMDB Partido do Movimento Democrático Brasileiro
PNAD Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
PROER Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional
PROFIF Programa de Fortalecimento das Instituições Financeiras Federais
PRONAF Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar
PSDB Partido da Social Democracia Brasileira
PSOL Partido Socialismo e Liberdade
PSTU Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado
PT Partido dos Trabalhadores
RAIS Registro Anual de Informações Sociais
RSPL Retorno Sobre Patrimônio Líquido
SDS Social Democracia Sindical
SEEA Sindicato dos Empregados de Agentes Autônomos do Comércio e em Empresas de Assessoramento, Perícias, informações e pesquisas e de Empresas de Serviços Contábeis no Estado de São Paulo
SEEB Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários
Sindpd Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados e Tecnologia da Informação do Estado de São Paulo
SINTETEL Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações
SINTRATEL Sindicato dos Trabalhadores em Telemarketing
SIPON Sistema de Ponto Eletrônico
TAC Termo de Ajuste de Conduta
TI Tecnologia da Informação
TST Tribunal Superior do Trabalho
UGT União Geral dos Trabalhadores
UNASUL União de Nações Sul-americanas
Capítulo 1: O impacto da conjuntura política na organização sindical ... 30
1.1 – O debate sobre a caracterização dos governos petistas ... 30
1.2 – Problematizando o debate sobre os governos do PT ... 42
1.3 – A relação do movimento sindical com o governo ... 56
1.4 – A reorganização do sindicalismo brasileiro ... 59
1.4.1 Rupturas e divergências na CUT ... 61
2.1 – Trabalhadores de classe média e sindicalismo de classe média ... 67
2.1.1 O sindicalismo bancário em perspectiva ... 71
2.1.2 O perfil social, político e ideológico do trabalhador nos bancos ... 76
2.2 – A elevação e a queda do emprego bancário no período ... 89
2.3 – Desigualdades internas nos bancos ... 94
Capítulo 3 – Organização e disputas na categoria ... 106
3.1 – As estruturas e organizações presentes no sindicalismo bancário . 106 3.2 – A estabilidade no número de sindicatos na categoria ... 117
3.3 – As centrais e tendências atuantes no sindicalismo bancário ... 121
3.3.1 A hegemonia da corrente Articulação/CUT ... 128
3.3.2 Legitimidade social do sindicalismo bancário ... 139
3.4 – Desafios à representação sindical ... 144
3.4.1 Terceirizações, tecnologia e novos desafios nas relações de trabalho ... 144
3.4.2 A representação de trabalhadores do setor financeiro: um processo incipiente ... 161
Capítulo 4 - Entre a sustentação política e a crítica: o sindicalismo bancário e os governos do PT ... 172
4.1 – As correntes sindicais bancárias e os governos petistas ... 175
4.2 – As disputas na formulação e na centralidade das pautas ... 181
4.2.1 Mesa única de negociação e campanha salarial ... 181
4.2.2 PLR e metas ... 190
4.3 – Retomada e rotinização das greves... 201
4.4 – O perfil das greves ... 206
4.5 – Ciclo de conquistas e ampliação da CCT... 217
4.6 – O final do ciclo petista e a posição das correntes bancárias ... 227
Considerações finais ... 234
Referências bibliográficas: ... 239
Introdução
O objetivo desta tese é interpretar a dinâmica do movimento sindical bancário nos governos do PT. Para isso, procurei observar as mudanças, permanências e conflitos entre esses governos e os anteriores, considerando fatores conjunturais e estruturais. O período estudado, entre 2003 e 2015, representou uma mudança política substancial em relação ao período imediatamente anterior. Os governos Lula da Silva e Dilma Rousseff, ambos do Partido dos Trabalhadores (PT), tinham origem e relação política próximas ao movimento hegemônico na categoria bancária, o que produziu impactos no sindicalismo do setor. Assim, a questão que procuramos investigar foi em que medida governos identificados com o campo popular repercutiram nas concepções políticas, de organização, mobilização e negociação dos bancários.
À primeira vista, o movimento sindical bancário manteve a capacidade mobilizatória e se beneficiou da conjuntura política e econômica favoráveis, que prevaleceram durante a maior parte do período. Com isso, obteve conquistas de ordem econômica, social e na ação sindical, que podem ser medidas pelo exame da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) e pela quantidade de mobilizações, em particular greves, que foram realizadas no período, algo que se diferencia muito dos anos 1990. Por outro lado, no que tange os aspectos mais estruturais das relações de trabalho, não houve mudanças substantivas. Por aspectos estruturais refiro-me aos regimes de contratação, em particular aos contratos atípicos, como a terceirização, e às condições de trabalho vinculadas ao modelo de gestão realizada pelos bancos, autoritária e baseada em metas, que ocasionam forte pressão sobre os trabalhadores, bem como às desigualdades entre homens e mulheres, brancos e negros. Tais aspectos estendem-se à organização sindical, engessada por uma conformação que, como veremos ao longo da tese, permitiu a divisão da categoria em diversas outras, impedindo mobilizações com trabalhadores do setor financeiro, por exemplo.
Isso não significa que as questões estruturais não estiveram presentes na discussão do sindicalismo bancário. Ao analisar a pauta, ou
melhor definindo, a minuta de reivindicações ao longo dos anos, todos esses temas estão presentes. No entanto, não ocuparam lugar central nas lutas da categoria, na discussão com as bases e no enfrentamento com os bancos. Apenas o tema da saúde, ligado às condições de trabalho, teve relevância – embora tenha evoluído pouco na realidade diária do trabalhador. As greves eram encerradas quando se apresentavam propostas econômicas e benefícios, deixando em segundo plano essas questões estruturais. A hipótese com a qual trabalho baseia-se, portanto, no antagonismo entre conjuntura e estrutura em relação à atuação do sindicalismo bancário de 2003 a 2015: por um lado, aspectos econômicos e relativos à obtenção de benefícios foram alterados, especialmente pela via da formalização de conquistas por meio do instrumento de negociação coletiva anual; por outro lado, problemas substanciais como a terceirização, as características da gestão dos bancos e a divisão dos trabalhadores em categorias distintas, por exemplo, foram mantidos e, em certa medida, foram aprofundados1.
Para analisar a dinâmica do sindicalismo bancário, busquei abordar as conjunturas política, econômica e social; as relações entre sindicalismo e governo; o perfil do trabalhador bancário; a organização do trabalho bancário; a dinâmica interna do movimento sindical; a disputa entre diferentes correntes2
e projetos; a organização da pauta sindical; a retomada das mobilizações e as conquistas do período. Esse caminho pode iluminar a hipótese acerca do possível antagonismo entre conjuntura e estrutura. Para percorrê-lo, em vez de realizar uma leitura estanque, comparando uma dimensão com a outra, optei por inseri-las no debate mais amplo relativo às transformações verificadas na
1 Tema similar foi discutido por Krein e Teixeira (2014), que avaliaram que o movimento sindical teve a capacidade de recompor o poder de compra dos salários na primeira década dos anos 2000, entretanto sem conseguir alterar, substancialmente, normas e regras que regem a relação de emprego em aspectos mais centrais da organização do trabalho. Essas dependeriam do arcabouço legal institucional e de políticas públicas. Dessa forma, a perspectiva de flexibilização do trabalho permaneceu.
2 Neste trabalho colocamos a expressão “corrente” e “corrente política” como sinônimo de força política ou tendência. Trata-se dos agrupamentos que realizam o debate e a disputa política no sindicalismo bancário. Desse modo, mesmo centrais sindicais como CTB, Intersindical e Conlutas, são referidas como correntes no sentido de serem forças políticas atuantes na categoria, ainda que organizadas sob a forma de central sindical.
política e na economia brasileira, em geral, e no movimento sindical bancário, em particular.
Esta tese constitui um desdobramento de minha pesquisa de mestrado, na qual abordei as transformações no setor financeiro no Brasil e o processo de fragmentação dos trabalhadores, tendo como foco as condições de trabalho e as diferentes formas de contratação e remuneração no setor, que é controlado, em última instância, pelos grandes bancos atuantes no Brasil.
Sem dúvida, minha experiência pessoal, como funcionário do Banco do Brasil e militante sindical bancário, guiou-me nesse propósito de entender melhor o funcionamento do setor financeiro e o impacto sobre a vida de milhares de trabalhadores no período recente. Quando ingressei no doutorado, meu objetivo inicial era analisar os processos de trabalho e o perfil do trabalhador terceirizado e subcontratado para atividades-fim dos bancos. Aqueles trabalhadores que realizam funções anteriormente desempenhadas de maneira exclusiva por bancários e que, ao longo de um amplo processo de terceirização, foram dispersas em diferentes formas de negócios, contratos e remunerações, as quais retiravam direitos e pioravam as condições de trabalho, reduzindo os custos das instituições financeiras. Ao longo do curso, alterei o foco para a análise do sindicalismo bancário no contexto dos governos petistas, devido tanto aos intensos debates políticos e teóricos sobre a relação entre sindicalismo e governo, como ao próprio caráter dos governos petistas.
A tese divide-se em quatro capítulos, que resumo a seguir. O passo inicial para analisar o sindicalismo bancário foi examinar os governos do PT a partir de quatro abordagens influentes no período, que produziram diferentes interpretações sobre os governos petistas tendo em vista suas forças dirigentes, o bloco no poder, os beneficiários de suas políticas e sua base de sustentação social e eleitoral. Dessa maneira, discuti as hipóteses e interpretações elaboradas por Boito (2012) em relação à frente neodesenvolvimentista; Singer (2012) sobre o lulismo, o pacto conservador e o reformismo fraco; Oliveira (2010) a respeito da hegemonia às avessas; e Coutinho (2010) sobre a hegemonia da pequena política.
Após apresentar esse debate, realizo uma problematização das teses desenvolvidas por esses autores buscando demonstrar, com base em dados e evidências estatísticas, as transformações e o alcance das medidas que foram adotadas pelo governo no período. Coloco em cena informações do campo econômico sobre o papel das classes dirigentes, dos bancos, dos sindicatos e das relações do governo com os diferentes setores sociais.
Os governos petistas buscaram atender aos interesses de diferentes setores empresariais e dos trabalhadores, ou melhor definindo, de diversas frações de classe. Houve, por um lado, a manutenção de diversos pontos da política econômica anterior, como o chamado tripé econômico herdado da gestão de Fernando Henrique Cardoso: metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante, que em diversos momentos se refletiram em juros altos, sobrevalorização cambial e obstáculos aos investimentos públicos. Essas medidas eram ligadas à ortodoxia econômica. Por outro lado, foram implementadas medidas que permitiram melhorias na geração de emprego, nas condições salariais, no acesso ao crédito e aos bens de consumo, na formalização de empregos, na maior participação dos rendimentos do trabalho na renda nacional.
Com essas informações, foi possível apresentar as condições objetivas em que os trabalhadores realizaram suas mobilizações e negociações no período; condições essas que, no geral, apresentaram-se mais positivas comparadas às décadas anteriores, inclusive quanto às próprias condições políticas para exercer o direito de greve – cujos indicadores cresceram significativamente se comparados à década precedente (Boito e Marcelino, 2010), ainda que não tenham desaparecido os constrangimentos políticos e repressivos, como o corte de salários dos grevistas, intervenções do judiciário e da polícia, em vários setores.
Além disso, convém ressaltar que os dois governos de Lula da Silva foram marcados pela reorganização do sindicalismo brasileiro. Em 2004, forças dissidentes da CUT (Central Única dos Trabalhadores) deram origem à
Conlutas (atualmente CSP-Conlutas3), bem como em 2006 outros setores da esquerda cutista fundaram a Intersindical. Ambas realizaram a ruptura em razão de divergências quanto às políticas do governo e ao papel da CUT. A interpretação de ambos os grupos era de que o governo Lula da Silva não avançava nas pautas de interesses dos trabalhadores, pelo contrário, consolidava a política neoliberal dos governos anteriores e retirava os direitos dos trabalhadores, particularmente do setor público com a reforma da previdência (Galvão, Trópia e Marcelino, 2015). Outro aspecto que desempenhou um papel importante foi a adoção intensa do diálogo social, por meio de fóruns e espaços tripartites, que foram entendidos como modelo que priorizava a conciliação de classes em detrimento do enfrentamento dos interesses do capital. Do mesmo modo, essas correntes compreendiam que a CUT havia adotado uma política passiva frente ao governo, sem realizar uma contraposição quando estavam em jogo temas de interesse da classe trabalhadora, servindo como amortecedora da mobilização popular.
No segundo governo Lula da Silva foi criada a CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), como nova dissidência da CUT protagonizada pela corrente CSC (Corrente Sindical Classista), ligada historicamente ao PCdoB (Partido Comunista do Brasil). Nesse caso, a criação da central não se devia a grandes divergências quanto aos temas ideológicos e políticos, mas à possibilidade do reconhecimento legal das centrais sindicais pelo governo. Essa foi a mesma lógica que levou à criação da UGT (União Geral dos Trabalhadores) a partir da união entre CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores), CAT (Central Autônoma dos Trabalhadores) e SDS (Social Democracia Sindical), a fim de alcançar os critérios estabelecidos pela lei das centrais para a obtenção do reconhecimento e, consequentemente, o repasse de recursos financeiros da contribuição sindical (Galvão, Trópia e Marcelino, 2015). Outra central, a NCST (Nova Central Sindical de Trabalhadores) foi criada ainda no primeiro governo Lula da Silva, por ocasião
3 Trata-se da Central Sindical e Popular (CSP) Conlutas. Ao longo da tese irei me referir apenas como Conlutas, mas indicando a mesma entidade, que reúne entre seus associados tanto instituições sindicais quanto movimentos sociais e populares.
da discussão da reforma sindical a partir da filiação de sindicatos, federações e confederações da estrutura oficial4.
Esses são aspectos importantes de se destacar, pois incidem sobre o objeto – o sindicalismo bancário – e também demonstram a conjuntura de disputas e restruturação sindical no período. Na categoria bancária, eram apenas duas centrais atuantes no início de 2003: CUT e CGT. No término de 2015, eram seis centrais: CUT, UGT, CTB, Conlutas, Intersindical e NCST (os sindicatos e a federação da NCST permanecem majoritariamente filiadas à Contec/UGT5). Isso, no entanto, não interferiu substancialmente na correlação de forças no movimento bancário. A CUT manteve-se hegemônica, tendo como maior corrente política a Articulação Sindical, representando cerca de 75% das bases de trabalhadores bancários.
Para compreender a dinâmica do movimento sindical bancário, é necessário analisar o perfil do trabalhador da categoria. Esse é o objetivo do capítulo 2, no qual foram revisitados debates sobre o perfil do trabalhador da classe média e do sindicalismo de classe média, na qual compreendo que se insere o trabalhador bancário. Não somente pelo critério de renda, mas prioritariamente pela ideologia meritocrática, conforme proposto por Saes (1985). Essa ideologia, que, a princípio, dificulta a organização e mobilização coletiva, não impediu a realização de atividades e greves no período. Apesar do avanço das ações coletivas da categoria, ela conviveu com uma lógica cada vez mais individualista nos espaços de trabalho, promovida pelos modelos de
4 Refiro-me às entidades oficialmente reconhecidas pelo Estado, conforme os critérios da estrutura sindical brasileira corporativa, particularmente oriundas do período anterior à construção democrática no final da ditadura militar e que não passaram por renovação em suas direções e nos métodos de ação sindical. Esta denominação é utilizada para se diferenciar do novo sindicalismo, que investiu em estruturas paralelas de grau superior (Federações e Confederações), a princípio sem reconhecimento oficial, para aglutinar seus sindicatos e combater a estrutura oficial.
5A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Crédito (Contec), filiada à UGT, é uma confederação nacional de trabalhadores bancários, fundada em 1959, pertencente à estrutura sindical oficial. São filiadas a ela sete federações estaduais e interestaduais de bancários e uma de securitários. Atualmente possui nas bases sindicais a ela filiadas em torno de 13% da categoria bancária. Essa organização será mais bem detalhada no capítulo 3.
gestão organizacional adotados pelos bancos. Esse padrão de gestão da força de trabalho é baseado em ferramentas de tecnologia e controle, em que o critério para promoção e remuneração é o cumprimento de metas individuais e coletivas de vendas de produtos e serviços bancários, que estimulam o desempenho individual e a competição entre os trabalhadores. Essa lógica é apresentada ao trabalhador pelos bancos como exigência do mercado e, com isso, há uma diminuição da autoridade burocrática nos locais de trabalho, e a presença de uma autoridade mais difusa “exercida diretamente pelo mercado capitalista” (Jinkings, 2002, Pág. 141) sob a ideologia da meritocracia. A remuneração variável tornou-se um aspecto cada vez mais valorizado pelos trabalhadores e com forte presença na pauta sindical.
Com relação a essa questão específica, a hipótese é que o bancário e a bancária ainda se mobilizam pela natureza de seu emprego, da manutenção de uma distinção dos salários, benefícios e reconhecimento social, todas inseridas na lógica do mérito e do dom pessoal. Entretanto, as possibilidades para exercer essa mobilização variam de acordo com as condições objetivas, isso é, a situação geral do emprego, da economia e da política (Boito, 2004).
A retomada do emprego no setor bancário é outro elemento colocado em discussão, pois inverteu uma tendência iniciada no começo dos anos 1990, de forte redução de postos de trabalho nos bancos. Algo que parecia, até então, inexorável, pela grande adoção de tecnologia nos processos internos dos bancos e na relação com os clientes, bem como pela ampla terceirização realizada pelas instituições. Ao focalizar apenas aspectos relativos aos processos de trabalho, não seria possível analisar os motivos dessa mudança na tendência do emprego. Busquei evidenciar elementos que poderiam explicar a elevação do emprego, com ritmo mais forte entre 2006 e 2011, seguido pela gradativa redução dos postos de trabalho, iniciada em 2012. Dentre esses elementos, pode-se destacar o incentivo do governo para a maior inclusão financeira e bancarização, mediante contas simplificadas e recebimento de benefícios sociais pela rede bancária; ampliação da oferta de crédito em diferentes modalidades; crescimento dos bancos públicos,
particularmente para enfrentamento da crise econômica de 2008, em que o governo utilizou das instituições federais para garantir linhas de crédito e a execução de programas federais para dinamizar a atividade econômica. A categoria chegou a ampliar em mais de cem mil postos de trabalho em relação ao ano de 2002. Porém, mesmo nesse aspecto, houve contradições, devido ao forte crescimento dos correspondentes bancários. 6 Estimulados pelas regulamentações do Banco Central, esses estabelecimentos passaram a poder atuar em todas as cidades do país e a oferecer diversos serviços bancários, ainda que seus trabalhadores estivessem em condições de contratação e remuneração mais precárias se comparados à categoria principal, dos bancários.
A trajetória do emprego bancário demonstra redução a partir de 2012. A saturação do crédito, o maior endividamento das famílias e os novos mecanismos tecnológicos de atendimento são fatores decisivos para esse quadro, com destaque para o uso massivo de dispositivos móveis (Smartphones) com aplicativos de bancos. A utilização da internet associada ao celular permitiu um salto no número de transações realizadas fora das agências e com oferecimento cada vez maior de serviços financeiros. O desafio colocado aos trabalhadores dos bancos é similar ao de outras categorias: o acesso maior às plataformas de comunicação e à tecnologia mudou drasticamente a relação de clientes e negócios, do mesmo modo que interferiu na relação entre os próprios trabalhadores. A conexão entre novos processos de trabalho, tecnologia e ideologia meritocrática impõe um ambiente de difícil ação para o sindicalismo.
6 São estabelecimentos comerciais autorizados a realizar transações bancárias e financeiras. Podem ser mercados, padarias, farmácias, lotéricas, agências dos correios, dentre outros, que efetivam um convênio com os bancos e são remunerados mediante a quantidade de transações que efetuam. A resolução 3.110/2003 do Banco Central representou a grande abertura para ampliação dos negócios por correspondentes. Atualmente, permite-se a existência de comércios com a única função de servir como correspondente bancário. As principais transações realizadas são saques e pagamentos de contas, mas também podem ser feitas abertura de contas, solicitação de empréstimos, dentre outras. Os funcionários são vinculados ao estabelecimento comercial e à categoria relacionada a ele.
O terceiro capítulo trata da dimensão política e organizativa da categoria bancária, analisando as principais estruturas sindicais e correntes políticas presentes no movimento que determinam os rumos de organização, mobilização, negociações e disputas. Para isso, é fundamental identificar, descrever e analisar quais são elas e qual peso político possuem para influenciar os rumos da categoria bancária, tanto nas direções quanto nas bases de trabalhadores.
Há uma notória prevalência da Articulação Sindical, da CUT, como força política. Presente em todos os estados e no controle dos maiores sindicatos, não teve sua hegemonia ameaçada durante o período. Busquei analisar os motivos dessa hegemonia, considerando três eixos principais: 1) o controle da direção do maior sindicato dos bancários de São Paulo, que é o maior do Brasil, desde 1979, que permitiu uma estrutura política capaz de disputar com as demais correntes internas ao movimento, em diversos locais; 2) a capacidade de diálogo e comunicação com a categoria nos anos 1980, pois encontrou um caminho fértil entre a passividade do sindicalismo oficial, a excessiva moderação da estratégia do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e do PCdoB e a radicalidade revolucionária da Democracia Socialista7 e da Convergência Socialista8 frente a uma categoria de classe média que, embora propensa a se mobilizar na época, não possuía a mesma tendência de ruptura social. Sem dúvida, a formação heterogênea da corrente permitiu à Articulação conectar seu discurso junto às bases com mais efetividade, vinculando mobilização, reivindicação, proposição e negociação; 3) sua presença nacional mais sólida, beneficiada pelo crescimento da corrente dentro de vários segmentos da CUT e com a presença de importantes
7 Corrente interna da Central Única dos Trabalhadores e do Partido dos Trabalhadores. Atualmente presentes na CSD (CUT Socialista e Democrática), que permanece como corrente à esquerda na CUT e no grupamento “Mensagem ao Partido”, do PT. Parte de seus membros deixaram a corrente e são membros fundadores do PSOL e da Intersindical.
8 Corrente interna da Central Única dos Trabalhadores e do Partido dos Trabalhadores na época, de orientação trotskista. Em 1994 seus membros fundaram o PSTU e tornaram-se, desde 2004, os principais integrantes da Conlutas.
lideranças do “novo sindicalismo9”, dentre os quais o próprio Lula da Silva.
Essa lógica favoreceu a aproximação de outras categorias e contribuiu para que a Articulação ganhasse espaços em todas as regiões do país.
Ao contrário do ocorrido em outras categorias (Junckes, 2004), a quantidade de sindicatos bancários teve pouca alteração, não havendo significativa criação ou divisão de outras entidades. Isso demonstra certa coesão e estabilidade na estrutura sindical bancária, fortemente atrelada ao debate nacional. A concentração e centralização do sistema financeiro (Jinkings, 2002) foram determinantes para as discussões de pautas da categoria em âmbito nacional, tornando necessário, para além da mobilização local, um alto nível de organização sindical nacional. Com isso, cria-se um obstáculo importante para a fundação de novas entidades, na medida em que dificilmente teriam apoio de forças políticas para se estabelecer, pois poderiam levar a um conflito de bases em outros locais e ao desarranjo da estrutura existente (Junckes, 2004) que, no período, manteve-se sem grandes conflitos estruturais internos.
As novas tecnologias, o avanço da terceirização e os desafios colocados para os trabalhadores bancários em decorrência da flexibilização das relações de trabalho são também tema do terceiro capítulo. Neste processo, destacam-se iniciativas do sindicalismo da CUT para ampliar a representação dos bancários para outras categorias, dentro da política de “ramos” da central (conceito presente já no 1° Concut de 198410), como forma de combater a pulverização de suas bases. A criação da Contraf/CUT11,
9 Novo sindicalismo é o termo empregado para identificar o movimento sindical que emergiu no processo de construção democrática do país entre o final dos anos 1970 e começo dos 1980, em oposição à ditadura militar e à estrutura sindical oficial. Para mais detalhes, pode-se ler, dentre outras obras, Antunes (1991) e Rodrigues (1997). 10 É possível consultar os documentos de congressos e plenárias da CUT no link: https://cut.org.br/system/uploads/action_file_version/28db538e2a80e21837316f32130 dc2e0/file/a-construcao-da-estrutura-organizativa-da-cut.pdf.
11A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf) filiada à Central Única dos Trabalhadores, é uma entidade de grau superior que reúne oito federações e 105 sindicatos de bancários do Brasil. É a maior entidade da categoria bancária. Nas bases das entidades a ela filiadas estão mais de 80% dos trabalhadores bancários do Brasil. Serão discutidos maiores detalhes sobre a instituição no capítulo 3.
sucessora da CNB (Confederação Nacional dos Bancários), teve como norte a construção do ramo financeiro, envolvendo a representação sindical de outros trabalhadores articulados ao processo de intermediação financeira e de negócios bancários. Para isso, era necessário abranger trabalhadores de diversos segmentos, muitos dos quais contratados de empresas coligadas e de propriedade dos grandes bancos, incluindo-se trabalhadores de callcenter, agentes de crédito, consultores, terceirizados em retaguarda e tesouraria, trabalhadores em correspondentes bancários, corretores de seguros, enfim, diversas funções que, no entendimento da confederação, contribuíssem direta ou indiretamente para o lucro dos bancos.
Esse processo, porém, foi incipiente e teve pouco efeito prático. Duas razões contribuíram para a não efetividade da proposta: a primeira, a estrutura sindical, que assegura a representação sindical por categoria e mediante autorização do Ministério do Trabalho e, portanto, enfrentá-la seria uma disputa eminentemente política. Porém, o sindicalismo bancário mostrou pouco empenho em avançar nesse aspecto, questão que se relacionada à segunda razão do insucesso da proposta: a tímida ação dos próprios dirigentes. Desde o início, construiu-se uma linha de cima para baixo, de definições tomadas pelas cúpulas sindicais, com pouca participação dos sindicatos menores e das bases de trabalhadores, algo que a análise de burocratização proposta por Soares (2013) ajuda a explicitar. Assim, apesar do apelo do tema, não houve forte adesão entre dirigentes sindicais, acostumados à representação de bancários e mais adaptados à lógica da legislação sindical. Esses elementos corroboram a hipótese de que as maiores mudanças ocorridas no sindicalismo bancário foram conjunturais e não estruturais.
Por fim, o quarto capítulo da tese analisa a relação das direções bancárias com o governo federal. De modo geral, pode-se afirmar que, durante todo o período, houve apoio da maioria das correntes ao governo federal, ora mais críticas a determinadas medidas, ora deliberando apoio eleitoral nas conferências nacionais, porém estiveram na base de sustentação do governo, enfatizando os avanços obtidos nas CCTs (Convenções Coletivas de Trabalho) e na valorização dos trabalhadores. Dentre as principais correntes
políticas que apoiaram o projeto petista pode-se destacar especialmente a Articulação, a CSD (CUT Socialista e Democrática) e a CTB. De outro lado, entre as correntes que se destacaram na oposição aos governos petistas estiveram a Conlutas e a Intersindical, porém com diferenças substanciais em certos posicionamentos, que serão examinados no capítulo.
O quarto capítulo também discute a mobilização da categoria bancária a partir da formulação das pautas de reivindicação e seus temas centrais. No período, houve importantes avanços econômicos e sociais na CCT. O sindicalismo bancário conseguiu aproveitar o momento de maior abertura política e de melhoria na economia para obter ganhos no campo econômico e nos benefícios sociais. Buscou-se inserir cláusulas de proteção ao assédio moral e a apuração de casos de conflitos no ambiente do trabalho, mas são mecanismos que pouco conseguiram mudar a realidade dessas práticas nos bancos. Entre 2003 e 2015, apenas o primeiro ano não repôs, ao menos, a inflação. Entre 2004 e 2014, os trabalhadores obtiveram aumento real de salário. Em todos esses anos, com exceção de 200712, houve greve nacional da categoria. Algo que não acontecia, no período anterior, desde 1993.
Além disso, o capítulo aborda as disputas entre as correntes internas ao movimento desde a constituição da mesa única de negociação com a Fenaban, pois até 2003, os bancos públicos negociavam separadamente. São, ainda, analisados os debates em torno da organização das campanhas salariais, da negociação da PLR (Participação nos Lucros e Resultados) e da definição de metas, conteúdos sobre os quais não houve consenso entre as principais forças políticas, havendo, durante os 14 anos, discussão de mérito e forma.
Por fim, faço a discussão sobre a retomada das greves na categoria bancária. Desde o ano 1996 não havia qualquer greve da categoria. Ao
12 Em 2007, a categoria aceitou o reajuste proposto pela Fenaban e os funcionários do BB aceitaram a proposta específica para outros temas. Apenas a Caixa Econômica Federal entrou em greve, pela não aceitação da proposta relacionada aos temas específicos dos empregados da empresa.
apontar as razões desse retorno, observo que isso se deve, num primeiro momento, à conjuntura política e, depois, à melhora da economia brasileira no período, dando maior liberdade para adesões. Faço uma análise do perfil da participação nas greves e o alcance que elas obtiveram, no sentido de mobilizar as bases e pressionar os bancos. Foi comum os bancos chamarem a polícia e acionarem o judiciário com o objetivo de que os trabalhadores entrassem nos seus locais de trabalho sem serem incomodados pelos dirigentes sindicais. Sob essa perspectiva, observa-se que as greves causaram transtornos e prejuízos financeiros e de imagem aos bancos, ao mesmo tempo em que houve a rotinização dessas greves como mecanismo de reivindicação, tornando-se, com o tempo, menos ameaçadoras para os bancos. As greves passaram a ser esperadas e menos surpreendentes aos bancários e patrões, devido ao seu uso recorrente e aos mecanismos similares de ação. Além disso, a modernização da informática constitui uma diferença substancial entre os anos 1980 e 1990 e o período estudado pela tese, na medida em que o atendimento remoto tornou-se a regra, permitindo que clientes e funcionários resolvam as demandas de serviços à distância, sem usar a agência bancária, levando a um tipo novo de greve, com menos repercussão e mais ajustada à realidade da informatização e das diferentes formas de atendimento.
A metodologia da pesquisa baseou-se na bibliografia de referência na área, nos levantamentos de dados e informações estatísticas de fontes oficiais, como Ministério do Trabalho e Banco Central do Brasil. Consultei as pesquisas produzidas IBGE, IPEA, Dieese e pela FEBRABAN. Outra fonte relevante de informações foi a imprensa sindical, as publicações digitais e físicas elaboradas pela Contraf/CUT e os principais sindicatos de bancários do país. Realizei entrevistas com dirigentes sindicais da CUT; da Intersindical; da Contraf; da Federação dos Bancários da CUT/SP; do Sindicato dos Bancários de São Paulo; da FENAE (Federação Nacional das Associações do pessoal da Caixa Econômica Federal)13 e da Previ (Fundo de Pensão dos funcionários do
13 A escolha de dirigente da FENAE e do Sindicato dos Bancários de Pernambuco tem sua importância em buscar captar uma perspectiva do movimento bancário que estivesse fora do centro-sul do país, além disso, trata-se de uma entidade em que há presença importante da nova corrente do sindicalismo bancário, chamada “Enfrente”.
Banco do Brasil. Foram seis entrevistas, com o objetivo de melhor investigar o objeto.
É importante ressaltar que meu papel de observador participante traz influências para a pesquisa. De um lado, foi algo positivo, pois a frequente participação em diversos fóruns, congressos, conferências e espaços de diálogo, bem como o contato constante com os bancários em seus locais de trabalho, permitiu-me captar as nuances do sindicalismo bancário, um olhar mais apurado para determinados temas e debates apresentados. Por outro, o envolvimento com o objeto fez com que em diversos momentos sentisse necessidade de cautela e de um olhar mais distanciado para identificar, descrever e analisar o sindicalismo bancário, que envolve milhares de trabalhadores e uma dinâmica complexa. Por isso, busquei diversificar as fontes e olhar para o conjunto das correntes sindicais, a fim de problematizar as questões colocadas pelas minhas entidades de origem.
Tendo apresentado a estrutura da tese, inicio pela apresentação da conjuntura política do período analisado.
Capítulo 1: O impacto da conjuntura política na
organização sindical
1.1 – O debate sobre a caracterização dos governos petistas
O capítulo visa discutir aspectos da conjuntura nos governos do PT e de que modo ela impactou o movimento sindical. Para isso, é feita a recuperação do debate sobre a caracterização dos governos petistas. O período foi marcado por ambiguidades nas políticas adotadas, já que muitas medidas adotadas tiveram direções divergentes que, além de não se reforçarem, foram contraditórias, atendendo a classes, frações de classes e grupos distintos. Desse modo, é preciso analisar a formação do governo e como foi dirigido o Estado brasileiro, quem foram os setores beneficiados e quem garantiu sua sustentação e continuidade ao longo dos anos. Realizaremos essa discussão ao longo do primeiro capítulo, como forma de explicitar o contexto das disputas políticas e sindicais no país e as interpretações produzidas sobre ele.A opção analítica é de debater o período por meio do diálogo entre quatro formulações sobre os governos do PT: as teses de Boito (2012) a respeito da frente neodesenvolvimentista; a de Singer (2012) sobre o lulismo; a de Chico Oliveira (2010) da hegemonia às avessas e a de Coutinho (2010) sobre a hegemonia da pequena política. Tratam-se de discussões influentes sobre as relações de poder e da composição hegemônica no período.
Do ponto de vista das forças dirigentes, para Boito (2012) formou-se no Brasil, antes e, principalmente, ao longo dos governos do PT, uma frente ampla14 e heterogênea que governou o país. Essa frente teve a liderança
14 Boito (2012) faz uma diferenciação entre aliança e frente: “Frente e aliança não são a mesma coisa. A aliança reúne classes ou frações de classes que agem, cada qual, organizada de modo independente, com base em um programa político próprio, e que estabelecem um programa mínimo comum. A frente reúne, de maneira mais informal, classes e frações de classe, não necessariamente organizadas de modo independente, em torno de objetivos convergentes, mas cuja convergência nem sempre está clara para as forças sociais envolvidas na frente. A força social que está envolvida na frente sem o
partidária do PT, mas foi dirigida pela grande burguesia interna15. Teve a participação, como base social, do operariado urbano e da classe média baixa, organizados por meio do Partido dos Trabalhadores e dos sindicatos; da massa marginal, formada por trabalhadores em condições precárias, subempregados, desempregados, que poderiam ser divididos em dois grupos: o primeiro organizado por meio de “movimentos de urgência”, principalmente os movimentos de moradia, e o segundo grupo, desorganizado. Por fim, faziam parte os camponeses, especialmente aqueles organizados pelo MST, mas também outros camponeses e trabalhadores rurais assalariados, cuja relação política principal se dava pela Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag).
Já para Oliveira (2010), o governo Lula da Silva representou uma “hegemonia às avessas”, em que a “direção moral” da sociedade pertencia aos subalternos, com lideranças que emergiram da luta contra a ditadura militar, porém, com o consentimento da elite econômica. A aparente direção dos subalternos tornava a exploração capitalista ainda mais forte. Para o autor, o governo Lula da Silva não teve inimigos de classe e não possuía um projeto e um objetivo. Sua hipótese é de que o segundo governo Lula da Silva seria fraco e dependeria de barganhas no congresso, sendo necessário alianças e cobranças de apoios. Nesse sentido, não haveria importantes mudanças nas políticas governamentais de Lula da Silva, apenas modificações superficiais e algumas obras de infraestrutura.
Coutinho (2010), por sua vez discorda, da noção de hegemonia às avessas e acredita que a melhor expressão seria “hegemonia da pequena política”. Isso porque os governos petistas estariam inseridos no saber não pode dirigi-la. Mesmo que radicalize a sua ação, poderá, ao fazê-lo, funcionar como instrumento da força dirigente” (p. 72).
15 O conceito de burguesia interna inclui industriais brasileiros, da transformação, da
construção civil, da mineração; setores da “cúspide do agronegócio”; e, de certa maneira, o capital bancário. Para ficar em alguns exemplos de membros da frente e grandes beneficiários dos governos do PT, são citados BrazilFoods, Friboi, Vale, Gerdau, Votorantim, Odebrecht. Pode-se incluir os banqueiros nacionais como Itaú e Bradesco, no setor privado. Isso indica que mesmo na grande burguesia interna há contradições nas pautas. Boito destaca as diferenças entre o capital bancário e o produtivo em relação à política de juros e à rolagem da dívida pública; entre a indústria de transformação e o agronegócio em relação aos acordos externos.
neoliberalismo, em que não há uma disputa real de projetos de sociedade. A expressão é utilizada como oposição à grande política. Para o autor, citando Gramsci dos Cadernos do Cárcere, a grande política relaciona-se às questões da fundação de novos Estados, lutas relacionadas “às estruturas orgânicas econômico-sociais” enquanto a pequena política envolve temas cotidianos, a política parlamentar, no interior de estruturas estabelecidas. Quem opera a grande política pode querer levar as disputas para o âmbito da pequena política, em que não se transformam regimes políticos, instituições ou estruturas sociais mais amplas. A hegemonia neoliberal se apresenta como exclusão da grande política, pois não há disputa entre projetos distintos, na medida em que o individualismo, o privatismo e a naturalização das relações sociais, tidas como parte da natureza humana, tornam-se dominantes no senso comum.
Singer (2012), finalmente, defende a noção de pacto conservador, compreendendo os governos do PT a partir do conceito de lulismo. Esse modelo de construção do governo é resultado do deslocamento político do partido, especialmente a partir de 2002, de uma posição de esquerda mais radical para uma posição conciliadora de classes. Deixou de ter uma visão de ruptura do modelo social para uma visão de pacto social, de viés conservador, promovendo reformas fracas, graduais, que consistem em transformações lentas, representadas na queda vagarosa da desigualdade e na moderada distribuição de renda. Essas mudanças, sem radicalização ou ruptura, possibilitaram a aproximação, no campo ideológico e político, dos governos do PT e do subproletariado. Isso definiu um traço evidente nos governos petistas que não organizaram e não mobilizaram o conjunto de trabalhadores do subproletariado.
Os autores aqui apresentados também divergem quanto aos beneficiários das políticas promovidas pelos governos petistas. Boito (2012) entende que o PT ocupava a posição de mediador da construção da frente de governo e representava as classes subalternas, o movimento sindical e popular – como agentes políticos necessários para a consolidação de mudanças no interior do capitalismo brasileiro. O autor entende que todos os grupos que fizeram parte da frente obtiveram ganhos, mas principalmente a
grande burguesia interna. Os trabalhadores e demais integrantes ganharam, mas de forma secundária, sendo que o campesinato ocupou a posição mais desfavorável em razão das contradições entre seus interesses e setores do agronegócio, também integrante da frente. Em nossa concepção, o campesinato, apesar do pouco avanço nos assentamentos, foi beneficiado particularmente pela forte ampliação do crédito para agricultura familiar (Pronaf) e pelo estímulo às compras públicas da agricultura familiar. Com isso, a relação do movimento com o governo federal foi menos tensa do que os números tímidos da reforma agrária poderiam supor. A título de exemplo, o MST tornou-se o maior produtor de arroz orgânico da América Latina16.
De todo modo, ainda para Boito, haveria uma convergência de interesses entre diferentes frações de classe, da burguesia e do operariado, que começou a se desenhar ainda no final dos anos 90. Essa convergência tinha como fundo a oposição a medidas do governo FHC, como a abertura comercial, que desinteressava à burguesia industrial e ao movimento dos trabalhadores, simultaneamente. As medidas adotadas pelo governo tucano atendiam prioritariamente ao mercado financeiro nacional e internacional e apenas de forma subsidiária à burguesia interna17. Já os governos petistas apresentariam uma política estatal de interesse da burguesia interna, como demonstram os seguintes exemplos: forte financiamento através dos bancos públicos para a grande indústria, destacadamente recursos alocados pelo BNDES; política de conteúdo local (Prieto, 2014), especialmente nas parceiras com a Petrobras; proteção à indústria naval no Brasil; política externa de ampliação e diversificação do leque de parceiros internacionais como forma de incentivar as exportações de bens e serviços; investimentos públicos maiores, como no caso da habitação – que, embora interessem aos movimentos de moradia, são fontes importantes de lucro das grandes construtoras; expansão
16 Disponível em: bbc.com/portuguese/brasil-39775504, consultado em 08/05/2017. 17 Boito destaca que a burguesia possui suas contradições e que medidas podem atender algumas frações e não ser interessante para outras. Três aspectos fundamentais das políticas neoliberais que o autor cita são: 1- redução de direitos sociais e trabalhistas, com a flexibilização do mercado de trabalho; 2- as privatizações; e 3- a abertura comercial com desregulamentação das finanças. O primeiro tema costuma ser do interesse de toda burguesia, enquanto o segundo prejudica os capitalistas menores e o terceiro é rejeitado pela burguesia interna.