UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ FACULDADE DE DIREITO
RICARDO SCHAUMAN MACIEL DO NASCIMENTO
MODIFICAÇÕES DO ESTATUTO DO DESARMAMENTO: PERSPECTIVAS DE LIBERAÇÃO DA POSSE DE ARMAS – SOLUÇÃO OU AUMENTO DE
VIOLÊNCIA?
FORTALEZA – CE 2019
RICARDO SCHAUMAN MACIEL DO NASCIMENTO
MODIFICAÇÕES DO ESTATUTO DO DESARMAMENTO: PERSPECTIVAS DE LIBERAÇÃO DA POSSE DE ARMAS – SOLUÇÃO OU AUMENTO DE
VIOLÊNCIA?
Trabalho monográfico apresentado ao Curso de Direito da Universidade Federal do Ceará como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Direito.
Orientadora: Prof. Msc. Fernanda Cláudia Araújo da Silva
FORTALEZA – CE 2019
Dedico a Deus, por ter me dado saúde e força para alcançar essa graça. À minha mãe, Diana, minha
esposa Priscila, sempre presentes nessa
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente a Deus, não só por suas muitas misericórdias, mas pelo conforto e alívio proporcionados nos momentos mais difíceis. Também pela Providência, que me susteve em tudo o que foi necessário.
À minha mãe Diana Meire de Sousa e esposa Priscila da Silva Bazílio Schauman, pelo amor incondicional, por seus muitos sacrifícios em meu favor, por todas as preces direcionadas a mim.
À minha orientadora Prof. Msc. Fernanda Claudia Araújo da Silva, pela dedicação, correções e incentivos na orientação desse trabalho.
“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”.
RESUMO
A violência no Brasil tem sido evidenciada há bastante tempo e possui diversas consequências na sociedade. Culturalmente, o povo brasileiro tem suas atitudes pautadas pela violência, o que podem ser identificadas em razão da colonização, ou seja, pela influência da máxima de que sobrevivem os mais fortes, o que até hoje está estabelecida em suas várias formas de manifestação impregnada na sociedade brasileira. Com isso, é imperioso destacar que no momento em que se possibilita à sociedade intensificar a criminalidade lhe dando meios para isso, possibilita-se a ser presumível que diante de tais atitudes geram consequências, podendo ser benéficas ou maléficas para o corpo social. Dessa forma, procura-se analisar os termos do Decreto nº 9.685/2019, o qual flexibiliza algumas disposições trazidas anteriormente pelo Decreto nº 5.123/2004 acerca dos requisitos para a concessão da posse de arma, ante o Estatuto do Desarmamento - Lei nº 10.826/2003 e sua influência ante à possibilidade da geração de mais violência na sociedade brasileira. A pesquisa tem bases doutrinárias, portanto, uma pesquisa pura, qualitativa e com a identificação de reflexos na sociedade brasileira. A questão ultrapassa os elementos jurídicos e alcança uma discussão social quanto à temática, por isso se propõe essa investigação.
ABSTRACT
Violence in Brazil has been evident for a long time and has several consequences in society. Culturally, the Brazilian people have their attitudes based on violence, which can be identified by colonization, that is, by the influence of the maxim that survive the strongest, which until today, is established in its various forms of impregnated manifestation in Brazilian society. With this, it is imperative to point out that at the moment in which society is enabled to intensify crime by giving them the means to do so, it is possible to be presumed that, in the face of such attitudes, they generate consequences and can be beneficial or harmful to the social body. Thus, it seeks to analyze, academically, the terms of Decree 9.685 / 2019, which makes flexible some of the provisions previously introduced by Decree No. 5.123 / 2004 on the requirements for granting possession of a weapon, before the Disarmament Statute - Law no. 10,826 / 2003 and its influence on the possibility of generating more violence in Brazilian society. The research has doctrinal bases, therefore, a pure, qualitative research and with the identification of reflexes in Brazilian society. The issue goes beyond the legal elements and reaches a social discussion on the subject, so this research is proposed. Keyw ords: Disarmament. Public security. Violence.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
CEPAL - Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe
CRFB – Constituição da República Federativa do Brasil
CIDH - Comissão Interamericana de Direitos Humanos CNMP - Conselho Nacional do Ministério Público CNJ – Conselho Nacional de Justiça
CP – Código Penal
FBSP – Fórum Brasileiro de Segurança Pública IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
LGBTI – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Intersexuais. OMS - Organização Mundial de Saúde/ World Health Statistics ONGs – Organizações não Governamentais
ONU - Organização das Nações Unidas SINARM - Sistema Nacional de Armas
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO... ...11
2. A VIOLÊNCIA SOCIAL E AS PERSPECTIVAS DE PACIFICAÇÃO SOCIAL ... 15
2.1 A VIOLÊNCIA NO BRASIL...18
2.2 INSTRUMENTOS DE EFETIVAÇÃO NO COMBATE A VIOLÊNCIA...25
3. HISTÓRICO DO DESARMAMENTO NO BRASIL...29
3.1 A AQUISIÇÃO LIVRE DE ARMAS DE FOGO...29
3.2 DESARMAMENTO COMO PREMISSA SOCIAL...33
3.3 A FACILITAÇÃO DA POSSE DE ARMA INSTITUÍDA PELO DECRETO Nº 9685/2019 MODIFICAÇÕES AO DECRETO Nº 5123/2004...35
4. A FLEXIBILIZAÇÃO DA POSSE DA ARMA DE FOGO REDUZIRÁ A VIOLÊNCIA?....42
4.1 POLÍTICAS DE CONTENÇÃO DE CRIMINALIDADE?...49
4.2 O DECRETO DE FLEXIBILIZAÇÃO DA POSSE DE ARMA DE FOGO COMO MECANISMO DE REDUÇÃO DA VIOLÊNCIA: SIM OU NÃO?...55
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS...59
11
1. INTRODUÇÃO
O presente estudo científico materializado, por meio de pesquisa monográfica, objetiva precipuamente discorrer em forma de análise crítica sobre as perspectivas que acarretam a implementação do novo decreto, assinado pelo atual Presidente da República Federativa do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, no dia 15 de janeiro de 2019, passado próximo, que altera alguns dispositivos presentes no Estatuto do Desarmamento, instituído por meio da Lei nº 10.826/03, bem como os reflexos sociais que essas mudanças podem trazer para o país em geral, principalmente em se tratando dos novos requisitos exigidos para a aquisição de arma de fogo.
Historicamente, desde os primórdios da humanidade o homem vem buscando maneira que lhe proporcione a sobrevivência, e para atingir tal objetivo tornou-se imprescindível utilizar-se de meios que lhe permitissem não só a garantia de sua segurança pessoal, mas também daqueles que estavam a sua volta. Juntamente com a necessidade diária de assegurar a obtenção de seu sustento, o homem passou a utilizar equipamentos que lhe possibilitasse alcançar es ses objetivos, desde de lascas pedra e pedaços de madeiras como os primeiros instrumentos que embora rústicos, considerados como eficientes no auxílio para caça e abatimento de animais, extraindo-se deles tudo o que houvesse serventia, como carne, peles, etc. muito embora essa fosse a principal função desses materiais, eles cumpriam o seu propósito também quando o homem encontrava-se em situações que demandassem se valer da força para proteger seu bando e sua caça, moradia, etc.
Com o passar dos tempos, o ser humano foi evoluindo e adquirindo discernimento suficiente para aprimorar a ideia de propriedade e que esta estava diretamente atrelada à necessidade de proteção de modo igual ou superior àquela destinada às próprias pessoas. Diante dessa nova percepção observa-se que os recursos empregados anteriormente nessa tarefa já não seriam suficientes para atingir tal objetivo. Dessa forma, as pedras e pedaços de madeira foram aos poucos sendo substituídos por equipamentos mais arrojados e mais eficientes em
12 desempenhar o papel a eles empregado tornando-se mais perigosos como lanças, flechas, facas que foram aperfeiçoadas e tornaram -se espadas, adagas, punhais entre outros.
Porém, a mudança mais inovadora surgiu apenas com a criação da pólvora em meados do século IX na China, durante a vigência da Dinastia Tang quando alquimistas da época misturaram carvão, salitre (nitrato de potássio) e enxofre. Inicialmente, o componente foi utilizado para dar origem aos primeiros fogos de artifícios e granadas. No entanto, somente entre os séculos X e XII que a sua utilização se tornou mais sofisticada, quando a partir da explosão gerada pela queima da pólvora foi possível constatar-se que ela era capaz de projetar objetos sólidos a uma distância de cerca de 50 metros .
Desse momento em diante, tornou-se bastante comum o uso de armas movida a combustão de pólvora, aperfeiçoando-se cada vez mais os equipamentos, até chegar aos sofisticados aparelhos que se possuem atualmente. Uma das grandes responsáveis pela popularização em massa desses apetrechos foi a possibilidade de se atingir o alvo a uma distância considerável, sem a necessidade de estar muito próximo do objeto que se desejava atingir.
Ocorre que com a utilização indevida de artefatos prejudiciais à integridade humana, começa-se a verificar que o número de mortes e ac identes graves gerados por esses instrumentos precisavam ser controlados pelo Estado, a fim de determinar medidas que justificassem a utilização de armas e que somente determinadas pessoas autorizadas pelo Poder Público poderiam possuir um instrumento como esse. A partir daí deu-se início a campanhas de desarmamento da população.
Sendo assim, a implementação do Decreto nº 9.685, de 15 de janeiro de 2019, o qual altera alguns dispositivos presentes no Estatuto do Desarmamento, realizado por meio da Lei nº 10.826/03, bem como os reflexos sociais que essas mudanças podem trazer para o país em geral, principalmente em se tratando dos novos requisitos exigidos para que se adquira uma arma de fogo.
O Decreto nº 9.685/2019 trouxe algumas alterações significativas no que tange os assuntos relacionados a legitimados para adquirir posse e porte de armas
13 de fogo, bem como especificidades em se tratando do registro legal delas. Acrescentaram-se também, novas possibilidades de aquisição assim como expandiu o rol de possibilidade de se possuir uma arma.
No que concerne aos questionamentos que se busca responder com esse trabalho são: Como o desarmamento é tratado no Brasil e como ele começou a ser realizado? Como as armas se inserem no contexto de violência do país e qua l a legislação pertinente ao assunto? É possível que ocorra a liberação da posse e porte de armas de fogo e qual a sua relação com o aumento da criminalidade no Brasil?
Busca-se também verificar possibilidade de se liberar a utilização de armas de fogo para a população em geral bem como analisar os casos de violência dentro do contexto social brasileiro; avaliar o conteúdo pertinente as normas jurídicas referentes ao estatuto do desarmamento e decretos afins; e verificar quais medidas estão sendo aplicadas para coibir o aumento da criminalidade no país, principalmente quando atrelada ao uso de armas.
Em se tratando de aspectos metodológicos, para que haja uma maior compreensão acerca da investigação, buscar-se-á investigá-la por meio de pesquisa bibliográfica com o uso de referências teóricas, como livros, artigos científicos e monografias, artigos virtuais , etc. No tocante aos fins, a pesquisa classificar-se-á como exploratória porque busca inicialmente aprimorar ideias e descritiva porque descreve a situação no momento em que se ocorre a investigação, classificando e interpretando os fatos. Quanto à abordagem a pesquisa é qualitativa, enfatizando a compreensão e a interpretação do tema.
Sendo assim, almeja-se tratar nos capítulos que se seguem, primeiramente a explanação de forma aprofundada dos aspectos históricos que envolvem a utilização de armas de fogo no Brasil, buscando-se ainda discorrer sobre como ocorria a aquisição de armas de fogo e como era realizada a sua comercialização, antes de entrar em vigor a Lei nº 10.826/03 e como passou a ser realizado após ela. E ainda explanar de forma suscinta o que a sociedade da época em que a lei do desarmamento se comportou perante a possibilidade de se permitir que houvesse livre comercialização de armas de fogo e o que mudou a entrada em vigor do Decreto nº 9.685/2019.
14 No segundo capítulo pretende-se debruçar-se especificamente sobre o impacto causado por conta da violência no país e como isso afeta diretamente a vida do cidadão brasileiro, assim como a violência é representada através de números no país e como ocorre o combate à violência no Brasil.
Por fim, o último capítulo objetivo deliberar acerca da possibilidade flexibilização da posse de armas de fogo e se isso seria eficaz na redução dos casos de violência, bem como o seu combate. E ainda como esse fato poderia atuar no aumento da criminalidade do país, bem como se a promulgação do Decreto nº 9.685/2019 será eficiente na tarefa de reduzir a violência no Brasil.
15
2. A VIOLÊNCIA SOCIAL E AS PERSPECTIVAS DE PACIFICAÇÃO SOCIAL
Atualmente, a realidade é bastante diversa da vivida há alguns anos atrás. Houve muitas mudanças, avanços imensuráveis na tecnologia, medicina dentre muitos outros ramos, tudo isso a fim de tornar a vida do ser humano mais fácil, tranquila. No entanto, com a sociedade, não houve avanço apenas de modo a tornar descomplicado o dia-a-dia das pessoas, aumentaram também, assustadoramente, os casos de criminalidade. Isso é uma realidade vivida na maior parte dos países, nenhum Estado está totalmente imune a qualquer tipo de violência e isso também não é diferente no Brasil.
Em uma era em que tudo está facilmente ao alcance de apenas um clique a sociedade tornou-se, de forma ainda mais significativa, refém do capitalismo e da premente necessidade de sempre acompanhar as tendências mundiais, sendo sempre preciso dispor cada vez mais de bens e de produtos. Acontece que a mesma informação chega a um grande número de pessoas das mais diversas classes e essa situação pode culminar em problemas sociais. Aqueles menos abonados também desejam possuir o que lhes é apresentado e, às vezes, recorrem ao crime como forma de obtê-los (DUARTE, 2009, p. 89 – 91).
A marginalização da sociedade, é sem dúvida, um dos principais problemas da atualidade, pois a partir do momento que se permite que ocorra o não tratamento igualitário para com os cidadãos, resultado não poderia ser outro senão o de uma comunidade desigual. Essa dessemelhança em contrapartida, afeta o próprio corpo social do país, uma vez que aqueles que não possuem as mesmas oportunidades, sejam elas relacionadas a educação, emprego, moradia dentre outras irão buscar satisfazer o ímpeto do capitalismo de outras maneiras e muitas das vezes, recorrem a violência para tal.
A partir desta contextualização é possível perceber-se que a criminalização é quase que em sua totalidade, resultado de uma sociedade deficiente como explicita Álvaro de Aquino e Silva Gullo (1998, p.105) “A violência, considerada como um fenômeno social, é analisada como um filtro que permite esclarecer certos aspectos do mundo social porque denota as características do grupo social e revela o seu significado no contexto das relações sociais”.
16 Muito embora as situações em que acontecem algum caso de violência sejam um reflexos da própria sociedade e da forma como ela foi construída, é também uma responsabilidade da má gerência que é realizada pelo Estado em si, pois a partir do momento que ele não age de forma enfática para findar a ocorrência, ele está involuntariamente permitindo que ela se perpetue. Por esse motivo é imprescindível que o Governo atue de forma a prevenir, como também a coibir comportamentos prejudiciais ao bom funcionamento do corpo social.
Dessa forma, em prol do bem estar social, as vezes são necessárias medidas um pouco mais restritivas no sentido de haver um maior cuidado com a forma que as sanções são aplicadas, para que só assim, se possa alcançar algum êxito na difícil empreitada de pôr um fim ou pelo menos diminuir a delinquência que assola país.
Porém, na maioria dos casos tais providências não são de fato, eficientes ou suficientes para surtir efeitos, algumas vezes por causa da morosidade do Estado em aplica-las outras vezes por conta da própria legislação, forçando os cidadãos a agirem por conta própria.
Diante desse cenário, real ou representado, os atores organizam seu agir acionando uma lógica do salve-se quem puder ou do fazer justiça com as próprias mãos, lógica que leva à autoproteção, ou à proteção privada, ambos os procedimentos assumidos em lugar da proteção e da segurança públicas representadas como falidas. (PORTO, BANDEIRA, 2004, p. 13)
Em uma rápida visualização nos grandes centros econômicos do Brasil, é possível constatar que casa vez mais as pessoas prezam por artifícios que lhe permitam sentir-se mais seguros, como grades em portas e janelas, cercas elétricas, modernas aparelhagens de vigilância eletrônicas, entre outros. Esse tipo de comportamento é bastante corriqueiro atualmente e são a prova de como a violência está presente no dia-a-dia dos brasileiros, como afirmam Porto e Bandeira:
A violência está presente em quase todas as dimensões e espaços da vida cotidiana, seja no plano individual, seja no coletivo, no real e no simbólico. Além disso, ao se
17 concretizar, assume formas múltiplas atingindo os indivíduos tanto em sua integridade física quanto simbólica. Aliás, em tempos de profunda sofisticação da tecnologia e da gestão da violência. (PORTO, BANDEIRA, 2004, p.14)
Isso ocorre muitas vezes por causa ineficiência do Estado em promover segurança e bem-estar das pessoas, forçando a população a buscar outras formas de proteção mais eficazes que as possibilitem de se autodefender e é nessa conjuntura que surgiu a iniciativa de se modificar o Estatuto do desarmamento.
Há muito se discute sobre os métodos empregados pelo Estado em se tratando da eficácia das punições empregadas aos agentes delituosos no país, são muitos os casos em que a impunidade vigora, deixando os cidadãos de certa forma desacreditados no sistema penal, fazendo com que busquem outras estratégias para se manterem salvaguardados. Uma delas é a possibilidade de se poder autodefender diante de quaisquer ameaça que venha a se interpor na segurança de seu lar, acontece que não compete as pessoas o dever e a obrigação de coibir e punir aqueles descumprem os mandamentos do ordenamento jurídico e sim ao Estado.
O Estado brasileiro não proíbe por inteiro a utilização da autotutela, uma vez que existem dispositivos que possibilitam a sua utilização desde que dentro dos padrões legais estabelecidos em lei, a exemplo da legítima defesa, conforme descreve o Código Penal brasileiro:
Art. 25 - Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem.
De acordo com o ordenamento jurídico, é perfeitamente possível que o cidadão que se encontre em uma situação de perigo atual ou iminente possa se valer de determinados artifícios para defender a si mesmo ou a outrem, desde que esses meios sejam compatíveis com a situação de agressão, afinal o intuito desse dispositivo é apenas refrear a ação que está sendo praticada, o que é distinto de utilizar-se dessa disposição para fazer a sua própria justiça.
18 A definição de justiça é um conceito bastante complexo, uma vez que ela pode ser interpretada de diversas maneiras por cada pessoa, tornando a punição aplicada aqueles que agem em desacordo com o ideal de justiça individual tão inconstante quanto a definição para o termo justiça. É com base nisso, que o Estado toma para si a tarefa de estabelecer parâmetros que se permitam chegar o mais próximo possível daquilo que seria de modo geral justo (princípio da substitutividade). É por isso que o legislador estabeleceu no Código Penal Brasileiro a impossibilidade de se praticar a chamada justiça com as próprias mãos, a vedação é clara e abrange até mesmos casos legítimos, muito embora existam exceções:
Art. 345 - Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o perm ite: Pena - detenção, de quinze dias a um mês, ou multa, além da pena correspondente à violência.
Dessa forma, de acordo com a legislação penal vigente não é possível e nem recomendável que pessoas comuns apliquem por elas mesmas penalidades a toda possível ameaça que venha a lhe ser oposta.
A partir do momento que o Estado passe a permitir e até mesmo validar esse tipo de comportamento, ele está abrindo mão não só da sua autoridade como julgador imparcial, como está permitindo que a violência tome proporções muito maiores, não pondo fim a ela e sim a aumentando, não atingindo assim o objetivo principal de qualquer sociedade que é a pacificação social.
2.1 A VIOLÊNCIA NO BRASIL
Desde o início, a história do Brasil sempre foi marcada pela violência, ela está entranhada na essência do povo brasileiro, fazendo parte da sua própria cultura constitutiva. Um país que embora bonito por natureza possui marcas irreparáveis em sua biografia, uma vez que desde a sua colonização sempre teve como principal aliada para conseguir conquistar qualquer coisa, a força. Tendo como principal exemplo, a sua própria constituição quando os colonizadores após encontrarem terras desconhecidas resolveram simplesmente apoderar-se à força, matando aqueles que resistiram e transformando-os em escravos. O brasileiro foi criado sob a
19 égide ideológica evolutiva, na qual reputa-se ganhador o mais forte, independentemente de quais meios ele utilizou para tal.
Esse tipo de conduta ainda persiste até os dias de hoje, na maioria das vezes escondendo-se em meio a boas intenções numa tentativa de mascarar a violência que está por trás da ação.
Embora o corpo social tenha evoluído com o passar dos tempos, ainda há resquícios na população de características trazidas da sociedade que se constituiu principalmente em cima de valores deturpados, no qual era plenamente aceitável escravizar pessoas, distratar desfavorecidos, humilhar inferiores em nome do poder. Claro que esse comportamento não era uma peculiaridade exclusiva do Brasil, porém foi sua escolha perpetuá-lo, pregando formas de violência como a melhor maneira de se alcançar determinados propósitos .
O povo brasileiro sofreu e sofre até hoje por diversas formas diferentes de violência, muito embora ela tenha adquirido novas faces e formas com o passar dos tempos, ela sempre esteve presente de alguma forma. Muitas das vezes as pessoas nem sequer se dão conta do que de fato estão sendo sujeitadas a situações de agressão. Vale ressaltar ainda, que ao contrário do que a maioria das pessoas acreditam, a violência não se restringe apenas ao ato físico, as agressões podem ser externadas das mais diversas maneiras e por diversos motivos , depende muito do contexto social que o episódio está sendo retratado, como aduz Soares:
Várias são as matrizes da criminalidade e suas manifestações variam conforme as regiões do país e dos estados. O Brasil é tão diverso, que nenhuma generalização se sustenta. Sua multiplicidade também o torna refratário a soluções uniformes. (SOARES, online)
De acordo com o que foi discutido acima, casos em que situações de violência são incorporados ao cotidiano das pessoas e tratados com naturalidades, são fáceis de se encontrar isso ocorre principalmente por conta da construção cultural a que foi exposta o povo brasileiro, esse comport amento está incutido intrinsecamente nos cidadãos. Uma clara representação dessa naturalização da violência pela sociedade é o fato de até não muito tempo atrás ser perfeitamente
20 aceitável usar a força como demonstração de poder, como bem explica Andrade, a violência nada mais é do que uma expressão da própria força.
A palavra violência tem sua raiz no latim, violentia que significa força física e vigor. Essa força física se transforma em violência quando excede os limites sociais ou altera acordos e regras que coordenam as relações em sociedade. (ANDRADE, 2018, online)
O Brasil tem alcançado altos índices de criminalidade e diversas são as justificativas para tal, que se alteram entre locais do regiões do Estado e classes sociais. A violência que muito embora possua diversas vertentes, tem se manifestado principalmente através de atos criminosos.
É verdade, que qualquer tipo de ataque contra a integridade do indivíduo seja absolutamente prejudicial a qualquer pessoa, no entanto, os casos de violência que mais preocupam os cidadãos, são aqueles vinculados a criminalidade em si.
Situações de violência vêm com cada vez mais frequência extrapolando o pacto social tacitamente imputado a toda a sociedade com a finalidade de coexistência pacífica entre as pessoas, cada vez mais as pessoas estão sendo sujeitadas ao medo, tendo que tomar medidas drásticas em prol de sua própria segurança, bem como a de seus entes queridos, uma vez que as políticas governamentais do país vêm se mostrando inaptas no combate à criminalidade, tendo como principal evidência os altos índices mortes causadas por casos de violência conforme explica Soares:
A sociedade brasileira, por sua complexidade, não admite simplificações nem camisas -de-força. Em São Paulo, a maioria dos homicídios dolosos encerra conflitos interpessoais, cujo desfecho seria menos grave não houvesse tamanha disponibilidade de armas de fogo (SOARES, 2015, online).
Não existem conflitos bélicos de fato no Brasil, no entanto os índices de mortalidade apontam números s uperiores à de país que sabidamente vivem em estado de guerra. No ano de 2017 registrou-se 63.680 mil mortes no país, o equivalente em média a 175 mortes por dia. De acordo com Monitor da Violência, ferramenta desenvolvida pelo Jornal G1 (BRASIL... 2018, online) em convênio com
21 o Fórum Brasileiro de Segurança Pública que verifica ao longo dos meses averiguou-se 39.183 mil mortes de casos registrados de mortes violentas, pode-se constatar também que em igual período no ano de 2017 os números eram superiores aos demonstrados no ano seguinte, apresentando redução de aproximadamente 5.550 mil vítimas em igual período.
Já de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (ANUÁRIO..., 2018, online) foram demonstradas tanto melhoras nos índices em alguns locais como pioras em alguns outros de acordo com as informações colhidas pela organização. Em 10 das 26 capitais que foram verificadas pelo Anuário, com exceção de Boa Vista que não demonstrou colheita de informações no ano de 2017, apresentaram agravamento nos índices de mortes durante o período de 2016 e 2017.
No entanto mesmo não representando maioria por totalidade de Estados existentes na federação, esse aumento ainda é bastante significativo em se tratando de número de vítimas de um ano para o outro, explicitando que embora não ocorra em todas as capitais brasileiras, nas que acontecem cobrem os números de vítimas daqueles que obtiveram êxito em diminuir as mortes (ANUÁRIO..., 2018, online).
No entanto, em estudo estatístico realizado pelo instituto onde se é possível verificar os casos de mortes realizadas com a utilização de armas de fogo em homicídios, de acordo com o IPEA (ATLAS..., 2016, online), em 10 anos houve um crescimento exacerbado nesses índices, principalmente na região norte e nordeste do país.
Os Estados como Amazonas e Pará alcançaram números alarmantes, no Estado do Pará em 1996 apenas 349 mortes eram causadas por uso de armas de fogo, em 2016 esse número subiu para o índice de 3.048 mortes anualmente. Há também o percentual calculado para cada 100 mil habitantes.
O Estado do Ceará era responsável por 5,15 mortes no ano de 1996, enquanto 10 anos depois esse valor chegou a 32,44 das mortes como pode-se comprovar no mapa abaixo
22 Figura 3 – Índices de homicídios com arma de fogo dos anos de 1006 e 2016
Fonte: Atlas da Violência/ IPEA
Segundo a World Health Statistics 2018 (WORLD... 2018, online) que é responsável por apresentar os índices mundiais de saúde. O Brasil no período de apenas 1 ano subiu duas posições no ranking de homic ídios ocorridos em Territórios Americanos, passando a ocupar sétima posição na classificação, ficando atrás de países como Honduras, Venezuela, El Salvador, Colômbia, Trindade e Tobago e Jamaica. De acordo com a página oficial da ONU - Organização das Nações Unidas no país e ainda com base no relatório apresentado pela OMS , o Brasil possui o alarmante indicador de 31,3 mortes para cada 100 mil habitantes como pode-se perceber conforme imagem retirada do próprio relatório, abaixo assinalada.
23 Figura 3 - Ranking de homicídios em território americano
24
Fonte: World Health Statistics
Ainda de acordo com página da ONU (BRASIL... 2018, online) e com base a relatórios de mesma natureza anteriores, é possível constatar que nos anos de 2012 – 2016 os índices de mortes provocadas por conflitos eram de 2,5 mortes para cada 100 mil habitantes, resultado muito superior a estimativa anterior referentes aos anos de 2007 – 2011. Vale ressaltar ainda, que relatórios anteriores (BRASIL... 2018, online) também chamaram atenção para os índices de assassinatos globais, no qual metade deles ocorriam pelo fato da população possuir fácil acesso a armas de fogo.
Outro fator importante nos índices de mortes que se tem registro é o indicado pelo Atlas da Violência, estudo estatístic o também realizado pelo IPEA (ATLAS..., 2016, online) em conjunto com Fórum Brasileiro de Segurança Pública - FBSP que reflete diretamente na desigualdade social e racial no Brasil. O estudo destacou que ocorre uma distribuição desigual na morte de brancos e negros no Brasil.
25 Os números apontam uma variação de 40,2 mortes para cada 100 mil habitantes de pessoas com a cor de pele branca e 71,5 sob a mesma proporção para pessoas negras. O fato de o país ser constituído em sua maioria por pessoas negras, esses dados ainda apontam uma predominância no fator social e a deficiência de políticas públicas no Brasil.
2.2 INSTRUMENTOS DE EFETIVAÇÃO NO COMBATE À VIOLÊNCIA
A violência pode se caracterizar por vários meios e por diversas causas, podendo ser expressada através de inúmeras formas, algumas mais comuns, já denominadas pela sociedade e também pelo sistema legal acompanhadas de sanções compatíveis com a espécie de agressão.
De acordo com a norma penal vigente no país, a violência pode se manifestar na forma de feminicídio, violências contra homossexuais, estupro, violência policial, abuso infantil, violência no trânsito, narcotráfico, violência no campo, violência urbana, roubos e assaltos dentre outras. Essas espécies de ataques, acontecem com bastante frequênc ia, e são comuns não só no Brasil como também pelo restante do mundo, muito embora a sua incidência tenha aumentado absurdamente com o passar dos tempos no país, fazendo parte cada vez mais do cotidiano da população.
O Brasil vem sofrendo a bastante tempo com situações que geram insegurança para o corpo social. Muitos desses casos são gerados conjuntamente tanto pela omissão do Poder Público em si, bem como pela má administração de políticas públicas eficientes direcionadas para a área. O Poder Legislativo do país, na maior parte das vezes opta por uma forma de gestão voltada precipuamente para a atuação repressiva, ou seja, visando apenas a aplicando punições direcionadas a prática de atos predeterminados. Não há de fato no Brasil, uma cultura que priorize operar de forma preventiva de modo geral, principalmente em se tratando de situações que possam ser impulsionadoras de casos de violência.
A população brasileira a cada dia que passa, encontra-se cada vez mais emergida e oprimida pelos casos de violência que a cercam, todos os dias assaltos, roubos, assassinatos dentre muitos outros assolam a sociedade, transmitindo a todos sentimentos como medo e pavor, mas também indignação. A muito tempo que
26 a violência no Brasil deixou de ser considerada como exceção e passou a ser a regra no cotidiano da população, tornando-se uma doença social epidêmica.
Existem diversos aspectos que acabam sendo responsáveis pela crise na segurança pública, tais como: fatores social, cultural e financeiro de cada país. No Brasil há a incidência direta de todos os três, e é possível constatar que há de certa forma uma equivalência entre todos.
Porém, nos últimos anos possibilitou-se depreender que a sociedade está sendo bastante influenciada culturalmente no que diz respeito aos casos de violência, pois diferente de como acontecia em algumas décadas, a intolerância de modo geral deixou de ser velada e passou a habitar o cotidiano de várias pessoas, principal prova disso são os inúmeros casos de agressão que acontecem principalmente contra mulheres, a comunidade LGBTQ1 e também contra moradores de rua. De acordo com estudo realizado pela Comissão interamericana de Direitos Humanos – CIDH, somente nos dois primeiros meses do ano de 2019 foram registrados 126 casos de assassinatos contra mulheres em razão de seu gênero e 67 casos de tentativa. As ocorrências foram exaradas em cerca de 159 cidades presentes nos 26 Estados da Federação.
Deve-se salientar também que entre os meses de janeiro a novembro de 2018 foram registrados 377 somente contra as mulheres somente no Estado de São Paulo. Ainda segundo a página oficial do Senado (CIDH...2019, online), de acordo com outro estudo realizado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe - CEPAL, pertencente a Organização das Nações Unidas – ONU, 40% dos casos de homicídio contra mulheres registrados no Caribe e na América Latina, acontecem no Brasil. A Comissão demonstrou bastante preocupada com a situação:
A CIDH enfatiza que os assassinatos de mulheres não se tratam de um problema isolado e são sintomas de um padrão de violência de gênero contra elas em todo o país, resultado de valores machistas profundamente arraigados na sociedade brasileira. Da mesma forma, a Comissão alerta
1
O termo é usado para representar gays , lésbicas, bissexuais e, frequentemente, também as pessoas transgênero ou transexuais, de forma a significar a sigla LGBT. O ‘Q’ s ignifica Queer ou genderqueer que designa pessoas que não seguem o padrão da heterossexualidade ou do binarismo de gênero.
27 para o aumento dos riscos enfrentados por mulheres em situação de particular vulnerabilidade por conta de sua origem étnico-racial, sua orientação sexual, sua identidade de gênero - real ou percebida -, em situação de mobilidade humana, aquelas que vivem em situação de pobreza, as mulheres na política, periodistas e mulheres defensoras dos direitos humanos. Durante a visita in loco ao país, em novembro de 2018, a CIDH observou, em particular, a existência de interseções entre violência, racismo e machismo, refletidas no aumento generalizado de homicídios de mulheres negras. Ademais, a Comissão vê com preocupação a tolerância social que perdura diante dessa forma de violência, bem como a impunidade que continua caracterizando esses graves casos.
Uma das principais causas do descontrole que envolve a violência atualmente é o fato de que não há efetivamente a promoção de políticas por parte dos administradores que visem a capacitação bem como a conscientização da população de modo geral no país, para que a partir dessas ações, se possibilite que a pratica de determinados atos sejam coibidas e impedidas, priorizando dessa forma, a não atuação do agente na conduta, em vez de apenas se expectar que a agressão se concretize e só após a sua consumação o Estado poder aplicar a sua devida punição. A fim de evitar que ela se alastre de forma ainda mais irrevogável é imprescindível que sejam realizadas ações com o intuito de possibilitar o combate eficiente da violência.
É necessário que haja investimento estatal na promoção de políticas públicas a fim de se alcançar algum êxito no combate efetivo à violência. No entanto, a melhor maneira de se combater a violência, ainda é o investimento na educação da população. Tal resolução abre espaço também para a ampliação da utilização de meios de solução de litígios restaurativos, permitindo que através de métodos como mediação, conciliação resolva-se os conflitos pacificamente, sem que seja necessário recorrer a violência, uma vez que conflitos entre seres humanos fazem parte da vida de qualquer ser que vive em sociedade. (AGOSTINELLI, 2016, online) Culturalmente, não faz parte do processo governamental do Brasil esse tipo de iniciativa, uma vez que se prioriza ações repressivas. No entanto tem -se demonstrado interesse em promover ações de combate à violência de modo geral, um exemplo disso foi a campanha do desarmamento realizada o ano de 2003, com
28 o intuito de desarmar a população para que assim se conseguisse amenizar os casos de agressões com utilização de armas de fogo e consequentemente diminuir a violência no país.
Ainda com o objetivo de desarmar a sociedade, em 2011 a Polícia Federal organizou uma nova campanha com o intuito de retirar de circulação o maior número possível de armas de fogo registradas ou não. A fim de incentivar as pessoas a entregarem as armas foi oferecido valor de recompensa que variavam depender do tipo da arma que estava sendo entregue pelo cidadão, como já abordado anteriormente.
A fim de alcançar algum sucesso na árdua tarefa de diminuir os casos de violência existentes no país, existem projetos propostos por gestores com o intuito de coibir a prática de atos violentos pelas pessoas, alguns desses os gestores buscam desenvolver projetos que representem qualquer avanço na tarefa, como por exemplo a própria Lei nº 10.826/03, lei do desarmamento, assim como a inclusão do feminicídio no art. 121 do Código Penal Brasileiro, a criação da Lei nº 11.340/06 conhecida popularmente como Lei Maria da Penha, entre outras. No entanto embora existam esses instrumentos, nenhum deles conseguiu de fato demonstrar efetividade na diminuição dos casos de violência específica que essas leis buscam impedir.
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3. HISTÓRICO DO DESARMAMENTO NO BRASIL
O Brasil nem sempre adotou a postura que se dispõe a limitar o acesso a armas de fogo. Em um passado não muito distante, havia uma maior tolerância no que diz respeito à posse e porte dessas armas, numa época onde era possível que a aquisição ocorresse sem maiores problemas, e para a obtenção da autorização de posse dependia apenas de uma simples aquiescência da autoridade competente. Era de fato uma outra realidade bastante diferente daquela enfrentada nos dias de hoje, a qual existem diversas restrições impostas pelo governo no que tange à possibilidade de se ter a posse, bem como a sua comercialização e aquisição segundo afirma Gil Alessi (2007, online).
Acontece que essa rigidez legal só passou a ser imposta à sociedade brasileira no ano de 2003, com a entrada em vigor da Lei nº 10.826, denominada de Estatuto do Desarmamento. Antes dessa lei, outros instrumentos legais disciplinavam o uso de armas de fogo no território nacional como, por exemplo, o Decreto-lei nº 3.688/41, o qual tipificava como contravenção penal o porte de arma. No entanto, a Lei nº 9.437, de 20 de fevereiro de 1997, que instituía a criação do SINARM – Sistema Nacional de Armas, órgão federal2 responsável pelo processo de registro e cadastramento de armas de fogo, bem como a obtenção de autorização para se possuir e portar o equipamento e ainda definia diretrizes gerais acerca dos crimes e penalidades envolvendo o não cumprimento das regras existentes nesta lei.
3.1 A AQUISIÇÃO LIVRE DE ARMAS DE FOGO
Ainda de acordo com Gil Alessi (2007, online), a comercialização de armas no Brasil, até o ano de 2003 ocorria livremente, sem que houvesse um grande esforço por parte do governo para proceder com a devida fiscalização, mesmo porque não havia regulamentação quanto à publicidade empregada a esses objetos.
A venda ocorria em grandes lojas de departamento e estabelecimentos comerciais dos mais variados, podendo ser encontradas também dentro de shopping
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O órgão foi instituído no Ministério da Justiça, no âmbito da Polícia Federal, com circunscrição em todo o território nacional.
30 centers, junto com artigos esportivos e de pesca, locais onde ficavam expostas para aqueles que tivessem interesse e condições financeiras para adquiri -las, porém ainda sim, fazia-se necessário o cumprimento de requisitos para a aquisição, muito embora não passasse de mera burocracia para se atingir o fim desejado.
A aquisição das armas de fogo nos anos que antecederam a lei do desarmamento, acontecia com tamanha frequência que havia propagandas publicitárias ofertando o produto, e, em sua maioria, feitas de forma bastante similar àquelas empreendidas na venda de objetos de uso doméstico da população, como uma geladeira ou um carro, por exemplo. Elas eram promovidas através de cartazes publicitários na maioria das vezes, e foram bastante populares.
Utilizavam de subterfúgios apelativos como a deficiência constante de segurança pública e a necessidade do cidadão de se autodefender, permitindo ainda que houvesse o parcelamento da compra para melhor comodidade do consumidor como demonstrado nas imagens abaixo, que tratam de campanhas de empresas especializadas na fabricação de armas de fogo entre as décadas de 70 e 80. Porém existem propagadas comerciais que datam dos anos 30, com teor semelhante às mais modernas.
Figura1 – Propaganda de armas marca Taurus.
31 Figura 2 -Férias com segurança
Fonte: Propagandas Históricas
De acordo ainda com Gil Alessi (2007, online), o quadro social daquele tempo demonstrava a facilidade de se possuir um objeto tão perigos o como uma arma de fogo. Porém, não demorou para que a população se encontrasse amedrontada com a crescente onda de violência presente no país. Um cenário de caos absoluto ameaçava instalar-se indefinidamente caso não fossem tomadas medidas a fim de coibir o acesso irrestrito ao equipamento, visto que, embora houvesse uma norma proibitiva de aquisição de porte de armas por particulares, esta era facilmente burlada por ser muito genérica, dando margem ao aumento de crimes.
A alteração na legislação era essencial para devolver o cidadão brasileiro o mínimo de tranquilidade necessária para se viver em paz, uma vez que o acesso a essas armas alcançava a todos, inclusive delinquentes. De acordo com BA TISTA (2009) mais de 80% dos crimes efetuados no período que antecedeu o Estatuto do desarmamento foram cometidos com o auxílio de armas de fogo.
Até a Lei nº 10.826/03 entrar definitivamente em vigor, o contexto histórico e cultural no país era bastante distinto do vivido atualmente, trazendo mudanças expressivas de uma norma para a outra. A nova lei buscou tratar de
32 forma mais rígida o assunto, estabelecendo diretrizes especificas e com teor bem mais proibitivo, principalmente no que tange à regulamentaç ão relativa ao comércio de armas de fogo, bem como determinou diversas regras quanto à possibilidade de se ter a posse ou o porte do instrumento entre outras novas diretrizes acerca do assunto, dessa forma começou a se discutir cada vez mais sobre a liberação de armas de fogo para a população, se era de fato algo positivo para a sociedade como um todo, como explica Batista:
Foi neste ano que apareceram os primeiros movimentos pró-desarmamento no Brasil e o controle de armas de fogo começou a entrar na pauta de preocupações nacional. Os movimentos não pararam. Organizações passaram a realizar eventos e atos públicos chamando a atenção da população brasileira. Somando-se a isso, os dados e pesquisas que apareciam mostravam relação direta entre o fácil acesso às armas de fogo e o aumento do número de homicídios, comprovando que quanto mais armas em circulação, mais morte. (BATISTA, 2009, online)
Frente o cenário vivido pela população, pequenos grupos de pessoas começaram a organizar manifestações com o apoio de ONGs que logo ganharam notoriedade, cujo objetivo era chamar atenção da mídia e das pessoas para as consequências de uma sociedade armada, chamando atenção para o aumento alarmante de incidentes resultando morte por causa de armas de fogo nas mais diferentes situações.
O ápice do movimento desarmamentista aconteceu com a chamada “Marcha silenciosa”, evento no qual reuniu por volta de 4 mil pessoas na Avenida Paulista, em São Paulo, onde os manifestantes depositaram no chão diversos pares de sapatos catalogados com nome e idade de pessoas mortas em função da utilização de armas de fogo, ao todo foram cerca de mil pares de sapatos dessas vítimas. A manifestação ocorreu em 2002 e demonstrava o repúdio popular à utilização irrestrita de armas de fogo e acontec eu um ano antes à entrada em vigor da Lei nº 10.826/03, segundo próprias palavras do o diretor do Sou da Paz, Denis Mizne: ''Não basta polícia, se não estiver perto da comunidade. Não basta prisão, se não recupera. Não basta repressão sem prevenção.'' (MARCHA..., 2002, online)
Tendo em vista a insatisfação constante da população, o acelerado aumento da violência no Brasil bem como as discussões frequentes acerca do tema
33 em comento, prevendo as grandes mudanças que a nova legislação armamentista, o legislador tratou de outorgar à população o poder de decisão quanto a possibilidade de se permitir ou não o porte de armas de fogo de acordo como o previsto em lei. Dessa forma, o governo promoveu um referendo público que ocorreu em 23 de outubro de 2005. No entanto, tal referendo já nasceu preordenado na Lei nº 10.826/2003 que traz no art. 35:
Art. 35. É proibida a comercialização de arma de fogo e munição em todo o território nacional, salvo para as entidades previstas no art. 6º desta Lei.
§ 1º Este dispositivo, para entrar em vigor, dependerá de aprovação mediante referendo popular, a ser realizado em outubro de 2005.
§ 2º Em caso de aprovação do referendo popular, o disposto neste artigo entrará em vigor na data de publicação de seu resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral.
O impacto que a nova legislação causaria, que desde sua concepção já se vislumbrava a necessidade de aquiescência popular quanto o assunto e dessa forma se fez.
O Senado Federal por meio de publicação no Diário Oficial da União, no dia 08 de julho de 2005 autorizou, por meio do Decreto Legislativo nº 780, a realização do referendo. Os cidadãos foram convocados para declararem sua opinião e assim decidiu-se por permitir o comércio de armas de fogo e munição no Brasil.
A partir dessa decisão iniciaram-se diversas campanhas por parte do governo federal para que todos aqueles que detivessem em seu poder armas de fogo e munições, as entregassem mediante indenização que variavam de R$150,00 a R$450,00 e deveriam ser entregues na sede da polícia federal, observando alguns requisitos. Assim como diversas outras diretivas anteriores, esse foi um importante marco na história do Brasil, o início da política desarmamentista de fato no país.
3.2 DESARMAMENTO COMO PREMISSA SOCIAL
Inicialmente, como anseio da população (e dos meios de comunicação - ou mais precisamente por procuração tácita desta mesma população) por um
34 desarmamento geral da população, acendeu-se a chama legislativa do Congresso nacional, sendo a discussão, que se iniciou e desenvolveu na Câmara dos Deputados, sintetizada no Projeto de Lei de Relatoria do Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh. (WLASSAK, 2004, online)
O apelo popular foi decisivo para que, tanto a Câmara dos Deputados quanto o Senado Federal buscassem medidas de combate à sociedade armada existente naquele momento. Foi nessa esteira que o Deputado Luiz Eduardo Greennhalgh (2003), redigiu um relatório explicitando que com base em estudos promovidos pela ONU, que em se tratando de homicídios praticados com o auxílio de armas de fogo, o Brasil ocupava o primeiro lugar no ranking mundial, tornando impossível não se fazer o link entre esses casos e o fato de armas de fogo serem vendidas com tamanha facilidade, uma vez que anteriormente à vigência do Estatuto do Desarmamento era possível a sua venda para qualquer cidadão maior de 21 anos de idade que tivesse interesse e condições financeiras de possuir tal instrumento e não tivesse passagem pela polícia.
Ainda, segundo o relatório já citado, ele afirmava que de acordo com pesquisa realizada pelo jornal Datafolha na cidade de São Paulo, em 1997 era possível encontrar armas de fogo em 8% dos lares brasileiros, sendo acompanhada por números similares em pesquisa de igual teor ocorrida no ano anterior na cidade do Rio de Janeiro a qual constatou-se que em 9% das residências do estado existiam o instrumento e que crescia a cada ano.
O problema não consistia apenas na compra e venda de armas por civis, mas principalmente pelos casos dos armamentos ilegais, pois da mes ma forma que os indivíduos conseguiam ter fácil acesso ao equipamento, o mesmo ocorria para criminosos, como demonstra o trecho do relatório de Greennhalgh citado abaixo:
É possível ter-se uma ideia da quantidade de armas de fogo em circulação a partir dos dados de apreensão de armas ilegais feitas pela polícia. Se forem considerados apenas os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, que juntos representam 33% das compras de armas no país, as apreensões chegam a cerca de 3.000 armas por mês ou
35 36.000 armas por ano3. (dados estatísticos de 1997). (GREENNHALGH, 2003, p.4)
Fato é que a venda desregrada e facilitada de armas de fogo estava afetando diretamente o cotidiano do brasileiro, assim como também influenciava a criminalidade e aumento nos índices de mortes causadas pelo objeto no país, obrigando a população a clamar por uma medida drástica que pusesse um fim ou pelo menos amenizasse tais circunstâncias.
3.3 A FLEXIBILIZAÇÃO DA POSSE DE ARMA INSTITUÍDA PELO DECRETO Nº
9.685/2019 – MODIFICAÇÕES AO DECRETO Nº 5.123/2004
Em 15 de janeiro de 2019 foi assinado o Decreto de nº 9.685/2019, que determina novas nuances acerca de registro, posse e comercialização de armas de fogo assim como a possibilidade de venda de munição para elas, trata também sobre o Sistema Nacional de Armas - SINARM e define punições para a utilização de armas de fogo fora dos limites autorizados por lei, alterando de forma sensível algumas diretrizes contidas na Lei nº10.826, substituindo o Decreto nº 5.123 de 01 de julho de 2004 que dispunha de forma mais rígida algumas das especificações discutidas na nova legislação.
Muito embora a nova determinação tenha como preceito fundamental uma maior flexibilização no que tange à possibilidade de cidadãos possuírem esse tipo de equipamento, vale ressaltar que a lei anterior já possibilitava essa aquisição, desde que mediante o cumprimento de determinados requisitos previstos na norma legal. As alterações consubstanciadas no novo decreto não alteram de forma realmente significativa as resoluções anteriores.
As novas regras tratam essencialmente acerca de quem são os sujeitos de legítimo direito para a autorização da posse de arma de fogo, bem como as qualificações de cada interessado para alcançar êxito em tal empreitada, trata ainda da quantidade máxima de armas que cada possuidor tem direito, dentre outras especificações.
A legislação reformista trouxe diversas novidades, algumas delas bastante específicas, porém a mais notável consiste na flexibilização da imposição
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36 trazida anteriormente, que consistia na demonstração de efetiva necessidade para que se possuísse uma arma de fogo, no entanto o novo decreto em seu art. 124, parágrafo primeiro, flexibilizou a assertiva permitindo que fossem consideradas verídicas todas as informações contidas no documento que declarava a efetiva necessidade do cidadão de possuir o arma de fogo.
Essa questão era o principal empecilho para que se adquirisse a posse do objeto, bem como retira a discricionariedade da Polícia Federal no que tange decisões acerca de quem possui direito de ter acesso ao armamento, bastando unicamente o cumprimento dos requisitos presentes em lei.
Dentre as situações apresentadas pelo decreto em análise, também encontram-se algumas alterações realizadas anteriormente a ele mas que foram validadas pelo novo decreto, como por exemplo, a desnecessidade de apresentação de cópia autenticada do documento de identificação original, sendo possível apresentar apenas o documento original acompanhado de uma cópia simples, como aduz o art. 12 em seu inciso III5 da nova legislação. A dispensa da autenticação decorre da Lei nº 13.726, de 08 de outubro de 2018, a qual Racionaliza atos e procedimentos administrativos dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e institui o Selo de Desburocrati zação e Simplificação.
Alteraram-se também as diretrizes quanto a apresentação de certidões de antecedentes criminais para comprovação de idoneidade daquele que almeja ter permitido o uso de armas de fogo, antes apresentava-se apenas no momento em que se fazia o pedido para aquisição do Certificado de Registro6.
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A rt. 12. Para adquirir arma de f ogo de uso permitido o interessado deverá:I - Declarar ef etiva necessidade;
§ 1º Presume-se a veracidade dos f atos e das circunstâncias af irmadas na declaração de ef etiva necessidade a que se ref ere o inciso I do caput, a qual será examinada pela Polícia Federal nos termos deste artigo.(Redação dada pelo Decreto nº 9.685, de 2019)
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III - apresentar original e cópia, ou cópia autenticada, de documento de identif icação pessoal; (Redação dada pelo Decreto nº 6.715, de 2008).
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IV - comprovar, em seu pedido de aquisição do Certificado de Registro de Arma de Fogo e periodicamente, a idoneidade e a inexistência de inquérito policial ou processo criminal, por meio de certidões de antecedentes criminais da Justiça Federal, Es tadual, Militar e Eleitoral, que poderão ser fornecidas por meio eletrônico; (Redação dada pelo Decreto nº 8.935, de 2016)
37 Bem como a demonstração de capacidade técnica para o devido manuseio do armamento. Ambas as situações devem ser atestadas de forma periódica, diferentemente de como acontecia na norma predecessora, quando a confirmação de aptidão era exigida somente no momento da requisição ou registro. VI - comprovar, em seu pedido de aquisição do Certificado de Registro de Arma de Fogo e periodicamente, a capacidade técnica para o manuseio de arma de fogo; (Redação dada pelo Decreto nº 8.935, de 2016).
Vale ressaltar que na legislação atual essa certificação está atrelada à determinação contida em outros dispositivos.
Ambas as orientações citadas anteriormente, foram reafirmadas e complementadas pelo Decreto nº 9.685 de 2019 com a implementação dos arts. 16, § 2º e, 18, § 3º:
Art. 16. O Certificado de Registro de Arma de Fogo expedido pela Polícia Federal, precedido de cadastro no SINARM, tem validade em todo o território nacional e autoriza o seu proprietário a manter a arma de fogo exclusivamente no interior de sua residência ou dependência desta, ou, ainda, no seu local de trabalho, desde que seja ele o titular ou o responsável legal pelo estabelecimento ou empresa.
§ 2º Os requisitos de que tratam os incisos IV, V, VI e VII do caput do art. 12 deverão ser comprovados, periodicamente, a cada dez anos, junto à Polícia Federal, para fins de renovação do Certific ado de Registro. (grifos meus)
[...]
Art. 18. Compete ao Comando do Exército autorizar a aquisição e registrar as armas de fogo de uso restrito. § 3ºOs requisitos de que tratam os incisos IV, V, VI e VII do caput do art. 12 deverão ser comprovados, periodicamente, a cada dez anos, junto ao Comando do Exército, para fins de renovação do Certificado de Registro.
Esses artigos foram encarregados de determinar em seus parágrafos, que o período ao qual a apresentação de certidões de antecedentes criminais em todos
38 os âmbitos pertinentes e a demonstração de competência específica no manejo de armas de fogo, corresponde ao prazo de 10 anos, para que assim possa se renovar o registro.
No entanto, alguns requisitos para aquisição de armas de fogo de uso permitido mantiveram-se inalterados tais como os incisos I, II, V, VII e VIII do art. 12 do decreto em estudo. Os incisos destacados correspondem à necessidade de apresentação de comprovação de efetiva necessidade, possuir idade mínima de 25 anos, apresentação de documento válido para comprovação de emprego lícito e residência fixa, apresentação de laudo psicológico comprovando aptidão para o manuseio do equipamento:
Art. 12. Para adquirir arma de fogo de uso permitido o interessado deverá:
I - Declarar efetiva necessidade;
II - Ter, no mínimo, vinte e cinco anos;
V - Apresentar documento comprobatório de ocupação lícita e de residência certa;
VII - comprovar aptidão psicológica para o manuseio de arma de fogo, atestada em laudo conclusivo fornecido por psicólogo do quadro da Polícia Federal ou por esta credenciado.
O Decreto nº 9.685 de 2019 não foi responsável apenas por incorporar à lei antecedente mudanças de sentido de alguns dispositivos preexistentes, ele também acresceu modificações expressivas e inovadoras. Dessa forma, as mudanças mais significantes foram anexadas ao art. 12, onde foi incluído o inciso VIII7, que exige a comprovação de existência de cofres de segurança ou seu equivalente nos locais onde residem crianças, adolescentes ou pessoas portadoras de algum tipo de deficiência mental.
Assim como também foram adicionados os parágrafos 7º, 8º, 9º e 10º, que tratam de novas regras para aquisição de armas de fogo de uso permitido.
A principal finalidade para que se possibilitasse a incidência das alterações realizadas na lei predecessora, foi o propósito de flexibilizar o acesso de
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V III - na hipótese de residência habitada também por criança, adolescente ou pessoa com def iciência mental, apresentar declaração de que a sua residência possui cof re ou local seguro com tranca para armazenamento. (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019)
39 armas de fogo de uso permitido da população em geral. Sendo assim, muito embora não se tenha elastecido o rol de titulares ao ponto de se permitir que todos os cidadãos que tivessem interesse obtivessem a concessão, as novas alterações permitem que um número muito maior de indivíduos obtenha a permissão para tal. O § 7º do art. 12 do novo decreto foi incumbido de apresentar essas alterações, propiciando diversas inovações, como as que veremos a seguir.
§ 7º Para a aquisição de armas de fogo de uso permitido, considera-se presente a efetiva necessidade nas seguintes hipóteses: (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019)
Nesse contexto pode-se perceber que a disposição que no decreto anterior era considerado de presunção relativa, com a inclusão desse dispositivo torna-se presunção absoluta, levando-se em conta que a norma pressupõe efetiva necessidade daqueles que são sujeitos de direito perante a lei .
De acordo com a nova norma, possuem legitimidade para aquisição todos aqueles elencados nos incisos I ao VI do § 7º, do referido artigo8.
A partir dessa nova perspectiva, é possível notar que muito embora a legitimação não alcance a todos, de forma que consegue abranger um número considerado de outorgados, já que de acordo como aduzem os incisos, são titulares
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I - agentes públicos, inclusive os inativos: (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019)a) da área de segurança pública; (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019)
b) integrantes das carreiras da A gência Brasileira de Inteligência; (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019)
c) da administração penitenciária; (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019)
d) do sistema socioeducativo, desde que lotados nas unidades de internação a que se ref ere o inciso V I do caput do art. 112 da Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990; e (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019)
e) envolvidos no exercício de atividades de poder de polícia administrativa ou de correição em caráter permanente; (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019)
II - militares ativos e inativos; (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019) III - residentes em área rural; (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019)
IV - residentes em áreas urbanas com elevados índices de violência, assim consideradas aquelas localizadas em unidades f ederativas com índices anuais de mais de dez homicídios por cem mil habitantes, no ano de 2016, conf orme os dados do A tlas da V iolência 2018, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica A plicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública; (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019)
V - titulares ou responsáveis legais de estabelecimentos comerciais ou industriais; e (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019)
V I - Colecionadores, atiradores e caçadores, devidamente registrados no Comando do Exército. (Incluído pelo Decreto nº 9.685/2019)
40 de direitos desde agentes da vigilância sanitária bem com o moradores de zonas rurais ou urbanas com grande índice de criminalidade.
Juntamente com o aumento de legitimados, a nova legislação também inovou ao permitir que os indivíduos mencionados acima possam adquirir até 04 armas de fogo por pessoa, o que antes não era possível, porém, essa quantidade não é obrigatória, visto que o próprio dispositivo prevê a possibilidade de se alcançar autorização para um número maior do que o estabelecido:
§ 8º O disposto no § 7º se aplica para a aquisição de até quatro armas de fogo de uso permitido e não exclui a caracterização da efetiva necessidade se presentes outros fatos e circunstâncias que a justifiquem, inclusive para a aquisição de armas de fogo de uso permitido em quantidade superior a esse limite, conforme legislação vigente. (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019)
Por fim, o legislador buscou estabelecer critérios que serão responsáveis pelo indeferimento ou cancelamento do registro, tais como:
§ 9º Constituem razões para o indeferimento do pedido ou para o cancelamento do registro: (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019)
I - a ausência dos requisitos a que se referem os incisos I a VII do caput; e (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019) II - quando houver comprovação de que o requerente: (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019)
a) prestou a declaração de efetiva necessidade com afirmações falsas; (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019) b) mantém vínculo com grupos criminosos; e (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019)
c) age como pessoa interposta de quem não preenche os requisitos a que se referem os incisos I a VII do caput. (Incluído pelo Decreto nº 9.685, de 2019)
§ 10. A inobservância do disposto no inciso VIII do caput sujeitará o interessado à pena prevista no art. 13 da Lei nº 10.826, de 2003.
A mudança normativa vem na contramão do Estatuto do Desarmanento, mas talvez por causa do ranking de mortalidade por armas de fogo que o Brasil
41 apresenta segundo o Global Mortality from firearms9, 1990 - 2016 do Instituto de métricas e avaliação em saúde do Institute for Health Metrics and Evaluation10, o país soma 43.200 mortes. O Brasil lidera esse ranking, seguido pelos Estados Unidos.
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Dis ponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2698492. Acesso em: 23 de março de 2019.
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4. A FLEXIBILIZAÇÃO DA POSSE DA ARMA DE FOGO REDUZIRÁ A
VIOLÊNCIA?
Com assinatura do novo Decreto nº 9.685/2019, que regulamenta e acrescenta novas diretrizes à Lei nº 10.826/03 – Estatuto do desarmamento - trouxe algumas mudanças significativas no que tange ao acesso da população a armas de fogo.
A nova legislação ampliou o rol de legitimados assim com incluiu algumas situações específicas que possibilitam o uso permitido do objeto. Há uma diferença colossal entre portar e possui uma arma e tanto na regulamentação anterior como na agora vigente, o legislador tratou apenas de disciplinar a posse da arma de fogo e em ambas as versões o porte é considerado restrito aos cidadãos comuns.
A posse e o porte da arma de fogo são condutas diferentes, embora semanticamente se assimilem, nenhuma das duas guardam qualquer semelhança. A posse consiste na faculdade dada pelo Es tado do indivíduo, que mediante cumprimento de requisitos previstos em lei, ser autorizado a manter em seu domicilio ou em seu local de trabalho o instrumento, é apenas a possibilidade de se ter a arma em determinado recinto, não podendo leva-la para qualquer outro local, sob pena de cometimento de crime (ENTENDA... 2019, online).
Em se tratando do porte de arma de fogo, o indivíduo que é legitimado perante a lei pode transportar a arma de um local a outro sem que haja descumprimento de preceito legal.
De acordo com o art. 6º, do Estatuto do Desarmamento, o porte de armas de fogo é completamente proibido dentro do território nacional, com exceção dos Integrantes das forças armadas, integrantes de alguns órgãos determinados pelo artigo 144 da Constituição Federal e da Força Nacional de Segurança Pública, guardas municipais das capitais dos Estados e dos Municípios com mais de 500.000 ou com menos de 500.000 habitantes quando em serviço, agentes operacionais da Agência Brasileira de Inteligência e os agentes do Departamento de Segurança do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, dos órgãos policiais referidos no art. 51, IV, e no art. 52, XIII, da Constituição Federal.