http://tede.mackenzie.br/jspui/bitstream/tede/3808/5/Hugo%20de%20Souza%20Garbe Disserta%C3%A7%C3%A3o
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(2) HUGO GARBE. A crise econômica brasileira no período 2014-2016: determinantes internos ou externos?. Dissertação apresentada como exigência para obtenção do título de Mestre em Economia e Mercados sob orientação do Professor Doutor Pedro Raffy Vartanian no Programa de Mestrado em Economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.. São Paulo 2018.
(3) G213c Garbe, Hugo de Souza. A crise econômica brasileira no período 2014-2016: determinados Internos ou externos? / Hugo de Souza Garbe. 50 f. : il. ; 30 cm Dissertação (Mestrado Profissional em Economia e Mercados) Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2018. Orientador: Pedro Raffy Vartanian Bibliografia: f. 47-50. 1.Crise. 2. Economia. 3. Brasil. I. Vartanian, Pedro Raffy, orientador. II. Título. CDD 658.4056. Bibliotecário Responsável: Silvania W. Martins – CRB 8/ 7282.
(4) HUGO GARBE. A crise econômica brasileira no período 2014-2016: determinantes internos ou externos?. Dissertação apresentada como exigência para obtenção do título de Mestre em Economia e Mercados sob orientação do Professor Doutor Pedro Raffy Vartanian no Programa de Mestrado em Economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Aprovada em: BANCA EXAMINADORA __________________________________________________________ Prof. Dr. Pedro Raffy Vartanian Universidade Presbiteriana Mackenzie __________________________________________________________ Prof. Dr. Vladimir Fernandes Maciel Universidade Presbiteriana Mackenzie __________________________________________________________ Prof. Dr. George André Willrich Sales Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas e Financeiras - Fipecafi.
(5) AGRADECIMENTOS Meus sinceros agradecimentos ao meu orientador, Professor Doutor Pedro Raffy Vartanian, com quem tive a sorte e o privilégio da convivência. Aos Professores da Banca de Qualificação, Vladimir Maciel e George Sales, pela forma paciente e produtiva com que contribuíram para o desenvolvimento deste trabalho. Aos colegas do curso de Mestrado em Economia e Mercados do Mackenzie com quem tive o prazer de conviver. Ao meus Pais, Paulo Garbe e Eva Garbe, e aos meus irmãos, Felipe, Douglas e Bianca Garbe. À Alessandra Garbe, incentivadora e companheira de todas as horas. Ao meu filho, Raul Garbe, meu amor incondicional. A Deus, o maior de todos os Homens..
(6) Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis. (Berdolt Brech).
(7) RESUMO As crises econômicas são decorrentes de variáveis macroeconômicas internas ou de pressão da economia internacional. Após a crise econômica brasileira de 2015, observou-se que as variáveis internas tiveram impacto direto em sua causa. Esse comportamento foi atribuído, entre diversos fatores, ao conjunto de incertezas no ambiente econômico e regulatório. O presente trabalho analisa os principais determinantes da crise econômica brasileira de 2014 a 2016. A pesquisa tem como variável dependente o PIB brasileiro de 2008 a 2017 com séries trimestrais e utiliza variáveis independentes, como o PIB americano, o PIB mundial e a inflação americana, para analisar se há, efetivamente, impacto no desempenho da economia nacional. Palavras-chave: Crise, Economia, Mercados.
(8) ABSTRACT Economic crises are due to internal macroeconomic variables or under pressure from the international economy. After the Brazilian economic crisis of 2015, it was observed that the internal variables had a direct impact on its cause. This behavior was attributed, among several factors, to the set of uncertainties in the economic and regulatory environment. The present study seeks to analyze the main determinants of the Brazilian economic crisis from 2014 to 2016. The dependent variable is the Brazilian GDP from 2008 to 2017 with quarterly series and uses independent variables such as the American, World and US GDP, to analyze whether there is an effective impact on the performance of the national economy. Keywords: Crisis, Economics, Markets.
(9) LISTA DE ILUSTRAÇÕES Gráfico 1 - Dívida Bruta do Governo Geral (% PIB) .................................................. 35 Gráfico 2 - Balança Comercial Brasileira ................................................................... 36 Gráfico 3 - PIB e Taxa de Juros - EUA ...................................................................... 37 Gráfico 4 - Juros Brasileiros ...................................................................................... 38 Gráfico 5 - Variação do PIB - Brasil........................................................................... 39 Gráfico 6 - Variáveis em Nível ................................................................................... 40 Gráfico 7 - Variáveis Diferenciadas ........................................................................... 41.
(10) LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Definições das Variáveis .......................................................................... 33 Tabela 2 - Testes de Defasagem .............................................................................. 34 Tabela 3 - Teste de Raiz Unitária Dickey-Fuller Aumentado (ADF) .......................... 40 Tabela 4 - Testes de Defasagem .............................................................................. 42 Tabela 5 - Testes de Granger-Causalidade .............................................................. 43 Tabela 6 - Resumo dos Resultados do Teste de Granger-Causalidade ................... 44.
(11) LISTA SIGLAS ADF. Teste de Raiz Unitária Dickey-Fuller Aumentado. BC. Banco Central do Brasil. BNDES. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. BRL. Reais. Caged. Cadastro Geral de Empregados e Desempregados. CMN. Conselho Monetário Nacional. Cofins. Contribuição para Financiamento da Seguridade Social. EUA. Estados Unidos da América. FATCA. Foreign Account Tax Compliance Act. FGV. Fundação Getúlio Vargas. FHC. Fernando Henrique Cardoso. FMI. Fundo Monetário Internacional. HIRE. Hiring Incentives to Restore Employment Act. I PND. primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento. IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. IPEA. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. IPI. Imposto sobre Produtos Industrializados. LOAS. Lei Orgânica de Assistência Social. NASDAQ. National Association of Securities Dealers Automated Quotations. NYSE. New York Stock Exchange. PAC. Programa de Aceleração do Crescimento. PED. Plano Estratégico de Desenvolvimento. PIB. Produto Interno Bruto. PIS. Programa de Integração Social. RGPS. Regime Geral de Previdência Social. Selic. Sistema Especial de Liquidação e de Custódia. SFO. Serious Fraud Office. SOx. Lei Sarbanes-Oxley. USD. Dólares americanos.
(12) SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ............................................................................................... 11. 2. REFERENCIAL TEÓRICO ............................................................................. 13. 3. EVOLUÇÃO HISTÓRICA ............................................................................... 22. 3.1. O FOREIGN CORRUPT PRACTICES ACT (FCPA)....................................... 27. 3.2. O BRIBERY ACT ............................................................................................ 28. 3.3. A LEI SARBANES-OXLEY ............................................................................. 29. 3.4. O FOREIGN ACCOUNT TAX COMPLIANCE ACT (FATCA) ......................... 30. 3.5. EMPRESAS TRANSNACIONAIS, CORRUPÇÃO E CRISE ECONÔMICA .................................................................................................. 30. 4. METODOLOGIA............................................................................................. 32. 5. ANÁLISE DOS DADOS E RESULTADOS DAS ESTIMATIVAS ECONOMÉTRICAS ........................................................................................ 35. 5.1. ANÁLISE DOS DADOS .................................................................................. 35. 5.2. MODELO ECONOMÉTRICO E ANÁLISE DOS RESULTADOSS .................. 39. 5.2.1. Seleção do Número de Defasagens do Modelo ......................................... 41 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................... 46 REFERÊNCIAS .............................................................................................. 48.
(13) 11. 1 INTRODUÇÃO No período entre 2014 e 2016, a economia brasileira enfrentou a pior crise desde 1929, de acordo com o centro de investigações da FGV. O objeto de investigação deste trabalho é justamente analisar as causas dessa crise econômica brasileira de 2014 a 2016, tendo como problema de pesquisa a seguinte questão: A crise econômica brasileira do período de 2014 a 2016 foi causada predominantemente pela condução da política macroeconômica interna ou pelo cenário internacional? Este trabalho tem por objetivos específicos analisar o desempenho da economia brasileira nos períodos pré-crise (antes de 2014) e pós-crise (2015 em diante), pontuar os pilares das principais políticas econômicas brasileiras entre 2013 e 2016, comparar o desempenho econômico brasileiro com o das principais economias mundiais durante a crise, verificar possíveis vieses na política econômica nacional que tenham agravado a crise econômica, identificar os principais parceiros econômicos do Brasil e avaliar essas relações comerciais durante a crise. O trabalho se justifica pela necessidade de compreensão acadêmica da maior crise econômica brasileira registrada desde a quebra da bolsa de valores americana em 1929. A atualidade como tópico de debate e os principais fundamentos econômicos da crise destacam a relevância do tema não somente para a comunidade acadêmica, mas também para os executivos de mercado e profissionais de diversos setores. O discurso oficial do governo e da equipe econômica no período em que a crise se iniciou é o de que uma crise econômica internacional teria “contaminado” o Brasil. Dessa forma, a política interna brasileira teria tido pouca ou nenhuma interferência nessa grave crise. De fato, as crises econômicas possuem diversas variáveis, pois dependem das características da economia de cada país e, essencialmente, de suas relações comerciais. No passado, já se vivenciou a crise do petróleo, na qual países que tinham sua economia amplamente dependente da venda do produto sofreram com a recessão. O Brasil migrou, em meados de 2015, da recessão para a depressão econômica, o que oficialmente é um agravamento em sua condição como economia emergente, sendo considerada uma crise com proporções jamais vistas neste século. De acordo com os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), em 2017, o desemprego, importante vetor da economia, chegou a níveis preocupantes durante a crise econômica (MINISTÉRIO DO TRABALHO, 2018). Em.
(14) 12. 2014, 13,7 milhões de pessoas estavam formalmente desempregadas, o que contribuiu para o agravamento da crise. Para o Comitê de datação de ciclos econômicos da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em janeiro de 2017, a crise econômica brasileira foi a pior dos últimos 150 anos, com duração de 11 trimestres consecutivos, entre o segundo trimestre de 2014 e o último de 2016. De acordo com o comitê, a perda acumulada do Produto Interno Bruto (PIB) nesses 11 trimestres foi de 8,6% e, além da gravidade apresentada, também demonstra uma recuperação lenta, comparativamente a outras crises vivenciadas pelo Brasil. Faz-se necessário, então, analisar a estrutura da economia brasileira à época e seus principais pilares, uma vez que o país vivenciava, entre 2012 e 2013, um ciclo de crescimento nos principais setores da economia, com níveis recordes na taxa de emprego e incrementos de renda nas classes mais desfavorecidas. Para tanto, o presente trabalho pretende analisar o desempenho das principais economias mundiais, blocos econômicos e parceiros comerciais do Brasil, comparando os mais importantes índices e resultados econômicos a partir de 2012 até 2016. A partir daí, será feita a comparação com os resultados da economia brasileira no mesmo período, relacionando-a com eventuais movimentos negativos na economia internacional. Este trabalho é dividido em 3 partes, teoria, história e metodologia econométrica, e tem como objetivo a análise das principais variáveis determinantes da crise econômica brasileira..
(15) 13. 2 REFERENCIAL TEÓRICO O impacto das crises econômicas pode variar de acordo com as características de cada país, com a sua dependência em relação ao mercado internacional, com o seu endividamento e com as suas políticas econômicas de expansão, entre outros aspectos. Para Fiani (2011), o excesso de intervenção estatal na economia pode lesar o ambiente econômico, uma vez que o Estado não tem aptidão empreendedora e, muitas vezes, atua na economia com interesses que se opõem àqueles que gerariam crescimento econômico. Como exemplos de excesso de intervenção, têm-se as práticas comerciais e a regulação excessiva da economia, que podem acarretar expressiva queda do potencial de crescimento da economia. De acordo com Filgueiras e Gonçalves (2007), as políticas regulatórias trazem como prejuízos os custos de transação que lhes são inerentes e o incentivo a relacionamentos oportunistas entre agentes públicos e privados, gerando, por exemplo, a corrupção. Segundo Krugman e Wells (2014), as falhas governamentais acontecem quando há ineficiência sistêmica, em especial quando há ineficiência na alocação de recursos na oferta e demanda. Destacam ainda, os autores, que, na ciência econômica, as externalidades negativas podem ser consideradas falhas mercadológicas ambientais ou dos mercados de concorrência. Uma vez que há custos de transação decorrentes das políticas regulatórias, há assimetria de informação nos mercados e fragilidades institucionais e das atividades alocativas, o que gera conluios e preferências entre Estado e agentes privados, culminando com financiamentos com juros subsidiados e prazos especiais, e até mesmo com preferência de investimentos em regiões politicamente mais fortes, em detrimento das demais (FILGUEIRAS; GONÇALVES, 2007). Gordon (2005) destaca que a literatura aponta ao menos 60 variáveis que afetam o desenvolvimento e o crescimento da economia, as quais se concentram principalmente em mudanças estruturais para atenuar falhas de governo e seus efeitos danosos na economia como um todo. Por outro lado, destaca que as economias internacionalizadas estão mais suscetíveis a impactos decorrentes da conjuntura econômica internacional, uma vez que o ambiente econômico globalizado gera interdependência entre os países. Nesse sentido, Baumann, Canuto e Gonçalves (2004), esclarecem que o grau de impacto nas economias abertas depende de três fatores principais, quais sejam: da magnitude do seu mercado interno, da variedade.
(16) 14. das importações e exportações e da capacidade de produção tecnológica, comercial e monetária. Existem diversos mecanismos de disseminação internacional da instabilidade econômica, ou dos ciclos econômicos internacionais, sendo que esses mecanismos podem ser classificados entre as diferentes esferas das relações econômicas internacionais, quais sejam: comercial, produtiva, tecnológica, monetária e financeira (GORDON, 2005). Serão objeto de análise, a seguir, as esferas comercial, produtiva, e monetária. Na esfera comercial, o mecanismo mais evidente é a relação entre as exportações do país e a renda mundial. O multiplicador com repercussões externas exprime essa interdependência entre agregados macroeconômicos de dois países. Por exemplo, o declínio do investimento no país A provoca a queda na renda e nas importações desse país, o que causa a redução das exportações do país B para o país A e, portanto, a queda na renda do país B (GORDON, 2005). Por esse motivo, crises econômicas internacionais podem dar origem a pressões protecionistas em âmbito mundial e à chamada guerra comercial (escalada de medidas protecionistas). Ainda na esfera comercial, as crises globais tendem a promover a concorrência no mercado mundial via guerra cambial (escalada de desvalorizações de taxas de câmbio). As guerras comercial e cambial são instrumentos da saída mercantilista de crises econômicas. Países com elevado grau de especialização das exportações em commodities são mais suscetíveis à instabilidade econômica internacional, em razão da inconstância dos termos de troca decorrente das guerras comercial e cambial (GORDON, 2005). Na esfera produtiva, os principais mecanismos envolvem estratégias, condutas e desempenho das empresas transnacionais ou globais. Países com grau mais elevado de internacionalização da produção (desnacionalização) estão mais sujeitos aos fluxos de bens, serviços, ativos intangíveis e capital. Na conjuntura de uma crise global, esses países dependentes sofrem mais com a realocação de recursos por essas empresas transnacionais. O efeito da realocação é sentido diretamente em diversas frentes: investimento, produção, renda, emprego, finanças públicas e contas externas (MacEWAN, 1984). Na esfera monetária, enquanto a economia mundial prospera, verifica-se um mecanismo de aumento extraordinário dos fluxos financeiros internacionais, ou seja, bancos locais captam, a baixas taxas de juro, recursos em moeda estrangeira e os.
(17) 15. emprestam na moeda nacional (HARDING; PAGAN, 2006). Por outro lado, quando a economia mundial passa por uma fase menos favorável, com a contração de liquidez internacional, há recomposição de portfólio em escala global e aumento da aversão a risco (MacEWAN, 1984). Harding e Pagan (2006) afirmam que países com alta fragilidade externa estrutural (em consequência de, por exemplo, elevado passivo externo financeiro e deficit de governança) têm maior propensão a sofrer ataques especulativos. Além disso, Baumann, Canuto e Gonçalves (2004) destacam que, na esfera monetária, vale repetir, as crises internacionais mais agudas podem gerar guerra cambial, ou seja, pressões para desvalorização de moedas-chave do sistema monetário internacional, pois países com maior poder econômico têm maior capacidade de resistência às pressões para a depreciação de sua moeda. Filgueiras e Gonçalves (2007) destacam que a gestão fiscal é um elemento fundamental na determinação da dinâmica das economias monetárias de produção e que a política fiscal exerce influência, por diversos canais, sobre a demanda agregada: de forma direta, mediante impostos, gastos, transferências correntes e investimentos públicos; e, de forma indireta, mediante o efeito multiplicador sobre o consumo e o investimento privados. Baumann, Canuto e Gonçalves (2004) acrescentam que a política fiscal é capaz de afetar o crescimento econômico, tanto a curto quanto a longo prazo, inclusive favorecendo a ocorrência de mudanças estruturais, em razão de seus efeitos sobre os investimentos. Contudo, Filgueiras e Gonçalves (2007) destacam que, desde o surgimento e a consolidação das teorias e políticas macroeconômicas de cunho neoliberal, nos anos 1980, a discussão a respeito dos impactos da política fiscal na demanda agregada e no crescimento passou a exibir uma relevante mudança. Já MacEwan (1984) destaca que a capacidade da política fiscal de determinar a taxa de crescimento econômico foi superada pelo suposto efeito que os gastos públicos poderiam ter sobre os gastos privados (influência negativa). MacEwan (1984) explica ainda que a gestão fiscal ativa perdeu espaço no debate econômico e a política fiscal assumiu um papel passivo na gestão macroeconômica cotidiana, cabendo-lhe a manutenção da austeridade, enquanto a “determinação” da demanda agregada passou a caber a outras políticas, como a monetária, sempre subordinada à busca pela estabilidade inflacionária. Filgueiras e Gonçalves (2007) destacam que, segundo essa “nova” visão, cabe à política.
(18) 16. monetária intervir na demanda agregada e manter a estabilidade de preços por meio das taxas de juros e de câmbio, variáveis que, por seu turno, afetam a trajetória da dívida e do PIB; enquanto que à política fiscal cabe compensar esses efeitos sobre a dívida e aumentar o esforço fiscal quando for verificada qualquer ameaça à estabilidade da trajetória da dívida. Baumann, Canuto e Gonçalves (2004) afirmam que, dessa forma, a política fiscal assume papel. subordinado e atua. como uma âncora. do. regime. macroeconômico, cumprindo-lhe manter seu compromisso com a estabilidade e solvência da dívida, sendo que o aumento da mobilidade dos capitais internacionais na busca por rendimentos mais altos, pano de fundo dessas mudanças, também contribuiu para essa prescrição de gestão macroeconômica. Os autores complementam ainda que as finanças públicas passaram a ser um importante meio de avaliação dos mercados financeiro e de capitais, uma vez que indicadores como o superavit primário e a dívida líquida do setor público passaram a fazer parte do rol dos indicadores do risco-país, tendo sido incorporados à análise dos “fundamentos econômicos nacionais” que servem de base para a confiança dos investidores (BAUMANN; CANUTO; GONÇALVES, 2004). Oreiro e Feijó (2010) defendem que a política fiscal “responsável”, além de assegurar a sustentabilidade da dívida, atrai investidores que aceitam o prêmio de risco do país, o que contribui para o financiamento do balanço de pagamentos e para a estabilidade da taxa de câmbio. Defendem ainda que a política fiscal com bases teóricas Keynesianas, por sua vez, passou a ser identificada exclusivamente com a promoção do gasto e do deficit públicos. Oreiro e Feijó (2010) afirmam ainda que se associou à política fiscal “frouxa”, de “keynesianos”, efeitos potencialmente danosos à dívida pública, à inflação e à confiança dos investidores e que, portanto, ao “prejudicar” a estabilidade econômica, a política fiscal “keynesiana” passou a influenciar de forma negativa o crescimento econômico. Inverteu-se, com isso, a lógica keynesiana de funcionamento dos instrumentos fiscais e sua relação com a dinâmica da demanda agregada. Nesse contexto, diversos países, especialmente os em desenvolvimento, passaram a adotar política fiscal essencialmente austera, não obstante a evolução de sua economia a curto e médio prazos (BLANCHARD, 2004). Esses países também sujeitaram sua gestão fiscal aos anseios da política monetária e à imprescindibilidade.
(19) 17. de “estabilização” de sua economia, deixando, em última análise, o crescimento econômico em segundo plano (BAUMANN; CANUTO; GONÇALVES, 2004). Oreiro e Feijó (2010) explicam que, nesse mesmo período, a média da taxa de crescimento trimestral do PIB, em termos anualizados, foi de 3,6%, um pouco superior às taxas do período anterior, mas com uma trajetória de acentuada irregularidade. Explicam ainda que a partir de 2006 a política fiscal se tornou mais flexível, impactando o consumo privado, o que contribuiu para um aumento mais acentuado do investimento privado. A desaceleração do crescimento da renda decorrente do trabalho, a redução da taxa de criação líquida de empregos formais e a redução da disponibilidade de crédito explicam a perda de dinamismo do mercado de construção civil brasileiro. Isso porque a construção civil tem um efeito multiplicador importante para a economia, de forma que a sua desaceleração contribui para o aprodundamento da crise econômica (PAULA, 2017). Foi a necessidade de uma âncora nominal para a expectativa inflacionária dos agentes econômicos que levou à adoção do sistema de metas de inflação, no qual a tarefa primordial da política monetária é controlar a taxa de inflação. Nesse novo regime de política monetária, o controle da inflação ocorre essencialmente pela fixação do valor da taxa básica de juros do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic) em nível compatível com a meta inflacionária definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Além disso, o crescimento dos agregados monetários M1, M2 ou M3 - não é uma variável sobre a qual o Banco Central do Brasil (BC) tenha interesse em exercer qualquer controle (BLANCHARD, 2004). Para Oreiro e Feijó (2010), a evolução da teoria e da prática da política monetária nos países desenvolvidos demonstrou que a crescente instabilidade na velocidade de circulação da moeda, observada naqueles países após a década de 1970, tornava excessivamente frágil a relação entre a taxa de inflação e a taxa de crescimento do agregado monetário de referência. Blinder (1999) destaca que esse fenômeno levou os economistas a desenvolverem uma “nova” forma de controle da inflação. Para o autor, o BC deveria focar na relação entre a taxa de juros real efetiva e a taxa de juros real de equilíbrio, em vez de controlar o aumento da quantidade de moeda. Para Oreiro e Feijó (2010), se a taxa de juros real efetiva (correspondente aproximadamente à diferença entre a taxa nominal de juros fixada pelo BC e a taxa esperada de inflação) for superior à taxa.
(20) 18. de juros real de equilíbrio, haverá redução do nível de atividade econômica, com consequente redução da taxa de inflação. Isso se deve à existência de trade-off de curto prazo entre inflação e desemprego, expresso pela Curva de Phillips. Contudo, se a taxa de juros real efetiva for inferior à taxa de juros de equilíbrio, haverá aumento do nível de atividade econômica, com consequente aumento da taxa de inflação (OREIRO; FEIJÓ, 2010). Nesse contexto, com o intuito de manter a inflação constante, Oreiro e Feijó (2010) introduzem a ideia de que o BC deve manter o nível corrente da taxa de juros real em linha com o valor de equilíbrio da taxa de inflação, e que o instrumento usado para esse fim deve ser o controle da taxa nominal (básica) de juros. Isso significa que o BC deve aumentar a taxa nominal de juros toda vez que verificar aumento das expectativas de inflação, e, por outro lado, deve reduzir a taxa nominal de juros quando verificar uma redução da inflação esperada. Sendo assim, Blinder (1999) considera que o adequado funcionamento do sistema de metas de inflação exige que as autoridades monetárias respondam às seguintes questões fundamentais em economia: Qual deve ser a meta de taxa de inflação perseguida pelo BC? Uma meta de inflação zero deve ser perseguida no longo prazo? Se não, qual é a taxa ótima de inflação? A responsabilidade pela fixação da meta de inflação deve caber ao BC ou a alguma outra instituição, como, no caso brasileiro, o CMN? Qual o grau de autonomia que o BC deve ter na fixação da taxa de juros? As decisões tomadas pelo BC acerca desse assunto devem ser irreversíveis ou excepcionalmente reversíveis? Nesta última hipótese, como deve ser o modelo institucional para que o BC tenha tal nível de autonomia? Como são determinadas as expectativas de inflação? Essas expectativas refletem a percepção de evolução futura da taxa de inflação dos agentes formadores de preços? Ou refletem apenas a opinião dos operadores do mercado financeiro? A resposta a essas perguntas define a estrutura de governança da política monetária, ou seja, o modelo institucional no qual a política monetária é realizada. Esse modelo engloba não apenas o conjunto de instituições subjacentes à operação da política monetária, mas também os agentes envolvidos na elaboração e na execução dessa política (BLINDER, 1999). Para Oreiro e Feijó (2010), a atual estrutura de governança da política monetária brasileira não é a mais adequada para o funcionamento do sistema de metas de inflação, uma vez que apresenta como características, de um lado, a.
(21) 19. ausência de uma evidente separação entre a instituição responsável pela fixação das metas inflacionárias e a instituição responsável por atingi-la. Isso ocorre porque o Presidente do BC tem voz e voto no CMN, que é responsável pela fixação das metas inflacionárias. Portanto, a elevada influência do BC na fixação das metas inflacionárias fica evidente quando se verifica que o CMN é composto por apenas três membros, sendo eles, o Presidente do BC, o Ministro da Fazenda e o Ministro do Planejamento. De outro lado, como segunda característica da atual estrutura de governança da política monetária brasileira, verifica-se que o CMN não cumpre o requisito de representatividade das preferências sociais por inflação e desemprego que seria desejável na instituição responsável pela fixação das metas da política monetária. Nesse sentido, a teoria da política econômica de Blinder (1999) considera que os objetivos da política econômica devem ser determinados por amplo debate entre os diversos segmentos representativos da sociedade. No caso específico da política monetária, seus objetivos devem refletir o equilíbrio obtido entre o “grau de aversão social” à inflação e o “grau de aversão social” às perdas de produção e de emprego decorrentes da política de desinflação. Contudo, na estrutura atual, as metas inflacionárias não refletem um consenso social a respeito da “taxa ótima de inflação” no longo prazo e, muito menos, a respeito da velocidade na qual essa meta de longo prazo deve ser atingida. Para Baumann, Canuto e Gonçalves (2004), as linhas mestras do regime de política macroeconômica do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC) foram mantidas pelo governo Lula. São elas: o sistema de metas de inflação, os superavit primários e o câmbio flutuante. No entanto, no segundo mandato de Lula, houve certa flexibilização na gestão da política econômica até então vigente. Apesar disso, em diversos núcleos do Estado continuou forte a ideia de que as políticas econômicas só teriam efeitos sobre a estabilidade ou instabilidade de curto prazo, afetando muito pouco, ou quase nada, o desenvolvimento econômico de longo prazo (BAUMANN; CANUTO; GONÇALVES, 2004). Nesse panorama, as políticas econômicas deveriam ser voltadas à estabilização de preços, uma vez que o crescimento econômico seria decorrente do estabelecimento de normas e organizações que garantissem o direito de propriedade; à redução dos custos de transação; e à melhoria das expectativas dos agentes, potencializando assim o funcionamento completo dos mercados. Esse tipo de regime macroeconômico, que se tornou um consenso, baseia-se na new neoclassical.
(22) 20. synthesis, por meio da articulação da adoção dos sistemas de metas de inflação, da independência do BC e da política fiscal voltada exclusivamente à sustentabilidade da dívida pública. Para Gordon (2005), no sistema de metas de inflação, a atuação contracíclica do BC não deveria representar risco à estabilidade de preços no longo prazo, uma vez que haveria um viés inflacionário resultante da inconsistência temporal na condução da política econômica, sem nenhum benefício em termos de produto e emprego no longo prazo. Já para Busato e Cavalcanti (2009), a credibilidade da política econômica é importante uma vez que os agentes utilizam expectativas racionais para tomar decisões, gerando a necessidade de consistência das políticas macroeconômicas ao longo do tempo. Por isso, a autoridade monetária deveria se comprometer com a manutenção da estabilidade e o alcance das metas. A efetivação das metas desejadas, contudo, só seria possível com um BC amplamente independente, que tomasse decisões sem subordinação hierárquica a qualquer outra agência burocrática. Isso, em tese, eliminaria o viés inflacionário e, indiretamente, favoreceria o crescimento econômico. Essa situação possibilitou que o governo saldasse os empréstimos obtidos junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI), reduzisse o endividamento público externo e acumulasse reservas. Esse resultado favorável foi impulsionado pela situação internacional de crescimento mundial (até a crise de 2008), de ampla liquidez dos mercados financeiros, de elevação dos preços internacionais das commodities e de queda dos preços das manufaturas em decorrência do efeito direto e indireto da China. As modificações nos preços geraram, entre janeiro de 2003 e dezembro de 2010, um crescimento de 39,9% nos termos de troca do Brasil, o que representou um bônus macroeconômico para o país, permitindo um crescimento livre de graves desequilíbrios externos e internos (BAUMANN; CANUTO; GONÇALVES, 2004). Raposo e Clayton (2010) defendem que o verdadeiro custo da corrupção e da fraude vai além da perda de dinheiro. Seus impactos são sentidos no tempo, na produtividade, na reputação e nos relacionamentos da organização. Sobre isso, Hayashi (2012) argumenta que a corrupção é um fenômeno social, político e econômico que afeta, em maior ou menor grau, o desenvolvimento de todos os países, independentemente do regime (autoritário ou democrático) e do sistema econômico. Assim, esse problema não é exclusivo do Brasil e não ocorre apenas em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Na verdade, ele atinge até mesmo os.
(23) 21. países com os mais modernos e rigorosos sistemas de controle. Fonseca e Sanchez (2001) defendem que a corrupção é um evento flexível que pode assumir diversas formas, ter diferentes motivações e ocorrer em diversos países. Face ao exposto, percebe-se que o problema tem amplo impacto na vida social, empresarial, política e econômica de instituições públicas, organizações privadas e da sociedade de maneira geral..
(24) 22. 3 EVOLUÇÃO HISTÓRICA A relação entre desenvolvimentismo e populismo é tema recorrente entre economistas e demais estudiosos das ciências sociais no Brasil. O tema tem, inclusive, retornado à pauta com a abordagem do novo-desenvolvimentismo e da sua proposta de um projeto nacional de desenvolvimento que não se valha do "velho" desenvolvimentismo, que estaria saturado de práticas populistas (OREIRO; FEIJÓ, 2010). Os 15 anos que se sucederam ao fim da Segunda Guerra Mundial foram marcados pela expansão da economia brasileira em um ritmo superior ao de qualquer outro país latino-americano. A taxa média anual de crescimento do PIB do Brasil nesse período era, na realidade, uma das maiores do mundo, superada, no ocidente, apenas pela Alemanha e, no oriente, apenas pelo Japão e pelas pequenas economias da Coréia do Sul e de Taiwan. De fato, entre 1946 e 1960, a taxa média anual de crescimento da economia brasileira era de 6,3%; a da Alemanha, de 10,5%; a do Japão, de 9,1%; a da Coréia do Sul, de 6,5%; e a de Taiwan, de 7,6% (MADDISON, 1997). Contudo, o início da década de 1960 marcou o fim dessa era de acelerado crescimento da economia brasileira. Entre 1963 e 1967, a taxa de crescimento econômico do país caiu à metade da registrada na década anterior, gerando um acirrado debate acerca do tipo de reforma econômica que seria capaz de resgatar as taxas históricas (EARP; PRADO, 2003). Esse debate girava em torno de duas questões centrais, quais sejam: a identificação do motivo pelo qual o modelo de desenvolvimento baseado na substituição de importações havia perdido dinamismo; e o estabelecimento das reformas econômicas e institucionais que seriam necessárias para dar continuidade ao desenvolvimento do Brasil (EARP; PRADO, 2003). Essas duas questões centrais, conforme ensinam Earp e Prado (2003), eram interpretadas de duas formas quase que antagônicas. Os economistas denominados estruturalistas ou cepalinos consideravam que a perda de dinamismo econômico do país era decorrente de dois fatores: da forma como ocorreu o ingresso do país na economia internacional, focado na exportação de produtos primários tropicais; e da crescente concentração de renda, em especial em razão da estrutura fundiária brasileira. Para esses economistas, portanto, o fato de as.
(25) 23. economias de tipo periférico apresentarem características distintas daquelas dos países centrais justificava a adoção, pelo Estado, de políticas econômicas específicas que possibilitassem o desenvolvimento daqueles países (EARP; PRADO, 2003). Sendo assim, os estruturalistas explicavam o crescimento industrial brasileiro pelo modelo de substituição de importações como sendo uma consequência do longo desequilíbrio externo iniciado com a grande depressão da década de 1930, que fez despencar o valor das exportações e a capacidade de importação brasileiras (OREIRO; FEIJÓ, 2010). Tavares (1972) destaca que o problema que se colocava era de que forma atender à demanda de bens e serviços interna, não afetada pela crise do setor exportador. O autor descreve três possibilidades: elevação do nível de utilização da capacidade produtiva instalada; disponibilização de bens e serviços relativamente independentes do setor externo, como, por exemplo, os serviços governamentais; e instalação de novas unidades produtivas para absorver a oferta de bens anteriormente importados. Uma vez que a primeira possibilidade estaria esgotada assim que as fabricas já instaladas atingissem sua capacidade máxima de produção, Tavares (1972) conclui que o processo de substituição de importações consistiria principalmente no desenvolvimento das outras duas possibilidades e, à medida que se desenvolvesse a oferta interna de bens e serviços de consumo, surgiria uma demanda por novas importações, agora de bens intermediários e de capital. Em outro sentido, os economistas liberais defendiam um modelo liberal de economia de mercado e argumentavam que não havia qualquer característica especial no Brasil que justificasse a atuação do Estado de forma distinta daquela verificada nos países mais avançados. Isso porque o papel do Estado, em qualquer hipótese, deveria se resumir ao incentivo aos investimentos mediante a manutenção da estabilidade monetária e a adoção de um modelo de tributação adequado. O crescimento econômico decorreria da iniciativa privada, como consequência das condições econômicas favoráveis (BRESSER-PEREIRA, 1982). Alguns defendiam a separação entre as esferas econômica e política, pois acreditavam que a economia era racional, enquanto a política era passional. Sendo assim, o mercado, com seu sistema racional de preços, garantiria por si só o desenvolvimento econômico. As ações do Estado, por outro lado, seriam inócuas ou até prejudiciais à economia (BRESSER-PEREIRA, 1982). Outros entendiam que as.
(26) 24. intervenções estatais (principalmente a instabilidade monetária) estavam no cerne do atraso brasileiro (BRESSER-PEREIRA, 1982). Para os economistas liberais, portanto, era equivocada a ideia de que a superação da crise de desenvolvimento seria possível mediante reformas de base e intervenção do Estado na economia. Na realidade, o excesso de intervenção estatal e o descaso com a estabilidade econômica seriam as principais razões da persistência do atraso econômico brasileiro. Esses economistas sustentavam, portanto, que o populismo econômico era a raiz do problema, pois gerava instabilidade monetária e um clima inadequado para a expansão do investimento privado (BRESSERPEREIRA, 1982). Há três fontes de desequilíbrio no populismo, quais sejam: o populismo na política fiscal, que levava o Estado a realizar gastos que superavam a sua capacidade de arrecadação tributária, gerando pressões inflacionárias; o populismo na política de crédito, que financiava o investimento com expansão da oferta monetária, e não com crescimento da poupança doméstica, acarretando uma nova fonte de pressão inflacionária; e o populismo na política salarial, que levava a um aumento das folhas de pagamento superior ao crescimento da produtividade (BRESSER-PEREIRA, 1982). O debate entre economistas estruturalistas e liberais encerrou-se com o golpe militar de 1964, uma vez que Castelo Branco, Presidente de República no primeiro governo militar, nomeou notáveis liberais para a direção da política econômica, determinando a vitória da estratégia econômica liberal (BRESSER-PEREIRA, 1982). Esse novo governo detinha o poder político necessário para realizar reformas conservadoras e garantir a estabilidade econômica que geraria as bases do novo modelo de crescimento do Brasil (PAIVA, 1990). Contudo, a política econômica do governo Castelo Branco não foi bemsucedida no que se refere ao cumprimento dos objetivos de controle da inflação - a meta era alcançar uma taxa de 25% em 1965 e de 10% em 1966, mas a taxa nunca atingiu menos de 40% (BACHA, 1978). Ainda assim, a reforma trabalhista reduziu os custos da mão de obra e possibilitou a criação de fundos de poupança compulsória, os quais contribuíram para o aumento dos investimentos públicos e o surgimento de um Plano Nacional de Habitação (BRESSER-PEREIRA, 1982). Essas reformas ocorreram em um momento de baixo crescimento econômico e de grande insatisfação popular. Contudo, uma vez que Castelo Branco compreendia.
(27) 25. a necessidade de continuar o programa de estabilização, ele foi mantido, apesar da crescente impopularidade do governo. A justificativa imediata para o “fechamento” do sistema político, que já era notado em meados de 1966, foi a necessidade de dar continuidade ao programa econômico, uma vez que a única exigência de Castelo Branco para apoiar a candidatura de Costa e Silva à Presidência da República foi o compromisso com a política anti-inflacionária (BRESSER-PEREIRA, 1982). Bacha (1978) conta que o Congresso estava de mãos atadas quando elegeu um novo Presidente, em outubro de 1966, em um contexto de consolidação das reformas econômicas conservadoras e de manutenção da política econômica do regime militar, a despeito do pouco apoio de que desfrutava. A expressão “Milagre Econômico” foi usada pela primeira vez para descrevera rápida de recuperação da Alemanha Ocidental na década de 1950, que foi tão surpreendente que muitos analistas chamaram o fenômeno de “Milagre Alemão”. A expressão foi novamente usada para descrever o crescimento japonês na década de 1960 (BACHA, 1978). Foi na década de 1970 que a expressão “Milagre Brasileiro” passou a ser sinônimo do boom econômico ocorrido a partir de 1968. Tratava-se de um instrumento de propaganda do governo do Presidente General Artur da Costa e Silva, que assumiu em março de 1967 (BRESSER-PEREIRA, 1982). Os ministros da Fazenda e do Planejamento nomeados pelo Presidente General Artur da Costa e Silva, Delfim Neto e Hélio Beltrão, respectivamente, assumiram seus postos em um cenário de recessão. As primeiras medidas do novo governo pareciam dar continuidade às políticas anteriores, cujos elementos primordiais eram o encolhimento do papel do setor público e o aumento da participação do setor privado (BRESSER-PEREIRA, 1982). No entanto, a situação da política interna brasileira, principalmente diante do fortalecimento da oposição, recomendava mais atenção à retomada do crescimento, em especial se consideradas a capacidade produtiva ociosa e o espaço aberto para o aumento do gasto público em razão das reformas institucionais e das condições internacionais. Essa situação permitiu alterar as prioridades da política econômica e criar o Plano Estratégico de Desenvolvimento (PED), que previa um crescimento da economia na ordem de 6% ao ano (BACHA, 1978). O Milagre Brasileiro caracterizou-se pelas elevadíssimas taxas de crescimento da economia. A opinião pública desconfiou inicialmente do crescimento anunciado pelo regime militar. Simultaneamente, o movimento estudantil ganhava as ruas e o.
(28) 26. movimento operário ameaçava se reorganizar (BRESSER-PEREIRA, 1982). Até mesmo os planejadores do governo estavam incrédulos com a situação. O próprio PED, no “Metas e Bases” e no primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (I PND), propunha taxas de crescimento bem menores. Ainda assim, o PIB brasileiro, que vinha apresentando reduzido crescimento desde 1962, alcançou dois dígitos entre 1968 e 1973. No mesmo período, a taxa de inflação ficou entre 16 e 27%, os menores índices atingidos entre 1959 e 1994 (CARDOSO, 1975). Durante o governo Médici, a busca de legitimidade governamental passou do plano político para o econômico, visando à construção de um “Brasil Potência”, base da propaganda do governo da época (CARDOSO, 1975). Baumann, Canuto e Gonçalves (2004) destacam que, entre 2003 e 2006, o superavit primário médio mensal em relação ao PIB brasileiro foi de 3,6% (conceito abaixo da linha), tendo alcançado valores superiores a 4,0% em diversos meses consecutivos em 2005. A dívida pública, por sua vez, caiu meros 7,6 p.p. entre 2003 e 2006, de 54,8% para 47,3%. Em paralelo, o investimento público, inclusive das estatais, ficou praticamente estável entre 2003 e 2006: em torno de 1,3% do PIB, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Praticamente estáveis também ficaram os gastos com funcionalismo público e despesas correntes com bens e serviços (escolas, hospitais etc.) das diversas esferas da Administração Pública. Somando-se a isso a prosperidade do cenário externo e a maior disponibilidade de crédito, o crescimento real do PIB alcançou 6,1% em 2007 e 5,2% em 2008. O aumento dos gastos públicos decorreu principalmente das transferências assistenciais e previdenciárias (de 12 para 15% do PIB entre 1995 e 2006), que incluem o Regime Geral de Previdência Social (RGPS), os benefícios pagos a idosos nos termos da Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS), o seguro-desemprego, os programas assistenciais (como o Bolsa Família) e as transferências a organizações sem fins lucrativos (OREIRO; FEIJÓ, 2010). Baumann, Canuto e Gonçalves (2004) afirmam que a crise financeira provocada pela quebra do banco Lehman Brothers em setembro de 2008 teve impactos significativos na economia mundial, o que causou forte reversão da trajetória de crescimento econômico vigente até então e, consequentemente, abrupta alta no desemprego e vertiginosa redução da renda da população. Apesar das declarações oficiais do governo federal, o Brasil foi duramente afetado por tal crise: no quarto.
(29) 27. trimestre de 2008, o PIB apresentou uma queda de 14,7% na comparação trimestral anualizada. Em relação à gestão fiscal “cotidiana”, o governo postergou o recolhimento de impostos, como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), o Programa de Integração Social (PIS), a Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e o imposto de renda retido na fonte, bem como acelerou a devolução de créditos tributários para as empresas. Os gastos com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e com programas sociais foram mantidos e majorados, especialmente. mediante. empréstimos. do. Tesouro,. dos. bancos. públicos. (principalmente Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal) e do Banco Nacional de Desenvolvimento. Econômico. e. Social. (BNDES). (BAUMANN;. CANUTO;. GONÇALVES, 2004). Por outro lado, os resultados macroeconômicos (setor externo, nível de atividade, inflação, emprego e renda e finanças públicas) dos dois termos do governo Lula foram melhores do que os de FHC. Entre 2003 e 2010, o Brasil vivenciou o maior ciclo de crescimento das últimas três décadas. O PIB cresceu 4,1% ao ano, quase o dobro do crescimento apresentado entre 1980 e 2002, que foi de 2,4% ao ano (BAUMANN; CANUTO; GONÇALVES, 2004). Além disso, as contas externas brasileiras apresentaram resultados bastante positivos durante o governo Lula, com superavit do balanço de pagamentos entre 2003 e 2010 (231,8 bilhões de dólares no acumulado) (BAUMANN; CANUTO; GONÇALVES, 2004). 3.1 O FOREIGN CORRUPT PRACTICES ACT (FCPA) Os Estados Unidos da América (EUA) foram o primeiro país a se preocupar com o fenômeno da corrupção e a desenvolver alguma medida de controle. Assim, em resposta à prática de algumas empresas que adotavam procedimentos irregulares para receber vantagem indevida em seus negócios, em 1977 entrou em vigor a Lei federal americana Foreign Corrupt Practices Act (FCPA). Segundo Ferreira e Morosini (2013), que o contexto político dos EUA na década de 1970 foi decisivo para a elaboração dessa lei. O escândalo de Watergate, no qual o então presidente americano foi acusado de direcionar sua influência e poder para espionar clandestinamente seus opositores políticos, deu início a investigações que revelaram diversas ilegalidades. Entre elas.
(30) 28. estavam: a) fundos irregulares mantidos por empresas transnacionais americanas com o propósito de corromper governos estrangeiros visando à manutenção de negócios lucrativos no exterior; b) suborno a funcionários públicos estrangeiros, sendo que cerca de 500 empresas americanas admitiram pagar o equivalente a 300 milhões de dólares com essa finalidade (BIEGELMAN; BIEGELMAN, 2010). Assim, o objetivo da FCPA é criminalizar o suborno de oficiais públicos estrangeiros por organizações americanas ou por seus representantes (SILVEIRA; CASTRO, 2014), o que seria feito “a fim de estabelecer relações comerciais mais lucrativas” (FERREIRA; MOROSINI, 2013, p. 263). Para evitar que subornos sejam encobertos, a FCPA exige que as companhias mantenham todas as suas transações em seus livros e registros de forma clara e exata e mantenham sistemas contábeis internos de controle. Fica claro, por conseguinte, que a FCPA representou um marco no combate à corrupção corporativa (ABREU JUNIOR, 2015). Além da FCPA dos EUA, outra lei anticorrupção que é considerada ainda mais abrangente e mais rigorosa é a britânica, denominada UK Bribery Act que será detalhada a seguir. 3.2 O BRIBERY ACT Em atenção às recomendações internacionais, o governo britânico assinou, em 8 de abril de 2010, o Bribery Act, norma anticorrupção que entrou em vigor em 1º de julho de 2011. Seu texto altera a anterior lei britânica de combate à propina e à corrupção, que regula as atividades das empresas situadas no Reino Unido e das que tenham operações e ações na região (ERNST & YOUNG, 2015). Ao contrário da FCPA, que trata exclusivamente das relações entre entes privados e públicos, o Bribery Act regula também a relação entre empresas privadas (ERNST & YOUNG, 2011). Com isso, a consultoria Ernst & Young (2015) afirma que a norma cobre todos os casos de propina, mesmo que nenhum funcionário público esteja envolvido. O Bribery Act tipifica quatro ofensas. Duas se referem a oferecer e receber propina; uma se refere ao pagamento de propina a funcionários públicos estrangeiros; e uma se refere a companhias que falham na prevenção ao pagamento de propinas. Barbosa (2012) complementa que compete ao SFO (Serious Fraud Office) processar.
(31) 29. as companhias domésticas no Reino Unido e as entidades internacionais lá estabelecidas que pratiquem qualquer das condutas tipificadas. No que se refere à falha de companhias na prevenção ao pagamento de propinas, a Ernst & Young (2015) afirma que a norma “prevê a responsabilização criminal de qualquer empresa pelos atos dos seus representantes, agentes e distribuidores que derem, prometerem ou oferecerem qualquer tipo de vantagem com o objetivo de levar uma terceira parte a praticar ato indevido para obter vantagens”. O Bribery Act prescreve penas para as pessoas físicas de até 10 anos de prisão e multa e fiança sem limites. Para as corporações que forem condenadas, a lei também prevê multas ilimitadas. Portanto, conforme Azevedo (2012), o Bribery Act trouxe muitas mudanças, destacando-se: a criminalização da prática de corrupção no exterior; a imputação de responsabilidade penal às empresas que não adotarem medidas preventivas adequadas para combater a prática de corrupção por seus empregados e agentes; a inversão de ônus da prova em algumas hipóteses; a tipificação do suborno de agentes públicos estrangeiros; e a previsão de penas mais graves. 3.3 A LEI SARBANES-OXLEY A década de 1990 foi marcada por escândalos corporativos de grande repercussão mundial e no ambiente empresarial. A desconfiança acerca da fidedignidade e integridade das demonstrações financeiras das companhias teve um significativo impacto no mercado de capitais (ZDANOWICZ, 2012). Nesse contexto, algumas medidas foram adotadas na tentativa de recuperar a credibilidade do mercado de capitais. Aprovada em 2002 pelo Congresso Americano e sancionada pelo então Presidente do país, George W. Bush, a Lei de Reforma Corporativa (Lei SarbanesOxley ou SOx) é considerada uma das mais rigorosas regulamentações sobre controles internos. Ela exige a elaboração e divulgação de relatórios gerenciais pelas companhias abertas e pelas empresas estrangeiras que tenham ações negociadas em bolsa de valores (New York Stock Exchange - NYSE e/ou National Association of Securities Dealers Automated Quotations - NASDAQ) (ZDANOWICZ, 2012). Ainda, conforme reforça o Portal de Auditoria (2015), o objetivo da SOx foi evitar a fuga dos investidores, que era uma possibilidade concreta, dada a sua insegurança.
(32) 30. e perda de confiança em escriturações contábeis e princípios de governança das empresas. Simplificando, a SOx criou um organismo regulador das empresas de auditoria e fixou penas e responsabilidades, além de exigir maior rigor na qualidade e transparência de demonstrações financeiras, protegendo, assim, os interesses dos acionistas (SILVA et al., 2007). Sobre isso, Zdanowicz (2012) lembra que a SOx determina que as organizações adotem um código de ética da diretoria para enfatizar os deveres da diretoria diante dos acionistas. Foram criadas, ainda, regras rígidas de governança corporativa com severas punições a fraudes e maior independência dos órgãos de auditoria. 3.4 O FOREIGN ACCOUNT TAX COMPLIANCE ACT (FATCA) Outro fato importante foi a criação do FATCA (Foreign Account Tax Compliance Act), que faz parte do HIRE (Hiring Incentives to Restore Employment Act), legislação dos EUA publicada em 18 de março de 2010, que foi regulamentado pelas Seções 1471 - 1474, Capítulo 4, do Código de Receitas Tributárias dos EUA de 1986. A regulamentação final foi publicada em 17 de janeiro de 2013, sendo eficaz a partir de 28 de janeiro de 2013. Essa regulamentação final foi ajustada e complementada pela Nota IRS 2013-69, Anúncio 2013-41, Nota IRS 2013-69 e novas regulamentações complementares divulgadas pelo Anúncio 2014-1, de 20 de fevereiro de 2014. Em linhas gerais, o objetivo do FATCA é aumentar a transparência, evitar a evasão fiscal nos EUA e identificar contas financeiras de residentes fiscais norte-americanos (U.S. accounts) mantidas fora dos EUA. As instituições financeiras, assim consideradas aquelas previstas no regulamento final do FATCA. Com essa normativa, ficou mais fácil aos órgãos competentes fiscalizar as operações de lavagem de dinheiro de empresas transnacionais. 3.5 EMPRESAS TRANSNACIONAIS, CORRUPÇÃO E CRISE ECONÔMICA A fraude e a corrupção não são fenômenos recentes no país. Ainda assim, no atual contexto político, empresarial e social, esses problemas atingem entidades públicas, privadas e o terceiro setor (SILVA; FLACH, 2014). Diversos casos de fraude corporativa e de corrupção de naturezas diversas vieram à tona nas últimas décadas,.
(33) 31. abalando a credibilidade corporativa e alertando a sociedade para os riscos e consequências dessas práticas. A corrupção, em suas diversas formas, compromete o desenvolvimento do mercado e reduz a possibilidade de lucratividade consistente no longo prazo (SANTOS et al., 2013). Além disso, a corrupção consome 20% dos investimentos, sendo que menos de 1% desse valor é revertido para a instituição lesada (QUADROS, 2007). Além disso, o PIB brasileiro sofre uma perda anual de 5% por causa da corrupção pública. Trata-se de cifra significativa, correspondente a 130 bilhões de reais (ESTADÃO, 2010). Em termos globais, dados do UNODC (2004) indicam que um valor astronômico é pago em subornos, o que contribui para a pobreza global e interfere negativamente no desenvolvimento (ANJOS; MARTINS, 2011)..
(34) 32. 4 METODOLOGIA A metodologia de pesquisa do presente trabalho consiste na coleta de dados para análise de estatística descritiva e econométrica por meio de gráficos e tabelas com os principais índices e resultados econômicos do Brasil no período pré-crise (antes de 2014) e pós-crise (2015 em diante), bem como da China, dos EUA e da América Latina no mesmo período. Os países e a região foram estudados como base para análise dos principais movimentos econômicos no período estudado. As fontes dos dados estudados para o Brasil foram o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), BC e FMI. Por outro lado, no que se refere às economias internacionais, foram utilizados dados da Bloomberg, do FMI, do Banco Mundial e do Banco Central de cada país. De acordo com Granger (1969), uma variável X causa outra variável Z, se a observação de X no presente ou no passado ajuda a prever os valores futuros de Z para algum horizonte de tempo. Para os testes econométricos, foi utilizado os software GRETL, que tem como base os testes de causalidade de Granger, que assumem que o futuro não pode causar o passado nem o presente. Esses testes de causalidade são os mais populares na literatura, tendo sido criados pelo econometrista Clive Granger. Davidson e MacKinnon (1993) argumentam que a escolha de um número elevado de defasagens seria preferível, uma vez que isso permitiria verificar como a exclusão de algumas defasagens afetaria o resultado das estimações. Além disso, a escolha de poucas defasagens pode causar um sério viés devido à omissão de variáveis relevantes (estimador de mínimos quadrados das variáveis que permanecem será inconsistente e as variâncias e erros-padrão desses coeficientes serão incorretamente calculados). Para avaliar a estacionariedade (ou não) das séries, foi realizado também o teste de Raiz Unitária, com o teste de dickey-fuller aumentado, através do software econométrico GRETL. A tabela 1 apresenta as definições das variáveis para as quais os testes de granger-causalidade foram realizados..
(35) 33. Tabela 1 - Definições das Variáveis Variável. Definição. Fonte. CT. Saldo de conta corrente. BC. DBT. Dívida brasileira (% do PIB). BC. E. Taxa de câmbio entre BRL e USD. BC. INF. Inflação americana (trimestral em %) BC. JEA. Juros americanos (em %). BC. M. Saldo de importações (em USD). BC. MFO. Preço do minério de ferro (em USD). Bloomberg. PBR. PIB brasileiro (trimestral em USD). BC. PEA. PIB americano (trimestral em USD). BC. PMO. PIB mundial (trimestral em USD). BC. PTR. Preço do barril de petróleo (em USD) Bloomberg. X. Saldo de exportações (em USD). BC. Fonte: Elaboração própria.. O uso de modelos autorregressivos vetoriais (VAR) é largamente difundido em pesquisas de economia e, segundo Cavalcanti (2010), eles estão entre os instrumentos mais usados em investigações empíricas na área de macroeconomia. Os modelos VAR, em grande medida, são populares por conta da percepção de que eles permitem analisar as interrelações entre múltiplas variáveis a partir de um conjunto mínimo de restrições de identificação,- isso é, de restrições que permitam identificar o componente “exógeno” de cada variável, possibilitando estimar o efeito de um “choque” dessa variável sobre as demais. Mesmo os adeptos dessa metodologia reconhecem, porém, que o problema de identificação está longe de ser resolvido, o que explica a coexistência de vários métodos alternativos de identificação na literatura. Maddala (1992) sugere que a dimensão das defasagens é, em certo sentido, arbitrária. Isso porque existe uma variedade de métodos alternativos para se determinar o tamanho ótimo de defasagens em um modelo. Gujarati (1995), no entanto, alerta para o fato de que a análise de causalidade é bastante sensível ao número de defasagens escolhido. Davidson e MacKinnon (1993) sugerem que se procure identificar o número de defasagens em primeiro lugar e, só depois, efetue-se os testes de causalidade. Davidson e MacKinnon (1993) argumentam que a escolha de um número elevado de defasagens seria preferível, uma vez que dessa forma o analista pode verificar como a exclusão de algumas defasagens afeta o resultado das estimações. Além disso, a escolha de poucas defasagens pode causar um sério viés devido à.
(36) 34. omissão de variáveis relevantes (estimador de mínimos quadrados das variáveis que permanecem serão inconsistentes e as variâncias e erros-padrão desses coeficientes serão incorretamente calculados). Por outro lado, a escolha de mais defasagens do que o necessário pode levar ao viés de inclusão de variáveis irrelevantes, que é menos sério do que o caso anterior (os coeficientes podem ser estimados consistentemente pelo método de mínimos quadrados, tendo-se em mente que suas variâncias podem ser menos eficientes). Na verdade, esse é o método de modelagem originalmente proposto pelo econometrista escocês David Hendry (1980), que sugere que a escolha do melhor modelo deve ser feita gradativamente, partindo-se de um modelo bem geral e, a partir de vários testes, estreitando-se o alcance do modelo na análise final. Tabela 2 - Testes de Defasagem Variável. Defasagens. Constante. Tendência. ADF. PBR. 0. Sim. Sim. 0,2188. PEA. 2. Não. Sim. 0,06317. JEA. 4. Não. Sim. 0,03673. PMO CT. 0 5. Sim Não. Não Sim. 0,4713 0,3912. E. 2. Sim. Sim. 0,4657. PTR MFO. 0 3. Sim Não. Sim Sim. 0,5485 0,3481. X. 7. Sim. Não. 0,9293. M. 4 Não Sim 0,003875 Fonte: Elaboração própria com base nos cálculos do Software Gretl.
(37) 35. 5 ANÁLISE. DOS. DADOS. E. RESULTADOS. DAS. ESTIMATIVAS. ECONOMÉTRICAS Inicialmente será feita uma análise do comportamento de indicadores macroeconômicos e, em seguida, serão detalhados e analisados os resultados dos testes de causalidade de Granger. 5.1 ANÁLISE DOS DADOS Gráfico 1 - Dívida Bruta do Governo Geral (% PIB). Fonte: BCl. Ao analisar o endividamento bruto geral do governo, percebe-se um incremento de 9,32% da dívida em 2015 e de mais 4,4% em 2016. O incremento do endividamento bruto é um indicativo do aumento significativo dos gastos públicos no auge da crise econômica. O endividamento do setor público corresponde à diferença entre passivos e ativos acumulados pelas três esferas do governo (incluido o BC), e pelas empresas estatais. A redução da carga tributária é uma das possíveis soluções para minimizar os riscos orçamentários inerentes à gerência da dívida pública. Recomenda-se-, portanto, evitar variações frequentes na carga tributária, a fim de reduzir as distorções já geradas por ela. A crise financeira de 2007 trouxe consigo, no âmbito internacional, uma piora significativa da situação fiscal da grande maioria dos países, principalmente dos desenvolvidos, exigindo enormes esforços, da parte dos governos, de salvamento de instituições sistemicamente importantes. Ressalta-se, contudo, que não estavam.
(38) 36. imunes à crise nem mesmo os demais países que não estavam diretamente envolvidos com o enorme boom de crédito direcionado ao setor imobiliário. O grau de integração entre os mercados financeiros era tal, que os derivativos originados a partir dos países problemáticos atingiram instituições financeiras do mundo todo. O Brasil nesse contexto ficou no meio do caminho. Embora tenha havido, nos anos precedentes à crise, melhora dos indicadores de endividamento no país, não foi promovido nenhum tipo de ajuste sobre os crescentes gastos correntes do governo. Gráfico 2 - Balança Comercial Brasileira. Fonte: Bloomberg e FMI. O gráfico 2 indica um desequilíbrio na balança comercial brasileira durante o período de crise econômica em 2014, quando o saldo era negativo em 6,6 bilhões de dólares. Nos anos posteriores, houve um superavit na balança comercial, uma vez que, em 2015, havia 17,7 bilhões de dólares e, em 2016, um resultado nitidamente superior aos anos anteriores, apresentando 45,1 bilhões de dólares. O impacto das variáveis que influenciam a balança comercial costuma ser medido pelas elasticidades de curto e longo prazos. Nesse sentido, é importante destacar o papel do saldo comercial dos países, essencialmente das exportações, como componente da tendência da demanda efetiva a longo prazo. O saldo comercial também tem importante função no equacionamento do financiamento externo ao desenvolvimento e ao crescimento econômico. Os ciclos de crescimento econômico atravessados pelo Brasil passam por saldo positivo e alto na balança comercial, além de baixo endividamento. bruto do governo.. No gráfico 2 aqui. exposto,. verifica-se.
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