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O delinear de um sujeito: desdobramentos psicanalíticos

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUÍ

DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO – DHE CURSO DE PSICOLOGIA

BRUNA JAEGER MACHADO

O DELINEAR DE UM SUJEITO: DESDOBRAMENTOS PSICANALÍTICOS

Ijuí (RS) 2018

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BRUNA JAEGER MACHADO

O DELINEAR DE UM SUJEITO: DESDOBRAMENTOS PSICANALÍTICOS

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao curso de Graduação em Psicologia, do Departamento de Humanidades e Educação – DHE, da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, como requisito parcial para obtenção do título de Psicóloga.

Orientadora: Me. Ana Maria de Souza Dias

Ijuí (RS) 2018

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AGRADECIMENTOS

Na conclusão deste instante de formação, gostaria de transmitir minha gratidão à todos aqueles que contribuíram, de um modo ou de outro, para que este trabalho se tornasse possível:

À minha mãe, por seu carinho e incentivo na produção escrita desde a mais tenra infância, o qual revelou-se fundamental até aqui. Com delicadeza me apoiou e compreendeu meus momentos de angústia, e com ímpar alegria comemorou minhas vitórias. Sua paciência e amor em entender minhas ausências foi inestimável.

Ao meu pai (in memoriam), por sempre exigir de mim nada menos do que o melhor, me inspirando a dedicar-me o máximo possível em tudo o que faço. Todo o meu estudo é marcado por sua influência.

À minha orientadora Ana Maria de Souza Dias, por sua dedicação e maestria ao me acompanhar - agora e no início do curso - nesta aventura psicanalítica que é a conceituação do sujeito psíquico. Certamente suas observações e direcionamento foram essenciais para o desenvolvimento desta escrita.

À minha avaliadora Kênia Spolti Freire, por gentilmente ter aceitado o convite que lhe propus em compartilhar do meu percurso. Seu modo de ‘transmitir’ o conhecimento me inspirou profundamente, ao ir além da sala de aula, para um amor à profissão.

Aos demais mestres, por todo o conhecimento e experiências compartilhadas, instigando o meu crescimento neste fazer enigmático que é a Psicologia.

Às minhas amigas e amigos, por todo o apoio nas tristezas e alegrias. A jornada dos fazeres acadêmicos, trilhada com tanta luta, persistência e bom humor não seria a mesma sem vocês.

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RESUMO

O presente trabalho de conclusão de curso aborda a visão psicanalítica acerca da concepção de sujeito e do processo de constituição psíquica, ao explorar uma gama de conceitos necessários para a construção de tal processo. A pesquisa aqui realizada se fundamenta em referencial bibliográfico, ao buscar as concepções teóricas de Freud e Lacan sobre a questão do sujeito psíquico, assim como de demais autores contemporâneos que perpetuam suas formulações. O desenvolvimento deste trabalho se deu em dois capítulos, sendo explorado no primeiro os processos essenciais para a constituição da subjetividade humana, e o segundo visa descrever quem é o sujeito para a psicanálise, enquanto estruturado pela linguagem.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...6

1. O SUJEITO E SUA CONSTITUIÇÃO...8

2. O SUJEITO DA PSICANÁLISE: QUE SUJEITO É ESSE?...23

CONSIDERAÇÕES FINAIS...35

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INTRODUÇÃO

O conceito de sujeito pode ser considerado como um dos termos mais importantes, se não o central da teoria psicanalítica, aliado ao estudo do inconsciente. Afinal, é sobre este sujeito que tanto se debruçaram os estudiosos a fim de desvendar e compreender sua complexa formação (se assim podemos nomear), além dos efeitos provenientes desta, os quais vão repercutir por toda a vida do sujeito. Ao longo do percurso traçado nos estudos em Psicologia, tornou-se perceptível o fato de que toda a elaboração dos conceitos psicanalíticos convergem, de um modo ou de outro, para o sujeito, em sua definição e caracterização. E é sobre os desdobramentos do sujeito que esta escrita se pautará.

A proposta deste trabalho tem como foco principal apresentar uma breve noção acerca de quem é o sujeito nas vias da psicanálise, ao analisar como se delineiam os processos psíquicos e como estes interferem na costura da estruturação da subjetividade. Com o propósito de trilhar um caminho coeso e consistente na história da constituição do sujeito, tomando como referências os escritos de Freud, Lacan e seus sucessores, constata-se a necessidade de se efetuar alguns recortes, a fim de delimitar o campo de pesquisa, tendo em vista a vasta gama de possibilidades de exploração que este tema nos permite, porém, sem reduzi-lo a uma explanação simplória.

Para tal propósito, busca-se não responder, mas sim explorar algumas questões, que vão dizer a respeito do humano enquanto ser orgânico e ser de subjetividade, cujo psiquismo é marcado pelas relações de um campo simbólico e cultural que o envolve desde antes de seu nascimento, permitindo e instigando o seu desenvolvimento em tempos estruturados pelas implicações da linguagem.

Buscando investigar tais questões relevantes no campo do sujeito é que se dará a sequência deste trabalho. O primeiro capítulo aborda uma breve diferenciação entre os aspectos biológicos e psíquicos do humano, ao estabelecer um paralelo entre os animais e os humanos, em sua plenitude ou carência de instinto, respectivamente. Em seguida, traça-se a trajetória necessária para a constituição do sujeito, adentrando nos processos experenciados pelo bebê humano a partir do momento do seu nascimento, submetido ao campo simbólico através do discurso e do desejo do Outro, adentrando nos tempos do narcisismo, estágio do espelho e complexo de Édipo, ao

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constituir a percepção da sua imagem, distinguindo o eu e o outro, e as relações de objeto. No segundo capítulo, coloca-se em evidência o sujeito de fato, e os modos como este é definido pela psicanálise. Aborda-se como se deu o surgimento deste conceito, ao colocar a distinção entre a concepção de subjetividade para a psicologia e para a psicanálise, tendo em vista as confusões teóricas comumente realizadas. Traça-se, através das contribuições de Freud e Lacan, o percurso do conceito de sujeito, ao adentrar os campos do inconsciente, do simbólico, e do papel da linguagem manifesto entre os conceitos de necessidade, demanda e desejo.

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1. O sujeito e sua constituição

Têm-se conhecimento de que o ou um ser humano é aquele capaz de construir uma narrativa própria, considerando-se como único e singular, distinto dos demais humanos e de outros seres vivos. Há muito tempo, a humanidade vem se colocando inúmeros questionamentos acerca da existência do ser humano e seu meio circundante, até o ponto de nos tornarmos nosso próprio objeto de estudo. Nesse sentido, propõe-se a seguinte questão: o que é um ser humano? O que de fato nos torna humanos? Acerca do que especificamente nos caracteriza como humanos, conforme Bernardino (2008), é necessário o encontro de dois fatores para que seja possível o surgimento do psiquismo: o aparelho biológico e a cultura, aliando sistema nervoso central e uma estrutura simbólica pré-existente.

Ponderando sobre os aspectos específicos que caracterizam o humano, considera-se relevante estabelecer uma distinção entre o homem e outros seres viventes, como por exemplo os animais. Percebe-se que, diferentemente dos humanos, os animais são possuidores de instinto, o qual os orienta a partir do momento em que nascem até completarem o desenvolvimento, e ainda para além deste, como uma estrutura biológica pré-programada, que os sustentará por todo o curso de suas vidas. Quando filhotes, necessitam dos elementos básicos para sua sobrevivência, tais como alimento e proteção; porém, não se mantêm inteiramente dependentes de seus progenitores para que se possibilitem seu desenvolvimento fisiológico e a sua sobrevivência, em decorrência da garantia que o instinto lhes proporciona. A inserção destes seres no mundo natural se dá sem muitas complicações, parecendo ser algo simples e até mesmo ‘automático’, em contraponto ao que ocorre com os seres humanos, visto que a ‘humanização’ é um processo com significativas diferenças.

O humano é composto por um conjunto em sua constituição. Mesmo que ele nasça com um organismo, dotado de aparatos biológicos essenciais para sua sobrevivência, apenas isso não basta. Ainda falta algo para que o seu desenvolvimento seja completo. Ao contrário dos animais, nós humanos somos desprovidos de instinto, visto que fomos desnaturalizados no momento em que a cultura nos atravessou, pois tais aspectos nos retiraram de nossa natureza. Sabe-se que o desenvolvimento de um bebê não se dará de forma natural ou através de seu esforço próprio, tornando-se extremamente necessário o investimento de um outro

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alguém que realizará o suprimento de necessidades e primeiros cuidados. Somos constituídos por um Outro, abarcando a dimensão simbólica e cultural. Acerca disso, Alfredo Jerusalinsky (1988, p. 23) afirma que “o indivíduo da espécie humana é um deficiente instintivo”, ao considerar que

Com efeito, nada em seu sistema genético-neurológico lhe define o objeto capaz de acalmar o seu mal-estar. A diferença das outras espécies, o bebê humano fica exposto a suas necessidades sem recursos biológicos suficientes para definir nem com que nem como satisfazê-las. Quando se trata de um mal-estar oriundo de estímulos externos, uma ação basta e é eficaz para evitar seus efeitos. Porém, quando se trata de estímulos internos, a criança não tem escapatória, e somente poderá operar uma tentativa de resolução através do outro ser humano tutelar. É por isso que o objeto humano é constituído pelo Outro. (JERUSALINSKY, A, 1988, p. 23)

Bernardino (2008) também corrobora com estas ideias, afirmando que os humanos não são apenas meros organismos ou animais, perpassando toda a evolução da espécie e do mundo, visto que este mundo também não se manteve o mesmo, sofrendo inúmeras transformações por meio das intervenções da cultura. Não habitamos mais o mundo da natureza, “vivemos num mundo no qual tudo o que nos cerca, tudo que foi construído pelo homem, se situa no registro do simbólico, tem um determinado valor, uma determinada significação e uma determinada história” (BERNARDINO, 2008, p. 58).

Neste sentido, existe um elemento o qual é capaz de dar conta de tal carência instintiva a que os seres humanos estão submetidos. Este elemento é a linguagem, o que leva a caracterizar o ser humano como um ser extremamente dependente desta linguagem para ser alguém (JERUSALINSKY, A, 1999). Este seria o único campo possível para a articulação do humano, não somos nada fora deste campo, pois o sujeito humano é constituído ‘de’ e ‘pela’ linguagem (Ibid.). Salienta-se que o próprio desenvolvimento estrutural biológico possui uma ligação intrínseca com as marcas que lhe são impressas, de modo que sem tais marcas o bebê não entra na linguagem, e sem adentrar este espaço não ocorre a subjetivação, é apenas e tão somente um corpo humano. Porém, que marcas são essas com tamanha capacidade de transformar um aparato fisiológico, em um ser dotado de subjetividade? Em que se caracteriza a determinação da linguagem e da cultura no desenvolvimento do sujeito psíquico?

O início da constituição de um sujeito se dá antes mesmo de sua vinda a este mundo, pois ele já passa a existir no universo daqueles que esperam a sua chegada,

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“o sujeito é efeito da obra da linguagem; como tal, está antecipado no discurso parental” (JERUSALINSKY, A., 1999, p. 29). Conforme as ideias deste autor,

Mesmo desde a sua prematuridade, o bebê é tomado numa rede significante que estruturalmente o contém acabado, embora não contenha, claro está, as contingências do deslizamento desta estrutura nas vicissitudes do destino de tal sujeito. Mas justamente, o que permite falar do destino desse sujeito é que o mesmo está ali desde o começo da vida, e ainda desde antes. (JERUSALINSKY, A, 1988, p. 30)

O discurso dos pais sobre o filho é revelador do desejo no qual este filho está inserido, na trama de seu contexto familiar. Tal discurso e os respectivos significantes presentes neste, os quais recaem sobre a criança, são articulados de modo transgeracional, perpassando uma linhagem de várias gerações até chegar à ela, ressaltando que esse discurso é um fator determinante da 'pré-formação' do sujeito, em virtude de que suas linhas possuem a capacidade de moldar o sujeito. O que vai dar significação à existência deste pequeno ser são os desejos tramados no núcleo familiar, sendo sustentado por uma história que o faz pré-sujeito.

Dessa forma, o papel dos pais é de extrema importância, considerando que são os responsáveis por garantir que o bebê se insira no mundo na forma como estes o apresentam, sendo fundamental a existência do desejo destes sobre o seu bebê. Ressalta-se que este universo é criado por um casal parental, no qual irão se constituir as funções materna e paterna, funções as quais são independentes de serem exercidas pelos pais biológicos, existindo a possibilidade de outras pessoas as realizarem além dos progenitores, tais como uma família adotiva, avós, tios, amigos, não havendo qualquer impedimento em um homem exercer função materna, ou tampouco uma mulher exercer função paterna. O importante aqui é a execução dos papéis e não quem os faz, mas principalmente, que exista alguém disposto a investir no bebê.

A fim de elucidar as ideias a serem expostas na sequência, tomaremos como exemplo a situação de um casal que aguarda o momento de estrear suas funções de pai e mãe, com o nascimento de seu filho. Desde o momento em que estes pais tomam conhecimento que um bebê está sendo gerado no ventre materno, e que em poucos meses ele será concebido, todo um universo simbólico é criado para esse bebê. Os pensamentos de seus progenitores são altos, dando-lhe um corpo imaginário que ainda está por vir: delineiam o formato de seu rosto, a cor de seus olhos, o traçado

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de seus cabelos, o tom de sua voz, as características e qualidades que irá desenvolver ao longo de seu crescimento, qual profissão exercerá, se será parecido com este ou aquele membro da família. Enfim, é um vasto universo de possibilidades que os pais fundam para esperar esse bebê, construindo um imaginário acerca deste filho, fazendo planos e preparando um caminho para ele, seja antes de seu nascimento ou mesmo posteriormente, lhe fornecendo significantes com os quais poderá utilizar para ser introduzido no universo que o cerca, na trajetória da cultura.

Como explicitado, tais aspectos construídos pelos pais constituem aquilo que aqui chama-se de linguagem e cultura, pois não nos são naturais, do ponto de vista do biológico. É uma intervenção puramente humana, subjetiva, sobre um pequeno organismo que está em formação. Bernardino também reforça essa ideia, considerando que

Cada vez que um bebezinho vem ao mundo, dotado de seu organismo, é recebido neste mundo simbólico. Já mesmo antes de nascer, antes de sua presença concreta no mundo, ele estava sendo esperado nesse registro. Por exemplo, há um enxoval preparado para ele: dependendo de seu sexo, a mãe vai comprar roupinhas de menino ou roupinhas de menina. Para fazer isso, ela já terá que desenvolver todo um pensamento a respeito do seu bebê, que estará então situado para ela no campo simbólico e não no campo biológico. Na medida em que este bebê vai sendo gestado no interior dessa mãe, mais além dos aspectos orgânicos que estão em jogo ali entre a mãe e o bebê que vai se desenvolvendo no seu útero, está acontecendo todo um processo simbólico, que é tudo que essa mãe está imaginando a respeito do seu bebê que vai nascer. Tudo que ela, seu marido e a família já começaram a conversar e a planejar para esse bebê que vai nascer. A escolha do nome, a preparação do quartinho, a compra do enxovalzinho do bebê, se o quarto vai ser decorado de uma cor ou de outra. Vejam que todos esses aspectos não são aspectos naturais, são aspectos da cultura que já esperam esse bebê no momento do nascimento. (2008, p. 58)

O futuro da constituição psíquica de todo e qualquer recém-nascido se subordina ao modo pelo qual é tomado por este Outro que o antecede, ao inseri-lo em uma estrutura simbólica, alicerçado ao desejo não anônimo de um agente materno, que o tomará como seu bebê (JERUSALINSKY, J, 2002). No momento em que o bebê nasce, ele se depara com toda essa bagagem anterior que lhe foi construída, pronta e à sua espera, sobre a qual ele não pode realizar nenhuma escolha, totalmente submetido à herança simbólica e ao desejo de seus pais.

Assim que o bebê nasce, uma nova etapa se inicia para a constituição desse ser tão pequeno. São necessários cuidados que vão dar conta de suprir tudo aquilo que lhe falta e lhe é fundamental do ponto de vista orgânico. Porém, mesmo que sejam

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ações relacionadas à manutenção da vida, de sua sobrevivência e desenvolvimento, elas ultrapassam tal esfera, imprimindo nesse recém-nascido marcas que lhe permitirão se subjetivar psiquicamente. O responsável por administrar essas marcas é o agente que realizará a função materna, “constituída pelos cuidados básicos que vão permitir que o bebê sobreviva” (BERNARDINO, 2008, p. 59). A mãe, ou aquela pessoa que exercerá a função materna, estabelece um vínculo com o seu bebê, uma relação repleta de afeto, ao dialogar com este, mesmo sendo o pequeno ser incapaz de compreender uma única palavra, aconchegando-o em seu colo, formando um ambiente afável e protetor, acariciando-o e olhando em seus olhos no momento em que lhe dá de mamar. Na maior parte das vezes, tais atos não são feitos de modo mecânico, pois existe todo um entorno afetivo nestes cuidados que visam o bem-estar do bebê. Por meio de tais fatores de origem materna, como o olhar, o canto, as palavras, o toque, o carinho, entre suas presenças e ausências é que se constrói uma vida mental neste pequeno bebê, pois essas experiências lhe oferecem inscrições psíquicas (BERNARDINO, 2008, p. 59). Ao mesmo tempo em que o bebê está se suprindo fisicamente, ele se supre também de modo psíquico, garantindo a sobrevivência de ambas as instâncias através desses detalhes “a mais” que a mãe lhe proporciona (Ibid.). Em tal via,

Esse bebezinho, além de estar vivendo experiências de satisfação de necessidade, também estará vivendo experiências que têm significação, a partir do que o outro materno vai passando para ele como experiências boas ou experiências ruins. Isso vai permitir que o bebê se desenvolva em termos físicos e se estruture em termos mentais (BERNARDINO, 2008, p. 60)

Desse modo, é fundamental que a mãe esteja implicada no campo do seu desejo, que ela não se presentifique somente com o seu corpo ao administrar os cuidados ao bebê. É fundamental que ela se mantenha atenta em sua esfera psíquica, com o seu desejo, depositando todo o seu afeto e cuidado ao saciar as necessidades de seu filho, reconhecendo esse ser como seu, e reconhecendo-se também como sua mãe, ao amamentá-lo, por exemplo, não de um modo mecânico, porém investindo seu amor nesses atos, levando o que seria da ordem do orgânico para a ordem do simbólico, experenciando um momento prazeroso em sua função como mãe (Ibid.).

Bernardino (2008) vai afirmar também que o encontro entre a mãe e o bebê vai ser possível em função da própria presença materna, ao passo que estes passam a se reconhecer, através do diálogo e do lugar que a mãe estabelece para esse filho em

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sua história, colocando-o como uma parte imprescindível de seus planos. Além de projetar em sua criança os seus próprios desejos como sujeito, caberá a ela transmitir os valores que circulam na cultura, pertencentes ao campo simbólico (Ibid.).

Ainda que a função paterna vá ficar em evidência apenas num momento posterior, esta é de extrema importância para que a mãe exerça a sua, pois tem a primeira como condição. Bernardino define a função paterna como

tudo aquilo que vai servir de referência terceira na relação da mãe com seu bebê; tanto referência anterior, do seu passado ainda como filha, que fez com que ela tivesse um lugar para um filho na sua história de vida, quanto referência atual, como por exemplo o pai do bebê (2008, p. 62)

É tal referência que servirá como lembrete à mãe que ela e seu bebê não são um único sujeito, visto que ele é um ser distinto dela sobre quem não tem todo e qualquer tipo de posse (Ibid.). Posteriormente, será explanado o papel da função paterna para a constituição psíquica do sujeito, mas neste momento, faz-se necessário continuar abordando os processos que decorrem da relação inicial entre a mãe e a criança, relação a qual possui igualmente uma parcela muito significativa nesta constituição. Acerca disso, Freud e Lacan vão introduzir suas teorias sobre a célula fusional mãe-bebê, nomeadas respectivamente de Narcisismo e Estádio do Espelho, as quais compreendem o momento em que o bebê ainda não se apropriou como um sujeito, distinto da mãe e das outras pessoas, dando partida a um esboço inicial de sujeito.

Começaremos com o tempo do Narcisismo, para depois estender ao Espelho. Freud, com o intuito de fundamentar e comprovar a sua teoria, acaba tomando como base o mito grego de Narciso. Em um breve e simples relato do mito, Narciso era um jovem de beleza única, o qual fazia com que todas as moças se enamorassem por ele, mas o mesmo não correspondia ao amor destas. Um dia, ocorre que, passando por um rio, ao ver o seu reflexo na água, Narciso não se reconhece e passa a contemplar a imagem, enamorando-se por si mesmo, ficando capturado pelo seu próprio reflexo, ao ponto disso levá-lo a morte.

De acordo com Hornstein (1989), é possível de se compreender o narcisismo tal como uma fase, um estado evolutivo pelo qual o eu se constrói como uma unidade, podendo ser definido como “uma etapa do desenvolvimento libidinal, do desenvolvimento do eu e das relações de objeto. Nela, se investe o eu como objeto, e esse investimento é imprescindível para sua constituição” (Ibid., p. 154).

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Laplanche (1973, apud GARCIA-ROZA, 1998) diz que a distinção entre o narcisismo primário e o secundário seria um ponto crítico, considerando que o primeiro designaria um investimento da libido da criança em si mesma, sendo um estado precoce, e o segundo um retorno da libido retirada dos investimentos objetais ao ego. Em seu artigo introdutório à noção do narcisismo, de 1914, Freud define o narcisismo primário como um estado que não pode ser observado de forma direta (POULICHET, 1991). Seguindo na ideia da mesma autora, o desenvolvimento do eu ocorre de modo progressivo, não havendo em seu estado original uma unidade que possa se comparar ao eu. Neste momento inicial, como o eu ainda não está constituído, Freud coloca o auto-erotismo como o tipo de satisfação que é característica do período correspondente ao narcisismo primário. Pode-se considerar o auto-erotismo como o primeiro modo de satisfação da libido, através do prazer obtido ou retirado por meio do próprio corpo, ou seja, as pulsões parciais existentes no bebê investem em objetos que são os órgãos do seu corpo, obtendo prazer em si mesmo. Poulichet (1991) segue afirmando que, em sua posição, os pais também exercem uma importante função na constituição do narcisismo primário, o que vai levar Freud a afirmar que o amor que os pais nutrem por seu filho vai equivaler ao seu narcisismo recém-nascido. Em tal momento, é como se os pais tornassem a viver o seu narcisismo, como se esse bebê fosse a sua nova possibilidade de realizar tudo aquilo que nunca lhe foi possível, os sonhos e desejos nunca postos em prática, de modo que o seu eu ganhe o caráter de imortalidade. Assim, “o narcisismo primário representa, de certa forma, uma espécie de onipotência que se cria no encontro entre o narcisismo nascente do bebê e o narcisismo renascente dos pais” (Ibid.).

Na sequência dessa fase está o narcisismo secundário, que diz respeito ao narcisismo do eu. Poulichet (1991) realiza uma explanação acerca de tal etapa, afirmando ser necessário para a constituição do narcisismo secundário que o investimento dos objetos retorne ao eu, transformando-se em investimento do eu. A passagem de uma etapa do narcisismo à outra pressupõe dois movimentos, na visão da autora sobre a teoria de Freud: num primeiro instante, cessa-se o auto-erotismo, no momento em que o sujeito passa a direcionar suas pulsões sexuais a um outro objeto; já num instante posterior, a libido tomaria o eu como objeto de investimentos pulsionais, retornando ao eu (Ibid.). Conforme os estudos de Freud, o distanciamento do narcisismo primário é necessário para que o eu possa se desenvolver.

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Na realidade, o eu “aspira intensamente” a reencontrá-lo, e para isso, para recuperar o amor e a perfeição narcísica, passa pela mediação do ideal do eu. O que fica perdido é o imediatismo do amor. Enquanto, com o narcisismo primário, o outro era o si mesmo, a partir daí só é possível experimentar-se através do outro. (POULICHET, 1991, p. 51).

Mas o que ocorre com o bebê para que ele passe de uma etapa a outra? Ele se desloca do narcisismo primário para o secundário no momento em que o seu eu se confronta com um ideal ao qual se compara, que lhe é imposto e formado de fora (POULICHET, 1991). Esta se constitui como a primeira vez que Freud introduz a questão do Ideal do Eu, conceito de grande relevância para pensarmos acerca dos movimentos presentes no narcisismo. Segundo Hornstein (1989), o Ideal do Eu seria uma instância relacionada a uma série de valores que o sujeito internaliza a partir das suas vivências da infância, sendo o fator responsável por definir o que regulará a auto-estima de cada sujeito, de modo que “o eu e o ideal constroem-se no interior de uma dialética intersubjetiva e são efeito desse processo” (HORNSTEIN, 1989, p. 155).

Bleichmar (1992) vai dizer que, na visão de Lacan, a constituição do Eu vai ocorrer como ego ideal (Eu Ideal), que seria distinto do ideal do ego (Ideal do Eu). Na sequência, o autor estabelece tal distinção na teoria lacaniana, evidenciando que

O ego ideal é uma imago antecipatória prévia, o que não somos mas queremos ser. Imagem mítica, narcisista, cujo alcance persegue o homem incessantemente. A estátua, o uniforme, o herói são significantes com que o ser humano substitui aquela ilusória assimetria primitiva. O ideal do ego, pelo contrário, surge da inclusão do sujeito no registro simbólico. Por ser impossível se tornar esse personagem lendário, poderoso, perfeito, o indivíduo aceita fazer parte de uma estrutura, da qual é perpetuador. Seu papel é transmitir a lei. É apenas um elo da cadeia: o homem entregará a seus filhos o nome (e as normas) que, por seu turno, recebeu de seu pai, que as recebeu de seu próprio progenitor, e assim sucessivamente (BLEICHMAR, 1992, p. 144)

Assim sendo, o sujeito precisa se conformar que nunca poderá alcançar a imagem de perfeição que almeja. Através dos símbolos traduzidos pela linguagem, a criança acaba por ser submetida às exigências do mundo circundante (POULICHET, 1991). Com o passar do tempo, a criança percebe que não é a única no campo de visão da mãe, que esta possui outros interesses além da criança, aos quais ela direciona o seu desejo. Poulichet (1991) denomina esse fator como o provocador de ferida narcísica, ao tempo do narcisismo primário, pois o filho percebe que não é o único capaz de satisfazer a mãe, preencher a sua falta, constatando que ela deseja algo fora e além dele. Este se torna o ponto de partida para a passagem ao narcisismo

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secundário, no qual a criança procurará ser amada pelo outro, o que só é possível se as exigências do ideal do eu forem satisfeitas (Ibid.). Para Garcia-Roza (1998, p. 204), “o ego ideal tem seu modelo no narcisismo primário, o ideal do ego aponta para uma instância diferenciada resultante da convergência do narcisismo e da identificação com a fonte parental”, afirmando que “o ego, ao contrário do que se supunha, não é o lugar da verdade do sujeito, mas imagem que o sujeito tem de si mesmo” (Ibid.).

No ano de 1936, Lacan formulou uma teoria que representaria o nascimento do eu, nomeando-a de “estádio do espelho” (POULICHET, 1991), como uma outra forma de vislumbrar o Narcisismo. Tal formulação de Lacan teve suas origens em um fato presente na psicologia comparada, através de um experimento realizado com bebês e animais. Segundo Bleichmar (1992), ao serem colocados frente a um espelho, os mamíferos demonstraram total indiferença a respeito de seu reflexo especular, enquanto que um bebê de aproximadamente seis meses exibia uma reação completamente oposta, pois ao ver sua imagem refletida no espelho, exprimia grande júbilo. Desse modo, a partir dessa resposta dada pelo bebê humano, e pelas prováveis consequências que isso acarretaria ao desenvolvimento do psiquismo, Lacan desenvolve a teoria do “estádio do espelho”, aliando o narcisismo e a identificação primordial. Para Bleichmar (1992), tal conceito teórico seria um dos maiores destaques que a teoria de Lacan poderia trazer ao campo, visto que colocou em uma nova perspectiva o estudo do narcisismo, ao propor um entendimento mais profundo do que ocorre nas relações humanas de acordo com o contexto cultural no qual estão inseridos, e não apenas em relação do que ocorre entre bebê e mãe em seu vínculo. Ao falar sobre o estádio do espelho, Julieta Jerusalinsky (2002,) coloca em evidência a existência de dois tipos de organismos quando um recém-nascido vem à vida. O primeiro corpo seria o organismo enquanto real, e o outro um corpo constituído por palavras, determinado e estruturado simbolicamente. A autora reforça que a constituição do corpo imaginário do bebê tem seu início a partir destes dois pólos, e através das intervenções maternas as quais indicam para a criança quem ela é, no estádio do espelho, constituindo uma identificação, “antecipando como unarizado este corpo que ainda nem sequer consegue coordenar” (Ibid.).

Conforme Dor (1989), este é um tempo marcado por uma experiência na qual a criança vive um período de identificação, ao estar alienada juntamente à mãe. É a partir de tal experiência que a criança realizará a conquista de sua imagem corporal, organizada em três tempos. Sabe-se que, anteriormente ao Estádio do Espelho, a

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criança ainda não percebe as partes do seu corpo como uma unicidade, pois a sua imagem se constituirá progressivamente, visto que a mesma possui uma primeira noção de corpo esfacelado, disperso, até mesmo como um prolongamento do corpo materno.

O primeiro momento deste tempo é marcado pela percepção de um corpo real pela criança, corpo este que ela não reconhece e do qual procura se aproximar. Pode-se dizer também que este é um tempo caracterizado por uma confusão entre o “eu” e o “outro”, onde a criança vivencia suas experiências através do outro, daquilo que ele a evidencia (DOR, 1989). Vemos essa situação em maior evidência nas situações em que uma criança chora ao ver a outra se machucar, muitas vezes pensando ser ela mesma quem sofreu o ferimento, como também quando realiza o movimento de bater em algum de seus amiguinhos, mas diz que foi este quem bateu nela. Aqui, fica claro o quanto ainda é confusa essa questão da imagem para a criança, ao ponto de se confundir com o seu semelhante. Portanto, nesse momento salienta-se o assujeitamento da criança ao registro do imaginário (Ibid.).

No momento seguinte, o segundo, a criança passa a compreender que aquilo que ela enxerga no espelho não é um outro real, mas sim a sua imagem, permitindo-lhe distinguir as coisas reais das suas imagens refletidas, o que é decisivo para sua identificação (DOR, 1989). Agora ela sabe distinguir imagem e real, não procurando se apoderar da imagem que não lhe pertence.

Finalmente, o terceiro momento vem a concluir a experiência da criança, pois agora ela está segura de que aquilo que ela enxerga refletido no espelho é uma imagem, e não meramente uma imagem qualquer, mas a sua própria imagem. Portanto, ela não se reconhece apenas em seu reflexo, ao passo que começa a juntar as partes do seu corpo que até então encontravam-se dispersas e passa a unificá-lo como um só. A imagem do corpo é fundamental para a criança, porque é a partir dela que a mesma vai estruturar a sua identidade como sujeito (Ibid., p.80).

Acerca do que se estrutura na fase do espelho, Garcia-Roza (1998) alerta que em tal momento ainda prevalece o registro imaginário, sendo produzido um ego especular. Logo, não devemos tomar o sujeito como constituído, posto que este se produzirá por meio da linguagem, na passagem do imaginário ao simbólico. Uma importante consideração é feita por Bleichmar (1992), indicando que nesse estádio o sujeito vai se identificar com algo que ele não o é verdadeiramente, constituindo uma falácia:

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Na verdade, acredita ser o que o espelho ou, digamo-lo logo, o olhar da mãe lhe reflete. Identifica-se com um fantasma; usando o termo lacaniano, com um imaginário. Desde muito cedo o homem fica preso a uma ilusão, da qual procurará se aproximar pelo resto de sua vida. Ser um herói, ser Superman ou o Cavaleiro Solitário, ser um gênio, não são mais do que versões do processo imaginário. Portanto, vemos que o estágio do espelho não é apenas um momento do desenvolvimento do ser humano. É uma estrutura, um modelo de vínculo que operará durante toda a vida. No seio da teoria lacaniana, é conceptualizado como um dos três registros que definem o sujeito: o registro imaginário. (BLEICHMAR, 1992, p. 144)

Hornstein (1989) considera que o narcisismo há de ser reestruturado, num movimento em que a criança passa de eu ideal a ideal do eu, a partir de um momento que irá causar uma ruptura entre a relação dual narcisista entre mãe e criança, dando entrada no Complexo de Édipo, o qual vai instaurar uma estrutura triangular.

Conforme Bleichmar, “o ingresso na conflitiva edípica constitui o grande desafio às ilusões narcisistas forjadas no estádio do espelho” (1992, p.144), e que estas vão marcar de modo definitivo o que ocorrerá no Édipo, “assim, o ego ideal e o ideal do ego estão em permanente luta e interação” (Ibid.). O autor ainda afirma que “a introdução do registro simbólico, através da problemática edípica, atenuará ou modificará estas imagos especulares, mas nunca conseguirá acabar com elas” (Ibid.).

Para a formulação e comprovação da validade de sua teoria acerca da constituição subjetiva, nomeada de Complexo de Édipo, Freud se baseou no mito grego de Édipo Rei, o qual aborda o terrível destino de Édipo, filho de um rei e uma rainha, revelado pelo oráculo. O que esperava Édipo, e do que este não pôde fugir, foram os seguintes fatos: matar seu pai e desposar sua mãe, não sabendo que estes seriam seus pais verdadeiros, já que foi abandonado quando bebê, na tentativa frustrada de livrar a família de tal fatalidade. Freud vai afirmar que algo muito semelhante vai ocorrer com a criança no período entre 3 a 5 anos, como uma fase de estruturação psíquica e de desenvolvimento da sexualidade infantil. Dessa forma,

Freud aponta o complexo de Édipo como um conflito resultante da interdição do incesto – que faz incidir sobre a vida sexual da criança uma proibição a partir da qual a mãe, que é o primeiro objeto de amor tanto para meninos quanto para meninas, é interditada pela lei paterna. Posteriormente às suas descobertas, os trabalhos de Lévi-Strauss a respeito das estruturas elementares do parentesco vêm demonstrar que a interdição sexual é concomitante ao nascimento da cultura. Ao falar em seres humanos atravessados pela cultura, não há nada anterior à estruturação da interdição sexual. Assim, o fundamental do complexo de Édipo é o que ele comporta de estrutural ao atrelar a sexualidade do humano a uma lei simbólica. Na carência de instinto, a sexualidade do humano passa necessariamente pelas

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marcas da linguagem, o circuito da pulsão (na falta de um objeto predeterminado) passa pelo desfiladeiro dos significantes. (JERUSALINSKY, J, 2002, p. 263)

Lévi-Strauss (1949, apud GARCIA-ROZA, 1998, p. 216), vai dizer que “enquanto o natural é aquilo que é constante e universal em todos os homens, o cultural é caracterizado pela regra, pela norma, e pertence ao domínio dos costumes, das técnicas e das instituições”. Nesse sentido, Garcia-Roza vai introduzir a questão da proibição do incesto ao articular a relação de consanguinidade e aliança, que ao coincidirem tais fatos naturais e culturais é que se constituiria o incesto.

O que a natureza nos diz é que os filhos somente podem ser produto da relação entre pais de sexos opostos, mas não estabelece nenhuma lei quanto a quem serão os pais ou que eles devam estabelecer uma aliança. Uma coisa é, portanto, o fato natural da consanguinidade; outra coisa é o fato cultural da aliança. A proibição do incesto vai articular esses dois fatos: o que é interdito é fazer coincidir a relação de consanguinidade com a relação de aliança. (GARCIA-ROZA, 1998, p. 216)

O autor ainda salienta que “ambos dizem respeito às relações de sexo, mas, enquanto a antropologia pensa essas relações segundo as regras de aliança, matrimonial, a psicanálise pensa a sexualidade enquanto desejo” (Ibid., p. 217).

Retomando a questão do Complexo de Édipo, Garcia-Roza (1998) considera que a relação dual da criança com a mãe vai constituir o período pré-edipiano, conduzindo Lacan a estruturar o Édipo tal como um processo que vai se desenvolver em três tempos:

o primeiro, consistindo precisamente nessa relação dual criança-mãe; o segundo, sendo caracterizado pela entrada do pai em cena e pelo acesso ao simbólico; e o terceiro, que é marcado pela identificação com o pai e o início do declínio do Édipo. (GARCIA-ROZA, 1998, p. 219)

No primeiro tempo, existem apenas dois elementos que se complementam: mãe e bebê. Conforme Dor, “ao sair da fase identificatória do estádio do espelho, a criança, em quem já se esboça um sujeito, nem por isso deixa de estar numa relação de indistinção quase fusional com a mãe” (1989, p. 80-81). Imaginariamente, o bebê se coloca como aquilo que preencheria a falta da mãe como seu objeto de desejo, na condição de ser, para ela, o falo, identificando-se com este. O falo simboliza a falta, aquilo que seria capaz de saná-la, e a falta, por sua vez, o motor do desejo de cada sujeito. Aqui, o pequeno ser se aliena ao desejo materno e à sua lei de caprichos,

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desprovido de subjetividade, pois ainda não é sujeito. A mãe vai constituir o primeiro objeto amoroso tanto dos meninos como das meninas, sendo que no término do complexo a escolha por um objeto ou outro se efetivará de modo definitivo. Acerca disso, Julieta Jerusalinsky complementa, dizendo que

Um bebê está situado no primeiro tempo do complexo de Édipo: o de ser o falo da mãe. É a operação simbólica de castração efetuada na mãe – a partir da passagem desta pelo complexo de Édipo – que permitirá que ela invista o bebê falicamente. E é por isso que, como vemos, a função paterna está, desde o início, contemplada no laço da mãe com o bebê, pois se bem a castração ainda não esteja inscrita nele, a princípio, sim está inscrita pela estrutura em que a mãe o toma. (2002, p. 263-264)

Ao entrar no segundo momento, uma terceira figura surge a fim de romper com a situação ideal na qual mãe e bebê se encontravam: a figura paterna. Garcia-Roza (1994) comenta que o ‘pai’ biológico já se fazia presente há muito tempo, ao auxiliar a mãe no suprimento de necessidades vitais da criança, mas que até então ele não era visto, para a criança, como alguém distinto da mãe, ou distinto dela mesma. Aqui, o pai aparece com outra função, entrando em cena como privador. Em outras palavras, “se no primeiro tempo do complexo de Édipo o bebê é o falo da mãe, no segundo tempo, o pai ocupará a posição de um rival aterrorizante para a criança em relação ao amor da mãe” (JERUSALINSKY, J, 2002, p. 264).

A criança então se depara com um rival, que deseja tirar-lhe a mãe e tomá-la para si, caracterizando este momento, para a criança, pelo amor à mãe e ódio ao pai. É com a entrada deste que irá se romper a célula dual, o qual realizará as funções de privação, proibição, frustração e também de castração. Na primeira o pai se coloca como duplo privador, tanto da criança em relação à mãe, como seu objeto de desejo, e tanto da mãe relativo ao seu objeto fálico (GARCIA-ROZA, 1998,), sendo que esta dupla privação “vai permitir à criança superar o momento de perfeição narcisista anterior e ter acesso à Lei do Pai” (Ibid., p. 222). O pai está presente no discurso da mãe reconhecido como homem e como representante da Lei, nomeado por Lacan como Metáfora Paterna, na qual a função paterna proíbe a relação incestuosa entre mãe e criança (Ibid.). A partir disso, o pai passa a ser a lei e o falo para a criança. Ressalta-se que Freud já trabalhava a questão da proibição do incesto em sua obra Totem e Tabu, demonstrando que tal interdito já atua na organização do social desde as sociedades mais primitivas, vindo também atuar a nível individual, como exposto anteriormente. Pela primeira vez o pai vai ser visto por seu filho como um ente

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singular, um outro semelhante, sendo representado ao nível do imaginário, sendo importante considerar, como aponta Garcia-Roza, que o segundo tempo do Édipo é marcado pela transitoriedade, permitindo que a criança passe do registro imaginário ao simbólico (Ibid.). Conforme o autor,

Ao ser mediado pelo discurso da mãe e portanto reconhecido e aceito por ela como homem e como representante da lei, o pai passa a ser aquele que limita o poder da mãe, produzindo a disjunção mãe-fálica/criança-falo. É somente através dessa castração simbólica que a criança pode constituir-se como um Eu. (GARCIA-ROZA, 1998, p. 222)

O primeiro acesso da criança ao simbólico se dá nesse momento, pois a partir do encontro com a lei é que a criança se separará da mãe e da alienação ao seu desejo para passar a ser um sujeito desejante, um ser individual e distinto da mãe, e não uma mera extensão de seu corpo. Portanto, o que age nesse momento é a operação simbólica de castração, “pela qual a criança se inscreve na diferença sexual e se situa como castrada, em falta, ao mesmo tempo em que se dá conta que o Outro primordial tampouco é absoluto” (JERUSALINSKY, J, 2002, p. 264-265). Aliando este tempo com o conceito de narcisismo, Poulichet (1991) vai dizer que é o complexo de castração o responsável por perturbar o narcisismo primário da criança, pois é por meio deste que ela se reconhece como incompleta, despertando-lhe o desejo de recuperar a perfeição narcísica.

Finalmente, ao terceiro e último momento, a criança enfrenta o dilema de ser o falo ou de ter o falo, pois o pai deixa de ser a lei e passa a representá-la, também colocando-se como castrado, assim como a criança e a mãe o são, evidenciando que nenhum deles é o falo, e tampouco a lei (GARCIA-ROZA, 1998). Neste tempo, a criança deixa de se identificar com o eu ideal, sua imagem narcísica de falo imaginário, e passa a se identificar com o ideal de eu, aquilo que o pai lhe representa (Ibid.). Desse modo,

É essa interiorização da lei que possibilita à criança constituir-se como sujeito. É o momento em que a criança, ao ser separada da mãe pelo interdito paterno, toma consciência de si mesma como uma entidade distinta e como sujeito e é introduzida na ordem da Cultura. (GARCIA-ROZA, 1998, p.223)

Ainda sobre o desfecho, ou nos desdobramentos que o Complexo de Édipo pode resultar, considera-se importante ressaltar o modo como se efetua a escolha objetal do sujeito, como efeito das suas identificações.

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No terceiro tempo, o pai aparece como doador do falo e a criança se inscreve na sexuação do lado masculino (ao renunciar à mãe como objeto de amor e identificar-se ao pai, para ser o portador do falo, recalcando a conflitiva edípica) ou do lado feminino (reconhecendo-se num primeiro momento como castrada e identificando-se à mãe que, ainda que não tenha o falo, sabe onde buscá-lo: assim os homens passam a ser tomados como objeto de amor – isto marca a entrada no complexo de Édipo). (JERUSALINSKY, J, 2002, p. 264)

Assim sendo, é a partir deste conjunto de fatores que acometem a criança, bem como no modo que se dará a costura entre cada um destes pedaços construídos por outros ou por ela, que a mesma encontrará a possibilidade de constituir-se como sujeito. Entende-se que, de acordo com a linha que viemos traçando, algumas considerações importantes ainda deverão ser feitas para abarcarmos realmente a questão do sujeito para a Psicanálise.

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2. O sujeito da Psicanálise: que sujeito é esse?

Até este momento vinha-se falando de uma série de elementos que caracterizam o processo de constituição de um sujeito. Então, concluiu-se que este sujeito é dotado de uma subjetividade, algo que o torna único e singular entre os demais seres vivos. Mas enfim, coloca-se a seguinte questão: quem é este sujeito de quem temos falado? O que caracteriza essa tal subjetividade que o distingue? Em que se destaca a linguagem, tão anteriormente privilegiada?

Começaremos apresentando a questão do sujeito. Anteriormente ao seu estado de conceito psicanalítico, Elia (2004) nos introduz acerca do aparecimento do sujeito na história do pensamento, o qual, com o rompimento entre filosofia e ciência moderna, surge em um momento de angústia e incerteza, quesito que apenas será passível de se compreender com os instrumentos teóricos da psicanálise, a qual será inaugurada somente três séculos depois. Logo, é posteriormente, com Freud (1856-1939) e a psicanálise, que se compreenderá que “a emergência da angústia é a emergência do sujeito” (Ibid., p.13).

O conceito de sujeito, tal como temos conhecimento hoje, não está presente nos escritos de Freud, como também seus seguidores desconsideraram o uso desse termo, caracterizando-se portanto como um conceito que foi introduzido na psicanálise através de Lacan (ELIA, 2004). Para Lacan (1901-1981), o advento do sujeito é resultado de uma “intrincação irreversível do desejo, da linguagem e do inconsciente, cuja estrutura organiza-se doravante em torno da ordem significante” (DOR, 1989, p. 137), sendo que estas são as dimensões responsáveis pela estruturação da subjetividade (Ibid.).

Neste ponto, considera-se relevante fazer uma breve distinção entre a definição do conceito de subjetividade para a Psicologia, e do mesmo modo, como é definido o sujeito psíquico para a Psicanálise, visto que tais conceitos muitas vezes acabam por ser confundidos no campo dos estudos entre as linhas da Psicologia, tomados como equivalentes de um modo errôneo. Cabe ressaltar tal distinção em detrimento de que “as categorias de psíquico e de psiquismo são demasiado comprometidas com o campo da psicologia, e se inserem em um conjunto confuso de referências individuais, psicofísicas e psicossociais” (ELIA, 2004, p. 35).

Entre as mais diversas ‘psicologias’ que nos são apresentadas, em sua pluralidade de linhas teóricas, constantemente vemos uma relação da subjetividade

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com a personalidade de cada pessoa, personalidade esta que, segundo Elia, “é sempre o resultado interativo de fatores genéticos e constitucionais com fatores aprendidos ou ambientais” (2004, p. 34-35). Acerca da amplitude que este conceito pode atingir, o autor considera que

O espectro das muitas psicologias e teorias da personalidade vai das mais humanistas e racionalistas, fundamentadas em uma concepção da personalidade como autóctone, autogerada, produzida por fatores intra-individuais, até as mais comportamentais e ambientalistas, em que o próprio termo de personalidade é rejeitado em razão de ser inapropriado para descrever o que se “observa”, ou seja, um repertório de comportamentos do indivíduo. (ELIA, 2004, p. 35)

Uma visão mais radical da subjetividade seria reduzi-la a uma interação entre aspectos genéticos e fatores provenientes do ambiente, os quais teriam suas repercussões sobre o humano, limitando o psíquico a uma interseção entre o biológico e o social (ELIA, 2004).

Bock (2008), ao levar em consideração as várias concepções das psicologias acerca do que se caracteriza a subjetividade humana, vai nos dizer que esta particularidade é aquilo que, ao mesmo tempo em que nos assemelha (enquanto ponto em comum), também nos diferencia (em relação ao caráter singular da subjetividade de cada um), considerando que

a subjetividade é a síntese singular e individual que cada um de nós vai constituindo conforme vamos nos desenvolvendo e vivenciando as experiências da vida social e cultural; é uma síntese que de um lado nos identifica, por ser única; e de outro lado nos iguala, na medida em os elementos que a constituem são experenciados no campo comum da objetividade social. Essa síntese – a subjetividade – é o mundo de ideias, significados e emoções construído internamente pelo sujeito a partir de suas relações sociais, de suas vivências e de sua constituição biológica; é, também, fonte de suas manifestações afetivas e comportamentais (BOCK, 2008, p. 22-23)

Nesta perspectiva, a subjetividade pode ser considerada como um conjunto de fatores vivenciados, abarcando experiências provenientes do meio social, aliadas aos nossos sentimentos e comportamentos. A autora descarta a possibilidade de que esta subjetividade nos seja algo inato, sendo que a mesma é construída progressivamente ao nos apropriarmos do que nos é oferecido pelo mundo social e cultural, e também como efeito de nossas atuações sobre o que nos cerca, constituindo uma relação de

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interação e transformação de ambos, o homem modificando o mundo ao mesmo tempo em que modifica a si mesmo (BOCK, 2008).

Na visão da Psicanálise, a concepção do sujeito e de sua constituição vão se dar de um modo oposto a algumas concepções já elencadas, pois aqui o sujeito não pode e não deve ser tomado como uma mera interação biológica e social, considerando que “o campo do psíquico o concebe como uma positividade, e não como um efeito interativo e secundário de ordens positivas porém estranhas ao psíquico e primárias em relação a este” (ELIA, 2004, p.35), alegando que “a noção central do campo do psíquico é justamente a de sujeito” (Ibid.).

Portanto, afirma-se que o sujeito é constituído, tampouco nasce ou se desenvolve, sendo que as suas características não são inatas ou aprendidas, evidenciando o processo progressivo de sua constituição (Ibid.).

Embora Freud não considerasse a concepção de sujeito, ele acaba se dirigindo a este no momento em que abandona a hipnose e institui a associação livre como método, percebendo em seus pacientes a existência de elementos inconscientes que surgiram através de sua fala e em falhas por meio desta, denotando a existência de algo a mais, supondo assim um sujeito do inconsciente, e que neste sujeito existe um saber (ELIA, 2004).

O que era possível saber acerca da subjetividade antes das ‘descobertas’ de Freud se delimitava a “uma subjetividade identificada com a consciência e dominada pela razão; subjetividade monolítica admitindo, quando muito, “franjas” inconscientes” (GARCIA-ROZA, 1998, p. 169). Conforme Garcia-Roza (1998), Freud fala em seu artigo “O Inconsciente” que o caminho para o inconsciente deve procurado nas lacunas das manifestações conscientes, que são possíveis de se tornar evidentes por meio dos sonhos, dos lapsos, dos atos falhos, dos chistes e dos sintomas, os quais seriam nomeadas por Lacan como formações do inconsciente, que passam ao sujeito a sensação de ser interpelado por um outro sujeito que lhe parece desconhecido.

Elia (2004), ao fazer uma primeira referência à linguagem, afirma ser impossível, como foi primeiramente proposto por Freud, a utilização de referenciais de estatuto biológico (os neurônios) e não-materiais como sustentação do sistema inconsciente, acabando por reduzi-lo a conceitos como “alma” e “pensamento”, tornando-se necessária uma referência de ordem simbólica como suporte metodológico.

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Garcia-Roza (1998) nos incita a começar a falar sobre a questão do inconsciente marcando os pontos que o diferenciam da concepção de subjetividade tida como dominante até o instante antes de Freud, como também ao definir os aspectos que não o constituem como conceito. O principal uso do termo inconsciente era para definir o que não poderia ser considerado como da ordem da consciência, não colocando-o como “um sistema psíquico distinto dos demais e dotado de atividade própria” (GARCIA-ROZA, 1998, p. 170).

É curioso salientar um outro elemento ao qual o inconsciente foi amplamente associado, e ao qual ainda se faz referência nos dias atuais, identificando-o “com o caos, o mistério, o inefável, o ilógico” (Ibid.), bem como “o lugar da vontade em estado bruto e impermeável a qualquer inteligibilidade” (Ibid.). Seu conteúdo oculto levou aqueles mais dotados de imaginação a associar o inconsciente e suas manifestações com algo obscuro e oculto, desprovido de qualquer rastro de racionalidade. Porém, Freud lança fora estas ideias, falando-nos de algo totalmente distinto, ao propor “um sistema psíquico — o Ics — que se contrapõe a outro sistema psíquico — o Pcs/Cs — que é em parte inconsciente (adjetivamente), mas que não é o inconsciente” (GARCIA-ROZA, 1998, p. 170). Em um tempo posterior, Lacan vai nos afirmar que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, ao possuir uma estrutura, e uma ordem, uma sintaxe (Ibid.).

Tal linguagem a que aqui se refere é aliada ao campo simbólico, fator este que coloca-se como uma condição para a existência do inconsciente (GARCIA-ROZA, 1998). Percebe-se que tal conceito possui uma importância significativa para a psicanálise, bem como para este estudo, pois vemos que Lacan elege como questão principal de sua teoria o simbólico, no “papel de constituinte do sujeito humano” (Ibid., p. 183). Para chegar a este ponto, ele buscou suas referências nas áreas da antropologia e da linguística, fundamentalmente nesta última, a fim de elaborar seu conceito de campo simbólico. Mas a que estamos nos referindo quando falamos de simbólico? Passamos então a conferir as bases teóricas de que Lacan se utilizou.

Em um artigo de 1967, Lévi-Strauss (1908-2009) (apud GARCIA-ROZA, 1998) remete o conceito de inconsciente à antropologia, introduzindo a questão da função simbólica, função esta que seria algo específico do humano, tida como um conjunto de leis as quais os homens são submetidos, ou seja, que se exerceriam sobre estes, consideradas como leis estruturais. Desse modo, a concepção de Lévi-Strauss coloca em evidência o aspecto da cultura, como um conjunto de sistemas simbólicos que vão

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constituir esta última, e que constituirão também o social, sendo o simbólico a condição para a existência do social (Ibid.).

O campo simbólico foi proposto por Lacan tendo como o seu principal alicerce a linguística, originalmente elaborada por Ferdinand de Saussure (1857-1913), o qual traz o conceito de “signo linguístico como uma unidade composta de duas partes: o significado e o significante. O signo não é união de uma coisa e um nome, mas união de um conceito e uma imagem acústica (ou impressão psíquica do som)” (GARCIA-ROZA, 1998, p. 184).

Recorrendo à linguística, Lacan, ao mesmo tempo em que utiliza a formulação de Saussure como base para fundamentar sua teoria, também acaba por discordar dele em alguns aspectos. O que ocorre é que Lacan vai subverter a associação entre significante e significado, “conferindo primazia ao primeiro (o significante) na produção do segundo: o significante prevalece sobre o significado, que lhe é secundário, e se produz somente a partir da articulação entre os significantes” (ELIA, 2004, p. 37), portanto “o significante tem um peso maior do que o significado” (BLEICHMAR & BLEICHMAR, 1992, p. 149). Tão relevante é esta modificação para a teoria lacaniana que a posição mesma do sujeito será definida a partir da primazia dada ao significante, pois o significante é a causa que move o sujeito, movimentando-o em torno de si (Ibid.), de modo que “o significante tem prioridade sobre o significado e é sua circulação que define o lugar que cada indivíduo ocupa na estrutura” (Ibid., p. 150).

Garcia-Roza (1998) nos diz que o signo linguístico vai unir um significado a um significante, sendo composto portanto por estas duas partes, como salientado anteriormente. Sobre este signo linguístico, o autor vai expor dois princípios, que afirmam sua arbitrariedade e sua linearidade. A arbitrariedade coloca em evidência que não se faz necessário o fato de haver uma relação entre significante e significado, pois estes não possuem uma ligação natural com a realidade (Ibid.). Como exemplo disso, podemos pensar em uma imagem específica e nas diferentes palavras que a representam nos mais variados idiomas, o que ilustra o fato de não ser algo fixo, porém de caráter variável. Já a linearidade diz respeito ao caráter do significante, visto que os significantes organizam-se em uma cadeia, na disposição de elementos em uma sequência entre um e outro (Ibid.).

Além desta diferença opositória que Lacan estabelece entre a representação de Saussure acerca do signo, optando por invertê-la, de modo que revele a primazia do significante sobre o significado, ele também demonstra a existência de uma

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autonomia que o significante possuiria em relação ao significado, evidenciada pela barra que os separa em sua representação gráfica (Ibid.).

Assim, a unidade do signo, defendida por Saussure, é quebrada por Lacan, quando este afirma que “a cadeia dos significantes (ou cadeia significante) é, ela própria, a produtora de significados” (Ibid., p. 186), sendo que, a partir disso, “nenhum significante possa ser pensado fora de sua relação com os demais” (Ibid., p. 186). O que Lacan tenta elucidar em suas formulações demonstra que significante e significado não pertencem a uma mesma ordem, pois a imagem mesma não carrega seu significado, sendo que as redes de articulações que se constituem são paralelas (Ibid.).

Seguindo nesta mesma direção, Bleichmar & Bleichmar nos auxiliam demasiadamente a compreender a questão do simbólico proposta por Lacan, elencando algumas características destes elementos na linguagem.

A unidade fundamental da linguagem é o signo, que é composto de uma imagem acústica ou significante, e um significado ou conceito. Notemos, no entanto, que o significante é incorpóreo. Embora seja suscetível de se tornar sensível, não é requerida sua presença física para que entre na categoria de significante. O que o caracteriza é a diferença que há entre sua imagem acústica (que pode potencialmente se tornar sensível) e toda as demais imagens acústicas do sistema. (BLEICHMAR & BLEICHMAR, 1992, p. 141)

Os autores afirmam existir algo que é irrompível entre o significado e o significante, sendo isto o equilíbrio existente entre ambos, pois faz-se necessário que um deles exista para que o outro possa existir também, já que “o significante não existe sem o significado, é apenas um objeto. O significado, por sua vez, sem o auxílio do significante, é impensável, indizível, é o inexistente” (Ibid., p. 141).

Portanto, ambos – significante e significado – constituem uma união impassível de ser desfeita, a qual é igualmente arbitrária. Isso significa que não existe algo que vai remeter um ao outro de um modo específico. Como um exemplo de tal arbitrariedade, os autores colocam a situação das diferentes línguas presentes através do mundo, que por mais que o significado da palavra seja o mesmo para todos, os significantes que a representam serão diferentes. Conforme Saussure (1915, apud BLEICHMAR & BLEICHMAR, 1992, p. 141-142) “a única forma de explicar um signo é em relação com os demais signos do sistema e não com a relação recíproca de significante-significado”.

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O conceito de sujeito torna-se lúcido e compreensível quando percebemos que tal sujeito é um destes significantes, inserido neste universo de linguagem que o rodeia desde sempre.

Portanto, o homem nasce em um universo que fala, em um universo de linguagem. O fato de ser nomeado o introduz no sistema linguístico e este sistema o transforma em mais um significante da cadeia. O sujeito é, segundo Lacan, um significante, para outros sujeitos ou outros significantes. [...] Portanto, nada mais somos do que significantes, em um sistema de significantes. E o somos pelo próprio efeito do sistema. (BLEICHMAR & BLEICHMAR, 1992, p. 148)

Tudo o que já se vinha expondo acerca do processo de constituição do sujeito, o que lhe é necessário em termos de ‘estrutura’ psíquica para que tal processo ocorra, remete diretamente à uma inserção do ser humano na ordem humana que o antecede. A psicanálise, por meio da teoria do sujeito e da constituição deste, vai se articular com o que a sociologia vai definir como sociedade e família, ordens nas quais o sujeito se insere e se organiza (ELIA, 2004). Assim sendo, a psicanálise busca a raiz do sujeito como ser social a fim de pensá-lo como este sujeito que se constitui aliado ao campo social, pois “a psicanálise não apenas considera a dimensão social da constituição do sujeito [...] mas também, pelo contrário, afirma a dimensão social como essencial à constituição do sujeito do inconsciente [...]” (Ibid., p.39).

Aqui, considera-se fundamental estabelecer uma diferenciação entre o Outro de Lacan, que pode ser visto de dois modos. Um deles se relaciona com a ordem social e cultural, remetendo à antropologia e os princípios e ideologias que a compõem, e o outro modo de compreender este conceito coloca-se pela via simbólica e significante encarnada pelo materno, ao transmitir - mesmo sem estar ciente de tudo aquilo que pretende passar - algo além dos valores culturais, ela transmite esta estrutura inconsciente e significante (ELIA, 2004).

Elia (2004) vai trazer a leitura freudiana, a qual diz que todo o ser humano, a partir de seu nascimento, se encontra em uma condição de desamparo fundamental, fazendo com que a sobrevivência deste apenas seja possível através do intermédio de um adulto próximo, com suas ações de manutenção da vida do bebê. Assim como já conhecemos, Lacan atribui a este adulto uma função, que pode ser nomeada como Outro, responsável por suprir as necessidades e garantir a sobrevivência do bebê, bem como sendo o mediador deste com o mundo da cultura tecido pela sociedade

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humana (Ibid.). Assim sendo, a sobrevivência do sujeito se dará sobre estas condições. Conforme Elia

Para a psicanálise, portanto, o sujeito só pode se constituir em um ser que, pertencente à espécie humana, tem a vicissitude obrigatória e não eventual de entrar em uma ordem social a partir da família ou de seus substitutos sociais e jurídicos (instituições sociais destinadas ao acolhimento de crianças sem família, orfanatos etc.). Sem isso ele não só não se tornará humano (a espécie humana, em termos filogenéticos, não basta para fazer de um ser nela produzido um ser humano, argumento que dá sentido à palavra humanização) como tampouco se manterá vivo: sem a ordem familiar e social, o ser da espécie humana morrerá. (2004, p. 39)

Nesta perspectiva, o que este Outro materno transmite ao bebê não pode ser resumido como significados que precisam ser por ele incorporados e com os quais ele interagiria como estímulos, determinando-o socialmente como sujeito, porém, o que lhe chega segue numa outra direção, definindo-se como um “conjunto de marcas materiais e simbólicas — significantes — introduzidas pelo Outro materno, que suscitarão, no corpo do bebê, um ato de resposta que se chama de sujeito” (Ibid, p. 41). O sujeito que se constitui é um sujeito que procura responder à demanda deste outro, sobre o qual explanaremos na sequência.

O primeiro ponto que Elia coloca para este bebê que se depara com um mundo anterior e desconhecido a ele, no seu caminho de ‘tornar-se’ um sujeito, é a própria necessidade de sobrevivência, pois ainda que nele se delineie todo um psiquismo não se pode desconsiderar o fato do bebê ser um mamífero que exige a satisfação de suas necessidade vitais (Ibid.).

Ao falar da atuação dos processos psíquicos, Freud discorre acerca das primeiras experiências de satisfação vividas pelo bebê estando aliadas ao campo das satisfações pulsionais, sendo que, para ele, “uma pulsão só pode ser conhecida pelo sujeito na estrita medida em que ela encontra uma solução de expressão no aparelho psíquico, ou seja, sob a forma de um representante” (DOR, 1989, p. 139).

Um dos primeiros instantes nos quais temos indícios de uma manifestação do campo da pulsão é quando o bebê encontra satisfação ao alimentar-se, apaziguando o desprazer causado pelo estado de tensão que é próprio da fonte da pulsão (Ibid.).

Dor (1989) afirma que, para a criança, este momento inicial é marcado pela ordem biológica, na satisfação de uma necessidade puramente orgânica que deve encarecidamente satisfazer-se, através de um objeto que lhe será proposto, ou seja, “sem que ela o busque e sem que lhe seja dado ter uma representação psíquica dele”

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(Ibid., p. 140), não havendo qualquer mediação psíquica para a satisfação de tal pulsão. Bleichmar & Bleichmar (1992) nos falam que antes mesmo de saber da existência de tal objeto, a criança já se encontrava em um estado de necessidade, ou seja, ela não precisa do objeto para se instalar o que é inato do orgânico. Assim, compreende-se que

O mundo externo propõe-lhe um objeto que ele antes não buscava. Este objeto, junto com a sensação de satisfação, transformar-se-á em uma marca mnêmica, constituída pela experiência da necessidade, ligada à representação do objeto que satisfaz. A marca mnêmica, com seus dois componentes, passará a fazer parte do cenário do repertório pulsional do bebê. (BLEICHMAR & BLEICHMAR, 1992, p. 160)

Assim que isto ocorre, ou seja, o objeto dado à criança lhe satisfaz a necessidade e cessa seu desconforto, será deixado no aparelho psíquico um traço mnésico que vai dizer da experiência de satisfação (processo pulsional), e cada vez que o bebê passar pela experiência de satisfação ele se reencontrará com a percepção ou a imagem que lhe propiciou tal satisfação, de modo que quando o traço mnésico se ativará novamente no instante que a tensão pulsional reaparecer (DOR, 1989). Cabe ressaltar que a manifestação pulsional não poderá mais surgir puramente como da ordem da necessidade depois que a criança passar por sua primeira experiência de satisfação, já que desde então a necessidade vai se ligar a uma representação mnésica que diz da satisfação, e que nas experiências posteriores será novamente identificada (Ibid., p. 140).

A partir deste instante, a criança passa a reinvestir na imagem deste objeto que lhe propiciou a satisfação, salientando que, inicialmente, haverá para a criança uma confusão entre o objeto real com a sua representação (BLEICHMAR & BLEICHMAR, 1992), dito de outro modo, confundindo “a evocação mnésica da satisfação passada com a percepção do acontecimento presente, [...] a imagem mnésica ligada à primeira experiência de satisfação com a identificação da excitação pulsional presente” (DOR, 1989, p. 140), produzindo-se a satisfação alucinatória da pulsão.

Certamente, a atividade de satisfação da necessidade deverá ser realizada mais vezes pela criança, e será apenas sucessivamente que ela vai conseguir estabelecer uma distinção entre a imagem e o objeto real, o que servirá como orientação nesta experiência (BLEICHMAR & BLEICHMAR, 1992), já que “a imagem

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