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Aprendizagem de crianças e adolescentes vítimas de violências

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DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO

KARINE MEDEIROS JUNGES

APRENDIZAGEM DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES VÍTIMAS DE

VIOLÊNCIAS

IJUÍ 2012

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KARINE MEDEIROS JUNGES

APRENDIZAGEM DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES VÍTIMAS DE

VIOLÊNCIAS

Monografia apresentada ao curso de Pedagogia, do Departamento de Humanidades e Educação da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul de Ijuí, como requisito parcial para obtenção do grau de Pedagogo.

Orientadora: Profª. Ms. Julieta Ida Dallepiane

Ijuí 2012

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Dedico...

... Aos meus pais, Claudio e Genair, pela dedicação e carinho que designaram durante meu desenvolvimento. Dentre os erros e acertos, os quais formaram os fundamentos do meu caráter. Obrigada por serem a minha referência de tantas maneiras e estarem sempre presentes na minha vida de uma forma indispensável.

...Ao meu marido Ricardo, que durante toda a caminhada acadêmica esteve ao meu lado me apoiando e com sua paciência, por muitas vezes me acalmando quando pensava que não iria conseguir, e também entendendo as muitas vezes que o “troquei” pelo computador para fazer trabalhos.

...Aos meus irmãos, Elisangela, Anderson e Alesson, que com sabedoria estão conseguindo superar as barreiras que a vida lhes apresentou, e que estão sempre comigo, se não presente, mas em pensamento.

...Especialmente a todas as crianças, adolescentes e adultos que de alguma forma são vítimas de violência. Que consigam, durante sua vida, serem pessoas melhores que as que lhes causaram dor.

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AGRADECIMENTOS

À Deus...

que proporcionou saúde e paz e conduziu os meus passos nesta longa caminhada. A família...

que sempre me incentivou a dar continuidade a minha formação e, que compreensivamente, entenderam os momentos que precisei abdicar do convívio deles, para me dedicar aos estudos.

Ao marido...

meu fiel companheiro, que sempre acreditou em minha capacidade e esteve ao meu lado apoiando e incentivando.

Aos amigos...

pelas palavras de incentivo e também pela compreensão do afastamento necessário para dedicar-me aos estudos.

À professora Julieta Ida Dallepiane

pelo carinho, apoio e paciência durante a elaboração e realização deste trabalho... pela compreensão...

por estar ao meu lado sempre que precisei... pela confiança, ajuda, disponibilidade, e dedicação...

por acreditar em mim...

por dar sempre atenção ao orientar-me em todas as etapas... por compartilhar comigo saberes e experiências...

buscando junto comigo, superar todos os desafios que apareciam no decorrer do caminho, pelas valiosas contribuições...

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SUMÁRIO

Introdução ... 6

CAPÍTULO 1 Violências: histórias e contextos ... 7

1.1A Violência Infantil no Brasil ... 8

1.2 Infâncias Violentadas ... 10 CAPÍTULO 2 Tipos de violência ... 16 2.1 Violência física ... 19 2.2 Violência sexual ... 19 2.3 Violência psicológica ... 20 2.4 Negligência ... 21 2.5 Violência Institucional ... 21 CAPÍTULO 3 Aprendizagem das crianças e adolescentes vítimas de violência ... 23

CAPÍTULO 4 Possibilidades de transformação existem ... 29

4.1 O Papel das Instituições de Ensino ... 29

4.2 O Papel dos Professores ... 30

Considerações finais ... 37

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RESUMO

O foco central da pesquisa é a aprendizagem da criança e adolescente vítima de violência. Busca acontecimentos históricos para compreender que o problema da violência contra os mais indefessos não é algo recente, tampouco se apresenta somente de uma forma. Apresenta considerações quanto ao papel e função, que desempenha tanto a escola quanto o professor no que diz respeito a constatação do problema e no processo de aprendizagem do sujeito vitimizado. Expõe as causas e conseqüências que tem a violência na vida da vítima, concluindo com um alerta aos educadores dos sinais e marcas que cada violência (física, sexual, psicológica e a negligência) podem deixar no físico, cognitivo e emocional do menor violentado.

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INTRODUÇÃO

É comum observarmos manifestações de violência contra crianças nos meios de comunicação e também na nossa própria realidade. Estas ações influenciam no comportamento e na formação do caráter do ser humano.

Mas é fato que este problema não está presente na sociedade somente no século XXI, mas sim desde muitos anos atrás. Porém somente a partir do século XIX é que iniciou a caminhada para combater a violência, valorizar e proteger a criança e o adolescente.

O interesse em pesquisar sobre a aprendizagem de crianças vítimas de violências surgiu de questionamentos e experiências próprias pessoais, como também de estudos realizados no curso de Pedagogia da universidade.

Considerando que a prática educativa acontece em interação constante com os sujeitos, é que surgiu o interesse em conhecer e saber sobre a realidade e os conflitos psicológicos que atormentam os indivíduos vítimas de violências, distinguir as características e atitudes que possam desempenhar, é a maneira que pode auxiliar no cotidiano da prática educativa, fazendo com que o educador esteja apto a orientar e ajudar estes indivíduos. Pois desde o seu nascimento, a criança depende do ambiente ao seu redor para poder sobreviver. Existe uma relação de dependência familiar e social da criança, com base na qual se estrutura sua formação e desenvolvimento.

Sendo assim, esta pesquisa busca identificar os fatores que levam a violência contra a criança, compreender como acontece a aprendizagem destes sujeitos, verificar quais são as consequências psicológicas, identificar as manifestações de violência em sala de aula, as ações pedagógicas desenvolvidas pelo professor e compreender quais contribuem para uma melhor aprendizagem e desenvolvimento dos alunos vitimizados e, analisar a postura da gestão escolar diante dessa realidade na escola, bem como suas atitudes para uma melhoria no quadro.

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CAPÍTULO

1

VIOLÊNCIAS: HISTÓRIAS E CONTEXTOS

Muitas crianças e adolescentes atualmente tornam-se vulneráveis a atos violentos. Isto não se configura apenas como um dado estatístico, mas sim como um fato que nos é apresentado cotidianamente nas páginas policiais, nas ONGs que auxiliam estas crianças, bem como nas escolas.

A violência possui diversas formas de expressões determinadas pela cultura, pelas relações e pelos valores pertencentes a um povo. Atinge de forma hostil os sujeitos mais indefesos de uma sociedade, como crianças e mulheres, porém sem poupar os demais. Não está presente apenas nas relações interpessoais, mas também em instituições que exercem poder na sociedade, como família e escola.

Infelizmente crianças e adolescentes sofrem violência nas escolas, nas ruas, porém o agravante reside no fato de que são vitimizadas principalmente nos lares, onde a relação de poder e hierarquia entre adultos, crianças e adolescentes é muito forte.

Além da violência doméstica, que é a que mais ouvimos falar, existe também a negligência, a violência física, a violência sexual e a psicológica. Sendo que todas afetarão psicologicamente as crianças ou adolescentes.

É muito comum observar manifestações de violência contra as crianças, através da nossa própria realidade, sendo que toda e qualquer atitude observada irá servir de exemplo para o comportamento do ser humano. Estes fatores influenciam tanto de uma forma positiva quanto negativa, pois sabemos que o sistema familiar, mas não somente este como também a escola, influencia na formação do caráter deste ser humano. Assim sendo, este sujeito vítima de violência poderá considerar normal a prática da mesma, tornando-se também ele violento, dando continuidade ao ciclo vicioso.

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1.1 A Violência Infantil no Brasil

Toda a sociedade, especialmente o estado, é responsável por garantir e assegurar os direitos da criança e do adolescente. Ou seja, toda a pessoa até 18 anos, a qual é considerada menor de idade.

A preocupação quanto a criança e o adolescente, não tem muito tempo que vem sendo alvo de discussões e debates. O mesmo somente teve início quando alguns membros da sociedade começaram a perceber a situação em que elas estavam vivendo, e resolveram buscar meios para ajudá-los.

As inúmeras inovações tecnológicas que vem acontecendo na sociedade em geral, acarretam em um número considerável de pessoas que sofrem com a falta de trabalho. Isto acontece pelo fato de máquinas estarem substituindo a mão de obra assalariada. O mesmo pode ser percebido por volta de 1940, quando a agricultura passou por uma modernização, ocasionando o êxodo rural.

Com isso inúmeras pessoas vieram para a cidade em busca de trabalho, porém a demanda de pessoal era superior a demanda de trabalho. Desta maneira muitas delas começaram a passar necessidades, e o caso de pobreza ganhou maior proporção.

Remeto a este fato, pois um fator que muito contribui para a violência é a questão da pobreza, que tem um aumento considerável em todo mundo. Com isso, as crianças e os adolescentes passaram a ser alvo da falta de condições básicas de sobrevivência, como falta de moradia, roupa e comida.

Em relatório apresentado pela a UNICEF1, sobre a situação mundial da infância 2012, é exposta a questão de que a criança que vive em áreas urbanas tem maiores condições de sobreviver em seus primeiros anos de vida do que as que vivem na área rural, por possuírem mais acesso à saúde, educação, proteção e saneamento.

Porém esta questão não é “um conto de fadas”, como é apresentada. Existem milhões de crianças que vivem na área urbana em situações precárias e enfrentam diariamente desafios e escassez de seus direitos.

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O mesmo relatório apresenta números referentes aos habitantes que vivem na situação de pobreza:

Segundo o Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (UN-Habitat), um em cada três habitantes das cidades vive em condições de favela, sem segurança de posse, em locais superlotados e sem higiene, caracterizados por desemprego, poluição, tráfico, crime e alto custo de vida, cobertura precária de serviços e disputa por recursos. (UNICEF, 2012, p.2)

Com tanta pobreza, como será possível mudar esta situação? Em 2010, aproximadamente 8 milhões de crianças vieram a óbitos antes de completar 5 anos de vida, muitos em decorrência de diarreia, pneumonia, e complicações no parto.

Outro aspecto que não se pode deixar de falar é a questão da formação familiar. Esta em tempos passados era constituída por pai, mãe e filhos, sempre vista como um exemplo a ser seguido. Era considerada uma instituição sagrada. Porém sofreu muitas transformações, vindo a ser formada de várias maneiras: pais separados que moram com outro companheiro (a), que também trazem filhos de outro(s) relacionamento(s); Crianças que moram com outros familiares que não os pais e assim por diante.

Existem inúmeros casos que estas novas formas de constituição da família se tornam uma ameaça à segurança da criança ou adolescente, pois estes acabam vivenciando cenas de brigas, ou mesmo sendo vítima da violência, como um saco de pancadas do adulto para descontar sua raiva, após discussões com o companheiro(a).

Estima-se que de 133 a 275 milhões de crianças em todo o mundo testemunham violência doméstica anualmente. A frequente exposição de crianças a violência em seus lares, geralmente a brigas entre pais ou entre uma mãe e seu parceiro, podem afetar severamente o bem-estar e o desenvolvimento pessoal de uma criança e sua interação social na infância e na fase adulta. A violência entre parceiros íntimos também aumenta o risco de ocorrerem atos de violência contra crianças na família (Assembleia Geral das Nações Unidas,2006, p. 16).

Pesquisas mostram que no Brasil 29% da população vive em famílias pobres, mas entre as crianças, esse número chega a 45,6%. As crianças negras, por exemplo, têm quase 70% mais chances de viver na pobreza do que as brancas; o mesmo pode ser observado para as crianças que vivem em áreas rurais. Na região do Semiárido, onde vivem 13 milhões de crianças, mais de 70% das crianças e dos adolescentes são classificados como pobres.

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Analisando estes dados percebe-se que o problema da pobreza está relacionado com a escravidão de negros e índios no Brasil. E anos após a abolição da escravatura ainda o negro continua sendo escravizado em função da sua cor. As crianças negras tem maior probabilidade de pertencer a uma família pobre e são mais suscetíveis a morte antes dos 5 anos de idade; dos 535 mil adolescentes que estão fora das escolas, 330 mil são negras; os casos de AIDS aumentam mais entre os negros do que entre os brancos.

No Brasil os números de casos de violência contra as crianças e adolescentes é assustador. A cada hora, cerca de cinco novos casos de violência são registrados pelo Disque Denúncia.

Existem inúmeros programas sociais que trabalham para que estes números diminuam. E o grande problema a ser enfrentado são os fatores causadores da violência. É necessário iniciar um trabalho de conscientização, de cunho social e especialmente racial, pois como vimos, os números evidenciam que a situação do negro no Brasil é de total abandono, sendo estes mais suscetíveis a pobreza, doenças e demais problemas sociais.

1.2 Infâncias Violentadas

O sentido da infância, a percepção do infante e o desejo de cuidar dele, com sua consequente representação, aparecem somente a partir do século XIX e a visão que se tem da infância como fase distinta da idade adulta é relativamente recente. A criança nem sempre foi objeto de educação e, ainda hoje, em alguns setores, é vista como ser que necessita de assistência.

A concepção de infância e de criança é determinada pelo contexto histórico-social, além dos fatores econômicos, educacionais, culturais, étnicos e geográficos. Segundo SALGADO (2005, p. 40), “compreender a criança na esfera da cultura e da vida social contemporânea exige-nos reportar as concepções de infância existentes nas relações construídas por crianças e adultos em diferentes épocas e cultura”.

Retomar a história da criança brasileira é chocar-se com um passado doloroso, mas que se prefere esquecer/esconder, marcado por anônimas tragédias que perpassaram a vida de milhares de meninos e meninas. A situação de descaso e maus tratos em que a criança estava

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submetida transcorreram durante mais de três séculos na história brasileira, sem terem sequer tido um olhar de compaixão.

O abandono de bebês foi uma situação muito presente em nosso país. Em Minas Gerais, durante o século XVIII, a exposição de crianças cresceu alarmantemente, sendo que foi necessária a criação de instituições que acolhessem estas crianças. Era a Camara, órgão governamental, a responsável por garantir economicamente os cuidados de criação dos abandonados. Porém muitas foram as vezes que esta deixou de assumir sua responsabilidade.

Sendo o registro de nascimento um direito da criança, neste período foram muitos os casos de crianças que não foram registradas, pelo fato de terem vindo a óbito antes do mesmo acontecer.

Em 1775, um alvará tornou público a responsabilidade, não somente da Camara, mas também da Santa Casa de Misericórdia e Juiz de Órfãos, pelos enjeitados. Desta maneira foram criadas “rodas de expostos” na Misericórdia, para que fossem deixadas as crianças consideradas frutos do pecado.

A prática ilegal e quase aberta do abandono e o fatalismo com que era aceita a mortalidade infantil revelavam certa indiferença ao valor da criança até o início do século XIX, quando as escolas começaram a descobri-la e a classe média passou a insistir na necessidade da criação dos filhos pelas mães.

Porém ambas as situações eram difíceis de concretizar, pois no Brasil ainda existia a escravidão. Os negros sempre foram prejudicados, até mesmo no que diz respeito às crianças abandonadas, pois se o mesmo tivesse sangue de negro, não era aceito pela Camara para ser criado.

A partir de 28 de setembro de 1871, através da Lei do Ventre Livre, foram separadas as fases da vida da criança escrava. Analisando a vida destas crianças, percebemos que sua infância compreendia somente dos zero a oito anos. Após esta idade, até os doze anos, os jovens escravos deixavam de ser criança para entrar no mundo dos adultos, na qualidade de aprendiz. A partir daí ficariam escravos do seu senhor até os vinte e um anos de idade, sendo que dificilmente um escravo sobrevivera até esta idade, devido ao desgaste extremo provocado pelo trabalho. Mas isso não foi sempre assim, anteriormente à Lei, a situação era ainda pior.

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Algumas situações de violência vivenciadas por crianças antes desta lei consistiam na venda de crianças escravas que eram brutalmente separadas de suas mães, violências cotidianas que não excluem o abuso sexual, doenças, queimaduras e fraturas que sofriam no trabalho escravo ou operário.

A que concerne a questão do abuso sexual, no Brasil este fora por muito tempo uma prática aceita. As relações sexuais entre adultos e adolescentes, além de frequentes, não eram condutas das mais condenadas, pois mesmo quando realizada com violência, a pedofilia nunca chegou a ser considerada um crime específico por parte da Inquisição.

Em muitos lugares, a relação sexual entre adulto e adolescente era tida como um ritual, considerada como uma forma pedagógica de inserção no mundo adulto. No início do século XVIII, foram muitos os casos de estupro contra crianças, as quais tinham em torno de três a sete anos de idade, os mesmos eram de conhecimento de todos e não era tomada nenhuma atitude mesmo com a denúncia feita por parte dos pais. Normalmente os estupradores/abusadores eram pessoas consideradas de confiança, professores ou sacerdotes.

Além de serem vistos na esfera da violência sexual, muitos professores utilizavam-se da violência física para com os educandos que desobedecessem alguma ordem, tais como castigos, palmatórias e açoites.

Somente os casos mais graves, quando havia muitas testemunhas de repetidos atos sodomíticos, resultavam em prisão do réu, alguns poucos chegando a fogueira. Existiram casos em que o réu ficou preso por um tempo e fora solto após terem cessado as investigações, por motivo de não ter provas suficientes.

Somente no século XIX é que os casos de violência sexual se tornam responsabilidade das delegacias de Polícia. A infância e a adolescência começam, de forma lenta, a ter maior atenção. Porém agora cabe ao Estado zelar pela moral e inocência dos menores de idade.

O descaso com a criança e o adolescente se configura como sendo corriqueiro em tempos passados, não tão distantes, pois não foram poucas as formas de violência e exploração infantil. Há pouco tempo, por volta do século XX, que começaram a manifestar a preocupação com as condições em que se encontravam os menores de idade no setor industrial.

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Estavam expostos aos mais diversos acidentes de trabalho, precariedade de condições de trabalho – jornada excessiva, trabalho noturno, falta de segurança, insalubridade, baixa remuneração, em alguns casos nenhuma remuneração sendo o menor considerado como aprendiz, e o pior de tudo a idade que iniciavam no trabalho: muitas crianças a partir dos seus cinco anos já estavam ocupadas em serviços fabris. Sem contar que descaradamente os donos de fabricas colocavam anúncios nos jornais dizendo que precisavam de trabalhadores, admitindo-se meninos de dez anos para cima.

Existiam na época, algumas políticas que visavam regularizar a situação do menor empregado em fábricas. Em 1891 são instauradas algumas normas, tais como: limites para a jornada de trabalho e para a idade de admissão do menor ao trabalho das fábricas e oficinas. Em 1911 o Decreto Estadual estabelece que não fossem admitidos como operários menores de dez anos, podendo os de dez a doze anos executar serviços leves. Em 1917 a Lei Estadual n°1596, que foi regulamentada pelo Decreto Estadual n°2918 no ano seguinte, estabelece medidas que visam impedir o trabalho dos menores em indústrias perigosas ou insalubres; também em atividades que causem fadiga excessiva, desta maneira proibia o trabalho com máquinas perigosas, a execução de serviços que ofereçam riscos de acidentes, ou qualquer serviço que demande deles conhecimento e atenção especial.

Apesar de existirem estas normas e leis, muitas eram infringidas pelas fábricas e indústrias, pois não existia fiscalização eficaz. Os números apresentados pelo Departamento Estadual do Trabalho mostram que entre 1912 a 1919, os trabalhadores inseridos na faixa etária compreendida entre os dez e vinte anos são os que mais se acidentavam.

Estas situações existem também pelo fato de as famílias estarem passando por dificuldades. Desta forma os filhos, indiferente da idade, precisavam trabalhar para ajudar seus pais nas despesas de casa.

Em um contexto bastante pobre, com muitas crianças abandonadas, os jovens tiveram grande participação no crime. Em 1894 o número de criminosos com idade entre nove a vinte anos em São Paulo, era apenas de 59, visto que um ano depois, o número passou a 97, 60% a mais. Este contexto foi aumentando cada vez mais, apesar da criação de várias entidades que ficariam responsáveis pelos menores infratores, pelo seu cuidado e reintegração social.

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Foi com a indicação de 1978 como o Ano Internacional da criança que a história da criança no Brasil e de sua repressão começou a ser pesquisada. Isso induziu a formação de diversas associações que se articularam a outras na defesa dos direitos da criança e que acabaram influenciando o Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990.

A Convenção sobre os Direitos da Criança adotada em 1989 foi o primeiro tratado internacional a declarar a totalidade dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais da criança. Esta convenção detalha normas e padrões relativos a proteção e a promoção dos direitos da criança reconhecidos universalmente.

Em 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei 8.069/90, regulamentou artigos da Constituição Federal e explicitou mecanismos que possibilitam a exigência legal dos direitos da criança. Ter seus direitos reconhecidos não basta, pois hoje, a concepção de criança como ser de direito, como cidadã, é uma realidade ainda não alcançada e um dos desafios que se estampa para atingir esse estado de direito.

Apesar de todos os direitos defendidos pelo ECA, muitos não são respeitados, em especial, o que diz respeito ao cuidado, tendo em vista que muitas vezes, quem deveria cuidar é quem de uma ou outra forma maltrata, usando da violência para com a criança.

Neste contexto, faço a citação de uma situação que vivenciei em sala de aula. Durante uma das aulas, na turma em que estava realizando o estágio de anos iniciais, ocorreu que um aluno (menino) batera na colega (menina). Então começou a discussão de que quem bate em mulher é covarde, sendo assim um dos alunos disse: “não é não profe, como é que meu pai bateu na minha mãe?” e continuou, “sabia profe eu tava na casa do meu tio com o pai e a mãe não tava em casa, daí o meu pai me forço a tomar cerveja e fuma com eles, daí ela chego, e eu tavo mal, né, porque tinha bebido, daí ela começo a chinga o pai. Depois ela foi toma banho, daí o pai deu um empurrão nela, ela bateu no coiso de liga o chuveiro e caiu, daí ele deu uma sova de pau nela, verdade profe”.

Esta criança, na escola, está sempre batendo, empurrando, beliscando, enfim esta arrumando um jeito de incomodar os colegas e é um menino muito esperto, mas tem dificuldade na aprendizagem, escreve somente se tem alguém com ele o ajudando, não quer realizar as atividades, já foi encaminhado o seu caso para a psicopedagoga.

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Com uma experiência como esta, fica evidenciado que, de fato o contexto em que a criança está inserida, os exemplos que ela tem são de fundamental importância para a formação de seu caráter, e estes contextos refletirão na escola.

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CAPÍTULO 2

TIPOS DE VIOLÊNCIA

Infelizmente a violência é uma realidade que esta em toda a parte, basta acessarmos a mídia que nos deparamos com numerosos casos e relatos de violência.

Conceitualmente, a violência segundo o minidicionário Luft, é qualidade ou ação de violento. Constrangimento físico ou moral. Ou seja, na medida em que se impede ao homem desenvolver-se plenamente, nesse momento dá-se início a um processo de violência, que se manifesta das mais variadas formas, servindo-se de diferentes meios.

A violência é uma violação dos direitos humanos, que são os princípios garantidores da dignidade humana. BARATTA (1993) classifica em dois os grupos fundamentais de direitos humanos: o direito a vida, a integridade física, a liberdade pessoal, a liberdade de opinião, de expressão, de religião, e direitos políticos, bem como os direitos econômico-sociais. A partir do momento em que qualquer um destes se vê ameaçado por alguém, já esta se manifestando a violência.

Para alguns autores, como PHILIPPI (1996), os atos violentos - como também aqueles que os executam ou suportam os seus efeitos – não possuem uma natureza determinada. Sendo assim:

A violência deve ser compreendida, antes de tudo, como uma ação momentânea ou... uma série de atos praticados de modo progressivo com o intuito de forçar o outro a abandonar o seu espaço constituído e a preservação da sua identidade como sujeito das relações econômicas, políticas, éticas, religiosas e eróticas... No ato de violência, há um sujeito... que atua para abolir, definitivamente, os suportes desta identidade, para eliminar no outro os movimentos do desejo, da autonomia e da liberdade. (FELIPE, 1996)

Porém, a violência é resultado de fatores que a geram. Socialmente falando, a pobreza é apontada como a primeira violência geradora de novas e sucessivas violências. Em seguida temos a desagregação familiar, decorrência da pobreza e da rápida mudança de valores.

Outro fator que contribui para que a violência doméstica aconteça, são os estresses do dia-dia, desta maneira, muitas vezes os pais descontam o seu estresse em seus filhos. Temos ainda o problema do alcoolismo e o desemprego. Uma vez que o agressor recorre à

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violência por não estar conseguindo cumprir com o mandato social, manter as despesas de casa, desta forma na maioria das vezes o agressor é do sexo masculino.

De acordo com AZEVEDO e GUERRA (1995):

Todo ato ou omissão praticado por pais, parente ou responsável contra crianças ou adolescentes que sendo capaz de acusar danos físicos, sexual ou psicológica à vítima - implica de um lado numa transgressão do poder/dever de proteção do adulto e, de outro, numa codificação da infância, isto é, numa negação do direito que crianças e adolescentes têm de serem tratadas como sujeitos e pessoas em condição peculiar de desenvolvimento. (p. 26).

As pessoas violentadas têm grande tendência à depressão, a ansiedade, confusão mental e perda de memória. Perde também sua autoestima e inconscientemente a vítima acha que esse tipo de violência faz parte da atitude das pessoas.

Desta maneira, segundo VERONESE, (1996):

Toda agressão, por mais singular que possa parecer é injustificável e quase sempre objeto de futura reprodução, no sentido de que adultos que sofreram maus-tratos e abusos durante a sua infância, quase sempre, reproduzem tal comportamento, agredindo sua família e mais especificamente os filhos, pois estruturalmente mais frágeis e, portanto, mais facilmente objetos de “vitimização”. (p. 46)

Ainda segundo a autora, o país é o responsável por reverter essa situação, pois, “Há que se exigir ações efetivas por parte do Estado e da sociedade, é imperioso, portanto, uma REAÇÃO contrária ao cotidiano avanço da violência, do descaso com os direitos humanos mais elementares. (p.50)”

Esta autora também defende a ideia de que a violência é gerada a partir da situação econômica em que se encontra o sujeito, sendo que considera a pobreza e a falta de tempo dos pais para com seus filhos, neste contexto a autora culpa o sistema tecnológico, e diz que apesar de estarmos vivendo em uma sociedade aprimorada em termos tecnológicos, nos absorve sempre mais, sendo assim esta autora confirma uma das causas já mencionadas anteriormente.

Ainda temos a concepção de ANDRADE (2003), Mestre em educação e professor da UFPB, que menciona, a partir de estudos psicanalíticos a cerca de Freud e Laplanche, que:

Em níveis mais inconscientes, a violência associa-se à negação da castração e de todas as faltas que se ligam a esse complexo e que

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eventualmente reaparecem nas relações intersubjetivas. Nesse sentido é que se fala da violência como produto de um desejo, caracterizado pela ilusão da autossuficiência: o outro ser humano é não apenas considerado dispensável como, muitas vezes, um obstáculo a ser eliminado. (p.60)

Sendo assim, a violência tem causas prévias, sejam elas no âmbito econômico, psicológico, afetivo ou subjetivo, pois não surge de uma vontade repentina da ação violenta, o que deve ser considerado também, é o contexto em que o sujeito foi criado, pois:

Nas relações originárias entre a criança e os adultos, encontra-se, inclusive, o alicerce para o estabelecimento, no futuro, de valores morais- a solidariedade, por exemplo- criados precisamente para regular as relações intersubjetivas. Não é exagero, então, afirmar a existência de uma “cultura da violência”, em que o indivíduo é estimulado a agir com o imediatismo característico do regime próprio ao princípio de prazer, numa direção eminentemente narcísica: as normas e os valores deixam de ser reconhecidos enquanto desejáveis, já que remetem a intersubjetividade. (ANDRADE, 2003, P.61)

Esta concepção de violência é mais evidenciada no âmbito familiar, no que diz respeito á relação e vivência da criança perante as atitudes de seus pais ou responsáveis.

A violência doméstica contra crianças e adolescentes é considerada como um abuso do poder disciplinar dos pais e responsáveis, redução da vítima à condição de objeto de maus-tratos e também uma negação dos valores humanos fundamentais. Neste sentido, a criança e o adolescente levam marcas desta violência para o resto de suas vidas dado a importância que a família tem para a formação da personalidade deste sujeito.

Ao ouvir falar em violência, logo o que vem a cabeça são episódios de assaltos, roubos, crimes e bandidos, pessoas que prejudicam os bens dos outros ou agridem pessoas. Porém há outros tipos de violências, como por exemplo, a violência contra crianças e adolescentes.

A relação entre o adulto e a criança é desigual, pois se trata de pessoas com diferentes condições, sejam elas físicas, intelectuais, emocionais e sociais, e também diferentes poderes. Nesse contexto pode-se afirmar que a violência contra crianças é sempre uma covardia, pois a criança é mais frágil e totalmente dependente.

As famílias que impõem os limites de comportamento através da violência estão reafirmando e transmitindo um modelo de violência que tem se eternizado nas relações em

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família. Desta maneira os filhos tendem a utilizar-se da força para resolver os seus problemas, tendendo a repetir o mesmo modelo, seja nas suas novas relações familiares e ou afetivas.

Na maioria das vezes o agressor, na violência doméstica, é o homem. O ato ocorre por negligência nos deveres domésticos, infidelidade, ciúmes. Lembrando que a violência doméstica pode ser exercida por qualquer pessoa que convive no mesmo espaço doméstico, vinculado ou não, por laços de parentesco. A violência doméstica pode ser física, psicológica, sexual e negligência. E ainda temos a violência exercida pelas instituições que trabalham com crianças e adolescentes, a violência institucional.

2.1 Violência física

A violência física é a que ocorre com maior frequência na sociedade. Os danos que ela pode causar variam de lesões leves a consequências extremas como a morte.

Toda a ação realizada pelo o adulto, não acidental ou intencionalmente, que provoque danos físicos a criança, é uma violência física. Desde um beliscão até as queimaduras e os espancamentos fatais, todas representam um ato de violência.

Os tipos mais comuns de agressão físicas são: empurrar, bater, jogar objetos, ameaçar, usar facas ou armas.

Esta forma de violência causa algumas consequências, tanto orgânicas quanto psicológicas. As lesões apresentadas no âmbito orgânico e que podem auxiliar na identificação dos maus tratos são: hematomas, queimaduras, feridas, cortes, fraturas, etc, que poderão causar invalidez permanente ou temporária.

Porém o agravante está nas consequências de cunho psicológico, pois esta causa sentimento de raiva, de medo do agressor, falta de confiança nos outros e em seu trabalho, quadro de dificuldades escolares, e muitos outros.

2.2 Violência sexual

Os casos de violência sexual contra crianças e adolescentes têm aumentado constantemente, ela se configura como um pacto de silêncio entre agressor e agredido. Silêncio porque os abusos sexuais domésticos é um fenômeno que envolve vergonha, culpa e medo.

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A violência sexual é todo ato ou jogo sexual exercido por um adulto, homossexual ou heterossexual, sobre uma criança. É uma ação em que o adulto obriga a criança à realização de práticas sexuais por meio da força, influência psicológica ou ainda uso de armas ou drogas. O ato considerado como violência sexual varia de contatos sexuais com ou sem a penetração e de atos sem contato sexual. Estes atos são induzidos pelo o adulto, e tem por finalidade a excitação do mesmo. Trata-se da masturbação, ou mesmo apenas ver a criança nua. O abuso sexual pode ainda envolver situação de exploração sexual visando lucros, a prostituição e a pornografia.

Podem-se observar alguns comportamentos, por parte da criança ou adolescente, que indicam a situação de abuso. Estes comportamentos em uma criança pequena podem ser expressos através de desenhos, os quais remetem a órgãos sexuais, ou cenas de relação sexual. Crianças que apresentam preocupação excessiva com questões sexuais, e conhecimentos precoces sobre o mesmo. Outro comportamento que pode também ser entendido como um pedido de ajuda, é quando crianças mais velhas ou adolescentes sentem curiosidade em saber informações sobre contracepções.

A violência sexual poderá afetar também o psicológico da vítima, implicando em problemas de ordem emocional e social ao longo da vida.

2.3 Violência psicológica

Esta forma de violência é mais difícil de ser identificada, pois ela consiste no ato de rejeitar, isolar, aterrorizar, ignorar, corromper, depreciar, discriminar, desrespeitar e criar expectativas irreais ou exigir rendimentos escolares, intelectuais, esportivos ou interferir negativamente sobre a criança e o adolescente, induzindo-os a uma autoimagem negativa e fraco desempenho ou estimulando na criança um padrão de comportamento destrutivo.

Falar para a criança que ela é burra ou ainda incapaz de realizar algo, é uma afronta ao desenvolvimento da criança. Ela se traduz em violência, pois é através da fala do adulto, elogios, incentivos, que a criança se constitui. A interferência negativa do adulto sobre a criança produz um padrão de comportamento destrutivo.

Desta maneira, a violência psicológica se resume no não reconhecimento dos valores da criança ou adolescente. A indução da criança a prostituição, ao uso de drogas bem como ao crime, se caracterizam como forma de violência psicológica, vindo acarretar graves danos ao desenvolvimento psicológico, físico, social, emocional e cognitivo da vítima.

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A criança ou adolescente vítima desta violência pode apresentar comportamentos como: problema de sono, abatimento profundo, baixo conceito de si mesma, insegurança, afastamento das pessoas, obesidade, dificuldade de socialização, dificuldade na aprendizagem entre outros.

2.4 Negligência

Esta se caracteriza pela falta de compromisso dos responsáveis pela criança. É a omissão dos responsáveis no que diz respeito às questões básicas e necessárias ao desenvolvimento físico ou emocional da criança. Consiste na falta de alimentação, higiene, vestuário, carinho, atenção.

Negligência, de acordo com o Minidicionário Luft, significa desleixo, displicência. Esta prática coloca em risco o desenvolvimento maturacional das vítimas. Podendo ter consequências de diversas ordens, como desnutrição, enfermidades frequentes, disfunções neurológicas, entre outras.

2.5 Violência Institucional

A violência institucional é aquela cometida pelos órgãos e agentes públicos que deveriam proteger e defender as crianças e adolescentes. Assim sendo, a violência que muito se ouve falar pode não apenas refletir na escola, mas também partir da escola:

passa despercebido ao senso comum que a escola também

muitas vezes pode funcionar de maneira violenta,

particularmente quando reproduz acriticamente ideologias e relações de poder autoritárias – silenciosas e legitimadas pelas instituições, mas igualmente danosas. (ANDRADE, 2003, p.57)

Desta maneira fica evidenciado que além da escola ser receptora de sujeitos violentados fora dela, esta também poderá ser a praticante de tal violência contra o aluno. Sendo assim, a violência que as crianças e os adolescentes exercem é, antes de tudo, a que seu meio exerce sobre eles.

Desse modo, entendemos que a reprodução da violência no cotidiano pedagógico não é inevitável. A prática de muitos educadores demonstra que, mesmo diante de condições

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pedagógicas difíceis, é possível intervir eficazmente para evitar ou superar a violência na escola, fazendo dela ocasião para ensinar e aprender valores, atitudes e formas de pensar a não violência (ANDRADE, 2003, p. 63).

Em muitos abrigos para órfãos ou crianças retiradas de sua família por ordem judicial, a negligência é a violência mais evidente. Normalmente esta negligência consiste no descuido, desleixo por parte da instituição, má qualidade de suas instalações físicas, carência de pessoal, e ausência de processo educativo. Enfim é a ação ou omissão que deixa de atender as necessidades básicas da criança e do adolescente bem como seus direitos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente.

A violência institucional pode ter as mesmas faces da doméstica, porém o que normalmente se vê são as violências físicas, negligência e psicológicas. Vindo a última ser mais frequente que as outras.

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CAPÍTULO 3

APRENDIZAGEM DAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES

VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA

Desde o dia em que nascemos até quando morremos, fala-se de aprendizagem. E a cada estágio da vida vamos desenvolvendo mais e mais nossa capacidade de aprender. Sendo que toda a aprendizagem humana segue em busca do bem estar.

Sendo assim, a aprendizagem é o processo pelo qual as competências, habilidades, conhecimento, comportamento ou valores, são adquiridos ou modificados, como resultado de estudo, experiência, formação, raciocínio e observação.

Nas relações de convivência, na interação com o meio e o outro, é que inicia a aprendizagem. Assim sendo, reporto a AFONSO (2007), que diz,

Todos os dias se aprendem coisas novas, havendo uma reestruturação cognitiva que permite ao sujeito desejante (aquele que tem desejo de conhecer, tocar, saborear, desvendar, entre outros) passar a utilizar este novo objeto de conhecimento, pois a aprendizagem da vida não se dá de forma estanque, tudo tem significado e se apresenta unido. (AFONSO, 2007, pg.2)

Outro autor que se refere à aprendizagem como construção do conhecimento em interação com o meio é Piaget.

Piaget via o desenvolvimento intelectual ou cognitivo como a aquisição do conhecimento pela criança. Ele não admitia que o conhecimento se reduzisse a impressões do meio sobre a folha em branco da mente (empirismo), nem que as estruturas cognitivas desabrocham automaticamente ao seu tempo por determinação genética (inatismo). Segundo ele, o conhecimento é construído pela criança nas suas interações com o meio; por isso se dizia construtivista. (ANDRADE; PRADO, 2003, p.1)

Também para Piaget, as interações com o meio, fazem com que a criança se adapte a ele, sendo que:

A adaptação consiste de dois processos complementares: assimilação e acomodação. Considerando que, de acordo com o autor, conhecer é interpretar, atribuir significados, a criança faz isso assimilando elementos do meio aos seus esquemas e estruturas cognitivas e acomodando-os as novas exigências que o meio vai lhe impondo. (ANDRADE; PRADO, 2003, p.1)

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Para Vygotsky, o pensamento e a linguagem estavam inter-relacionados. Ele afirmava que “toda a função psicológica surge inicialmente no nível social, interpsicológico; para depois ser internalizada, passando para o nível individual, intrapsicológico”. Desta forma nada melhor do que a linguagem para acontecer o processo:

Ela surge em razão da necessidade de comunicação da criança com os demais membros de seu grupo, passando posteriormente a medir suas representações mentais uma vez que é um sistema simbólico; e também a exercer um importante papel no autocontrole do comportamento, por exemplo, planejando ações para a resolução de problemas. (ANDRADE; PRADO, 2003, p.2)

Porém, a aprendizagem somente acontecerá a partir do momento em que o aprendente tem desejo, necessidade ou vontade em aprender. Sendo assim, para que a aprendizagem seja significativa, é necessário em primeiro momento despertar o desejo no aprendente.

Desta forma, segundo FERNÁNDEZ (1990), “A aprendizagem é um processo cuja matriz é vincular e lúdica e sua raiz corporal; seu desdobramento criativo põe-se em jogo através da articulação inteligência-desejo e do equilíbrio assimilação-acomodação”.

Para ela, (1990, p. 58) “o organismo bem-estruturado é uma boa base para a aprendizagem, e as perturbações que possa sofrer condicionam dificuldades nesse processo”. Fernández diz que pelo corpo nos apropriamos do organismo, sendo assim, toda a aprendizagem passará pelo nosso corpo. Por isso “a apropriação do conhecimento implica no domínio do objeto, sua corporização prática em ações ou imagens que necessariamente resultam em prazer corporal”.

Através destas afirmações, é possível pensar a aprendizagem das crianças e adolescentes vítimas de violências, pois a vítima da violência, psicológica, física, sexual ou negligência, terá o seu corpo afetado de alguma maneira.

Quando o sujeito não consegue “traduzir-se”, algo não vai bem, uma das instâncias, corpo, inteligência, organismo ou desejo, está fraturada ou fragmentada, prejudicando o todo. O sintoma é a representação daquilo que não está bem, estando sempre contextualizado, fazendo parte de um todo maior. (LOPES; TORMAN, 2008, p. 135)

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A violência é uma barreira para a aprendizagem, por isso deve-se estar atento a cada sintoma que o sujeito venha apresentar. Pesquisas demonstram que as crianças que sofrem agressões físicas ou psicológicas apresentam desempenho inferior na escola.

PIMENTA (2011) diz, que:

Segundo a reportagem “Criança que apanha aprende menos”, publicada no jornal de São Paulo, as crianças que raramente, ou nunca são surradas, tem melhor desempenho em alguns testes de inteligência do que as crianças que apanham frequentemente, segundo estudo norte- americano.

Assim como o desejo é um aspecto necessário para que a aprendizagem aconteça, também a emoção, a motivação, atenção, a plasticidade cerebral e a memória fazem parte do processo de aprendizagem, segundo a autora SALLA (2012), em seu texto, Toda a atenção para a neurociência, publicado na revista Nova Escola.

Se pensar a emoção, em primeiro lugar, podemos compreender pouco mais o motivo da não aprendizagem ou dificuldade que a criança vítima de violência produz, pois esta tem sua emoção totalmente afetada pelas violências recebidas.

Pesquisas mostram que a emoção “interfere no processo de retenção da informação. Quanto mais emoção contenha determinado evento, mais ele será gravado no cérebro”. A autora FERNANDA SALLA (2012), ao afirmar isto aponta-nos os pensamentos de Piaget, Vygotsky e Wallon, a respeito da emoção.

Na perspectiva de Piaget,

O psicólogo valoriza o termo afetividade, em vez de emoção, e diz que ela influencia positiva ou negativamente os processos de aprendizagem, acelerando ou atrasando o desenvolvimento intelectual. (SALLA, 2012, p. 51)

Já para Vygotsky

Para compreender o funcionamento cognitivo (razão ou inteligência), é preciso entender o aspecto emocional. Os dois processos são uma unidade: o afeto interfere na cognição, e vice-versa. A própria motivação para aprender está associada a uma base afetiva. (SALLA, 2012, p. 51)

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O pesquisador defende que a pessoa é resultado da integração entre afetividade, cognição e movimento. O que é conquistado em um desses conjuntos interfere nos demais. O afetivo, por meio de emoções, sentimentos e paixões, sinaliza como o mundo interno e externo nos afeta. Para Wallon, que estudou a afetividade geneticamente, os acontecimentos a nossa volta estimulam tanto os movimentos do corpo quanto a atividade mental, interferindo no desenvolvimento. (SALLA, 2012, p. 51)

Pensando nestas perspectivas, e analisando os resultados que a violência deixa nas crianças vitimizadas, fica evidente que estas crianças e adolescentes terão dificuldades na aprendizagem.

Sabe-se que a criança vítima de violência doméstica apresenta características específicas e que o seu fracasso escolar pode estar relacionado com os maus tratos que ela sofre. Assim, é possível que sérios conflitos bloqueiem a capacidade intelectual da criança e muitas vezes o impedimento de um bom desempenho intelectual está vinculado a problemáticas afetivas. Bossa (2007, p.18), reforça essa ideia ao dizer que para a criança aprender o que a escola ensina, é necessário que a criança tenha entre outras coisas, uma personalidade sadia e emocionalmente madura. (PIMENTA, 2011)

Sendo assim, o adulto, autor da violência, deve sempre lembrar-se que suas atitudes são as referências para o aprendizado da criança e adolescente. Estando consciente que o que a criança pode fazer hoje com o auxílio dos adultos, poderá fazê-lo amanhã por si só.

As atitudes do adulto em relação à criança serão o reflexo das primeiras aprendizagens da criança, pois no momento em que ela está se conhecendo, através dos pais, ao tocarem em seu corpo, elas já estão em processo de aprendizagem. Nesta perspectiva, toda a criança, além da dificuldade que apresentará na aprendizagem, tende á reproduzir a violência recebida, quando adulto, para com seus filhos.

A criança vitima de violência, normalmente, fica desmotivada em relação a muitos aspectos em sua vida. Sendo assim, esta criança apresentará problema na aprendizagem, pois a motivação é necessária para aprender.

Segundo SALLA (2012, p. 52), para Vygotsky,

“a cognição tem origem na motivação. Mas ela não brota espontaneamente, como se existissem algumas crianças com vontade- e naturalmente motivadas– e outras sem. Esse impulso para agir em direção a algo é também culturalmente modulado. O sujeito aprende a direcioná-lo para aquilo que quer, como estudar.

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Já para Ausubel, essa disposição está relacionada às emoções suscitadas pelo contexto. Assim o prazer pode fazer parte do próprio ato de aprender. A criança vítima da violência sexual, por exemplo, tem grande dificuldade em relação a motivação, afetando vários aspectos, assim:

Uma criança submetida a um adulto perverso terá dificuldades de se relacionar com a própria sexualidade, com os limites da sociedade e com a discriminação de si e do outro, elementos estes importantes para a convivência social e para a aprendizagem de maneira geral. (LOPES; TORMAN, 2008, p. 135)

As crianças vitimas do abuso sexual ficam confusas entre o bom e o mau, o certo e o errado, pois ela convive com isso, e sendo a maioria dos casos o adulto abusador alguém da família, esta confusão aumenta. Muitas vezes a criança abusada pode ter um grande amor pelo abusador, e esse amor é maior que o medo ou o desgosto pela violência sofrida.

Porém a muitos casos que se transformam em traumas, seria como diz SHENGOLD (1999, apud LOPES E TURMAN, 2008), um assassinato da alma:

Assassinato da alma envolve a deliberada traumatização ou privação por parte de uma autoridade (parental) de quem esta é encarregada (criança). A vítima é roubada de sua identidade e da habilidade de manter sentimentos autênticos. [...] a necessidade de identificar-se (com) e de manter a ilusão de um bom progenitor aumenta a difícil resistência da negação. Paradoxalmente, a fim de sobreviver e de se ajustar, algumas destas pessoas tão traumatizadas quando crianças desenvolvem forças e talentos incomuns.

Alguns autores afirmam que um ambiente familiar desequilibrado, afeta não só a aprendizagem, mas também o desenvolvimento físico, mental e emocional de seus membros, pois o aspecto cognitivo e o afetivo estão interligados.

Assim, um problema emocional decorrente de uma situação familiar desestruturada reflete diretamente na aprendizagem [...] De acordo com Rosas e Cionek (2006), esta é uma situação mais degradante e opressiva, pois afeta profundamente a vida do indivíduo e a dinâmica familiar. Milani (1999) concorda que as crianças cujo ambiente familiar é marcado pela violência entre os pais ou contra elas tendem a ser agressivas e a ter comportamento antissocial fora de casa, principalmente na escola. Além disso, Guerra (2005), ressalta também os sentimentos das crianças vítimas de violência física. Elas sentem-se sozinhas com seus segredos, não há ninguém em quem possam confiar, sentem-se inseguras, não conseguem exprimir seus sentimentos, não há quem as abrace e as amem,

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portanto, não se sentem amadas e respeitadas como seres humanos. (PIMENTA, 2011)

Em estudos realizados por AZEVEDO E GUERRA (2007, apud PIMENTA 2011) sobre as consequências psicológicas da vitima de violência física, observaram que as vitimas apresentam atraso escolar quanto ao aproveitamento.

As características que as vítimas apresentam são muitas, por isso as pessoas, instituições que trabalham com crianças e adolescentes devem estar atentas a cada atitude dos mesmos, pois em muitos casos a vitima não conta que sofre a violência, por vergonha, mas tenta, por meio de outras atitudes, contar o que está lhe acontecendo.

Porém o que muito acontece é o contrário, e as mesmas vítimas de violência em seus lares, acabam o sendo também na instituição em que estão. Pois os profissionais, ainda pouco informados quanto à questão das características das crianças vitimizadas, acabam rotulando o aluno como sendo o aluno problema, e não investigam o que pode estar acontecendo com ele. É necessário mais informações e atenção para com esta problemática que nos últimos anos só aumentou.

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CAPÍTULO 4

POSSIBILIDADES DE TRANSFORMAÇÃO EXISTEM

4.1 O Papel das Instituições de Ensino

Existem dois ambientes os quais a criança convive diariamente, o primeiro é em casa, com sua família e o segundo é a escola. Sendo o segundo ambiente o que a criança passa maior tempo do seu dia, o mesmo deve estar, com seu pessoal, preparado para reconhecer e atender as crianças vítimas de violência.

Na escola a criança tem maior relação com o professor e com os colegas, por isso é um ambiente propício para que o educador possa reconhecer se a criança está sofrendo maus tratos fora da escola. FARINATTI E FONSECA (2000, apud MARMITT; LOPEZ, p.4) afirmam que “por ter este contato, quase que diário, com a criança, a escola pode e deve ser um agente de proteção, e pode ser o único refúgio da criança abusada”.

Para que a escola, especialmente os profissionais que nela atuam, desempenhe um bom trabalho, é necessário que os mesmos tenham conhecimentos a respeito do assunto, sabendo identificar os sinais/sintomas que as violências deixam na criança.

Muitas vezes as crianças vitimizadas não falam diretamente que estão sofrendo alguma violência, mas dão evidências muito claras, que para eles representa um pedido de salvação. Neste contexto é imprescindível que o educador tenha disponibilidade afetiva, paciência, preparo e um olhar amplo para o assunto.

Considerando que a escola é um dos pilares da sociedade, ela reflete todos os processos presentes no meio social. A educação se constitui como uma política social pública. Pois ela demanda o envolvimento de diferentes sujeitos sociais e diversas categorias profissionais.

Entretanto a escola realiza um trabalho educativo que consiste no ato de produzir, direta e intencionalmente em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens.

A escola, depois da família, é a instituição responsável pelo cuidar e auxiliar no desenvolvimento, mas acima de tudo é a instituição responsável por formar cidadãos conscientes, conhecedores de seus direitos e obrigações.

A escola deve sempre orientar, não somente o educando, mas sim a comunidade escolar, palestras e programas de conscientização são os meios mais eficazes no processo de ensino a cerca de qualquer assunto.

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A família como sendo a instituição responsável por cuidar e proteger a criança e o adolescente, bem como orientá-los em seu desenvolvimento, deve estar atenta a toda situação anormal que está acontecendo em sua volta.

Orientar, especialmente, as crianças quanto as pessoa estranha que tentam se aproximar delas, as carícias impróprias recebidas de alguém, bem como ameaças que venham receber, é função dos adultos responsáveis pela criança e adolescente, bem como orientá-las que sempre devem contar aos responsáveis se algo ocorrer.

Além de dar as orientações necessárias aos filhos, netos ou sobrinhos, é necessário que a família proporcione a eles um ambiente aberto ao diálogo, que os mesmos sintam-se a vontade para conversar com o adulto sobre assuntos diversos.

Os princípios e valores que o ser humano leva consigo durante sua vida, advêm do lar, na relação familiar. São os pais ou responsáveis da criança e do adolescente que irão transmitir seus propósitos de vida. Os quais serão transmitidos de geração em geração, por isso o fato da violência também ser transmitido de geração em geração.

4.2 O Papel dos Professores

O professor desenvolve um papel muito importante na formação do ser humano, por isso o mesmo tem uma caminhada de compromisso e desafios a partir do momento que opta por esta profissão.

Esta profissão não consiste em estar em sala de aula oito horas por dia, chegar em casa e esquecer- se de tudo o que ocorreu em sala de aula. É uma profissão privilegiada, pois trabalha com pessoas, medos, angústias, alegrias, tristezas, sofrimentos, dor, derrotas, vitórias, enfim, todas as formas de sentimentos passam na sala de aula, sendo assim, o educador está em aprendizagem constante.

Ao educador cabe saber lidar com cada situação que lhe é apresentada. É ele o responsável pela criança ou adolescente que ali se encontra. Assim como os pais, em casa, o professor também precisa desenvolver uma relação de confiança e diálogo com o educando, para que o mesmo sinta-se a vontade em dividir suas preocupações com o educador, e assim poder ajudá-lo.

O profissional educador deve estar preparado para trabalhar com a violência na escola, para isso é necessário que durante o processo de sua formação, tenha compreensão de como os comportamentos agressivos se manifestam nos jovens, reconheça a responsabilidade

(32)

que tem de agir de forma ativa frente a violência. Valorizar a formação continuada e buscar sempre saber mais a respeito do assunto.

Outra grande tarefa do educador é mobilizar o educando para o conhecimento, estimular as interações e participação, promovendo valores como respeito e cooperação, através do empenho coletivo.

Porém, mesmo sabendo da importância do seu papel, muitos educadores acabam não o desempenhando como deveria. Nos casos de violência contra a criança ou adolescente, por exemplo, muitos educadores não denunciam, por medo de se envolver com este tipo de problema. Por isso a necessidade de a escola disponibilizar a seus colaboradores programas de capacitação, com palestras sobre o tema.

Além de ter o conhecimento das causas que levam ao agressor ter tal atitude para com a vítima, é indispensável e essencialmente importante o educador conhecer os sintomas que a criança vítima de violência pode apresentar.

Desta maneira, conhecendo os sintomas, identificando-os e reconhecendo a criança como vítima, o professor pode desempenhar o seu papel com maio êxito, pois sabe como deverá tratar e conduzir a situação. Lembrando sempre que elogios, valorização das ideias e comentários positivos referentes ao aluno, podem aumentar a autoestima favorecendo o processo de recuperação. Sendo assim conhecer alguns dos sinais é imprescindível.

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Sinais que a violência pode deixar

Nesta perspectiva é necessário conhecer as consequências que as violências contra crianças e adolescentes podem causar, as quais se apresentam física, emocional e psicologicamente.

A criança vítima de violência física pode apresentar consequências tanto orgânicas quanto psicológicas, são características:

• Lesões abdominais, oculares;

• Fraturas de membros superiores, inferiores ou crânio;

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• Queimaduras;

• Sentimento de raiva;

• Medo excessivo quanto ao agressor;

• Dificuldades escolares;

• Dificuldade em confiar nos adultos;

• Está sempre esperando que algo ruim aconteça;

• Mudanças severas e frequentes de humor;

• Procura chegar cedo à escola e sair mais tarde;

• Apreensivo quando outras crianças começam a chorar;

• Demonstra comportamentos extremos: agressivo, destrutivo, excessivamente tímido ou passivo, submisso;

• Baixa autoestima;

Já a criança vítima de violência sexual apresenta consequências como:

• Gravidez precoce;

• Enfermidades psicossomáticas, que são uma série de problemas de saúde sem aparente causa clínicas, como dor de cabeça, erupções na pele, vômitos e outras dificuldades digestivas, que têm, na realidade, fundo psicológico e emocional;

• Doenças sexualmente transmissíveis, diagnosticadas em coceira na área genital,infecções urinárias, odor vaginal, corrimento ou outras secreções vaginais e penianas e cólicas intestinais;

• Conhecimentos ou interesses não usuais sobre questões sexuais não apropriados a idade;

• Brincadeiras sexuais persistentes com amigos, brinquedos ou animais;

• Masturba-se compulsivamente;

• Apresenta medo de certa pessoa ou sentimento de desagrado ao ser deixada sozinha em algum lugar ou com alguém;

• Dores e problemas físicos sem explicação médica;

• Poucas relações com colegas;

• Vergonha excessiva, inclusive de mudar de roupa na frente de pessoas;

• Fuga de casa, prática de delitos;

• Tentativa de suicídio, depressões crônicas;

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• Regressão a comportamentos infantis tais como choro excessivo, enurese, chupar os dedos;

• Hemorragia vaginal ou retal (ocasionando inclusive dificuldade para caminhar), cólicas intestinais, dor ao urinar, secreção vaginal;

• Comportamento agressivo, raiva;

• Dificuldade de concentração e aprendizagem resultando em baixo rendimento escolar;

• Prostituição infanto-juvenil;

• Dificuldade de engolir devido à inflamação causada por gonorreia na garganta ou reflexo de engasgo hiperativo e vômitos (por sexo oral);

• Canal da vagina alargado, hímem rompido e pênis ou reto edemaciados ou hiperemiados;

• Baixo controle dos esfíncteres, constipação ou incontinência fecal;

• Sêmen na boca, nos genitais ou roupa;

• Roupas íntimas rasgadas ou manchadas de sangue;

• Ganho ou perda de peso;

• Medo do escuro ou de lugares fechados;

• Mudanças extremas, súbitas e inexplicáveis no comportamento, como oscilações no humor entre retraída e extrovertida;

• Mal-estar pela sensação de modificação do corpo;

• Baixo nível de autoestima e excessiva preocupação em agradar os outros;

• Culpa e autoflagelação;

• Ansiedade generalizada, comportamento tenso, sempre em estado de alerta, fadiga;

• Expressão de afeto sensualizada ou mesmo certo grau de provocação erótica, inapropriado para uma criança;

• Desenhar órgãos genitais com detalhes e características além de sua capacidade etária;

• Aparência descuidada e suja pela relutância em trocar de roupa;

• Resistência em participar de atividades físicas;

• Uso e abuso de substâncias como álcool, drogas lícitas e ilícitas;

• Assiduidade e pontualidade exageradas, quando ainda frequenta a escola. Chega cedo e sai tarde da escola;

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• Queda injustificada na frequência escolar;

• Não participação ou pouca participação nas atividades escolares;

• Dificuldade em confiar nas pessoas a sua volta;

• Fuga de contato físico.

A violência psicológica é a mais grave e difícil de perceber, pois ela não afeta somente o físico, mas principalmente o psicológico, emocional, social e cognitivo da vítima. As consequências que ela causa são:

• Problemas de saúde sem causa orgânica: distúrbio de fala, distúrbios do sono, afecções cutâneas, disfunções físicas em geral;

• Isolamento social;

• Carência afetiva;

• Baixo conceito de si próprio;

• Regressão a comportamentos infantis;

• Submissão e apatia;

• Dificuldades e problemas escolares, mas sem limitações cognitivas e intelectuais;

• Tendência suicida.

Já a negligência é a violência com maior facilidade de observação, sendo suas consequências:

• Padrão de crescimento deficiente;

• Vestimenta inadequada ao clima;

• Necessidades não atendidas, como higiene, alimentação, educação (evasão escolar), saúde (vacinas atrasadas, etc);

• Fadiga constante;

• Criança sofre frequentemente acidentes (pela falta de cuidados por parte de um adulto);

• Pouca atividade motora (falta de estimulação);

• Criança é responsável pelos serviços domésticos, cuidados com irmãos menores, etc. (é comum a criança ser considerada madura e precoce, mas o fato é que está assumindo responsabilidades de adulto);

• Isolamento social;

• Carência afetiva;

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Tendo conhecimento a respeito das consequências que a violência causa na criança vitimizada, fica mais fácil para o educador detectar e ajudar o educando que esta enfrentando este problema em sua vida.

Porém não basta apenas ter conhecimento da violência que o educando está sofrendo, e não tomar providências para que a mesma tenha um fim. É necessário que a denúncia aconteça desta forma pode ser conseguido a interrupção da violência.

Por isso que, em casos em que o educador desconfia de maus tratos, o mesmo deve, inicialmente, observar com maior atenção todas as ações, sentimentos, falas, etc, do educando, aproximar-se dele e seus familiares para perceber como se da a relação entre estes, para assim poder chegar a um diagnóstico. É imprescindível que o educador comunique a equipe gestora o problema, para que a mesma a ajude a dar sequência à investigação.

Após o comunicado a direção, é importante comunicar o fato ao Conselho Tutelar e a Delegacia de Proteção à Criança. Tem ainda a opção do disque denúncia e do SOS criança. Sem esquecer que a identidade da criança vitimizada deve ser mantida em sigilo frente à comunidade escolar.

Professores o papel que exercem neste contexto é muito importante, por isso não deixem de denunciar, por medo ou descaso, pois o futuro das pessoas está em tuas mãos.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

A violência tem aumentado assustadoramente em nossa sociedade, indo além das instâncias socioeconômicas, alterando o comportamento dos jovens que expressam a sua frustração sobre a família, o trabalho, a escola e a comunidade.

Como pode ser observado, historicamente, o bater, o negligenciar, o abandonar, o disciplinar rigidamente, foram padrões aceitos pela sociedade. Porém hoje, estes aspectos são considerados como violência.

A união da sociedade e dos governos é imprescindível no combate à violência, para impedir o agravamento do problema. Dessa forma cabe ao estado a viabilização de espaços de discussão em conjunto com a sociedade a fim de abrir possibilidades para intervenções.

Estas discussões possibilitarão a diminuição dos casos de violência, pois os estudos mostram um elevado número de pais que maltratam seus filhos porque foram também, vítimas de agressão em sua infância, no seio da família, o que pode levá-los a não perceber sua forma de ação como sendo uma violência, e sim, como sendo a única forma de educar.

É imprescindível que a escola investigue, converse com os pais ou responsáveis pelo cuidado e desenvolvimento das crianças para verificar como eles lidam com o comportamento inadequado dos filhos, para assim poder intervir quando necessário.

É importante lembrar o papel essencial que exerce o professor na luta pela proteção da criança vitimizada. Porém ainda se faz necessário uma reflexão por parte dos profissionais da educação a fim de detectar a violência que vitimiza a criança, tirando dela o direito de um desenvolvimento pleno.

Desta maneira é necessário lembrar que o profissional em educação deve estar sempre em alerta, observando as atitudes, o comportamento e o relacionamento do seu aluno com os demais colegas. Sendo que, ao perceber alguma mudança em suas atitudes e também dificuldade na aprendizagem, é necessário que o mesmo tenha diálogo com esse aluno em busca de informações que permitam a aproximação com a família e, se necessário, buscar ajuda junto a profissionais de apoio psicológico, ou ainda, levar o caso ao conhecimento do Conselho Tutelar.

Referências

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