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Tombamento do Estádio de Vila Euclides - PARECER

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1 Pedido de Tombamento do Estádio de Vila Euclides – São Bernardo do Campo/SP

Interessado: SOS CHÁCARA SILVESTRE Processo nº 01506.002184/2008-80

PARECER

O dossiê elaborado pela comissão coordenada pela Técnica em Preservação do IPHAN de São Paulo Simoni Scifoni, agora Professora do Departamento de Geografia da FFLCH/USP, como informa a Professora Marly Rodrigues, Chefe da Divisão Técnica desta Superintendência,

atende às exigências de caracterização da importância cultural da Vila Euclides, lugar de memória de grande significação para a sociedade brasileira, em especial para a classe trabalhadora.

A leitura dos textos bem como da documentação reunida ilustram amplamente a trajetória da classe trabalhadora, desde a sua formação nos municípios industriais vizinhos à Capital paulista no início do século passado, o chamado Grande ABC (Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano), assinalando os períodos de organização ainda incipientes até de formação de uma liderança sindical autônoma que soube tornar-se realmente representativa dos interesses de classe, e cuja atuação teve seu ápice num momento crucial da vida política do país, constituindo-se em uma das forças mais importantes no enfrentamento da Ditadura Militar vigente no país desde 31 de março de 1964. Inicialmente circunscrito à defesa dos interesses do setor metalúrgico, no interior das fábricas se aprimoram as formas de organização e de luta e, deste, pelas contingências históricas do momento, estende-se às igrejas, então em grande medida empenhada na defesa dos direitos de cidadania praticamente anulados pelos atos institucionais, para ganhar as praças públicas onde recebem o apoio e a adesão de outros segmentos da sociedade – estudantes, artistas, intelectuais, e lideranças políticas então reunidas no PMDB, única forma consentida de oposição ao regime.

A trajetória dos operários desta região metropolitana de São Paulo, e em particular os episódios cruciais de confrontação com as forças repressivas, o papel desempenhado pelas lideranças sindicais sob o comando de Lula, a prisão deles e a força do movimento pela continuidade da greve, as repercussões e sobre tudo o momento em que ocorre a sua fusão com outras forças que se opunham ao regime ditatorial, dando força ao movimento pela redemocratização do país, cujo ímpeto enseja outros eventos da mesma natureza que se multiplicaram por outras importantes cidades do país, todo este processo está amplamente documentado no dossiê, razão porque adianta a Senhora Chefe de Divisão Técnica do IPHAN de São Paulo o seu parecer, no despacho de 4 de fevereiro último: O tombamento [do estádio da Vila Euclides] reconheceria, portanto, a importância de suas ações para a construção da atual

democracia no país.

Apresenta a Comissão, à fls. 91/92 do dossiê, a sua proposta de tombamento e de

entorno, devidamente identificada em mapas. Não se limita ao Estádio da Vila Euclides; propõe

também o tombamento das Instalações de Tecelagem Elni e de sua antiga Torre.

Observa a própria Comissão que o tombamento proposto para este órgão federal de preservação, repete o já efetuado pelo município, apoiado em legislação criada com essa finalidade.

O estádio, ou melhor, a praça de esportes que ali existiu tem sua origem devida ao desenvolvimento das atividades da Tecelagem a partir de 1946, que trouxe concepções modernas e inovadoras ao espaço de produção, não limitadas aos simples pavilhões fabris. Além

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dos equipamentos ..., a Elni inovou por conceber junto ao seu espaço fabril uma praça de esportes com campo de futebol e quadra de esportes, origem do estádio que mais tarde será conhecido como Vila Euclides. (Dossiê de Tombamento, fl. 80). E mais adiante: O estádio, como parte integrante do terreno da tecelagem Elni, testemunha mudanças marcantes para a cidade no que diz respeito à concepção do espaço industrial, para além da unidade fabril propriamente dita. ... demonstrando no agenciamento do espaço as estratégias empregadas pelo capital para controle de sua força de trabalho. (fl. 82).

A extensão do tombamento para as instalações fabris encontra assim, no corpo do dossiê, a sua justificativa pelas relações de dominação/subjugação no processo histórico a partir dos embates entre o capital e o trabalho, bem como em sua redefinição numa etapa posterior, quando o estádio deixa de representar apenas espaço de controle da força de trabalho (através do entretenimento esportivo) e transforma-se em espaço de domínio público (pertencente à municipalidade), para finalmente configurar-se, num dado momento da história da classe trabalhadora, um espaço de organização das lutas operárias da região. (Dossiê. Especialmente 6.4 ESTÁDIO DA VILA EUCLIDES: DA DISCIPLINA DO LAZER AO LUGAR DA HISTÓRIA).

Abro um parêntesis para fazer uma observação que me parece importante: carece ainda o Dossiê, a meu ver, de informações mais detalhadas sobre as modificações que por ventura sofreram os bens listados propostos para tombamento. Explico: a preservação dos bens, através do tombamento, pode dar ensejo a ações de valorização que podem importar em projetos de restauração bem como de adaptações e ampliações, que ficarão sujeitos ao exame e autorização deste órgão federal de preservação através da Superintendência de São Paulo. Como pude depreender da leitura do Dossiê, registraram-se já várias reformas nesses bens que se pretende tombar, bem como se alimenta a esperança de conferir ao monumento novas funções, através da construção de novos espaços, no interior dos bens ou em áreas adjacentes. Haveria, portanto, que se examinar tanto o que já havia ocorrido nesses bens no transcurso do tempo, assim como os registrados posteriormente às grandes manifestações operárias e sobre tudo o propósito de se executar mais outras obras, antes de eleger os critérios mais apropriados para estabelecer os juízos de valor pelos quais se deva, ou não, aplicar este instrumento de proteção ou, mais especificamente, sobre quais devam recair.

Estas são as razões porque passo a desenvolver uma outra argumentação, não inteiramente contrária à preservação desses bens, embora privilegie apenas o espaço que foi palco das grandes greves que marcaram profundamente a história da classe trabalhadora brasileira e assinalaram um momento de grande significação para a Democracia hoje existente no país, que a própria documentação produzida no dossiê enfatiza, demonstrando igualmente a importância deste espaço enquanto lugar que se tornou um símbolo desses mesmos acontecimentos – e que é, segundo pude depreender, o que realmente se quer preservar e cultivar na memória social.

Então vejamos.

O instrumento do tombamento revela-se, a meu ver, insuficiente, ou melhor dizendo, inadequado para este caso tal como é proposto no dossiê. Porque, independentemente dos bens apresentados, o que se deseja efetivamente é enaltecer, consagrar, tornar memoráveis os acontecimentos acima descritos, ocorridos no interior do estádio da Vila Euclides, hoje 1º de Maio, pertencente à municipalidade de São Bernardo do Campo. Foi ele o espaço que se notabilizou como lugar ou palco desses acontecimentos. O tombamento, insisto, não constitui instrumento adequado, pelas razões seguintes: de um lado por preservar coisas que propriamente não se quer ou não se pretende efetivamente preservar, visto que, por constituírem apenas elementos que, por assim dizer, hoje emolduram o espaço onde ocorreram os fatos históricos, circunstancialmente apenas, mas nem por isso menos significativo no contexto em que estes se deram, embora suscetível de alterações, como de fato se verificaram nos anos posteriores, pois que não expressa por si só o grande acontecimento histórico que se deseja

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3 exaltar. O foco está no encadeamento dos acontecimentos, nas greves, nas assembléias, na comoção causada no país inteiro, e no que representou para o processo político naquela conjuntura histórica, e não no estádio enquanto objeto arquitetônico, mas apenas como lugar

desses acontecimentos.

Por outro lado, e é o que passa a realmente interessar, a ser objeto de exame – qual seja o fato histórico – este é de natureza imaterial; a sua importância é sobre tudo histórica, e é o que o torna memorável a partir de uma ótica ou de uma interpretação que define a sua representatividade e significação política, sociológica, cultural enfim. É isso que efetivamente se pretende tombar. O lugar, o estádio propriamente dito, este foi apenas o palco desse importante acontecimento; mas preservá-lo é a condição tida como minimamente necessária para relembrar e enaltecer o fato histórico que nele ocorreu – como um marco, uma referência espacial por meio da qual se irá transmitir às gerações futuras o seu valor e importância.

Circunstanciais, disse acima ao me referir ao espaço constituído pelo estádio e demais edificações e áreas circundantes. Muito embora os reconheça, acolhendo argumentação proposta em texto da comissão solicitante, como extensões do “espaço industrial”, duramente conquistado pelos operários nos embates travados com as forças repressivas, visíveis e invisíveis da Ditadura, que reprimiam e impediam a livre manifestação de suas reivindicações, e por extensão de toda a sociedade. Da mesma forma argumento: a igreja que se tornara já antes lugar de reuniões e resistência, assim também o Paço municipal da cidade que se transfigura em seguida em espaços de manifestações e de tomada de decisões da classe operária – embora esses fatos representem um momento posterior, um desdobramento daqueles, uma outra dimensão da conjuntura histórica, já numa escala maior, assinalando então já o abandono do isolamento autoproclamado pelos metalúrgicos e uma certa confluência com as forças sociais e políticas atuantes. Palcos que, uma vez utilizados pelos trabalhadores são por eles conquistados; e que, ao ganharem a adesão de outros segmentos sociais transformam-se, não sem percalços, decisivamente em espaços de luta da sociedade pela redemocratização do país, em luta aberta contra a Ditadura Militar, dando ensejo a outros movimentos sociais, como o pelas “Diretas já”, cujo palco maior de manifestação em São Paulo ocorreu no Vale do Anhangabaú, este, todavia, também já grandemente reformulado. Este logradouro paulistano é certamente um lugar que, independentemente da configuração que possuía e que perdeu em reformulações posteriores, constitui outro palco de manifestação memorável, também de enorme significação histórica (em 16 de abril de 1984, reunindo mais de um milhão de pessoas), cuja preservação, pergunto não caberia igualmente considerar?

Repito: o tombamento, por si só, não dá conta de tudo quanto representam esses espaços enquanto lugares de acontecimentos que assinalam a culminância de um processo histórico decisivo para o que hoje se tornou lugar comum chamar de Estado Democrático de Direito.

Por outro lado, entendo porque se pretende fazer uso do tombamento em âmbito federal, único talvez a desfrutar de aceitação e de legitimidade capaz de alcançar a dimensão atribuída aos acontecimentos que se registraram no estádio da Vila Euclides: representa o seu reconhecimento pleno, a sua consagração nacional.

Não devidamente considerado no dossiê, embora conste do capítulo 8 relativo aos Documentos Anexos, vê-se um artigo recente do jornalista Ademir Médici, também membro da Comissão, intitulado “O 1º de Maio. Um estádio Patrimônio nacional” que apresenta esta mesma questão sob a sua ótica jornalística. Inicia o seu artigo explicando: Lutar pelo

tombamento, e não congelamento, do Estádio 1º de Maio, em São Bernardo, é o próximo passo da ONG Chácara Silvestre, que quer registrar para as atuais e futuras gerações a importância que significou para o Brasil o Estádio de Vila Euclides. E prossegue na sua argumentação: O estádio não tem características arquitetônicas monumentais, significativas ou diferenciais. Sofreu e sofre reformas e remendos desde praticamente a sua construção, na virada dos anos 1950 para 1960, quando era a praça de esportes dos trabalhadores da tecelagem Elni. (...)

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4 matéria veiculada na internete: O que está sendo tombada não é a arquitetura do 1º de Maio, é

a memória. As melhorias não feririam esta lógica do tombamento – declarou o presidente do

São Bernardo Futebol Clube (http:grandeabcesportes.blogspot.com/2009/11/tombamento-de-estadio não atrapalhará-expansão). Argumento reiterado pelo jornalista Ademir Médici quando justifica o pedido de tombamento: A importância maior do estádio foi mesmo a de abrigar os

metalúrgicos de São Bernardo e Diadema em 1979 e anos seguintes, quando das greves históricas realizadas no fim do regime militar. Uma história que caminha para os 30 anos. Naquele tempo houve uma conjugação de esforços entre Lula, o presidente do sindicato, e o prefeito Tito Costa, que cedeu o espaço. O estádio lotou várias vezes. Atraiu a atenção da imprensa, inclusive internacional. Deu uma grande dor-de-cabeça ao regime, que para São Bernardo enviou agentes, espiões e os célebres helicópteros verde-oliva em vôos rasantes com policiais apontando fuzis e metralhadoras para a cabeça da multidão que gritava palavras de ordem e cantava o Hino.

Eis, portanto, que se delimita melhor a questão. O estádio foi palco de acontecimentos de elevada importância. Não se quer levar em consideração outros aspectos; ao contrário procura-se eliminar, de antemão, qualquer obstáculo que possa se apresentar, antes e sobre tudo depois de se obter o tombamento. A incerteza porém gera a insegurança: A dúvida maior: o

tombamento do estádio não significaria o seu congelamento? A partir do tombamento o Município não correria o risco de ser impedido de realizar obras no estádio? Embora o

jornalista argumente em contrário, o tombamento, tal como foi proposto pela Comissão, se for acolhido, implicará sim em uma série de conseqüências, tanto para os bens listados, como para o órgão responsável pela sua proteção, porque aqueles passam a ser por este tutelado e estarão sujeitos às mesmas normas que regulam a proteção de todo patrimônio cultural brasileiro. É, pois, inaceitável que o estádio da Vila Euclides poderá estar isento de regulação por parte do IPHAN; liberado previamente para efetuar as obras que desejar, antes ou depois do tombamento. Esclareço melhor: o tombamento não pode nem deve ser confundido com

congelamento. Não se trata disso em absoluto. Os bens culturais sejam quais forem, das

arquiteturas civil, oficial ou religiosa, ao se tornarem monumentos nacionais, enquanto documentos de valor histórico e expressão de arte, são também objetos de conhecimento, e como tais constituem matéria de permanente investigação e valorização, sujeita a novas interpretações que podem desvendar atributos não identificados no ato do tombamento ou outros que se lhe venham a incorporar em função da crítica e da pesquisa. Assim, o monumento, tal como qualquer outro objeto cultural, está sujeito a ações de valorização, que podem resultar em obras tanto de restauro como de revitalização ou adaptação a novas funções que a sociedade nele incorpora. Portanto, refuto o argumento que vê o tombamento como

congelamento, e mais ainda a pretensão de um tombamento livre de sujeição às normas de

preservação vigentes. Ou se desista do tombamento, tal como está proposto, ou se busque um outro instrumento mais condizente ao que se pretende.

Por outro lado, a natureza imaterial do fato histórico que se quer preservar, e a dificuldade para torná-lo suscetível de fruição, pode-se observar pelo concurso que se fez do vídeo – com as entrevistas e os relatos gravados de diretores do sindicato, do prefeito e de outros atores históricos, a reconstituição dos fatos através de fotos e de notícias de jornais – no intuito de fornecer um conteúdo visível dos acontecimentos. Assim também a pretensão de se construir no subsolo do estádio um Museu do Trabalho que reúna tudo o que diga respeito aos acontecimentos que marcaram aquele momento histórico significativo, resgatando-o à sociedade. Iniciativas que se poderia supor estarem compreendidas pelo Programa de

Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial, criado pelo Decreto nº 3.551/2000, com a

finalidade de contemplar manifestações culturais que devido a sua natureza não podem ser

tombados. Todavia, a meu ver, nem mesmo o Registro de bens culturais de natureza imaterial,

em qualquer de suas modalidades, constituiria instrumento a dar conta da questão, pela simples razão da exigência da permanência das atividades que constituem as manifestações culturais que consagra e beneficia. Pois o que há de permanente no estádio é a atividade esportiva, embora hoje limitada apenas à prática do futebol (a atlética tornou-se inviável com a perda da

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5 pista antes existente) e não as relacionadas ao labor operário e às ações de organização e de reivindicação dos seus interesses, ocorridas naquela conjuntura histórica.

Como então resolver a questão?

Antes, porém, de apontar para a maneira como, creio, possamos solucioná-la, deixo clara a minha concordância com a argumentação desenvolvida pela Comissão, em especial a perspectiva de se buscar outras hipóteses para a atribuição de valor ao se tratar de um sujeito histórico cuja trajetória e projetos raramente os vê reconhecidos como expressões culturais próprias, frutos de sua vivência e experiência, também merecedoras de preservação.

Destaco, neste sentido, o trecho seguinte do Dossiê:

A hipótese do tombamento do Estádio de Vila Euclides coloca-se dentro da perspectiva de reconhecer o movimento operário como parte da história da industrialização e do desenvolvimento nacional. Considerar que a história operária deva ser preservada significa admitir a sua existência, distinguir sua importância e sua contribuição. Neste sentido, não se trata, evidentemente, de ressaltar o padrão arquitetônico do estádio, mas de compreendê-lo como marco referencial da memória operária, a partir de um movimento que, nascido na luta contra a superexploração, tornou-se resistência à repressão estatal e construiu uma identidade de classe. Significa, portanto, partir dos significados simbólicos e espaciais atribuídos a ele nos processos históricos de constituição da classe trabalhadora, da luta operária pela via democrática.

Assim, tendo em vista a importância do movimento operário do ABC para a história nacional, o tombamento do estádio se justifica enquanto lugar de sua afirmação. Afirmação de uma identidade operária que se tornou o elemento de mediação na construção deste sujeito coletivo que, de acordo com Sader (1988), é dotado de um projeto de mudança social, a partir do que ele vivencia e de sua própria experiência cotidiana. (Dossiê. 1 Introdução, fls. 9-10)

Volto à questão. Proponho uma fórmula talvez uma única vez aplicada pelo Conselho Consultivo do IPHAN para solucionar um impasse de outra natureza, mas que por seu intermédio é possível buscar alternativa, a meu ver, válida também para a questão em análise. Devemos à sabedoria e experiência do Professor Augusto Carlos da Silva Telles a sua formulação pioneira. Em 1996, examinando a questão originada pela proposição da então 9ª Superintendência Regional que propugnava pelo tombamento “restrito” aos segmentos originais da antiga capela da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo da Cidade de São Paulo, compreendendo apenas as áreas do edifício primitivo construído entre 1747 e 1776, e correspondentes aos espaços da igreja onde se localizam seus equipamentos de culto e de administração da irmandade, os denominados bens móveis e integrados, especialmente as valiosas pinturas de Padre Jesuíno do Monte Carmelo que lhe são contemporâneas, tendo em contraposição a argumentação dos técnicos das áreas centrais do órgão – Informação Nº 069, de 11/12/1989, da Coordenadoria de Proteção da então Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico / Fundação Nacional pró Memória, e Parecer nº 17, de 01/11/1995, DEPROT/IPHAN – que propugnavam pelo tombamento das edificações todas da igreja da Ordem Terceira do Carmo paulistana, incluindo as áreas anexas edificadas já no século XX, apoiando-se na historicidade do bem cultural e no valor das soluções arquitetônicas adotadas face às transformações urbanas ocorridas na cidade, especialmente no seu entorno. O Professor Carlos Augusto da Silva Telles surpreendeu o Conselho Consultivo com uma proposta inusitada: considerar as frontarias laterais e posterior acrescidas ao edifício colonial, assim como os anexos existentes à esquerda do edifício primitivo como seu entorno, tombando somente a igreja nos seus segmentos originais, “restritos” ao frontispício, à nave, capela-mor, sacristia,

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6 biblioteca e sala de reuniões, com a ornamentação interna contemporânea, além de seu acervo pictórico, especialmente as pinturas de Padre Jesuíno do Monte Carmelo.1

Como proceder no caso da Vila Euclides? De forma semelhante. O acontecimento se deu no interior do estádio. Fotografias e filmagens do acontecimento e os próprios depoimentos dos diretores que deles participaram, agora colhidos em vídeo pela Comissão, reconstituem as cenas ali ocorridas, na primeira manifestação à falta de um palanque e instrumento de som se fez uso de uma mesa de onde Lula solicitou aos mais próximos que repetissem sua fala aos detrás de modo que todos soubessem sobre o que estava dizendo, passando a posição do sindicato, as propostas e negociações e pedindo a participação coletiva na tomada de decisões naquela enorme assembléia de trabalhadores que lotava todo o gramado do campo, estendendo-se às arquibancadas e até aos muros de onde muitos operários podiam, em princípio, somente avistar as lideranças discursando. Numa assembléia seguinte já providenciara um palanque móvel e som, colocado no próprio gramado. Este o cenário que ficou gravado na memória de toda a gente.

Caso se queira realmente fazer uso do tombamento, proponho que elejamos somente esta área do estádio e mais os elementos originais que por ventura ainda ali se conservam, como os muros do primitivo estádio. Os elementos arquitetônicos a ele posteriormente anexados, inclusive as arquibancadas que se sobrepuseram aos muros sem no entanto alterá-los, assim como todos os demais construídos para dar lugar a um público maior devoto da prática futebolística que ali se desenvolve, passam a constituir tão somente o seu entorno, o qual deverá se estender até as instalações da antiga tecelagem em respeito à relação histórica e funcional apontada, o que não as isentará enquanto tal, ou seja como entorno do monumento, do controle e da fiscalização do IPHAN, permitindo todavia a execução de projetos de melhorias e/ou adaptações das mesmas, uma vez obtida a prévia aprovação do órgão federal de preservação.

Caso este nosso parecer venha a ser acatado, seria necessário efetuar-se um levantamento mais detalhado dos elementos arquitetônicos e espaciais originais do Estádio da Vila Euclides, também denominado 1º de Maio, sobre os quais recairá o tombamento, e consequentemente sobre aqueles que constituirão o entorno do monumento.

De interesse complementar mas de grande valor simbólico, seria de todo desejável a localização da mesa improvisada e do palanque depois utilizado nas assembléias de 1979, que passariam a integrar os poucos elementos que restaram daquele episódio, colocando-os também sob a proteção do Decreto-lei nº 25, de 31 de novembro de 1937.

Da mesma forma seria também louvável que a municipalidade se dispusesse a ceder parte das instalações da antiga fábrica de tecelagem, dessa maneira localizadas no entorno do monumento, que hoje abrigam apenas funções da administração pública, atendendo projeto da Comissão que elaborou o dossiê de criação de um Museu do Trabalhador, livrando desse modo o estádio de uma nova e desnecessária intervenção. Os recursos que seriam precisos para tais obras poderiam ser reorientados para a organização do museu, de cujo funcionamento advirá à produção e a difusão da memória – para o que sugerimos a criação de um Centro de Memória que talvez melhor do que o museu, sendo aquele dotado de profissionais capacitados e equipamentos adequados, possa desenvolver projetos sistemáticos de documentação da vida operária, de coleta de depoimentos das lideranças sindicais, de exposições sobre as grandes

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... estamos de acordo com os que consideram impossível a preservação fragmentada da Igreja da Ordem Terceira do Carmo; por outro lado, a feição atual das frontarias laterais e posterior não apresenta qualquer interesse, seja como obra histórica, seja como solução arquitetônica contemporânea: Trata-se de uma obra comum dos anos trinta e quarenta, de uma arquitetura comercial, projeto de firma construtora.

Entendemos, assim, como solução para o caso, uma proposta ainda não utilizada em situações congêneres: a de usarmos o expediente da definição do “entorno”, considerando como tal as três frontarias e mais os acréscimos existentes à direita da Igreja. Parecer do Relator do Processo 1.176-T-85, Professor Augusto Carlos da silva Telles,

submetido ao Conselho Consultivo do IPHAN em 26 de agosto de 1996, aprovado pela unanimidade dos Conselheiros presentes.

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7 manifestações do passado, as repressões ao movimento grevista, as prisões e as repercussões na mídia nacional e internacional, o apoio de intelectuais, estudantes e políticos e a germinação da idéia de formação de um partido político próprio, e outros de interesse permanente dos trabalhadores, de maneira a atingir de forma ainda mais plena o intuito de registrar para as

atuais e futuras gerações a importância que significou para o Brasil o Estádio de Vila Euclides.

S. Paulo, 17 de fevereiro de 2010. Carlos Gutierrez Cerqueira

matr. 224062

Despacho de Marly Rodrigues, Chefe da Divisão Técnica Matric.1701657 – IPHAN/SP : Em 19.02.10. À

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