Curso Formação de Governantes
São Paulo, 28 de outubro de 2014
Premissas para uma visão crítica (1):
•Concepção multicausal do crime e da violência;
•História brasileira, escravismo, legado autoritário, período
ditatorial, lei de segurança nacional;
•Cultura brasileira e mecanismos de resolução de conflitos:
a prevalência da esfera privada sobre a esfera pública;
•Pobreza, desigualdade, conflito social, violência e crime;
•Violência institucional do estado;
•Premissas para uma visão crítica (2) :
•
Mídia
reforça
valores
de
individualismo/
consumismo:
modelos
de
felicidade
x
espetacularização
de
situações
de
violência/diligências policiais. Desenvolvimento
de uma cultura da violência, de irracionalidade,
da resposta exemplar ao criminoso. Resultado:
fragilização, atemorização social, sensação de
impotência, “claustrofilia”.
•Questões estruturais relacionadas a violência e criminalidade
História do Brasil – escravidão, segregação da pobreza, segregação do negro,
prioridade para os mais ricos e integrados, o perverso papel do planejamento urbano, do higienismo, do controle social.
Segregação socioespacial, violência e segurança pública: Periferias precárias,
concentração da pobreza e da juventude. Visão criminalizadora da pobreza e dos movimentos sociais, das formas de lazer (funk, pancadões, rolezinhos)...
Construção social do estigma do criminoso potencial: linguagem da mídia:
“(mau elemento)”, “marginais”, “homem pardo suspeito”, “características ou atitudes suspeitas”: excessos e abordagens “preventivas”.
Envolvimento da sociedade no problema, a partir da explosão da violência nos
anos 90, em São Paulo, até a explosão do conflito na Favela Naval, em Diadema, e a reação da sociedade à epidemia de homicídios no Jardim Ângela.
Legados históricos: Arbitrariedade, tortura e letalidade, Violência doméstica,
Mídia e produção de insegurança (legitimação da repressão), Violência e consumo,
Alguns problemas da atual conjuntura:
Respostas imediatistas do sistema político e governamental:
endurecimento penal, criminalização social, estado de alerta
permanente. Ativismo legislativo / imediatismo. O caso da legislação
sobre drogas.
Novos contornos do crime e da violência, especialmente do crime
organizado: tema historicamente relevante, que demanda todas as
esferas do Estado, e exige políticas públicas. A segurança pública tem
que ser vista como algo que diz respeito a toda a sociedade, que tem
que constituir uma política pública, inserida em um contexto mais
amplo.
Desafios: ampliar participação social, criar instâncias de debate,
reflexão e ação, enfrentar questões sociais, raciais e de gênero.
Faixa de Renda População (milhões) Porcentual da riqueza Valor da riqueza (em bilhões de reais) Renda per capta por faixa 20% dos mais ricos 40.000.000 62,6 196,6 4.915,00 60% intermediários 120.000.000 33,9 106,4 886,66 20% dos mais pobres 40.000.000 3,5 11 275,00
Desigualdade social e econômica no Brasil
Mensurando o problema no Brasil
Violência no Brasil:
1 milhão de homicídios
entre 1979 e 2009
Fonte: SIM/Datasus
33.300 assassinatos por ano
2.777 assassinatos por mês
92 assassinatos por dia
04 assassinatos por hora
América do Sul
26,0
América Central
22,0
Europa
8,9
Sudeste Asiático
5,8
Pacífico Ocidental
3,4
ÍNDICES DE HOMICÍDIOS NO PLANETA
Índices de violência no mundo (homicídios por 100 mil
habitantes)
Relatório Regional de Desenvolvimento Humano
13910 51043 52198 11,7 28,9 27,1 0 10000 20000 30000 40000 50000 60000 0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 35,0 Taxa d e H o m icíd io s
Evolução da Taxa (Hom. / 100mil Hab.)
e do Número de Homicídios no Brasil - 1980/2011
Número de Homicídios Taxa de Homicídios
Mapa da Violência – 2014: Os jovens no Brasil Julio Jacobo Waiselfisz / Flacso
Mapa da Violência 2014
Relatório Regional de Desenvolvimento Humano
Mensurando o problema no Brasil
•Violência no Brasil:
• Números passam idéia de “explosão de violência”.
• Problema genérico e mal definido.
• Soluções genéricas e mal definidas:
• Redução da maioridade penal
• Endurecimento das penas
• Combate ao tráfico de drogas
• Vigilância das fronteiras
Mensurando o problema no Brasil – Faixa Etária das Vítimas
27% 73%
População Brasileira por Faixa Etária - 2011
15 a 29 anos
Demais Faixas Etárias
53% 47%
Faixa Etária das Vítimas de Homicídios no Brasil - 2011
15 a 29 anos
Mensurando o problema no Brasil
•
Perfil dos Crimes de Homicídio:
• Pesquisa USP (2001): 2.405 laudos de necropsia emitidos
pelo IML de São Paulo.
• Em 69% dos homicídios por arma de fogo, vítima foi
atingida na cabeça por mais de dois projéteis.
• 44% das vítimas atingidas na região dorsal (costas), com
mais de dois projéteis
• Fonte: GAWRYSZEWSKI, Vilma Pinheiro; COSTA, Luciana Scarlazzari. Social Inequality and Homicide Rates in São Paulo City, Brazil. Revista de Saúde Pública, vol. 39, n. 2. São Paulo, 2005.
Os novos padrões: interiorização da violência
Taxa Pos Taxa Pos Pernambuco 58,7 1º 39,1 5º Rio de Janeiro 50,5 2º 28,3 17º Espírito Santo 46,7 3º 47,4 2º São Paulo 41,8 4º 13,5 26º Rondônia 40,1 5º 28,4 16º Mato Grosso 38,5 6º 32,3 13º Distrito Federal 36,9 7º 37,4 7º Amapá 36,9 8º 30,4 15º Roraima 31,7 9º 20,6 23º
Mato Grosso do Sul 29,3 10º 27,0 18º
Sergipe 29,3 11º 35,4 10º Alagoas 29,3 12º 72,2 1º Goiás 21,5 13º 36,4 9º Acre 21,2 14º 22,5 21º Paraná 21,0 15º 31,7 14º Tocantins 18,8 16º 25,5 19º
Rio Grande do Sul 17,9 17º 19,2 24º
Ceará 17,2 18º 32,7 11º Amazonas 16,7 19º 36,4 8º Pará 15,1 20º 40,0 4º Paraíba 14,1 21º 42,7 3º Minas Gerais 12,9 22º 21,5 22º Bahia 11,9 23º 38,7 6º
Rio Grande do Norte 11,2 24º 32,6 12º
Piauí 9,7 25º 14,7 25º
Maranhão 9,4 26º 23,7 20º
Santa Catarina 8,4 27º 12,6 27º
UF 2001 2011
Os novos padrões: deslocamento dos polos dinâmicos da violência
Mensurando o problema no Brasil – Distribuição Geográfica
BH: entre 1998 e 2006, cerca de 20% de todos os homicídios aconteceram em 12 favelas.
Mensurando o problema no Brasil – Distribuição Geográfica
Mensurando o problema no Brasil
Distância Média entre o local de moradia das vítimas de homicídio e o local onde elas foram assassinadas, em 16 favelas da RMBH – 2007/2009
Mensurando o problema no Brasil
• Considerações Preliminares:
• Homicídios no Brasil: problema com características
estruturais, específicas, focalizadas e localizadas.
• “Implosão da Violência”: Homens, adolescentes e
jovens, não-brancos, pobres, baixa instrução formal,
moradores de favelas e bairros pobres de periferia, mortos
em via pública, próximos de suas casas, por armas de fogo.
Metodologia de Solução de Problemas em
Segurança Pública
Contexto Socioeconômico / Ambiental
Problema
Incidente Incidente Incidente Incidente
•
O que é um
“Problema”
?
• Grupo de incidentes, similares quanto a natureza ou tipo, que causa
prejuízos à comunidade e sobre o qual se espera que o poder público
faça algo.
• Metodologias de Solução de Problemas
• Expectativa do processo de solução de problemas:
• Eliminar o problema
• Reduzir o problema
• Reduzir o prejuízo
• Tratar o problema
IARA:
(1) Identificação: Identificação de problemas recorrentes e
obtenção de dados sobre eles;
(2) Análise: Dimensionamento do problema e refinamento.
Apontamento de possíveis intervenções;
(3)
Resposta:
Planejamento
e
implementação
de
intervenções;
(4) Avaliação: Monitoramento, avaliação e reformulação
das intervenções.
2002 – Projeto Piloto “Fica
Vivo”:
Regiões mais violentas: definidas
em função da concentração de
homicídios
registrados
pela
Polícia Civil.
Resultado: 06 favelas com altas
taxas de mortes por homicídio
em Belo Horizonte.
Estudo de Caso – Redução de Homicídios
Considerações Finais:
Homicídios: problema com características estruturais;
Enfrentamento
dos
Homicídios:
ações
focalizadas,
direcionadas e pontuais.
Foco no território, compreensão da dinâmica criminal local.
Policiamento/investigação orientada a problemas.
Forte investimento em informação, análise, diagnósticos,
Relatório Regional de Desenvolvimento Humano – PROBLEMA DAS DROGAS
Relatório Regional de Desenvolvimento Humano
Segurança Cidadã com rosto humano: Diagnóstico e Propostas para a América Latina PNUD - 2013-2014
Motivos de prisões de mulheres:
Fórum Brasileiro de Segurança Pública / Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas da
Escola de Direito da FGV / SENASP – Secretaria Nacional de Segurança Pública. Julho de 2014
Fórum Brasileiro de Segurança Pública / Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas da
Escola de Direito da FGV / SENASP – Secretaria Nacional de Segurança Pública. Julho de 2014
Fórum Brasileiro de Segurança Pública / Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas da
Escola de Direito da FGV / SENASP – Secretaria Nacional de Segurança Pública. Julho de 2014
Opinião dos Policiais Brasileiros sobre Reformas e Modernização da Segurança Pública
Fórum Brasileiro de Segurança Pública / Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas da
Opinião dos Policiais Brasileiros sobre Reformas e Modernização da Segurança Pública
Fórum Brasileiro de Segurança Pública / Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas da
Relatório Regional de Desenvolvimento Humano
Relatório Regional de Desenvolvimento Humano
Relatório Regional de Desenvolvimento Humano
País Ano Mortos por policiais África do Sul 2003 681 EUA 2003 370 Argentina 2003 288 Alemanha 2003 15 Reino Unido 2003 2 França 2003 2 Portugal 2003 1 Brasil (RJ+SP+MG) 2004 1.749
(Fonte: Ramos, Silvia. “Violência Policial no Rio de Janeiro: da abordagem ao uso da força letal”, in Direitos Humanos no Brasil 2005- Relatório da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos)
Ano Mortos por policiais 2001 459 2002 610 2003 915 2004 663 2005 329 2006 576 2007 438 2008 431 Total: 4.421
Mortos pela polícia no Estado de São Paulo
(Fonte: Secretaria de Segurança Pública/ SP)
Fonte: Participação Popular no Controle Externo da Atividade Policial e das Políticas Públicas
Segurança Cidadã com rosto humano: Diagnóstico e Propostas para a América Latina PNUD - 2013-2014
Escola de Governo / Artigos / As muitas violências TEXTO PARA REFLEXÃO: “As muitas violências “
Nos últimos três anos foram assassinadas mais de 140 mil pessoas no Brasil. Uma média de 47 mil pessoas por ano. Uma parcela expressiva destas mortes, que varia de região para região, é atribuída à ação da polícia, que se respalda na impunidade para continuar cometendo seus crimes. São 25 assassinatos ao ano por cada 100 mil pessoas, índice considerado de violência epidêmica, segundo organismos internacionais, e que se mantém estável, apesar dos esforços do governo federal com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) da Segurança, lançado em agosto de 2007, e o Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania), que tinha por meta reduzir em 50% os assassinatos neste ano de 2010, mas não o conseguiu.
A situação é um pouco melhor que alguns anos atrás: em 2000, o índice era de 26,7; em 2001, de 27,8; em 2002, de 28,45, segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Não fazemos ideia do que esses números significam. Apenas para ter uma comparação, nos três anos mais cruentos da invasão do Iraque (2005-2007) foram assassinados, por atos de guerra, 80 mil civis. Uma média de 27 mil mortes por ano. Se os assassinatos com armas de fogo são uma face da violência vivida na nossa sociedade, ela não é a única. Logo atrás, em termos de letalidade, estão os acidentes fatais de trânsito, com cerca de 33 mil mortos em 2002, e 35 mil mortes por ano em 2004 e 2005. Isto, sem falar nos acidentados não fatais socorridos pelo Sistema Único de Saúde, que multiplicam muitas vezes os números aqui apresentados e representam um custo que o Ipea estima em R$ 5,3 bilhões para o ano de 2002.
Novamente aqui os jovens são as principais vítimas, e uma pesquisa aponta que 95% dos acidentes de trânsito são de responsabilidade do motorista: desrespeito à sinalização, excesso de velocidade, avanço do sinal.1
Quanto aos atropelamentos, foram mais de 40 mil em 2006, penalizando principalmente os mais idosos.
A lista da violência alonga-se incrivelmente. Sobre as mulheres, os negros, os índios, os gays, sobre os mendigos na rua, sobre os movimentos sociais etc. Uma discussão num botequim de periferia pode terminar em morte. A privação do emprego, do salário digno, da educação, da saúde, do transporte público, da moradia, da segurança alimentar, tudo isso pode ser compreendido, considerando que são direitos assegurados por nossa Constituição, como outras tantas violências.
Para buscar interpretar estes acontecimentos, não é possível isolar uma única forma de violência, ainda que suas distintas manifestações
requeiram políticas também diferenciadas para enfrentá-las. É o jeito de
viver em sociedade, que assumimos ao longo do tempo, que nos leva a esta situação-limite.
Quando a Justiça não funciona, principalmente para os pobres; quando a polícia mata com impunidade, em vez de garantir a lei e a ordem; quando o que nos ensinam é que temos de tirar vantagem sobre os demais; quando as políticas públicas não garantem a proteção social das famílias; quando os jovens não têm perspectiva de emprego neste modelo de desenvolvimento; tudo somado, desaparece o que é de interesse comum, a coisa pública, a afirmação dos direitos, as regras de convivência democrática.
É aqui que mora o perigo. Se o domínio privado do espaço público prevalecer, como é o caso das milícias e do narcotráfico nas favelas, assim como dos sistemas de segurança privada nos acessos aos condomínios de luxo e nos shoppings, então continuaremos a viver uma guerra contínua e não declarada que estenderá seu manto de sofrimento por toda a sociedade.
Hannah Arendt valoriza o espaço público como espaço de socialização, da comunicação, do debate, do exercício democrático, do cultivo das liberdades. Claude Lefort, Viveret e toda uma corrente de pensadores nacionais e estrangeiros que defende o exercício da democracia direta pelos cidadãos, falam da (re)apropriação do espaço público, de um processo de (re)fundação democrática que crie novas instituições para um novo tempo, com maior controle social e sentido público.
Sem espaço público não há democracia, e o espaço público é também uma construção associada à construção do próprio Estado, que necessita se abrir para o controle social para produzir políticas que universalizem direitos. As experiências recentes de construção de um novo jeito de viver que ocorrem em países vizinhos, como a Bolívia e o Equador, dizem que este caminho é possível e que existem movimentos fortes na sociedade que bancam estas mudanças.
A maior violência para alguém é estar sozinho, sem trabalho, sem proteção social, desvalorizado perante si mesmo, privado dos seus meios de
socialização, de um papel a cumprir na sociedade.
Silvio Caccia Bava é editor de Le Monde Diplomatique Brasil e coordenador geral do Instituto Pólis.
O QUE FAZER?
PREVENÇÂO:
Os investimentos em prevenção são muito eficazes e permitem resultados mais sólidos do que aqueles derivados de repressão e da persecução criminal. Desenvolver projetos concretos de prevenção e alcançar, com eles, reduções significativas nas taxas de criminalidade e nas ocorrências violentas não é algo difícil e que requeira apenas projetos com custo elevado ou de difícil execução. Projetos simples e criativos também são eficazes e podem traduzir resultados extremamente positivos, mostrando que a prevenção ainda é o melhor caminho no combate a violência.
TRANSFORMAÇÃO DO SISTEMA DE JUSTIÇA CRIMINAL :
TRANSFORMAÇÃO DA SEGURANÇA PÚBLICA: NÍVEL GOVERNAMENTAL: NÍVEL LEGISLATIVO: NÍVEL JUDICIÁRIO: NÍVEL COMUNITÁRIO: CONTROLE SOCIAL:
PEDRO AGUERRE¹
É graduado em ciências sociais, mestre e doutor em ciências sociais
pela PUC-SP, com a tese: “Periferia: um estudo sobre a segregação
socioespacial na cidade de São Paulo”. Foi consultor do Programa
Nacional de Segurança Pública com Cidadania - Pronasci (2008 a
2010) e do Plano Juventude VIVA – SNJ (2012-2013) É membro
associado da Escola de Governo de São Paulo e professor da PUC-SP
– Faculdade de Economia e Administração.
www.escoladegoverno.org.br Fone: 11- 3256-6338