• Nenhum resultado encontrado

Data do documento 1 de outubro de 2021 TEXTO INTEGRAL

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Data do documento 1 de outubro de 2021 TEXTO INTEGRAL"

Copied!
5
0
0

Texto

(1)

Processo 122/2015-JP

Data do documento 1 de outubro de 2021

Relator

Luís Filipe Guerra

JULGADOS DE PAZ | CÍVEL

Sentença

DESCRITORES

Responsabilidade civil extracontratual

SUMÁRIO

N.D.

TEXTO INTEGRAL

SENTENÇA

I. RELATÓRIO:

A, com os demais sinais identificativos nos autos, intentou a presente acção declarativa respeitante à responsabilidade civil extracontratual contra B, S.A., melhor identificada a fls. 3, pedindo a condenação da mesma a pagar-lhe a quantia de indemnizatória global de 1.311,11 €, sendo 811,11 € de danos patrimoniais e 500,00 € de danos não patrimoniais, acrescida de juros de mora vencidos e vincendos, à taxa de 4%, desde a citação até efectivo e integral pagamento, bem como ainda de indemnização pelo lucros cessantes, a liquidar em execução de sentença, nos termos do disposto no artigo 564º do Código Civil.

Para tanto, o demandante alegou os factos constantes do requerimento inicial de fls. 3 a 11, que aqui se dá por reproduzido, tendo juntado ao mesmo quatro documentos.

Regularmente citada, a demandada apresentou a contestação de fls. 28 a 36, que aqui se dá por reproduzida, pugnando pela improcedência da acção.

Não se realizou a sessão de pré-mediação, dado que a demandada faltou à mesma, afastando tacitamente essa possibilidade.

Foi, por isso, marcada e realizada a audiência de julgamento, no início da qual foi o demandante convidado a aperfeiçoar a petição inicial, posto o que veio a reduzir o pedido para a quantia de 881,42 €.

(2)

Estão reunidos os pressupostos de regularidade da instância, nomeadamente:

O Julgado de Paz é competente em razão do objecto, do valor, da matéria e do território (cfr. artigos 6º, 8º, 9º, nº 1 a) e 12º nº 1 da Lei 78/2001 de 13 de Julho).

As partes gozam de personalidade e capacidade judiciárias e são legítimas.

Não há excepções, nulidades ou quaisquer questões prévias que cumpra conhecer, pelo que se fixa o valor da presente causa em 1.311,11 €.

Assim, cabe apreciar e decidir:

II. FUNDAMENTAÇÃO FÁCTICA:

Discutida a causa, ficaram provados os seguintes factos:

1. O demandante é administrador único da sociedade comercial denominada C, S.A.

2. O demandante tem o gozo do imóvel sito na Rua S. João de Deus, nº x, na cidade do Porto.

3. No dia 29 de Maio de 2014, cerca das 13.30h, ocorreu um corte no fornecimento de energia eléctrica no local acima indicado.

4. Já após a reposição do fornecimento de electricidade, o demandante veio a constatar que o seu computador e a sua impressora tinham avariado.

5. O demandante teve de suportar a quantia de 505,41 € para reparação do seu equipamento informático. 6. A demandada exerce, em regime de concessão de serviço público, a actividade de distribuição de energia eléctrica em alta e média tensão, sendo ainda concessionária da rede de distribuição de energia eléctrica em baixa tensão no concelho do Porto.

7. Por força do contrato de fornecimento de electricidade celebrado entre o demandante e o comercializador de energia eléctrica, a demandada abastece o local de consumo acima identificado, em regime de baixa tensão normal.

8. A instalação de utilização do demandante é abastecida a partir da rede de baixa tensão composta por cabo do tipo VAV4x10, proveniente do armário de distribuição que se encontra ligado ao Posto de Transformação de Distribuição (PTD), com a designação PRT/0446.

9. Esse PTD tem uma potência instalada de 630 KVA e abastece um total de 122 instalações de consumo, entre as quais a instalação do demandante, estando protegido por fusíveis alto poder de corte (APC). 10. O PTD é abastecido pela saída 14 da linha de distribuição de energia eléctrica em média tensão denominada LN Campo Alegre.

11. Trata-se de uma linha subterrânea que está dotada de equipamentos de protecção.

12. Quer a linha de média tensão quer o posto de transformação encontravam-se em condições normais de exploração, dentro do seu tempo de vida útil e instalados de acordo com as regras técnicas e de segurança legalmente previstas.

13. A demandante procede à fiscalização preventiva do Posto de Transformação, com periodicidade anual, não tendo detectado qualquer anomalia ou desconformidade.

14. A linha de média tensão também é objecto de manutenção preventiva.

15. No período compreendido entre Janeiro de 2010 e Março de 2015, a linha de média tensão Campo Alegre sofreu apenas três incidentes com duração superior a três minutos.

(3)

16. O único incidente na rede eléctrica que abastece o local de consumo do demandante, no dia 29 de Maio de 2014, ocorreu pelas 13.32h, tendo ficado registado sob o nº x.

17. Este incidente verificou-se na saída 14 da LN Campo Alegre e teve a duração total de 17 minutos. 18. Esse incidente consistiu somente numa interrupção seguida de reposição do fornecimento de energia eléctrica, tendo a primeira resultado da actuação da protecção máxima intensidade fase (MI), em consequência de um factor externo não identificado.

19. Após pesquisa e despiste da causa da interrupção, nada de irregular foi detectado na rede eléctrica. 20. As equipas técnicas da demandada não tiveram que fazer qualquer intervenção na rede eléctrica, nomeadamente qualquer reparação, substituição de equipamento ou qualquer outro procedimento.

21. A reposição da energia produziu uma sobretensão transitória, chamada sobretensão de manobra, que não ultrapassou os valores máximos admitidos pelo Regulamento da Qualidade do Serviço Eléctrico. 22. Todos os equipamentos ligados à rede pública de fornecimento de energia eléctrica são concebidos de forma a suportar este tipo de variação da tensão, desde que se encontrem devidamente instalados, dimensionados e dentro do seu tempo útil de vida.

Os factos provados n.os 2, 4 e 5 assentam no depoimento da testemunha D, informático, prestador de serviços ao demandante, que procedeu à reparação do equipamento informático deste no estabelecimento comercial sito à Rua João de Deus, nº x, Porto, não tendo dúvidas de que o mesmo avariou por efeito de sobrecarga de tensão eléctrica, de fonte para si desconhecida, uma vez que a fonte de alimentação do mesmo se encontrava queimada. Mais explicou que não chegou a facturar o serviço ao demandante, a fim de esperar pela sorte desta acção e de modo a não ter que suportar desde logo o respectivo IVA, mas que o mesmo corresponde ao constante da factura pró-forma que se encontra nos autos. Por outro lado, os factos provados n.os 3 e 6 a 22 fundam-se no depoimento das testemunhas E, F e G, todos funcionários da demandada, os quais, no essencial, confirmaram a ocorrência, a sua causa e duração, negando a possibilidade da mesma, por si só, danificar os equipamentos do demandante, tanto mais que a variação da tensão eléctrica foi normal e que não houve danos de outros particulares reclamados.

Foram também valorados criticamente os documentos constantes dos autos.

Não se provaram outros factos com interesse para a decisão da causa, nomeadamente que o demandante tivesse contratado com a demandada o fornecimento de energia eléctrica, que fosse o proprietário do imóvel sito à Rua João de Deus, nº x, Porto, que a interrupção do fornecimento de energia eléctrica tivesse ocorrido na manhã do dia 29/05/2014, que o demandante tivesse despendido a quantia de 305,70 € com a substituição das lâmpadas e armaduras electrónicas e que estas e o equipamento informático do mesmo tivessem avariado por efeito do referido incidente na rede eléctrica.

III. FUNDAMENTAÇÃO JURÍDICA:

O demandante pretendeu fundar a sua pretensão indemnizatória na responsabilidade civil contratual e extracontratual da demandada.

Ora, desde logo, o demandante não provou que tivesse celebrado qualquer contrato com a demandada, pelo que não se pode imputar a esta qualquer incumprimento da sua prestação contratual, causador de

(4)

prejuízos à contraparte (cfr. artigo 798º do Código Civil).

Assim sendo, a pretensão do demandante tem que ser apreciada à luz das normas que regulam a responsabilidade civil extracontratual, nomeadamente os artigos 483º e 509º do Código Civil.

No primeiro caso, está em causa a chamada responsabilidade civil subjectiva, a qual assenta na culpa do agente, cabendo ao lesado provar a mesma, salvo havendo presunção legal de culpa (cfr. artigo 487º do Código Civil). A par da culpa, são pressupostos da responsabilidade civil subjectiva, o facto, a ilicitude, os danos e o nexo de causalidade entre o facto ilícito e estes últimos. O segundo caso inscreve-se na responsabilidade objectiva, a qual prescinde da culpa do lesante, bastando-se com o risco próprio da actividade do mesmo, mas mantendo os demais pressupostos acima enunciados.

No entanto, como decorre do artigo 509º, n.os 1 e 2 do Código Civil, a responsabilidade objectiva fica afastada sempre que os danos resultem da própria instalação e esta esteja, ao tempo do acidente, de acordo com as regras técnicas em vigor e em perfeito estado de conservação, e também quando os danos sejam devidos a causa de força maior, entendendo-se esta como toda a causa exterior independente do funcionamento e utilização da coisa.

A demandada invocou justamente que a interrupção do fornecimento de energia se ficou a dever a caso de força maior não concretamente apurado. O caso fortuito ou de força maior aparece definido no artigo 2º, nº 4 do Regulamento da Qualidade do Serviço do Sector Eléctrico nos seguintes termos: “Para efeitos do presente Regulamento, consideram-se casos fortuitos ou de força maior os que reúnam as condições de exterioridade, imprevisibilidade e irresistibilidade, nomeadamente os que resultem da ocorrência de greve geral, alteração da ordem pública, incêndio, terramoto, inundação, vento de intensidade excepcional, descarga atmosférica directa, sabotagem, malfeitoria e intervenção de terceiros devidamente comprovada”. E no Anexo I do mesmo regulamento define-se o que se entende por cada um destes factores, designadamente e para o caso que aqui nos ocupa: “Inundações imprevisíveis — incidente causado por inundações de carácter imprevisível sobre as redes eléctricas, quer sejam de índole natural ou derivadas da ruptura de canalizações de fluidos de entidades externas aos operadores das redes de transporte e de distribuição; Sabotagem — incidente causado por um acto humano, voluntário e consciente, nas infra-estruturas da rede eléctrica, com vista a causar um incidente; Malfeitoria — incidente causado por vandalismo imputável a acções humanas voluntariamente danosas. Por exemplo: furto de equipamentos ou materiais das instalações; Intervenção de terceiros — incidente causado, designadamente, por: Escavações ou movimentações voluntárias de terras de qualquer tipo realizadas por terceiros que afectem directamente a rede; Embate de veículos sobre equipamentos das instalações da rede; Trabalhos da responsabilidade de entidades não contratadas pelos operadores das redes de transporte e de distribuição que afectem acidentalmente as instalações da rede; Queda de árvores sobre a rede no decurso de trabalhos de abate; Outros casos fortuitos ou de força maior — outras causas que reúnam simultaneamente condições de exterioridade, imprevisibilidade e irresistibilidade. Por exemplo: movimentos de terras na sequência de fenómenos naturais, acção de aves ou outros animais, etc.”. Por outro lado, dissecando os conceitos de exterioridade, imprevisibilidade e irresistibilidade, deve-se entender o primeiro como tudo aquilo que não decorre do funcionamento ou do sistema de operação dos equipamentos em causa; o segundo como referindo-se àquelas situações em que o operador não poderia,

(5)

por ausência de meios ou por cumprimento de boas práticas, prever a realização de determinado acto ou facto; e o terceiro como aquelas situações em que o operador não tem meios, ou obrigação, de impedir a produção dos efeitos daquele acto (cfr. Programa Erseforma 2010, Qualidade de serviço no sector da energia eléctrica e do gás natural – conceitos gerais).

Ora, discutida a causa, não há dúvida que a demandada demonstrou que a interrupção da condução e entrega da energia eléctrica no dia 29 de Maio de 2014, entre as 13.32h e as 13.49h, se ficou a dever a um caso de força maior, no sentido acima exposto. Por outro lado, não tendo havido uma actuação ilícita da sua parte no momento da reposição do fornecimento de energia eléctrica, designadamente porque a sua instalação se encontrava em bom estado de conservação e de acordo com as regras técnicas em vigor e ainda porque a chamada sobretensão de manobra não excedeu os valores de referência, não lhe podem ser imputáveis os danos sofridos pelo demandante, uma vez que os aparelhos do mesmo deviam estar preparados para suportar essa pequena variação de tensão. Deste modo, além do mais, não é possível estabelecer um nexo de causalidade adequada entre o facto e os danos (cfr. artigo 563º do Código Civil). Face ao exposto, uma vez que não se verificam todos os pressupostos de que depende a responsabilidade civil extracontratual da demandada, a acção terá necessariamente que improceder.

IV. DECISÃO:

Nestes termos, julgo a presente acção improcedente e não provada e, consequentemente, absolvo a demandada do pedido.

Custas pelo demandante (cfr. artigo 8º da Portaria nº 1456/2001, de 28 de Dezembro).

Registe e notifique.

Porto, 21 de Dezembro de 2015 O Juiz de Paz,

(Luís Filipe Guerra)

Referências

Documentos relacionados

F REQUÊNCIAS PRÓPRIAS E MODOS DE VIBRAÇÃO ( MÉTODO ANALÍTICO ) ... O RIENTAÇÃO PELAS EQUAÇÕES DE PROPAGAÇÃO DE VIBRAÇÕES ... P REVISÃO DOS VALORES MÁXIMOS DE PPV ...

A partir da junção da proposta teórica de Frank Esser (ESSER apud ZIPSER, 2002) e Christiane Nord (1991), passamos, então, a considerar o texto jornalístico como

Jornal da Metrópole, Salvador, 8 de abril de 2021 13 400 CIDADE 55 R$ para oferta do vale- alimentação O PANORAMA DA EDUCAÇÃO NO ESTADO. Com pandemia, rede de ensino na Bahia

Por conseguinte, em 2017, a Comissão formulou várias recomendações aplicáveis à profissão de agente oficial de propriedade industrial, que incidiram no âmbito das

Os valores mais altos de homocisteína encontrados para o g r u- po Paciente indicam associação entre homocisteína e AVCI, sendo que o aparecimento de casos de ate- rosclerose

Os resultados referentes à ultima coleta de matéria seca das plantas e de produção de matéria fresca de frutos foram submetidos à análise da variância e as médias em cada

 O grupo possui atualmente 9 unidades hoteleiras, que representam uma oferta de 1.311 unidades de alojamento e que se localizam nas regiões de Lisboa e Algarve;.  Todos

Por favor, leia com atenção as informações contidas abaixo antes de dar o seu consentimento para participar desse estudo. a) Você, atleta de futebol, está sendo