Realidade Virtual e Vídeo em 360º no Facebook
Thaísa Brandão Comber1
Resumo
Desde 2014 o Facebook investe e tenta desenvolver vídeos em 360º e em Realidade Virtual (RV) dentro da sua plataforma para interagir com seus usuários. Segundo Benítez-de-Gracia e Herera-Damas (2017), o desenvolvimento das produções em 360º é favorecido, entre outro motivos, pelo uso generalizado de smartphones e suporte de principais plataformas da internet como o Google e próprio Facebook, que também adquiriu a empresa Oculus Inc. e promoveu o formato de vídeo 360º permitindo sua publicação e distribuição gratuitas nesta plataforma (Facebook, 2015). Desse modo, este artigo busca fazer uma análise exploratória no perfil oficial do Facebook para analisar vídeos em 360º ou que possuam a temática de RV a fim de observar as características dos tipos de conteúdos produzidos e postados pela empresa. A necessidade desse estudo é de observar as apropriações de estratégias narrativas de imersão a fim de perceber o tipo de conteúdo que a empresa fortalece. A pesquisa sugere que deve-se manter atenção quanto a semântica das produções, pois é notório a utilização da tecnologia imersiva para gerar sentimento empático, porém voltado para os interesses da própria empresa.
Palavras-chave: Realidade Virtual; Facebook; redes sociais; vídeo 360º.
Introdução
Com os avanços constantes da convergência jornalística, a internet, e também a adaptação dela nos meios mobiles (SALAVERRÍA; NEGREDO, 2008; JEKINS, 2010; BARBOSA, 2009), iniciaram nas redações do mundo todo uma era de exploração de múltiplos ambientes online, tornando possível a experimentação de novas narrativas no jornalismo, bem como a participação ativa da comunicação em diferentes redes sociais. Essa reconfiguração suscitou a criação de novas formas de comunicar e disseminar a notícia a partir do jornalismo digital. Ferramentas de hipertextualidade, multimidialidade, interatividade, ubiquidade, memória, instantaneidade e personalização (CANAVILHAS et.al, 2014) passaram a se tornar actantes (LATOUR, 2012) no processo de comunicação da notícia no ecossistema móvel.
Analisando mais atentamente às mudanças nas formas de comunicar e o fluxo de informações, como previsto por Manuel Castells (1999) de nos colocar em uma nova ordem cultural, econômica e social a partir desse novo momento; é necessário perceber para além da convergência jornalística e também tentar analisar de que forma se dá o fluxo informacional através das conexões estabelecidas em diferentes locais da internet.
Recentemente, no primeiro semestre de 2021, foi feita uma nova edição da Global Digital Report2 que mapeou hábitos dos usuários e percebeu que a maior parte dos internautas (63%) dizem que utilizam do seu tempo online para encontrar informações. Devido ao contexto da pandemia de covid-19 houve um aumento na quantidade de pessoas inseridas nesse meio e, segundo dados da Global Digital Report, atualmente somos mais de 4,6 bilhões de agentes online; dentro desse número, o Facebook sozinho tem 2,74 bilhões de usuários em sua rede. Em 2014, o Facebook investiu mais de US$ 2 bilhões na compra da empresa Oculus Rift3, empresa que cria equipamentos imersivos de Realidade Virtual (RV). Levando em consideração que a imersividade possui características capazes de proporcionar ao público experiências de eventos ou situações descritas nas notícias em primeira pessoa e, consequentemente, emoções que acompanham a informação (De la Peña et al., 2010), pode-se pensar que existe espaço para o jornalismo imersivo e conteúdos informacionais dentro das grandes empresas de tecnologias?
Aliado a isso, é necessário levar em consideração que desde 2012 o Facebook começou a ser estudado como um possível disseminador de Fake News, como exposto no artigo de Regina March denominado “Como o Facebook, blogs e notícias falsas, adolescentes rejeitam a “objetividade” jornalística”4 e sempre está presente nas rodas de debates relacionadas a notícias falsas. O Facebook favorece, apesar de não ser determinante, a ação de outros fenômenos contemporâneos como Fake News (notícias falsas) ou Post-truth(pós-verdade) (SASTRE, CORREIO, CORREIO, 2018).
Assim, quais seriam as intenções do Facebook em comprar, investir e patrocinar projetos imersivos? Qual o tipo de conteúdo imersivo audiovisual está sendo criado pela empresa e distribuído ao público? A potencialidade do caráter informacional por meio de vídeos em 360º ainda mostra-se presente?
Desse modo, pretendemos discutir nesse artigo sobre os tipos de conteúdos audiovisuais imersivos, em Realidade Virtual e vídeo 360º, promovidos pelo Facebook, postado em sua página dentro da plataforma para tentar compreender as intenções dessa Big Tech que
4Título original: “With Facebook, Blogs, and Fake News, Teens Reject Journalistic “Objectivity””. Disponível em:https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0196859912458700. Acesso em: 13 set. 2021.
3Disponível em:
http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2014/03/facebook-compra-empresa-de-oculos-de-realidade-virtual-por-us -2-bilhoes.html. Acesso em 08 set. de 021.
revolucionou o modo como as pessoas se conectam de forma cultura, política e, até mesmo institucional.
Objetivos
Devido ao caráter exploratório desta pesquisa, o foco do estudo está relacionado a perceber como acontece as dinâmicas da rede social Facebook, analisando a semântica dos conteúdos produzidos em Realidade Virtual e vídeo 360º, ou que articulem sobre esse tema, levando em consideração que a plataforma possui um caráter informacional dentro de seus conteúdos produzidos. Desse modo, o presente artigo irá analisar alguns pontos que irão nos auxiliar na observação sistêmica do fato proposto.
Objetivo geral:
● Pesquisar de que forma o Facebook utiliza-se da tecnologia imersiva para criação de conteúdo dentro da sua página na rede social.
Objetivos específicos:
● Analisar a característica de conteúdo veiculado no na seção “Vídeos” do Facebook. ● Perceber a frequência de postagem de vídeos em 360º e temas no qual a Realidade
Virtual aparece.
Metodologia
Visando o desenvolvimento dos objetivos propostos, a presente pesquisa será subdividida em duas partes, a saber:
(i) Levantamento bibliográfico que contemple a contextualização da dinâmica do Facebook bem como a temática de realidade virtual e narrativa imersiva a fim de identificar o tipo de conteúdo que será analisado na página da rede;
Facebook e narrativas
Para compreender a metodologia do objeto desta pesquisa é necessário, primeiro, compreender a natureza do nosso estudo. A inserção massiva da internet e das mídias sociais na vida da sociedade vem mudando de forma expressiva a dinâmica dos relacionamentos, como já dito por Lévy (1999) ao definir cibercultura e ciberespaço como um novo conceito de comunicação, sociabilidade, informação e conhecimento.
Porém, como bem lembrado por Santaella (2003):
“[...]Não devemos cair no equívoco de julgar que as transformações culturais são devidas apenas ao advento de novas tecnologias e novos meios de comunicação e cultura. São, isto sim, os tipos de signos que circulam nesses meios, os tipos de mensagens e processos de comunicação que neles se engendram os verdadeiros responsáveis não só por moldar o pensamento e a sensibilidade dos seres humanos, mas também por propiciar o surgimento de novos ambientes socioculturais.” (Santaella, 2003, p.24)
O pensamento de Santaella, em contraposição à célebre fala de McLuhan ao afirmar em 1964 que o meio é a mensagem, faz sentido para pensar na dinâmica das redes sociais atualmente. A disseminação de informações, debates, provocações, pensamentos e etc, se mostram, não só cada vez mais presentes em espaços onlines que permitem o diálogo, mas também base principal para que a plataforma continue existindo.
A postagem de uma foto, um vídeo com recorte do seu dia, um compartilhamento de pensamento e acolhimento de ideias dos outros caminham, de forma geral, para a mesma interpretação: tudo é comunicação. De acordo com Nielsen et al. (2019), as pessoas estão cada vez mais se voltando para aplicativos de mensagens para consumir, discutir e replicar notícias, além de participar de outras formas de engajamento político.
De acordo com Dragt (2017):
“Os elementos-chave para a definição de uma tendência são entender a direção da mudança, os valores e necessidades associados a ela, as forças que afetam a tendência, as manifestações que podem ser observadas e a identificação dos grupos de pessoas onde a tendência surge e se desenvolve” (DRAGT, 2017, pp. 36-37).
caráter comunicacional associado às redes, também é importante fazer um adendo para se atentar que as informações repercutidas no ambiente online não são sinônimo de veracidade, já que por muitas vezes esses locais são os principais disseminadores de Fake News.
Atentando ao caso do Facebook, Allcott e Gentzkow (2017, p.2) citam que as notícias falsas mais populares tiveram mais compartilhamentos no Facebook do que as notícias verdadeiras mais populares e grande maioria das pessoas relatam acreditar nas notícias falsas.
Desse modo, se faz refletir no contexto associado a rede social Facebook relacionada a sua abordagem e tipo de comunicação que expressa online. Pensando no conteúdo imersivo, que é o foco desta pesquisa, se faz necessário refletir sobre as influências características desse meio das publicações feitas em rede. Como imersividade, podemos estabelecer o conceito definido por De La Peña (2010) que percebe a sensação de imersão quer visite o espaço como a si mesmo ou como um assunto na narrativa, o participante tem acesso sem precedentes às imagens e sons, e possivelmente, os sentimentos e emoções que acompanham a notícia. (DE LA PEÑA et al., 2010, p. 292).
Em 2014, o Facebook comprou a fabricante do Oculus Rift5, empresa desenvolvedora de óculos de realidade virtual que, inicialmente, foi construída voltada para jogos imersivos e é caracterizado por construir, a partir do equipamento Oculus, uma sensação de telepresença, ou seja, permite uma pessoa se sentir como se estivesse presente em um lugar que não seja a sua verdadeira localização (DUNKER, RAPOSO, 2016). Com a convergência jornalística, as possibilidades de utilização dessa tecnologia foram ampliadas e as capacidades imersivas perpassaram o mundo dos videogames.
O cenário de produção de vídeos em 360º é diferente da construção da Realidade Virtual no jornalismo, esta ocorre na união de diferentes processos narrativos que têm como base aliar a produção em 360º com narrativa imersiva. Porém, para a construção deste artigo, não iremos nos aprofundar nos conceitos da Realidade Virtual pois, para abranger o campo de análise desta pesquisa, iremos considerar como produções imersivas no Facebook vídeos em 360º e, devido ao caráter exploratório do projeto, vídeos que tragam o temática da Realidade Virtual e vídeo 360º.
5Disponível em:
Desse modo, para atingir os objetivos deste artigo, iremos analisar a página oficial do
Facebook dentro da própria plataforma e explorar a seção “Vídeos” para perceber os tipos de
conteúdos audiovisuais que são postados pelo perfil da empresa e suas nuances. A observação dos conteúdos postados no perfil da empresa irá focar nos vídeos 360º ou de RV, como também vídeos que abordem essa temática, mesmo que a sua construção audiovisual tenha sido feita a partir de câmeras e estilos de filmagens/edição convencionais na tentativa de analisar o caráter e objetivos dos vídeos produzidos com a temática 360º.
Resultados, discussão e análises
Para esta pesquisa, a busca por vídeos em 360º, bem como por conteúdos audiovisuais com títulos que possuam relação com a RV, foi feita em notebook Asus VivoBook e acessada através do navegador Opera. As coletas foram feitas em setembro de 2021 e conseguiram acessar vídeos a partir de fevereiro de 2020.
A análise dos vídeos do Facebook seguiu o critério de exploratório na seção de vídeos da página oficial do Facebook6 dentro da rede social. Assim que a categoria de vídeos é acessada, os primeiros conteúdos mostrados na tela são destaques de uma lista de reprodução selecionada pelo próprio Facebook. Até a última pesquisa (15/09/2021) foram observadas nove listas de reproduções, cada uma com, no mínimo, dois vídeos em cada uma, porém nenhum deles tem relação com vídeos imersivos em Realidade Virtual ou 360º.
Navegando pelos outros vídeos postados pelo Facebook foram identificados apenas dois vídeos com teor imersivo. O primeiro vídeo foi produzido em 360º porém tem título e conteúdo relacionado a produção de Realidade Virtual.
O vídeo mostra as imagens de um desenvolvedor de jogo em Realidade Virtual, Derek Ham, seu projeto consiste na criação de um videogame que tem como proposta colocar a experiência em primeira pessoa na narrativa de um homem negro no Estados Unidos da América para gerar empatia e o vídeo tem como legenda, em tradução livre: “Derek H.: Construindo empatia através da Realidade Virtual”.
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Na legenda do vídeo é possível ler “A RV dá a você a chance de entrar na pele de outra pessoa. Como uma pessoa branca, você pode olhar para baixo e ver as mãos negras. Como homem, você pode ser mulher. Como jovem, você pode ser velho. Não há mais nada nos jogos que possa criar esse tipo de empatia. ” Derek H. faz jogos de RV que tanto divertem quanto instruem. Sua experiência em RV, I Am A Man, usa o fone de ouvido @Oculus para fornecer uma visão imersiva do Movimento dos Direitos Civis, dando ao público uma perspectiva em primeira pessoa da Greve dos Trabalhadores de Saneamento de Memphis em 1968 e dos eventos que levaram ao assassinato do Dr. Martin Luther King, Jr. [...] Com o financiamento que Derek ganhou do programa 2017 Oculus Launch Pad, ele fundou a Logic Grip, uma empresa de RV que cria novo hardware e produz conteúdo de Direitos Civis para educar as gerações futuras de agentes de mudança.
Confira as incríveis histórias que Derek traz à vida https://www.logicgrip.com/” (Facebook, 2021, tradução nossa)8
O vídeo e a legenda propõem uma experiência sensorial de empatia ao enfatizar o conteúdo do que está sendo mostrado, porém observando a legenda semanticamente, é perceptível um tom relacionado a promoção de equipamentos, como o Oculus, e programas de desenvolvimento do Facebook.
Já o segundo vídeo observado na seção é produzido todo em 360º e retrata uma loja de chá na cidade de China. Uma voz feminina inicia o vídeo com uma locução para guiar o local onde seu olho precisa ser direcionado para acompanhar a primeira cena. O vídeo acompanha um fundo musical calmo mixado com vozes de pessoas conversando e pratos batendo ao longe, sensação semelhante a estar em um restaurante.
O vídeo destaca sobre a importância do chá para a cultura chinesa e explora os processos de produção do chá, trazendo falas e imagens de pessoas de forma sensível ao relatar sobre o que o momento do chá significa para cada um delas.
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Na legenda do vídeo é possível observar o seguinte texto: “Bem-vindo ao Ching Ching Cha. Explore como a cultura do chá cultiva a comunidade em D.C. Esta loja de chá e 45% das pequenas empresas que amamos podem não sobreviver nos próximos 3 meses. Se precisar de
ajuda ou puder oferecer, visite fb.com/supportsmallbusiness” (Facebook, 2020, tradução nossa)10.
Seguindo a mesma lógica do primeiro vídeo, o segundo, mesmo adotando a uma produção de narrativa e imagem em 360º, a legenda retorna para o mesmo caráter promocional expressado no mesmo vídeo, o de promover políticas do próprio Facebook.
Considerações
A utilização de vídeo 360º e vídeo com conteúdos relacionados a RV são utilizados, em ambas as vezes, para gerar conexão através de sentimento, mas também citar o nome da empresa.
Após análise do conteúdo dos dois vídeos postados na página oficial do Facebook foi possível perceber que a empresa utiliza-se da sensibilização proporcionada pela tecnologia de Realidade Virtual com objetivo final de converter a atenção para os investimentos e promoção da própria plataforma.
Os conteúdos informacionais trazidos pelo Facebook são patrocínios da própria empresa, a possibilidade de valorizar as histórias de pessoas e projetos inovadores acontecem de forma induzida para o Facebook afirmar, discretamente, que a situação reproduzida só ocorre ou pode continuar acontecendo por conta das oportunidades que a empresa cria.
Ao relembrar os conceitos construídos em rede, como explorado no início deste trabalho, pode-se perceber que esse tipo de conteúdo necessita atenção pois pode surgir como uma manipulação sutil para os interesses próprios da empresa. É necessário pensar de forma crítica as intenções dessa Big Tech pois, acolher pessoas em uma história de empatia pensando em benefício próprio parece um pouco antagônico.
Se faz necessário discussões mais aprofundadas para perceber até onde os conteúdos produzidos e promovidos pelas redes sociais determinam ações, disseminam informações e acolhem histórias.
10Original em inglês:Welcome toChing Ching Cha. Explore how tea culture cultivates community in D.C.
Referências Bibliográficas
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