Cognitivismo Moral e Superveniência
Rafael Graebin Vogelmann1
RESUMO
Apresentaremos uma objeção à forma de cognitivismo moral segundo a qual o juízo moral da forma “x é bom” consiste em atribuir a x a propriedade irredutível de primeira ordem designada por “bom”. O argumento parte de dois aspectos de nossos conceitos morais: (S) superveniência de propriedades morais a propriedades descritivas e (P) a instanciação de propriedades morais não é logicamente implicada pela instanciação de propriedades descritivas. Se a família de predicados M sobrevém à família de predicados N, então, necessariamente, para todo predicado F em M e para todo objeto x, se x é F, então existe algum G em N, tal que x é G e para todo y, se y é G então y é F. Tomemos “M” como designando a família das propriedades morais e “N” como designando a família das propriedades naturais. Então, (S) e (P) em conjunto permitem mundos possíveis onde ser G implica ser F e mundos onde ser G não implica ser F. Mas excluem mundos possíveis onde algumas coisas que são G são F mas outras coisas G não são F. A forma de cognitivismo moral acima permite mundos deste tipo, logo não dá conta de nossas noções morais.
Palavras-chave: Meta-Ética, Cognitivismo, Juízo Moral, Superveniência, Mundos Possíveis. ABSTRACT
We will present an objection to the form of moral cognitivism according to which a moral judgment of the form “x is good” consist in the attribution to x of a first order irreducible property designated by “good”. The argument is based on two aspects of our moral concepts: (S) the supervenience of moral properties on descriptive properties and (P) that the instantiation of moral properties is not logically implied by the instantiation of descriptive properties. If the family of predicates M supervenes on the family of predicates N, then, necessarily, for every predicate F on M e for every object x, if x is F, then there is a G on N, such that x é G e for every y, if y is G then y é F. Take “M” designate the family of moral properties and “N” to designate the family of natural properties. Then, (S) e (P) together allow possible worlds where x been G implies x been F and possible worlds where x been G does not implies x been F. But they exclude possible worlds where somethings that are G are F e other things that are G are not F. The form of cognitivism above allows such worlds, therefore it does not account for our moral notions.
Keywords: Metaethics, Cognitivism, Moral Judgment, Supervenience, Possible Worlds.
Vamos aqui nos ocupar de uma objeção a certa forma de cognitivismo moral. O
argumento se deve a Blackburn e foi exposto em seus artigos Moral Realism2 e Supervenience
1Graduando em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E-mail:
[email protected]. Tel: (51) 9199-3971
2BLACKBURN, S. "Moral Realism". In: BLACKBURN, S. Essays in Quasi-Realism. 1.ed. New York: Oxford
Revisited3. Contudo, como apresentado por Blackburn o argumento tem por alvo o cognitivismo moral em geral. O resultado do argumento na verdade é mais humilde: ele mostra apenas a inadequação conceitual da forma de cognitivismo que vamos considerar aqui e não coloca nenhuma dificuldade para outras formas de cognitivismo. A reconstrução que se segue então, embora inspirada na argumentação de Blackburn, não pretende necessariamente fazer jus ao argumento como originalmente apresentado. Antes apresentaremos o argumento de maneira que resulte em uma objeção eficiente, embora menos abrangente.
A forma de cognitivismo da qual vamos nos ocupar sustenta que o seguinte é verdadeiro a respeito do juízo moral: (i) juízos morais são expressão de um estado cognitivo, tal como uma crença, dotado de conteúdo representacional; (ii) desta forma, o juízo tem caráter descritivo, representa a realidade de certa forma, e como tal tem valor de verdade; (iii) sua forma gramatical é transparente, a avaliação consiste em predicar uma propriedade do objeto; (iv) a propriedade em questão é de primeira ordem, irredutível a qualquer outra propriedade; (v) o juízo moral é justificado mostrando que é verdadeiro, isto é, no caso da avaliação mostrando que o objeto de fato instancia a propriedade sui generis que lhe é atribuída.
Acrescento a qualificação “de primeira ordem” no item (iv) porque há uma forma de cognitivismo naturalista que concorda com (i)-(v) exceto em que sustenta que a propriedade designada por “bom” é uma propriedade de segunda ordem. Essa forma de cognitivismo se inspira em resultados na área da Filosofia da Mente, especificamente na tese do Funcionalismo segundo a qual tipos mentais são definidos em termos dos inputs sensoriais que os causam, dos outputs comportamentais que resultam deles e de suas relações com outros tipos mentais, de maneira que tais tipos podem se realizar em substratos físicos radicalmente diferentes. De maneira semelhante, essa forma de cognitivismo sustenta que embora a propriedade designada por “bom” não seja redutível a nenhuma propriedade natural, ainda é possível sustentar que se trata de uma propriedade natural funcional, definida em termos de suas relações com ações humanas e bens que tendem a resultar dessas ações. A propriedade designada por “bom” seria então uma propriedade irredutível de segundo grau, e como tal multiplamente realizável. Não queremos nos ocupar dessa forma de cognitivismo. A tese que vamos atacar recebeu no debate a designação de “cognitivismo não-naturalista”
devido ao modo como foi apresentada por Moore4, mas dadas as considerações acima
3BLACKBURN, S. "Supervenience Revisited". In: BLACKBURN, S. Essays in Quasi-Realism. 1.ed. New York:
Oxford University Press, 1993, p.130-148
podemos chamá-la de Cognitivismo Não-redutivo de Primeira Ordem.
Essa formulação técnica pode dar a impressão de que se trata de uma tese recôndita, dificilmente sustentada, a ponto de que um argumento que busque refutá-la é supérfluo. Quero fazer alguns apontamentos rápidos no sentido de que este não é o caso. Essa é na verdade uma tese que ocorre de forma bastante natural, que é frequentemente tomada como fazendo perfeita justiça ao senso comum moral e cujas consequências a tornam digna de consideração. Essas consequências são uma forma de ceticismo moral que acusa a prática moral ordinária (da qual daria conta o cognitivismo) de incorporar graves erros metafísicos.
Se alguém chega a se perguntar em que consiste o ato de realizar um juízo moral e pensa a respeito de avaliações simples como “x é bom”, uma resposta se oferece rapidamente: realizar esta avaliação consiste em atribuir àquilo que “x” designa a propriedade designada por “bom”. Se perguntamos de que propriedade se trata, a resposta pode ser esta: trata-se simplesmente da propriedade de ser bom. Que esta propriedade difere de qualquer propriedade ordinária que possamos imaginar se mostra pelo fato de que podemos concordar quanto a descrição completa de um objeto e discordar sobre se ele instancia ou não a propriedade de ser bom. Isto é, não existe uma descrição N do objeto avaliado que seja tal que seja contraditório dizer “x é N, mas não é bom”. Além do mais, os juízos morais têm um papel de destaque em deliberações práticas, eles guiam nossa ação, de maneira que a propriedade que um juízo moral atribui ao avaliado deve ser muito especial na medida em que reconhecer que ela é instanciada por algo basta para fornecer razões para agir para qualquer pessoa.
Esta argumentação resulta na forma de cognitivismo da qual nos ocuparemos. Na verdade, ela pode ser considerada uma apresentação rudimentar do racionale do famoso
argumento da questão aberta de Moore5. Embora ela possa parecer uma tese bastante
implausível, não podemos nos excusar de debatê-la porque ela é um prato cheio para o cético
moral. Um cético pode, como o fez Mackie6, argumentar assim: se você reconhece que o juízo
moral consiste na atribuição de uma propriedade tão especial, você se dá conta de que seus juízos morais não podem ser justificados e provavelmente são todos falsos, pois como detectaríamos uma propriedade assim tão diferente das propriedades com as quais estamos acostumados? Na verdade, temos razões para suspeitar que tal propriedade não existe: ela não pode ser encaixada na visão de mundo que as ciências nos oferecem. Não quero entrar em
5Ver MOORE, G.E. Principia Ethica: Revised Edition. Cambridge: Cambridge University Press, 1993. Em
especial §13.
6Ver MACKIE, J.L. "The Subjectivity of Values". In: MACKIE,J.L. Ethics: Inventing Right and Wrong. 1.ed.
detalhes quanto a esta argumentação do cético, quero apenas ressaltar um ponto de sua estratégia: ele distingue entre questões conceituais e questões substanciais e argumenta que o cognitivismo não-redutivo de primeira ordem é uma boa resposta à questão conceitual a respeito da noção de juízo moral e que se daí se seguem consequências metafísicas intoleráveis é só porque estes compromissos metafísicos se encontram incorporados a nossas noções morais.
Embora o cognitivismo não-redutivo de primeira ordem tenha caído em desuso, isto se deu porque esta tese pareceu implausível à luz de suas consequências metafísicas desagradáveis. Mas, até onde sei, uma resposta satisfatória não foi dada ao cético que pretende sustentar essa forma de cognitivismo para argumentar que estas consequências metafísicas de fato se seguem de nossas noções morais e que, portanto, nossas práticas morais incorporam um grave erro. Nossa objeção é interessante porque permite responder a este cético. Ela mostra que esta forma de cognitivismo não deve ser repudiada apenas em face de suas consequências metafísicas intoleráveis, mas que se olharmos com cuidado para nossas noções morais vemos que esta forma tão natural de encarar o juízo moral não lhes faz justiça. Mostrar que “x é bom” não consiste simplesmente na atribuição a x da propriedade de ser bom, sem mais, é, portanto, um resultado importante.
Isto basta sobre a tese da qual nos ocuparemos e porque o esforço de refutá-la não é vão. Podemos formular agora uma restrição que deve ser imposta a nossa argumentação: devemos mostrar que essa forma de cognitivismo é uma má resposta a questão conceitual “em que consiste o ato de realizar um juízo moral?”; ao fazer isto não podemos apelar a considerações substanciais que mostrem que algo que esta forma de cognitivismo moral atribui ao juízo moral não encontra correspondente na realidade. Por exemplo, mostrar que a propriedade que é atribuída ao avaliado no juízo moral, de acordo com este tipo de cognitivismo, não existe não faz nada para mostrar que esta forma de cognitivismo é uma má
análise do juízo moral7. Nossa argumentação deve apelar apenas a nossa noção de juízo moral
e mostrar que há algum traço desta noção do qual a análise cognitivismo não-redutiva de primeira ordem não dá conta. Isto é, devemos mostrar que se assumimos que esta forma de cognitivismo moral é correta a imagem que obtemos do juízo moral é tal que há algum traço de nossa noção de juízo moral que não ocorre nela.
Vamos ao argumento. Ele consiste simplesmente em formular este traço conceitual do qual o cognitivismo não dá conta. Fazemos isso apelando a dois aspectos do
7Por “análise do juízo moral” me refiro a qualquer proposta de resposta à questão “em que consiste o ato de
juízo moral: (C) a covariação de predicados morais e predicados descritivos e (P) o fato de que a instanciação de predicados morais não é logicamente implicada pela instanciação de predicados descritivos. Conjuntamente (C) e (P) resultam em no traço conceitual que estamos buscando. O primeiro passo no argumento é, então, apresentar (C) e (P) como aspectos conceituais de nosso pensamento moral.
A noção de covariação é passível de várias formulações ligeiramente diferentes. Estas formulações tentam capturar as trivialidades segundo as quais: (i) dois objetos idênticos quanto a todas suas demais propriedades são também idênticos quanto a suas propriedades morais e (ii) as qualidades morais de algo não podem mudar sem que haja uma mudança correspondente em suas propriedades naturais ou descritivas. Blackburn, por exemplo,
formula assim (C)8: Necessariamente, se existe um x tal que x é F e G, e tal que G subjaz a F,
então para todo y, se y é G então é F. Esta formulação pode ser apresentada assim:
(C) □((x)(Fx Gx (Gx U Fx)) (y)(Gy Fy))
O problema com esta formalização é que ela faz uso do conectivo “U” que equivale a “(1) subjaz a (2)” que é o mesmo que “(2) sobrevém a (1)”. A noção de superveniência ou covariação então reaparece na formulação. Esta fórmula não nos informa nada senão que se a propriedade F sobrevém a G então todo y que instanciar G também instanciará F – não nos diz em que consiste a superveniência ou covariação.
Adotarei aqui a formulação desenvolvida por Jaegwon Kim9. Covariação é uma
relação entre famílias de predicados. A família de predicados M co-varia com a família de predicados N se, e somente se, necessariamente, para todo predicado F em M e para todo objeto x, se x é F, então existe algum G em N, tal que x é G e para todo y, se y é G então y é F. Importante notar que os predicados em questões podem ser bastante complexos e envolver
muitas clausulas. “G”, por exemplo, poderia ser um predicado da forma “Q P ¬X ¬ Y”.
Formalizamos assim a tese da covariação:
(C) □(F em M)(x) [Fx → (G em N)(Gx y)(Gy → Fy))]
Já que estamos interessados na covariação de predicados morais e predicados
8BLACKBURN, S. "Supervenience Revisited". In: BLACKBURN, S. Essays in Quasi-Realism. 1.ed. New York:
Oxford University Press, 1993, p.131
9KIM, J. "Concepts of Supervenience". In: Philosophy and Phenomenological Research, vol. XLV, n.2,
naturais, tomamos M como sendo a família dos predicados morais e N como sendo a família dos predicados naturais ou descritivos. Assim (C) afirma que, necessariamente, para qualquer propriedade moral instanciada pelo objeto x existe uma propriedade natural (ou conjunto de propriedades naturais) que também é instanciada por x e que é tal que é sempre acompanhada da propriedade moral em questão. Porém, como devemos ler o “necessariamente” no início da
fórmula? O operador de necessidade pode ser lido de diversas maneiras10. Podemos falar em
necessidade analítica, necessidade metafísica, necessidade física e talvez existam outros tipos. Ler (C) como enunciando uma necessidade física seria absurdo, mas a necessidade em questão é analítica ou metafísica?
Uma verdade metafisicamente necessária é tal que é verdade em todo mundo possível. Um possível exemplo deste tipo de necessidade é a necessidade de enunciados de
identidade científicos, como “água é H2O” ou “calor é movimento molecular”11. Identidades
deste tipo não são verdadeiras em razão apenas dos conceitos que articulam. Descobrimos que água é H2O não mediante uma investigação conceitual, analisando os conceitos articulados na identidade, mas mediante uma investigação científica a posteriori. Mas uma vez que descobrimos que esta coisa que chamamos de “água” é na verdade H2O, sabemos que em qualquer mundo possível que contenha esta coisa chamada “água”, água é H2O. Podemos então dizer algo do tipo “necessariamente, água é H2O” e com isso queremos dizer apenas que não há um mundo possível onde “água é H2O” seja falso.
Agora, admitindo que enunciados científicos de identidade verdadeiros são metafisicamente necessários, suponha que alguém negue que necessariamente água é H2O. Esta pessoa pode ser acusada de ignorar descobertas científicas importantes, mas podemos admitir que ela domina os conceitos de água e de H2O? Sim, podemos. Esta pessoa pode ter amplos conhecimentos de química e simplesmente crer, por alguma razão qualquer, que a substância que cobre a maior parte de nosso planeta não é composta de átomos de hidrogênio e oxigênio. Esta pessoa tem uma crença factual aberrante, mas não pode ser acusada de confusão conceitual. Se, contudo, a necessidade envolvida na identidade fosse necessidade analítica, esta acusação seria cabível.
Diremos que uma proposição é analiticamente necessária caso seja verdade em razão apenas dos conceitos que articula. Todos aqueles que dominam os conceitos relevantes deveriam ser capazes de verificar a verdade da proposição. Negar a verdade da proposição
10Ver BLACKBURN, S. "Supervenience Revisited". In: BLACKBURN, S. Essays in Quasi-Realism. 1.ed. New
York: Oxford University Press, 1993, p.135-136
11Este exemplo é retirado de KRIPKE, S. Naming and Necessity. 12.ed. Cambridge: Harvard University Press,
trairia falta de domínio sobre os conceitos ou confusão: uma incapacidade de apreender corretamente aspectos importantes do conceito e operar com eles. Outro modo de apresentar a noção de necessidade analítica é a seguinte: assentir a verdades analíticas é constituinte da competência no uso dos termos utilizados na expressão da verdade em questão; negar tais verdades é constituinte da falta de competência no uso dos termos.
Essa distinção se aplica não só a operadores de necessidade mas também a operadores de possibilidade. Algo é uma possibilidade metafísica se há ao menos um mundo possível onde ocorre. Algo é uma possibilidade analítica se sua negação não for uma verdade analiticamente necessária – isto é, não há restrição conceitual a sua possibilidade. Necessidade, seja analítica seja metafísica, implica tanto a possibilidade analítica como a possibilidade metafísica. A necessidade analítica implica necessidade metafísica, mas o contrário não é verdade. E a possibilidade metafísica implica possibilidade analítica, mas o contrário não é verdade.
Mas então, como devemos ler o operador de necessidade em (C)? Se M é a família de predicados morais e N a família de predicados naturais, (C) é verdadeira quando o operador é lido como necessidade analítica, e isso implica que é verdadeira também se o operador é lido como necessidade metafísica. Como queremos um argumento que mostra que o cognitivismo não-redutivo de primeira ordem não dá conta de um aspecto conceitual da moralidade o operador deve ser lido como operador de necessidade analítica. É uma premissa do argumento que a covariação de propriedades morais e propriedades naturais faz parte do pensamento moral ordinário.
Deve ser fácil mostrar que (C) é uma verdade analiticamente necessária. Para tal temos que mostrar que quem não reconhece (C) carece de algo que é constitutivo da competência no uso de termos e noções morais. Um modo de fazer isto é confiar em nosso domínio dos termos e noções relevantes e pedir que cada leitor faça o esforço de avaliar a verdade de (C). Podemos apontar para casos nos quais (C) não é observado e esperar que os leitores concordem que nestes casos a falta de domínio sobre as noções em questão é evidente. Imagine por exemplo o caso de alguém que diante de dois objetos iguais, ambos instanciando a propriedade designada por “G” e não contendo nenhuma outra propriedade relevante para o juízo moral, afirma que enquanto o primeiro objeto é bom o segundo não o é. Se perguntado o porque da distinção ele afirma que simplesmente é o caso de que o primeiro é bom e o segundo não é. Diante disso ficamos perplexos. O comportamento deste sujeito é incompreensível e não podemos senão afirmar que ele não compreende a noção de bom. O mesmo diríamos de alguém que num dia considera A bom e no dia seguinte, sem que
nenhuma propriedade de A se altere, já não o considere bom. Se questionado, o sujeito diz apenas que A deixou de ser bom.
Podemos ainda acrescentar a estes exemplos a seguinte consideração12: nestes
casos em que (C) não é observado, o propósito mesmo da prática de fazer avaliações é frustrado. Fazemos avaliações para guiar nossas atitudes, escolhas e ações. E o mundo no qual temos que nos guiar é um mundo habitado por objetos dotados de propriedades naturais. Se nossas avaliações não respondem a estas propriedades, de que nos servem? Que fim pode ter a prática de avaliar? Parece que nenhum. O comportamento de quem nega (C) é tão aleatório com as avaliações quanto seria sem elas. Parece que o único fim possível da prática moral de fazer avaliações é traído pela rejeição de (C) e por isto aceitar (C) é parte constituinte da competência nesta prática.
Dado (C), se x instancia uma propriedade moral F, então x instancia também uma propriedade natural G tal que é sempre acompanhada de F. Mas que propriedade é G não é algo que descobrimos mediante análise conceitual – é algo que descobrimos por meio de uma investigação moral substancial.
Compare agora (C) com a tese mais forte (C*):
(C*) □(F em M)(x) [Fx → (G em N)(Gx □y)(Gy → Fy))]
Enquanto (C) declara a necessidade de um condicional, em (C*) há um operador de necessidade no consequente do condicional. Se x instancia a propriedade F dado (C*) sabemos que, necessariamente, G sempre é acompanhada pela presença de bondade. Se lemos novamente os operadores de necessidade como necessidade analítica, então (C*) parece falsa. Seria constitutivo do domínio de noções morais admitir que se algum objeto instancia a propriedade moral F então existe uma propriedade G tal que é constitutivo do domínio de noções morais admitir que todo objeto que é G é F. Negar que todo objeto que é G é F seria trair falta de domínio sobre noções morais. Mas neste caso, adotar certo padrão de avaliação seria constitutivo da competência na prática de fazer avaliações morais. Se este fosse o caso, sempre que duas pessoas discordassem sobre se a instanciação de certa propriedade natural implica a presença de certa propriedade moral, ao menos uma delas deveria ser incompetente no uso de termos morais ou estar confusa. Isto é, um desacordo moral genuíno, entre pessoas igualmente capazes no uso de termos avaliativos, seria impossível.
12Ver BLACKBURN, S. "Supervenience Revisited". In: BLACKBURN, S. Essays in Quasi-Realism. 1.ed. New
Poderíamos imaginar uma outra comunidade que usa termos como “bom” numa prática como a nossa. Eles usam estes termos para recomendar e louvar certas coisas; os termos são aplicados de maneira regular, respondendo a aspectos descritivos dos objetos avaliados; estes termos aparecem na expressão das deliberações dos habitantes desta comunidade e eles estão normalmente dispostos a agir de acordo com seus juízos sobre o que é “bom”. Parece que os habitantes desta comunidade têm pleno domínio sobre este vocabulário e são capacitados para a prática de fazer avaliações. Contudo, suponha que seus juízos respondem a aspectos naturais muito diferentes dos nossos. Suponha, por exemplo, que eles estão dispostos a julgar boa a crueldade desnecessária para com inimigos. Isto é, o padrão de avaliação deles difere do nosso. Devemos dizer então, que se alguém que faz parte da nossa comunidade discordar num debate moral de um habitante desta outra comunidade, ao menos algum deles está confuso ou não tem pleno domínio do vocabulário avaliativo? Parece que não.
Parece que duas pessoas podem discordar a respeito de se certa propriedade natural implica a presença de certa propriedade moral e nenhuma delas precisa estar aplicando seus conceitos de maneira confusa: pode ser que uma delas esteja cometendo uma falha em sua deliberação ou que seja de fato má, mas isso não abala sua competência no uso de conceitos morais. Gostaríamos de dizer, por acaso, que, dado que há grande desacordo entre filósofos praticantes de ética normativa, a maior parte destes filósofos aplica confusamente seus conceitos morais?
Além da plausibilidade de negar (C*) se lemos os operadores de necessidade como indicando necessidade analítica, devemos notar que os principais defensores do cognitivismo não-redutivo de primeira ordem se comprometem com a negação de (C*) em sua argumentação. No caso de Moore, o argumento da questão aberta tem por fim justamente apontar que a propriedade designada por “bom” não está analiticamente ligada a nenhuma
propriedade natural. E Mackie13 admite explicitamente isto ao apresentar as dificuldades
metafísicas nas quais incorre esta forma de cognitivismo.
É exatamente à negação de (C*) que se referia (P): a instanciação de propriedades avaliativas não é analiticamente implicada pela instanciação de propriedades descritivas. É possível, para toda propriedade natural e para toda propriedade moral que exista um objeto que instancia a propriedade natural e não instancia a propriedade moral. Talvez o cognitivista
13Ver MACKIE, J.L. "The Subjectivity of Values". In: MACKIE, J.L. Ethics: Inventing Right and Wrong. 1.ed.
London: Penguin, 1977, p.47: “Qual é a conexão entre o fato natural de que uma ação é um exemplo de crueldade deliberada – digamos, causar dor por diversão – e o fato moral de que é errada? Não pode ser implicação, uma necessidade lógica ou semântica” (nossa tradução)
poderia mostrar que (P) é falso se lido como afirmando uma possibilidade metafísica, mas se (P) é lido como afirmando uma possibilidade analítica, então o cognitivista está comprometido com (P). Chamaremos (P) de tese da ausência de implicação e ela pode ser formalizada assim:
(P) ◊(G em N) (F em M) (x)(Gx ¬ Fx)
Embora não seja compatível com (C*), (P), lido como possibilidade analítica, é compatível com (C). Suponha então, de acordo com a análise do cognitivista, que um objeto x instancia a propriedade F que é a mesma propriedade designada por “bom”. Segundo (P), isto não é analiticamente implicado pelo fato de x possuir as propriedades naturais, designadas por “G”, que ele possui. Isto é, é logicamente possível que x fosse tal como é quanto a suas propriedades descritivas mas que sua bondade não existisse. Em outras palavras, alguém que admitisse que x é G poderia negar que é bom e nem por isso trairia incompetência no uso de termos morais – a única acusação cabível seria de ignorância do fato empírico de que x instancia a propriedade de ser bom. Mas de acordo com (C), qualquer outro objeto que instancie G deverá ser também bom – e todos que negam isso ao mesmo tempo em que admitem que x instancia G traem incompetência no uso de termos morais. Mas se “bom” é o nome de uma propriedade e ela não tem nenhuma ligação analítica com G, porque, após admitir que num caso bondade e G aconteceram juntas, elas necessariamente devem, como questão de fato conceitual, acontecer juntas sempre? Se é uma possibilidade lógica que G ocorre na ausência de bondade, porque não é uma possibilidade lógica que esta propriedade que é a bondade às vezes acompanhe e às vezes não acompanhe G?
O problema pode ser tornado mais claro desta forma: (C) e (P) são verdadeiras em razão dos nossos conceitos de propriedades morais. (C) mais a premissa de que x instancia uma propriedade moral F implica que há uma propriedade descritiva G que x instancia e que é sempre acompanhada de F. Mas isso é compatível com (P), segundo a qual, há mundos possíveis onde G não implica F. Então são possíveis mundos onde todo G é F e mundos onde nenhum G é F. Mas mundos onde algumas coisas que são G são F e outras coisas G não são F são excluídos – eles não são uma possibilidade lógica e admitir sua possibilidade trai falta de domínio dos termos relevantes.
A exclusão destes mundos mistos é um traço dos nossos conceitos avaliativos. Na medida em que é implicado por trivialidades podemos dizer que é também uma trivialidade sobre nossos conceitos morais. Mas como o cognitivista dá conta desta trivialidade? Se a
nossa noção de bom é a noção de uma propriedade, e uma propriedade tal que não tem ligação analítica com nenhuma propriedade natural, porque um mundo no qual um objeto que é G instancia a propriedade bom e outro objeto igual não a instancia não é um mundo possível? Bem, parece que este seria um mundo possível. Se o cognitivismo não-redutivo de primeira ordem fosse uma boa análise ela deveria excluir estes mundos mistos na medida em que isto é um aspecto importante de nossos conceitos avaliativos – mas ele não o faz. O fato é que a tese de que “bom” é o nome de uma propriedade combinado a (P) impede o cognitivista de dar conta de (C) como uma verdade conceitual.
Uma análise cognitivista redutiva, segundo a qual “bom” é o nome de uma propriedade natural qualquer, por exemplo, dá conta facilmente deste aspecto conceitual. Dado que “bom” é, segundo esta análise, o nome de uma propriedade natural G a ser determinada, algo é bom se e somente se é G. Um mundo onde algumas coisas G são boas e outras não, não é uma possibilidade lógica simplesmente porque dizer que algo é G é o mesmo que dizer que é bom.
Extraímos de aspectos conceituais reconhecidos pelo cognitivismo não-redutivo de primeira ordem um traço conceitual do qual ele não dá conta. Temos então a objeção conceitual que procurávamos.
Quão bom é o argumento? Mostramos que há um traço conceitual (banimento de mundos mistos) que é consequência de verdades conceituais reconhecidas pelo cognitivista (covariação e ausência de implicação) e que não pode ser explicada se tratamos o juízo moral como a atribuição de uma propriedade de primeira ordem irredutível. Se tratamos a nossa noção de bom como a noção de uma propriedade objetiva irredutível a qualquer propriedade natural parece não haver a restrição conceitual aos mundos mistos que nossos conceitos morais impõem. A princípio, é logicamente possível que a propriedade de ser bom ora ocorra juntamente a uma propriedade qualquer, digamos, a propriedade de ser vermelho, ora não ocorra. Dado que “bom” é o nome de uma propriedade que não está ligada em nível conceitual a nenhuma outra propriedade, conforme (P), ela poderia às vezes acompanhar e às vezes não acompanhar uma mesma propriedade num mesmo mundo.
Mostrar que o cognitivismo não-redutivo de primeira ordem dá conta de (C) lido como uma necessidade metafísica não resolve o problema. O cognitivista poderia argumentar que esta coisa a que chamamos de “bom” é tal que no nosso mundo sempre acompanha a propriedade natural G e que podemos saber a posterori que o mesmo se dá em qualquer mundo possível. Seja lá como esta descoberta seria possível, o não-naturalista concordaria que ela não seria possível mediante uma investigação conceitual. Mas nossos conceitos
morais banem mundos mistos no nível conceitual, admitir tais mundos é sinal de incompetência no uso de termos morais – não no nível metafísico, caso no qual negar tais mundos mistos daria lugar apenas a acusações de ignorância de certos fatos importantes. Se queremos afirmar que nossos conceitos morais são conceitos de propriedades irredutíveis não-funcionais devemos mostrar como a noção de uma tal propriedade exclui conceitualmente a possibilidade de mundos mistos – e uma vez admitido (P), esta parece uma tarefa impossível. Se a bondade não está logicamente conectada com nenhuma propriedade ela pode, pelo menos no que diz respeito a restrições conceituais, como que vagar livremente, ligando-se a seu bel prazer a qualquer propriedade natural por tanto tempo quanto for conveniente.
Mas o cognitivista não-naturalista não pode resistir simplesmente afirmando que a noção de uma propriedade irredutível não-funcional é tal que todo aquele que a compreende reconhece que a propriedade em questão co-varia com propriedades naturais? Não era este talvez o interesse em insistir em chama-la de propriedade não-natural, de maneira a enfatizar uma certa relação peculiar com propriedades naturais? Isto é, ele não pode argumentar que é parte do conceito de uma propriedade não-natural que ela respeita (C) e que, portanto, mundos mistos não são de fato uma possibilidade analítica de acordo com a análise não-naturalista?
Isso tornaria a covariação um fato lógico opaco e não-explicado a respeito de nossos conceitos morais. Mas se isso é problemático, o cognitivista cético, como Mackie, poderia argumentar que não passa de mais um erro incorporado a nosso pensamento moral, e que tudo o que ele fez foi identificar este erro. Porém, creio que a tese de que este é um traço conceitual da noção de uma propriedade natural não pode ser sustentada pelo não-redutivista de primeira ordem.
Como ele poderia articular este traço conceitual? Um modo é dizer que a propriedade designada por “bom” é tal que é analiticamente necessária que ela esteja ligada a certas propriedades. Mas isso é negado por (P). Talvez ele possa dizer que é analiticamente necessário que propriedades não-naturais, como a bondade, estejam ligadas a alguma propriedade natural indeterminada. Isto é, que em mundos nos quais a propriedade é instanciada ela é tal que sempre acompanha uma propriedade qualquer. Seria então um aspecto conceitual da noção de uma propriedade desse tipo que ela adere regularmente a uma propriedade aleatória em cada mundo possível onde existe. Ela seria, por assim dizer, uma propriedade pegajosa: se num mundo possível qualquer ela se liga numa ocasião a uma propriedade natural aleatória, ela permanece sempre ligada a esta mesma propriedade.
conceitos de propriedades intrinsecamente motivadoras, não podemos tolerar a ideia de que nossos conceitos morais são conceitos de propriedades não-naturais pegajosas. Este não é apenas um traço conceitual opaco e sem explicação, é um traço conceitual bizarro e totalmente inesperado. É absolutamente implausível sugerir que nossa noção de bom seja a noção de uma propriedade deste tipo.
Então o argumento é bem-sucedido: o cognitivismo não-redutivo de primeira ordem falha em acomodar trivialidades a respeito da covariação de propriedades morais e propriedades naturais e, portanto, falha em dar conta de nossas noções morais. Não há razão, então, para supor, como Mackie, que nossa prática moral incorpore erro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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