Resumo
O presente artigo analisa o uso de construções apositivas não-restritivas como um mecanismo por meio do qual um referente discursivo sofre recategorizações de modo a ajustar a expressão a vários propósitos comunicativos.
Palavras-chave: aposição; referenciação; recategorização.
Abstract
This paper analyses the use of non-restrictive appositive constructions as a mechanism by means of which a discursive referent suffers recategorizations in order to adjust the expression to several communicative purposes.
Key words: apposition; referentiation; recategorization.
1 INTRODUÇÃO
Com o intuito de definir limites conceituais para a aposição, muitos lingüistas e gramáticos, ao investigarem os aspectos semânticos desse tipo de construção, apontam a existência de uma relação de correferência entre dois ou mais termos como critério para a identificação de uma estrutura apositiva. Principalmente porque a maioria dos estudos so-bre a aposição se limita ao nível da oração, no que concerne ao modo como os aspectos nocionais são investigados, a concepção de correferência assenta-se nos pressupostos de uma semântica extensional, que se caracteriza por assumir a existência de uma correspondência direta entre as palavras e as coisas.
Com essa perspectiva, os trabalhos sobre aposição costumam, em geral, avaliar a existência de correferência entre as expressões lingüísticas de construções ditas
REFERENCIAÇÃO TEXTUAL E O
EMPREGO DE CONSTRUÇÕES APOSITIVAS
apositivas, no sentido de verificar, em primeiro lugar, se elas têm valor referencial e se apresentam exatamente o mesmo poder designativo, isto é, se são extensionalmente idênticas.
No presente artigo, propõe-se que os estudos sobre aposição se desenvolvam dentro de uma nova perspectiva, passando tal processo a ser caracterizado como um meca-nismo textual-discursivo que cumpre relevante papel na pro-gressão referencial, isto é, nas estratégias de referenciação no discurso.
2 APOSIÇÃO E CORREFERÊNCIA
Nos estudos sobre progressão referencial, o concei-to de referente evolutivo vem recebendo críticas,
principal-mente de estudiosos como Apothéloz e Reichler-Béguelin (1995). A discussão em torno desse conceito é suscitada pela análise de ocorrências em que a correferência não cons-titui condição para a continuidade referencial no discurso, nem a co-significação é necessária para que a correferência seja mantida. Essas ocorrências representam encadeamen-tos considerados improváveis ou inaceitáveis, mas que são freqüentemente produzidos com uma função pragmática precisa. Na comunicação verbal corrente, os interlocutores não costumam dar atenção a esses comportamentos, cuja elucidação teórica só é possível dentro de uma concepção não-realista, mas processual e estratégica da referência. Dessa forma, explica-se por que, mesmo quando não há explicitação lexical de um antecedente para um item refe-rencial, este item pode ser cognitiva e sócio-culturalmente compreendido.
No caso de construções apositivas, pode ocorrer que o verdadeiro escopo de uma expressão apositiva não esteja expresso, mas deva ser inferido com base em um contexto antecedente que lhe serve de base, tal como se observa no exemplo a seguir:
Márcia Teixeira Nogueira *
[01] Em regiões estacionalmente secas, nas quais a água abunda no período de crescimento, temos dois tipos gerais de vegetação heliomórfica de acordo com a capacidade armazenadora do substrato. Quando este é raso (campos brasi-leiros, veld africano, caatinga em parte) e sujeito a freqüentes
períodos secos entre as descargas pluviais, por via da dessecação sob forte insolação, a vegetação é reduzida no tamanho e na folhagem. Quando o solo é profundo (savanas arborizadas, cerrado) e armazena grandes quotas de água, não podendo
ha-ver deficiência hídrica acentuada, a vegetação é alta e a folha-gem grande. (TF-LT)2
Em [01], as expressões entre parênteses exemplificam o tipo de vegetação caracterizado em cada período. Essa exemplificação tem, respectivamente, como escopo, o que pode ser inferido como vegetações heliomórficas de solo raso e vegetações heliomórficas de solo profundo. Embora
não se encontrem lingüisticamente explicitados, esses esco-pos podem ser construídos cognitivamente, operando uma subcategorização motivada pela expressão dois tipos gerais de vegetação heliomórfica:
A esse respeito, vale chamar a atenção para a expli-cação que o gramático Maximino Maciel (1916: 258) for-nece para alguns casos em que o termo fundamental da cons-trução apositiva não está expresso. No exemplo a seguir, Maximino Maciel afirma ser um pronome pessoal elíptico o termo fundamental a que se refere a expressão em destaque:
[02] Panfletista mordaz, publicou (ele) o libelo do
povo sob o pseudônimo de Timandro.
Há casos, inclusive, que, segundo Maximino Maciel, se assemelham a anacolutos ou frases quebradas, por não terem o termo fundamental expresso, como o exemplo a seguir, por ele citado:
[03].“Cumpridor escrupuloso de deveres, assíduo às
aulas, interno de clínica, amador de laboratórios, seu
cabedal científico era maior do que o de grande número de seus colegas...” (Fábio Luz)
Ora, apontar o pronome ele, um elemento que já está
operando uma referenciação anafórica, como termo funda-mental da expressão panfletista mordaz é tentar buscar, nos
limites da frase, um objeto de discurso cuja construção, pro-vavelmente, já deve ter sido iniciada em passagens anterio-res à da construção apositiva, já estando, portanto, panterio-resente na memória discursiva do leitor.
Outra ocorrência em que o termo fundamental da aposição não se encontra expresso, mas é discursivamente construído, vê-se na frase [04]:
[04] A bibliografia näo é exaustiva, o que seria pra-ticamente impossível tal a quantidade de livros de imagens que têm sido editados nos últimos anos. (FOT-LT)
Na ocorrência [04], o pronome demonstrativo o,
se-guido de uma oração relativa, caracteriza, tipicamente, uma construção denominada, em nossas gramáticas, como apos-to de oração. Por meio dela, faz-se um comentário sobre
algo dito em um segmento anterior do discurso.Percebe-se que o comentário que se faz (o que seria impossível...)não
tem como escopo a oração negativa inicial (A bibliografia não é exaustiva), mas o seguinte conteúdo, a bibliografia ser exaustiva, construído cognitivamente.
Nessa perspectiva de estudo da progressão refe-rencial,3 como sugere Mondada e Dubois (1995: 276), o ter-mo referência, associado a uma concepção “coisista”, que
pressupõe uma segmentação a priori do discurso em nomes e do mundo em entidades objetivas, deve ser substituído por referenciação, que designa a “construção de objetos
cognitivos e discursivos na intersubjetividade das negocia-ções, das modificanegocia-ções, das ratificações de concepções in-dividuais e públicas do mundo”.
Além disso, como ressaltam Apothéloz e Reichler-Béguelin (1995: 227-229), cumpre conceber os referentes como objetos do discurso, “modalizáveis sob a forma de
um conjunto – por definição evolutivo – de informações inclusas no saber compartilhado pelos interlocutores”. Os objetos de discurso não devem ser concebidos como pré-existentes “naturalmente” à atividade cognitiva e interativa dos sujeitos falantes, mas como os produtos – fundamental-mente culturais – dessa atividade. Cabe aos lingüistas in-Dois tipos gerais de
vegetação heliomórfica:
vegetações heliomórficas de solo raso: campos brasileiros, veld africa-no, caatinga em parte
vegetações heliomórficas de solo profundo: savanas arborizadas, cerrado
2 As ocorrências aqui apresentadas foram extraídas, respectivamente, de amostras de literatura técnica, literatura dramática e de oratória, do
Banco de Dados de Língua Escrita Contemporânea no Brasil, armazenado no Centro de Estudos Lexicográficos da Faculdade de Ciências e Letras, UNESP/Araraquara.
3 Tal perspectiva, fundada nos trabalhos de Apothéloz e Reichler-Béguelin (1995) e Mondada e Dubois (1995), vem sendo seguida por Koch e
vestigar não as transformações que incidem sobre o estatuto ontológico dos objetos do mundo extralingüístico, mas “aque-las que afetam a bagagem de conhecimento de que dispõem, a cada momento do discurso, os interlocutores a propósito de um referente dado, bagagem de conhecimento que constitui, propriamente falando, a identidade do objeto de discurso” (Apothéloz e Reichler-Béguelin, 1995: 239-240).
Apothéloz e Reichler-Béguelin (1995: 241) desta-cam que as designações atribuídas aos objetos de discurso dependem muito mais de fatores sócio-culturais e pragmáti-cos do que de fatores referenciais, no sentido extensional e “coisista” do termo. Nessa perspectiva, o léxico não consti-tui um estoque de etiquetas, mas representa, para os falan-tes, um conjunto de recursos para as operações de designa-ção. Mais do que um domínio de restrições em que o em-prego se submete unicamente ao princípio de adequação referencial, o léxico passa a ser visto como um conjunto de dispositivos extremamente maleável, continuamente traba-lhado no e para o discurso.
Com o abandono de uma perspectiva realista de lin-guagem como representação de pessoas e coisas, em favor de uma concepção construtivista da referência lingüística, a aposição pode ser vista como importante expediente por meio do qual um mesmo objeto pode ser apresentado se-gundo diferentes pontos de vista. Desse modo, com o expe-diente da aposição, é enriquecida a bagagem de conheci-mentos que constrói, na memória discursiva do interlocutor, a identidade de um objeto de discurso.
A relação de correferência, característica apontada por muitos estudiosos como inerente à construção apositiva, está relacionada com essa propriedade textual-discursiva da aposição. Segundo Rodriguez (1989), os sintagmas em aposição são correferenciais porque a própria construção os equipara. Os elementos devem-se referir a uma mesma entidade, não que signifiquem o mesmo.
El peculiar es que esos sintagmas son correferenciales porque la construcción los equipara, los hace cor-referente (...) Luego la aposición, en sentido general, es una construcción nominal que hace que dos sintagmas nominales (de lengua o de discurso), u otros dos segmentos funcionamente equivalentes (...) sean correferentes. (Rodriguez: 1989, 220)
Também para Martinez, a aposição estabelece a correferência entre os termos:
...la correferência expresada por la aposición es un
valor de contenido realizable, al margem de que le corresponda o no una realidad constatada: tan aposición es Vitigudino, la capital de España (El sa-télite de la tierra, Vitigudino) como Valladolid, capi-tal de España o La capicapi-tal de España, Madrid, aunque sólo ésta se correponda con una realidad actual. Martinez (1985: 455)
Como nem sempre há, nas diferentes construções apositivas, correferência estrita entre as unidades, é preferí-vel, em vez de correferência, que se fale em referenciação a um mesmo objeto de discurso. A natureza centrípeta da
aposição, isto é, seu caráter de relação de elaboração, de retomada de um elemento já introduzido, para fornecer-lhe uma caracterização, para especificá-lo mais detalhadamente ou reformulá-lo de algum modo, assenta-se sobre o que, nos termos de Apothéloz e Reichler-Béguelin (1995: 266), con-sistiria em um efeito de correferência, de estabilidade referencial.
Esse efeito de correferência existe mesmo em cons-truções apositivas cujos elementos não são co-significantes. Dessa forma, a aposição mostra-se como um expediente que está a serviço da tarefa de recategorizar um referente do discurso, por vezes afastando-o de sua denominação padrão, para ajustar a expressão a vários objetivos comunicativos. Um exemplo desse fato pode ser visto na frase a seguir, re-tirada de um texto de literatura técnica:
[05] A transferência do laboratório para a Nature-za (ou passagem da Fisiologia para a Ecologia) pode
tro-peçar em barreiras impostas pela ação modificadora (ou prevalente) de fatores outros, interferentes. (TF-LT).
Nos pares de expressões laboratório e Fisiologia,
de um lado,e Natureza e Ecologia, de outro, não há relação
de sinonímia, isto é, do ponto de vista léxico-semântico, elas não têm o mesmo significado. Apesar disso, a construção apositiva explicita, por meio de um mecanismo típico de reformulação, uma relação de equivalência.
3 REFERENCIAÇÕES NA ESTRUTURA APOSITIVA NÃO-RESTRITIVA
Assume-se, no presente artigo, que a aposição consti-tui um dos mecanismos que participam do processo geral de referenciação, ou seja, nos termos de Marslen-Wilson & Tyler (1982), que contribuem para o estabelecimento e a manutenção dos referentes em uma contínua representação mental que o interlocutor faz do discurso corrente.
Todavia, considerando-se, mais especificamente, a estrutura apositiva, percebe-se que as unidades que a com-põem podem funcionar catafórica ou anaforicamente. Em uma construção apositiva em que há referenciação catafórica, emprega-se, como primeiro elemento, tipicamente um sintagma nominal indefinido, às vezes, uma proforma, e, como segundo elemento, um sintagma nominal mais espe-cífico que identifica o que é referido no primeiro, tal como na ocorrência [06]:
inexoráveis, e, principalmente, começando a conhecer-se, a sua inaptidão para a disciplina e o impessoalismo da vida
das armas. (TA-LO)
O que aqui se denomina de referenciação catafórica
assemelha-se a um tipo particular de recategorização lexical explícita, isto é, de um tipo de anáfora descrita por Apothéloz e Reichler-Béguelin (1995: 248), em que o objeto de dis-curso designado por uma expressão referencial não foi ain-da categorizado, a não ser de forma vaga. Essa expressão, então, especificaria tal objeto, batizando-o lexicamente.
Esse tipo de referenciação catafórica se caracteriza por envolver as duas unidades apositivas em um mecanismo pe-culiar de apresentação de uma informação. Em vez de uma sinalização textual para trás, trata-se de uma opção por uma determinada forma de organizar a informação, em que se pre-para o ouvinte/leitor pre-para a identificação de um elemento ini-cial mais genérico, empregado cataforicamente. Segundo Senna (1986: 208-209), esse recurso é semelhante ao de uma topicalização, em que a primeira unidade da estrutura apositiva dá início a um ambiente de expectativa e direciona a tensão para o conteúdo da unidade que a sucede.
Nas construções apositivas com referenciação cata-fórica, é bastante comum o emprego de uma expressão no-minal que antecipa e resume o conteúdo de uma oração, de um período completo ou, até mesmo, de todo um parágrafo. Essas construções são similares às estratégias de rotulação antecipada descritas por Francis (1994).
Segundo Francis (1994: 84), as funções de antecipar e organizar das expressões nominais que têm o papel de ró-tulo podem ser vistas em termos das metafunções de Halliday (1985). Elas têm um significado ideacional, pois participam do processo de acumulação de informações no discurso; têm um significado interpessoal, pois a escolha lexical pode ex-pressar uma avaliação do autor; e apresentam uma função textual, pois, sendo parte do rema da oração a que perten-cem e foco de informação nova, elas têm caráter prospectivo, ou seja, estão potencialmente destinadas a permanecer no desenvolvimento do argumento.
A estratégia de rotulação pode-se dar mediante o emprego de nomes genéricos, tais como coisa, fato, aspec-to, etc.Halliday e Hasan (1976: 274-275) afirmam que a
função coesiva do emprego de nomes genéricos está na fron-teira entre coesão lexical e coesão gramatical. Do ponto de vista lexical, o uso desses nomes é coesivo por eles serem membros superordenados de conjuntos lexicais maiores, e, como tais, funcionarem em um tipo de coesão lexical por sinonímia. O caráter de coesão gramatical do emprego de nomes genéricos surge da combinação destes com determinantes específicos, tais como o artigo definido e os pronomes demonstrativos, que fazem que o conjunto opere como um item de referência.
Todavia, no caso do emprego de nomes genéricos na aposição, cabe lembrar que eles são muito utilizados em
referenciações catafóricas, nas quais, por estarem criando um foco de referência, encontram-se freqüentemente com-binados com artigos indefinidos:
[07] Só uma coisa: o almoço está de pé? (RE-LD)
Com expressões de caráter metalingüístico ou metadiscursivo, resume-se e categoriza-se um segmento do discurso como sendo de um tipo particular de linguagem. Esse tipo de rotulação pode ocorrer pelo uso de nomes ilocucionários, ou seja, nomes relativos a atos de fala, tais como em [08] e [09]:
[08] Mas o que ele fez foi cumprir sua ordem: trouxe
o novilho e mandou matar! (PEL-LD)
[09] Lembra-te dosconselhos do médico: näo ter
preocupaçöes nem aborrecimentos de espécie alguma.
(VP-LD)
Por vezes, empregam-se nomes que referem algum tipo de atividade de linguagem ou o resultado disso, como em [10]:
[10] Surgiu então uma discussão que perdura até hoje, mais inócua que a determinação do sexo dos anjos: a fotografia é arte? (FOT-LT)
Observa-se também o emprego de nomes relaciona-dos a estarelaciona-dos e processos cognitivos ou deles resultantes. Tais nomes originam-se a partir de nominalizações de ver-bos de processos mentais, usados, em geral, para projetar idéias, embora nem sempre haja verbos cognatos corres-pondentes, como em [11]:
[11] Foi este o primeiro passo para a melhor consoli-dação de uma hipótese já existente sobre a origem do siste-ma solar: usiste-ma grande nuvem de poeira cósmica girando e se condensando, com as partes mais densas lentamente acumulando-se no centro, acabando por formar um proto-sol, enquanto outros aglomerados menores foram forman-do seixos rochas, protoplanetas. (DST-LT)
Nomes de caráter metalingüístico propriamente dito, ou seja, que dizem respeito à estrutura formal do discurso, são também freqüentemente utilizados como rótulos:
[12] Agora, atenção à última frase: “Permaneciam de pé, à distância, contemplando essas coisas, todos os seus amigos, assim como as mulheres que O haviam
acompa-nhado desde a Galiléia”. (NE-LO)
anafórica em relação à primeira. Como o referente já foi devidamente introduzido na representação mental que o ouvinte/leitor faz do discurso, sendo, em geral, a primeira unidade da construção apositiva uma expressão definida, o falante/autor pode utilizar, na segunda unidade, um conjun-to não limitado de expressões referenciais. Tal emprego consiste, geralmente, em reapresentar, de uma perspectiva diferente, mediante uma redenominação ou uma predicação de atributos, um referente discursivo. Por vezes, a função desse tipo de estratégia é evocar algum tipo de conhecimen-to supostamente compartilhado para levar o interlocuconhecimen-tor à identificação desse referente discursivo:
[13] O quarto e último fala da diplomacia brasileira, cujo patrono é José Maria da Silva Paranhos Júnior, o ba-rão do Rio Branco, teve uma longa e profícua atuação
di-plomática (...) (DIP-LT)
[14] A câmara - a futura máquina fotográfica - já
existia e há muito vinha sendo aperfeiçoada. (FOT-LT)
A referenciação anafórica que se observa em cons-truções apositivas não-restritivas relaciona-se com estraté-gias de reformulação textual. Muito freqüentemente, em-prega-se, numa aposição não-restritiva, uma segunda uni-dade que reformula o conteúdo ou a expressão lingüística da primeira, de modo a garantir que o ouvinte/leitor com-preenda satisfatoriamente o que foi formulado.
Em algumas construções apositivas não-restritivas, pode ocorrer um tipo de referenciação anafórica por meio da qual se dá uma fragmentação do referente do discurso apresentado na primeira unidade (cf. Apothéloz e Reichler-Béguelin, 1995: 258). Isso ocorre em paráfrases que se pres-tam, na aposição, às funções de exemplificação, tal como
em [15], e de particularização, como em [16]:
[15] Dependendo das perguntas a serem colocadas para o material, pode-se utilizar classificações segundo di-versos critérios, como funcionalidade, decoração, compo-sição física etc. (ARQ-LT)
[16] A ameaça não se concretizou por este lado, mas sim pelo aumento do uso de certos gases, como o freon e
outros,principalmente os utilizados em aerossóis. (DST-LT)
Em uma operação inversa, a segunda unidade da aposição, por meio de uma reformulação parafrásica de ge-neralização, pode reunir, sob uma só expressão referencial,
objetos aparentemente não referidos na primeira (Apothéloz e Reichler-Béguelin: 1995, 261):
[17] Primeiramente: säo os Judeus, todos eles sem distinçäo, réus da crucifixäo de Jesus? (NE-O)
A aposição não-restritiva reformulativa também cos-tuma manifestar-se como uma correção. De um modo
ge-ral, na correção, a segunda unidade faz um ajuste da refe-rência ou do significado estabelecido na primeira unidade da construção apositiva.
[18] Lucas distingue nitidamente três agrupamentos. Um, o dos soldados, conduzidos pelo centurião, imediata-mente em torno da Cruz. Outro, o do povo, ou melhor, de uma parte do povo, a princípio indiferente, mas que
termi-nou por voltar batendo no peito. O terceiro, à distância, o grupo dos conhecidos, dos quais uns eram homens, outros mulheres. (NE-LO)
Na estratégia de correção, o locutor enumera alter-nativas lexicais possíveis na busca por uma melhor adequa-ção daquilo que tenta dizer. Cumpre salientar que, na busca por uma precisão progressiva, as opções lexicais não se ex-cluem, não são apagadas pela última escolha. Segundo Mon-dada e Dubois (1995), a referenciação adequada pode ser vista como um processo de construção de um percurso que ligue diferentes denominações aproximativas.
Conforme lembra Barros (1993), a correção parcial confunde-se com a paráfrase. Geralmente, as unidades vêm ligadas por expressões do tipo ou, ou melhor, quer dizer,
que introduzem ressalvas com o objetivo de garantir preci-são às informações textuais:
[19] Naturalmente quando Rodrigo estatui que o Jar-dim das Confidências e Os Poemetos de Ternura e de Me-lancolia “säo os melhores documentos da época”, o meu teorismo, ou melhor, os meus preconceitos relativos à distinçäo entre prosa e poesia, voltavam-me, queriam im-por-se de novo. (HP-LD)
A correção é mais comum em textos orais, em uma linguagem espontânea, quando formulação e planejamento lingüísticos ocorrem praticamente de forma simultânea. Todavia, em alguns textos escritos, a expressão lingüística tipicamente utilizada na função de correção pode assumir um caráter retórico, tal como se observa em [20], em que não se tem, de fato, uma correção intencional:
[20] Mas quando o padre Rossi irrompe no palco, quer dizer, no altar, sob aplausos e assobios da platéia, não
é difícil perceber que se está diante de um evento diferente. (Veja, ano 31, n. 44, p. 115).
ava-liação que determina uma orientação argumentativa para o
leitor, tal como se vê em [21]:
[21] Näo, toda essa discussäo estéril e escolástica sobre a sensibilidade ou a sua ausência na arte moderna o que reflete é coisa bem mais profunda: a crise da civilizaçäo verbal. (MH-LT).
As rotulações em referenciações catafóricas podem sinalizar uma avaliação que o autor faz das proposições “encapsuladas”. De acordo com o contexto em que é usado, todo o sintagma nominal envolvido pode indicar uma atitu-de em relação a essas proposições:
[22] Sobre a apresentaçäo do mal moral, Pio XII, na Alocuçäo de 28 de outubro de 1955, aos representantes do “mundo cinematográfico”, tem as seguintes judiciosas consideraçöes: “Uma coisa é conhecer os males, procu-rando dar-lhes explicaçäo e remédio na filosofia e na Religiäo; outra é fazer deles objeto de espetáculo e diversäo. Ora, acontece que dar forma artística ao mal, descrever-lhe a eficácia e desenvolvimento, os caminhos claros ou tortuosos com os conflitos que gera ou através dos quais caminha, tem para muitos uma atraçäo quase irresistível”.
(MA-LO)
Quando a segunda unidade da construção apositiva faz uma referenciação anafórica em relação à primeira, é ainda maior a liberdade para a escolha de expressões lexicais inovadoras e para as estratégias persuasivas, uma vez que o objeto, em geral, já está identificado e denominado no mo-delo de mundo construído pelo discurso. Essa unidade anafórica pode servir não somente para apontar um objeto discursivo, mas para modificá-lo, por meio dessas recategorizações lexicais. Assim, uma expressão referencial ajusta o conhecimento disponível a propósito do objeto de discurso, enxertando sobre ele algumas informações cuja razão de ser não é referencial. Ocorre, dessa forma, uma dupla operação, que consiste, segundo Apothéloz e Reichler-Béguelin (1995: 247), na referência propriamente dita e no aporte de uma informação nova sobre o objeto de discurso, o que pode eventualmente desencadear uma reinterpretação. Há alguns exemplos em que a segunda unidade tem, claramente, um objetivo argumentativo, pois revela opini-ões, crenças e atitudes de quem constrói o texto, a respeito do referente do discurso, tal como se observa em [23]. Essa designação pode apresentar-se sob a forma de uma metá-fora, como em [24]:
[23] O candomblé da Bahia, sem dúvida o de maior esplendor de todo o Brasil, que ainda agora serve de
espe-lho a todos os outros cultos, tem uma designação com que não concordam os seus adeptos, embora não tenham uma palavra melhor para substituí-la. (CAN-LT).
[24] (...) a música é uma ciência tanto quanto uma arte: quem poderá fundir estas duas entidades no mesmo cadinho, senão a imaginação, esta “rainha das
faculda-des”? (REF-LT)
Uma outra forma de manifestação da função argu-mentativo-atitudinal no emprego de uma expressão apositiva encontra-se no tipo de construção conhecido em nossas gra-máticas como aposto de oração. Em geral, a segunda
uni-dade dessas construções são comentários introduzidos por um demonstrativo seguido de uma oração relativa, tal como em [25]:
[25] Já avultava o modernismo, na obra de grandes poetas inovadores, o que näo constituía, porém, no sentido global, uma inflexäo de rumos, com o abandono do
passa-do, mas indícios de idade nova, de uma corrente
influenciadora do processo da nossa evoluçäo literária, de
colorido autenticamente verde-amarelo. (TA-LO)
Esse emprego assemelha-se ao que Francis (1994: 84) descreve como rotulação retrospectiva, em que um ró-tulo serve para “encapsular” ou “empacotar” um segmento discursivo já realizado.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em linhas gerais, o presente artigo pretendeu mos-trar como a aposição, uma categoria cujo estatuto é objeto de controvérsias no âmbito da sintaxe, pode ser vista como um mecanismo que exerce importantes funções de ordem textual-discursiva, mais particularmente no que concerne aos processos de referenciação. Propõe-se que, numa perspec-tiva processual e estratégica da noção de referência, a aposição seja vista como recurso por meio do qual o falan-te/autor opera recategorizações do referente discursivo, modulando a expressão referencial em função de objetivos, em geral, relacionados à precisão informacional, à argumentatividade e aos efeitos estético-conotativos.
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