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A vingança dos Romanov

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Academic year: 2022

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A vingança dos Romanov

Rubi A. Elhalyn

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Sumário

Introdução ... 3

Prólogo ... 4

Festa da vitória ... 5

Demônios disfarçados ... 7

Quem merece morrer? ... 10

Valsa dos gritos ... 14

Um olhar gelado ... 19

Em sua mente ... 23

Questões ... 28

Onde está sua lealdade? ... 33

Pressentimento ácido ... 38

Castigo de vida ... 43

Caças e caçadores – Parte I ... 49

Caças e caçadores – Parte II ... 55

Anotações ... 57

Encontre a autora ... 59

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Introdução

Todos, ou pelo menos a grande maioria da população mundial, já ouviu falar no trágico fim da família Romanov, os governantes daquele país por 300 anos. Nem todos conhecem com riqueza de detalhes o fato, ou apenas conhecem versões mais 'leves' da história. Não importa. Mas e se a família pudesse se vingar pelo que lhe foi feito? E se todas as mortes tivessem consequências... sinistras?

Neste mundo cheio de mistérios e forças desconhecidas, nada é impossível.

Nenhuma força poderia parar uma vingança como esta. Nenhuma força seria maior que a força que se ergueu depois da fatídica noite de 17 de julho de 1918.

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Prólogo

Início do século XX. Um período conturbado repleto de caos e mudanças como costuma ser todo início de século, por alguma razão misteriosa. A Rússia vivia seu terceiro século sob o governo dos Romanov, a família mais rica do mundo, suas joias e palácios tão fantásticos que nenhuma família real jamais superaria tal riqueza. O czar Nicolau II governava sem muita força de vontade ou sabedoria. Não era um homem mau, de fato, mas não tinha pulso firme ou vontade própria, sendo facilmente manipulado por seus ministros em direção a atitudes erradas que levaram à sua abdicação em março de 1917. Nicolau se sentiu aliviado por tirar o peso do governo que nunca desejara exercer, mas também culpado por acabar com 300 anos de governo da sua família.

Nicolau ainda não sabia, mas essa não seria sua única culpa. Durante os meses seguintes à abdicação, o governo socialista assumira o comando e causou a morte de vários membros da família Romanov na Rússia. O irmão de Nicolau, Mikhail foi o primeiro a ser assassinado a sangue frio pelos inimigos, junto com um amigo britânico. Seus corpos nunca foram encontrados. Muitos outros membros da família foram assassinados junto com servos e amigos.

Por fim, Nicolau, sua esposa Alexandra, seus cinco filhos, o médico da família e mais uma serva foram levados para o porão do local onde eram mantidos como prisioneiros, conhecido como Casa Ypatiev, pouco depois da meia-noite, com a justificativa de protegê-los de um ataque e mostrar em uma foto que eles estavam bem e com vida. Nicolau ficou de frente para sua família, procurando acalmá-los com o olhar. Logo o oficial informou que o governo havia decidido executá-los, pegando Nicolau de surpresa que apenas conseguiu virar a cabeça e gritar

“O que? O que?” antes de ser atingido por um tiro e morrendo imediatamente. Sortudo. Sua família não teve a mesma sorte. As mulheres tinham diamantes e joias costuradas ocultas em suas roupas que as protegeram parcialmente dos tiros, a serva Anna foi protegida pelo travesseiro que carregava com joias ocultas. O caos se instaurou. Tiros e mais tiros foram disparados, a fumaça das armas se erguendo no quarto a tal ponto que foi preciso abrir as portas para não sufocar os atiradores. Ao perceber que os tiros não haviam matado a todos, os assassinos usaram baionetas e tiros mais próximos. Alexei, o caçula, agonizava quando levou dois tiros na cabeça à queima roupa; a serva, Anna, foi esfaqueada pelas costas até a morte; Maria e Anastásia se agacharam no chão segurando a cabeça em pânico quando foram esfaqueadas pela baioneta; as outras filhas, Olga e Tatiana,

mortalmente feridas e inconscientes, foram esfaqueadas; Alexandra, a czarina, já estava morta quando um golpe de baioneta foi desferido nela e em seu marido morto com tamanha força que quebrou suas costelas; o médico que os acompanhava também foi morto.

Seus corpos foram levados para a floresta para serem descartados queimados e posteriormente lançados em ácido sulfúrico. Maria, que estava viva, mas em pânico e ferida, acordou e começou a gritar, sendo morta em seguida. Temendo que fossem vistos por populares ou algum caçador na região, os assassinos jogaram os corpos num poço e cobriram com cal. O responsável por sumir com seus corpos, Voikov, estava bêbado para

comemorar o ato, e disse com felicidade que o mundo nunca iria saber o que foi feito com aquela família. Era o fim da família real russa. Ninguém nunca mais os veria. Pelo menos, era isso que se acreditava naquela época.

Ah se eles soubessem...

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Festa da vitória

Um ano se passara depois execução da família real russa. Os 10 homens responsáveis pelo tiroteio e descarte dos corpos tiveram a brilhante ideia de comemorar sua vitória sobre as forças monárquicas acampando e caçando nas florestas de Ecaterimburgo, onde os corpos da família real estavam enterrados em duas covas separadas e sem identificação ou qualquer rito. O líder do grupo, Yukov Yurovsky não se incomodara com a sugestão do local de comemoração feita por Voikov, o homem responsável por descartar os corpos naquela noite trágica. Para Yurovsky não fazia diferença onde seria comemorado, ele era um homem cético e prático, não ligava nem um pouco para crendices tolas. Ele mesmo atirara na cabeça do czar que olhava diretamente para ele e não sentira nenhum remorso com isso. Era só um inimigo a menos. Seu braço direito era o sanguinário sádico Ermakov que planejara junto com seus homens violentar as mulheres da família antes de matá-las e sempre reclamava por não ter conseguido isso por, no momento da raiva no tiroteio, ter inclusive quebrado as costelas do czar e da imperatriz mesmo depois de mortos. Nikulin era um dos atiradores e acreditava ter feito um benefício para a natureza exterminando a família. Kudrin era um religioso fanático que acreditava que a família real era possuída por demônios e praticamente se implorou para participar do pelotão de fuzilamento. Seu irmão Medvedev não tinha essa crença ferrenha, mas nunca discordava de seu irmão desde criança porque acreditava que ele era um homem sábio e poderoso. Vaganov, Kabanov, Tselms e Netrebin eram revolucionários, mas foram os mais difíceis de convencer a participar da festa naquele ano. Eles, como muitos russos, morriam de medo de fantasmas, mas acabaram indo para a festa com a ideia de tentar convencer Yurovsky de que eles mereciam postos mais altos e bonificações, fazer amizade mesmo com o poderoso homem.

Assim, na manhã de 16 de julho de 1919 Yurovsky, Ermakov, Voikov, Nikulin, Kudrin e seu irmão Medvedev, Vaganov, Kabanov, Tselms e Netrebin terminavam de montar seu acampamento numa clareira a poucos metros dos túmulos ocultos da família malfadada. Tselms levou crucifixos para todos com nomes de cada membro do grupo entalhado e implorou para que todos usassem como um presente que ele fizera. A maioria,

principalmente Ermakov riu dele o chamando de “dama assustada”, brincando com o apelido que ele dera à imperatriz desde o dia da morte dela, quando Tselms atirou nela antes que a mulher terminasse de fazer o sinal da cruz ao saber que ia morrer. Tselms ficou pálido como a neve ao seu redor, temendo que aquilo fosse

despertar a fúria das almas dos Romanov, mas nada aconteceu. Nem um vento súbito e gelado, nenhum calafrio, nenhum som assustador, nada. O dia, apesar de frio como era comum naquela época, estava bonito, com um céu azul e um vento frio, mas suave na pele. O dia parecia perfeito. Kabanov foi o primeiro a colocar o crucifixo no pescoço porque, no fundo, ele estava morrendo de medo dos fantasmas, mas disse apenas que usaria para que Tselms ficasse tranquilo. Yurovsky ordenou que todos usassem o crucifixo para acalmar Tselms. Não faria diferença mesmo se ele ia usar ou não porque espíritos não existiam, mas não fazia sentido deixar um colega desconfortável numa festa sem motivo.

Todos obedeceram a ordem do superior hierárquico sem contestar. Netrebin, o mais calado de todos, sempre usando o relógio de bolso que roubara do czar na noite de sua morte, foi o único que sentiu um frio na nuca naquele momento. Ao colocar seu crucifixo, ele podia jurar que ouvira o risinho travesso de Anastásia, a caçula dentre as meninas do czar, atrás dele, como se viesse de cima da árvore pouco atrás dele. Ele não teve coragem de se virar para olhar. Não tinha porque fazer isso. Afinal... Não ia ter nada lá. Ele repetiu isso pra si mesmo e se afastou mais ainda da árvore. Nunca se sabe ne.

Os homens preparavam suas armas para a caçada, mas estavam mais dispostos à beber naquele dia. Então pegaram seus mantimentos, fizeram uma fogueira, colocaram um punhado de carne que levaram e muita vodka e conhaques roubados da adega pessoal do czar em São Petesburgo. O dia todo Nikulin tocava em sua viola, às vezes revezando com Vaganov ou Yurovsky, e todos cantavam de braços dados, equilibrando garrafas de vodka nas mãos, cantando músicas que fariam até a maior prostituta francesa corar de vergonha. A caçada ficaria para o dia seguinte. Ou não. Em dado momento, já noite, um veado gordo saiu da floresta se encaminhando

calmamente para a clareira onde os homens estavam. Ele nem mesmo parecia incomodado com o barulho dos

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homens cantando e dançando bêbados. O animal parecia estar praticamente implorando para ser morto e virar churrasco. Os homens provocavam o animal gritando com ele e o xingando, mas sem se aproximar. O cervo continuava lá tranquilo como se os homens nem estivessem ali. Kabanov imaginando o quão suculento seria a carne daquele animal, pegou sua arma e mirou. Todos se calaram apenas observando com expectativa, torcendo mentalmente por Kabanov. Por qualquer razão inexplicável, Kabanov se lembrou do momento em que

esfaqueara a pequena Maria Romanov no crânio com tanta força que sua lâmina quebrou. A menina acordara pouco antes de ser enterrada, quando ele e Voikov achavam que todos estavam mortos. Ele se lembrou de ter jogado Maria e o irmão Alexei numa cova separada.

Sua memória vagou por essa cena em uma velocidade enlouquecedora enquanto seus olhos miravam no animal à sua frente. Seu pescoço coberto por grossas camadas de tecido se arrepiou como se ele estivesse nu naquele local frio. E então a arma disparou. Mas ele não puxara o gatilho. Foi o último pensamento coerente que teve antes de sentir a dor lancinante em sua cabeça. A bala saíra pela culatra e acertara sua cabeça, na lateral do olho, passando de raspão. Não era um ferimento que o mataria rápido, mas sangrava muito e o mataria em algumas horas. Seus companheiros o seguraram enquanto ele caía gritando de dor. Foi Tselms que levantou a cabeça primeiro e começou a se benzer sucessivamente com olhos tão arregalados que pareciam saltar das órbitas. O cervo encarava o grupo de frente para eles no mesmo lugar onde estivera sob a mira de Kabanov. Mas o olhar do animal era...estranho. Era quase como se ele admirasse a cena de dor do homem. Ele não se movia, não piscava e seus olhos pareciam... vermelhos.

- Afastem esse animal daqui! – Yurovsky gritou. Mas ninguém precisou fazer isso. O cervo se virou para a floresta ao lado, andou calmamente e sumiu na floresta. Todos olharam a cena incrédulos até que os gritos de Kabanov chamaram a atenção de todos.

- A mão dele. – Nerebin chamou a atenção. A mão direita de Kabanov, a mesma que ele usara pra esfaquear Maria, estava solta. Sim. Solta. Uma fratura exposta circundava o braço, no meio entre o pulso e o cotovelo, ficando presa apenas por um conjunto frágil de veias e nervos.

Como aquele ferimento surgira? Yurovsky empurrou essa questão para o fim de sua lista de prioridades e deu ordens para levar Kabanov para dentro da tenda do homem. Seria preciso amputar a mão e parte do braço e estancar o sangue antes que o homem morresse. Depois seria preciso buscar ajuda médica ou carregar o homem até o povoado mais próximo. Naquele clima e àquela distância, seria uma missão árdua. Muito, muito árdua.

Mas a noite estava apenas começando...

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Demônios disfarçados

- AAAAAAAAAAAAAAAAAH! – Kabanov gritava enquanto os colegas o seguravam no chão para Vaganov, mais hábil nessas coisas, cortar o braço pendurado do homem.

- Façam ele morder alguma coisa ou não vai aguentar a dor! – Yurovsky ordenou.

- AAAAAAAAAAAAAAAH! TIREM ELA DAQUI! SAI! – Kabanov gritava alucinando... Ou não. Ele via uma garota nitidamente à su frente, parada ao lado de Yurovsky que estava perto de sua cabeça, mas superior hierárquico parecia não vê-la. Ninguém parecia ver a menina. Uma bonita jovem de pijama branco semelhante a um vestido, típico do época, cabelos castanhos desgrenhados, sangue negro escorrendo de sua cabeça e formando uma poça fétida no chão. Um sorriso doce e, ao mesmo tempo, sinistro emoldurava o rosto da menina que olhava para ele como se achasse graça no sofrimento dele. Ele não precisava que ela lhe dissesse seu nome. Ele conhecia aquele rosto. Porra! Qualquer um na Rússia que tivesse um pouco de conhecimento saberia quem era aquela menina.

Maria, a terceira filha do czar Nicolau II, a menina que gritara antes de ser enterrada, a mesma que ele matara.

- De quem ele está falando? – Tselms perguntou com sucessivos tremores involuntários.

- Ele está alucinando de dor, estúpido! Não está vendo? – Ermakov bradou.

- ELA VAI MATAR TODOS NÓS! ELES VÃO MATAR TODOS! NÓS VAMOS MORRER! O DIABO! É O DIABO! – Kabanov gritava em pânico vendo o sorriso cada vez mais cruel e divertido da menina. Círculos vermelho escuro começaram a surgir na roupa da moça, logo se transformando em fluxos como sangue escorrendo de dentro para fora da roupa. - AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – O homem gritou com todas as forças, mas o som saiu apenas em sua mente. Ele não tinha voz. Sua boca nem mesmo se movia como ele queria, ficando aberta em formato de “o” com o último som que ele conseguiu dizer.

A menina olhou para a própria roupa sem nenhum interesse aparente, apenas como se visse uma formiga no chão. Seu olhar escuro como a noite sem lua se voltou para Kabanov que ainda tentava desesperadamente gritar, sem sucesso. Vaganov cortava seu braço e ele podia sentir cada centímetro de dor. Alguém colocou um graveto sujo em sua boca e forçou-a a se fechar um pouco firmando seus dentes do objeto. Maria, pálida, com lábios negros, sangue escuro brotando de sua cabeça e suas roupas, andou lentamente por trás dos homens que cercavam e seguravam Kabanov, em direção à seus pés, sempre olhando pra ele com um sorriso maldoso. Não diminuindo o ritmo em momento nenhum, ela deu a volta por todo seu corpo, atrás de seus colegas, até parar acima da cabeça dele, parte de seu corpo passando por dentro de Nikulin que segurava a cabeça do colega com ambas as mãos. Ela se inclinou sobre o homem ferido, seu tronco atravessando Nikulin pela barriga como se ele fosse só uma cortina leve de pano, seus cabelos estavam molhados de sangue, caindo dos lados do rosto de Kabanov. Ele tentou gritar com mais desespero ainda, mas sua voz não saía. Sua boca nem se movia, ainda segurando o galho com os dentes. Ela pairou com olhos na altura dos olhos dele, o odor de carne podre invadindo as narinas do homem, um terror fora do comum abalando seus nervos e sua mente. Os olhos da menina eram tão negros que por si só já aterrorizavam, mas aquele sorriso... Aquele sorriso era... Perturbador.

Vaganov já tinha amputado seu braço e conseguira finalmente estancar o sangue na cabeça do homem por algo que ele só pôde pensar em chamar de milagre. Nikulin se afastara do homem assim que o trabalho foi feito.

Ele estava sentindo um frio no estômago que não sabia explicar, mas era apavorante. Maria não se moveu quando Nikulin saiu. Era como se ele não fosse nada, como se ela não o tivesse atravessado.

NÃO! NÃO! ME DEIXE! – Kabanov gritou em sua mente.

A menina segurou o queixo dele, forçando sua boca lentamente a se abrir e o galho escorregar na lateral de sua cabeça. Os colegas estavam um pouco mais afastados, de cabeça baixa, tentando recuperar o fôlego.

- Você não me deixou viver. Nós também não deixaremos vocês viverem. – Ela disse claramente com um voz que transbordava raiva, mas que só Kabanov ouviu.

- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – Kabanov finalmente gritou a plenos pulmões fazendo seus colegas darem um pulo de susto.

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- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – Maria gritou também. O mesmo grito que dera quando acordara em meio aos cadáveres de sua família em caminhão como se fosse um pedaço de carne, ferida, com dor, em pânico e vira um homem se aproximar fazendo-a finalmente ter esperança de viver.

Esperança arrancada segundos depois quando ele a golpeou na cabeça e tudo ficou escuro e frio. Com o grito ela firmou sua mão na garganta do homem. Um terror subiu em sua mente. Nada mais lhe era familiar. Ninguém ali era conhecido dele. Mas uma coisa ele sabia com certeza: todos ali eram demônios que queriam matá-lo.

Ele se levantou num salto tão ágil que ninguém depois de perder tanto sangue deveria conseguir. Agarrando uma arma próxima, um mosquete com uma baioneta na ponta do cano, ele apontou para todos aqueles

estranhos ao seu redor.

- SAIAM DEMÔNIOS! VOCÊS NÃO VÃO ME LEVAR! – Kabanov gritou, suas pupilas tão dilatadas que mal se via a íris castanha do homem.

- Camarada Kabanov, respire, homem! – Yurovsky falou tentando acalmar o colega, com as mãos para frente pedindo calma. – Você não está pensando claramente.

- Camarada, se acalme. Somos nós, seus camaradas. Não estamos aqui para te fazer nenhum mal. – Netrebin falou um pouco atrás de Yurovsky.

- NÃO SOU SEU CAMARADA, DEMÔNIO DOS INFERNOS! NÃO ADIANTA TENTAR ME ENGANAR! – Kabanov segurava a arma com a mão esquerda e com muita precisão. O que era muito esquisito, afinal era um mosquete que precisava de ambas as mãos para ser manuseado corretamente e, bem, Kabanov era destro.

Tselms se benzia rapidamente sem parar desde que o homem gritara. Os outros estavam chocados demais para sequer pensar em agir. Apenas Ermakov conseguiu dar alguns passos assim que Kabanov pegou a arma.

Lentamente, Ermakov se movia pela lateral de Kabanov até ir parar atrás dele. Yurovsky percebendo a ideia de seu antigo homem de confiança na missão Ipatiev, como fora chamada a prisão e execução dos Romanov, tentava distrair Kabanov pra que ele não olhasse para trás. Mas o medo dá aguçada perspicácia e Kabanov percebeu um olhar furtivo de Tselms para Ermakov, já atrás dele.

- EU SABIA! DEMÔNIO TRAIÇOEIRO! – Ele gritou se virando bem a tempo de ver Ermakov a poucos passos dele. Deu um chute em seus joelhos e o derrubou, mas foi agarrado por Yurovsky e Nikulin.

- Calma, camarada. Não vamos te fazer mal. Somos nós. Não nos reconhece? – Nikulin perguntou.

O outros o seguraram, Ermakov tentava ficar de pé, mas foi logo derrubado por dois de seus colegas que praticamente voaram em cima dele quando Kabanov jogou todos à distância como se fossem bonecos de pano.

Desde quando ele ficara tão forte? Ele pegou o mosquete de novo, Nikulin tentou se aproximar falando dos filhos de Kabanov e de sua família pra tentar trazer o homem à realidade de novo. Mas essa foi sua pior ideia.

Kabanov nem o ouvia direito, apenas via rostos demoníacos ao seu redor, rosnando pra ele, babando sangue negro e gritando obscenidades e ameaças de morte. Ele até podia ouvir tiros ecoando perto dele, embora não visse nenhum. Quando Nikulin se aproximou um pouco, tudo que ele viu foi mais um demônio de rosto pálido, olhos vermelhos e babando sangue perto dele. Ele agarrou seu mosquete e golpeou o Nikulin na coxa tão fundo que a baioneta ficou presa na coxa do homem e o cano do mosquete voltou do golpe sem a arma pontuda que havia ali antes.

- MEU DEUS! ISSO DÓI! – Nikulin gritou caindo com o sangue caindo ao redor da baioneta presa em sua perna.

- FILHO DE UMA RAMEIRA! – Ermakov gritou puxando os cabelos de Kabanov, fazendo sua cabeça tombar para trás. Uma adaga apareceu na sua cintura, uma que ele não lembrava de ter ali, mas na raiva isso não importou. Ele pegou essa adaga e enfiou na frente da garganta exposta do homem sem um braço, rasgando a garganta na vertical, de cima para baixo.

Kabanov caiu no chão e então tudo veio à tona. Os demônios não estava ali, mas sim seus colegas, os mesmos que ele ameaçara e ferira. E, na frente dele, Maria, a garota sorridente que esperava sua alma para levá-la embora. Ele tentara pedir desculpas a seus colegas, mas sua garganta não podia mais emitir nenhum som e apenas seus lábios se moveram. Mas ninguém viu. Todos estavam ocupados socorrendo Nikulin caído um pouco à frente com sangue escorrendo no chão se misturando com a terra.

- Você não devia ter matado ele. Ele era nosso camarada. – Tselms disse trêmulo.

(9)

- Preferia que eu deixasse ele matar a todos nós? – Ermakov disse quase cuspindo as palavras com o ódio que brotava delas.

- Kabanov feriu Nikulin e pretendia matar todos nós, Tselms. Não havia como conversar com ele. – Voikov disse limpando o sangue de suas mãos. Ele ajudar a socorrer Nikulin minutos atrás.

- Mas... – Tselms começou a dizer.

- O camarada Ermakov fez bem. Kabanov enlouqueceu e não poderíamos confiar em um louco entre nós no meio da floresta. Não seja sentimental, camarada Tselms. – Yurovsky disse e todos ficaram mais eretos em respeito ao superior hierárquico que se aproximara.

- Como ele está, senhor? – Voikov perguntou.

- Vai viver, por enquanto. – Yurovsky respondeu aceitando uma garrafa de vodka oferecida por Ermakov. – Precisamos decidir o que fazer agora. Mas, antes de tudo... Muito bem, camarada Ermakov. – Ele ergueu a garrafa como se fizesse um brinde. – Você prestou um serviço ao nosso grupo esta noite e não esquecerei disso quando voltarmos para São Petesburgo.

Ermakov agradeceu polidamente ao chefe e seguiu para dentro de sua tenda. Ele precisava de descanso. Sua barriga estava esquisita.

- Deve ser só vodka demais e depois essa merda toda. Vou dormir e vai melhorar amanhã. – Ermakov disse a si mesmo.

Do lado de fora da tenda Tselms e Kudrin conversavam e ambos acreditavam que algum demônio possuíra Kabanov. Kudrin dizia que devia ter sido o mesmo demônio que possuía os membros da família Romanov que ele sempre acreditara terem sido enviados pelo capeta para dominar a Rússia.

- Você viu aquilo? – Tselms perguntou olhando para uma das muitas árvores ao redor.

- Vi o que? – Kudrin perguntou olhando intrigado para a direção que o colega olhava, mas só viu um monte de árvores escuras na noite fria.

- Uma coisa branca se mexendo na árvore. Ali. – Tselms sinalizou para um ponto, mas não havia mais nada. – Juro que vi uma coisa branca parada ali.

- Acho que precisamos dormir, camarada. Foi uma noite longa. – Kudrin disse se levantando.

Tselms concordou e seguiu pra sua tenda tentando se convencer que fora só o cansaço lhe pregando uma peça. Tentando e falhando miseravelmente.

- Esta vai ser uma longa noite. – Tselms disse a si mesmo enquanto tentava relaxar para dormir.

(10)

Quem merece morrer?

Rússia czarista, 1914.

- Nastya! Desça daí, agora! – Alexandra, a czarina esposa de Nicolau II, tentava pela milionésima vez tentar tirar Anastásia de cima de uma árvore. A garota era a caçula entre as filhas do casal real, e era a mais difícil de controlar, sempre aprontando. Quando subia nas árvores então, era quase impossível tirar a pestinha de lá de cima. Só uma alma viva conseguia essa proeza.

- Deixa comigo, querida. – Nicolau disse se aproximando risonho. Sempre que a menina decidia que queria brincar como se fosse um passarinho empoleirado numa árvore ele se divertia intimamente com as peripécias da menina. – Nastya, desça. – Nicolau disse num tom calmo, sem nenhum tom de advertência ou ordem. A menina desceu alegremente sem contestar. Era um tipo de jogo entre eles, Anastásia gostava do sorriso gentil e calmo do pai e ele gostava da energia da menina que o lembrava de seu pai, o falecido czar Alexandre III. Anastásia desceu, pulou no colo do pai sem aviso, que a segurou rindo. – Você precisa parar com isso, querida. Não é correto uma grã-duquesa pulando em árvores. Você pode acabar se machucando. – Ele disse tentando, e fracassando, parecer sério. –

- Não tenho medo, papa. Você me protege. – Anastásia disse puxando a barba negra do pai.

- Minha pequena diabinha, vá com sua aia. Tem doces na cozinha. – Ele disse colocando a menina no chão que correu à frente da aia, fazendo a serva quase correr pra acompanha-la.

- Doces? – Alexandra disse olhando feio pro marido. – Você estraga essa menina. Se não castigá-la por seus erros ela será insuportável quando crescer.

Nicolau apenas deu o braço para a mulher e sorriu. Ele adorava estragar os filhos com mimos.

Floresta de Ipatiev, Ecaterimburgo, 1919.

Ninguém conseguia dormir no acampamento depois do surto e morte de Kabanov, e o ferimento de Nikulin. O clima era pesado até para os mais céticos do grupo. Apesar de Yurovsky ter ordenado que um grupo dormisse e outro vigiasse Nikulin, para depois revezarem, ninguém conseguiu ficar na cama por muito tempo. Todos se sentiam agitados e nem mesmo a bebedeira de horas antes estava ajudando a descansar. Um a um, todos se levantaram e sentaram ao redor da fogueira que ardia no meio do acampamento. Ninguém conseguia falar nada por um tempo, ainda acalmando os pensamentos.

- Porque estão aqui? Mandei vocês descansarem. – Yurovsky disse saindo da tenda onde Nikulin estava dormindo com febre.

Todos olharam para ele, ainda sem saber o que dizer.

- Senhor, estive pensando em... O que estão fazendo fora das tendas, camaradas? – Voikov disse saindo da mesma tenda que Yurovsky tinha acabado de sair.

- Nós não conseguimos descansar com... tudo o que aconteceu. – Medvedev disse, olhando de canto pro irmão como se pedisse permissão para falar, como ele sempre fizera desde criança. Kudrin estava de cabeça baixa, nem mesmo direcionando um olhar para o irmão. Kudrin quase podia jurar que alguém os estava

observando, mas não queria comentar nada ainda. Ou não podia. Ele sentia um peso estranho no peito, como se uma angústia quisesse começar a se fazer presente em seu coração, mesmo sem nenhum motivo.

- Na hora da troca de turno não vou aceitar isso como desculpa. – Yurovsky disse.

Um vento gélido chacoalhou as árvores ao redor, quase zumbindo. Não. Zumbindo não. Gritando. Isso. As folhas das árvores emitiram um som que parecia um conjunto de gritos femininos. Até mesmo Yurovsky, tão cético quando qualquer comunista que se preze, sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Todo mundo, dentro e fora da tenda, se sentiu congelando no lugar, mas não de frio. De medo. Um medo que ia além de qualquer outro medo experimentado por eles mesmo em combate.

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De repente as árvores começaram a balançar, chacoalhar e um som estranho, gutural, emergiu de dentro da floresta. As árvores se mexiam de uma forma que demonstrava o movimento de um animal enorme na floresta, vindo em direção à eles. E vindo bem rápido. Não dava para ver ainda o que era, oculto pela floresta densa, mas ninguém queria esperar para ver.

- Saiam da tenda! Peguem suas armas e os mantimentos que conseguirem. RÁPIDO! – Yurovsky ordenou. Os que estavam fora da tenda saíram rapidamente pegando suas mochilas e armas que estavam próximas de suas camas em suas tendas. Dentro da tenda onde Nikulin estava desacordado, Vaganov estava ao lado dele jogando as tiras de pano ensaguentadas num canto.

- O que está acontecendo? – Vaganov perguntou.

- O curativo está seguro? – Yurovsky perguntou pegando mochilas e armas próximas, juntando tudo e ordenando aos outros que fizessem o mesmo.

- Sim. A tala está firme e...

- Acorde ele. De qualquer jeito. – Yurovsky ordenou e aquele som gutural na floresta ficou ainda mais alto. A coisa, fosse o que fosse, estava mai perto. – Tem algo enorme na floresta vindo até nós.

Ermakov jogou água fria no rosto de Nikulin para fazer o homem acordar. Ele acordou, mas estava tão febril que praticamente não conseguia se mover sem tremer com dor e tontura. Voikov entrou pegando Nikulin por um braço, enquanto Vaganov sustentava pelo outro braço. Netrebin ajudou Yurovsky a pegar o que pôde às pressas e jogar dentro das mochilas.

- Senhor! Está perto! – Kudrin gritou do lado de fora.

- Corram para a floresta, na direção oposta. Corram e não parem por nada. Medvedev, apague a fogueira rápido! Não quero um incêndio aqui. – Yurovsky gritou as ordens correndo à frente de todos para guiar o caminho. Ermakov ficara para trás para proteger a retaguarda e atirar em qualquer coisa que saísse da floresta, dando tempo para Medvedev os acompanhar depois. Medvedev era rápido como o diabo quando precisava correr. Kudrin sempre dissera que esse era o poder que Deus dera ao seu irmão.

- Rápido, Medvedev! – Ermakov gritou vendo as árvores mais próximas da clareira chacoalharem. O rugido de um animal que ele não sabia dizer o que era, mas devia ter pelo menos uns 4 metros de altura, dado o estrago que fazia nas árvores ao se movimentar, soou muito mais alto fazendo os homens correrem ainda mais.

Medvedev estava gelado da cabeça aos pés, apesar dos pesados agasalhos e do álcool no sangue. Ele não conseguia apagar a fogueira. Caramba! Ele fizera isso inúmeras vezes desde pequeno. Não era difícil. Por que não apagava? Toda vez que as chamas começavam a se apagar, do nada se erguiam altas de novo como se jogassem barris de álcool nela. Quando o rugido soou mais próximo, Medvedev olhou para Ermakov e entendeu o

pensamento do colega. A fogueira que se ferrasse! Ele ia correr para acompanhar seus colegas. Ia. Mas não foi.

Quando deu o primeiro passo para frente, ainda olhando para Ermakov, com medo do que poderia ver se olhasse para trás, algo agarrou seu tornozelo e o derrubou de cara no chão. Quando se virou um pouco para ver o que o segurara, percebera que era um galho rasteiro gigante e grosso que saía do meio da floresta onde o som perturbador soava e árvores chacoalhavam. Outro galho semelhante emergiu da floresta como se tivesse vida própria emergiu da floresta e prendeu seu outro tornozelo. Medvedev olhou aterrorizado para Ermakov que estava congelado no lugar, confuso, sem saber no que atirar para salvar o colega. O que ele faria? Atiraria num galho?

- Se solte, homem! – Ermakov gritou ainda mirando na floresta onde imaginava que um animal gigante surgiria a qualquer segundo. Foi com um misto de confusão e medo que Ermakov viu Medvedev ser arrastado para dentro da floresta, gritando, olhos arregalados em terror, tentando se segurar no solo gelado, se debatendo até desaparecer dentro da floresta.

Ermakov não pensou duas vezes, virou as costas e correu em direção ao caminho que seus colegas seguiram.

Quando os viu à distância, um grito ecoou de dentro da floresta como se viesse de todas as direções ao mesmo tempo. Todos conheciam a voz naquele grito. Era Medvedev. Quando os homens pararam, cansados,

principalmente os dois que praticamente arrastavam Nikulin que gritava com dores na perna ferida, todos se voltaram para Ermakov que estava pálido, sem sangue nos lábios, olhos desfocados e balbuciando coisas sem sentido.

- Onde está Medvedev? – Yurovsky se aproximou sendo seguido de perto por Kudrin.

(12)

- Meu irmão... O que aconteceu com meu irmão? – Kudrin perguntou não tendo certeza se queria ouvir a resposta.

- Ele apagou... Eu vi.... Ele apagou... Mas não apagou... Depois a árvore... A árvore...Ela levou ele.... Ele apagou o fogo... Seis vezes...Eu vi... – Ermakov balbuciava tentando entender o que vira. Fantasmas não existiam. Ele tinha certeza disso. Mas então... O que ele vira? Como explicar o que era tão....confuso?

- Camarada Ermakov! Recomponha-se, homem! O que aconteceu com Medvedev? – Yurovsky repetiu a pergunta em tom de ordem.

- A menina... na árvore. Ela mandou buscar ele. – Nikulin disse em meio a alucinações de febre.

~o~

Medvedev fora arrastado pelo chão gelado, tentando se agarrar à qualquer coisa sem sucesso. Ermakov o olhava como se não pudesse acreditar em seus próprios olhos. Tudo que ele conseguia pensar era em seu irmão que sempre o aconselhara, o guiara. Fora seu irmão que lhe dissera um ano atrás que se ele matasse a pequena Anastásia ele teria um lugar garantido no paraíso por sua boa ação. Ele vira a menina agarrada num canto com sua irmã, Maria, gritando e, por um segundo ele exitou. Ela era quase uma criança ainda. Será que era certo?

Quando seu irmão se aproximou por trás dele o aconselhando, ele aceitou a sabedoria do irmão e atirou na menina.

Ela é o diabo disfarçado de menina para enganar os filhos de Deus. Ela merece morrer. Kudrin dissera naquele dia, atrás dele que ainda tinha os olhos focados em Anastásia que implorava com o olhar para não morrer. Ela era tão bonita. Todas as filhas de Nicolau eram. Seu irmão sempre dissera que isso era porque o demônio se disfarçava em belas mulheres para atrair mais admiração do povo inocente. Ele não sabia porque isso vinha em sua mente agora, nesse momento de terror. Em segundos esse pensamento atravessou sua mente aterrorizada, enquanto seu corpo era arrastado sobre pedras, gelo e terra e ele gritava pedindo por socorro. Ele não

acreditava plenamente nessa história de demônios, mas não desobedecia seu irmão. Ele via Kudrin como o mais sábio dos homens e sempre o seguira cegamente. Agora, pela primeira vez em sua vida, ele se perguntou se isso era o correto.

Os galhos pararam de arrastar seu corpo ferido pelo chão e o ergueram em uma árvore muito alta. Seu corpo passou por galhos grossos da árvore, alguns se quebrando com o impacto violento, até que ele parou preso de ponta cabeça, mal enxergando o solo oculto pelas folhas da árvore. Os galhos o prenderam em um galho grosso e ele tentou se mover para sair daquela posição incômoda e talvez se soltar. Sua mochila havia se perdido no caminho e ele nem sabia onde. Tinha uma faca ainda presa ao seu cinto, então ele só precisava se erguer no galho.

- Onde você pensa que vai? – Uma voz doce de menina disse. Ela vestia branco, uma camisola parecendo um vestido, perfurações de bala a atravessavam de tal forma que se podia ver a árvore atrás de seu corpo. Sangue escorria de seu peito, cabeça e manchavam sua roupa. Cabelos castanhos e longos emolduravam um rosto jovem que ele reconheceria em qualquer lugar. Olhos azuis alertas, expertos, um sorriso travesso que ele nunca

esqueceria, eram a marca registrada da menina de 17 anos, a travessa Anastásia.

- Anastásia? – Medvedev disse com o corpo todo dolorido, ferido e a cabeça doendo muito pelas pancadas e a posição incômoda em que estava. – Você está morta. Não pode estar aqui. Não é possível.

- Para o seu azar, bolchevique sujo, é muito possível. – Anastásia disse.

- Não sei como você escapou da morte. Atirei na sua cabeça. Mas não vou errar de novo! – Medvedev disse, propositalmente ignorando os buracos no corpo da menina que a atravessavam. Ele pegou a faca em seu cinto, usada para destrinchar animais, e enfiou na garganta da menina que nem mesmo se moveu. Ele empurrou a faca ainda mais fundo até metade do cabo, fazendo a ponta da faca aparecer do outro lado do pescoço da moça, que continuou sem se mover ou esboçar qualquer dor. Ela o olhava da mesma forma divertida e calma. Ele soltou a faca que ficou no pescoço de Anastásia e a olhou em pânico. Ela estava mesmo ali e não estava viva. Ninguém vivo aguentaria aquele ferimento... Ninguém. – Por favor, não me mate. – Ele disse quase chorando em pânico. – Eu fiz o que meu irmão mandou. Eu não fiz por mal. Por favor.

- Você não fez por mal? AHAHAHAHA! Você é divertido, Medvedev. – Anastásia disse com malícia.

(13)

- Como... Como sabe meu nome? – Medvedev perguntou. Ele e seu irmão não eram parte da guarda que ficou responsável por cuidar dos Romanov em Ipatiev durante o período que estiveram presos. Eles nunca disseram seus nomes naquele dia fatídico.

Anastásia sorriu e respondeu: - Vantagens da morte. – Ela tirou lentamente a faca de seu pescoço causando calafrios no homem pendurado de cabeça para baixo que implorava mentalmente para não morrer ali como um porco. – Ah sim. Esse olhar. Eu me lembro que implorei com meus olhos para não morrer também. Como seu irmão disse antes de você obedecer feito um cachorrinho adestrado de donzela? Ah sim. “Ela é o diabo

disfarçado de menina para enganar os filhos de Deus. Ela merece morrer”. Só que eu nunca matei ninguém. Eu não merecia morrer.

- Não. Não merecia. Me desculpe. – Medvedev podia sentir as lágrimas caindo em sua testa.

- Bem, você matou. Você merece morrer. Você sim é o diabo disfarçado aqui. – Com essas palavras, Anastásia se aproximou como um sopro gélido e veloz. Num segundo ela estava à frente dele, flutuando no ar, seus

cabelos de repente estavam molhados e terrosos, seu rosto e corpo estavam queimados, desfigurados com ácido e manchas brancas de cal. Cantarolando uma canção que Nicolau cantara para ela muitas vezes, ela enfiou a faca de Medvedev abaixo de seu umbigo, enfiando a lâmina toda. O homem gritou de dor, sabendo que morreria logo. Ou não. Ainda cantarolando como se estivesse em seu quarto com suas irmãs se divertindo, Anastásia passou a descer a lâmina da faca enfiada no corpo do homem lenta e firmemente. O grito de Medvedev já semi morto ecoou por toda a floresta como se fosse carregado pelas folhas passando de árvore em árvore

velozmente. A menina só parou quando a faca atravessou o queixo do homem, sua força sobrenatural cortando até mesmo o osso da mandíbula. Um corte vertical seguia de baixo do umbigo, passando pela barriga, tórax, garganta e queixo. Por castigo ou o que quer que fosse, Medvedev estava vivo ainda, mas agonizante, sem voz, sentindo cada centímetro de dor, mas consciente. Anastásia se virou de ponta cabeça, flutuando no ar, agora cara a cara com o homem agonizante cujo sangue escorria profusamente. Lágrimas ainda brotavam de seus olhos como cachoeiras. Ela secou uma lágrima da testa do homem.

- Não chore, bolchevique. – Ela pronunciou a palavra com desdém. - Eu não sou cruel. Não vou te deixar sozinho por muito tempo. Não se preocupe. – Ela sorriu e seu sorriso conseguiu ser mais aterrorizante do que toda aquela situação macabra.

(14)

Valsa dos gritos

- Eu disse que aquela família era formada por enviados do demônio! – Kudrin gritou depois que Ermakov contou o que tinha acontecido com o máximo de frieza que pôde, tentando ser racional e controlar o medo irracional que começava a tomar conta dele.

Yurovsky ouviu calmamente tentando racionalizar pra entender o que havia acontecido. Seria possível que o Exército Branco, inimigos da Revolução, os tivessem seguido até ali e estivessem os aterrorizando? Os brancos eram apoiadores do czarismo e vinham dando muita dor de cabeça ao Exército Vermelho desde o início da Revolução, mas seriam tolos o bastante para invadir um território controlado pelos bolcheviques? Tselms por sua vez segurava seu crucifixo com muita força como se ele pudesse entrar na pele de sua mão e ficar ali pra sempre o protegendo.

- Serão os Romanov’s? O diabo os mandou de volta para Terra? Devíamos ter feito alguma prece no túmulo pra que Deus os impedisse de voltar... – Tselms dizia aterrorizado. Ele não sabia como, mas tinha uma certeza inquebrável de que tudo que havia acontecido ali era causado pelos espíritos dos Romanov’s.

- Não seja tolo, homem! Espíritos não existem! – Voikov disse.

- Você é que está sendo tolo! Não ouviu o que Nikulin disse? Não se lembra que uma das crias do Nicolau Sangrento subia em árvores e ficava lá por horas como uma macaca? Não pensou que ela podia ser uma bruxa das árvores e por isso nunca se feriu nelas? – Kudrin estava gritando quase partindo pra cima de Voikov.

- Se você não parar com essa merda de demônios e bruxas, vou quebrar sua cara! – Voikov já estava partindo pra cima de Kudrin também.

- Parem já com isso! – Yurovsky disse com autoridade. – Não tem espírito nenhum, camarada Kudrin. Pense com clareza, camarada. É evidente que, de alguma forma, os brancos estão por trás disso tudo. Eles podem ter drogado Kabanov com alguma substância na bebida dele, talvez até nas nossas, isso explicaria as coisas que temos visto. Pode apenas ser uma forma exagerada de ver as coisas, causada por algum tóxico.

- Tenho certeza de que foi isso. – Ermakov disse, ávido por alguma explicação lógica para o que vira.

- Vocês não querem enxergar a verdade que está bem na frente de suas caras! São os demônios Romanov’s! – Kudrin disse.

- Talvez não sejam demônios. – Netrebin disse, sentado encostado em uma árvore secando o suor febril do incosciente Nikulin à sua frente. Todos olharam para ele. – Minha babushka1 sempre dizia que mortos que não eram enterrados com os ritos ensinados por Nosso Senhor ou que morriam violentamente, voltavam para assombrar os vivos.

- Que idiotice! Se fosse assim o mundo todo seria assombrado por todos os mortos em guerras! – Ermakov disse com desdém, mas, intimamente aquele medo irracional crescia, por mais que ele tentasse ignorar.

- Hmmm... – Nikulin começou a gemer.

- O que faremos? Ele está com muita febre e o ferimento está sangrando muito pelo esforço. – Vaganov perguntou.

- Precisamos buscar socorro. Nossa base mais próxima fica a alguns metros a leste. Três de nós irão até lá buscar ajuda e informar sobre a possível presença dos brancos na floresta. – Yurovsky disse. – Se aquele movimentos nas árvores são um indicativo, podemos ter um grande grupo na floresta e não temos armas suficientes para um confronto nesse nível.

- Eu vou. – Ermakov disse, louco para sair daquela floresta infernal.

- Tselms e Netrebin vão com ele. – Yurovsky disse. – Eu e Voikov manteremos o perímetro seguro nos revezando em turnos de vigilância. Vaganov e Kudrin se revezem cuidando de Nikulin. Vamos tentar manter o

1 ‘Vovó’ em russo.

(15)

pobre homem vivo até a ajuda chegar. Trabalharemos em turnos de dois. Dois dormem enquanto dois trabalham em seus postos.

- Sim, senhor. – Todos concordaram.

Yurovsky sabia que não era sábio manter Kudrin perto de Ermakov naquele momento. Ambos eram instáveis a seu modo. Kudrin era um fanático, apesar de ser leal à revolução justamente por isso, e Ermakov, bem, ele era raivoso, cético, sádico, explosivo e um atirador exímio, ou seja, um soldado perfeito. Ambos juntos num

momento de crise envolvendo crenças como aquela seria conflito na certa. Voikov era maluco e muito parecido com Ermakov em muita coisa, mas era mais controlado e Yurovsky confiava nas habilidades militares dele tanto quanto nas de Ermakov. Tselms e Kudrin juntos também não seria uma boa ideia, mas pelo motivo oposto.

Ambos tinham crenças parecidas e isso podia resultar em problemas naquele momento. Nikulin não podia andar.

O homem mal conseguia se manter acordado entre as convulsões febris e alucinações. O ferimento, por mais que Vaganov tentasse estancar, só piorava inexplicavelmente.

O trio que partiria em busca de ajuda estava terminando os preparativos para a partida quando Vaganov e Kudrin gritaram atraindo a atenção de todos.

- Mas que diabos... – Ermakov disse e foi derrubado por um homem correndo tão rápido que nem parecia estar com uma perna ferida e sangrando a horas. – Nikulin? Como ele conseguiu levantar e correr desse jeito.

- Volte aqui, camarada! Não é seguro! – Kudrin gritou já correndo atrás de Nikulin que parecia ter rodas nos pés de tão rápido que ia.

- Kudrin! Espere! – Tselms gritou.

- Vou atrás deles. – Voikov se prontificou louco para mostrar serviço e, quem sabe, tomar o lugar de Ermakov como braço direito do chefe.

- Não! – Yurovsky ordenou. – Ninguém mais vai se afastar do grupo. Vamos todos juntos atrás desses idiotas.

Se esbarrarmos com o inimigo teremos mais chances se estivermos juntos. Ermakov, atrás de mim. Voikov, você e Netrebin cuidam da retaguarda. Olhos e ouvidos alertas, homens. Vamos.

O grupo seguiu procurando os Kudrin e Nikulin pela floresta escura e fria, rastreando as gotas de sangue no chão, os galhos quebrados e as pegadas. Mas, depois de algum tempo, as pegadas ficaram confusas. Ao invés de duas duplas de pegadas, várias se sobrepondo confusas surgiram. Tarde demais eles perceberam que aquelas, de alguma forma insana, eram suas pegadas. Estavam andando em círculos.

~o~

Nikulin corria tanto que nem sentia as dores dos galhos batendo em seu rosto e braços. Ele não sabia pra onde estava indo, mas sabia que tinha que fugir daquela floresta. Ele vira as garota, a caçula do czar. Ela estava lá. Em cima das árvores. Ele viu. Ela queria levá-lo para o inferno. Mas ele não ia deixar. Ele ia escapar e ver sua mulher, seus filhos e sua amante de novo. Ele ia. Nada ia impedir ele de aproveitar a vida. Nem aqueles malditos Romanov’s mortos!

- Nikulin...

Alguém gritava atrás dele. Mas ele não ia olhar. Não era idiota. Ele ouvira seu pai dizer muitas vezes que fantasmas não podia pegar quem não olhasse pra ele.

- Nunca, nunca, atenda quando te chamarem uma vez, garoto. Espere chamar três vezes. Se você atender na primeira e for um fantasma ou um demônio você será morto. Você entendeu, Niku? – Seu pai o dissera muitas vezes.

- Nikulin! Espere! – Kudrin o chamava correndo feito louco, mas Nikulin não reconhecia sua voz. Kudrin nem sabia se o homem à sua frente o estava ouvindo. Ele temia se perder na floresta, seguindo seu camarada maluco e, possivelmente, possuído já que corria mesmo com um ferimento que jorrava sangue. Mas tinha mais medo ainda de parar e ficar sozinho, perdido, naquela floresta endemoniada.

De repente Nikulin parou e ficou em pé, olhando para frente, como uma estátua. Kudrin depois de mais um pouco de corrida conseguiu alcançá-lo e então parou a poucos passos. Se aproximou devagar do homem, não querendo assustá-lo. Kudrin sentia os efeitos dessa corrida louca com sua pancinha de muita carne e álcool, respirando pesadamente, os pulmões queimando.

(16)

- Por Deus, homem! Você ficou maluco de vez? Temos que voltar. Você precisa de cuidados. – Kudrin disse, mas Nikulin continuava de costas para ele, imóvel como uma estátua.

- Kudrin. Você...você... – Nikulin estava aterrorizado, seu corpo congelado de medo.

- Sim, camarada. Sou eu. Vou te ajudar. Vamos. – Kudrin tocou gentilmente o braço do homem e, mesmo sob as grossas camadas de roupa, pôde sentir o quão gelado Nikulin estava. – Ei. Vamos. – Kudrin se aproximou do lado de Nikulin o suficiente para olhar nos olhos do homem. Seus olhos estavam vidrados, a íris azul quase totalmente negra com as pupilas dilatadas, olhando fixamente para frente.

- Você está vendo também? – Nikulin perguntou com voz baixa, quase um sussurro.

- Vendo o que? – Kudrin perguntou olhando na direção que Nikulin olhava. De início ele só viu árvores e mais árvores escuras contra as trevas da noite e a suave luz branco-azulada da neve no solo. Mas então suaves sombras saindo de três árvores exatamente à frente. Mas não eram sombras. Eram três figuras pálidas, com roupas escuras, como pijamas simples de serviçais masculinos e uma mulher com um pijama praticamente todo sujo de lama negra. Os três tinham o rosto e o corpo quase todo corroídos no que parecia ser ferimentos

causados por ácido. Poucos se lembravam daqueles homens, mas Kudrin e Nikulin nunca se esqueceriam deles.

Eles estavam de guarda quando Yurovsky ofereceu, na frente de Nicolau, a liberdade para aqueles três e o médico, em troca de abandonar a família presa em Ipatiev. Eles se recusaram terminantemente, mesmo após o próprio Nicolau pedir para que eles fossem embora. Na noite do massacre eles estavam lá. Kudrin e Nikulin os golpeara com os tiros. Apenas a mulher demorou para morrer. Anna era seu nome. Ela era camareira e ele sempre a via pela casa servindo fielmente àquela família infernal. Os outros dois eram um servo e um cozinheiro.

Alguma coisa Trupp e Ivan Kharitonov, respectivamente. Ele não esquecia esses nomes porque sempre os achara adoradores do demônio que comandava os Romanov, assim como Anna e o médico e ele obrigara suas famílias a pagarem enormes penitências para livrá-las do diabo que comandara aqueles três. Seu primeiro instinto foi rezar e correr na direção oposta, mas galhos se prenderam em seus tornozelos o derrubando no chão. Nikulin caiu logo depois, o rosto virado na direção dele de modo que pudesse ver o terror nos olhos um do outro. Eles foram arrastados por algum tempo, não muito, mas dados os ferimentos causados pelo impacto com pedras, neve, galhos, formigas, etc, pareceu uma eternidade.

Quando pararam perceberam que estavam de volta à clareira onde haviam acampado. Os galhos se soltaram de seus tornozelos como cobras se afastando em direção à floresta. Nikulin tremia visivelmente e Kudrin

percebeu que tremia da mesma forma. Um medo selvagem fazia suas entranhas se revirarem. Ambos estavam deitados no chão, de bruços, tentando se levantar apoiando-se em suas mãos, mas caíam logo em seguida tamanho era a força dos tremores. Erguendo um pouco a cabeça, viram suas tendas abandonadas exatamente como deixaram, a fogueir ardia atrás deles e, pelo calor, podiam garantir que ela estava alta. Os dois finalmente conseguiram se levantar, ainda tremendo muito, e se virar para ver a fogueira. Nunca no mundo haveria um arrependimento maior do que o deles por terem se virado. Três estacas estavam fincadas no chão, atrás da fogueira que ardia muito alta. Mas, pior de tudo, Medvedev estava amarrado em uma das estacas na ponta, havia um corte profundo e vertical em seu corpo azulado. Ele estava vivo olhando para Kudrin através do calor das chamas de forma aterrorizada, implorando silenciosamente para que o irmão fugisse. Se Kudrin pudesse ele teria matado o irmão para acabar com o sofrimento dele, mas ele sabia que devia se preocupar mais com ele mesmo porque, aquelas outras estacas não estavam ali para servir de enfeite, disso ele tinha certeza.

Kudrin se virou, segurando a mão de Nikulin, e tentou correr. Em vão. Pés chutaram no meio da lombar dos dois homens que caíram de frente no chão. Kudrin quebrou o nariz na queda e Nikulin uivou com dor na perna e no braço fraturado com a queda.

- Viu só, cachorrinho adestrado? Seu irmão nem tentou implorar por você ou matá-lo para livrá-lo da dor. – Anastásia disse enquanto os fantasmas de Trupp, o criado, e Ivan, o copeiro, erguiam bruscamente Kudrin e Nikulin, virando-os de frente para ela e os colocando de joelho com um golpe na parte de trás dos joelhos de ambos. Anna estava ao lado de Anastásia com um olhar de choro e lágrimas negras caíam de seus pequenos olhos. – Isso. É assim que ralés como vocês devem ficar perante uma grã-duquesa e seus nobres servos: de joelhos.

Kudrin movia os lábios em uma prece silenciosa sem desviar os olhos das figuras fantasmagóricas à frente, Nikulin rezava o Pai Nosso mentalmente, não tendo forças nem para mover os lábios.

(17)

- Rezar agora não vai adiantar nada. – Anna disse se aproximando tão rápido que pareceu se teletransportar para frente muito perto deles. – Eu rezei para não morrer. Pelo menos tentei. Mas vocês não nos deram tempo nem para isso.

- Não pudemos nem mesmo nos preparar para encontrar Nosso Senhor no céu. – Trupp disse entre a raiva e a dor.

- E você nem mesmo rezou em nossos túmulos para nos dar algum descanso. E você se considera um homem de Deus? – Ivan disse para Kudrin enquanto um líquido negro saía de sua boca escorrando como uma baba fétida.

- Perdão! Nós achamos que era o certo. Perdão. – Nikulin disse aos prantos quando sua voz finalmente saiu deformada pelo medo.

- Perdão? – Anastásia disse com uma risadinha delicada. – E perdoar você vai me trazer a vida de novo? Ou a qualquer um de nós? Nós nem mesmo podemos descansar e você acha que vocês poderão? Vocês me roubaram o direito de viver, todas as possibilidades que todos nós tínhamos, as coisas que podíamos ter feito. Mas vou lhes dar uma chance. Como papai diz, temos que governar para o bem do povo. Então, se meus amigos aqui, as pessoas com quem divido esse tormento, perdoar vocês, eu os polparei e lhes levarei em segurança para fora da floresta.

Kudrin e Nikulin olharam esperançosos para Anastásia. Ao lado dela mais espíritos surgiram. Os outros membros da família Romanov e o médico, Eugene Botkin. Se antes os dois homens já rezavam, agora eles

rezavam com mais vigor ainda. Os dois se entreolharam e, numa compreensão mútua, ambos se inclinaram mais, pousando suas testas no solo, entre suas mãos, e imploraram pelo perdão daquelas almas. Mas talvez mortos possam ler mentes ou ver suas almas. Quem sabe ne? O fato é que Kudrin e até Nikulin agora tinham plena certeza de que os Romanov’s eram demônios e um pensamento rápido e furtivo, que não durou mais que um segundo, passou por suas mentes. Quando saíssem dali, destruiriam os túmulos de todo Romanov que já existiu na Rússia. Eles levantaram um pouco a cabeça apenas o suficiente para olhar seus algozes e Nikulin viu

rapidamente o semblante do fantasma de Nicolau que tinha um olhar de tristeza muito grande, quase como se lamentasse algo.

- Muito bem, levantem as mãos se a resposta for sim. Quem aqui perdoa esses homens? – Anástasia

perguntou sem nenhum dos fantasmas desviar o olhar de Nikulin e Kudrin. Ela tinha um sorriso no rosto como se já soubesse o resultado. E sabia. Ninguém levantou a mão. Ninguém os perdoava.

Nikulin começou a gritar em pânico com palavras desconexas. Kudrin xingou todos os palavrões que conhecia até soltar uma frase interessante: - Eu vou matar vocês todos!

- AHAHAHAHA! Você? Nos matar? E como, bolchevique dos infernos, você vai matar os mortos? – Alexandra disse enquanto apenas observava a cena.

Anastásia abriu passagem para Anna que ordenou que o servo e o cozinheiro levassem os dois bolcheviques para as estacas onde foram presos. Era incrível como aqueles espíritos sem nenhuma carne tinham força. O ódio, pelo visto, podia fazer milagres até nos espíritos. Kudrin e Nikulin não facilitaram. Os dois se debatiam com braços e pernas feito loucos, mas o aperto dos fantasmas só se intensificava. Eles podiam sentir mãos e dedos gelados a tal ponto que deixavam marcas de queimadura negra causadas pelo frio. De fato Kudrin chegou a ver de relance uma marca negra de mão em seu braço que atravessara os grosso tecido de sua roupa. Pedras pontiagudas como lanças foram usadas para prendê-los nas estacas. As pedras eram tão fortes e grandes que ultrapassaram seus braços e a madeira da estaca. De onde aquilo saíra? Eles não tiveram tempo para pensar.

Anastásia cortou a barriga de Kudrin num cor horizontal e suas vísceras caíram de seu corpo enquanto ele olhava horrorizado. Nikulin teve mais sorte, se é que se pode chamar assim. Seus pulsos foram cortados na vertical de forma que, mesmo na remotíssima possibilidade de escapar dali, era um ferimento que não podias ser suturado.

Ele morreria de qualquer forma, mas sofreria menos. Já perdera muito sangue e com aqueles cortes ele logo ficaria tonto e iria apagar. Morreriam ali por esses ferimentos. Ou não.

Da direita para esquerda, Medvedev, Kudrin ao centro, e Nikulin na outra ponta olhavam os fantasmas abaixo os encarando em frente à foqueira. No centro, Anna, Ivan e Trupp, e o resto dos fantasmas em linha reta nas laterais. Os três servos ao centro se viraram para a fogueira, pegaram uma tocha improvisada com o fogo na ponta e se viraram os encarando.

(18)

- Vocês nos chamaram de bruxos, seguidores do diabo. – Anna disse. – Mas eu ia à igreja duas vezes na semana, sempre segui os mandamentos de Nosso Senhor e nunca fiz nada de que pudesse me envergonhar.

- A coisa mais terrível que já fiz foi abater aves para servir nos meus pratos. – Ivan disse.

- E eu tive algumas amantes e me arrependo muito disso hoje. Mas nunca matei ninguém ou serví ao diabo. – Trupp disse.

- Vocês mataram cruelmente muitas pessoas. Nikulin estuprou muitas moças indefesas e as vendeu para bordéis. Kudrin abusou de muitos garotos de rua e matou alguns que ameaçaram contar o que ele fez. Vocês sim são servos do diabo. E sabem qual a forma mais tradicional de matar servos do diabo? – Anna completou e, sob o olhar aterrorizado de Nikulin, de ódio de Kudrin e de decepção de Medvedev, os três servos incendiaram as estacas. Os gritos de agonia dos homens ecoaram pela floresta enquanto os fantasmas no chão dançavam em duplas como se estivessem ouvindo uma bela valsa de Tchaikovski num baile. E talvez estivessem mesmo, afinal, os gritos de dor dos inimigos são músicas para os ouvidos de quem se vinga.

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Um olhar gelado

- Como conseguimos nos perder? – Voikov dizia cansado.

O grupo andava a horas e não havia rastro de Kabanov, Nikulin, nem de nada. A natureza parecia

estranhamente quieta. Não havia nem sinal dos animais que deviam estar caçando durante a noite. As árvores parecia paradas no tempo sem nenhuma brisa soprando em suas folhas. Todos estavam cansados, mas o que preocupava mesmo era aquela densidade no ar, aquele frio que, claro, poderia ser apenas porque a região era fria mesmo, mas não era isso. Não era um frio que se sente na pele. Era um frio por dentro, como se todos os seus órgãos recebecessem ocasionalmente lufadas de ar frio. Todos sentiam, mas ninguém queria parecer ridículo comentando isso. Mesmo Netrebin, sempre tão calado, puxava assunto de tempos em tempos tentando desviar a atenção daquela sensação incômoda e inexplicável. Ele não era um homem muito religioso, só um pouco mesmo, mas naquele momento ele desejou se lembrar de qualquer oração que ouvira desde pequeno.

Em vão. Sua mente parecia nublada com os acontecimentos da noite e aquela sensação esquisita. Sua mãe era uma inglesa que se casara com seu pai a anos em circunstâncias nada felizes. Seu pai fora obrigado por seu avô materno, sob a mira de uma arma, a se casar com sua mãe que havia sido seduzida e desonrada por ele. Ele casou e a levou para a Rússia onde tinha trabalho nas construções, mas sua mãe era claramente infeliz com as humilhações, o alcoolismo e as ofensas do pai. Netrebin temia o pai mais do que amava. Era um homem instável e perigoso até para sua família. Sua mãe era uma mulher silenciosa e discreta refletindo a educação inglesa que tinha e ele herdou isso dela, além do conhecimento fluente em inglês que ela o ensinara desde pequeno. Sua mãe o obrigava a falar os dois idiomas, inglês e russo, dentro de casa para, segundo ela, ‘ter mais chances na vida’. Funcionou. Na juventude sua fluência em ambos os idiomas serviu para que ele fosse recrutado por grupos rebeldes que compravam armas de gangues inglesas, servindo como interpréte e subindo de cargo rapidamente.

Sua eficiência permitiu que ele se tornasse famoso no submundo e acabasse entrando para o grupo revolucionário que agora governava a Rússia.

- Não se preocupe, Voikov. Daqui a pouco o Sol nascerá e poderemos nos orientar e aquecer melhor. – Yurovsky disse atraindo a atenção de Netrebin.

- O Sol já não deveria ter nascido? – Netrebin perguntou o que com certeza todos ali já tinham pensado a pelo menos meia-hora atrás.

- Talvez tenha nascido, mas esteja escondido atrás de alguma das montanhas próximas ou não tenhamos visto ainda porque não se ergueu completamente e essas árvores densas não estão ajudando. – Yurovsky disse, mas nem ele mesmo acreditava.

- É. Talvez. – Tselms murmurou.

- Só se o Sol nasceu pelo avesso. – Ermakov disse de péssimo humor. Mas ele tinha razão. Estava muito escuro para acreditar que estivesse sequer no crepúsculo matinal. E isso entrava para a lista de coisas estranhas naquela floresta nas últimas 24 horas porque àquela hora o Sol já deveria ter nascido. Não fazia sentido. Nada fazia.

- Pensando no garoto, camarada? – Vakanov disse divertido com a referência à Alexei que Ermakov fez sem perceber.

- O que? – Ermakov perguntou confuso.

- O que você disse sobre o Sol nascer pelo avesso. O garoto Romanov dizia muito isso quando amanhecia mais frio do que a noite anterior. Não se lembra? – Voikov disse em tom de deboche.

- Eu disse? Nem percebi. Nunca perderia meu tempo pensando naquele garoto mimado e fracote. – Ermakov respondeu.

- Mimado até concordo, mas fracote não. O garoto tinha fibra, mais do que o pai. – Tselms disse torcendo para que os espíritos o ouvissem elogiando Alexei e o polpassem de sua fúria.

- É melhor não falarmos dos mortos por enquanto. – Netrebin disse todo arrepiado. Ele odiava lembrar daquela noite. Ainda tinha pesadelos com o olhar do garoto quando o matou. Ele já tinha matado muitas vezes

(20)

antes e cada morte acrescentava um peso em sua mente. Matar era sempre um fardo. Mas aquela noite, aquelas mortes, foram mais difíceis de suportar. Ele nunca havia matado mulheres ou crianças antes e nunca sem um ataque prévio à ele, obrigando-o a matar para se defender ou matar em guerras.

- Com medo, Natrebin? Ficou frouxo como Kudrin agora? – Ermakov disse com aquela raiva tão comum em seu interior.

- Pare com isso. – Yurovsky disse parando. Todos pararam para ouví-lo. – Vamos descansar um pouco. Todos precisamos. Tselms, você pega o primeiro turno de vigia. Qualquer sinal dos brancos ou de qualquer merda, me avise.

- Sim. – Tselms dissera se afastando um pouco do grupo para ficar numa posição melhor de vigia.

Todos se deitaram no chão arrumando-se o melhor possível para tentar dormir. O cansaço superou a falta de conforto rapidamente e todos apagaram. Algum tempo depois um uivo ecoou tão alto e sinisto que acordou a todos. Ou quase todos. Tselms e Netrebin tinham desaparecido. Talvez estivessem na mata fazendo suas

necessidades ou pegando alguma coisa para comer, não que houvesse muitas frutas nas árvores naquela época.

Quanto tempo dormiram? Horas? Minutos? Ninguém saberia dizer. Yurovsky chamou os dois desaparecidos o mais discreto que pôde temendo que os inimigos estivessem por perto, mas não houve resposta. Ermakov, Voikov e Vakanov já de pé ajudaram a procurar pelos companheiros de tragédia, mas foi em vão. Eles não poderiam ter ido longe. As mochilas de ambos ainda estavam no mesmo lugar onde haviam deixado quando o grupo foi dormir. Onde eles estavam? Os brancos os levaram? Mas porque só eles dois? Porque não pegar o grupo todo logo? Porque Tselms não gritou ou atirou quando os viu? O homem era supersticioso e medroso, ou seja, não ficaria em silêncio vendo qualquer coisa que pudesse ferí-lo. A mente de Yurovsky girava entre tantas dúvidas.

Algum tempo depois dos roncos baixos dos homens terem começado, Tselms mantinha-se alerta em seu posto. Yurovsky fizera bem em lhe dar o primeiro turno porque ele não conseguiria dormir com todo aquele medo. Seus olhos constantemente arregalados viram com a visão periférica quando Netrebin se levantou. Não foi ele se levantar o problema, foi como ele levantou. Se usar as mãos, os braços ou mesmo parecer usar as pernas. Ele simplesmente levantou como se uma corda o erguesse pela cabeça o fazendo ficar de pé. Seus olhos estavam abertos, mas ele não parecia ter consciência de nada. Tselms tentou se inspirar em seu líder e ser racional. Imaginou que Netrebin podia estar tendo uma crise de sonambulismo pelo excesso de álcool no sangue e o cansaço, ignorando deliberadamente a maneira estranha como ele levantara. Tselms ouviu muitas histórias sobre acordar sonâmbulos e não quis arriscar. Netrebin começou andar em direção à floresta e, respirando fundo, Tselms foi atrás dele. Foram só cinco ou seis passos, disso ele tinha certeza. Mas quando ele alcançou o braço do colega, um calafrio o atingiu seguido por um leve murmúrio de folhas vindos de trás dele. Ele olhou para trás e, no susto, soltou o braço de Netrebin. Atrás de Tselms onde deveria haver uma pequena clareira com seus camaradas dormindo ao redor de uma pequenina fogueira havia uma floresta densa, gélida e fria, sem pegadas ou qualquer traço de que ele havia passado por ali. Pior foi quando se voltou para Netrebin. Ou tentou porque Netrebin parecia ter evaporado no ar, sem rastros, som de passos se afastando. Nada. Era como se a floresta tivesse brotado do nada em segundos e Netrebin tivesse virado uma folha em uma das muitas árvores.

Nunca em toda sua vida Tselms se agarrou tanto a um crucifixo e à sua arma. Seu pavor era tanto que ele tinha certeza que ia enlouquecer.

Netrebin se viu de pé em frente a um pequeno lago com gelo fino o cobrindo. Como chegara ali? Nunca andara durante o sono. Ainda confuso, tentando se localizar, torcendo para não ter se afastado muito de seu grupo, ele olhou para um lado vendo um cachorro grande e bonito brincando de pegar gravetos com um rapaz de costas.

- Ei garoto! Como veio parar aqui? – Ele perguntou com a vã esperança de ser um rapaz perdido precisando de ajuda como ele. Estar naquele inferno sozinho era tudo que ele não queria.

- Me separaram da minha família. – O garoto disse ainda de gostas pegando o graveto que o cachorro lhe trouxera e se preparando para jogar de novo. – Eu era bom com navios.

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- Sei. Mas onde está sua família? – Netrebin perguntou tentando afastar aquela sensação ruim que fazia seu estômago se contorcer.

- Por aí. Você fala inglês? – O garoto perguntou.

- Sim. Minha mãe é inglesa. – Netrebin disse.

- Era. – O garoto respondeu. – Ela morreu hoje cedo.

- O que? Não, garoto. Ela está bem. Não tem graça brincar com a morte dos outros. – Netrebin disse ficando um pouco irritado, dando alguns passos decidido a olhar na cara no rapaz e dar uma bronca nele.

- Tirar a vida dos outros tem graça, então? – O garoto perguntou. – Ou você só não se importa? Odiava quando minha mãe tentava me fazer falar inglês. Eu gosto do som do russo. Gosto de me vestir como russo.

Netrebin congelou no lugar, a um braço de distância do rapaz. Ele conhecera alguém que também odiava quando sua mãe o obrigava a falar inglês. Alguém com aquela mesma altura. Mesmo porte físico. Ele sentia que não ia gostar da resposta, mas perguntou mesmo assim. – E quem é sua mãe?

O garoto se abaixou para pegar o graveto que o cachorro o entregou, mas não jogou de volta. Ele abaixou os braços e virou calmamente. Netrebin gritaria se seus pulmões não parecessem pesar uma tonelada agora. Aqules olhos fundos, as marcas de perfuração na roupa, o sangue manchando aqui e ali, os cabelos negros, as

queimaduras nojentas causadas por ácido ainda grudentas, os dentes parcialmente quebrados, e o olhar. Aquele olhar que o atormentara em pesadelos por noites e mais noites.

- Alexandra Feodorovna. – O fantasma de Alexei disse com um olhar acusatório, frio e perigoso. – Você devia saber. Roubou as joias dela depois que a mataram e quebraram seus ossos com facadas. Pega!

O cachorro, antes tão calmo e fofo, ficou com olhos amarelos brilhantes, seus dentes à mostra pareciam ter o dobro dos dentes de um cachorro normal, até seu tamanho mudou o tornando quase do mesmo tamanho de Alexei. O cão rosnava furiosamente e babava de pura raiva. Ele que não ia esperar. Virou-se e correu como se sua vida dependesse disso. E, bom, dependia mesmo. Mas o animal era grande e suas chances eram poucas. Onde diabos estava Tselms? Porque não o ajudara quando o vira se levantando? Será que o filho da mãe tinha dormido em seu posto e não o vira se levantar? Sua mente girava com muitas dúvidas, pânico, raiva, enquanto ele corria pela floresta ouvindo o cachorro correr furiosamente atrás dele. Em certo momento ele ouviu à distância o ronco de Ermakov um pouco mais alto que dos outros. Ele gritou várias vezes, mas ninguém pareceu ouvi-lo. Ele tinha que chegar até o grupo, pegar sua arma, descarregar naquele animal e torcer para isso matar aquela coisa ou atrasá-la. Depois ele mijaria no túmulo do garoto Romanov por fazê-lo passar por isso. Quando viu a luz fraca da fogueira entre algumas árvores, seu ânimo aumentou e ele correu mais rápido.

- AAAAH! – Ele gritou quando uma garota de pendurada de ponta cabeça num galho acima dele desceu do nada ficando cara a cara com ele.

- Vai a algum lugar? – Anastásia perguntou ironicamente.

Netrebrin desviou da alma penada virando um pouco para a esquerda, ainda vendo a luz da fogueira. Passou por uma árvore, só uma árvore, perdendo momentaneamente a visão da fogueira. Só o tempo de passar por uma maldita árvore. Quando passou por ela esperando ver a fogueira deu de cara com o lago congelado onde Alexei aguardava de braços cruzados, batendo um pé impacientemente no chão.

- O que? Impossível! – Netrebin murmurou para si mesmo. Ele esfregou os olhos não acreditando em seus olhos. Quando os abriu de novo Alexei não estava lá. Ufa.

- Vamos nadar? – A voz de Alexei atrás dele fez todos os pêlos de seu corpo se eriçarem. Braços fortes, fortes demais para um garoto de 13 anos, o agarraram pelos ombros e empurraram para frente. Netrebin tentava parar o movimento com auxílio de seus pés como freios, mas era como se fosse empurrado por um trem. – Me solta, demônio! Eu não vou com você pra lugar nenhum!

- Só um mergulho. Não vai doer. – Alexei disse e sua voz soava como se ele sorrisse. E sorria. – Mentira. Vai doer muito.

Netrebin sentiu as mãos saírem de seus ombros que ardiam onde elas tocaram por cima das roupas. Ele estava na beira do lago, bem na beirada mesmo. Quando respirou aliviado, foi o último alívio que sentiu. O cão veio correndo e o golpeou com a cabeça em sua coluna o jogando à uma boa distância. Ele derrapou no gelo fino, parando no meio do lago. O gelo foi trincando para todos e Netrebin ficou de quatro sobre o gelo com medo de mover qualquer músculo e acabar afundando naquela água gélida. Alexei flutuou sobre o gelo e pairou

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à frente do homem com uma expressão de raiva que faria o mais corajoso dos homens pedir o colo da mamãe.

Ele pegou o graveto de seu bolso, estendeu o braço e olhou para Netrebin.

- Não. Por favor. – Netrebin disse num sussurro implorando por sua vida.

Alexei soltou o graveto que caiu no gelo o fazendo se quebrar, levando Netrebin para baixo nas águas negras e geladas do lago. Ele afundou com aquela sensação sufocante, o gelo o aingindo como mil facas em cada um de seus póros e o pânico piorando tudo. Ele não queria morrer. Não podia morrer assim. Ele tinha planos de ser um grande herói, um homem importante. Ele não ia morrer. Ele se recusava a morrer.

Netrebin usou sua famosa força de vontade, seu instinto de sobrevivência, e nadou para cima. A esperança cresceu em seu intimo conforme via a fraca luminosidade onde o gelo se quebrara. Ele subiu. Subiu. Subiu.

Quando estava quase saindo da água, sua mão quase tocando a linha que separava água e ar, o rosto de Alexei apareceu na abertura e ele soprou simplesmente. Com seu sopro o gelo se formou em segundos fechando a abertura e se tornando mais grosso. A esperança de Netrebin se despedaçou em mil pedaços dando lugar ao desespero. Ele estava quase sem fôlego, tentou bater no gelo, mas era inútil. Ele não teria forças mais nem para quebrar o gelo fino, quanto mais aquele que parecia um pouco mais forte. Mas ele tentou algumas vezes mesmo assim. Quando começou a perder a consciência sentiu braços o puxarem para baixo e se virou vendo os olhos pequenos, fundos e furiosos que tanto o atormentaram em seus pesadelos a um ano. O fantasma de Alexei o puxou para baixo devagar fazendo as dores da pressão da água se tornarem muito piores do que já eram. O ouvidos do homem zumbiram, doeram, sangraram. Seus membros ficaram pesados e dolorosos. Seus pulmões arderam. Em segundos, que lhe pareceram 100 anos, Netrebin morreu com olhos aterrorizados focados nos olhos furiosos de Alexei. O fantasma do menino apareceu ao lado do cachorro fora do lago momentos depois, olhando para o lago congelado, enquanto o animal soltava um uivo assustador.

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