Rússia Czarista, 1915.
- Papa... isso...isso não é justo. – Olga dizia entre lágrimas, seu coração como se fosse se despedaçar.
- Porque fez isso, Olga? Você sempre foi tão responsável... – Nicolau disse e soltou um suspiro cansado. Aquilo não podia vazar. Seria um escândalo. Já foi tão difícil acabar com os boatos sobre o interesse da filha mais velha pelo simples oficial. Agora... Agora seria um desastre! Ele não poderia permitir que essa história vazasse. Nunca.
Sua imagem já não era das melhores e temia que a família imperial perdesse muito mais poder se algo assim chegasse aos ouvidos do povo e de seus inimigos.
- Eu... Me desculpe, papa! Mas eu...amo Pavel. Não pude evitar. Eu sei que ele também me ama... – Olga estava vermelha de tanto chorar.
- Ele ama sua posição social, Olga. Apenas isso. Ele é casado com a dama de companhia de sua mãe, você esqueceu isso?
- Ele casou porque vocês obrigaram ele com a ameaça de mandá-lo para longe! Foi nossa única chance de ficarmos próximos para...
- Para fazer bobagem! – Nicolau gritou e Olga deu um pulo de susto na poltrona. Nicolau era muito paciente com ela, nunca o vira tão furioso. Ele passou a mão pelos cabelos, num gesto nervoso, tentando respirar fundo.
Não adiantava nada brigar agora. Ele precisava ser prático. – Só temos duas opções, Olga. E acho que sabe quais são elas.
- Eu não posso me desfazer...
- Você terá que se desfazer, cedo ou tarde. A questão é exatamente essa: morte ou doação. Você sabe que não há outra opção. Não podemos arriscar o prestígio de nossa família com um escândalo desses. – Nicolau disse já sabendo qual seria a resposta de Olga e criando um plano para essa situação toda.
- Eu... Eu... não vou matá-lo. Prefiro entregar a alguém que o ame e que eu possa estar próxima vendo seu crescimento, pelo menos de vez em quando. – Olga respondeu decidida, mas com uma dor no peito.
- Você ficará algum tempo ainda na Cruz Vermelha auxiliando os soldados feridos, mas, quando estiver perto de ser notada essa sua...desobediência... iremos forjar um mal-estar, uma fraqueza emocional – Nicolau disse aproveitando o estado de espírito da moça que sempre fora muito emotiva e que era em parte a causa de todo esse problema – então a afastaremos e daremos isso como desculpa para sua ausência pelos meses que
faltarem.
- Mas... E quanto a quem ficará com meu... – Olga disse e se calou com o olhar feio de seu pai.
- Nunca diga essa palavra em voz alta! Não quero nem que pense nela! Se alguém descobrir... Quem ficará com ele será o próprio pai com a esposa dele. – Nicolau enfatizou a palavra ‘esposa’ para que sua filha se lembrasse de seu duplo erro. – Eles aceitarão em troca de uma grande soma em dinheiro que lhes darei e a ordem para que se afastem daqui por enquanto para não levantar suspeitas. Depois pensaremos numa forma de você se manter próxima. – Ele começou a sair enquanto Alexandra entrava no quarto para acalmar e aconselhar Olga, mas parou no caminho. – Olga.
- Sim, papa. – Ela disse de cabeça baixa, seu corpo tremendo com as lágrimas mal contidas.
- Eu sinto muito, mas você sabe que é o melhor para sua família e para essa criança. – Nicolau disse e saiu com o coração pesado. Ele odiava ter que tomar decisões difíceis assim.
Meses mais tarde, Olga fingiu um mal-estar onde trabalhava na Cruz Vermelha atendendo os soldados feridos na Primeira Guerra. Não foi difícil. Ela realmente sofria com aqueles ferimentos terríveis e a dor e o desespero estampados nos rostos dos homens. A família imperial informou ao povo que Olga tivera problemas dos nervos e uma tristeza profunda por causa dos horrores que vira e estava sendo tratada pelo médico da Corte, Eugene Botkin. Bem, estava mesmo, mas não no castelo e não de tristeza. Olga dera a luz a um menino, filho dela com seu amor da juventude, o oficial Pavel Varonov. A criança ficou poucos dias com Olga e logo foi levada por Pavel
e sua esposa para ser criado como filho primogênito deles. Quando Nicolau abdicou do trono 2 anos depois, enviou um mensageiro às presas para Pavel e o ordenou que fugisse para Inglaterra com uma carta de
recomendação o indicando para seu primo, atual rei inglês, para que o protegesse. Nunca soube se o mensageiro chegara a tempo e passou o resto de seus dias rezando para que o anonimato tivesse protegido seu único neto.
Floresta de Ipatiev, Ecaterimburgo, 1919.
Yurovsky agora tinha plena certeza que seus subordinados estavam sendo caçados um a um pelos brancos, os inimigos da revolução, apoiadores da família real, em algum tipo de jogo sádico vingador. Mas como eles
estavam fazendo isso sem deixar rastros ainda era um mistério. Cansados, confusos e sem nenhuma ideia da direção que Tselms e Netrebin tinham seguido, Yurovsky achou melhou continuarem ali e tentar descansar ao máximo, mas sem dormir, até o dia clarear. Não adiantava nada correr por aquela maldita floresta sem um plano e cansados como estavam. Ele tinha esperança de que o efeito das drogas que ele tinha certeza que foram colocadas em suas bebidas passasse com o tempo ou os inimigos se revelassem para um ataque frontal. Mesmo se suas chances fossem pequenas, lutar contra o que podiam ver era melhor do que aquela loucura.
- Os covardes desgraçados! Quando eu colocar minhas mãos neles... – Voikov bradava.
- Vai fazer o que? Fazer cara feia pra eles? Você late, mas não morde. – Ermakov provocou como sempre fazia pra mostrar ao outro homem que, por mais que ele tentasse, não tinha chances de tomar seu lugar.
Aquela conversa já estava deixando Yurovsky cansado. Ele era auto controlado, disciplinado como um bom militar, mas o cansaço e o clima tenso o estavam deixando impaciente. Vaganov por outro lado estava muito quieto num canto. Muito, muito, muito quieto. Ele era um revolucionário que se juntou à causa depois de ouvir um discurso inflamado de Kudrin e crer naquele caminho, não na ideia de que a família real era possuída por demônios, mas na ideia de que o czarismo não trazia nada de bom para o povo. No início ele realmente
acreditava que estava fazendo um bem enorme para seu país, que era um herói, mas a guerra cobra um preço alto que nem sempre estamos dispostos ou aptos a pagar. Alguns anos servindo à causa, causando ataques sorrateiros e matando qualquer um que tentasse impedir o avanço da revolução, tornaram Vaganov cada vez mais silencioso, instável com as pessoas mais próximas, solitário por causa disso, e constantemente vigilante a ponto de ser quase paranoico. Quase. Mas esse ‘quase’ estava desaparecendo naquela floresta com tantas coisas estranhas. A paranoia estava dominando sua mente e ele sabia disso, por isso estava mais quieto num canto tentando se controlar.
Seu pai fora um médico e aprendera muitos truques de medicina e primeiros socorros com ele. Quase se tornara médico, mas os anos antes da revolução tomaram todo seu tempo e empenho. Entretanto era um auto didata e seus companheiros reconheciam o conhecimento e talento natural do homem que sempre ajudara os feridos da melhor forma possível nas condições precárias antes da revolução. Os superiores até lhes forneciam medicamentos e todo material disponível para que ele atendesse os companheiros. Isso abriu portas para uma prática que Vaganov não se orgulhava. Para aguentar os horrores que vira e que fizera passou a utilizar algumas substâncias dos medicamentos que o acalmassem. Resultado: a dependência física dessas substâncias se instalou em seu organismo. Sem elas ele não conseguia controlar a sensação crescente de ser perseguido e, uma vez, matara um mendigo na rua em meio a uma crise de abstinência e só percebera o que fizera quando o homem já estava morto, com ele em cima da criatura de rosto completamente desfigurado, uma pedra enorme em ambas as mãos, vermelhas com o sangue, bem como toda sua roupa. Ele nunca comentara isso com ninguém, mas o fato se repetiu mais duas vezes em crises de abstinência quando ele achou que era forte o bastante para se livrar das substâncias sozinho, mas acabou matando uma mulher que jogou depois no rio com os bolsos dela cheios de pedras para não flutuar, e, meses depois, um jovem que nunca soubera a idade e nem queria. Era melhor não saber mesmo. Infelizmente, seus ‘remédios’ ficaram na tenda quando fugira de um animal qualquer com seus companheiros e ele não tinha muito nos bolsos. Se eles não saíssem daquela floresta até o fim do dia que estava começando, ele teria uma crise com certeza.
- Parece uma maldição. – Vaganov disse e só então percebeu que falara em voz alta.
- O que parece uma maldição? – Yurovsky que estava mais alerta ouviu, mas Ermakov e Voikov estavam ocupados demais provocando um ao outro como dois galos disputando um galinheiro. Querendo se afastar deles para não enfiar uma bala na cabeça dos dois, se aproximou e sentou ao lado de Vaganov.
- Bobagem. Só uma coisa que me passou pela cabeça agora. – Vaganov disse.
- Fale. – Yurovsky disse com aquele tom meio desconfiado, que ainda seria típico dos bolcheviques mesmo dali a décadas. Tudo para eles era motivo de desconfiança.
- Lembra-se de uma brincadeira que os guardas fizeram desenhando um pênis na parede da casa Ipatiev para ofender os olhos virginais das filhas do czar? – Vaganov se lembrou.
- Sim. Idiota, mas engraçado. O que tem isso? – Yurovsky perguntou.
- Eu estava ao lado daquela Olga de nariz arrebitado. Ela ficou furiosa. Lembro-me que disse à ela para se acalmar que ela não era mais a grã-duquesa e ali os revolucionários podiam fazer o que quisessem. Ela se virou e falou que nós nunca governaríamos a Rússia por muito tempo porque éramos perdidos na floresta que era nossa própria ambição. – Vaganov riu da menina na época, mas agora, naquela floresta, perdidos, com a discussão de Ermakov e Voikov que sempre pareciam competir pra ser o braço direito do chefe, e a lembrança da bala que enfiara na cabeça de Olga enquanto ela se benzia, o fez se arrepiar sentindo o próprio crucifixo que Tselms lhe dera horas antes.
- A garota Romanov ficou vermelhinha de vergonha, mas ficou uma gracinha assim. Queria muito ter aproveitado aquele corpinho aristocrata. – Ermakov disse ouvindo um trecho da conversa e deixando Voikov irritado e humilhado. – Ia mostrar pra ela como é um pinto de verdade. – Ele acrescentou com um sorriso nojento na cara.
- Ela com certeza já sabia como um homem é. – Yurovsky disse acendendo um cigarro dos que tinha no bolso e soltando a fumaça.
- Como assim? A chorona tinha se divertido já? – Voikov se aproximou. Ele detestava Olga porque ela era muito emotiva, fresca ao seu ver, e nunca aceitara o fato de que fora Vaganov quem acabara com a vida dela e tão rápido com uma bala na cabeça. Ele queria ter aproveitado as mulheres da família vivas.
- Bom, ela precisaria já que tivera uma cria bastarda. – Yurovsky disse sem olhar para as caras espantadas de seus colegas, focado em soprar a fumaça do cigarro.
- Os Romanov tiveram descendência? – Vaganov quase engasgou com a própria saliva.
- Um moleque de 2 anos, no máximo, na época. Filho daquele oficial júnior que a grã-duquesa ficara enrabichada em 1913. A vagabunda não respeitou nem o casamento dele com a dama de companhia da mãe dela. Nicolau Sangrento descobriu e orquestrou um plano para que a cria nascesse e depois fosse dada para adoção. – Yurovsky disse sem nenhuma emoção na voz.
- Rameirazinha! – Ermakov disse gargalhando.
- Quer dizer que a família poderosa se misturou com a ralé? AHAHAHAHA! – Voikov ria tante que ele e Ermakov até se apoiaram um no outro para gargalhar como hienas enlouquecidas.
Yurovsky estava focado em seu cigarro. Ninguém notou que Vaganov tremia visivelmente. O homem sentia como se seus órgãos chacoalhassem dentro dele. Ele olhou para uma das mãos e elas tremiam tanto que ele tinha dificuldade para enxergar as linhas das juntas dos dedos. A mão começava a parecer um borrão. Ele colocou as mãos nos bolsos do grosso casaco e se levantou. Pior erro possível. Tudo começou a rodar e uma música muito alta tocou em sua cabeça como se toda uma orquestra tocasse dentro de seu crânio. Ele colocou ambas as mãos na cabeça e tomou de joelhos no chão, o corpo curvado para frente. Ele não podia nem mesmo gritar porque sua garganta não obedecia, seus lábios tremiam tanto que seus dentes batiam um no outro sem parar. Ele até mesmo ouvira um ‘crack’ na mandíbula e viu quando pedaços de seus dentes caíram no chão à sua frente.
Yurovsky foi o primeiro a perceber quando Vaganov se levantou e começou a cair de joelhos. O superior chamou a atenção dos risonhos companheiros e se aproximaram de Vaganov perguntando o que estava acontecendo.
- A donzela está com enxaqueca? Parece a czarina. – Voikov brincou relembrando como Alexandra sempre reclamava de enxaquecas e virara piada entre o povo russo.
- Pare com isso, camarada! Isso parece sério. – Yurovsky disse tentando se aproximar de Vaganov, mas ele tremia tanto que os contornos de seu corpo estavam embaçados. Quando conseguiu tocá-lo na bochecha, tirou sua mão rápido. O homem estava tão gelado que era como tocar em um iceberg.
Vaganov sentiu arranhões dentro dele, como se tivesse engolido mini-ursos vivos e agora eles estivessem tentando sair de seu corpo. Os tremores pioraram. Sentiu algo quente tocar sua bochecha e logo sumir, mas não sabia o que era. A música em sua cabeça estava cada vez mais alta em um nível quase insuportável, seus ouvidos latejavam. A dor em sua barriga piorou, com aqueles arranhões cada vez mais fortes. Ele se sentia rasgando de dentro pra fora. Colocou os braços na barriga e tentou gritar. Em vão. Tudo acontecia ao mesmo tempo. A música estridente em seu crânio, os arranhões internos, os tremores, seus dentes se quebrando com o impacto dos tremores, seus ouvidos latejando como se fossem explodir. Tudo estava num nível insuportável quando um vulto branco passou por ele, circundando-o como se dançasse ao redor dele tranquilamente ao ritmo da música estridente em sua cabeça. O vulto se tornou mais visível conforme as dores e tremores dele pioravam. Ouviu risos femininos e de uma criança no meio daquela barulheira toda. O vulto então parou na frente dele, se balançando suavemente de uma lado pro outro, o encarando com um olho azul claro e o outro inexistente, sendo substituído por uma queimadura nojenta, suja de terra e um pó branco. A moça tinha um olhar triste e lágrimas escuras como lodo escorria do único olho bom. No meio de sua testa havia um furo que jorrava um sangue grosso que fedia demais.
Olga? Vaganov se perguntou e, assombrosamente, mesmo não tendo dito em voz alta, a mulher parecia ter ouvido porque ela sorriu para ele. Não era um sorriso maldoso, era um sorriso tranquilo e educado. Mas
Vaganov ficou mais assustado quando ela chegou um pouco mais perto e puxou o cabelo dele para trás, fazendo seu corpo se erguer um pouco com a cabeça tombada para trás, piorando muito suas dores e tremores. Ele já nem sentia seus dentes e tinha quase certeza que estavam todos quebrados. Ela colocou a unha em sua testa, no mesmo lugar onde ela tinha um furo, e apertou. A unha de Olga parecia uma faca e lentamente foi entrando no crânio dele até que seu dedo entrou completamente no buraco, fazendo Vaganov gritar mentalmente e se desesperar mais ainda porque nenhum som saía e não sabia como nada daquilo era possível, como sair disso, o que fazer.
A moça soltou sua cabeça a jogando para frente e só então Vaganov notou que a menina não tinha um dedo.
O dedo que ela literalmente enfiara em seu crânio. O dedo que ele roubara secretamente de seu cadáver e quardara em um frasco de formol em sua casa como um troféu. Ela sorriu, cruelmente desta vez, percebendo que ele tinha entendido. Ela voltou a dançar ao redor dele e ele vomitou um líquido claro, depois amarelado, os tremores tão intensos que mal se enxergava os contornos do homem e aquela músicas estridente que só tocava em seu crânio. O vômito não parava, na verdade só piorava com os arranhões que sentia. Quando não tinha mais nem bile para vomitar ele vomitou sangue, mais sangue e então, com uma dor avassaladora, vomitou sangue com seu próprio estômago. Isso fez até Yurovsky virar a cabeça enojado.
Mas não diminiu. Vaganov até então ajoelhado, caiu encolhido, com os braços na frente da barriga, se contorcendo sobre o próprio vômito sangrento, tremendo. De repente ele gritou e colocou as mãos na própria cabeça, seus ouvidos sangravam, seus tímpanos estavam em frangalhos, mas ainda sim a música tocava mais alta em sua mente e o fantasma dançava ao seu redor. Não. Não era um fantasma. Eram vários. A família morta e mais alguns. Os servos? Ele não tinha certeza. Estava enlouquecido de dor, desespero e medo. Mas aquilo não aprava. Não diminuía. Só piorava. Tudo só piorava. Foi quando ele começou a bater a própria cabeça no chão repetidas vezes, sem parar, nem mesmo se importando com a dor. Ele estava completamente louco. Em dado momento os companheiros saíram do choque perante aquela cena grotesca e tentaram fazer o homem parar, mas ele se soltou com a agilidade de um gato e correu até uma árvore próxima batendo sua cabeça no tronco até perder a noção de tudo, sem forças pra mais nada. Ele caiu fraco, quase morto, desfigurado, imóvel. Ermakov se aproximava lentamente pra verificar se o louco estava morto, mas parou quando do nada, por algum milagre, Vaganov levantou, de costas para ele.
- Como ele está vivo? O miserável nem rosto não tem mais. – Voikov dizia abismado.
Eles não viam que Olga o influenciou para que seu corpo semi-morto levantasse e então ela o empurrou para frente, fazendo parecer que ele corria alguns passos até se chocar uma última vez com uma árvore muito grossa que parecia ter centenas de anos. Agora sim, ele estava morto e Olga dançava ao redor dele tranquila. De
repente ela parou, virou-se e seu olhar pousou em Yurovsky. Aquele olhar era muito mais terrível do que o olhar que Vaganov vira. Não era tristeza. Era ódio. Yurovsky não podia vê-la, mas sentiu um mal estar repentino
seguido por uma sensação gelada que percorreu sua coluna, fazendo suas pernas ficarem repentinamente geladas.
Questões
- Pai Nosso que estais no céu... – Era a décima oitava vez seguida que Tselms repetia o Pai Nosso segurando seu crucifixo no pescoço com uma mão e carregando a arma com a outra, os nós dos dedos já brancos com a força usada.
Ele estava andando sozinho a tanto tempo que tinha perdido a noção da hora ou de onde estava. Todas as árvores pareciam iguais. Seu treinamento de sobrevivência parecia inútil. Nenhuma das referências que poderia usar estavam normais. As estrelas estavam encobertas pela densidade anormal de árvores, ele não tinha
coragem de subir nelas porque sentia que algo o observava daquelas árvores, o Sol que já devia ter se erguido a horas não dava nem o mínimo sinal, e o frio estava cada vez pior, anormalmente pior. Uma tempestade de neve estava se aproximando? Por isso o Sol ainda estava oculto? Não, não fazia sentido. Nenhuma tempestade
apagaria completamente os vestígios do Sol daquele jeito como se fosse meia-noite o tempo todo. Mas e aquelas árvores todas? A floresta não era tão densa assim. Ele conhecia a região porque patrulhara aquela floresta
muitas vezes durante o tempo que servira na honrada missão de manter a família imperial presa. E aquela sensação de estar sendo observado que nunca passava...
- Ridículo! Isso é ridículo, Tselms! – Ele disse a si mesmo imaginando o que Yurovsky ou Ermakov lhe diriam.
- Ridículo! Isso é ridículo, Tselms! – Ele disse a si mesmo imaginando o que Yurovsky ou Ermakov lhe diriam.