Processo
1445/20.5YRLSB-6
Data do documento 20 de janeiro de 2022
Relator
Nuno Lopes Ribeiro
TRIBUNAL DA RELAÇÃO DE LISBOA | CÍVEL
Acórdão
DESCRITORES
Anulação de decisão arbitral > Incidente de recusa > Superveniência
SUMÁRIO
I. A impugnação da sentença do juiz arbitral para o tribunal judicial apenas pode ser efectuada pela via do pedido da sua anulação, com algum dos fundamentos taxativamente previstos no artº 46º da LAV.
II. Apenas será possível lançar mão de um pedido de anulação de decisão arbitral com fundamento na ausência de independência e imparcialidade dos árbitros, nos casos em que a parte não tenha podido suscitar um incidente de recusa no âmbito do processo arbitral, em virtude da superveniência objectiva ou subjectiva das circunstâncias fundamentadoras de tal pedido.
III - Porque ao tribunal está vedado a apreciação do mérito da sentença, a sua anulação por falta de fundamentação fáctica ou jurídica apenas emerge se esta, de todo, inexistir ou se não for perceptível o iter lógico jurídico que nela se seguiu para dirimir o litígio.
IV. A excepção de ordem pública internacional ou reserva de ordem pública, apenas releva em caso de aplicação de lei estrangeira ou internacional ou estipulação contratual que vincule as partes e pressupõe a análise da sua conformidade com os princípios da ordem pública do ordenamento jurídico nacional.
(Pelo Relator).
TEXTO INTEGRAL
N | | Texto Parcial: | S | | | | | Meio Processual: | APELAÇÃO | | Decisão: | IMPROCEDENTE | | | | | Sumário: | I. A impugnação da sentença do juiz arbitral para o tribunal judicial apenas pode ser efectuada pela via do pedido da sua anulação, com algum dos fundamentos taxativamente previstos no artº 46º da LAV.
II. Apenas será possível lançar mão de um pedido de anulação de decisão arbitral com fundamento na ausência de independência e imparcialidade dos árbitros, nos casos em que a parte não tenha podido suscitar um incidente de recusa no âmbito do processo arbitral, em virtude da superveniência objectiva ou subjectiva das circunstâncias fundamentadoras de tal
pedido.
III - Porque ao tribunal está vedado a apreciação do mérito da sentença, a sua anulação por falta de fundamentação fáctica ou jurídica apenas emerge se esta, de todo, inexistir ou se não for perceptível o iter lógico jurídico que nela se seguiu para dirimir o litígio.
IV. A excepção de ordem pública internacional ou reserva de ordem pública, apenas releva em caso de aplicação de lei estrangeira ou internacional ou estipulação contratual que vincule as partes e pressupõe a análise da sua conformidade com os princípios da ordem pública do ordenamento jurídico nacional.
(Pelo Relator) | | Decisão Texto Parcial: | Acordam os Juízes na 6ª Secção Cível do Tribunal da Relação de Lisboa:
I. O relatório
R…. apresentou acção de anulação de acórdão arbitral, contra Sporting Clube de Portugal - Futebol, SAD, peticionando a anulação dos acórdãos arbitrais proferidos pelo Tribunal Arbitral do Desporto ("TAD") em 18 de Março de 2020 e 6 de Julho de 2020.
Alega, para tanto e em síntese, que, em 07.08.2018, intentou ação arbitral contra a Requerida, a qual correu termos no Tribunal Arbitral do Desporto sob o número 61/2018, em que peticionou o reconhecimento da justa causa de resolução de contrato de trabalho desportivo e a condenação da Requerida a pagar ao Requerente (i) € 290.000,00 a título de indemnização pela cessação do contrato de trabalho nos termos do n.° 1 do artigo 24.° da Lei n.° 54/2017 de 14 de julho e (ii) € 100.000,00 a título de indemnização pela prática de assédio moral contra o Requerente nos termos do n.° 4 do artigo 29.° do Código do Trabalho.
A Requerida deduziu pedido reconvencional em que peticionou a condenação do Requerente a pagar à Requerida uma indemnização de € 45.292.516 acrescida de juros desde a citação pelos prejuízos causados com a cessação ilícita do contrato de trabalho desportivo.
Em 18.03.2020, o Requerente foi notificado do Acórdão Arbitral, proferido nessa data, nos termos do qual a Requerida foi condenada a pagar ao Requerente uma indemnização pela prática de assédio moral no valor de € 40.000,00 e o Requerente foi condenado a pagar à Requerida uma indemnização pela alegada cessação ilícita do Contrato de Trabalho Desportivo no valor de € 16.500.000,00.
Em 03.04.2020, o Requerente apresentou ação de anulação do Acórdão Arbitral de 18.03.2020, que correu termos neste Tribunal sob o número de processo 960/20.5YRLSB.
Sucede que, entretanto, não só a Requerida solicitou, em 24.04.2020, no processo arbitral a prolação de sentença adicional, tendo em vista a condenação do Requerente no pagamento de juros, como, em 28.04.2020, o Requerente constituiu novos mandatários no processo arbitral, através dos quais tomou conhecimento de circunstâncias que desconhecia relativamente à imparcialidade e independência do árbitro nomeado pela Requerida e com base nos quais o Requerente então deduziu, em 05.06.2020, incidente de recusa do árbitro no processo arbitral.
Tendo ainda apresentado um requerimento de arguição de nulidade do Acórdão Arbitral, em
05.06.2020.
Pelas razões descritas, o Requerente, em 29.05.2020, desistiu da instância em relação à ação de anulação intentada em 18.03.2020, tendo a desistência sido homologada por sentença proferida em 24.06.2020.
Tendo sido o incidente de recusa indeferido pelo Presidente do Tribunal Arbitral do Desporto em 06.07.2020, o Tribunal Arbitral proferiu na mesma data Decisão Adicional condenando o Requerente no pagamento de juros e, simultaneamente, decisão indeferindo as nulidades arguidas pelo Requerente e confirmando integralmente o Acórdão Arbitral de 18.03.2020.
Em face do exposto, vem o Requerente apresentar a presente ação de anulação do Acórdão Arbitral de 18.03.2020, alterado por Decisão Adicional de 06.07.2020, nos termos e para os efeitos do artigo 48.° da Lei n.° 74/2013, de 6 de setembro (Lei do Tribunal Arbitral do Desporto, doravante “Lei do TAD”), do artigo 33.° do Regulamento de Processo e de Custas Processuais no âmbito da Arbitragem Voluntária do Tribunal Arbitral do Desporto (doravante
“Regulamento de Arbitragem Voluntária”) e do artigo 46° da Lei n.° 63/2011, de 14 de dezembro (Lei da Arbitragem Voluntária, doravante “LAV”).
Requerendo a anulação das duas decisões com fundamento em falta de fundamentação, conhecimento de questões de que o Tribunal Arbitral não podia tomar conhecimento, ofensa dos princípios da ordem pública internacional do Estado Português e violação da independência e imparcialidade dos árbitros.
Citada, a requerida deduziu oposição, propugnando pela improcedência da presente acção.
O requerente respondeu, propugnando pela improcedência das excepções que entendeu deduzidas na oposição.
*
II. O objecto e delimitação da acção
São as seguintes as questões a resolver por este Tribunal:
- Da alegada falta de imparcialidade e independência do árbitro indicado pela requerida;
- Da alegada contradição entre os fundamentos e entre os fundamentos e a decisão;
- Da alegada ininteligibilidade da fundamentação da decisão de condenação do requerente e redução equitativa da indemnização fixada;
- Do excesso de pronúncia;
- Da alegada ofensa à Ordem Pública Internacional.
*
III. Os factos
Receberam-se, do Tribunal Arbitral, os seguintes factos provados:
1) O Demandante e a Demandada celebraram, no dia 14 de setembro de 2017, contrato de trabalho desportivo para a prática da atividade de futebol profissional, na categoria sénior, para as épocas desportivas de 2017/2018, 2018/2019, 2019/2020, 2020/2021e2021/2022;
2) O Contrato de Trabalho Desportivo encontrava-se registado junto da Federação Portuguesa de Futebol (adiante "FPF") e da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (adiante "LIGA").
3) O contrato de trabalho era regido pelas seguintes cláusulas:
1. «D JOGADOR obriga-se a continuar a prestar com regularidade a actividade de futebolista da SPORTING, SAD, em representação e sob autoridade e direcção desta, com início no dia 1 de Julho de 2017 e termo no dia 30 de Junho de 2022.
2. A SPORTING, SAD obriga-se a pagar ao JOGADOR, durante a vigência do contrato, as seguintes remunerações globais ilíquidas:
a) Época 2017/18: €60,000,00 (sessenta mil euros) que serão pagos através de 12 prestações mensais, sucessivas e iguais de 5.000,00 (cinco mil euros) cada, sendo que juntamente com a remuneração do mês de Setembro de 2017 será pago o montante ilíquido de 1.666,00 (mil, seiscentos e sessenta e seis euros) relativo ao diferencial entre as remunerações de Julho e Agosto de 2017 já liquidadas ao JOGADOR, ao abrigo do contrato de trabalho desportivo ora revogado e as ora acordadas, as quais incluem os proporcionais correspondentes aos subsídios de férias e de Natal, e se vencem no dia 11 do mês seguinte àquele a que disserem respeito;
b) Época 2018/2019: € 65.004,00 (sessenta e cinco mi/ e quatro euros) que serão pagos através de 12 prestações mensais, sucessivas e iguais de € 5.417,0 (cinco mil, quatrocentos e dezassete euros) cada, as quais incluem os proporcionais correspondentes aos subsídios de férias e de Natal, e se vencem no dia 11 do mês seguinte àquele a que disserem respeito;
c) Época 2019/20: € 70.008,00 (setenta mi! e oito euros) que serão pagos através de 12 prestações mensais, sucessivas e iguais de 5.834,00 (cinco mil, oitocentos e trinta e quatro euros) cada, as quais incluem os proporcionais correspondentes aos subsídios de férias e de Natal, e se vencem no dia 11 do mês seguinte àquele a que disserem respeito;
d) Época 2020/21: € 75.000,00 (setenta e cinco mil euros) que serão pagos através de 12 prestações mensais, sucessivas e iguais de € 6.250,00 (seis mil duzentos e cinquenta euros) cada, as quais incluem os proporcionais correspondentes aos subsídios de férias e de Natal, e se vencem no día 11 do mês seguinte àquele a que disserem respeito.
e) Época 2021/22: € 80.004,00 (oitenta mil e quatro euros) que serão pagos através de 12 prestações mensais, sucessivas e iguais de 6.667,00 (seis mil, seiscentas e sessenta e sete euros) cada, as quais incluem os proporcionais correspondentes aos subsídios de férias e de Natal, e se vencem no dia 11 do mês seguinte àquele a que disserem respeito.
3. Ao JOGADOR é conferido o direito a receber prémios de performance, caso venha a participar, no mínimo de 45 (quarenta e cinco) minutos por jogo, a contar para a liga NOS e competições europeias, na equipa principal sénior da SPORTING, SAD, na mesma época desportiva, cujo valor é determinado em função do número mínimo de jogos oficiais em que participe, nos seguintes termos:
a) 5 (cinco) jogos: € 20.000,00 (vinte mil euros), ou, b) 10 (dez) jogos: € 40.000,00 (quarenta mil euros), ou, c) 20 (vinte) jogos: € 60.000,00 (sessenta mil euros), ou, d) 25 (vinte e cinco) jogos: € 80.000,00 (oitenta mil euros), ou, e) 35 (trinta e cinco) jogos: € 100.00,00 (cem mil euros).
§ Todos os prémios aferem-se dentro da mesma época desportiva, não são cumulativos entre si, são ilíquidos e serão pagos juntamente com a remuneração que se vence no mês seguinte ao da concretização de cada objectivo.
4. A SPORTING, SAD poderá, ainda, pagar ao JOGADOR prémios de classificação que sejam por si estabelecidos para a equipa principal sénior, se nela se encontrar efectivamente integrado, em função dos resultados por aquela obtidos, sendo a definição dos critérios de atribuição e pagamento desses prémios feita pela SPORTING, SAD no início de cada época ou jogo a jogo.
5. Ao JOGADOR é assegurado o período de férias previsto no CCT aplicável
6. Ao JOGADOR fca vedado, no período de duração do contrato, a prática de qualquer actividade desportiva, não previamente autorizada pela SPORTING, SAD bem como o exercício de qualquer actividade laboral ou empresarial, salvo se para tal obtiver o consentimento escrito desta Sociedade.
7. O JOGADOR obriga-se a usar nos jogos, treinos, estágios e deslocações o vestuário, equipamento e calçado da marca que a SPORTING, SAD lhe fornecer, com exceção das chuteiras, cuja cor fica sujeita à aprovação da SPORTING, SAD, e a respeitar os contratos de publicidade celebrados pela mesma ou qualquer sociedade detida directa ou indirectamente por si ou pelo Sporting Clube de Portugal, cedendo, ainda, à SPORTING, SAD, quer durante a vigência, quer após a cessação do mesmo, desde que referentes a acções realizadas durante a vigência do contrato, o direito de explorar comercialmente os seus direitos de imagem, som e voz, seja individualmente, seja em conjunto com os restantes jogadores, podendo a exploração dos direitos cedidos ser feita através da SPORTING, SAD ou através de qualquer sociedade detida directa ou indirectamente por si, ou pelo SPORTING CLUBE DE PORTUGAL. 0 JOGADOR obriga-se a prestar toda a colaboração e participar nas ações promocionais e publicitárias que lhe sejam solicitadas no âmbito da exploração comercial dos direitos ora cedidos.
8. Ao JOGADOR é conferido o direito de rescindir unilateralmente o presente contrato sem necessidade de invocação de justa causa, ficando imediatamente desvinculado laboral e desportivamente da SPORTING, SAD nas seguintes condições:
a) A rescisão só poderá ter lugar nos períodos compreendidos entre os dias 15 de Maio e 15 de Junho de cada época desportiva, devendo ser enviada comunicação à SPORTING, SAD com 15 dias de antecedência à data em que a mesma deva operar os seus efeitos;
b) Cumulativamente com a comunicação referida na alínea anterior, deverá ser efectuado à SPORTING, SAD um pagamento imediato no montante de € 45.000.000,00 (quarenta e cinco milhões de eurosj;
c) Feita a comunicação com o aviso prévio e nos prazos previstos na alínea
a) e paga a verba mencionada na alínea b) antecedente, a SPORTING, SAD obriga-se a desvincular laboral e desportivamente o JOGADOR e, ainda, caso para tal seja solicitada, a autorizar a F.P.F. a proceder ao envio do respectivo Certificado Internacional para qualquer Clube estrangeiro que o tenha requerido.
9. As partes obrigam-se mutua e reciprocamente, face a qualquer situação de litígio,
incumprimento ou divergência relativamente aos termos, condições e execução do presente contrato, e previamente a qualquer outra iniciativa de natureza contenciosa, a interpelar a outra parte tendo em vista uma solução consensual do diferendo no prazo de trinta dias contados dessa interpelação, sem que o incumprimento ou divergência seja invocável como motivo de ruptura do contrato por qualquer das partes, aceitando ambos as outorgantes que esta cláusula foi essencial para a celebração do presente contrato, nos exactos termos e condições ora exarados.
10. Sem prejuízo do disposto no número 9 antecedente, as Partes acordam conferir competência exclusiva e definitiva para dirimir todo e qualquer litígio emergente deste Contrato ou com ele relacionado ao Tribunal Arbitrai do Desporto (TAD), de acordo com o disposto na Lei do TAD, aprovada pela Lei n.° 74/2013, de 6 de Setembro, e no Regulamento de Processo e de Custas Processuais no âmbito da Arbitragem Voluntária do TAD.
ll. No caso de uma das partes rescindir o presente contrato alegando para tal justa causa e a Tribunal Arbitrai da Desporto, de acordo com o estabelecido no número 10 antecedente, não reconhecer a sua existência, ficará constituída na obrigação de indemnizar a contraparte pelos prejuízos causados pela conduta ilícita, fixando-se, desde já, a título de cláusula penal, o montante indemnizatório a pagar e que será o seguinte:
- na hipótese de ser a SPORTING, SAD a rescindir ilicitamente, fica obrigada a pagar ao JOGADOR uma indemnização correspondente ao valor das remunerações vincendas até final do contrato, podendo, no entanto, proceder à dedução na indemnização dos valores que o JOGADOR venha a receber pela prestação da mesma actividade a outra entidade desportiva durante o período correspondente ao prazo do contrato rescindido;
- na hipótese de ser o JOGADOR a rescindir ilicitamente fica obrigado, no âmbito jurídico- laboral, a pagar à SPORTING, SAD uma indemnização correspondente ao valor das remunerações que haveria de receber até final do contrato rescindido, ficando a sua inscrição por parte de um terceiro Clube dependente, no âmbito jurídico-desportivo, do pagamento do montante de 45.000.000,00 (quarenta e cinco milhões de euros), correspondente à valorização dos direitos de participação desportiva do JOGADOR feita pelas partes no presente contrato.
12. A SPORTING, SAD obriga-se a ter a ficha médica do JOGADOR devidamente actualizada, a qual será remetida para apreciação das entidades competentes sempre que para tanto seja solicitada e, ainda, que o JOGADOR está vacinado contra o tétano, frequenta com assiduidade e aproveitamento o curso de ginástica, reúne as condições necessárias para a prática do futebol e tem capacidade para a celebração do presente contrato.
13. Em tudo o que não estiver previsto no presente contrato aplicar-se-á o CCT outorgado entre o Sindicato Nacional dos Jogadores Profissionais de Futebol e a Liga Portuguesa de Futebol Profissional.
14. A SPORTING, SAD obriga-se a subscrever, bem como a suportar os respectivos custos dos seguros obrigatórios, ou seja, o Seguro Desportivo, bem como o Seguro de Acidentes de Trabalho, cujo beneficiário é o próprio Jogador ou a sua família. 0 JOGADOR habilita, desde já, a
SPORTING, SAD a subscrever outras apólices de seguro que entenda por convenientes, ficando esta Sociedade responsável pelo pagamento dos respectivos custos, bem como a única e exclusiva Benefciária.
15. Para efeitos do presente contrato, as partes declaram que não se fizeram representar por intermediários.
16. O JOGADOR obriga-se, directamente ou por interposta pessoa, a não fazer apostas ou de qualquer modo participar em jogos de azar referentes às competições em que as equipas da SPORTING, SAD participem ou previsivelmente venham a participar, nomeadamente, apostas online, casas de jogos, casas de apostas e afins.
17. O JOGADOR obriga-se a manter sigilo sobre os assuntos e informações do foro interno da SPORTING, SAD, seu clube fundador e sociedades do Grupo Sporting, que venha a ter conhecimento ou acesso no exercício das suas funções, na vigência do contrato e depois da sua cessação.
18. O JOGADOR obriga-se, ainda, a cumprir e respeitar o estipulado no Regulamento Interno da SPORTING, SAD, bem como as normas de conduta na Academia Sporting, e os procedimentos e determinações por esta emanados, de que tem conhecimento.
19. O JOGADOR declara aceitar, integralmente e sem reservas, os compromissos arbitrais previstos no Regulamento das Competições organizadas pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional e no Regulamento Disciplinar das Competições organizadas pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional relativamente a todos os litígios emergentes da aplicação dos referidos Regulamentos.
20. As partes acordam, desde já, que todas as disposições relativas ao contrato de trabalho desportivo, celebrado no dia 23 de Outubro de 2015 e eventuais contratos-promessa e aditamentos celebrados nessa mesma data, se encontram expressamente revogadas devido à celebração do presente Contrato.». - Cfr. o Doc. n-1 junto com a petição inicial.
4) Na mesma data, 14 de setembro de 2017, foi celebrado, entre as mesmas partes, um aditamento ao contrato de trabalho desportivo, com a seguinte cláusula única:
" A título de contrapartida pela celebração do Contrato de Trabalho Desportivo até ao dia 30 de Junho de 2022, a SPORT1NG, SAD atribui ao JOGADOR a título de prémio de assinatura, o montante ilíquido de € 180.000,00 (cento e oitenta mil euros), a liquidar em 50% juntamente com a remuneração de Setembro de 2017 e 50% juntamente com a remuneração de Dezembro de 2017."
5) Por carta registada com aviso de receção, datada de 14 de junho de 2018, o Demandante comunicou à Demandada a resolução com justa causa do Contrato de Trabalho Desportivo celebrado entre as partes em 14 de setembro de 2017 e em vigor para as épocas de 2017/2018 a 2021/2022, carta com o seguinte teor:
"I - Introito
Tendo o signatário celebrado com a Sporting Clube de Portugal - Futebol SAD um contrato de trabalho desportivo em 17 de Setembro de 2017 - cuja cópia se junta e se dá por integralmente
reproduzida - considera que um conjunto de factos aos quais é completamente alheio, ocorridos nos últimos meses de vigência do referido contrato, e que só à entidade patronal podem ser imputados (infra melhor descritos), são gravemente violadores dos seus direitos laborais, nomeadamente no que concerne à sua dignidade profissional e enquanto pessoa, colocando em causa a sua integridade física e segurança, e tomando praticamente impossível a subsistência da relação laboral desportiva com V. Exas.
(…) O signatário não se conforma com o facto de exercer a sua profissão num contexto em que sente, individualmente e em todo o grupo que integra, uma culpabilização constante, injusta, e até algo instigadora. 0 contexto de crítica, pública e cerrada, sob o qual o signatário e os seus colegas foram colocados pelo Sr. Presidente afetou o seu desempenho, pois deixou de poder exercer a sua profissão de forma livre, realizada, e focada.
Veja-se, a título de exemplo, as mensagens enviadas aos capitães de equipa na sequência de uma vitória sobre o Rio - Ave (2-0):
"19 DE MARÇO DE 2018
Boa noite. E depois dizem-me que eu não defendo o grupo. Vocês são uns convencidos que não nada nem ninguém. Agora podem ir mostrar isto ao grupo, ficarem amuados mas realmente é uma decepção as vossas atitudes.
(….)Tal crispação teve o apogeu no jogo que se realizou em Madrid, na primeira mão dos quartos de final da Liga Europa, em que a equipa viria a perder por 2 a 0.
Infelizmente, o signatário lesionou-se no dia 27 de Março de 2018, ao serviço da Seleção Nacional de Sub-21, o que afastou a possibilidade de representar o SCP numa das competições mais emblemáticas do mundo do futebol.
Acalentava fortes expectativas de poder atuar num dos mais reconhecidos palcos Europeus, mas, acima de tudo, poder ajudar a equipa na conquista de um troféu tão prestigiado como aquele - o que, nessa fase da época, significava que o trabalho feito até então estava no caminho correto, com provas já dadas, aliás, mediante a vitória no primeiro título nacional em disputa no ano civil de 2018 - título esse que foi o primeiro da história do clube nessa competição.
Por isso, foi com enorme desilusão que o subscritor se viu impedido de participar no referido jogo, não deixando contudo de se sentir envolvido no grupo que ia jogar, e no trabalho coletivamente realizado para atingir mais um objetivo.
Pese embora se compreenda a frustração de uma derrota - nós, jogadores, somos os primeiros a sofrê-la - nada prepara um grupo coletivo de trabalho para o que se viria a seguir por parte do Sr. Presidente da Sporting Futebol Clube - Futebol SAD, que publicou o seguinte nas redes sociais:
(…) Como já supra mencionado, enquanto atleta, profissional e dedicado, o signatário não pôde deixar de se sentir vexado e indignado, como o ficaram também os seus colegas de equipa, jamais imaginaria o grupo que o responsável máximo do SCP-SAD, ao invés de tentar agregar jogadores, direção e adeptos para os desafios que se avizinhavam: optasse por assumir uma
atitude crítica, severa, e que em nada ajuda os atletas a manter uma postura emocional adequada em alta competição.
Em resultado dessa mesma publicação, os jogadores solicitaram ao Team Manager…, uma reunião com o Sr. Presidente para o dia 06 de Abril de 2018, ficando a mesma adiada para o dia 8, ou seja, após o jogo frente ao Paços de Ferreira.
Assim sendo, os jogadores reuniram-se em Alvalade, nesse mesmo dia, para discutir as ações a tomar para poder restabelecer o bom nome e honra dos mesmos.
Em resultado dessa mesma reunião, foi elaborado um texto com o seguinte teor:
"Somos Sporting Clube de Portugal, em nome do plantel, somos a informar o seguinte...
Suamos, lutamos e honramos sempre a camisola que vestimos.
Não somos perfeitos e não acreditamos em jogadores perfeitos, porque queremos sempre evoluir!
Não existem jogadores nem equipas perfeitas, mas quando as coisas não correm como queremos, sabemos assumir as nossas responsabilidades. Todos nós temos de o fazer!
(…) Reafirma-se que estes factos são públicos e notórios e, em circunstância alguma, especialmente acautelados ou reprimidos pela Direção do Sporting Clube de Portugal, deixando os jogadores à sua sorte e à mercê dos acontecimentos, premeditadamente à espera do lamentável desfecho que se tornou inevitável.
Vivia-se um ambiente de enorme crispação e "guerrilha", em relação a toda a equipa de futebol profissional do SCP.
Na segunda feira, dia 14 de Maio de 2018, para as 18horas, foi marcada uma reunião, entre os jogadores e a direção do Sporting Clube de Portugal - Futebol SAD, onde estiveram presentes o seu presidente, acompanhado por 3 membros da direção e o Team Manager, bem como todos os jogadores.
Logo de início foram os jogadores surpreendidos com a antecipação do treino de quarta para terça feira.
(…).
Todas as condutas acima descritas do Sr. Presidente do Sporting Clube de Portugal e da sua SAD, reforçadas pelo que resulta do magistrado de Instrução Criminal, titular do processo, são suficientes para destruir irremediavelmente a relação de trabalho existente, bem como a segurança e confiança que o signatário neles deveria depositar.
A forma como o ataque a Alcochete ocorreu não pode deixar de configurar negligência grosseira que confere justa causa de resolução do contrato de trabalho, nos termos do disposto no artigo 394, nº 2, al. b) eddo do Código de Trabalho.
Veja-se a título de exemplo:
(…) 44) No dia 6 de abril de 2018, a Ré moveu um processo disciplinar ao Autor, mediante o envio da respetiva nota de culpa nos seguintes termos:
No seguimento da deliberação do Conselho de Administração da Sporting Clube de Portugal — Futebol, SAD, de 6 de Abril de 2018, foi intentado na mesma data contra R.. (doravante
"JOGADOR", - TRABALHADOR ARGUIDO" ou simplesmente, TRABALHADOR"), processo disciplinar.
Assim, nos termos previstos no Contrato Colectivo de Trabalho entre a Liga Portuguesa de Futebol Profissional e o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol, na Lei 54/2017 de 14 de julho e no Código do Trabalho, foi elaborada a Nota de Culpa anexa que aqui se entrega.
Ademais, nos termos do Contrato Coletivo de Trabalho outorgado entre a Liga Portuguesa de Futebol Profissional e o Sindicato de jogadores Profissionais de Futebol no seu artigo 16 n.°4
"com a notificação cia nota cie culpa, pode a entidade patronal suspender preventivamente o trabalhador, sem perda de retribuição, se a presença se mostrar inconveniente".
Nesta medida, e por tudo o exposto na nota de culpa, o TRABALHADOR deverá considerar-se suspenso sem perda de retribuição a partir do dia 6 de Abril de 2018 uma vez que a sua presença criará instabilidade revestindo um inconveniente ao normal desenvolvimento da atividade.
A resposta à nota de culpa deverá ser enviada ao cuidado dos instrutores atualmente nomeados no processo, a saber, Dr….Por fim, resta salientar que o processo se encontra à disposição para consulta na sede da Instaurante Sporting Clube de Portugal — Futebol SAD, nos dias úteis, das 15:00 às 18:00, mediante marcação prévia.».
45) Em anexo à carta referida no número anterior foi remetida ao Demandante uma Nota de Culpa, pela qual se imputam os seguintes factos:
(….);
191) O contrato celebrado entre o Autor e o Lille não prevê qualquer cláusula de rescisão até porque a legislação francesa não prevê tal possibilidade;
192) Após a assinatura do contrato com o Lille, surgiram algumas dificuldades com o registo e homologação do contrato de trabalho desportivo do Autor, em função de medidas de controlo financeiro aplicadas ao Lille pela DNCG;
193) Em agosto de 2018, já com a comissão de gestão instalada no Sporting, em face das dificuldades em obter o registo e respetiva homologação do seu contrato de trabalho desportivo, o Autor contactou a Ré, na pessoa do seu ex-treinador, TF…, manifestando o seu desejo em regressar à equipa do Sporting;
(…) 208) Por ocasião da carta de rescisão enviada pelo Autor ao Lille, o prémio de assinatura do agente do Autor ainda não tinha sido pago pelo Lille e, por conseguinte, o pai do Autor tão- pouco tinha recebido a sua respetiva comissão;
209) No dia 7 de setembro, o contrato de trabalho desportivo que vinculava o Demandante ao Lille foi homologado pela Federação Francesa de Futebol
210) O Autor era e continua a ser um dos jogadores mais valiosos e prometedores da sua geração;
211) O valor de mercado do Autor, à data da rescisão contratual por si promovida, situava-se, pelo menos, entre os € 15.000.000,00 (quinze milhões de euros) e os €18.000.000,00 (dezoito milhões de euros);
212) A Ré investiu elevadas quantias na formação do Autor enquanto futebolista profissional;
213) O Autor era claramente encarado como um potencial contributo financeiro para equilibrar as contas da Ré;
214) Há muito que a Ré tem como estratégia financeira a formação de jogadores e a sua posterior venda por quantias significativas;
215) À data da sua fixação, os valores estabelecidos nas cláusulas de rescisão são sempre superiores ao valor de mercado dos jogadores;
216) Apesar de ser política da Ré a fixação de cláusulas de rescisão no valor € 60.000.000,00 (sessenta milhões de euros) para jogadores que atuem na mesma posição do Autor (avançados), as partes negociaram e acordaram na fixação da cláusula de rescisão do Autor em
€ 45.000.000,00 (quarenta e cinco milhões de euros);
217) Em agosto de 2019, o Autor foi transferido para o AC Milan, tendo assinado um novo contrato de trabalho desportivo com esse clube a vigorar por 5 épocas desportivas.
*
IV. O Direito
A ação arbitral foi apresentada ao abrigo da cláusula compromissória prevista na cláusula 10ª do Contrato de Trabalho Desportivo, nos termos da qual:
“10. Sem prejuízo do disposto no número 9 antecedente, as Partes acordam conferir competência exclusiva e definitiva para dirimir todo e qualquer litígio emergente deste Contrato ou com ele relacionado ao Tribunal Arbitral do Desporto (TAD), de acordo com o disposto na Lei do TAD, aprovada pela Lei n.° 74/2013, de 6 de Setembro, e no Regulamento de Processo e de Custas Processuais no âmbito da Arbitragem Voluntária do TAD”
O colégio arbitral que conduziu e dirimiu a ação arbitral foi composto por três árbitros: - SC…
(Presidente do Colégio Arbitral); - NA… (Árbitro designado pela Demandada); - JS… (Árbitro designado pela Demandante).
A decisão arbitral de 18 de Março de 2020, apreciou juridicamente os factos em questão da seguinte forma:
O contrato de trabalho em causa nos presentes autos e que consta da matéria de facto dada como provada em 1) a 3) é um contrato de trabalho de praticante desportivo para efeitos disposto na Lei n.e 54/2017, de 14 de julho.
Por contrato de trabalho desportivo entende-se o contrato pelo qual o praticante desportivo se obriga, mediante retribuição, a prestar atividade desportiva a uma pessoa singular ou coletiva que promova ou participe em atividades desportivas, no âmbito de organização e sob autoridade e direção desta.
Esta noção de contrato de trabalho tem a sua génese no disposto no artigo 1152.- do Código Civil e no artigo 11.!- do Código do Trabalho, aprovado pela Lei n.e 7/2009, de 12 de Fevereiro.
Nos termos do artigo 3.e da Lei n.e 54/2017, de 14 de julho, às relações emergentes do contrato de trabalho desportivo aplicam-se, subsidiariamente, as regras aplicáveis ao contrato de trabalho que sejam compatíveis com a sua especificidade, sendo que, as normas constantes
desta lei podem ser objeto de desenvolvimento e adaptação por convenção coletiva de trabalho que disponha em sentido mais favorável aos praticantes desportivos e tendo em conta as especificidades de cada modalidade desportiva.
Assim, ao presente caso aplica-se o disposto no Contrato Coletivo de Trabalho celebrado entre a Liga Portuguesa de Futebol Profissional e o Sindicato dos jogadores Profissionais de Futebol, o disposto na Lei n.º 54/2017, de 14 de julho, e subsidiariamente, quando tal seja compatível com a natureza e especificidades do próprio contrato, o disposto no Código do Trabalho.
Conforme realça o professor Leal Amado, "o contrato de trabalho desportivo é um contrato especial de trabalho, acima de tudo, pela necessidade de, na sua disciplina jurídica, se coordenar o aspeto laboral com o aspeto desportivo, pela necessidade de compartilhar ambas as suas facetas. Trata-se, então, de articular a tradicional proteção do trabalhador/desportista com a adequada tutela do desporto/competição desportiva, visto que, para o ordenamento jurídico estadual, estes são os dois valores de extrema importância, cuja conciliação se mostra indispensável. Ora, sucede que a lógica muito própria e peculiar da competição desportiva profissional pode reivindicar - ou, pelo menos, recomendar - um certo número de desvios, nesta sede, relativamente ao regime geral do contrato de trabalho".
Do lado do empregador verifica-se, na maioria das vezes, a existência de uma sociedade desportiva ligada a um clube desportivo, em que, o objetivo do lucro convive, ou tenta conviver com o fomento da prática desportiva. Do lado do trabalhador, verificam-se enormes diferenças entre a relação laboral tradicional e a relação laboral desportiva, nomeadamente no que ao futebol diz respeito. Aqui, o trabalhador aufere, alguma das vezes, elevadas remunerações, ao contrário de um empregado de escritório ou empregado fabril.
Relativamente ao objeto do contrato, e conforme evidencia Leal Amado5, "a prática desportiva profissional constitui uma atividade efémera, quando comparada com as atividades laborais comuns. Trata-se, com efeito, de uma profissão de desgaste rápido, que em regra começa por volta dos 18-20 anos de idade e acaba pouco depois dos 30".
Por outro lado, conforme também não deixa de fazer referência o Professor Leal Amado, é indiscutível que a subordinação jurídica do praticante desportivo relativamente ao empregador assume aqui contornos particularmente intensos.
Em suma, dúvidas não restam que a relação laboral em causa nos presente autos tem uma natureza própria, específica, bastante distinta de uma relação laboral comum, pelo que exige um tratamento também ele próprio e específico.
Por assim ser, quer o Contrato Coletivo de Trabalho, quer a Lei n.2 54/2017, de 14 de julho, contêm diferenças significativas relativamente ao Código do Trabalho. A título de exemplo veja-se que enquanto a regra, no contrato de trabalho comum, é a celebração de contrato de trabalho de duração indeterminada, o contrato de trabalho desportivo terá sempre uma duração determinada, não podendo ter duração superior a cinco épocas desportivas (artigo 7.2 do CCT e artigo 9.s da Lei n.2 54/2017, de 14 de fevereiro). Outro exemplo diz respeito à liberdade de trabalho. Dispõe o artigo 19.2 da Lei n.2 54/2017, de 14 de fevereiro, que são
nulas as cláusulas inseridas em contrato de trabalho desportivo visando condicionar ou limitar a liberdade de trabalho do praticante desportivo após o termo do vinculo contratual. Ao contrário do regime laboral comum, no qual é possível as partes estabelecerem pactos de não concorrência, no âmbito da relação laboral desportiva tal pacto é ferido de nulidade.
Aqui chegados cumpre analisar, em primeiro lugar, o regime de cessação do contrato de trabalho desportivo e subsumir os factos dados como provados a esse mesmo regime,
Dispõe a alínea d) do artigo 39.B do Contrato Coletivo de Trabalho que o contrato de trabalho desportivo pode cessar por rescisão com justa causa por iniciativa do jogador, constituindo justa causa, a violação das garantias do jogador (artigo 43.2, alínea c), nomeadamente a violação das obrigações decorrentes do contrato de trabalho desportivo e das normas que o regem (artigo 12.9), bem como a ofensa à integridade física, honra e dignidade do jogador praticada pela entidade patrona! ou seus representantes legítimos (artigo 43.B, alínea e)).
No entanto, e de acordo com o estabelecido no n.º 3 do artigo 23.º da Lei n.º 54/2017, de 14 de julho, não é qualquer violação das obrigações das garantias do jogador ou qualquer ofensa à integridade física, honra e dignidade deste constitui justa causa de resolução por parte do desportista. Assim, só constitui justa causa de cessação do contrato de trabalho por parte do desportista, o incumprimento contratual grave e culposo que torne praticamente impossível a subsistência da relação laboral desportiva.
Ora, aqui chegados cumpre desde já averiguar se a demandada levou a cabo atos de assédio sobre o demandante e se violou os deveres de segurança que sobre si impediam.
Relativamente ao assédio cumpre ter presente não só as já referidas alíneas c) e d) do artigo 43.º do Contrato Coletivo de Trabalho celebrado entre a LPFP e o Sindicato de Jogadores, como também o artigo 12.º da Lei n.º 54/2017, de 14 de julho:
1 - A entidade empregadora deve respeitar os direitos de personalidade do praticante desportivo, sem prejuízo das limitações justificadas pela especificidade da atividade desportiva;
2 - É proibido o assédio no âmbito da relação labora desportiva, nos termos previstos na lei geral do trabalho.
Por sua vez, e segundo o artigo 29.º do Código do Trabalho, entende-se por assédio o comportamento indesejado, nomeadamente o baseado em fator de discriminação, praticado aquando do acesso ao emprego ou no próprio emprego, trabalho ou formação profissional, com o objetivo ou efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afetar a sua dignidade, ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador.
No presente caso dos autos, (……)
Todo este comportamento da demandada, levado a cabo pelo então presidente colocam em causa a dignidade pessoal e profissional, e, sobretudo a integridade psicofísica dos atletas visados, degradando o ambiente laboral. Tais comportamentos desgastaram a resistência física e psíquica dos atletas em causa. E repare-se, não é apenas um ato isolado mas sim um encadeamento de atos sucessivos numa ciara subida de escalada. Começa com uma mensagem
de telemóvel, passa para publicações nas redes sociais e termina com o decretamento e fim de suspensão provisória e abertura e arquivamento de processo disciplinar.
(….)Todos os comportamentos do presidente da Demandada criaram, como se pode constatar, um clima de desconfiança na relação laboral.
(….)Quer-se com isto dizer que os comportamentos (mensagem e publicações nas redes sociais) do presidente da Demandada são suscetíveis de lesar mais fortemente o bom nome, a honra, a consideração e a integridade dos atletas que participaram nos jogos em causa, objeto da mensagens e publicações, do que no caso do R... A intensidade da lesão não pode deixar de ser menor no caso do Autor nos presentes autos quando comparada, por exemplo, com a lesão dos capitães da equipa. Apesar de a intensidade da lesão não ser a mesma, não deixa de haver violação dos deveres da entidade patronal perante o Autor, uma vez que este fazia parte do plantel da equipa principal do Sporting, encontrando-se completamente integrado no grupo e estando sujeito a todos os deveres e obrigações que impendem sobre o trabalhador com origem na relação laboral que se encontravam em vigor.
(….)Ora, de acordo com jurisprudência recente do Supremo Tribunal de justiça , "não é toda e qualquer violação dos deveres da entidade empregadora em relação ao trabalhador que pode ser considerada assédio moral, exigindo-se que se verifique um objetivo final ilícito ou, no mínimo, eticamente reprovável, para que se tenha o mesmo por verificado. Mesmo que se possa retirar do artigo 29.º do Código do Trabalho que o legislador parece prescindir do elemento intencional para a existência de assédio moral, exige-se que ocorram comportamentos da empresa que intensa e inequivocamente infrinjam os valores protegidos pela norma - respeito pela integridade psíquica e moral do trabalhador.”
No mesmo sentido, decidiu ainda o Supremo Tribuna! de justiça que "o assédio moral implica comportamentos, real e manifestamente, humilhantes, vexatórios e atentatórios da dignidade do trabalhador, aos quais estão em regra associados mais dois elementos: certa duração e determinadas consequências. De acordo com o disposto no artigo 29.º, n.º 1, do CT, no assédio não tem de estar presente o "objetivo" de afetar a vítima, bastando que este resultado seja
"efeito" do comportamento adotado peio "assediante". Apesar de o legislador ter (deste modo) prescindido de um elemento volitivo dirigido às consequências imediatas de determinado comportamento, o assédio moral, em qualquer das suas modalidades, tem em regra associado um objetivo final ilícito ou, no mínimo, eticamente reprovável".
No presente caso dos autos, todo os comportamentos supra referidos levados a cabo pelo então presidente … perturbaram e afetaram a dignidade do atleta R.., destabilizaram a relação laboral, não se vislumbrando qualquer outro objetivo que não o de vexar os atletas do Sporting entre os quais o R... Certamente que tais comportamentos não visaram melhorar a performance desportiva dos atletas do Sporting. Não se concebe que um presidente de um clube de futebol se dirija aos seus atletas, utilizando as expressões supra referidas, tornadas propositadamente públicas, com o objetivo de melhorar a performance desportiva destes. Da mesma forma, não se vislumbra qualquer objetivo lícito com a abertura e arquivamento
imediato de processos disciplinares, bem como a aplicação da sanção de suspensão preventiva da atividade e o levantamento imediato da mesma. Aliás, no caso do R…, tais comportamentos não visavam certamente o aumento do rendimento competitivo, tanto mais que o mesmo se encontra, como já foi referido, lesionado.
Pelo exposto, a demandada violou o disposto no artigo 12.º, n.º 2, da Lei n.º 54/2017, de 14 de julho.
Dispõe o artigo 29.º, n.- 4, do código do trabalho que a prática de assédio confere à vítima o direito de indemnização, nos termos do disposto no artigo 28.º, ou seja, nos termos gerais do direito. Dispõe o artigo 496.º do Código Civil que na fixação da indemnização deve atender-se aos danos não patrimoniais que, pela sua gravidade, mereçam a tutela do direito.
Ora, como ficou provado, o Autor viu colocado em causa o seu bom nome e a sua honra, sentindo-se angustiado e envergonhado, pelo que justifica-se a atribuição ao Autor de uma indemnização por danos não patrimoniais, no montante de € 40.00,00 (quarenta mil euros).
Já relativamente à violação das normas de segurança cumpre ter presente o disposto no artigo 12.º alínea c) do Contrato Coletivo de Trabalho: O clube ou sociedade desportiva deve proporcionar ao jogador boas condições de trabalho, assegurando os meios técnicos e humanos necessários ao bom desempenho das suas funções.
Neste mesmo sentido encontra-se o disposto no artigo ll.º, alínea b) da Lei n.º 54/2017, de 14 de julho, segundo a qual, é um dever da entidade empregadora desportiva proporcionar ao praticante desportivo as condições necessárias à participação desportiva, bem como a participação efetiva nos treinos e outras atividades preparatórias ou instrumentais da competição desportiva.
Ora, de entre as condições necessárias à prática desportiva encontra-se, naturalmente, a segurança do trabalhador. Por assim ser, dispõe o artigo 281.º do Código do Trabalho que o trabalhador tem direito a prestar trabalho em condições de segurança e saúde e, o n.º 2 do mesmo artigo, que o empregador deve assegurar aos trabalhadores condições de segurança e saúde em todos os aspetos relacionados com o trabalho, aplicando as medidas necessárias tendo em conta princípios gerais de prevenção.
(….) No nosso ordenamento Jurídico, a culpa é apreciada pela diligência de um bom pai de família, em face das circunstâncias da cada caso concreto (artigo 487.º, n.º 2 do código civil).
Assim, age com negligência quem, de forma ilícita e censurável, representa como possível a realização típica, mas atua sem se conformar com essa realização (negligência consciente).
O dever cuja violação a negligência supõe, consiste em o agente não ter usado aquela diligência que era exigida segundo as circunstâncias concretas para evitar o evento, dever esse decorrente quer de normas legais, quer do uso e experiência comum, (…)
Por todo o exposto a demandada violou o disposto no artigo 12.e, alínea c) do Contrato Coletivo de Trabalho, o disposto no artigo 11.º, alínea b) da Lei n.º 54/2017, de 14 de julho, bem como o artigo 281.º, n.º 2, do Código do Trabalho,
Por via da prática de assédio e pela violação das normas de segurança encontra- se, portanto,
preenchido o primeiro requisito para o preenchimento do conceito de justa causa (n.º 3 do artigo 23,º da Lei n,º 54/2017, de 14 de julho): o incumprimento contratual grave e culposo por parte da entidade empregadora.
Cumpre, agora, averiguar se o assédio e a violação das normas de segurança, no presente caso e tendo em consideração todas as circunstâncias do mesmo, tornou praticamente impossível a subsistência da relação laboral desportiva do R.. com o Sporting (segunda parte do n.º 3 do artigo 23.º da Lei n.º 54/2017, de 14 de julho).
Em abstrato quer o assédio, quer a violação culposa das normas de segurança são suscetíveis de configurar uma situação de justa causa de rescisão contratual por iniciativa do jogador, nos termos e para os efeitos do disposto nos artigos 43.º, n.º 1, alínea c), e artigo 12.º, alínea c) do Contrato Coletivo de Trabalho, bem como nos artigos 23.º, n.º 1, al. d) e n.º 3, e artigo 11.º, alínea b) da Lei n,º 54/2017, de 14 de julho e, ainda, no artigo 394.º, n.º 2, do Código do Trabalho.
Não obstante, há que analisar, em concreto, todas as circunstâncias do caso em questão, tendo nomeadamente em consideração o comportamento do jogador R.. após o ataque à academia de Alcochete ocorrido a 15 de maio de 2018.
Ora, conforme matéria de facto dada como provada (e para além do que já supra se disse relativamente ao facto de o Autor se encontrar lesionado desde o início de março, circunstância que fez com que os comportamentos do presidente da demandada não tenham sido vividos pelo R.. com a mesma intensidade dos demais colegas, nomeadamente dos capitães da equipa), após o ataque à Academia, o Autor permaneceu na mesma durante três dias, até dela ser retirado para a cidade do Porto por iniciativa e decisão do seu pai. (…) O exposto revela que, afinal, os comportamentos da demandada podem não ter tornado, no caso concreto do R…, praticamente impossível a subsistência relação laboral desportiva.
(…) Como já foi referido, o contrato de trabalho desportivo é, sempre e por força da lei, um contrato a termo. No entanto, ao contrário da relação laboral comum, no contrato de trabalho desportivo o trabalhador não pode, livremente, colocar fim ao contrato quando bem entender.
Ou seja, enquanto que na relação laboral comum, e mesmo no caso de contratos de trabalho a termo, o trabalhador tem a faculdade de pôr fim ao contrato, sem invocar qualquer causa, mesmo antes do termo previsto, no caso do contrato de trabalho desportivo o trabalhador apenas pode fazer cessar o contrato antes do termo previsto quando haja justa causa ou tenha sido estabelecida contratualmente a possibilidade de este proceder à denúncia do contrato, mediante o pagamento à entidade empregadora de uma indemnização fixada para o efeito.
Como relembra Leal Amado, "ou seja, em relação ao trabalhador comum o termo configura-se limitativo e não estabilizador, conservando aquele a faculdade de dissolver o vínculo ante tempus (a este propósito, vd. o art. 400.a do CT). Ora, coisa bem diferente se passa no domínio do contrato de trabalho desportivo, pois, neste, o termo é estabilizador: o praticante desportivo só poderá extinguir licitamente o contrato antes da verificação do respetivo termo se para tanto tiver justa causa, conforme resulta do disposto no n.º 1 - d) deste artigo, ou se
no contrato for incluída uma "cláusula de rescisão", ao abrigo do n.º 1º g).
Cumpre ter presente as razões que justificam que a legislação laboral desportiva contenha esta diferença tão significativa. Isto é, por que razão é que na relação laboral comum a parte mais interessada na manutenção do contrato é, tipicamente, o trabalhador e a parte mais interessada na liberdade de desvinculação é, tipicamente, o empregador e, aqui, no âmbito da relação laboral desportiva, os interesses são bastante diferentes? Por que razão ao praticante interesse uma maior liberdade de desvinculação e ao empregador uma maior estabilidade contratual?
Em primeiro lugar, ao contrário do trabalhador comum, o praticante desportivo é dificilmente substituível, peio que a sua saída da equipa pode ter efeitos desportivos verdadeiramente negativos. Mas mais, conforme entende também Leal Amado'5"... ao cercear a liberdade de desvinculação ante tempus do praticante, não se visa apenas, nem porventura principalmente, proteger os interesses da sua entidade empregadora. Visa- se, em primeira linha, tutelar a própria competição desportiva. Sem tais regras disciplinadoras do mercado de trabalho desportivo, alega-se, a saúde da competição desportiva correria sérios riscos. Com efeito, o rejeitar o sistema de demissão ad nutum, o ordenamento jurídico restringe a concorrência, de outro modo desenfreada, entre os diversos clubes/empresas no tocante à contratação de praticantes desportivos, preservando uma relativa estabilidade dos quadros competitivos - estabilidade necessária, quer ao processo de construção de uma equipa, quer ao processo de identificação dos adeptos com esta - e atenuando a dinâmica de concentração dos praticantes mais qualificados nos clubes de maiores recursos financeiros - concentração que em última análise, afeta o equilíbrio competitivo e pode fazer perigara incerteza do resultado, condimento indispensável ao sucesso da indústria do desporto profissional.,, estamos aqui, em certo sentido, perante uma renovada manifestação do conhecido princípio pacta sunt servanda: os contratos devem ser pontualmente cumpridos, maxime no que aos prazos livremente estipulados pelas partes contratantes diz respeito."
Consequentemente, no âmbito da relação laboral desportiva o trabalhador não é a parte mais fraca do contrato, como acontece, tipicamente, no âmbito da relação laboral comum. O regime jurídico de cessação do contrato de trabalho permite que o atleta seja considerado um ativo patrimonial importante do clube/entidade patronal. Como escreve Leal Amado10, "é precisamente por não ser reconhecida ao praticante desportivo a liberdade de denunciar, a todo o tempo e ad nutum, o respetivo contrato de trabalho, que a entidade empregadora poderá tentar negociar esse praticante, medio tempore, a troco de uma contraprestação patrimonial. A entidade empregadora desportiva é, portanto, titular de uma "expectativa de ganho" com a eventual transferência ("venda") do atleta, efetuada durante o período de vigência do respetivo contrato de trabalho".
O exposto levou a que o legislador estipulasse uma noção de justa causa, para efeitos de resolução por iniciativa do praticante desportivo, mais estreita e exigente de que a noção de justa causa de resolução do contrato pelo trabalhador comum.
Por todo o exposto, e tendo em consideração as circunstâncias concretas da presente situação, nomeadamente o facto de o atleta ter regressado à academia no dia do seu aniversário, o facto de o atleta ter manifestado estar bem e "junto" com o presidente, e o fato de ter pretendido regressar ao Sporting, entende o colégio arbitral que a relação laboral desportiva em causa poderia ter subsistido.
Assim, a resolução contratual operada pelo jogador R… não configura uma resolução com justa causa, pelo que a mesma foi promovida indevidamente.
julga-se, assim, improcedente o pedido de reconhecimento de justa causa de resolução do Contrato de Trabalho Desportivo.
Aliás, os comportamentos do atleta/trabalhador que ocorreram posteriormente ao incumprimento contratual por parte da entidade patronal e anteriormente à resolução contratual revelam, ainda, que o incumprimento não foi por aquele considerado como perturbador das relações de trabalho para efeitos da justa causa de resolução contratual (cfr.
artigo 45.2, alínea a), da convenção coletiva de trabalho);
Aqui chegados há que analisar o pedido reconvencional. Pretende o Sporting que o jogador R…
seja condenado a pagar-lhe o valor de € 45.292.616,00 (quarenta e cinco milhões, duzentos e noventa e dois mil, seiscentos e dezasseis euros) com base na ciáusula 11 do contrato celebrado entre as partes.
Dispõem os números 1 e 2 do artigo 24.º da Lei n.º 54/2017, de 14 de julho, que a parte que haja promovido indevidamente a cessação do contrato deve indemnizar a contraparte pelo valor das retribuições que ao praticante seriam devidas se o contrato de trabalho tivesse cessado no seu termo, sendo que pode ser fixada uma indemnização de valor superior sempre que a parte lesada comprove que sofreu danos de montante mais elevado.
No presente caso dos autos as partes, por via da cláusula 11 do mesmo contrato, estipularam, a título de cláusula penal, que na hipótese de ser o jogador a rescindir ilicitamente o contrato, este fica obrigado a pagar à Sporting SAD uma indemnização correspondente ao valor das remunerações que haveria de receber até final do contrato rescindido, mais o pagamento do montante de € 45.000.000,00 (quarenta e cinco milhões), correspondente à valorização dos direitos de participação desportiva do jogador feita pelas partes no presente contrato.
Ora, a presente cláusula viola o disposto no n.º 2 do artigo 24.º, uma vez que fixa uma indemnização de valor muitíssimo superior às retribuições que ao praticante seriam devidas se o contrato tivesse cessado no seu termo, independentemente da prova dos danos desse valor.
A norma ínsita no n.º 2 do artigo 24.º tem carácter imperativo, apenas permitindo a fixação de uma indemnização de valor superior às retribuições vincendas nos casos em que se faça prova de danos de valor mais elevado.
Acontece, porém, que o contrato tem que ser analisado no seu todo, Ora, por via da cláusula 8 as partes estipularam uma cláusula de rescisão com o valor de € 45.000.000.00, Ou seja, as partes atribuíram ao praticante desportivo o direito de este rescindir unilateralmente o contrato, sem invocação de justa causa, mediante o pagamento de quarenta e cinco milhões de
euros,
A referida cláusula de rescisão encontra-se prevista nas normas vertidas no artigo 25.º, n.º 1 e n.º 2, da mesma lei, segundo as quais, as partes no contrato de trabalho desportivo podem estipular o direito de o praticante fazer cessar unilateralmente e sem justa causa o contrato em vigor, mediante o pagamento à entidade empregadora de uma indemnização fixada para o efeito, sendo que o montante convencionado pelas partes pode ser objeto de redução pelo tribunal, de acordo com a equidade, se for manifestamente excessivo, designadamente tendo em conta o período de execução contratual já decorrido.
Em suma, da interpretação das duas referidas cláusulas resulta que as partes, e com mais acuidade o Sporting, pretenderam evitar que o praticante desportivo pudesse recorrer à figura da denúncia com justa causa, furtando-se dessa forma, ao pagamento da cláusula de rescisão de quarenta e cinco milhões. Por assim ser, as partes fizeram constar na cláusula 11 - rescisão ilícita por parte do praticante - o valor que já constava na cláusula 8 - direito de rescisão sem justa causa.
Conforme alerta o Professor Leal Amado, a articulação entre estes dois artigos pode dar azo a dúvidas: "suponhamos, por exemplo, que um praticante desportivo, em cujo contrato foi estabelecida uma cláusula de rescisão no valor de x, invoca justa causa e resolve o contrato, alegadamente ao abrigo do artigo 23.º, n.º 1- d). Porém chamado a pronunciar-se sobre o litígio, o tribunal declara a improcedência da justa causa invocada pelo praticante desportivo, pelo que este terá de indemnizar a entidade empregadora pela rutura do contrato. Pergunta- se: a indemnização será fixada nos termos do art. 24.º, tendo em conta os danos comprovadamente sofridos pela entidade empregadora? Ou, visto, segundo o tribunal, não haver justa causa, o praticante deverá indemnizar a entidade empregadora nos termos do art 25.º, pagando o valor inscrito na cláusula de rescisão? Numa visão sistemática, cremos que, tendo sido estipulada uma cláusula de rescisão, esse será, em princípio, o preço a pagar pelo praticante desportivo que se demite sem justa causa - e isto, quer se trate de um caso em que o praticante assume a ausência de justa causa e exerce a faculdade de denunciar o vínculo, ao abrigo do art. 25.º, quer se trate de um caso em que o praticante invoca justa causa para resolver o contrato, ao abrigo do art. 23.º, nº 1 – d), vindo essa alegada justa causa a ser declarada improcedente pelo tribunal. Vale dizer, a medida da indemnização devida, em ambos os casos, deve corresponder ao montante previsto na cláusula de rescisão - mas isto, como é óbvio, sem prejuízo da faculdade de o tribunal reduzir o montante convencionado pelas partes, de acordo com a equidade, se o mesmo se revelar manifestamente excessivo, conforme dispõe o n.º 2 do art. 25.º.
Este é também o entendimento o colégio arbitral. O responsável pela cessação do contrato deve responder, em primeiro lugar, e nas palavras de Leal Amado, "pelo período da frustração contratual", correspondendo a indemnização ao montante das retribuições vincendas. Na verdade, foi esse o valor que as partes atribuíram à atividade que o atleta ainda ia prestar, caso o contrato fosse cumprido. No entanto, pode o responsável pela cessação do contrato
responder ainda por uma indemnização de valor superior ao montante das retribuições vincendas sempre que a parte lesada comprove que sofreu danos de montante mais elevado.
Só assim não será, nos casos, como o dos presentes autos, em que é fixada uma cláusula de rescisão.
Assim, num contrato em que não seja previsto o direito de o praticante fazer cessar unilateralmente e sem justa causa esse mesmo contrato, não podem as partes estipular o pagamento de uma indemnização de valor superior às retribuições vincendas independentemente da prova de danos de valor superior.
No caso de o atleta ter o direito de fazer cessar o contrato, de forma unilateral e sem invocação de justa causa, mediante o pagamento de uma determinada quantia, a indemnização a pagar por quem deu causa à cessação no caso de a alegada justa causa de resolução não vir a ser procedente deve ser do valor daquela quantia, sem prejuízo da faculdade de o tribunal reduzir o montante convencionado pelas partes, de acordo com a equidade, se o mesmo se revelar manifestamente excessivo.
Pelo exposto, no presente caso a medida da indemnização devida pelo atleta R… ao Sporting corresponde ao valor da cláusula 8 e não da cláusula 11 do contrato (€ 45.000.000,00), sem prejuízo da redução efetuada infra, de acordo com a equidade, pela circunstância de o mesmo ser excessivo.
Mas, mesmo que se entendesse que a indemnização deveria ter em consideração os valores referidos na cláusula penal vertida na cláusula 11 do contrato aqui em causa, certo é que os mesmos seriam sempre suscetíveis de redução de acordo com a equidade. Isto porque, "o contrato de trabalho desportivo não é, não pode ser, blindável, pois tal blindagem conduz, em linha reta, a algo não muito distante do trabalho forçado”13. Perante tal cláusula penal sempre seria de aplicar o disposto no artigo 812.º do Código Civil: a cláusula penal pode ser reduzida pelo tribunal, de acordo com a equidade, quando for manifestamente excessiva, ainda que por causa superveniente.
Por todo o exposto fica desde já prejudicada a análise da questão relativa ao apuramento dos danos sofridos pela demandada.
No presente caso verifica-se que o Autor, à data dos factos (junho de 2018) era um atleta jovem e promissor, relativamente ao qual a Ré perspetivou uma valorização económica e desportiva exponencial. A Ré investiu elevadas quantias na formação do Autor enquanto futebolista profissional e o Autor era claramente encarado como um potencial contributo financeiro para equilibrar as contas da Ré. Há muito que a Ré tem como estratégia financeira a formação de jogadores e a sua posterior venda por quantias significativas.
No entanto, certo é também que a política da ré era fixar cláusula de rescisão por posição no campo do atleta em causa. Apesar de ser política da Ré a fixação de cláusulas de rescisão no valor € 60.000.000,00 (sessenta milhões de euros) para jogadores que atuem na mesma posição do Autor (avançados), as partes negociaram e acordaram na fixação da cláusula de rescisão do Autor em € 45.000.000,00 (quarenta e cinco milhões de euros).