Da alegada ininteligibilidade da fundamentação da decisão de condenação do requerente e redução equitativa da indemnização fixada.
Alega o requerente:
222.º
É assim ininteligível o raciocínio do Tribunal Arbitrai, quando salta da aplicação do regime da cláusula 11.a do contrato e do artigo 24.° do Regime Jurídico do Contrato de Trabalho Desportivo, para a subsunção dos factos na cláusula 8.a do contrato e ao disposto no artigo 25.
° daquele diploma legal, o qual regulamenta, por contraposição com o disposto na alínea c) do n.° 1 do artigo 23.° e do artigo 24.° do RJCTD, a denúncia do contrato de trabalho desportivo por iniciativa do praticante sem invocação de justa causa.
223.°
Em suma, o Requerente resolveu o contrato com invocação de justa causa e o Tribunal Arbitral aplica a norma da denúncia do contrato, pelo que deverá ser anulado o Acórdão Arbitral, nos termos e para os efeitos do artigo 46.°, n.° 3, alínea a), parágrafo ii) da LAV.
E, mais à frente:
228.º
O Acórdão carece, contudo, de fundamentação criteriosa para tornar inteligível a fixação do
quantum indemnizatório, porquanto, sem qualquer matéria factual que sustente o valor dos danos da Requerida, isto é, uma oferta concreta de aquisição do passe do jogador, ou mesmo a existência, à data dos factos, de um interesse de qualquer outro clube.
229.°
Entende assim infundadamente que a Requerida tinha uma mera expetativa de receber, à data da cessação do contrato o valor de € 16.500.000,00, considerando que este seria o valor que o mercado estaria disposto a atribuir naquele momento, sem concretizar que mercado, que clube ou qualquer outro critério substantivo do qual fosse razoável pressupor aquele montante que não seja o juízo ex aequo et bono.
Quer num caso, quer noutro, o que o requerente coloca em questão são supostos erros em que teria assentado o percurso cognitivo e decisório percorrido pelos árbitros.
O requerente compreendeu o modo como foi condenado a pagar a indemnização e como operou a aludida redução equitativa; muito simplesmente, discorda da forma — técnica e jurídica — como o Tribunal obteve esse resultado.
Mas esse juízo não pode ser agora efectuado, pois não se enquadra em causa de anulação da decisão mas sim da sua apreciação – vedada – do mérito.
Constitui entendimento pacífico da doutrina e da jurisprudência que a nulidade prevista no artigo 615º, n.º. 1, al. c) do Código Processo Civil só se verifica:
(i) quando os fundamentos invocados na sentença devessem, logicamente, conduzir a uma decisão diversa da que a sentença expressa, ou seja, o raciocínio do juiz aponta num determinado sentido e o dispositivo conclui de modo oposto ou diferente (cf.. Prof. Alberto dos Reis, CPC Anotado, Vol. V, Coimbra Editora, pág. 141; acórdãos do STJ de 23/11/2006, proc. n.º.
06B4007 e da RE de 19/01/2012, proc. n.º 1458/08.5TBSTB e de 19/12/2013, proc. n.º 538/09.4TBELV, Ac. do T.R.E. de 25/06/2015, Proc. n.º 855/15.4T8PTM.E1 todos acessíveis em www.dgsi.pt), sabido que essa contradição remete-nos para o princípio da coerência lógica da sentença, pois que entre os fundamentos e a decisão não pode haver contradição lógica (art.º 615.º/1-c)-1.ª parte); ou ainda
(ii) quando a parte decisória propriamente dita tem mais de um sentido, tornando-se, assim, incerto ou duvidoso o respectivo comando (ambiguidade), ou quando o seu exacto sentido não possa alcançar-se (artigo 615.º/1-c)-2.ª parte).
Estando em causa, a ininteligibilidade da decisão, os vícios da ambiguidade e/ou da obscuridade só a esta se podem reportar, com exclusão, portanto dos fundamentos invocados.
Realidade distinta desta é o erro na subsunção dos factos à norma jurídica ou erro na interpretação desta, ou seja, quando - embora mal - o juiz entenda que dos factos apurados resulta determinada consequência jurídica e este seu entendimento é expresso na fundamentação ou dela decorre, o que existe é erro de julgamento.
Certo é que a decisão constante da decisão em crise não se revela ambígua e/ou obscura, que o requerente alcançou claramente o respectivo comando e a forma como o Tribunal Arbitral resolveu o litígio.
E também não se detecta qualquer ilogicismo ou contradições entre os respectivos fundamentos e a decisão proferida, como se viu.
Como se refere na decisão arbitral complementar, aqui em causa:
Em segundo lugar, o demandante não aponta na decisão qualquer ponto da fundamentação de facto ou de direito que se mostre contraditório ou incompatível com o sentido decisório tomado. O demandante indicou concretos pontos da matéria de facto que, no seu entendimento, deveriam ter conduzido a um resultado diferente do alcançado pela decisão.
Pontos esses que o colégio arbitral utilizou para fundamentar encontrar-se preenchido o primeiro requisito para o preenchimento do conceito de justa causa mas que não são suficientes para se demonstrar verificado o segundo requisito necessário, o da
"impossibilidade prática de subsistência da relação laboral".
O que o Demandante alega é, na verdade, a sua discordância para o com sentido da decisão.
Como se refere no Ac. da Relação de Coimbra de 26/11/2019 (Carlos Moreira), disponível em www.dgsi.pt e aplicável ao nosso caso:
II - A impugnação da sentença do juiz arbitral para o Tribunal Estadual apenas pode ser efectuada pela via do pedido da sua anulação, por vício formal alheio ao objecto da causa, e apenas procedente se verificado algum dos fundamentos taxativamente previstos no artº 46º da LAV.
III - Porque ao tribunal ad quem está vedado a apreciação do mérito da sentença, mesmo na vertente da fixação dos factos, a sua anulação por falta de fundamentação fáctica ou jurídica apenas emerge se esta, de todo, inexistir, ou se não for perceptível o iter lógico jurídico que nela se seguiu para dirimir o litígio.
IV – Não é o caso se o juiz fixou os factos provados, invocou, sumariamente, a prova, e decidiu, de jure, congruentemente – bem ou mal não importa porque tal não cumpre apreciar - e em conformidade com o objecto do pleito.
Improcede, pois, esta alegação.
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Do excesso de pronúncia
Alega o requerente, a este respeito, que o Tribunal Arbitral "conheceu de questões de que não podia tomar conhecimento", por, alegadamente, a requerida ter fundado o seu pedido de indemnização numa cláusula do contrato e o Tribunal ter determinado a sua condenação com base numa cláusula diferente, à qual subjazeria um diverso regime jurídico.
Defende o requerente que "o acordo das partes plasmado na cláusula 11° constitui ou integra a causa de pedir do pedido de condenação à indemnização de € 45.000.000,00" e que, ao invés de ter apreciado o pedido de indemnização adicional de € 45.000.000,00, ao abrigo da cláusula 11.ª do Contrato de Trabalho Desportivo, pretensamente subsumível à previsão ao n.º 2 do artigo 24° do RJCTD, [...] [o] Tribunal Arbitral a págs. 241 e ss. do Acórdão apreciou um pedido de indemnização adicional ao abrigo da cláusula 8° do Contrato de Trabalho Desportivo, que estabelece uma cláusula indemnizatória pela distinta denúncia do contrato".
A nulidade prevista na segunda parte da alínea d) do n.º 1 do artigo 615º do Código de Processo Civil está directamente relacionada com o comando fixado na segunda parte do n.º 2 do artigo 608º do mesmo diploma legal, segundo o qual o juiz “não pode ocupar-se senão das questões suscitadas pelas partes, salvo se a lei lhe permitir ou impuser o conhecimento oficioso de outras”
O Tribunal deve resolver todas que as questões que lhe sejam submetidas a apreciação (a não ser aquelas cuja decisão ficou prejudicada pela solução dada a outras), todavia, mas, como vem sendo dominantemente entendido, o vocábulo “questões” não abrange os argumentos, motivos ou razões jurídicas invocadas pelas partes, antes se reportando às pretensões deduzidas ou aos elementos integradores do pedido e da causa de pedir, ou seja, entendendo-se por “questões” as concretas controvérsias centrais a dirimir (vide, por todos, Ac. do STJ de 02/10/2003, in “Rec. Rev. nº 2585/03 – 2ª sec.” e Ac. do STJ de 02/10/2003, in “Rec. Agravo nº 480/03 – 7ª sec.”).
No caso, os factos alegados pela requerida, e que integram objetivamente a causa do seu pedido de indemnização, reconduzem- se à ruptura ilícita pelo requerente do seu contrato de trabalho desportivo.
Sendo que o pedido de indemnização deduzido pela requerida e conhecido pelo Tribunal foi o seguinte: "Deverá, pelo exposto, ser o Autor condenado a pagar a Ré o valor global de € 45.292.516,00 (quarenta e cinco milhões, duzentos e noventa e dois mil, quinhentos e dezasseis euros), acrescido de juros contabilizados à taxa legal desde a citação, a título de indemnização pelos prejuízos sofridos com a cessação ilícita do contrato de trabalho do Autor, manifestamente destituída de justa causa para o efeito".
Tal pedido mereceu, como se viu, parcial acolhimento, sendo que o mérito dessa apreciação jurídica se mostra vedado, por não constituir fundamento de anulação da mesma decisão.
Não se verificando qualquer excesso de pronúncia previsto na subalínea v) da alínea a) do n.° 3 do artigo 46.° da LAV, mostra-se também improcedente esta alegação.
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Da alegada ofensa à Ordem Pública Internacional
Alega, por fim o recorrente, uma alegada ofensa perpetrada pelas decisões arbitrais aos princípios da Proporcionalidade, da Boa-Fé, da Proibição do Abuso de Direito, da Liberdade de Trabalho, da Autonomia Colectiva e da Igualdade, princípios jurídicos esses integrantes da ordem pública internacional do Estado Português.
Nos termos do disposto no artigo 46.°, n.° 3, alínea b), parágrafo ii) da LAV, uma sentença arbitral é efetivamente suscetível de anulação quando o seu conteúdo ofenda os princípios da ordem pública internacional do Estado português.
Luís Lima Pinheiro destaca que a reserva de ordem pública internacional constitui um limite à aplicação do Direito estrangeiro ou transnacional competente segundo o Direito de Conflitos ou ao reconhecimento de uma decisão estrangeira (Direito Internacional Privado, Vol I, 2.ª ed., Almedina, Coimbra: 584); ‘’que esta cláusula geral actua quando, perante o conjunto das
circunstâncias do caso concreto, o resultado do reconhecimento seja incompatível com princípios e normas fundamentais da ordem jurídica portuguesa’’ (op. cit: 585); que ’’ a cláusula geral de ordem pública internacional é um veículo para a actuação dos princípios e normas fundamentais da ordem jurídica portuguesa’’ (Ibidem); que ‘’não é possível determinar a priori o conteúdo desta cláusula geral, i. e., formular um conjunto de regras que esgotem o seu conteúdo’’ (ibidem) ‘’só perante as circunstâncias do caso concreto se pode dizer se uma determinada violação de um princípio ou norma fundamental é intolerável’’ (Ibidem) e analisa outras características da ordem pública internacional (excepcionalidade, carácter evolutivo, sua relatividade) (op. cit: 593-595).
Acrescenta, ainda, este autor que:
i) a ordem pública internacional ‘’é ‘’internacional ‘’ porque é específica do Direito Internacional Privado, e não, porventura, por ser uma ordem pública de Direito Internacional (op. cit: 585);
ii) ‘’pelo contrário, diz-se que a ordem pública é ‘’nacional’’, porque veicula princípios e normas fundamentais da ordem jurídica do foro. Mas não deve confundir-se a ordem jurídica do foro com o Direito de fonte interna. O carácter nacional da ordem pública internacional presta-se a equívocos. Numa ordem jurídica em que o Direito Internacional é objecto de recepção automática, como é o caso da ordem jurídica portuguesa, a ordem pública internacional é também informada por normas e princípios fundamentais de Direito Internacional’’ (Ibidem), tais como o respeito pelos direitos humanos ou reconhecimento dos bens culturais pertencentes aos diversos Estado, mas interessando toda a comunidade internacional.
iii) “os princípios e regras veiculados pela ordem pública internacional representam um núcleo mais restrito do que aqueles que subjazem à ordem pública de Direito material” (op. cit: 588), referida designadamente nos artigos 271.º, n.º 1, 280.º, n.º 2 e 281.º do Código Civil.
iv) “mesmo que trate de um princípio que é veiculado tanto pela ordem pública de Direito material como pela ordem pública internacional (por exemplo, o princípio da confiança), nem todas as violações sancionadas pela ordem pública de Direito material são suficientemente graves para justificarem a actuação da ordem pública internacional “ (Ibidem).
v) “Enquanto contraposta à ordem pública de Direito material a ordem pública internacional constitui um reduto de princípios e normas do ordenamento do foro de cuja aplicação esta ordem jurídica não abdica posto que se trate de uma situação transnacional e que seja estrangeiro o Direito chamado a regê-la” (ibidem).
«São de ordem pública internacional as leis relativas à existência do estado e essencialmente divergentes (divergência profunda) da lei estrangeira normalmente competente para regular a respectiva relação jurídica, as quais devem ser leis rigorosamente imperativas e que consagram interesses superiores do Estado. E os interesses que estão aqui em causa são os princípios fundamentais da ordem jurídica portuguesa.
- A excepção de ordem pública internacional ou reserva de ordem pública, implícita em toda a remissão que o DIP opera para os direitos estrangeiros, visa impedir que a aplicação de uma
norma estrangeira, pela via indirecta da execução de sentença estrangeira, conduza, no caso concreto, a um resultado intolerável.» - Ac. do STJ de 19/02/2008, disponível em www.dgsi.pt..
Ora, concludentemente, nada disto está aqui em causa, nomeadamente e desde logo, a aplicação de lei estrangeira ou internacional ou estipulação contratual que vincule as partes e o seu conflito com os princípios da ordem pública do ordenamento jurídico nacional.
Ao longo de toda a sua exposição na petição inicial, o que o requerente verdadeiramente aborda na sua alegação a este respeito é o mérito das decisões arbitrais proferidas e o mesmo pretende obter por via da presente ação não é outra coisa que não a sua reapreciação, por alegado desrespeito dos princípios jurídicos invocados.
Não a invalidade, por desrespeito desses princípios, do Direito aplicado (português) e do contrato vinculativo entre as partes (celebrado entre o requerente e a requerida).
Não está em causa a aplicação de Lei estrangeira ou internacional ou de contrato e a análise da sua conformidade com esses mesmos princípios jurídicos, não se verificando, em consequência, também o fundamento de anulação previsto no artigo 46.°, n.° 3, alínea b), parágrafo ii) da LAV.
No sentido ora defendido, veja-se o Ac. da Relação de Coimbra, de 26/11/2019 (Carlos Moreira), disponível em www.dgsi.pt:
Improcede, pois, esta última alegação.
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V. A decisão
Pelo exposto, os Juízes da 6.ª Secção da Relação de Lisboa acordam em, na improcedência da apelação, manter as decisões arbitrais proferidas pelo Tribunal Arbitral do Desporto em 18 de Março de 2020 e 6 de Julho de 2020.
Custas pelo requerente.
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Lisboa, 20 de Janeiro de 2022 Nuno Lopes Ribeiro
Gabriela de Fátima Marques Adeodato Brotas | | |
Fonte: http://www.dgsi.pt