KARINA QUADROS DOS SANTOS ZAKORCHINI
A EVOLUÇÃO DO GÊNERO RECEITA CULINÁRIA
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM CIÊNCIAS DA LINGUAGEM
LISBOA Agosto, 2020
Aluna: Karina Quadros dos Santos Zakorchini Orientadora: Profa. Dra. Matilde Gonçalves
TÍTULO:
A evolução do gênero receita culinária
Lisboa Agosto, 2020
orientação científica da Professora Doutora Matilde Gonçalves.
Senhor, eu te dou graças porque me ouve, me atende e me acolhe, porque Sua graça me alcança e me envolve em Sua infinita misericórdia.
Esta jornada do mestrado veio acompanhada de muitas mudanças na minha vida!
Agradeço primeiramente a Deus que me sustentou até aqui mesmo diante da minha fraqueza de inúmeras vezes querer desistir devido às minhas limitações. Agradeço-o ainda pelas pessoas que Ele colocou em meu caminho para que me dessem o suporte necessário e eu tivesse coragem de seguir em frente, de prosseguir mesmo diante de alguns fracassos que tentaram me pôr ao lado deste caminho que trilhei. Foi longa e árdua a jornada, mas não a fiz sozinha, tive apoio, suporte e sustento: intelectual, emocional, psicológico e espiritual, por isso, não poderia deixar de agradecer-lhes, especialmente porque esta não foi uma jornada fácil, mas não lutei apenas com forças próprias.
Agradeço do fundo do coração à minha querida orientadora Matilde Gonçalves que pacientemente me ensinou o processo de produzir uma dissertação e corrigi-la “camada por camada”, que não poupou esforços em me ajudar a continuar e a melhorar, que não focou nas minhas falhas e limitações, mas encontrou no amontoado de ideias lançadas ao acaso no texto algo por onde me guiar e orientar meu trabalho sem desistir e dando-me apoio para além do intelectual, mas também psicológico para que eu não desacreditasse das minhas capacidades.
Ao meu marido Rubens que fez todo sacrifício que lhe foi possível para me ajudar a produzir e corrigir meu trabalho, que me amparou especialmente no período de adaptação do pós-parto em que precisei continuar estudando mesmo não me sentindo tão bem ou disposta. Obrigada por me ajudar e por recordar-me que a vida é feita de fases que passam e nos lembramos sempre da boa experiência adquirida. Obrigada, meu querido, por me ajudar a continuar a estudar, por acreditar em mim e por me encorajar emocionalmente.
À minha mãe Sueli que mesmo à distância me incentivou e manteve fresco em minha memória o fato de que sou dedicada e não desisto das
Louvado seja Deus pela vida do meu filho Davi, motivo propulsor principal que me estimulou a não parar e me fez ouvir os conselhos, sugestões e orientações dessas pessoas que Deus colocou em meu caminho para me ajudar a prosseguir. Um dia eu poderei dizer-lhe: “Não desista, filho!” tendo em mim um exemplo de persistência para lhe dar.
Sou grata a mim mesma! Grata por ter sido forte e firme mesmo em vista de todo desajuste emocional por conta do pós-parto e da ausência dos familiares diante de dois acontecimentos tão importantes na minha vida: a maternidade e o mestrado. Deus colocou em meu coração o desejo de continuar, mas fraca quis desistir diversas vezes por não me considerar capaz, no entanto, lutei, lutei com todas as formas de minha alma e encontrei dentro de mim uma pequena luz que me manteve firme mesmo cansada, agarrei-me a ela, insisti que ela brilhasse com mais força e iluminasse todo o meu caminho.
Insisti tanto, que DEUS a sustentou por mim, pelo meu desejo, e embora um muito incrédula de minhas forças, escolhi permanecer neste caminho e fiz um esforço enorme para continuar.
Por fim, agradeço à equipe toda da FCSH, desde os atendentes no balcão de informações aos professores, departamento financeiro, apoio informático, atendentes da recepção e matrículas, bibliotecários, enfim, todos os que consciente ou inconscientemente me auxiliaram e me deram opções e ferramentas para não desistir e seguir em frente.
Hoje, quase ao fim desta jornada do mestrado, sinto-me profundamente grata a Deus e a todas estas pessoas, pois a jornada foi menos árida e mais agradável porque vocês suavizaram “a caminhada”!
Karina Quadros dos Santos Zakorchini
Resumo:
O presente trabalho tem como objetivo analisar o gênero textual receita culinária, perspectivando a sua evolução ao longo do tempo e a influência do suporte de circulação. Para tal, a análise incide sobre a organização global e discursiva do gênero, focando em particular a influência dos suportes e das relações verbais e não verbais existentes. O foco das análises se dá pela configuração do texto, pela organização discursiva (tipos de discurso), pelo léxico culinário e pela relação entre unidades verbais e não verbais embasada pela Semiótica sociointeracional. Veremos que o contexto e os meios de circulação do gênero textual tem grande importância e interferência neste processo de transformação e adaptação do gênero ao contexto social e veremos que, embora tenha se atualizado para se enquadrar ao contexto moderno e atual, o gênero jamais perdeu sua função social e sua importância comunicativa que persistem ainda hoje. Seja nos livros antigos, seja na internet notaremos que ao longo do tempo o gênero encaixou-se na sociedade e continua tão frequentemente utilizado quanto antes, agora em novas formas digitais e suportes de circulação, que têm um importante papel nesta evolução do gênero.
Palavras-chave: Gêneros; receita culinária; manifestações verbais e não verbais; tipos de discurso; suporte de circulação.
Karina Quadros dos Santos Zakorchini
Abstract:
The present study aims to analyze the textual genre culinary recipe, looking at its evolution over time and the influence of the circulation support. To this end, the analysis emphasizes on aspects of the global and discursive organization of the genre, in particular the influence of the supports and the verbal and non- verbal relations. The focus of the analysis is on the text structure, discursive organization (types of discourse), culinary lexicon, and the relationship between verbal and non-verbal units based on socio-interactional semiotics. We will see that the context and circulation mediums of the textual genre has great importance and interference in this process of transformation and adaptation of the genre in the apparent social context and although it has updated itself to fit the modern and current context. Whether in old books or on the internet, we will notice that, over time, the genre has become part of society and continues to be used as often as before, now in new digital forms and circulation medium which play an important role in this evolution of the genre.
Keywords: Genres; culinary recipe; verbal and non-verbal manifestations; types of speech; circulation support.
Índice de imagens ... 10
Lista de siglas e abreviaturas ... 11
Legenda de Imagens (anexos) ... 12
INTRODUÇÃO ... 15
ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO ... 18
1 ENQUADRAMENTO TEÓRICO-METODOLÓGICO ... 20
1.1 CONTEÚDO TEMÁTICO ... 20
1.2 GÊNERO, TEXTO E DISCURSO ... 22
1.3 MECANISMOS ENUNCIATIVOS E TIPOS DE DISCURSO ... 25
1.4 MALEABILIDADE E EVOLUÇÃO DO GÊNERO... 27
1.5 SELEÇÃO DO CORPUS ... 28
2 ENTRE O ISD E A GDV: O MODELO SEMIÓTICO SOCIOINTERACIONAL32 2.1 PERSPECTIVA DO ISD ... 33
2.2 PROPOSTA DO GVD ... 34
2.3 SEMIÓTICA SOCIOINTERACIONAL: PAPEL DA IMAGEM NA RC. ... 36
3 SUPORTES E MULTIMÍDIAS ... 38
3.1 PRÁTICAS PLURALISTAS E A IMPORTÂNCIA SOCIAL DAS MULTIMÍDIAS ... 40
4 ANÁLISES ... 43
4.1 SÍNTESE ANALÍTICA DOS DADOS ... 45
4.1.1 CONTEXTOS: FÍSICO E SOCIOSUBJETIVO ... 46
4.1.2 APONTAMENTOS E OBSERVAÇÕES ... 47
4.1.3 DIMENSÕES SEMIOLINGUÍSTICAS E ARQUITETURA INTERNA DO TEXTO ... 49
4.1.4 APONTAMENTOS E OBSERVAÇÕES ... 51
4.2 EXPOSIÇÃO PORMENORIZADA (ANÁLISE AMPLIADA DOS DADOS) ... 52
4.3 OS SUPORTES DA RC ... 56
4.3.1 SUPORTES IMPRESSOS: ... 60
4.3.2 RC NA INTERNET ... 69
4.4 RC E OS TIPOS DE DISCURSO ... 76
CONCLUSÃO... 80
REFERÊNCIA BICLIOGRÁFICA... 83
REFERÊNCIA DAS IMAGENS ... 85
ANEXOS ... 86
Índice de imagens
Figura 1: Trecho do Anexo A5 ... 48
Figura 2: Trecho do Anexo A4 ... 48
Figura 3: Trecho do anexo A9... 48
Figura 4: Anexo C8... 53
Figura 5: Anexo C3... 55
Figura 6: Anexo G1 ... 57
Figura 7: Anexo A3 ... 58
Figura 8: Anexo D4 ... 59
Figura 9: Anexo B4 ... 60
Figura 10: Anexo B6 ... 60
Figura 11: Anexo C8... 61
Figura 12: Anexo C10 ... 61
Figura 13: Anexo A4 ... 62
Figura 14: Anexo B5 ... 63
Figura 15: Anexo A10 ... 63
Figura 16: Anexo C7... 64
Figura 17: Anexo D5 ... 65
Figura 18: Anexo D2 ... 67
Figura 19: Anexo D4 ... 68
Figura 20: Anexo E1 ... 70
Figura 21: Anexo E2 ... 72
Figura 22: Anexo F1 ... 73
Figura 23: Anexo F2 ... 74
Figura 24: Trecho do Anexo A3 ... 77
Figura 25: Trecho do Anexo B3 ... 78
Figura 26: Trecho do Anexo C6 ... 79
Figura 27: Trecho do Anexo C7 ... 79
RC = Receita Culinária
ISD = Interacionismo Sociodiscursivo GDV = Gramática do Design Visual SSI = Semiótica Sociointeracionista TAC = Tratado da Arte da Cozinha AH = Alimentos com História NRP = Novas Receitas Paleo
CMB = Cozinha Maravilhosa: Bacalhau
RLSO = Receitas Lusitana: Sabores de Outono
Livro: “Tratado da Arte de Cozinha”
A1 – Anexo 1 = Arte de Cozinha, Primeira Parte: Sopa à Italiana (parte I) A2 – Anexo 2 = Sopa à Italiana (parte II – continuação)
A3 – Anexo 3 = Galinha ensopada.
A4 – Anexo 4 = Torta de Prezumto agro doce.
A5 – Anexo 5 = Argolinhas de Amêndoas A6 – Anexo 6 = Biscoito de La Reina A7 – Anexo 7 = Terceira Parte
A8 – Anexo 8 = Banquetes ordinários e extraordinários A9 – Anexo 9 = Advertências ao cozinheiro
A10 – Anexo 10 = Conduta do cozinheiro
Livro: “Alimentos com História”
B1 – Anexo 1 = Alimentos Com História (Capa)
B2 – Anexo 2 = Francesinha vegetariana e Queijo da serra recheado B3 – Anexo 3 = Preto e Branco
B4 – Anexo 4 = O domínio dos romanos (história do queijo) B5 – Anexo 5 = Os diferentes paladares (tipos de queijo) B6 – Anexo 6 = Utensílios para cada tipo de queijo
Livro: “Novas receitas paleo”
C1 – Anexo 1 = Novas receitas paleo (Capa)
C2 – Anexo 2 = Cinco formas de preparar bolinhos de batata-doce (parte I) C3 – Anexo 3 = Cinco formas de preparar bolinhos de batata-doce (parte II) C4 – Anexo 4 = Bifes de vaca à cubana com salada de mojito de tomate C5 – Anexo 5 = Parfait de tarte de Banoffee em copos
C6 – Anexo 6 = A luz da Toscana C7 – Anexo 7 = Menu rejuvenescedor C8 – Anexo 8 = Boas vibrações
C9 – Anexo 9 = Alternativa vegana da semana
C10 – Anexo 10 = Primeira semana (cardápio para a semana toda)
Revistas:
D1 – Anexo 1 = Cozinha Maravilha – Bacalhau (Capa – edição n. 121) D2 – Anexo 2 = Bacalhau para todos e Bacalhau assado no forno
D3 – Anexo 3 = Receitas Lusitana – Sabores de Outono (Capa – edição n. 67) D4 – Anexo 4 = Charlotte de café e Biscoitos de Cacau
D5 – Anexo 5 = Outono à mesa D6 – Anexo 6 = Lanchar em Família
Sites:
E1 – Anexo 1 = Pingo Doce – Receitas (abertura do site na pagina de receitas) E2 – Anexo 2 = Cheesecake de gambão
E3 – Anexo 3 = Bolo vegan de chocolate e framboesas.
F2 – Anexo 2 = Salada morna de quinoa com legumes assados, azeitonas e espinafres frescos.
F3 – Anexo 3 = Pipocas caramelizadas
Canal/Vídeos:
G1 – Anexo 1 = A fantástica cozinha de Clara
Curiosidade Cultural:
H1 – Anexo 1 = Pigeon – Receita culinária japonesa de carne de frango H2 – Anexo 2 = Dog – Receita Culinária japonesa de carne de cão.
“Felizes são aqueles que mesmo nas amarguras da vida não perdem a
doçura da alma.”
Autor desconhecido
INTRODUÇÃO
As receitas culinárias podem vir carregadas de importância histórica.
Podem remeter para as heranças familiares, mantendo sua importância na tradição de receitas antigas, carregadas de “cunho emocional”. Podem, igualmente, remeter também à herança histórica – para aquelas que foram registradas no passado, como é o caso das receitas criadas para a corte real portuguesa e que são um legado histórico e cultural. Estes foram alguns dos motivos que levaram ao interesse por este gênero, a partir dos estudos realizados para o trabalho final da cadeira de Teoria do Texto no mestrado em Ciências da Linguagem, desenvolvido no ano 2018/2019, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
O título do presente trabalho destaca evidentemente o tema deste estudo. No entanto, importa sublinhar a escolha do termo receita culinária (RC) perante a diversidade nas formas de o denominar (receita, receita de cozinha, receita de culinária, entre outras). O fato está ligado à influência cultural do país a que tenho origem (Brasil), em que o termo mais comum utilizado é Receita Culinária, popularmente conhecida apenas por receita que é na verdade o gênero em questão (receita), acrescido seguidamente de sua adjetivação (culinária).
O interesse pelo estudo do gênero: Receita Culinária deve-se por sua ampla “flexibilidade” comunicativa, uma vez que alcança desde o chefe de cozinha até a pessoa que tem poucas noções de culinária (ou nenhuma). A sua constante transformação para adequação ao meio social, especialmente à „era moderna‟ e virtual, alcançando os meios e suportes digitais, possibilita essa flexibilidade comunicativa.
Estudaremos o gênero RC para identificar como evoluiu e se adaptou ao contexto social atual, atendendo às necessidades de seus recetores e alcançando os que estão inseridos no mundo virtual e digital (plataforma de partilha de vídeos Youtube, blogues), sem perder sua importância na edição física – os livros e revistas de RC.
É igualmente observável uma evolução do gênero nos livros, por isso, analisaremos também a diferença no nível da linguagem verbal e não verbal, em particular, sobre como a imagem contribui (ou não) para a adaptação e
evolução do gênero num mundo em que imagem tende a ganhar cada vez mais relevância. Este fato amplia e ressignifica o texto, que também pode ser expresso pelos meios tecnológicos, fazendo uso atualmente de diferentes recursos que atestam sua evolução e adequação ao contexto social e suas novas formas de comunicação e interação.
Portanto, o presente trabalho tem como principal objetivo analisar o gênero textual Receita Culinária, tendo em conta a sua evolução ao longo do tempo. Para tal, e para além da sua organização global e discursiva, dar-se-á relevância à influência dos suportes e às relações verbais e não verbais existentes.
As análises far-se-ão por meio das seguintes características do gênero RC: configuração do texto, linguagem objetiva e direta, a saber, léxico culinário e uso de frase simples, bem como a organização discursiva, em particular os tipos discursivos (Bronckart, [1997] 1999), e a relação entre unidades verbais e não verbais a partir da Semiótica sociointeracional (Leal, 2011). Partindo de dois quadros teóricos distintos – o Interacionismo sociodiscursivo (Bronckart, [1997] 1999) e a Gramática do Design Visual (Kress e Van Leeuwen, 2006), Leal (2011) criou um quadro de estudo – a Semiótica Sociointeracional - na qual se contempla e analisa o cruzamento entre as unidades verbais e não verbais.
Tendo em conta que a era digital na qual vivemos e o fato de o gênero funcionar como intermédio entre o social e o linguistico-textual, torna-se importante destacar que a proximidade cultural entre as pessoas por meio dos acessos virtuais e digitais tem facilitado a interação entre os indivíduos. Ouso dizer que, depois dos pontos turísticos e belezas naturais de um lugar, a culinária é dos grandes motivos que impulsiona as pessoas a conhecerem outras culturas e países. Pode-se, portanto, dizer que a culinária tem mesclado as culturas e aproximado os indivíduos. E isso pode ser, atualmente, feito sem precisar sair de casa, com apenas um acesso à internet na busca e produção de uma receita de outro país.
Gonçalves (2018) afirma que perante as atividades sociais e a necessidade comunicativa do ser humano, os gêneros têm uma função socio- comunicativa, pois são “dispositivos maleáveis, dinâmicos” que se transformam em “função do tempo, espaço e uso realizado pelos agentes textuais”. É na
questão sobre a evolução e a transformação inerentes à natureza dos gêneros, que se insere a presente dissertação.
Por isso, a pesquisa se dará em torno da Receita Culinária desde uma das primeiras publicações portuguesas do gênero, até publicações mais recentes, comparando e analisando as suas características linguistico-textuais e consequentemente a sua evolução, do papel ao digital, nos meios de comunicação e redes sociais com advento da internet. Para tal, o nosso trabalho sustenta-se, em particular, nos trabalhos do Interacionismo Sociodiscursivo (Bronckart, [1997] 1999) (doravante ISD).
Em suma, o presente trabalho visa analisar a evolução do gênero ao longo do tempo e sua adaptação e readaptação à sociedade, sobre como encontrou uma forma de perpetuar-se ou sobreviver, permanecer na atualidade e modernizar-se para adaptar-se.
Pretende-se, portanto, trabalhar a evolução deste gênero a partir do que
“era” e representava na sociedade quando surgiu como gênero em si, seu léxico, formas verbais, conteúdo e configuração, bem como o contexto, meios de circulação e, principalmente, recursos linguísticos criando um paralelo comparativo com o gênero como circulava e circula atualmente, tendo em conta o meio social, digital e virtual.
Procura-se ainda observar dentro dessa evolução, principalmente, as manifestações verbais e não verbais bem como os tipos de discursos, comparando publicações em: livros, jornais, revistas, blogues, sites e internet de modo geral. Ver-se-á que embora se tenha atualizado para se enquadrar ao contexto atual e moderno, o gênero jamais perdeu sua função social e sua importância comunicativa que persistem até hoje.
Veremos que seu suporte de produção ampliou-se muito ao longo do tempo. Se inicialmente as RC só circulavam nos livros impressos, atualmente são divulgadas em sites na internet, blogues de receitas, vídeos e canais na internet. A partir dos estudos de Bronckart ([1997] 1999, 2003) observar-se-á como o gênero RC se apresenta e comunica à sociedade na qual está inserido, quem foram e quem são os seus públicos-alvo, como evoluiu para adaptar-se à época e como sobrevive até hoje.
As pessoas têm interagido com maior facilidade por meio da internet, buscando através dela potencializar e favorecer seus interesses através da
língua; sobre a questão comunicativa, Bakhtin (2000, p. 279) destaca que o indivíduo serve-se da língua em quaisquer atividades a partir de seus interesses, intencionalidade e objetivo (finalidade).
Atualmente a maioria das pessoas recorre facilmente à internet à procura de receitas culinárias, diante deste fato é possível que se faça então a seguinte pergunta: porque ainda existem os livros de culinárias? O objetivo aqui não é criar um confronto sobre os suportes do gênero, mas analisar como um completa o outro (antigo e atual) e como evoluíram ao longo do tempo, adaptando-se ao mundo moderno para atender às necessidades dos usuários da língua, facilitando a comunicação e interação através dos meios de comunicação.
ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO
A primeira parte desta dissertação e análise do gênero RC aborda alguns princípios teóricos importantes para a compreensão do todo deste estudo, tais como questões em torno do que é gênero, texto e discurso, tipos de discurso, mecanismos enunciativos, temporalidade e léxico, conceitos importantes para entender a evolução do gênero e entender qual o conceito de produção textual assumido nas análises, bem como questões socioculturais importantes para a construção da RC. Este capítulo tem grande contribuição dos estudos de Bronckart ([1997] 1999, 2003) e Miranda (2010).
O segundo capítulo preocupa-se com as linhas teóricas que conduziram os estudos em questão, por isso, a segunda parte destaca e evidencia aspectos importantes das propostas do ISD, da GVD e SSI, úteis para o gênero em estudo. Este capítulo tem grande contribuição dos estudos de Bronckart ([1997] 1999, 2003), Leal (2011, 2016), Kress e Leeuwen (2006).
A terceira parte da presente dissertação debruça-se sobre questões de suporte, mídias sociais e meios de comunicação e interação, importantes na divulgação e ampliação do gênero em questão, aspectos muitos comuns na atualidade e que interferem diretamente na produção, alteração e
„melhoramento‟ do gênero RC. Os estudos de Marcuschi (2002, 2004, 2008) sobre multimídias assumem grande importância e contribuição neste capítulo.
O quarto capítulo trata a análise dos textos e do gênero e sua construção, bem como suas regras de funcionamento; sendo assim, o capítulo
está direcionado para questões específicas do gênero, como: suporte, público alvo, contexto e evolução. Apresenta num primeiro plano um mapeamento da análise através de grelhas analíticas do gênero RC para se ter uma visão mais geral do gênero e também das receitas selecionadas para as análises. Num segundo nível das análises, as receitas são analisadas com maior minuciosidade. Para este capítulo, tem grande contribuição os estudos de Leal e Gonçalves (2007), Miranda (2010) e Leal (2011), mais especificamente suas grelhas de análise dos gêneros, que foram utilizadas neste estudo com o intuito de perceber com maior exatidão quais as diferenças entre a publicação antiga e as recentes. As análises evidenciam aquilo que vem sendo discutido ao longo do trabalho sobre as diversas alterações ocorridas no gênero ao longo do tempo e da alteração de suporte. Organizado em função dos suportes pelos quais as RC são veiculadas, este capítulo expõe também uma avaliação mais detalhada das imagens selecionadas do corpus.
A última parte do projeto trata da conclusão do presente estudo, seguido então das referências bibliográficas, das imagens e dos anexos.
1 ENQUADRAMENTO TEÓRICO-METODOLÓGICO
O estudo sobre a evolução do gênero Receita Culinária realiza-se, especificamente, à luz do ISD de Bronckart ([1997] 1999, 2003), com apoio de correntes como GVD de Kress e Van Leewen (2006) e os estudos de SSI de Leal (2011) com vista ao desenvolvimento das análises se que darão sobre a evolução e função social do gênero RC. Este trabalho recorre igualmente aos estudos de Marcuschi (2008) para dar suporte às análises especialmente quando se trata das análises de suportes e multimídias.
Para a compreensão dos estudos realizados, faz-se necessário a caracterização dos principais conceitos que serão utilizados no presente trabalho. Nesse sentido, este primeiro capítulo visa orientar e compreender as noções de texto e discurso bem como a compreensão do próprio conceito de gênero para tornar completo o quadro no qual o estudo do gênero Receita Culinária se configura.
Os estudos de Miranda (2010), em sua obra “Texto e gênero em diálogo”, foram igualmente inspiradores no que toca ao estudo dos textos e dos gêneros, em particular na criação de grelhas de análise, como se verá posteriormente.
Integra-se as teorias do ISD que são fundamento para as análises da presente dissertação, tais análises estruturam-se de duas formas: grelhas de Leal e Gonçalves (2007) e também uma grelha de Miranda (2010) adaptada à grelha de Leal (2011) atendendo às necessidades do presente estudo, essa grelha modificada busca fundamentos no modelo da Semiótica Sociointeracionista de Audria Leal (2011), que integra em seus estudos os conceitos do interacionismo Sociodiscursivo de Bronckart ([1997] 1999, 2003) e a Gramática de Design Visual de Krees e Leeuwen (2006) que veremos mais adiante nas análises.
1.1 CONTEÚDO TEMÁTICO
Faz-se importante elucidar que a temática é a estrutura central do texto construída por meio das linguagens verbal ou não verbal e que contribui para sentido do texto. Para além desse aspeto, é de realçar que o gênero e sua materialização textual se estabelecem por meio da linguagem, verbal ou não
verbal, sendo que o contexto de interação determina a ação da linguagem e, consequentemente, a temática do texto. Sendo assim, resta-nos expor que a observação do conteúdo temático, convocado no gênero Receita culinária, far- se-á em função da sua adaptação e ampliação ao longo do tempo, nos diversos suportes.
No entanto, o tema só pode ser constituído através da estabilidade do sentido global do texto, que permite a quem lê fazer relações entre aspectos relativamente estáveis e comuns num conjunto de textos do mesmo gênero.
Bronckart (2003, p. 97) explica que este conjunto de informações expostas por meio do texto são entendidas como “unidades declarativas da língua natural utilizada”, composto em parte também pelo conhecimento que o produtor tem acerca dos contextos físico e social, que veremos nas análises.
Se o tema do gênero é a culinária, então, o léxico pertencente ao gênero RC é também de domínio culinário e alimentar. Mesmo que tenha sofrido alterações ao longo dos anos, seu universo lexical e semântico permanece o mesmo.
Dieng (2009) apresenta um trabalho sobre o ensino de língua portuguesa para estrangeiros a partir do gênero receita culinária com o material didático, por apresentar um léxico bastante simples e por ser um gênero de fácil compreensão e expõe a partir do aproveitamento didático na contemplação do gênero RC que ativa as competências comunicativas e interculturais entre os estrangeiros que aprendem por meio deste gênero.
Dieng (2009, p. 27) cita Mário Vilela (1995, p. 7) para ilustrar melhor a explicação sobre o léxico que se constrói em torno do gênero RC:
“[...] numa perspectiva cognitivo-representativa, a codificação da realidade extralinguística interiorizada no saber de uma dada comunidade linguística. Ou, numa perspectiva comunicativa, é o conjunto das palavras por meio das quais os membros de uma comunidade linguística comunicam entre si. Tanto na perspectiva da cognição-representação como na perspectiva, trata-se sempre da codificação de um saber partilhado.”
Deve-se considerar que a questão cultural pode alterar a construção do léxico em cada RC, bem como os ingredientes e sequência de execução, sobre isso Dieng (2009, p. 28) explica:
A estas operações estão subjacentes as maneiras de cozinhar de cada povo e o seu património gastronómico, o que se traduz num inventário gramatical e lexical específico deste domínio discursivo, bem como numa organização determinada socioculturalmente, com consequências no esquema textual. Já evocadas na caracterização tipológica, as características pragmáticas, por sua vez, articulam-se com a intenção comunicativa do locutor e decorrem do objectivo ilocutório que preside à realização do acto de fala correspondente.
Concretamente, trata-se de contemplar, a partir de microposições com valor imperativo, outras dimensões discursivas, como é o caso das formas de tratamento, que se relacionam igualmente com o sociocultural.
Embora o gênero esteja sujeito “às maneiras de cozinhar de cada povo e seu património gastronômico”, como relata a citação, o léxico do gênero culinário mantém-se quase que inalterado, mesmo em culturas diferentes. Para compreender esta afirmação temos duas receitas da Culinária Japonesa retiradas de um blog e que se encontram na língua de origem (imagens H1 e H2). A princípio, apresenta a mesma estrutura de gênero e plano textual (divisão visual no texto que indicaria algo como ingredientes e modo de preparo) bastante semelhantes com a ocidental, expõe ainda imagens do passo a passo, cores destacando partes da receita e imagem do prato, embora não se entenda perfeitamente o conteúdo do texto para quem não tem conhecimento da língua japonesa, nota-se muitas semelhanças entre a receita oriental com as ocidentais. Contudo, dois aspectos inusitados se destacam e evidenciam a questão cultural fortemente marcada no gênero: a primeira é da imagem do frango morto estar disposto de certo modo que parece sensualizar (como o próprio autor do blog observa); a segunda é a de utilizarem carnes de cães na culinária (ver nos anexos H1 e H2).
1.2 GÊNERO, TEXTO E DISCURSO
Antes de iniciar a apresentação das noções de gênero, texto e discurso, importa englobá-las na dinâmica social. Para tal, recorremos à questão das esferas sociais, tal como desenvolvida por Bakhtin (2000). Cada esfera divide- se como forma de organização e distribuição dos diferentes papéis e lugares sociais para o qual e no qual se produzem os discursos e a partir destes os gêneros, que, segundo o Bakhtin (2000), “materializam a língua”.
Considerando, portanto, que os gêneros são ponte ressignificante e meio de
expressão entre a língua e as relações sociais dos indivíduos, pode-se considerar que os gêneros estão presentes em todos os atos comunicativos.
Bakhtin (2000, p. 329) explica: “onde não há texto, também não há objeto de estudo e de pensamento”. A sociedade constrói-se, portanto, por meio de textos que interagem entre si e comunicam informações importantes dessas relações sociais ora fortalecendo-as ora modificando-as.
Versando sobre os tópicos relativos a este ponto da dissertação, equaciona-se a relação entre gênero, texto e língua a partir de Leal e Gonçalves (2007, p. 697):
A definição de gêneros textuais como prática lingüística determinada socialmente parte do princípio de que a língua é um fato social e, portanto, sujeita as necessidades comunicativas do homem. A partir dessa idéia, surge a noção de gênero como a realização de textos que apresentam características sociocomunicativas variáveis de acordo com a diversidade das práticas sociais humanas.
Entende-se aqui o gênero como realização de textos variáveis e diversos devido às práticas sociais humanas de interação. Esta “diversidade de práticas sociais” pode impulsionar as mudanças nos gêneros, que se tornam por esta via inevitáveis, uma vez que estão relacionados a tais práticas e às alterações temporais. Ou seja, os gêneros são produtos sociais heterogêneos, variados e favoráveis às mudanças, pois cada esfera social de atividade humana produz um modelo de comunicação, a saber, o gênero, consoante suas necessidades.
O texto pode ser visto como um ato de comunicação social, que segue as regras ditadas pelo gênero, criando interatividade entre o objeto textual e o receptor. Este, por sua vez, não é passivo, pois pode adotar consigo uma atitude responsiva de concordância ou não e reagir de modo a complementar, discutir, direcionar e até ampliar sua compreensão do texto, assim “dialogam”:
gênero, texto e discurso na recepção do mesmo entre locutor e receptor.
Passando agora para a questão das esferas comunicativas, importa sublinhar que são variadas e por isso surgem novas “condições comunicativas”
que servem para atender a necessidade do ser humano em expressar-se consoante o contexto em que se encontra.
Ainda sobre a questão do texto, Marcuschi (2008, p. 133) apoiado em Beaugrande (1997) destaca que este é “um evento comunicativo em que aspectos linguísticos, sociais e cognitivos estão envolvidos de maneira central
e integrada.” Com base nesta afirmação, acredita-se que cada gênero tenha um perfil que conduz a funções sociais, uma vez que este detém intenção comunicativa, está direcionado a um público que se comunica através dos gêneros estruturando assim os textos por meio deles, como também sua forma de comunicar e expor a informação. Sendo assim, a compreensão em torno do gênero estrutura-se e baseia-se neste princípio, compondo e caracterizando o perfil do texto por meio dos traços linguísticos.
A presente pesquisa entende o texto e o discurso como temas complementares. Apoiando-se no quadro teórico do ISD proposto por Bronckart (2008) – Miranda (2012, p. 123-124) explica que ISD chama de “atividade de linguagem” o que os outros teóricos assumem como tipos de discurso ou espécies de atividades de linguagem. Sobre a questão da configuração textual, Miranda (2010, p. 133) expõe então o posicionamento do ISD sobre a arquitetura interna dos textos:
Na proposta do ISD, a organização de todo o texto é concebido como
“folhado” constituído por três camadas sobrepostas. A camada mais superficial envolve os mecanismos de responsabilização enunciativa, a camada intermédia diz respeito aos mecanismos de textualização e a camada mais profunda constitui a infra-estrutura geral do texto.
Cada uma destas camadas corresponde a um nível da arquitetura interna dos textos. A distribuição em níveis visa dar conta da estruturação hierárquica da organização dos textos e constituiu uma distinção metodológica que se assume, por isso, como parcialmente
“artificial”. (Grifos e destaques da autora).
Miranda (2010, p. 135) faz uma observação sobre textualização na proposta do ISD: “A meu ver, a opção por este termo na sua proposta tem mais a ver com a ideia de „textura‟ (enquanto acção de „tecer‟) do que a noção de
„texto‟.” Defendo aqui que esta „ação de tecer‟ pode não ser propriamente o texto, como explicou Miranda (2010), mas é uma ferramenta fundamental que o compõe como texto dentro de um gênero.
Ainda sobre a questão dos textos e dos discursos, importa ressaltar que o ISD divide as definições de texto e discurso, por isso é importante destacar que o ISD entende os gêneros como sendo textuais e não discursivos, pois, segundo (Bronckart 2003, p. 101), textos e discurso são realidades distintas e não duas maneiras de ver o mesmo objeto. Sendo assim, considera o discurso como sendo então a língua em uso, tal como preconizado por Saussure (2002),
e o texto uma unidade comunicativa que une linguística e semiótica e não apenas uma unidade discursiva.
1.3 MECANISMOS ENUNCIATIVOS E TIPOS DE DISCURSO
O Interacionismo Sociodiscursivo integra as noções de gênero de texto e tipos de discurso. As noções de texto, discurso e enunciado são defendidos por Miranda (2010, p. 56) como tendo “desenvolvimentos históricos paralelos que apresentam cruzamentos indiscutíveis”, já que embora cada um destes tenha abordagens individualizadas, mas carregada de decursos próprios que se relacionam e interagem entre si. O ISD também classifica a noção de discurso como forma recorrente de utilização da língua, na esteira dos trabalhos de Benveniste, Weinrich e Simonin-Grumbrach.
O discurso está relacionado com a utilização da língua (pelos indivíduos) em situações comunicativas concretas, ou seja, a língua em utilização, sendo assim, como defende Miranda (2010, p. 69) “a partir desta concepção pode dizer-se que textos e enunciados constituem materialização do discurso”, mesmo que de modo independente ou fora de suportes que os façam durar.
Retomando os trabalhos de Bronckart (1999), Miranda (2010, p. 134) sublinha que os “mecanismos de responsabilização enunciativa” constituem o nível mais superficial do texto, pois estes dependem dos “parâmetros de situação de ação”, que reúne a “gestão das vozes no (ou do) texto” e as modalizações, a respeito desta segunda a presente pesquisa não se aprofundará, já a respeito da primeira, Miranda (2010, p. 134) explica:
No que diz respeito à gestão das vozes, defende-se uma organização hierárquica que contempla uma instância supra- ordenada, encarregada da atribuição das responsabilidades enunciativas, e um conjunto de instâncias infra-ordenadas. A instância supra-ordenada, poderá ser denominada expositor ou narrador conforme o tipo de discurso mobilizado no texto (ver infra a noção de “tipos de discurso”). As instâncias infra-ordenadas constituem vozes que podem ser agrupadas em três subconjuntos: a voz do autor empírico do texto, as vozes sociais (ou seja, as que correspondem a pessoas ou instituições humanas exteriores ao conteúdo temático do texto) e as vozes de personagens (pessoas ou instituições implicadas directamente no percurso temático). (grifo e destaques da autora)
O uso da língua em situações específicas é relevante na definição do discurso. Este é apreendido como resultado do ato e enunciação em contato
com a língua em um contexto comunicativo, no qual estão inseridos os participantes, as instituições e os parâmetros espaços-temporais em um contexto que não permanece neutro, mas influencia as interpretações do discurso.
Pode-se considerar, portanto, que o contexto é importante tanto para o discurso quanto o texto, pois o gênero em si agrega e associa atividades de linguagens para o qual está direcionado. Ninguém compra um livro de RC, por exemplo, sem saber do que se trata ou que tipo de leitura terá com este gênero, sendo assim, a estruturação e linguagem dos gêneros propiciam e facilitam a comunicação e interação uma vez que antecipa seu conteúdo.
Sobre os tipos de discurso presentes nos gêneros, Miranda (2010, p.
136) defende o posicionamento de Bronckart (1997) ao explicar:
A noção de tipos de discurso é, em contrapartida, amplamente desenvolvida no modelo e constitui, de fato, um dos maiores contributos do ISD para a análise dos textos e dos gêneros. Os tipos de discurso são definidos como seguimentos que entram na composição dos gêneros (e, portanto, de cada texto empírico), nos quais se traduzem mundos discursivos particulares (ou diferentes
“atitudes de locução”). (Grifo da autora)
Este posicionamento de Bronckart sobre os “tipos de discurso” é o mesmo que se assume para este estudo do gênero RC. De acordo com Bronckart, considera-se a existência de quatro tipos de discurso: interativo, teórico, narrativo, e relato interativo. Estes tipos de discursos, sintetizados no quadro que segue conforme propõe o ISD, podem ser “identificados” no texto, seguindo a analise das unidades linguísticas que os compõem.
Coordenadas gerais dos mundos Conjunção
EXPOR
Disjunção CONTAR
Relação ao ato de produção
Implicação Discurso Interativo
Relato Interativo Autonomia Discurso
Teórico Narração
Traduzido de Bronckart 1997: 159 apud Miranda 2010: 137.
Segundo Bronckart (2003), os segmentos pertencentes ao texto, os tipos de discurso, são infraordenados ao gênero, ou seja, os gêneros não possuem um único e exclusivo tipo de discurso, funcionam, sobretudo em função de uma maior tendência ou menor tendência de um determinado tipo de discurso ou de um conjunto deles. Bronckart 1997 apud Miranda (2010, p. 137) explica que, na verdade, o mesmo tipo de discurso pode estar presente em diferentes gêneros e estes podem misturar-se, contudo, há maior estabilidade ou recorrência do tipo discursivo para o qual um determinado gênero tende. Sobre isso Miranda (2010, p. 142) argumenta: “Se os tipos de discurso são segmentos configuracionais que ocorrem sempre nos textos, nesta proposta admite-se também que os textos apresentam organizações sequenciais ou lineares do conteúdo temático”.Sendo assim, o texto e a organização discursiva podem ser vistos como temas complementares no estudo do gênero.
1.4 MALEABILIDADE E EVOLUÇÃO DO GÊNERO
Bakhtin (1995) é um dos precursores dos estudos dos gêneros e quem sugere o termo “gêneros discursivos” para “tipos relativamente estáveis de enunciados, presentes em cada esfera da atividade humana e socio- historicamente construídos” que possuem, segundo o mesmo autor (2000), três características básicas: tema, organização composicional e estilo.
Bronckart (2003) em seus estudos sobre o gênero destaca a diferença existente entre tipos de textos e gêneros, em que a expressão: “tipos de textos”
refere-se à forma mais “estática” e estável dos textos, como segmentos contendo narração, descrição ou argumentação, entre outros. Já o conceito de gênero baseia-se numa estruturação mais dinâmica, que podem sofrer alterações pelas marcas culturais que possuem para as quais convergem diversas correntes da linguística textual. Contrariando o que afirma Bakhtin, o ISD, destaca o gênero como sendo textual e não discursivo. Assumimos a abordagem do ISD.
Para Bronckart (2003), estamos cercados por um universo de textos, organizados em gêneros que se mantêm em processo de modificação e nosso contato constante com estes textos faz-nos construir, ainda que de forma inconsciente, um conhecimento intuitivo de suas regras e propriedades.
Habita na sociedade uma necessidade de comunicação e interação social em constante evolução comunicativa, por isso, na composição de um gênero, pode-se considerar que ele é flexível e eficaz uma vez que comunica socialmente, adaptado pelos agentes textuais, sujeitando-se às alterações sociais a que está imposto pela sociedade.
Essa interação se dá por meio da linguagem, uma atividade que se encontra nas diferentes esferas da interação humana e se materializa em diferentes “espécies de texto”, como explica Bronckart ([1997] 1999, p. 75), interagindo entre si sem fronteiras fixas delimitadoras de gêneros. Uma atividade de linguagem está presente em determinada esfera social a partir da formação sociodiscursiva, a qual faz os gêneros evoluírem e até desaparecerem. Explica ainda que os gêneros regulam a produção dos textos por vias contraditórias e complementares simultâneas. Por isso, a circulação de um gênero acontece no meio social e suas características contextuais e organizacionais refletem variadas esferas de atividades.
Coutinho (2006, p. 4), apoiada em Bronckart, frisa que os textos apresentam-se aos falantes de uma língua “sob a forma de nebulosa (onde coexistem gêneros estabilizados e conjuntos de textos sem fronteiras fixas ou nítidas)”, esta nebulosa de estreita fronteira entre textos e gênero em interação com o mundo (os indivíduos) levam-nos às alterações e transformações a que lho submetem os falantes.
Ao analisar o contexto social aparente, pode-se inicialmente sugerir que a evolução dos gêneros aumentou com o aparecimento da internet, mídias sociais e sua exposição aos novos suportes que, além da linguagem verbal, expõe cada vez mais uma linguagem virtual e também não verbal, carregada de imagens convidativas. Entretanto, continuam ainda a fazer sucesso os gêneros impressos por meio das publicações em livros, agradando diferentes gostos pela leitura desde o impresso ao digital, como também vídeos.
1.5 SELEÇÃO DO CORPUS
Para as análises do presente estudo foram selecionadas algumas receitas culinárias que serão comparadas. Tem-se para as comparações 5 publicações do gênero impresso, sendo 3 livros, em que um deles é bastante antigo e 2 revistas. Além disso, para que se pudesse expandir a análise, já que
se trata da “evolução” do gênero RC, foram selecionados também receitas digitais em 3 suportes diferentes: site, blog e canal; as seleções foram feitas preocupadas com a possibilidade do gênero alterar-se em diferentes suportes.
Ou seja, os estudos se basearão em três fontes específicas: livros de receitas (atual e antigo), revistas e sites de receitas culinárias na internet.
Sendo assim temos:
Dos livros:
A) Tratado da Arte de Culinária?
1. Arte de Cozinha, Primeira Parte: Sopa à Italiana (parte I);
2. Sopa à Italiana (parte II – continuação); 3. Galinha ensopada; 4. Torta de Prezumto agro doce; 5. Argolinhas de Amêndoas; 6. Biscoito de La Reina; 7. Terceira Parte; 8.
Banquetes ordinários e extraordinários; 9. Advertências ao cozinheiro; 10. Conduta do cozinheiro.
B) Alimentos com história
1. Alimentos com História (Capa); 2. Francesinha vegetariana e Queijo da serra recheado; 3. Preto e Branco; 4. O domínio dos romanos (história do queijo); 5. Os diferentes paladares (tipos de queijo); 6. Utensílios para cada tipo de queijo.
C) Novas receitas paleo
1. Novas receitas paleo (Capa); 2. Cinco formas de preparar bolinhos de batata-doce (parte I); 3. Cinco formas de preparar bolinhos de batata-doce (parte II); 4. Bifes de vaca à cubana com salada de mojito de tomate; 5. Parfait de tarte de Banoffee em copos; 6. A luz da Toscana; 7. Menu rejuvenescedor; 8. Boas vibrações; 9. Alternativa vegana da semana; 10. Primeira semana (cardápio para a semana toda).
Das Revistas:
D) Cozinha maravilha e Cozinha Lusitana
1. Cozinha Maravilha – Bacalhau (Capa – edição n. 121); 2.
Bacalhau para todos e Bacalhau assado no forno; 3.
Receitas Lusitana – Sabores de Outono (Capa – edição n.
67); 4. Charlotte de café e Biscoitos de Cacau; 5. Outono à mesa; 6. Lanchar em Família.
Dos suportes digitais:
E) Sites
1. Pingo Doce – Receitas (abertura do site na pagina de receitas); 2. Cheesecake de gambão; 3. Bolo vegan de chocolate e framboesas.
F) Blog
1. As minhas receitas (abertura do blog); 2. Salada morna de quinoa com legumes assados, azeitonas e espinafres frescos; 3. Pipocas caramelizadas.
G) Canal no Youtube
1. A fantástica cozinha de Clara
Portanto, temos como fonte uma das primeiras publicações culinárias portuguesa, que ocorreu no final do sec. XVII e início do sec. XVIII período em que viveu seu autor, o experiente cozinheiro da coroa real portuguesa Domingos Rodrigues, intitulado: “Arte de cozinha: primeira parte1”. Por isso teve grande prestígio sua publicação, inclusive no além mar (Brasil), onde segue arquivada uma das primeiras edições dessa obra na Biblioteca Nacional da USP (Universidade de São Paulo).
Foi dos primeiros „Tratado de Cozinha‟ (nome dado outrora aos livros de receitas) publicado, senão o primeiro. A 1ª edição desta obra não tem data especificada e a 2ª de 1732, na qual já se vê algumas alterações é considerada a mais completa encontrada em Portugal, esta serviu de base para que o livro fosse reeditado pela Imprensa Nacional/Casa da Moeda em 1987.
Esta obra servirá base de comparação com as outras formas de publicação do gênero RC, de modo a termos um ponto de partida para analisar as diferenças e as semelhanças entre a RC do século XVII e a atual. Para além disso, poder-se observar a evolução e a adequação do gênero em função da época, do meio social, das condições e meios de comunicação atuais.
1 Todas as informações referentes a este livro, aqui citadas, estão disponíveis na íntegra no site da Biblioteca Virtual da USP (Universidade de São Paulo):
https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/3914, bem como a obra completa digitalizada.
Seguindo a linha do gênero em suporte impresso, têm-se como foco principal das análises comparativas duas obras também em livros, estas, no entanto, mais recentes e atuais, contudo, cada uma delas com uma abordagem completamente diferente. A primeira “Alimento com história”, como o próprio nome diz, esta focada na história, importância e origem dos ingredientes principais, por isso, as receitas da obra estão divididas por ingredientes:
queijos, chocolates e gambas, por exemplo. A segunda “Novas receitas paleo”
trata-se de uma culinária paleolítica que valoriza os alimentos, naturais, orgânicos e cultivados em casa, como veremos nas análises.
Nesta sequência do gênero em suporte impresso temos ainda as revistas, que não poderiam ficar de fora, uma vez que são muito populares entre os leitores do gênero receita culinária. Mais uma vez selecionam-se duas revistas com o intuito de não tender a nenhuma especificamente e assim ter também uma comparação mais abrangente do gênero. A primeira “Cozinha maravilha”, tem como tema principal um ingrediente bastante popular: o bacalhau, sendo assim todas as receitas são de bacalhau. A segunda
“Receitas Lusitana” apresenta receitas de outono, esta é uma característica muito comum das revistas que trazem como temas a temporalidade presente para festas específicas e épocas do ano, como receitas para o Natal, receitas para a Páscoa, para o verão, para inverno, entre outras tantas.
Daquelas provenientes da internet:
https://www.pingodoce.pt/coleccoes/receitas-tradicionais-ortuguesas/ - um site de receitas do Pingo Doce com pratos portugueses; o blog:
http://paracozinhar.bloguespot.com/ - em que uma pessoa expõe suas receitas e segredos culinários e há uma maior interação com o público alvo; e um canal no Youtube de uma „cozinheira mirim‟ que ensina pessoas da sua idade a cozinhar pratos simples e mostrando que qualquer pessoa pode aprender a
„arte culinária‟, neste último não manteremos o foco, apresentamos apenas como referência para não alongarmos demais o presente estudo.
2 ENTRE O ISD E A GDV: O MODELO SEMIÓTICO SOCIOINTERACIONAL
Com o advento da internet, viu-se uma ampliação nos gêneros textuais e novas formas de interação comunicativa entre os indivíduos que favoreceram então o fortalecimento e alterações nos gêneros já existentes. O gênero textual culinário passou a apresentar uma maior complexidade ao nível da relação entre a linguagem verbal e não verbal, por este motivo faz-se necessário recorrer a instrumentos de análise que contemplem essas duas dimensões e a sua interrelação. Para isso os estudos que aqui seguem apóiam-se na Semiótica Sociointeracional (Leal, 2011) para entender como se dão tais características que vieram agregar valor à comunicação por meio dos textos da RC neste „novo formato‟.
Sendo que a textualização do gênero Receita culinária se dá pela interação entre sua publicação e circulação nos mais variados suportes e pelo público para o qual está direcionado, seu sentido constrói-se, consequentemente, nessa relação social e tem como finalidade a necessidade de orientar e conduzir seu destinatário. É devido a esta necessidade que o gênero RC recorre, para além da dimensão verbal, a uma dimensão não verbal.
Para o presente estudo, a análise sustenta-se, como já referido anteriormente, no modelo de analise semiótico sociointeracional criado por Leal (2011) – no qual a partir do cruzamento entre o Interacionismo Sociodiscursivo (Bronckart 2008) e a Gramática do Design Visual de Kress e Leeuwen (2006) constrói um modelo que permite a análise das relações entre o verbal e o não verbal.
Procedendo a uma ampliação do modelo de arquitetura textual desenvolvido por Bronckart, que contempla os tipos de discursos, Audria Leal desenvolveu o quadro semiótico sociointeracional, integrando os contributos da Gramática do design visual (GDV) de Kress e van Leeuwen (2006). Nesta perspectiva enquadram-se palavras e imagens como instrumentos comunicativos em que cada uma detém seu “código” comunicativo particular e forma de representar e construir o mundo, possíveis de interação e complementaridade produzindo melhor significado quando combinados.
Por forma a compreender a amplitude da SSI, apresentamos, de seguida, e sumariamente os aspetos mais relevantes do ISD e da GDV, antes de nos atentar na SSI.
2.1 PERSPECTIVA DO ISD
O ISD (Interacionismo Sociodiscursivo) enfoca a importância da linguagem verbal no funcionamento e desenvolvimento humanos em suas interações sociais e propõe um quadro epistemológico sobre as normas e condições de funcionamento da linguagem. Bronkart ([1997] 1999) explica que o interacionismo social dá-se pela epistemologia geral, devido ao seu caráter transdisciplinar envolvendo diferentes correntes filosóficas e ciências humanas.
Leal (2011, p. 97-98) explica:
Partindo desse pensamento geral, é importante frisar as duas propostas de base do ISD: a primeira refere-se a descrever a linguagem a 98 partir da praxiologia e, a segunda, equacionar a linguagem como instrumento fundador e agregador do próprio conhecimento humano. Podemos, pois, destacar que, no intuito de propor uma teoria sobre o estatuto, modo de organização e de funcionamento da linguagem, o ISD abrange e, de certo modo, extravasa os limites da linguística, entrando num campo mais vasto da ciência integrada do conhecimento humano, centrada na dinâmica formadora das práticas de linguagem.
Assim, o ISD deve ser encarado como uma “ciência do humano” que entende a linguagem como problemática central dessa ciência (Bronckart, 2006, p.10). Deste modo, as “práticas linguageiras” (textos-discursos) são instrumentos importantes do desenvolvimento humano, seja em relação aos conhecimentos, saberes, capacidade de agir ou à própria identidade da pessoa.
Por isso, os estudos do ISD, em concordância com Bronckart (2006, p.
122), atentam para o fato de que a língua não é apenas um meio de expressão de processos psicológicos (percepção, cognição, sentimentos, emoções), mas um instrumento fundador e organizador dos processos nas dimensões humanas.
Sobre o desenvolvimento humano e as atividades comunicativas que contribuem para tal, põe-se em evidencia a afirmação de Leal (2011, p. 99):
“[...] os trabalhos do ISD procuram demonstrar como os mecanismos de produção e de interpretação dos textos contribuem para a modificação do humano enquanto agente e, reciprocamente, dos fatos sociais.”
Ou seja, de acordo com os pressupostos do ISD, os gêneros textuais e os tipos de discurso são ferramentas de análise que permitem observar e compreender quer a organização da sociedade, quer a construção do indivíduo em interação real com a sociedade. As noções de gênero de texto e tipos de discurso, integram-se no ISD para as análises dos textos, considerada como unidade essencial de análise (Bronckart, 1997/1999: 71-88).
Para além destes instrumentos, Miranda (2010, p. 131ss) registra que esta corrente de pensamento esquematiza duas formas básicas de análise dos textos: uma sobre a ação da linguagem, que vê o texto enquanto unidade comunicativa, outra sobre a arquitetura do texto, que abrange a organização interna dos textos.
2.2 PROPOSTA DO GVD
Para a constituição teórica da GDV, Kress e Leeuwen (2006) fundamentam-se na Gramática Sistêmico Funcional (GSF) de Halliday (1985) em que as relações “metafuncionais da língua” para construção da realidade são: ideacional, interpessoal e textual.
Nos estudos de Kress e Van Leeuwen (2006), a gramática não está vinculada às características das gramáticas estruturais relacionadas ao estudo da língua. Sendo fundamentalmente um estudo de complementaridade entre o verbal e o não verbal, atentam, sobretudo, para os contrastes e suas combinações para ampliação dos sentidos e significados na comunicação e, por isso, seu sentido está ligado às categorias de pessoas, lugares e objetos através do modo como são combinadas visualmente por meio dos modalizadores de realidade mais ou menos complexos.
Kress e Leeuwen (2006, p. 2) sublinham a importância da Gramática Visual com uma afirmação de Halliday (1985) ao explicar que a “gramática está além das regras formais de correção”, ela é na verdade uma forma de representar experiências que permitem às pessoas construírem “uma imagem mental da realidade” e compreendam assim o mundo ao ser redor a partir de
suas construções mentais da realidade com “suas próprias experiências”.
Apoiados nessa perspectiva Kress e Leeuwen (2006, p. 2) justificam a GVD da seguinte forma:
The same is true for the „grammar of visual design‟. Like linguistic structures, visual structures point to particular interpretations of experience and forms of social interaction. To some degree these can also be expressed linguistically. Meanings belong to culture, rather than to specific semiotic modes. And the way meanings are mapped across different semiotic modes, the way some things can, for instance, be „said‟ either visually or verbally, others only visually, again others only verbally, is also culturally and historically specific.
Ou seja, a cultura de cada povo bem como seus hábitos comunicativos e a realidade que o cerca são importantes para a construção mental destes significados para que ele seja construído adequadamente, pois valida suas experiências no processo de construção deste significado.
Sendo assim, a GVD valida-se por meios diferentes daqueles usados pela linguagem verbal, expressando-se por exemplo por meio de cores, formatos de letras e/ou imagens apelativas, que garantem a mesma eficácia comunicativa da verbal, o que afeta diretamente o significado ou sentido que se pretende alcançar.
Sobre o fato de ser chamada de “Gramática”, Kress e Leeuwen (2006, p.
3) explicam:
As for other resonances of the term „grammar‟ („grammar‟ as a set of rules one has to obey if one is to speak or write in „correct‟, socially acceptable ways), linguists often protest that they are merely describing what people do, and that others insist on turning descriptions into rules. But of course to describe is to be involved in producing knowledge which others will transform from the descriptive into the normative, for instance in education. When a semiotic mode plays a dominant role in public communication, its use will inevitably be constrained by rules, rules enforced through education, for instance, and through all kinds of written and unwritten social sanctions. Only a small elite of experimenters is allowed to break the rules – after all, breaking rules remains necessary to keep open the possibility of change.
Embora se estabeleça com base em algumas regras composicionais e/ou gramaticais da imagem que se compõe a partir da linguagem, a GVD situa-se cada vez mais nos domínios da comunicação pública.
2.3 SEMIÓTICA SOCIOINTERACIONAL: PAPEL DA IMAGEM NA RC.
Uma breve análise do gênero RC já aponta para o uso exponencial que a vertente não verbal ocupa nas receitas atuais. Com efeito, o recurso a imagens possibilita criar efeitos estéticos mais apelativos, podendo, igualmente, construir novos valores e novos sentidos textuais, tornando deste modo o texto mais persuasivo, em que o indivíduo constrói uma representação do prato a ser preparado através da junção entre a dimensão verbal e não verbal da RC, motivando-o a escolher uma receita, em detrimento de outra.
Portanto, é possível afirmar que no gênero RC o visual, ou seja, as imagens integram-se no texto e torna seu discurso mais credível e aprovável a quem lê a receita e está a avaliar se é capaz ou não de executá-la. As imagens estão tão carregadas de informações quantos os próprios textos, claro que a imagem completa o gênero textual para que seja possível então a
“materialização da imagem”, tornando-a real.
Todavia, a importância da imagem é mais evidente ainda quando o gênero é representado pelas multimídias, em que cada ícone, símbolo e unidade não verbal na página falam por si e representam uma palavra ou uma série delas, afirmando aquilo que nos remete a Saussure sobre signos linguísticos.
Entra-se aqui numa gramática já não tão verbal, uma comunicação que se dá por meio das imagens que convencem o interlocutor e faz com que este
“coloque a mão na massa” literalmente, como diz o ditado popular para tornar real o estímulo que teve através das imagens. É por isso que esta interação que se dá por meio da imagem presente no gênero precisa ser avaliada pela ótica da SSI (semiótica sociointeracional) com dose de apoio da GVD. Sobre este assunto Leal (2016, p. 60) escreve:
“A gramática visual tem como objetivo fornecer uma gramática que também contemple os significados realizados pelo visual, procurando interpretar experiências e formas de interação social dentro de uma perspectiva semiótica.”
Leal (2011), que é a base de estudos dessa seção, segue uma linha de estudos mais representacional e explica a partir da Semiótica Social que a
língua é capaz de influenciar e transformar a realidade social, Leal (2016, p. 59) completa afirmando:
É de referir que a relação motivada entre o significante e o significado dependerá do posicionamento social do indivíduo. Certamente, quando falamos de interação, podemos concluir que o significado.
Será preenchido pelos participantes no momento da interação. Isto faz com que o signo não tenha um significado fixo, mas que seja construído socialmente. É nesta construção que o signo obtém diferentes significações, tanto quanto forem possíveis os contextos sociais em que ele pode estar inserido. A partir deste pensamento, podem os concluir que os indivíduos produzem e reproduzem significações a partir do mundo social em que se situam. Estas significações são expressas na linguagem a partir de diferentes modos semióticos não apenas da ordem do linguístico, mas também pelo visual. É com base nesta perspectiva que a Semiótica Social elabora o seu quadro de análise denominado de Grammar of Visual Design.
Portanto, é por meio da SSI que os estudos contemplam o universo real do leitor com o qual interage por meio das imagens, esta tem o poder de influenciar o leitor a partir de sua realidade do mundo no qual está inserido, sendo assim, as imagens são propositalmente selecionados e colocadas no gênero em questão (RC) de acordo com o amplo universo dos leitores para induzi-lo ao consumo.
Por meio da SSI, faz-se a análise da complementaridade dentro do gênero RC, atribuindo sentido e significado à interação da palavra com a imagem. A abordagem aqui leva em consideração as linhas de análise SSI que são importantes uma vez que o gênero constrói-se atualmente a partir da interação, combinação e complementaridade das duas linguagens “visual e verbal” ou texto e imagem, em que a linguagem visual ou unidade não verbal pode ser: logotipos, imagens, filmes/ animações, sons.
Segundo Leal (2011, p. 167ss), o não verbal passa a ser relevante nas análises de textos e gêneros, já que os textos “mobilizam diferentes unidades semiotizadoras, além do linguístico” e diz sobre o papel da imagem na sociedade contemporânea:
É verdade que a problemática do signo não verbal não é nova, pois a preocupação em entender o visual começa no início do século XX com o advento da noção de signo proposta por Saussure e, em seguida, por Peirce. No entanto, com as ideias positivistas fortemente vincadas, estes estudos ficam arrumados em um campo de pesquisa denominado semiótica ou semiologia, não havendo interação com o