Analisa, de modo particular, um conjunto específico de novos gêneros textuais, desenvolvidos no contexto de hoje denominada mídia virtual, identificada centralmente na tecnologia computacional a partir das três últimas décadas do século XX. Daí surge um novo tipo de comunicação conhecido como comunicação mediada por computador (CMC) ou comunicação eletrônica, que desenvolve uma espécie de
3.1 PRÁTICAS PLURALISTAS E A IMPORTÂNCIA SOCIAL DAS MULTIMÍDIAS
A difusão do gênero bem como sua “adaptação social” ao longo dos anos ampliou sua rede e suas formas de difundir-se na sociedade por meio dos suportes, das multimídias, isso fez com que se desse o ajustamento do gênero ao meio social através das “práticas pluralistas”, como citado no capítulo anterior, a partir desta compreensão pode-se sugerir então a “flexibilidade do gênero”. Marcuschi (2008, p. 161) esclarece melhor esta ideia com a seguinte afirmação:
Os gêneros são atividades discursivas socialmente estabilizadas que se prestam aos mais variados tipos de controle social e até mesmo
ao exercício de poder. Pode-se, pois, dizer que os gêneros textuais são nossa forma de inserção, ação e controle social no dia-a-dia.
Toda e qualquer atividade discursiva se dá em algum gênero que não é decidido ad hoc, como já lembrava Bakhtin ([1953]1979) em seu célebre ensaio sobre os gêneros do discurso. Daí também a imensa pluralidade de gêneros e seu caráter essencialmente sócio-histórico.
Os gêneros são também necessários para a interlocução humana.
Sendo assim, segundo o autor, os gêneros proporcionam as práticas pluralistas, pois toda ”atividade discursiva se dá em algum gênero”. Marcuschi (2008, p. 173) cita Maingueneau (2001) para sublinhar que ao observar as multimídias: “é necessário reservar um lugar importante ao modo de manifestação material dos discursos, ao seu suporte, bem como ao seu modo de difusão: enunciados orais, no papel, radiofônicos, na tela do computador etc.” Marcuschi (2008, p. 174ss) explica ainda que as multimídias não são meios simples que transportam mensagens constantes, pois uma mudança nela pode modificar vários gêneros, ou “um conjunto de gêneros” como apresenta Maingueneau apud Marcuschi (2008), acrescentando ainda:
“Isso diz respeito tanto ao modo de circulação como ao modo de consumo dos gêneros e ainda mais ao modo como eles são estabilizados para serem "transportados" eficazmente. Um dia só transmitíamos os textos oralmente; depois passamos a fazê-lo por escrito; mais tarde, por telefone; e então pelo rádio, televisão e recentemente pela internet. Esses mídiuns são ao mesmo tempo modos de transporte e de fixação, mas interferem no discurso.”
Ou seja, houve, segundo ele, e que pode-se constatar por nós mesmos, uma grande evolução e transformação nos suportes que veiculam os gêneros e tais alterações fizeram com que os gêneros também alterassem e se ajustassem às multimídias.
As afirmações de Marcuschi (2008, p. 174) revelam-nos que “o suporte não é neutro e o gênero não fica indiferente a ele", embora, não signifique que o suporte determine sempre o gênero, e mesmo tal assunto pode ser questionável, como explica o próprio autor.
Marcuschi (2008, p. 174 e 175) define então o suporte como sendo:
“[...] o um Iocus físico ou virtual com formato específico que serve de base ou ambiente de fixação do gênero materializado como texto.
Pode-se dizer que suporte de um gênero é uma superfície física em formato específico que suporta, fixa e mostra um texto. Essa idéia comporta três aspectos: a) suporte é um lugar (físico ou virtual); b)
suporte tem formato específico; c) suporte serve para fixar e mostrar o texto.”
Entende-se, portanto, que as multimídias e suportes estão estreitamente relacionados e ligados aos gêneros, uma vez que lhe „dão o suporte necessário‟ para continuarem a circular na sociedade. No entanto, importa sublinhar que não podem ser confundidos ou misturados como sendo apenas um, pois eles têm suas distinções e natureza única com uma finalidade e funcionalidade bem estabelecidas, mas um não é completamente neutro na relação com o outro.
Sendo assim, os gêneros digitais ganharam força, espalham-se pelas mídias virtuais e fazem surgir novos gêneros, sendo que as redes virtuais de interação social, bem como as mídias digitais, através da internet potencializam e favorecem a ampliação, alteração (adaptação) e surgimento de novos gêneros ou de gêneros antigos com „nova roupagem‟, adaptado à nova realidade virtual e digital.
É fato que as mídias virtuais alteraram muito a sociedade, não foi apenas os gêneros ou os suportes que essas mídias alteraram ou adaptaram, elas trouxeram uma alteração de nível social, inclusive na maneira de nos relacionarmos. Marcuschi (2008, p. 198) explica:
“Se tomarmos o gênero enquanto texto concreto, situado histórica e socialmente, culturalmente sensível, recorrente, "relativamente estável" do ponto de vista estilístico e composicional, servindo como instrumento comunicativo com propósitos específicos como forma de ação social, é fácil perceber que um novo meio tecnológico, que interfere em boa parte dessas condições, deve também interferir na natureza do gênero produzido.”
Ou seja, os meios tecnológicos favoreceram as alterações ocorridas nos gêneros desde que se tornaram mais presentes na vida e no cotidiano da sociedade moderna; os gêneros sofreram a interferência das mídias virtuais.
Mediante tais condições sociais pode-se atestar que o gênero sofreu alterações com essa “informatização” por meio das mídias virtuais, mais fato ainda é que as mídias virtuais têm alterado a forma como as pessoas se relacionam, essa ausência do face a face e aumento do “on-line” modificou e continua a modificar as relações sociais dos seres humanos, estabelecendo
novos padrões de interação, comunicação e conexões sociais, inclusive de divulgação do próprio gênero.
Marcuschi (2008, p. 163) explica:
“A vivência cultural humana está sempre envolta em linguagem, e todos os nossos textos situam-se nessas vivências estabilizadas em gêneros. Nesse contexto, é central a idéia de que a língua é uma atividade sociointerativa de caráter cognitivo, sistemática e instauradora de ordens diversas na sociedade. O funcionamento de uma língua no dia-a-dia é, mais do que tudo, um processo de integração social. Claro que não é a língua que discrimina ou que age, mas nós que com ela agimos e produzimos sentidos.”
Sendo assim, a “construção social” que se dá por meio da língua, dos textos, dos gêneros que estão tão inseridos na vida cotidiana e em interação com o mundo são potenciadas pelas mídias que favorecem a construção das relações sociais produzindo maior sentido aos textos e adequando esta relação sociointerativa entre textos, gêneros e indivíduos.
Embora tais alterações aconteçam por meio desta interatividade, deve-se considerar que de modo geral as alterações sobrevêm aos gêneros lentas e graduais, na medida em que a sociedade também muda, mas este é um processo que leva tempo para acontecer e mais ainda para fiar as alterações como regras.
4 ANÁLISES
Na metodologia aplicada pretende-se analisar o gênero em diferentes âmbitos e meios de circulação considerando sua evolução e adequação ao meio social desde os tempos remotos a como é conhecida atualmente. Para as análises explorar-se-á o corpus apresentado de duas formas, primeiro em grelhas e posteriormente com análises mais pormenorizadas e minuciosas.
Por isso, inicia-se este capítulo relembrando que as receitas culinárias orientam-se por verbos no imperativo, sendo esta uma das características mais importantes do gênero em questão e determinante para conferir clareza e precisão sem deixar margem à subjetividade, fato que garante o bom sucesso na realização do prato; além disso, faz-se relevante considerar ainda que o gênero estrutura-se em duas partes importantes e principais: ingredientes
(quais e quantidades) e modo de preparo (como deve ser feito para chegar-se ao produto final). Veremos que se deu uma alteração ao nível da organização discursiva e ao comparar textos do passado com textos atuais.
O gênero RC conquistou ainda espaço na sociedade e tornou-se amplamente divulgado, de fácil circulação e aceitação pelo público. Para além disso, o desenvolvimento do suporte digital, bem como a criação das redes sociais e das plataformas de partilha de conteúdos impulsionou a sua circulação, fazendo com que qualquer pessoa possa expor e reproduzir uma receita na internet, ou escrever seu próprio caderno de receitas e compartilhá-lo com outros interessados nesta temática.
Tamanha aceitação faz refletir qual seria o segredo deste gênero textual, um dos fatores que o fez ganhar popularidade é a ampla diversidade e variação de tipos de receitas fazendo-o ir ao encontro de diferentes gostos e culturas variados. Um segundo aspecto seria sua flexibilidade em circular nos mais diferentes suportes. Um terceiro aspecto é o fato de, atualmente, abordarem um conteúdo extremamente apelativo aos olhos. De fato, as imagens que acompanham as receitas são atraentes e convidativas, despertam o paladar do leitor e o estimula ao consumo.
Sobre esta questão, Perez (2008, p. 42) explicita o seguinte:
A realidade é composta de indivíduos, estímulos, substâncias, coisas que são uma síntese de matéria e forma. A informação torna-se real, por meio desta síntese onde o estímulo é a matéria possível de se tornar dados e informações por meio de uma forma. A informação existirá como tal pela intervenção do sujeito. Para que o sujeito perceba a matéria pela forma, de estímulos à informação, é necessário que o mesmo ative seus mecanismos cognitivos e reconheça, ele mesmo, inserido nesta realidade possível.
Ou seja, o indivíduo torna a “substância”, no caso a receita, real a partir do estímulo visual que tem ao ver a imagem, porque esta informação é real dentro do indivíduo, que ativa seus “mecanismos cognitivos” para reconhecer a informação inserida na imagem.
É consensual a estruturação da RC dividir-se em duas partes importantes e principais: ingredientes (quais e quantidades) e modo de preparo ou preparação (como deve ser feito para chegar ao produto final).
A partir deste ponto, seguem as análises e comparações dentro do gênero: receita culinária, com o intuito de perceber sua evolução desde esta publicação portuguesa citada e editada em livro – um suporte que faz sucesso ainda hoje mesmo com o advento da internet, mídias sociais – até as mais recentes, escritas e editadas já neste período de “pluralidade linguística” e grande amplitude midiática, como foi visto anteriormente, que favorecem o alargamento dos suportes onde circulam as receitas, adaptando-as aos diferentes públicos e apresentando além da linguagem verbal, também a visual sem poupar nas imagens apelativas de forte poder persuasivo.
Como explicado, portanto, tais análises dar-se-ão de duas formas, uma mais sintética em grelhas de análises de Leal e Gonçalves (2007) e outra adaptada em que tem-se parte da grelha de Miranda (2010) e parte da grelha de Leal (2011). A seguir às grelhas constam as análises detalhadas dos dados com exemplos diretos dos textos e que retomam também aspectos citados nas grelhas, tornando mais evidente os dados apontados.