NILCE RODRIGUES PARREIRA
UNIVERSIDAÓE FEDERAL DO PARANÁ Mestrado em História do Brasil
Opção: História Demográfica Curitiba
1990
Depois.de anos de muito trabalho e dedicação quase que e!
clusiva, consegui atingir a meta tão desejada, finalmente a dis- sertação de ~estrado ficou pronta.
Ao escrever algumas palavras de agradecimento, depois de ter colocado no papel tantas hipóteses, duvidas, resultados e al . gumas sugestões, parece dificil escrever a ultima pãgina, talvez
a mais pessoal de todo o trabalho.
Comecei a pensar e a relacionar as pessoas que de alguma forma me ajudaram no decorrer desta tarefa e, a lista vai cres - cendo ... crescendo. Nunca pensei que um trabalho acadêmico pu- desse envolver tantas pessoas, tantos sentimentos, tanta . ener- gia vital.
Mas enfim, meu propósito neste momento e agradecer, agra- decer a todos que me ajudaram.
Primeiramente agradeço ao apoio financeiro da CAPES e da ABEP, de grande importância para o desenvolvimento desta traba- lho. Agradeço a todos os professores do Mestrado em História do Brasil da Universidade Federal do Paranã, sempre dispostos a au xiliar, corrigir, sugerir e sobretudo incentivar, especialmente a Márcia Graf, minha orientadora.
As professoras Mitiko e Clotilde Paiva, da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais, p~
las sugestões e boa vontade em me auxiliar quando foi necessa- rio. Ao professor lracidel Nero da Costa, da Faculdade de Admi-
nistração e [conoll1ii1 di1 lJnivcrsidi1dc de São Paulo, tambem sempre disposto a auxiliar e incentivar desde o inicio deste trabalho.
A Miriam Braum e ao Luis Pinheiro,pelo desenho dos grãfi- coso Ao Ramõn Villar e ã Carla Berwig pela correção do português, ã Regina Bruno pela correçao bibliográfica. A Sandra Skakausky p~
la datilografia das tabelas.
Aos funcionários das diversas instituições onde pesquisei, especialmente ã Suely Pierutti, da Casa do Pilar, e ã M6nica Mas sara do Museu da Inconfidência em Ouro Preto.
Ao Paulo pelo apoio ã pesquisa, pela leitura do texto e sugestões.
A meus pais, duas pessoas fortes e batalhadoras. A duas p e s s o as mui t o e s p e c i a i s, sem p r e d i s P os tas a "e n s i n a r a p e s c a r" a quem tem boa vontade de aprender: Nancy e Geraldo Zaniratti. A toda a minha familia que me acompanhou e apoiou durante todo o processo de gestação deste trabalho.
As minhas amigas Verginia, Ida, Izaura, Sylvia e Rita, p~
lo apoio e incentivo.
A todas estas pessoas, realmente muito especiais, mais sinceros agradecimentos.
Nilce R. Parreira setembro de 1989
meus
A historiografia mineira começa a redescobrir o oitocen- tos. Esta preocupação antiga dos historiadores tende agora a ser esclarecida. O século XIX não está mais relegado a segundo plano, ao contrário, apresenta-se como uma fonte inesgotável de dados e documentos que aos poucos vão sendo explorados, trazendo ã tona características regionais da sociedade oitocentista mineira. As peculiaridades de Minas Gerais começam a surgir como resultado dos estudos regionais, que vão sendo concluldos em números ainda tímidos, mas crescentes nos ~ltimos anos.
Minas Gerais apresenta um quadro econ6mico baseado na pr~
dução mercantil de subsistência. Al~m da agricultura, a indústri a, em se~ sentido mais amplo. de transformação de matérias-pri - mas em produtos comercializáveis. começava a se desenvolver em diversas regiões da província. O crescimento demogrãfico da pop~
lação escrava aponta para a nãoestagnaçã~ econ6mica, em contra- posição ã ideia veiculada pela historiografia tradicional.
Sendo o regime escravista logicamente, a mão-de-obra bãsi ca mantenedora das atividades econ6micas era a escravista. Logo, se havia crescimento da população escrava, seu emprego estava sendo requisitado pelos setores produtivos, o que implica em me- nor ou maior grau, no desenvolvimento de algum tipo de produção •
econômica.
A manutenção de um grande plantel de escravos em Minas Ge- rais durante o s~cu'o XIX. aponta pafi a resist~ncia do escravis mo at~ as vesperas da abolição. apesar do processo de desagrega-
ção do sistema.
[ provâvel que o com~rcio de escravos tenha se mantido em Minas durante todo o s~culo. com intensidade diversificada regio nalmente. embora ainda não seja posslvel precisar esta diferen- ciação pela inexistência de trabalhos sobre as diversas regiões mineiras.
Quanto a Ouro Preto, fica evidenciada a persistência da escravidão ate as vesperas da abolição. Entre 1810 e 1859, cai a comercialização de escravos, mas a partir de 1860 ate 1884, o- corre o maior numero de transações registradas durante o seculo.
Ou seja, durante o períOdO de desagregação do sistema a socieda- de mineira se apega a ele, por razões ainda não totalmente escla recidas mas certamente de cunho econômico.
Imbuídos no espírito de curiosidade construtiva, e buscan d6 o conhecimento deste períodO da Hist~ria mineira tão comenta- do, nos lançamos a este estudo da estrutura da população escrava comercializada em Ouro Preto durante o seculo considerado.
Apesar das limitações inerentes a este tipo de trabalho, esperamos contribuir pelo menos em parte para o conhecimento de Minas oitocentista, nao apenas com respostas, mas principalmente com indagações.
o interesse pelo estudo do regime escravista em Minas Ge- rais nao constitui novidade nos meio universitários, atraindo a atenção de estudiosos de diversas ãreas de pesquisa: economistas, cientistas politicos, demógrafos e historiadores principalmente.
As diversas abordagens, possibilitam o enriquecimento paulatino deste estudo, que ainda possui muito a ser explorado. São exata mente estas novas abordagens, com exploração de documentação i- nedita e metodologia aperfeiçoada, que trazemã luz novas ques- tões, esclarecem dúvidas, abrem novas perspectivas.
Dentro destas novas opções teõrico-metodolõgicas encontra se o campo dedicado ã histõriademogrãfica, que vem obtendo óti- mos resultados na exploração de fontes passlveis de utilização de tecnicas e metodos quantitativos. A metodologia aplicada e de
senvolvida pela demografia, baseada em tecnicas quantitativas, permite, atraves do estabelecimento de series homogêneas, maior precisão na coleta e tratamento das variáveis analisadas pelo e~
tudioso, diminuindo a margem de erro. A qualidade das fonte, as- sim como o numero e importância das variáveis que possuem, são fundamentais para um estudo baseado nesta metodologia.
O estudo dos preços de escravos, permite que a análise da economia escravista seja vista ~o~ um novo ~risma, sendo desne-
,
cessário ressaltar a importância do estabelecimento do valor da
mão~erobra escrava, numa sociedade em que ela representou a ba-
se do sistema produtivo. Por outro lado. as fontes que permitem um estudo de pr~ços deste segmento da sociedade. permitem uma a nálise regional do regime escravista brasileiro em termos demo- grãficos.
Os autores que têm se dedicado a este estudo adotaram.
como já foi ressaltado. caminhos diversificados, utilizando como fontes primárias. jornais. matrlculas de escravos. inventários, escrituras de compra e venda de escravos, dados censitãrios e ou tros. As listas de classificação de escravos para emancipação p!
lo Fundo de Emancipação, criado pela Lei Rio Branco (Lei do Ven- tre Livre), tambem possuem dados que permitem não só o estudo da estrutura da população escrava, como tambem o cálculo do preço dos escravos na conjuntura emancipacionista.
. 1 ·
Marina de Avellar Sena trabalhou com an~ncios de jornais do seculo XIX, de Minas Gerais, referentes a transaçõ~s com es- cravos. Foram pesquisados os jornais: "O Universal", "Oiirio de Minas", e "0 Bom Senso". Tais an~ncios referem-se ã compra, ven- da, hipoteca, leilão, e ate mesmo ã venda de escravos fugidos.
Chamou a atenção para a diversificação das atividades profissio- n a i s e x e r c i das p e los c.a t i vos, mas não se de t e ve n o e s tu dia das mesmas. No referido trabalho, a autora analisou 21 escrituras de compra e venda de escravos encontradas no Cartório de Ponte No- va, referentes aos anos de 1866, 1874, 1875 e 1876. A partir des ta análise, que compreendeu cerca de 30 escravos, partiu para ob servações sobre os preços dos mesmos. Procurou provar que os pre ços dos escravos não obedeciam a nenhum criterio; para isto, fez o agrupamento dos mesmos por apro~imação de preços. Ainda com es te Objetivo, elaborou uma tabela do valor dos escravos, segundo a idade (em ordem crescente, e sem divisão por faixas etirias).
A partir dos resultados obtidos, concluiu que o valor do escravo variava em função da vontade ou necessidade de seu proprietârio.
Não t r a b a 1 h o u c o mas v a r i ã v e i s n a t u r a 1 i d a d e e s e x o. C o n s t a to u a- penas dois casos do sexo feminino; todos os escravos do sexo mas culino eram IIroceirosll, e apenas 3 escravos eram de origem afri- cana. O pequeno numero de escravos observados não permitiu o es- tabelecimento de series homogêneas. Os resultados obtidos devem ser considerados com cautela, uma vez que a prõpria autora cons- tatou a existência de numeros significativos de livros próprios para o registro das escrituras de compra e venda de escravos, em cartórios das anti~as freguesias da cidade2.
A hipótese principal do presente trabalho, assume uma po- sição inversa â constatação da autora acima citada, segundo a qual o valor do escravo variava em função da vontade ou necessi- dade de seu proprietirio, uma vez que a variação do preço do es- cravO e aqui considerada como dependente de uma serie de outras
variãveis, entre as quais, o tempo e o espaço.
Zelia Maria Cardoso de Mello3 trabalhou com pr·eços de es- cravOS encontrados em inventários em São Paulo, para o perlodo de 1847 a 1887, como parte de sua pesquisa, então em desenvolvi- mento. sobre a riqueza em São Paulo. Procurou determinar a estru
tura da população escrava estudada, considerando as variãveis o- rigem. sexo, idade, atividade, preço e perTodo. Para o estabele- cimento do preço medio dos escravos. trabalhou com as variiveis sexo, idade e periodo. Não considerou a origem, nem a atividade produtiva. A autora faz uma comparação entre os preços m~di6s
conseguidos E~ seu estudo, e as oscilaçóes de preços do cafe, de tectadas por Antônio Oelfin Neto 4
da Provlncia do Paraná, de 1861 a lSB?, Carlos Roberto Antunes dos Santos 5 trabalhou com escrituras de compra e venda de escra
vos. Consider.ando o preço do escrllVO urna variável dependente, procurou identificar em que medida as variãveis região, período, idade, sexo e atividade produtiva influenciaram ou foram determi nantes do valor do escravo. Para a exploração das variãveis~ uti lizou metodos e tecnicas quantitativos.
Dentro da mesma linha metodolõgica e utilizando como fon- tes primárias as escrituras de compra e venda de escravos da fre guesia do Pilar em 'Salvador, destaca-se ainda, o trabalho da e- quipe de Maria Luiza Marcl1io6
. Os autores acreditam ser o preço do escravo uma variãvel dependente das caracterlsticas do mesmo.
A partir desta hipõtese, procuram estabelecer as variáveis que ~
tuariam nas flutuações do preço unitãrio do escravo, e em que ar
. 7
dem de importância atuariam nestas flutuações. Estabeleceram o preço media para os escravos, segundo sexo, idade (a partir de 5 anos), e atividade (lavoura e domestica). O preço media segun- do o sexo e origem, só foi estabelecido para os escravos da fai- x a e t ã r i a 35 - 44 a nos, de p r o f i s são do 11\;; s t i c a .
Kãtia de Queirós Mattos0 8 trabalhou com dados quantitati- vos contidos em inventãrios e com anúncios de leilões de escra - vos, publicados em jornais da epoca. Os inventãrios foram esco- lhidos nas decadas: 1808-1810, 1851-1860 e 1871-1880 (65 jJard c~
da decênio}. Segundo a autora "0 preço do escravo e um jogo de
variivei~. algumas das quais totalmente alheias ao prõprio escra vo e outras, ao contrãrio, intimamente ligadas a sua pessoall9
~s variãveis idade, sexo, saude e qualificação profissional, jun tam-se as variiveis de cariter conju~tural: as os~ilações do pre
ço em decorrência da concorrência e do tráfico; a distância en- tre o porto de partida e o de chegada; os riscos do transporte marítimo e a "Lei da oferta e da demanda". Comenta ainda a ne- cessidade de se analisar a modalidade da venda, se ã vista ou a prazo. Destaca a import~ncia das vari~veis idade, sexo e quali- ficação profissional. na determinação do preço do escravo, mas não calculou o preço medio dos escravos estudados em função de~
tas variãveis. Estabeleceu os preços medios dos escravos "adul- -d 11 1 O d . . - d f 1 d d d tos e em boa sau e ,sem lstlnçao e sexo por a ta e a os seriais suficientes para distingui-los, embora tenha considera- do tal variãvel como importante na d~terminação do preço. De a- cordo com os dados por ela analisados, a origem e a cor não in- fluenciaram na variação do preço do escravo. A prõpria autora considera que estas m~dias devem ser vistas com cautela, uma vem que não consideram fatores fundamentais na oscilação dos
- 1 1 mesmos, como o sexo. a idade e a saude .
A utilização de metodos e tecnicas quantitativos, no pr~
sente trabalho, se fazia necessãria para maior precisão na ex- ploração das fontes, que por constituirem seri~s se prestam a este tratamento, enriquecendo e fundamentando a anilise qualit!
tiva dos resultados obtidos.
Atraves deste estudo, pretende-se contribuir para a His- tõria da escravidão em Minas Gerais, nos seus aspectos econômi- co, social e demogrãfico. Visa-se ainda, chamar a atenção para a
importância dos ,estudos regionais.
Procurou-se explorar ao máximo a documentação estudada d~
rante todo o'período em questão. À analise da atividade produti- va e do preço do escravo exigiu maior:diversificação metodológi- ca, com o objetivo de melhor aproveitamento das informações con-
tidas nas escrituras de compra e venda. Foram explorados os re- gistros coletados durante o s~culo. com exceção de alguns casos abandonados por não conterem as informações mlnimas necessarias.
A anel;se dos dados para a primeira met3de do seculo, exigiu um tratamento da documentação de forma quase totalmente indivídua- lizada. atribuindo-se maior ênfase ã analise qualitativa. No p~
rlodo de 1860 a 1887, a documentação ~ mais rica em informações quantificãveis. tendo permitido maior utilização de metodos e tecnicas quantitativos. Na lJtilização destes metodos e técnicas, como jã foi salientado, foi adotada a ficha modelo B (anexada a
~eguir), que possibilitou a sistematização das informações con-
- 12
tidas na docu~entaçao explorada .
Os registros de compra e venda de escravos cont~m as se- guintes variãveis: data da transação, nome do escravo, sexo,
cor, idade, estado civil. oficio, filiação, na~uralidade, resi- dência, preço valor da meia sisa. Possuem ainda o nome completo e local de residência do (s) vendedor (es) e do (s) comprador
(es). d~dos que permitem conjecturas acerca da migração desse contingente de cativos, e ainda sobre .a existência de comercian tes de escravos. A existência de sociedades de compra e venda de escravos, fica evidenciada pela escritura de dissolução de u ma sociedade deste tipo, registrada no códice nQ 259, datada de 1872, documento este, transcrito a seguir13.
FICHA MODELO B.
UNIVERSIDADE FEDERAl. DO PARANÁ
SETOR DE CIÊNCIAS HUMANAS. LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
E SCRITURAS DE COMPRA E VENDA DE ESCRAVOS
FICHA DE ARROLAMENTO
"CM" H~ : - - - - - - - CI DADE : - - - DA TA : - - -1 - - - 1 - - -
" " O U I V O : - - - -
TiTUlD DO LIV"O: - - - - li! DE CH"""D" DO LIVRO - - - TE R"O
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Escritura de dissolução de Sociedade de compra e venda de escra- vos, que fazem o Tenente Antonio Alves Ferreira e Capitão Joz~
Querino Ferreira.
Saibão os que virem este publico instrumento de escritura de dis solução de sociedade, que aos vinte e cinco dias do mez de Maio do anno de mil oitocentos setenta e dois. nesta Cidade de Ouro Preto e em meu Cartorio comparecerão como partes entre si havin- das e ajustadas o Tenente Antonio Alves Ferreira e o Capitão Jo-
z~ Querino (erreira, ~oradores em Sam Bartholomeu, sendo este re prezentado por seu procurador Capitão Antonio Francisco Junquei- ra, reconhecidos de Mim e testemunhas adiante assignadas, peran- te as quais pelas mesmas partes foi dito, que ate hoje tinhão constituido e gerido mutuamente uma Sociedade de compra e venda de escravos, mas que prezentemente não lhes convindo continuar com a mesma Sociedade trataram de sua liquidação em consequencia da qual couberão dous escravos a cada um dos Socios ã saber, ao Tenente Antonio Alves Ferreira os escravos Julio tabra de quar~~
ta annos de edade e Joz~ cabra de trinta e aitas annos mais ou menos, e ao Capitão Jose Querino Ferreira, os escravos Gerardo crioulo de quarenta e cinco annos e João Africano de cincoenta annos mais ou menos, e como os escravos que ficarão com o Tenen- te Antonio Alves, fossem de maior valor. voltou este ao Capitão Joze Querino trezentos mil reis, que o mesmo diz ter recebido em dinheiro corrente, por tanto. dando-se as mesmas ... partes .. mutua quitação dos Capitais e lucros da referida Sociedade a-dissolvem·
i hoje em diante, e dão por dissqlvida pela prezente escritura, com inteira renuncia de reclamarem indemnisações, por quaquer t~
tulo que sejão. e aprezentarão o conhecimento Provincial, datado
hoje, numero quarenta e quatro, exercicio de 1871 ã 1872, assig- nado pelo Agente Antonio Moreira Co~lho e Escrivâo ajudante, Ho- norio Jose Barbosa, do qual consta terem pago o direito de um mil e oitenta reis, bem como a estampilha de quatrocentos reis a que colocada. Por serem estes seus contractos, e me pedirem que os reduzisse a instrumento publico eu o fiz nesta escritura em nome dos Contractantes e de quem mais tocar, tendo uma entreli - nha que diz - Antonio. Sendo-lhes esta lida acharâo conforme e a assignâo com as ditas testemunhas e comigo Francisco de Paula Ma laquias, Tabelião que a escrevi.
(Seguem-se as assinaturas)
No ato da transação eram declaradas as condições de paga- mento e apresentado o recibo do recolhimento do imposto da Meia Sisa sobre o preço de escravos, geralmente recolhido ~elo compr~
dor na coletoria da cidade. Finalmente, constam as assinaturas do comprador, do vendedor ou de seus procuradores, alem das tes- temunhas. Em alguns casos o vendedor declarava a procedência do escravo (obtidos por compra, herança, doação e outras). Certos registros possuem tambem a descrição flsica do escravo, como os do cõdice n9258 - Livro Especial de Notas do 19 oficio, onde es-
ta informação e mais detalhada. Foram encontradas as seguintes - o~
servações em alguns registros: fujão, preso, cego, aleijado, g~
loso, ladino, boçal e outras.
O cruzamento das variãveis acima referidas permitiu o es- tabelecimento de medias anuais de preços para os escravos de Ou- ro Preto, apesar de não ter sido pvsslvel o estabelecimento des- tas medias para todo o perlodo estudado, em função das limita- ções da documentação estudada, como se verá no capitulo sobre os
preços dos escravos.
Na anãlise dos resultados obtidos através do cálculo das medias anuais de preços, na anãlise das informações encontradas nas escrituras de compra e venda no que se refere ao preço do escravo, assim como nos exemplos citados no capitulO dos preços, foi mantida a divisão temporal adotada em função da diversidade das referidas escrituras. Ou seja, a oscilação do preço do es- cravo foi analisada considerando-se o seu comportamento durante as duas metades do século XIX.
Nas citações de documentos, assim como em relação aos no- mes próprios, manteve-se a grafia original do documento.
A escolha de Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto, para esta estudo, se deveu ã importância histõrica daqu~
la localidade, então capital da prov;ncia de Minas Gerais.
Devido ã importância das descobertas mineralõgicas, foi criada a 9 de novembro de 1709, a capitania de São Paulo e Minas do Ouro. Em 8 de julho de 1711, o arraial de Ouro Preto foi eri- gido em vila, sob a denominação de Vila Rica de Albuquerque( ho- menagem prestada pelo primeiro capitão-general Ant6nio de Albu - querque, a si próprio), não aceita pelo rei, que retirou o nome Albuquerque. Nos registros cartoriais consta Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto.
Pelo 'alvarã de 2 de dezembro de 1720, Minas Gerais tornou -se capitania independente, com sede em Ribeirão do Carmo( atual Mariana). A 30 de novembro de 1822, Minas Gerais passa ã provin- cia do Império do Brasil. Vila Rica foi elevada ã categoria de cidade a 20 de março de 1823, sob o titulo de Imperial Cidade do Ouro Preto 14 .
A atividade mineratôria foi responsável pelo desenvolvi menta econômico e crescimento populacional da região, que chegou
ao apogeu no decorrer do seculo XVIII. O surto de desenvolvimen- to econômico criado em função da atividade mineratõria e a im- portância politica adquirida pela região em função de sua riqu~
za mineral e da rigorosa fiscalização metropolitana, atrairam e ainda atraem a atenção de estudiosos da Histõria de Minas e da escravidão. O controle efetivo por parte da Coroa portuguesa, im pedindo o livre acesso ã região e o isolamento geográfico da mesma, levou ao desenvolvimento de uma sociedade peculiar com ca racter;sticas prõpria~ e bastante influenciada pela metrópole constituindo assim outro foco de atração para os estudiosos.
A história da prov;ncia durante o século XIX, ficou rele- gada a segundo plano durante muito tempo e começa agora a ser ob jeto de estudos regionais. Este trabalho se inclui nesta etapa de busca do conhecimento da histôria mineira durante o século
XIX, a partir do estudo de um segnlento da população escrava.
NOTAS E REFEREN.CIAS
01. SENA, OlIvia Marina de Avellar. Com-.Era e venda de escravos em Minas Gerais. Belo Horizonte,-rlttera Maciel, 1977. 109 p.
02. . Arrolamento das fontes históricas de Ponte Nova (M.G.) In: PAULA. EurIpedes Simões de. ~rg. Anais do VI Simpósio Na- cional dos professores Universitarios de Historia; trabalho (Coleçao da Revista de Historia, 45).
03. MELLO, Zélia Maria Cardoso de. Os escravos nos inventários pau listanos da segunda metade do seculo XIX. In: MELLO, Zélia Maria Cardoso de. et alii. História Econômica: ensaios.
São Paulo, Instituto de Pesquisas Economicas, 1983. p.59-104.
,
04. Id., p. 59-104 05.
06.
SANTOS, Carlos Roberto Antunes dos. Preços de escravos na Pro- vincia do Paraná: 1861-1887; estudo sobre as escrituras de compra e venda de escravos. Curitiba, Universidade Federal do Paranâ, 1974. 131 p. mimeo . .
MARCTLIO, ~aria Luiza et al.ii. Considerações sobre o preço do escravo no periodo imperial; uma análise quantitativa; basea da nos registros de escritura de compra e venda de escravos- da Bahia. In: Anais de História .. Assis, Departamento de His- tória, Faculdade de Filosofia, Ci~ncias e Letras de Assis 1973. p. 179-94.
07. Id., p. 181.
08. MATTOSO, Kátia de Queirós. Ser escravo no Brasil. São Paulo Brasiliense, 1982. 267 p.
09. I d ., p. 77 . 10. Ibid., p.88 11. Ibid., p.95 12.
13.
A ficha modelo B foi utilizada para arrolamento das variâveis contidas nas escrituras de co~pra e venda de escravos da Pro - vincia do Paranâ, por: SANTOS, Carlos Roberto Antunes dos.
Preços ... Op. cit., p.l0, com pequenas modificações, uma vez Que os registros de compra e venda de escravas de Ouro Preto
cont~m as meimas variáveis.
REGISTRO especial de notas de transações de escravos desta ci- dade. Tabeliões do primeiro oficio; Francisco de Paula Mala- quias e Bento Antônio Romeiro. Veredas. Ouro Preto, 12.03.1870 a 08.11.1884, p.8 verso. Codice nQ 259.
t6rica no Brasil. A organização de arquivos e bibliotecas, o arro lamento de fontes prim~rias, e restauração de documentos danifica dos, principalmente pela falta de condições adequadas de conser- vação. Ao que tudo indica, é comum ao pesquisador o manuseio de documentos corroidos por traças, danificados pela humidade. Uma coisa e certa, boa parte dessa documentação est~ irremediavelmen- te perdida e muito mais se perderá se não forem adotadas
das eficazes para sua recuperaçao.
medi-
O acesso a arquivos pUblicos e particulares, que possuem sob sua guarda fontes primárias para o estudo da História brasi leira, leva o pesquisador a ter uma idéia do volume de documentos ainda não pesquisados. Os obst~culos sao inumeros, mas a persis- tência e interesse dos pesquisadores têm levado ã descoberta e ex ploração de novas fontes prim~rias e, consequentemente, aos pau - cos os pontos duvidosos vão sendo esclarecidos.
O regime escravista brasileiro por exemplo, foi e ainda e
foca de estudos os mais variados~ entret~nto. ainda sao poucos os trabalhos de carãter regional sobre o tema. Por outro lado. o tra balho do pesquisador nao pode ser enriquecido com depoimentos dos
~ -
próprios escravos quanto ã sua situação na sociedade da epoca.de-
~ido ã quase total inexistência de fontes primárias deixadas pe- los mesmos.
Apesar de apresentarem uma visão unilateral do fenômeno, o estudo critico dos documentos acesslveis ã pesquisa permite maior esclarecimento do longo perlodo escravista brasileiro, e consequentemente, a melhor compreensão do estagio atual de nos sa História.
Entre as fontes para o estudo da História do Brasil, des- tacam-se entre outros, os documentos cartoriais, os registros pa- roquiais·, os peri6dicos, e ainda os depoimentos orais.
,
Alem do conhecido estado de abandono em que se encontram documentos históricos, ainda não arrolados e catalogados, em ar - quivos por todo o paIs, deparamos com atitudes lasiimaveis, como ê o caso da utilização de documentos de incalculavel valor hist6 rico para a encadernação de livros cartoriaisl
.
Outro problema frequente e a localização da documentação a ser trabalhada, devido a sua transferência de um arquivo para ou tro, ou mesmo a inexistência nos arquivos de documentos que fo- rpm catalogados e posteriormente perdidos. Existe ainda um empe- c11io com o qual defrontam os~que optam pelo tratamento das fon tes a partir de metodos e tecnicas quantitativos: o estabelecime~
to de series homogênea.s. O nGmero de fontes coletadas e a quali- dade das informações que possuem determinam a viabilidade ou nao desta opção metodológica.
Os registros de compra e venda de escravos de Ouro Preto, fontes primarias basicas para o presente trabalho, possibilitaram o estabelecimento de séries homegéneas. Faziam parte do acervo do a rqu i vo d a C a s a dos C o n tos, te n do. s i d o e n c o n t r a dos nos 1 i v r o s de notas de tabeliões. Esses códices se encontram atualmente na Ca- sa do Pilar, arquivo de documentacão cartorial que funciona como auxiliar ao Museu da Inconfidência, na cidade deDuro Preto, em
virtude do fechamerito daquele arquivo para trabalhos de restaura- ção, quando foi iniciado o arrolamento de fontes primãrias para a elaboração deste trabalho. Dos 74 cõdices levantados e arrolados, apenas 5 são destinados unicanlente ao registro de transações
escravos 2abrangendo, estes ~ltimos, cerca de 23 anos, de vinte três de março de mil oitocentos e sessenta a oito de novembro
de e de mil oitocentos e oitenta e quatro, e conten informações mais com pletas sobre os cativos. Tal fato comprova o não cumprimento das determinações legais, que exigiam a adoção de livros especiais p~
ra o registro das escrituras de compra e venda de escravos3.
Os livros de notas de tabeliões pesquisados, cont~m al~m
dos registros de compra e venda de escravos, outros tipos de re- gistros como: contrato e ajuste de casamentos, escrituras de con fissão de dívida, escrituras de fiança, escrituras de legitima- ção de filhos naturais, escrituras de compra e venda de imóveis e outros. Relativos a escravos, contêm ainda: registros de hipote - cas, cartas de alforria, registros de doação, locação de serviços trocas e outros. Todos os registros relativos a transações com escravos foram arrolados.
Os códices eirados foram microfilmados pelo Centro de Es- tudos do Ciclo do Ouro, mas não foi possível durante a etapa de arrolamento das fontes, o acesso aos microfilmes devido ao fecha- mento da Casa dos Contos para restauração, como foi mencionado.
posteriormente, terminados os trabalhos de restauração, pôde- se constatar que boa parte destes microfilmes estão ilegíveis, por terem permanecido longo período ~em os cuidados necessârios para sua conservaçao. Os originais foram .consultados na Casa do Pi- lar. Abrangem um períOdO de 88 anos~ com uma lacuna de 22 anos não tendo sido encontradas escrituras de Compra e Venda deescra-
vos para os anos de 1802,1805,1818,1820,1821,1823,1824,1825, 1826,1828, '1830, 1832, 1833, 1834, 1835, 1836, 1337, 1840, 1847, 1849 e 1885.
Dos códices arrolados, 23 nao possuem escrituras de com- pra e venda de escravos, mas cont~m outros tipos de documentos m bre os mesmos, como cartas de alforria, escrituras de troca, e' outros. A maioria se encontra em bom estado de conservação, qua- tro em estado razoãvel, e tr~s em estado ruim, alguns bastante dani ficados por traças e umidade. A leitura dos mesmos quase sempre
e boa, sendo oito cõdices de leitura razoãvel. Destes códices, s~
te foram encontrados posteriormente na Casa dos Contos, e enumer~
dos de s/n9 1 a s/n~7, por não possuirem numeração original.
Alem dos registros de notas de tabeliões foram consulta - dos manuscritos: dois códices dos Autógrafos das Leis Mineiras, e
~õdices das Posturas das Câmaras Municipais de Mariana e Ouro Pre to. Um dos cõdices de Postura de Ouro Preto encontra-se em pessi mo estado de cqnservação, muito rasurado, corroTdo por traças e manchado, a escrita estã muito clara e ilegTvel em algumas pãgi-
~as. No próprio códice hã uma observação sobre a confusão e desor dem do mesmo e sobre a necessidade de reformi-104
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As memórias pesquisadas pertencem ao acervo de algumas das bibliotecas visitadas e ao Arquivo Público Mineiro. Neste, encon- tra-se tambem a coleção de Leis Provinciais "Livro de Lei Minei - ra", abrangendo o perTodo de 1835 a 1858: as posturas municipais estão inseridas nesta coleção. A legislação imperial foi pesquis~
da no referido arquivo, na bibliotfca publica de Belo Horizonte,
~ no Instituto Histórico Geogrãfico e Etnogrãfico Paranaense. Os dados censitãrios foram coletados em trabalho,s atuais de demogr~
fia histórica, em informações dos viajantes, e no IBGE em Curiti-
ba. Os mapas pesquisados. alguns dos quais aqui reproduzidos. fa zem parte do acervo do Arquivo Publico Mineiro. Os relatórios dos Presidentes de provlncia, e os relatórios de transmissão de cargo pesquisados encontram-se sob a guarda do Arquivo Publico Mineiro e da Biblioteca Nacional, np Rio de Janeiro. Nas pesquisas de fo~
tes e bibliografia necessãrias ã elaboração do presente trabalho, contou-se com o acesso às seguintes instituições: Biblioteca Pú - blica do Paraná, Biblioteca do setor de Ciências Humanas, Letras e Artes e Biblioteca do curso de Pós-graduação em História do Bra sil, da Universidade Federal do Paraná; Circulo de Estudos Bandei rantes (Curitiba), Museu Paranaense, Instituto Histórico Geogrãfi co e . Etnogrãfico do Paraná, Biblioteca Nacional, Arquivo Nacio - nal, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Biblioteca Pu - blica de Belo Horizonte, Arquivo Público Mineiro, Biblioteca do CEDEPLAR, Biblioteca da FACE(sala Mineiriana) e Biblioteca da FAFICH da Universidade Federal de Minas Gerais, Casa dos Contos e Casa do Pilar(Ouro Preto) , e IBGE (Curitiba).
As escrituras de compra e venda de escravos de Ouro Pre- to, possuem informações que permitiram a formação do perfil da p~
pulação escrava comercializada em Minas Gerais e registrada em cartórios de Ouro Preto no decorrer do seculo XIX.
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importante ressaltar que nao se tratou aqui da totalidade dos escravos ali existentes, e possivelmente nao estejam incluldos todos os escra- vos comercializados. r provável que se realizassem transações diretamente entre as partes, sem que foss~ lavrada escritura em car tório.
Havia algumas vezes, uma defasagem entre a realização da transação, e seu registro junto aos orgaos competentes.Em alguns casos. este atraso no lavramento da escritura ocorria em função do tipo de transação. ou melhor, em função do motivo que levou deter
minado proprietãrio a dispor de um beM, no caso, um escravo.Entre essas escrituras encontram-se casos de venda para pagamento de dividas, para pagamento de hipotecas, ou ainda casos de venda co- mum, sem motivo aparente para que se demorasse a mandar lavrar o documento comprobatório da transação.
Nem sempre e possivel detectar atr?ves do documento, o fator que levou o proprietãrio a dispor do escravo, mas em alguns casOs fica bem clara a obrigatoriedade da venda em função do cum- primento de compromissos assumidos anteriormente. E o caso da ven da para pagamento de hipotecas ou, ainda, a entrega de escravos que h a v i a m s i d o h i p o t e c a do s. E x i s tem a i n d a a s e s c r i tu r as d e "v e n - da condicional 11, ou IIvenda ã retro", que na verdade eram uma es- pecie de hipoteca para garantia de eMprestimos. O vendedor se com prometia a pagar determinada quantia, dentro de um prazo pre-es- tabelecido, geralmente a juros mensais. Se o pagamento não fosse efetuado dentro do prazo previsto a venda seria efetivada automa- ticamente, sem a necessidade de lavraMento de outro documento em cartório. Em outros casos, a escritura se refere ã efetivação de venda condicional realizada anteriormente, para garantia de empr~
timo em dinheiro, pagando o comprador a diferença quando o valor do escravo excedia ao valor do emprestimo.
Eram vendidos tambeM escravos provenientes de partilha de herança. Em certos casos, um ou mais herdeiros compravam a parte da herança que pertencia ao(s) outro(s) herdeiro(s). Ou ainda, f~
zia-se emprestimo de determinado valor, lavrando em cart6rio uma escritura de venda condicional para garantia de pagamento do mes- mo, incluindo-se na venda bens que esperavam recebe~ "em partilha de herança. Algumas escrituras referem-se ã venda de bens, inclu- indo-se escravos arrematados em hasta'pGblica.
r Quase impossivel identificar os fatores de ordem pessoal
que envolvem a venda dos escravos, a nao ser quando v~m declara- dos na escritura, o que e raro acontecer. Pode-se tomar como exem plo, o caso da venda de uma fazenda situada no Ribeirão da Perpe- tinga, freguesia da Itatiaia, termo de Vila Rica, incluindo 62 es cravos. O vendedor, capitão Sebastião Francisco Bandeira, possuia idade avançada e padecia de varias doenças, e como declara a es - critura, resolveu vender os bens especificados na ~esma por nao se encontrar em condição de administr~-los. Reservou para si, en- quanto vives~e, o serviço de um dos escravos, que era aprendiz de carpinteiro5. Outro caso que merece destaque refere-se ã venda de imóveis em São João D'[l Rei, Paracatu e em Campo Belo, juntamen te com três escravos. A vendedora, Maria Thereza de Jesus, foi pronunciada em devassa, presa e condenada ao degredo perpetuo. Os bens constantes na escritura foram vendidos a seu sobrinho, João
[van~el;sta da Costa, para pa~amento de um advogado em São João 0'[1 Rei e despesas de custos do processo. O comprador se compro- meteu a pagar as despesas do auto e da viagem de degredo da vend!
dora, alem de lhe entregar o restante, se houvesse.Comprometeu-se também ao -pagamento da Sisa6
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Em 1858 foi registrada a venda de 29 escravos, feita por Francisco Machado de Magalhães Botelho Musqueira ao comendador Ma noel Teixeira de Souza e ao capitão Antônio Luiz de Magalhães Mus queira, na qual o vendedor declara que vendia os bens móveis e semoventes que lhe couberam por herança de seu pai, a seu irmão e a seu cunhado porque não lhe interessava permanecer na provin- cia de Minas Gerais. Os escravos que vendia eram aparentados com
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outros que os compradores possuiam
Atrav~s desses exemplos, pode-se deduzir que os motivos alegados para a venda dos escravos eram os mais variáveis possI veis.
Entre a documentação arrolada existem dois tipos de regi~
tros de compra e venda de escravos: o primeiro refere-se unicamen te a transações envolvendo escravos; o sC0undo, alim de escravos, inclui outros bens. As escrituras que se referem ã venda de escra vos e outros bens, como fazendas, terra, animais, jóias, ferramen tas, imóveis, costumam ser bastante ricas em detalhes,(foram en - contradas 51 escrituras deste tipo). Traze~ oeralmente, a descri ção detalhada dos bens vendidos, e seu preço unitãrio. Entretanto as informaçõ~s referentes aos escravos são bastante falhas. A1~m
do nome, que sempre e declarado, e do sexo ·tamb~m sempre identif!
cãvel, a naturalidade se destaca como a variãvel mais frequente nestes registros. A cor, a idade, a atividade produtiva e afilia çio, aparecem com uma frequ~ncia bem menor. Quanto ao estado ci vil, chamou a atenção o fato de que entre os 81 casos de escra- vos registrados como casados para todo o periodo estudado, 66 re ferem-se a escravos'vendidos juntamente co~ outros bens, princi - pa1mente com fazendas. O preço unitãrio dos escravos
e
declaradopara 235 dos 538 escravos contidos nessas 51 escrituras, ou seja, 43,68% do total. Para os restantes, declarava-se o preço total dos escravos vendidos, ou o preço de grupos de escravos. Em alguns c~
sos, nao se desvinculou o preço dos escravos do montante da ven- da.
Algumas escrituras de venda de escravos, inc1uindo outros bens, merecem destaque pela ri~ueza de informações que possuem,c~
mo foi dito anteriormente. A escritura nQ 195, de 7 de abril de 1809 traz informações bastante in~ressantes8 Trata-se do paga - mento de uma divida de 13:000$000, tendo sido realizado um ajuste de contas em 1807, no qual o devedor e vendedor, sentiu-se lesa- do e recorreu ao Juiz ordinãrio, tendo sido aberto um processo Esta escritura refere-se ao reajuste de contas,ami9ãvel, e rela-
ciona os bens que fazem parte da venda, e ao citar os nomes dos proprietários de imóveis que se limitavam com a fazenda(situada ro freguesia da Itaberaba, termo da Vila de 0ueluz dos Carijõs, co~
marca do Rio das Mortes), uma declara~ão se destaca, quando faz referência ã propriedade de " ... Jose Moreira Alfera que são a90ra dos seus libertos ... " Apesar de não existirem na escritura outras referências ao fato, não se Dode desprezar sua i~portância, uma vez que afirma possuirem os escravos bens que outrora pertenciam a seu senhor., Apesar de não haver referência alguma ao tipo de bens, provavelmente se tratasse de uma fazenda ou terras, uma vez que se 1 i,mi tavam com a fazenda "Ri bei rão do Mello ", objeto desta transação. A forma como se deu esta apropriação de bens, tambem não está esclarecida na escritura. Provavelmente se trate de uma doação feita pelo senhor em testamento.
Desta .venda faziam parte, alem da fazenda "ruralll, vinte escravos. Foi dado ao vendedor, o prazo de seis meses para reti - rar da fa2enda tudo o que lhe pertencia, incluindo criações, fru- tos de suas roças e lavouras, e ainda, escravos não incluidos hes ta venda. Para garantia desta transação, alguns bens, e 60 escra- vos (al~m dos 20 que faziam .parte da venda), haviam sido hipote- c a dos p a r a p a 9 a m e n t o deu m a d ,. v ; d a d e 1 2 . O 00 c r u z a dos " . .. a f a v o r e no juizo da administração e a arrecadação da Santa Bulla da Cru z a d a de s t a c a p i ta n i a . . . " Mas o v e n d e d o r j ã h a v ; a p a g o . .. 5 . 000 cru zados desta divida. A escritura menciona outros escravos, livres de hipotecas, que poderiam garantir o restante da divida ~ arreca- dação da Bulla da Cruzada afirmando" ... alem dos oitenta e oito es- cravos dezignados e dispostos neste instrumento outros tantos e mais escravos nas fabricas del1e coronel outorgante ... 11 Pouco de-
pois, referindo-se a bens que poderiam ~arantir a referida venda,
vem 11 • • • tem o dito coronel outorgante outros bens de raiz e mo
veis livres e dezembargados com estima de maior valor asima detudo quanto mais elle deve ou possa dever e todos estes que asim lhe
ficão das sobreditas epotecas obri~a e epoteca adito coronel ou - torgante ... ao Doutor outroC)ado ... "Estas duas declarações permi- tem Que se tenha uma ideia do tamanho da fazenda"Ribeiro do r·1el- 10", e das posses de seu proprietârio.
A escritura n9 la, de 8 de marro de 1800, refere-se ã ven da de uma fazenda de cultura denominada "O Engenho da Boa Vista", situada na Perampeba da Boa Morte, freguesia de Congonhas do Cam- po, termo da Vila de Queluz9
. A venda inclui todos os bens da fa- zenda, inclusive 83 escravos. Chama a atenção o prazo para paga - mento desta divida de l6:000S000, estipulado em 30 anos, sem refe
r~ncia ao pagamento de juros.
Um dos documentos mais completos pesquisados foi a escri- tura n9 40 de 12 de agosto de lü14(conforme anexo n9 1, P.344 ), referente ã venda da fazenda "~'indanha OI, localizada na aplicação da Lagoa Dourada, freguesia dos Prados, termo da Vila de São Jose comarca do Rio das MorteslO
. 4 venda abrange tudo o que existia na referida fazenda, inclusive engenhos, moinhos, paiol, mongolo senzalas, currais, pomares, hortas, oficinas, canaviais, gado va cum e cavalar, burros, ovelhas, jumentos, bestas, 61 escravos e outros bens especificados na escritura. Declara-se o preço unitâ- rio dos animais e escravos. Cerca de 55% dos escravos (34 indivi- duos), eram casados entre si, formando 17 casais.
Foram ana1isadas neste trabalho 426 escrituras de compra e venda de escravos registrados e~ cartorios de Ouro Preto, num total de 1173 escravos. Estes numeros excluem escrituras que fo- ram abandonadas por não conterem um minimo de informações necess~
rias ao estudo sÕcio-demogrãfico. Quantitativo e qualitativo da população estudada.