Superior Tribunal de Justiça
HABEAS CORPUS Nº 113.757 - SP (2008/0182298-1)
RELATORA : MINISTRA LAURITA VAZ
IMPETRANTE : SIDNEI FRANCISCO NEVES - DEFENSOR PÚBLICO IMPETRADO : TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO PACIENTE : MAURI RODRIGUES DE LIMA (PRESO)
EMENTA
HABEAS CORPUS . PENAL. TRÁFICO ILÍCITO DE ENTORPECENTES. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA.
INAPLICABILIDADE. PRECEDENTES DESTA CORTE E DO STF.
1. O trancamento da ação penal pela via de habeas corpus é medida de exceção, que só é admissível quando emerge dos autos, de forma inequívoca, a inocência do acusado, a atipicidade da conduta ou a incidência de causa extintiva da punibilidade.
2. Na hipótese, não se afigura possível a aplicação do princípio da insignificância ao delito de tráfico de entorpecentes, tendo em vista tratar-se de crime de perigo presumido ou abstrato, sendo totalmente irrelevante a quantidade de droga apreendida em poder do agente. Precedentes do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal.
3. Ordem denegada.
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da QUINTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas a seguir, por unanimidade, denegar a ordem. Os Srs. Ministros Arnaldo Esteves Lima e Napoleão Nunes Maia Filho votaram com a Sra. Ministra Relatora.
Ausentes, justificadamente, os Srs. Ministros Felix Fischer e Jorge Mussi.
Brasília (DF), 18 de dezembro de 2008(Data do Julgamento)
MINISTRA LAURITA VAZ
Relatora
Superior Tribunal de Justiça
HABEAS CORPUS Nº 113.757 - SP (2008/0182298-1)
RELATÓRIO
EXMA. SRA. MINISTRA LAURITA VAZ:
Trata-se de habeas corpus , com pedido de liminar, impetrado em favor de MAURI RODRIGUES DE LIMA, condenado em primeiro grau à pena de advertência, pela prática da infração penal capitulada no art. 28, da Lei n.º 11.343/06, contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que deu provimento ao recurso ministerial, nos termos da ementa a seguir transcrita, in verbis:
"EMENTA: Lei de Tóxicos (nº 6.368, 21.out.1976). Tráfico. Crime caracterizado, integralmente. Flagrante inquestionável e ação surpreendida.
Palavras coerentes e incriminatórias de testemunhas, acompanhadas da narrativa de Policial Militar. Versão exculpatória inverossímil.
Responsabilização inevitável. Necessidade condenatória imperiosa.
Apenamento no mínimo. Regime compatibilizado à novel legislação (L.
11.464/07). Apelo ministerial provido." (fl. 32)
O Impetrante alega que "o paciente possuía a quantidade ínfima de 02 (dois) gramas de substância transportada em seu tênis, contudo, nenhum outro elemento que viesse a comprovar a traficância foi encontrado e trazido aos autos. " Aduz, assim, restar "claro o inequívoco constrangimento ilegal do paciente, vez que sua conduta é considerada atípica pela doutrina dominante, assim, como pela jurisprudência pátria " (fl. 06)
Requer, assim, liminarmente, a expedição de alvará de soltura e, no mérito, a concessão da ordem "tendo em vista a atipicidade do fato por força do princípio da insignificância penal " (fl. 06)
O pedido de liminar foi indeferido nos termos da decisão de fls. 42/43.
Estando os autos devidamente instruídos, as informações da Autoridade Impetrada foram dispensadas.
O Ministério Público Federal manifestou-se às fls. 46/57, opinando pela denegação da ordem.
É o relatório.
Superior Tribunal de Justiça
HABEAS CORPUS Nº 113.757 - SP (2008/0182298-1)
EMENTA
HABEAS CORPUS . PENAL. TRÁFICO ILÍCITO DE ENTORPECENTES. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA.
INAPLICABILIDADE. PRECEDENTES DESTA CORTE E DO STF.
1. O trancamento da ação penal pela via de habeas corpus é medida de exceção, que só é admissível quando emerge dos autos, de forma inequívoca, a inocência do acusado, a atipicidade da conduta ou a incidência de causa extintiva da punibilidade.
2. Na hipótese, não se afigura possível a aplicação do princípio da insignificância ao delito de tráfico de entorpecentes, tendo em vista tratar-se de crime de perigo presumido ou abstrato, sendo totalmente irrelevante a quantidade de droga apreendida em poder do agente. Precedentes do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal.
3. Ordem denegada.
VOTO
EXMA. SRA. MINISTRA LAURITA VAZ (RELATORA):
A ordem não comporta concessão.
O trancamento da ação penal pela via de habeas corpus é medida de exceção, que só é admissível quando emerge dos autos, de forma inequívoca, a inocência do acusado, a atipicidade da conduta ou a incidência de causa extintiva da punibilidade.
Na presente hipótese, não se vislumbra qualquer das situações acima indicados, porquanto, a teor do entendimento assente desta Corte e do Supremo Tribunal Federal, afigura-se inaplicável o princípio da insignificância ao delito de tráfico de entorpecentes, porquanto trata-se de crime de perigo presumido ou abstrato, sendo totalmente irrelevante a quantidade de droga apreendida em poder do agente.
Confira-se, a propósito, os seguintes precedentes:
"1. Princípio da insignificância e tráfico de entorpecentes. É da jurisprudência do Supremo Tribunal que não se aplica o princípio da insignificância ao delito de tráfico de entorpecentes: precedentes. De qualquer sorte, as circunstâncias do caso, especialmente se considerada a espécie da substância apreendida e a forma como estava acondicionada, não convencem de que o fato pudesse ser considerado penalmente insignificante.
2. Tráfico de entorpecentes: ausência de dados concretos que
justifiquem a afirmação de inexistência de justa causa para a ação penal ou de
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atipicidade da conduta imputada ao paciente.
3. Corrupção ativa: improcedência da premissa da impetração de que o delito de corrupção ativa era de consumação impossível, dado que o policial tem poder de fato de não efetivar a prisão em flagrante (C. Penal, art. 17)."
(HC 88820, Relator(a): Min. SEPÚLVEDA PERTENCE, Primeira Turma, julgado em 05/12/2006, DJ 19/12/2006 PP-00041 EMENT VOL-02261-05 PP-01068 RJP v. 3, n. 14, 2007, p. 113-116)
"PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA - TRÁFICO DE DROGAS. O fato de o agente haver sido surpreendido com pequena quantidade de droga - três gramas - não leva à observação do princípio da insignificância, prevalecendo as circunstâncias da atuação delituosa - introdução da droga em penitenciária para venda a detentos.
PENA - DOSIMETRIA. Surge devidamente fundamentada sentença que, entre o mínimo de três anos e o máximo de quinze, implica a fixação da pena-base em seis anos de reclusão, consideradas as circunstâncias do crime - prática junto a detentos de estabelecimento prisional e a personalidade do agente." (HC 87319, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Primeira Turma, julgado em 07/11/2006, DJ 15/12/2006 PP-00095 EMENT VOL-02260-04 PP-00774)
"HABEAS CORPUS. TRÁFICO ILÍCITO DE SUBSTÂNCIA ENTORPECENTE. PRISÃO EM FLAGRANTE. LIBERDADE PROVISÓRIA.
FALTA DE JUSTA CAUSA À PRISÃO. FUMUS COMMISSI DELICTI.
ALEGAÇÃO DE DESCLASSIFICAÇÃO PARA USO PRÓPRIO, INSIGNIFICÂNCIA, DESNECESSIDADE DA CUSTÓDIA CAUTELAR.
SUPERVENIÊNCIA DA SENTENÇA CONDENATÓRIA. PEDIDO PREJUDICADO.
1. Com a superveniência da sentença condenatória, resta prejudicada a questão relativa à ausência de justa causa (fumus commissi delicti) para a manutenção da custódia cautelar decorrente de flagrante delito, uma vez que não mais se cogita em análise perfunctória sobre a existência da materialidade e dos indícios de autoria, mas em juízo de certeza quanto à presença desses dois elementos, motivado pelas provas produzidas no curso da instrução criminal, cabendo ao réu, doravante, se o caso, discutir o decreto condenatório em sede própria.
2. Analisar a tese de desclassificação do delito de tráfico de entorpecente para o de uso próprio implica o reexame do conjunto fático-probatório, peculiar ao processo de conhecimento, o que é inviável em sede de habeas corpus, remédio jurídico-processual, de índole constitucional, que tem como escopo resguardar a liberdade de locomoção contra ilegalidade ou abuso de poder, marcado por cognição sumária e rito célere.
3. No delito de tráfico ilícito de substância entorpecente não cabe a aplicação do princípio da insignificância em face da quantidade de droga apreendida. Precedentes do STJ.
4. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça consolidou o
entendimento de que a superveniência da sentença condenatória que mantém a
custódia pelos mesmos fundamentos consignados no decreto de prisão
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preventiva não implica perda de objeto da impetração contra esse decreto dirigida. Não obstante, inviável se mostra analisar o mérito do writ, concernente aos atuais fundamentos que justificam a situação prisional do paciente, haja vista que o impetrante, no curso deste feito, não o instruiu com a cópia do respectivo título judicial (sentença), incumbência que lhe competia diligenciar, sob pena de não-conhecimento do pedido.
5. Pedido prejudicado." (HC 81.590/BA, Rel. Ministro ARNALDO ESTEVES LIMA, QUINTA TURMA, julgado em 14/10/2008, DJe 03/11/2008)
"HABEAS CORPUS. DIREITO PENAL. TRÁFICO DE ENTORPECENTES. PEQUENA QUANTIDADE. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INAPLICABILIDADE. PERIGO ABSTRATO.
1. O delito de tráfico de entorpecente é de perigo abstrato para a saúde pública, fazendo-se irrelevante que seja pequena a quantidade de entorpecente (Precedentes).
2. Ordem denegada." (HC 79.661/RS, Rel. Ministro HAMILTON CARVALHIDO, SEXTA TURMA, julgado em 11/09/2007, DJe 04/08/2008)
"PENAL E PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. ART. 12, CAPUT, DA LEI Nº 6.368/76. ALEGAÇÃO DE AUSÊNCIA DE PROVAS SUFICIENTES PARA A CONDENAÇÃO. DILAÇÃO PROBATÓRIA.
PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. PEQUENA QUANTIDADE DE DROGA. CRIME EQUIPARADO A HEDIONDO. PROGRESSÃO DE REGIME. POSSIBILIDADE. INCONSTITUCIONALIDADE DO § 1º DO ART.
2º DA LEI Nº 8.072/90 DECLARADA PELO STF.
I - No caso em tela, infirmar a condenação do paciente, ao argumento da insuficiência das provas coligidas, demandaria, necessariamente, o amplo revolvimento da matéria fático-probatória, o que é vedado em sede de habeas corpus. (Precedentes).
II - O princípio da insignificância está estritamente relacionado com o bem jurídico tutelado e com o tipo de injusto. Dessa maneira, não pode ser utilizado para neutralizar, praticamente in genere, uma norma incriminadora.
Se esta visa as condutas de adquirir, vender, guardar, expor à venda ou oferecer é porque alcança, inclusive, aqueles que traficam pequena quantidade de drogas.
III - O Pretório Excelso, nos termos da decisão Plenária proferida por ocasião do julgamento do HC 82.959/SP, concluiu que o § 1º do art. 2º da Lei nº 8.072/90, é inconstitucional.
IV - Assim, o condenado por crime hediondo ou a ele equiparado, pode obter o direito à progressão de regime prisional, desde que preenchidos os demais requisitos.
Writ denegado.
Ordem concedida de ofício para afastar o óbice à progressão de regime." (HC 55.816/AM, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 03/10/2006, DJ 11/12/2006 p. 395)
Ante o exposto, DENEGO a ordem.
Superior Tribunal de Justiça
É o voto.
MINISTRA LAURITA VAZ
Relatora
Superior Tribunal de Justiça
CERTIDÃO DE JULGAMENTO QUINTA TURMA
Número Registro: 2008/0182298-1 HC 113757 / SP
MATÉRIA CRIMINAL
Números Origem: 10699623 2412004
EM MESA JULGADO: 18/12/2008
Relatora
Exma. Sra. Ministra LAURITA VAZ Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO Subprocuradora-Geral da República
Exma. Sra. Dra. ÁUREA MARIA ETELVINA N. LUSTOSA PIERRE Secretário
Bel. LAURO ROCHA REIS
AUTUAÇÃO
IMPETRANTE : SIDNEI FRANCISCO NEVES - DEFENSOR PÚBLICO IMPETRADO : TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO PACIENTE : MAURI RODRIGUES DE LIMA (PRESO)
ASSUNTO: Penal - Leis Extravagantes - Crimes de Tráfico e Uso de Entorpecentes (Lei 6.368/76 e DL 78.992/76) - Tráfico
CERTIDÃO
Certifico que a egrégia QUINTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
"A Turma, por unanimidade, denegou a ordem."
Os Srs. Ministros Arnaldo Esteves Lima e Napoleão Nunes Maia Filho votaram com a Sra. Ministra Relatora.
Ausentes, justificadamente, os Srs. Ministros Felix Fischer e Jorge Mussi.
Brasília, 18 de dezembro de 2008
LAURO ROCHA REIS Secretário