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VLADIMIR CUNHA SANTOS

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Academic year: 2022

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CONTOS, CRÔNICAS, POEMAS e ENSAIOS

VLADIMIR CUNHA SANTOS

SUMÁRIO

Prefácio / 02

1ª parte: CONTOS DO SUL DA BAHIA Mistério na Pitinga / 03

O povoado de Santo Amaro / 10 Mirando o mar / 13

Partida / 15

2ª parte: CARTAS DE CUBA /17 Carta a um filho / 17 Carta a um amigo / 22 3ª parte: NOVOS POEMAS

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Poemas de Cuba e do mar / 26 Poemas do Arraial /33

4ª parte: CRÔNICAS E ARTIGOS / 44 5ª parte: CONTOS GERAIS /55

PREFÁCIO

Este é o 17º livro publicado de Vladimir Cunha Santos. Desde 1981, no auge da sua adolescência, constrói sua carreira literária, passando pela poesia, crônicas, artigos, contos, romances e ensaios. No início eram pequenos livros de poemas, depois vieram os estudos, as composições mais elaboradas, as viagens pelos países vizinhos à sua terra natal (Uruguai e Argentina), a faculdade de Letras, a viagem pela Europa (Portugal, Espanha e França), a experiência de três décadas como jornalista e empresário da comunicação em jornais do interior do Rio Grande do Sul, as viagens por vários estados do Brasil, a formação acadêmica em Ciências Sociais na Universidade Federal do RS, a moradia e pesquisas de três meses na ilha de Cuba, até os dias de hoje (2017), quando trabalha e vive no charmoso Arraial d’Ajuda, distrito turístico do histórico município de Porto Seguro, no sul da Bahia, onde começou o Brasil português em 1500.

Neste novo livro, Vladimir Cunha Santos traz uma junção de novos contos, novos poemas, crônicas, artigos e frases, elaborados nos três últimos anos, todos inéditos para seus leitores, inspirados e escritos, na maioria das vezes, sob o barulho do mar, do oceano atlântico, do mar do Caribe, do oceano pacífico quando voava sobre o litoral do Peru. Este livro faz parte da Trilogia do Barulho, começada em 2011 com a publicação do livro Barulho do Ócio, e que agora segue com este Barulho do Mar e deverá se encerrar com a publicação do romance Barulho do Beijo, em fase de produção.

Neste livro o autor escreveu vários contos históricos relatando os momentos do descobrimento do Brasil e a colonização que começou pelo sul da Bahia. Também faz relatos sobre a vida cotidiana em Cuba a partir de sua vivência entre cubanos durante três meses de 2015 e 2016, contando como é a vida realmente na ilha caribenha e socialista.

Também traz uma seleção de poemas novos que escreveu em Cuba, na Bahia e no Rio Grande do Sul, além de ensaios sociológicos que escreveu para a Universidade.

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Nos textos selecionados pelo autor estão as marcas de seu tempo, de seu pensamento, algumas reminiscências e atualidades. Usa os personagens da sua ficção para dizer o que quer sobre a vida contemporânea. Introduz aspectos históricos no seu texto moderno e realista. São muitos contos, crônicas, poemas e artigos arrancados do mundo real e provocados por um incessante barulho do mar –este gigante da natureza- que existe dentro do autor. Como ele mesmo diz: “o mar me faz relaxar, refletir, e suas ondas trazem as minhas ondas.” Nas margens dos mares do planeta se organizaram várias civilizações.

Tenham vocês uma boa leitura destes textos onde encontrarão uma pororoca da junção da literatura com a sociologia e a historia.

1ª parte:

CONTOS DO SUL DA BAHIA

MISTÉRIO NA PITINGA

Vou começar este livro contando uma história de arrepiar. Tudo começou lá pelas terras do sem fim, bandas de Ilhéus e Itabuna, quando se intensificavam as derrubadas das matas nativas para implantação das roças de cacau, quando homens de todo norte e nordeste do Brasil faziam corrida rumo ao trabalho e a ilusão de enriquecimento com o novo ouro da região, a fruta que faz o chocolate e que era exportada para as grandes cidades brasileiras e para a Europa, enriquecendo os coronéis, grandes proprietários de terras, e escravizando os trabalhadores que faziam mais de 12

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horas diárias de esforços imensuráveis em troca de baixos salários e condições precárias de moradia e alimentação. Mesmo assim levas de gente sem nada viajavam pelo sertão, pegavam navios em terceira classe e se empilhavam até o porto de São Jorge de Ilhéus, em busca de sonhos de enriquecimento. Muitos deles eram contratados dentro dos próprios navios pelos coronéis que viajavam em primeira classe depois de retornarem de seus negócios e suas orgias na capital da Bahia de todos os santos. Entre eles encontrava-se Juvenal, homem forte, de barba negra, com seus trinta e poucos anos, fugido da seca do Ceará, acompanhado por sua mulher Nara Margarida, com um filho recém-nascido nos braços longos e finos. Buscavam trabalho na terra e a promessa de um futuro melhor havia sido dada por um capataz de estância numa das praças de Salvador, logo que desembarcaram de um pau de arara depois de longa viagem pelas estradas íngremes do sertão nordestino. Deixaram pra trás uma casa caindo aos pedaços, vacas mortas de fome, um poço vazio, móveis velhos e uma roça de milho queimada pela seca interminável. Não havia condições de sobreviver naquele lugar próximo de uma pequena cidade quase fantasma, com moradores idosos que viviam de aposentadorias que gastavam comprando alimentos na única casa de comércio que vendia até remédios. Os mais jovens, sem perspectivas, rumavam para os grandes centros urbanos em busca de qualquer trabalho e engrossavam as vilas que surgiam nos subúrbios das capitais.

Juvenal não teve a sorte de ser contratado durante a viagem, e logo que desembarcaram no cais do porto de Ilhéus, foram até uma praça que era uma espécie de agência de empregos ao ar livre, onde homens e mulheres disponíveis para o trabalho, ficavam expostos ao sol e chuva, como uma leva de escravos, esperando por um patrão.

Os vendedores ambulantes comercializavam pães recheados com mortadela, rapaduras, cachaça, frutas e doces por preços módicos e acessíveis para aqueles miseráveis famintos que chegavam todos os dias. Juvenal ainda possuía algum dinheiro que recebera pela venda de sua pequena fração de terra herdada dos pais que morreram por falta de médico e remédios no sertão. Teve sorte em encontrar alguém que se interessara por sua propriedade naquele fim de mundo. Não foi muito dinheiro, mas deu para pagar a viagem e ainda restavam uns trocos para alimentar a si, a mulher e o filho que mamava no seio grande de Nara.

Caiu a noite e nenhum dos contratadores de trabalhadores se interessou por Juvenal, talvez porque estava acompanhado por mulher e criança, e isso exigia mais despesas para o patrão. Tiveram que dormir embaixo de um abrigo de pescadores, agradecendo a Deus pela sorte de não haver chovido e nem ventado naquela noite estrelada e calorenta. Nara pegou no sono, com o filho nos braços, amassado nos peitos, sentada. Juvenal vigiava ao redor, sentado no chão, abraçado aos joelhos, tomando cuidado com os homens que passavam próximos, uns em algazarras e bêbados. Mesmo assim o sono o pegou e só abriu os olhos com a luz do sol nascendo dentro do mar imenso que se estendia no horizonte da Bahia.

Comprou dois sanduiches de mortadela e uma pequena garrafa de café com leite vendido por uma negra velha. Este foi o dejejum da família naquela manhã que

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começava quente. Quando o sol estava a pino, um caminhão estacionou na praça. Um velho de barba branca e botas de couro até os joelhos, batendo com um rebenque na perna o tempo todo, desceu e foi cercado por desempregados ávidos por serviço.

Juvenal se aproximou. O velho olhava com atenção os desempregados e botou os olhos em Juvenal. Mirou suas mãos grandes, seus braços fortes, seu rosto jovem escondido pela barba preta, e o chamou. Perguntou de onde vinha e o que sabia fazer. Juvenal contou que estava chegando do interior do Ceará, que trabalhara em uma roça de milho, que foi corrido pela seca, e que estava com a mulher e um bebê de colo. Mesmo assim o velho mandou Juvenal pegar suas trouxas e sua família e embarcar na carroceria do caminhão. Juvenal foi até a mulher, pegou a única mala de couro que possuía e embarcaram. Ao lado deles viajaram outros tantos homens jovens até um povoado, uma espécie de vila agrária onde os fazendeiros instalavam seus trabalhadores. Numa casa ficaram seis homens; em outra sete, empilhados em poucos quartos, cada um com várias camas de colchões velhos. Na menor casa, com apenas um quarto que possuía uma cama de casal e uma de solteiro ao lado, uma cozinha com fogão à lenha, um armário, uma mesa e três bancos, foram instalados Juvenal, Nara e o pequeno Matias. “Aqui vai ser o rancho de vocês”, disse o velho, “depois falamos do acerto”. E prosseguiu: “Nada é de graça por aqui, vais ter que pagar com trabalho o teu aluguel e as despesas de comida. Mas trabalho é o que não vai te faltar. Temos muitas roças ao redor e precisamos de homens fortes e dispostos. Se não comerem demais, vai até sobrar algum dinheiro. Guarda tuas coisas e sobe por esta estrada até aquela casa grande que vamos te dar as primeiras instruções”, concluiu o velho de barba branca.

Desde então Juvenal começou a acordar às cinco horas da manhã e partia para a casa grande, onde tomavam uma caneca de café com leite, comiam um sanduiche de mortadela e empilhados na carroceria de um caminhão viajavam até as roças. Eram muitas e o trabalho era pesado, pra homem forte e jovem, de preferência. Os mais velhos, passados dos 50 anos, nem eram contratados, pois desmaiavam na lida diária e cansativa de derrubar mato e plantar pés de cacau. Ao meio-dia cada um parava numa sombra e abria sua marmita feita na noite anterior, com a comida fria e de poucos nutrientes para não ficar com muita dívida na bodega da fazenda. Juvenal tinha sorte, diziam os demais, tinha cozinheira e comia melhor. Os outros tinham que cozinhar em grupos, em suas casas repletas de machos, se revezando nas panelas. Depois da comida seguiam pela mata e lavouras. O dono das terras não cultivava apenas cacau, estava implantando também outras produções para diversificar. Os tempos estavam mudando e não dava para depender apenas de uma cultura, dizia. E lá pelas 18 horas, quando começava a escurecer, o caminhão retornava com os trabalhadores exaustos e famintos.

Estes corriam para um banheiro coletivo e se banhavam antes de se enfiarem em suas casas para prepararem as comidas para a noite e para o outro dia. Juvenal possuía um pequeno banheiro anexo em sua casa, e por isso pagava um pouco mais de aluguel do que os demais. Não tinha o que reclamar, dizia para a mulher. E quando a criança dormia, Juvenal e Nara se abraçavam na cama e faziam amor até o orgasmo. Só então se sentiam relaxados e dormiam. Na manhã seguinte começava tudo novamente: Juvenal e os homens iam para as lavouras e Nara começava a lavar as roupas da família. Para

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aumentar os ganhos da casa, Juvenal permitiu que a mulher lavasse as roupas dos demais trabalhadores da fazenda. Quando juntou algum dinheiro, a primeira coisa que fez foi comprar um rádio, um aparelho moderno para escutar música e ouvir as novelas.

O patrão levou as economias dela e comprou na cidade o aparelho que gerou muita alegria na casa. À noite até Juvenal gostava de ouvir as notícias do Brasil e do mundo, as novelas e músicas. Quando ele bebia uma cachaça, nos sábados, dançavam forrós e boleros até tarde, antes de caírem no sexo. Afinal domingo era sagrado e não pegavam no trabalho. Somente durante as colheitas não tinha folga nunca, era trabalho de segunda à segunda. Por isso recebiam um extra que acabava ficando nas dívidas com comida.

Quando chegava a semana de lua cheia, Juvenal ficava excitado demais.

Inquieto, impaciente, não conseguia dormir, se revirava na cama, e lá pela meia-noite levantava e saía a caminhar pela madrugada. Nara ficava assustada, mas não comentava nada com ninguém e nem questionava o marido, ele sempre agira assim, desde os tempos em que viviam no sertão do Ceará. Nestas noites ela também não conseguia dormir direito, ficava horas acordada, rezando para todos os santos, a Virgem Maria e o Senhor Jesus Cristo, para que nada acontecesse ao esposo e para que ele voltasse o mais breve possível. Lá pelas três horas da madrugada Juvenal retornava à casa, exausto. Ia trabalhar cedo e produzia menos, passava a semana toda mais cansado do que as demais. Bocejava na lavoura, mas disfarçava.

Por várias vezes, exatamente nas semanas de lua cheia, aparecera bicho morto ao redor da fazenda, nas matas próximas. Um terneiro, uma vaca, galinhas, até mesmo cachorro. Quando descobriam, atribuíam estas mortes à ação de alguma onça. Como isto acontecia todos os meses, o patrão começou a se preocupar com os prejuízos causados. Tinha que conter esta situação. Mesmo que aproveitasse a carne das reses mortas para fazer carne de sol para vender aos peões, isto era muito estranho. Resolveu montar uma equipe para caçar a onça assassina. E como sempre acontecia nas noites de lua cheia, preparou seus homens com armas e munições para uma caçada. Espalhar-se- iam em grupos pelas matas e vigiariam. Juvenal foi convocado para participar de um dos grupos. Não vacilou. Recebeu uma espingarda com os projéteis que colocou nos bolsos e partiu para um setor da propriedade com mais três trabalhadores. No meio do caminho disse que deviam se separar silenciosamente para não espantar o bicho. Cada um foi para um lado.

Juvenal sumiu na mata com sua arma, olhou para a lua cheia, não conseguiu conter o uivo, sentiu mais uma vez na vida os pelos crescendo sobre a pele bronzeada, os olhos envermelhando como poças de sangue, os dentes caninos e as unhas crescendo, um mistério da natureza agindo sobre seu corpo mesmo contra sua vontade, e deitou na relva. Fechou os olhos, não olhou para a lua que clareava a noite. Tentava suportar e superar aquela vontade de beber sangue, esforçava-se para isso, mas não resistia.

Avistou um bando de macacos que dormiam nos galhos de uma árvore. Apontou a arma para eles e atirou. O estampido ecoou pela mata, alertando os demais homens. Um macaco caiu no chão e Juvenal o pegou sangrando. Mordeu seu pescoço, chupou

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avidamente seu sangue quente por uns minutos, ouviu a correria dos macacos fugindo, pulando de galho em galho, e os passos dos homens correndo em sua direção. Saciado, atirou o pequeno corpo do sagui no meio da floresta e também correu levando a arma.

Escondeu-se entre uns galhos e viu passarem seus companheiros de caçada em alarmada corrida. Aos poucos sentiu seu corpo relaxando, os dentes voltando ao normal, os pelos dos braços e pernas diminuindo, como um milagre, voltava ao normal. As poças de sangue dos olhos iam sumindo enquanto Juvenal voltava a caminhar na mata. Pegou sua garrafa de água da cintura e lavou a boca, o rosto, as mãos e a barba. Quando se sentia melhor, Juvenal enxergou seus companheiros chegando assustados. Perguntaram o que se sucedera, ao qual Juvenal respondeu que havia atirado em direção a uma onça pintada, de porte médio, que viu na mata, mas que ela escapara, que ele era de má pontaria, e que ela fugira. “Então espantamos o bicho, vamos voltar que amanhã temos trabalho cedo”, disse o patrão. E seguiram pela mata, reunindo os grupos, até chegarem à casa grande onde deixaram suas armas e foram dormir em seus alojamentos.

Aquela transformação só acontecia em uma das noites de lua cheia com Juvenal.

Desde criança convivia com este mal secreto. Nem os pais, nem a esposa, ninguém sabia deste mal. Quando ele se manifestava, era só beber um pouco de sangue quente, de qualquer animal, que em poucos minutos a transformação acabava. Ele não tinha como pesquisar sobre este mal, pois não sabia ler. Era mais um dos milhões de analfabetos do país naqueles tempos. Mesmo assim a sua curiosidade aumentava e ele ouvia da boca dos outros as histórias de lobisomem que contavam nas rodas de conversas. No entanto ele nunca havia atacado pessoas durante suas transformações.

Isso sabia. Mas temia que um dia isso acontecesse, por isso, quando sentia que iria se transformar, fugia de perto da esposa, do filho e dos demais. Podia não ter controle.

Quando era menino e adolescente, nas noites de lua cheia, no Ceará, fugia de perto dos pais e caminhava pelo sertão em busca de um sangue quente, desvairado. Chupou muita vaca, terneiro, cachorro, macaco, as galinhas eram as presas mais fáceis, mas fazia muito barulho, era perigoso, uma vez até levou uns tiros de raspão dentro de um galinheiro, sabia que corria risco de morrer, mas a transformação era incontrolável, quando vinha só tinha uma maneira de voltar ao normal: era beber sangue quente de bicho. Só isso ele sabia e passara toda sua vida com esta sina que não sabia se era do diabo, mas que não era de Deus ele tinha certeza. Todos os meses tinha que enfrentar este horror. Lamentava.

Passaram-se os meses, um ano, o primeiro aniversário do pequeno Matias, a festa da colheita com quermesse, missa e baile, o primeiro ano que o casal estava na fazenda do Sinhô Borges, mas o drama de Juvenal com sua transformação persistia. Não tinha como haver uma cura para este mal diabólico? se perguntava Juvenal nos seus momentos de silêncio e reflexão quando aproximava-se as noites de lua cheia. Estava ele condenado até a morte por esta coisa maligna? Será que o filho seria um monstrinho também a sofrer com este mal? Estas eram as questões da vida de Juvenal naquelas noites horrorosas.

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Para evitar prejuízos ao patrão, quando chegava o tempo de lua cheia e a noite da transformação, Juvenal começou a ir longe para sugar o sangue fresco e quente de alguma presa. Caminhava léguas, atravessava cercas de outras propriedades, enquanto a mulher ficava aflita em casa, abraçada no menino, esperando ele voltar exausto daquelas caminhadas mensais e misteriosas em que ele nada a revelava. Corria riscos, mas era sua sina, um dia teria de acabar, quem sabe somente com sua morte, pensava enquanto varava terras, chupava um sangue e depois retornava.

Numa destas noites de desespero, transformado em lobisomem, Juvenal entrou em um campo atrás de algum bicho qualquer. Uns bezerros dormiam embaixo de um matinho quando Juvenal os atacou. Agarrou um bezerro menor pelo pescoço e cravou seus dentes de monstro no bicho. Os outros fugiram, mugindo, e despertaram o fazendeiro dono daquelas terras que pegou a espingarda e saiu para fora da casa. Deu um tiro para cima e chamou seus peões que acordaram e foram ao encontro do patrão.

“Peguem as armas, moços, que hoje vamos pôr as mãos naquela onça desgraçada que deve ter matado mais um bezerro aqui na fazenda.” Correram em direção de onde fugiam os demais bezerros e enxergaram, em vez de onça, um homem de braços peludos, olhos vermelhos e dentes pontiagudos com a boca suja de sangue. O bezerro ainda sangrava e se debatia quando Juvenal, sentindo a proximidade dos homens que chegavam gritando, começou a correr. “É lobisomem, ele existe, é verdade, vamos pegar pra mostrar!” gritavam os homens que corriam. Juvenal corria desesperadamente e aos poucos a transformação se desfazia, como sempre após ele beber o sangue quente da presa. Pisou em um buraco e caiu. Viu-se cercado por cinco homens armados que gritavam: “Pegamos, pegamos o lobisomem!” O chefe da fazenda disse: “Não matem o desgraçado, vamos ver quem é e entregar para as autoridades.” Carregaram Juvenal para a fazenda quando o patrão o reconheceu: “Mas é Juvenal, o peão do Sinhô Borges.

Amarrem ele. Vá chamar o Sinhô Borges e vigiem o homem-bicho enquanto vou ver a situação do bezerro atacado. Um dos homens montou em seu cavalo e rumou para a fazenda vizinha fazendo alarde de que pegaram o lobisomem, o patrão foi ver o bezerro e quatro homens amarraram Juvenal que estava exausto mas alerta. “Então é tu que chupa cabra, mata vaca e até galinha, endiabrado!” dizia um dos peões. O outro apontava a arma para ele e dizia: “Chegou tua hora de te encontrar com o diabo, teu rei, desgraçado. E já foram chamar teu patrão que vai te colocar na forca, filho da puta!”

Juvenal sentiu dentro dele uma força desconhecida provocada pelo medo e o terror, arrebentou as cordas que o amarravam, empurrou o homem que estava mais perto dele, e começou a correr em direção a uns matos. Os homens o perseguiram e atiraram nas suas costas. Uma bala passou de raspão e acertou seu braço esquerdo, outra pegou na sua perna direita, mas ele não sentia nada, seguiu correndo, correndo, entrou na mata e sumiu da vista de seus perseguidores que voltaram, montaram em cavalos e empreenderam buscas pelos arredores. Sinhô Borges mandou parte de seus homens cercarem a casa onde Juvenal morava com a esposa que ficou atônita com aquele movimento enquanto o filho chorava sem parar. Dezenas de homens reuniram-se e foram armados em busca do lobisomem que agora eles sabiam que era Juvenal, o peão

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distinto, pai de família e bom trabalhador. “Imagina se ele morde alguma pessoa, pois esta pessoa mordida também vira lobisomem, é melhor matar este demônio antes que se criem outros por estas bandas”, diziam os homens enquanto troteavam em seus cavalos em busca de Juvenal.

Aquela noite foi a última de Juvenal naquelas bandas. Mesmo baleado, seguiu correndo sob a lua cheia que clareava os campos desmatados, prontos para a agricultura.

Com uma energia descomunal atravessou matas, varou rios e mesmo baleado foi avante, cruzando povoados e cidades, passando por matas e praias, fugindo da morte. Nunca mais foi visto naquelas terras. Sua esposa ficou refém na fazenda do Sinhô Borges. Não tinha pra onde ir. Seu filho cresceu e graças a Deus, dizia a mãe, não herdou o mal do pai. Ela virou a cozinheira da casa grande e anos depois, quando deram Juvenal por morto e ela por viúva, casou-se com um trabalhador das bandas de Itabuna que prestava seus serviços na fazenda e assumiu a pequena casa que fora de Juvenal.

No entanto, Juvenal Lustroso, salvo das balas, atravessou a nado o Rio Buranhéin numa noite de maré baixa, caminhou pela areia até as falésias da Praia da Pitinga e montou um casebre com troncos de árvores da mata Atlântica nas proximidades da Lagoa Azul onde passou o restante de sua vida, enfrentando seu mal das noites de lua cheia. Nos demais dias catava frutas, pescava, caçava e sobrevivia com o que a natureza lhe dava. Barbudo e mancando de uma perna, às vezes fazia incursões pelo povoado do Arraial d’Ajuda, onde ganhava roupas velhas, panelas, talheres, alimentos e outros objetos que levava em sacos para usar em sua cabana no meio da mata. Mesmo na velhice, quando se transformava em lobisomem, corria, manco, atrás de uma presa para sugar seu sangue quente e cumprir sua eterna sina. Quando chegava a lua cheia os macacos ficavam em polvorosa, os bichos da mata não ousavam sair de suas tocas, pois um deles seria vítima fatal do lobisomem da Pitinga.

Passaram-se os anos, as décadas, chegou a indústria do turismo, a modernidade, o povoado se transformou em vila e distrito, chegaram os novos moradores provenientes de São Paulo, Minas Gerais e outras bandas, construíram mansões, pousadas e loteamentos, mas a cabana do velho Juvenal Lustroso continua lá, cravada no meio da mata, com seus badulaques juntados e pendurados nas árvores próximas.

Quem passa pela praia da Pitinga, nas caminhadas turísticas de lua cheia entre Trancoso e Arraial d’Ajuda, ou quem nestas noites se aventura a visitar a praia Taípe e tomar um banho no Rio da Barra, pode ouvir o uivo do velho Juvenal nos seus momentos de transformação, pagando sua sina desde menino, homem-bicho que deixou para trás, por destino, toda uma vida normal para viver embretado nestas matas tropicais do sul da Bahia de todos os santos e de todos os demônios.

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O POVOADO DE SANTO AMARO

A guerra entre portugueses e nativos do novo mundo se estendeu pelo século XVI, principalmente a partir dos anos 1532, quando o Rei de Portugal começou a distribuir as capitanias, glebas de terras no litoral – território hoje compreendido entre o nordeste brasileiro, Olinda, Recife, Bahia, passando por Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo até o sul do país. Homens de confiança do Rei D. João III, recebiam léguas de terras e tudo que havia nelas, ou seja, floresta, animais e pessoas que nelas habitavam. O objetivo era continuar a exploração começada nos primeiros anos do século, quando os novos cristãos (judeus convertidos ao cristianismo) arrendaram o território para retirar e levar a árvore pau-brasil para a Europa. Os portugueses, com esta inciativa, queriam definitivamente marcar o território como seu, derrubar a mata Atlântica para implantar lavouras, erguer povoados e cidades, fundar instituições e expandir seus domínios além-mar, em busca de riquezas como ouro e diamantes.

No outro lado do Rio Buranhéin, na capitania de Porto Seguro, foi erguido o Povoado de Santo Amaro, uma pequena comunidade de portugueses com a intenção de dar continuidade aos projetos expansionistas da coroa portuguesa. Neste local, que pertencia aos povos nativos que há milhares de anos habitavam estas terras, vivendo de caça e pesca, os portugueses conquistaram a antipatia e o ódio dos homens da tribo Aimoré, guerreiros que conviviam e disputavam espaços com os integrantes das tribos Tupiniquim e Tupinambá, viventes no que chamamos hoje de sul da Bahia.

Os portugueses construíram suas casas, demarcaram suas posses, se embretaram na mata para cortar árvores que vendiam para os comerciantes que embarcavam o pau- brasil para o velho continente. Também procuravam e não encontraram ali ouro e diamantes, mas comiam caças e se transformaram em concorrentes dos nativos ao invadirem seu espaço. Muitas vezes, sentindo-se ameaçados pelos verdadeiros donos daquelas terras, os portugueses não hesitavam em usar suas armas de pólvora, causando mortes e desespero entre os nativos. Cada assassinato era uma revolta. Os nativos encontravam os corpos de seus familiares caídos na relva, ensanguentados, furados à bala. Era uma choradeira, uma comoção geral na tribo, faziam a cerimônia de funeral e preparavam a vingança. Os nativos, mesmo que os portugueses não enxergassem devido a cegueira ideológica e filosófica pregada pelos reis católicos, eram humanos, tinham sentimentos e atitudes. Sofriam de tristeza com a perda de um parente, de um amigo, e também sentiam raiva.

Esta situação se prolongou por alguns anos, desde a chegada dos invasores portugueses e a implantação do povoado na costa do rio. Os conflitos eram constantes entre portugueses e nativos donos das terras. Os portugueses que chegavam nos navios com documentos do rei diziam que as terras eram deles e começavam a demarcar, dividindo entre eles glebas e territórios, expulsando os nativos com armas de fogo e

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incendiando suas aldeias. Plantando lavouras de canas e instalando engenhos de açúcar, onde os trabalhadores escravos eram os nativos capturados à força. O que era um paraíso tropical de mata virgem, rios com água doce para o consumo e lindas praias de mar, transformou-se num inferno para os nativos que viviam assustados e fugindo das perseguições dos portugueses, que quando não os matavam, os transformavam em escravos para derrubadas de árvores e plantações de lavouras. Muitas mulheres nativas eram estupradas e levadas como escravas para servirem sexualmente aos portugueses.

Esta situação foi causando indignação e raiva entre os nativos que perdiam suas terras e sua gente para aqueles barbudos, peludos, fedorentos, cheios de roupas cobrindo o corpo, com botas de couro, facões e armas de fogo que disparavam chumbo e sangravam até a morte suas vítimas.

Hataí era um cacique da tribo Aimoré que se rebelou e se levantou contra os portugueses invasores em meados do século XVI. Foi o começo da chamada Guerra dos Aimorés que se estendeu do sul da Bahia até as terras do Espírito Santo por longos e sangrentos anos.

(Os aimorés, aimbirés, aimborés ou botocudos eram uma etnia brasileira que habitava o sul da Bahia e o norte do Espírito Santo nos séculos XVI e XVII. Ao contrário da maioria das tribos que habitavam o litoral brasileiro no século XVI, não falavam a língua tupi. Eram em número de 30.000. Nômades, se abrigavam em cabanas temporárias cobertas com folhas de palmeiras. Sobreviviam principalmente da caça. O escritor português Pero de Magalhães de Gândavo assim os descreveu em seu livro

"Tratado da terra do Brasil- História da Província de Santa Cruz", de 1576:

“Chamam-se Aymorés, a língua deles é diferente dos outros nativos, ninguém os entende, são eles tão altos e tão largos de corpo que quase parecem gigantes; são muito altos, não parecem com outros nativos desta Terra.”

Como outras tribos tapuias, haviam sido expulsos do litoral pelos tupis pouco antes da chegada dos portugueses à região no século XVI, mas, a partir da década de 1550, tentaram retomar seu território. Com seus constantes ataques aos colonos portugueses e seus escravos nativos, foram os responsáveis pelos fracassos das capitanias de Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo. Só foram vencidos no início do século XX. Sobrevivem até hoje sob a forma da etnia contemporânea dos crenaques. "Aimoré" é um termo tupi que designa uma espécie de macaco.)

O cacique Hataí, cansado das atrocidades dos portugueses na sua região, uniu forças com demais nativos de outras tribos rivais, e, unidos, com arcos e flechas, partiram para o ataque. Era uma noite de lua minguante, a floresta estava escura, havia muitas nuvens no céu e um princípio de chuva. Aos poucos as centenas de nativos foram cercando o povoado de Santo Amaro, na costa do rio, onde viviam as famílias portuguesas que cuidavam das lavouras de canas e dos engenhos de açúcar. Em alguns galpões estavam trancados os escravos nativos capturados pelos portugueses para trabalharem de graça nas lavouras, engenho e como transportadores de produtos para dentro dos navios.

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A madrugada caiu e o povoado estava totalmente cercado. Ao comando de Hataí os nativos partiram em silêncio e libertaram os escravos de suas amarras nos galpões.

Deram aos libertos tacapes, arcos e flechas. Um vigia português percebeu a movimentação e correu atrás dos nativos que fugiam para dentro da mata. Mirou com sua arma e atirou nas costas de um dos fugitivos que caiu morto na relva. Em poucos minutos o português foi crivado de flechas e também tombou na noite fatídica. Ao perceberem o barulho e o que se sucedia, os portugueses pularam de suas camas de arma em punho. Até um canhão foi movimentado para o pátio a fim de combater os nativos que aos gritos invadiam o povoado. Foram entrando nas casas e colocando fogo nos tetos de palha, nos móveis e nos sacos de açúcar que se amontoavam no engenho.

Para dentro da pequena igreja de Santo Amaro fugiram as poucas mulheres e crianças, aos choros e gritos de socorro, Deus nos proteja! Todos os homens portugueses foram mortos até o amanhecer. As casas, o engenho e depósitos foram incendiados. Restou apenas a igreja com as mulheres e crianças que foram poupadas. O padre, escondido em um buraco embaixo do altar, conseguiu sobreviver, e quando os botocudos foram embora ele correu sozinho desesperadamente pela mata até ser capturado por outra tribo dias depois e levado ao sacrifício para ser comido. As mulheres e crianças foram levadas para a aldeia e assistiram ao ritual antropofágico onde os portugueses mortos foram esquartejados, assados e comidos pelos nativos que dançavam ao redor da fogueira em comemoração a mais esta vitória. Estas prisioneiras passaram os restos de suas vidas entre os nativos, vivendo como eles e nos seus costumes. Quando os furiosos aimorés juntaram os corpos dos portugueses e carregaram suas mulheres e crianças para a aldeia, incendiaram a igreja, deixando para trás apenas fumaça e cinzas do que um dia foi uma povoação de invasores europeus na terra do pau-brasil.

A Guerra dos Aimorés foi um conflito entre colonizadores e ameríndios que ocorreu entre os anos de 1555 e 1673, nos territórios atuais da Bahia e do Espírito Santo. Foi resultado de conflitos iniciais de tentativa de escravização das populações nativas e das entradas e bandeiras para extração e ocupação. Fernão de Sá, comandando bandeira no território capixaba, lutava contra os aimorés, cujos hábitos nômades os espalhavam desde as bacias dos rios Jaguaripe e Paraguaçu aos atuais municípios de Ilhéus e Porto Seguro. Os aimorés venceram e as feitorias dos bandeirantes foram destruídas por volta de 1558.

Porém a história dá voltas e os combatentes nativos que em muitos conflitos foram vitoriosos, acabaram derrotados pelas armas, canhões e exércitos numerosos de portugueses e outros estrangeiros mercenários. Implantou-se a cultura europeia na terra das palmeiras, as leis portuguesas, os governos, empresas, religião, costumes e uma população de brancos que se multiplicou e se apossou de todo o território continental, invadindo para o norte, até os confins da selva Amazônia, para o oeste até o pantanal, e o sul até os pampas. Fundaram cidades, ergueram igrejas cristãs, trouxeram os africanos como novos escravos e jogaram os nativos em pequenos espaços reservados para turistas apreciarem como históricos.

O povoado de Santo Amaro era localizado provavelmente onde hoje se situa a ilha dos aquários, no Arraial d’Ajuda, distrito de Porto Seguro. Ao atravessar a balsa no Rio Buranhéin, o visitante e os moradores atuais podem visualizar o local onde se deu um dos primeiros conflitos da longa guerra dos aimorés, episódio histórico de

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resistência nativa contra a invasão do Brasil, que antes os nativos chamavam de Pindorama, a Terra das Palmeiras.

Depois de escrever este conto histórico, ouvindo o barulho do mar na praia de Apaga Fogo, fiquei pensando: poucos anos após este conflito ergueram uma nova igreja, a de Nossa Senhora d'Ajuda, com a imagem da santa trazida em 1549 pelos padres Jesuítas. Recomeçava assim a colonização católica depois do massacre de Santo Amaro. A guerra entre brancos e nativos continuou por toda a Pindorama transformada em Brasil. E surgiu um novo povoado nestas bandas que hoje cresce e é polo turístico na chamada costa do descobrimento, se estendeu da igreja em direção ao mar, descendo a estrada do Mucugê, misturando as raças, surgindo um novo povo mestiço que passou a conviver.

Nascia uma nova nação. Não seria esta a costa da invasão?

MIRANDO O MAR

Meu pai tinha apenas 3 anos e minha avó fazia pão caseiro em uma casa de madeira na beira de um mato na localidade de Cruz de Pedra, subdistrito de Rosário do Sul, pequena cidade na fronteira entre Brasil e Uruguai, bem longe do barulho do mar.

Era 1943, e no rádio o locutor falava das atrocidades da 2ª guerra mundial. A Europa literalmente pegava fogo, países eram invadidos pelos alemães que construíam campos de concentração e matavam seus adversários com pelotões de fuzilamento e câmaras de gás letal. Milhões de pessoas eram executadas por vários motivos. Na Alemanha, na Polônia e outros países, eram realizadas as atrocidades, onde centenas de milhares de pessoas eram aprisionadas, depiladas, torturadas e assassinadas barbaramente, desumanamente. E meu pai ali, menino, começando a dar seus primeiros passos e a articular suas primeiras palavras, num distante lugar de paz, bebendo leite puro tirado das vacas todas às manhãs pela minha vó Diva, abraçando meu avô Roca quando este apeava de seu cavalo depois de percorrer os campos para conferir seu gado e suas ovelhas, que não eram muitos.

Naquele ano de 1943, no campo de concentração de Majdanek, na Polônia invadida pelos nazistas alemães, a chacina continuava. Neste local, entre 1941 e 1944, em apenas 33 meses de funcionamento, 360 mil humanos foram assassinados pelos nazistas. Além deste campo de execuções, funcionavam na Polônia os campos de Treblinka e Sobibor, para prender e matar somente judeus. O campo de Majdanek, situado na periferia da cidade polonesa de Lublin, era um dos mais tenebrosos desta matança em massa na Europa, só perdendo para o famoso campo de Auschwitz, na Alemanha, onde milhões de pessoas foram aprisionadas e assassinadas pelo regime sanguinário imposto por Adolf Hitler e seus generais SS.

Enquanto meu pai vivia seus primeiros anos de paz no sul da América do Sul, os presos e condenados à morte por serem judeus, testemunhas de Jeová, homossexuais,

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presos políticos, comunistas, negros, desempregados e avessos ao trabalho, eram mortos nestes campos de concentração. Homens, mulheres e crianças de mais de cinquenta nacionalidades, entre russos, poloneses, franceses, tchecos, dinamarqueses, etc, eram vítimas da intolerância e barbárie da guerra. Em 1942 foram fuziladas 6 mil pessoas em apenas 48 horas. Em 25 de julho de 1943, quando meu pai tinha completado seus 3 anos de idade, centenas de crianças foram assassinadas nas sete câmaras de gás instaladas no campo de Majdanek. No dia 03 de novembro do mesmo ano houve a matança de 18.400 judeus, fuzilados com armas automáticas, sendo esta a maior matança da história deste campo maldito. Enquanto isso, minha avó arrumava a casa humilde de madeira, preparava a comida para o esposo e filhos, e cevava um mate doce na beira do fogão à lenha. Na sua ingenuidade não podia imaginar que o ser humano pudesse ter tanta maldade no coração.

E assim seguiu a guerra até seu final em 1945, com mais de 50 milhões de mortos, países destroçados, lavouras e indústrias arrasadas, cidades bombardeadas, economias destruídas, bombas atômicas testadas sobre as cabeças de mais de 300 mil pessoas que desapareceram em minutos no Japão. Até nossos compatriotas brasileiros foram para esta guerra maldita, lutar contra os fascistas na Itália e os que voltaram vivos ganharam honras militares e reconhecimentos como heróis.

Meu pai não tinha conhecimento desses fatos, era um menino, brincando no quintal. Meus avós, humildes campesinos, só se preocupavam com suas pequenas lavouras de mandioca, milho, melancia, abóbora, batatas, hortaliças, suas poucas vacas e ovelhas no pasto da pequena propriedade rural, com seus bois e cavalos que eram o transporte familiar na época da grande guerra.

Na Europa trafegavam os carros de guerra sobre os corpos mutilados dos soldados, no interior do sul do Brasil trafegavam as carretas puxadas por bois que levavam alimentos e carvão para as pequenas cidades.

Foi neste momento que muitas indústrias de alimentos foram impulsionadas para enlatar carnes e vegetais que foram enviados urgentemente em toneladas nos navios para matar a fome do povo europeu. Meu pai cresceu assistindo o movimento de operários da Companhia Swift Armour que levou o desenvolvimento e a cultura industrial para sua pequena cidade encravada no meio da pampa gaúcha, bem distante do barulho do mar.

A humanidade tinha se livrado do sonho louco e racista do tirano Hitler e seus aliados Mussolini, líder fascista da Itália, e do insano império Japonês. O Exército Vermelho dos combativos comunistas russos invadiu Berlim, a capita da Alemanha, e pôs fim aos delírios dos nazistas. Por outro lado os norteamericanos invadiram o velho continente com seu poderio militar e libertaram os países da Europa ocidental que tinham sido dominados pelos nazistas. Enfim a paz, depois de seis anos de atrocidades e genocídios. Porém o planeta estava definitivamente dividido entre dois sistemas de economia e governança: de um lado os capitalistas, comandados pelo império norteamericano e seu maior aliado europeu, o Reino Unido (Inglaterra); e do outro lado

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os comunistas sob comando da União das Repúblicas Soviéticas, um império liderado pela Rússia.

Meu pai cresceu, se fez homem, encontrou minha mãe, eu e meus irmãos nascemos, meus avós morreram e os países continuaram aumentando seus contingentes de soldados, instalando suas bases militares em todos continentes. As guerras por mais poder, mais territórios, mais dinheiro, mais petróleo, mais escravos modernos assalariados, continuaram com focos regionais, porém tão sanguinárias, cruéis e insanas como aquela grande guerra dos anos 40 do século XX, quando meu pai e minha mãe curtiam inocentemente suas brincadeiras infantis.

Hoje aqui, no século XXI, mirando o mar azul de Porto Seguro, no sul da Bahia, onde começou o Brasil novo, de cultura europeia-portuguesa-francesa-inglesa- holandesa, e onde acabou a nação dos nativos que viviam no que chamavam de Pindorama -terra das palmeiras- pergunto a mim mesmo: até quando haverá tanta matança entre humanos? Tantos conflitos, homicídios, latrocínios e vinganças ?

Talvez meus netos, hoje crianças, vivendo neste momento bem longe deste barulho do mar, um dia encontrem esta resposta, e o mundo conquiste a verdadeira paz tão desejada e tão pouco praticada.

PARTIDA

Olhei para o menino me encarando no banco à minha frente em uma rodoviária no interior da Bahia e ele me olhava sério, eu comendo um pão recheado com manteiga com sal e bebendo um mini guaraná. A rodoviária não estava muito cheia mas muitas pessoas passavam com suas malas, bolsas e mochilas partindo para todo os lados, chegando de todos os lugares, inúmeras cidadezinhas ao redor, para a capital Salvador, para o interior. Um mendigo vestindo uma camiseta do Flamengo me pediu dinheiro que não dei. Só dei conversa. Contou-me seu problema. Não vou contar.

O menino curioso me olhava nos olhos e eu imaginava coisas naquele olhar ingênuo mas atrevido. Era um menino mulato acompanhado de seu pai negro, a mãe devia ser branca mas não estava no banco da frente. Seu pai lia uma revista e preenchia palavras cruzadas com um lápis para apagar as respostas. E o menino, de joelhos no banco da frente, olhava eu comer e beber. Não sei se ele estava com fome, sei que estava no início da vida, começando uma trajetória de existência, devia ter no máximo cinco anos de vida, lembrei-me de minha neta que tinha cinco anos, e eu, diante daquele olhar curioso e contemplativo e sério e triste, refletia meus 52 anos. Quando eu vinha para a rodoviária me olhei no espelho da van, pela primeira vez eu viajava no banco da

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frente da van, e percebi minha papada, algumas poucas rugas, o cabelo escasso, os sinais da velhice chegando. Eu pensava que estava na contagem regressiva da vida, dos meus dias na Terra. Já passara de meio século de existência. Contrastando com o menino triste do banco da frente que me olhava.

Mirei a placa de uma lancheria na rodoviária. Um real o café preto, um e cinquenta com leite. Pastel três reais. Peguei uma nota de cinco e fui beber um café preto com pastel de carne. Sobrou um real que paguei para usar o banheiro. Não estava calor nem frio. Era uma manhã agradável e amena. Voltei aos bancos de espera e o menino não estava mais lá. Havia embarcado na vida. Talvez uma longa vida. Ou curta.

Teria o século pela frente. Veria as transformações galopantes do mundo moderno com suas inovações tecnológicas constantes. Absorveria as mudanças comportamentais e de costumes da civilização contemporânea. Com seus olhos gateados, sua pele parda, seu rosto redondo e contemplativo. Sua mãe não era branca, era nativa das florestas tropicais da Mata Atlântica. Os vi embarcar num ônibus que seguia para algum lugar.

O ônibus que eu embarcaria estacionou. Parti para Ilhéus, a terra da infância e juventude do escritor Jorge Amado. Resolvi tardiamente visita-lo, ir à sua casa, caminhar no seu quarto, ver seus objetos pessoais, sua linha do tempo, seus livros, roupas, móveis, sua imagem esculpida, andar nas ruas e nas praias onde o Jorge andou, visitar o Bataclã, o cabaré onde os coronéis do cacau e os boêmios do século passado faziam suas farras sob os olhares da Maria Machadão.

O ônibus partiu e a imagem do menino também partiu. Como os anos que partem. Como a vida que parte.

Passei por Eunápolis, Itagimirim, Camacan, São João do Panelinha, Arataca e Itabuna. Vi uma paisagem de campos e vales verdes com muito gado branco, plantações e casas enormes. Vi muitos barracos de lonas pretas dos acampamentos de sem-terras que vivem com dificuldades na beira da estrada, esperando por uma reforma agrária. Vi edifícios enormes em Itabuna e Ilhéus, comércio próspero e riqueza demonstrada em carros de luxo, mansões, grandes lojas, shopping, escolas particulares, clínicas, restaurantes chiques, pessoas bem vestidas. Mas vi nas entradas e saídas de Itabuna e Ilhéus, concentrações de barracos feitos com pedaços de madeiras e sobras de construções, enormes favelas subindo morros e descendo encostas, com uma multidão de pessoas pobres, sobreviventes das garras e conceitos do liberalismo. Nesta faixa social e estrutural vi as cercas e varais repletos de roupas de crianças, mulheres e homens que partem para a vida diariamente, servindo de escravos modernos assalariados do sistema ainda dominado pelos interesses dos grandes fazendeiros e empresas que fazem o papel do coronel do cacau. Uma fábrica de marginalizados, uma pororoca onde surgem os piores valores do ser humano, a ganância, os vícios, o desrespeito e o foco de violência, crimes, assassinatos e tragédias familiares.

Nas pequenas cidades ao redor, nas paradas do ônibus, vi os jovens desempregados, vendendo frutas, flores, doces, bolos, pastéis, água, sucos, refris etc;

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uns parados na frente dos bares e rodoviárias, outros buscando o que fazer para terem uma renda, para alimentarem a si e aos filhos e mulheres.

Cenas repetidas em vários lugares deste nosso Brasil de antes e de hoje.

Até quando?

2ª parte:

CARTAS DE CUBA

CARTA A UM FILHO

Não existe uma sociedade perfeita, em lugar algum do planeta. Desde o princípio das junções humanas em cavernas, depois em aldeias e cidades, na formação de famílias, tribos, comunas, cidades, sempre houve disputas individuais e coletivas por interesses e benefícios pessoais e interpessoais. Por isso as brigas, as guerras, os exércitos, as nações, os conflitos por espaço territorial, por alimentos, por minérios, combustíveis, mercados etc. Mesmo com todo avanço cultural e humanístico, com desenvolvimento intelectual, filosófico, científico, com elaboração de teses ideológicas, aplicações de modelos econômicos e sociais, com base na historiografia, mesmo assim, as

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imperfeições continuam, e as desigualdades entre humanos aumentam, e as guerras insanas persistem em pleno século 21, o século da comunicação imediata e da tecnologia sem limites. Riqueza e pobreza convivem lado a lado em todos os continentes do planeta. Em todos os lugares há exploradores e explorados. Sociedade dividida em classes sociais e grupos corporativos que lutam por seus interesses. E Cuba não seria exceção. Aqui também existe desigualdade, exploradores e explorados, pessoas vivendo em boas condições habitacionais e bem alimentadas e uma parte vivendo em casas precárias, com salários que não alcançam (como os cubanos mesmo dizem) um bem estar-social desejado, porém todos sonham e lutam por dias melhores.

Neste cenário de dificuldades econômicas, baixos salários (um professor recebe em média CUP 850,00 pesos cubanos, em torno de 36 dólares mensais) e o trauma da escassez de produtos durante o período especial, criou-se naturalmente uma mentalidade de controle entre os cubanos. É muito fácil repartir quando existe abundância de alimentos e bens materiais. Quando falta, o ser humano, por precaução com relação ao futuro, com medo de que lhe falte o que comer, principalmente, tende a ser mais egoísta e protege o que lhe pertence, ou o que imagina lhe pertencer. Esta mentalidade ganhou força na sociedade cubana a partir do desmanche da União Soviética, nos anos 90 do século XX, e enfraquecimento econômico da Rússia, maior nação aliada de Cuba. Foi o chamado "período especial", com racionamento de tudo: alimentos, energia, água, medicamentos, produtos básicos e essenciais. Uma década de sobrevivência com precariedade que foi paga com o sofrimento do povo cubano. Naturalmente uma elite política na ilha não sofreu tanto com estas dificuldades que perduraram até os primeiros anos do século XXI. Somente a partir de 2005 as dificuldades e racionamento foram se atenuando com novas regras e possibilidades econômicas. O estado cubano, centralizador de todo o processo econômico e produtivo, porém dependente da antiga URSS, e sofrendo um embargo econômico e comercial por parte dos Estados Unidos, teve que se rearticular. O governo comunista (como eles chamam aqui) buscou novas nações parceiras, novos blocos econômicos, abriu o país para o turismo estrangeiro e consequentemente teve que aceitar investimentos externos, em especial dos espanhóis (antigos colonizadores por mais de 4 séculos). No entanto, o medo de não ter algo para amanhã marcou fundo a mentalidade cubana. Por isso observo esse aspecto vivendo aqui entre famílias cubanas: eles são gentis, hospitaleiros, alegres, prestativos, simpáticos, solidários, mas no fundo, no âmago, possuem traços de apegos ao material, como todos nós humanos que somos. O medo de passar fome, principalmente nos mais idosos, faz com que escondam os alimentos, tranquem nos quartos, à chave, seus produtos mais necessários como azeite, papel higiênico, sabonete, carne, etc. Muitos idosos possuem um refrigerador no seu quarto e outro na cozinha (aqui o governo financia refrigeradores por longos anos e prestações baixíssimas). Controlam produtos que possuem e têm que reabastecer de preferência, a maioria, na libreta.

Os europeus também desenvolveram esta tese por muitos séculos, nos seus anos difíceis de guerras de definições de fronteiras. Uma marca que até hoje, intrinsicamente se percebe existir, porém mais atenuada do que nos cubanos, afinal os europeus conseguiram superar seus problemas econômicos (consequentemente sociais, em parte) bem antes dos cubanos, salientando que com muita exploração imposta pelas armas aos povos africanos, asiáticos e latinoamericanos.

Apesar dos problemas econômicos, como salários baixos (tua mãe ganharia aqui como secretária em média CUP 800,00 pesos nacional, ou seja, em torno de 35 dólares mensais), o povo, na maioria, confia em seu governo e diz que morre pela revolução e pela manutenção do socialismo, custe o que custar. Todo cubano, desde que nasce, recebe sua "Libreta", uma carteira tipo caderneta, onde anotam e controlam as vendas

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de produtos essenciais como arroz, feijão, leite (em pó), azeite, gás, pão, guisado, fósforo, etc. Existem cotas por pessoa. Por exemplo: 3 kg e meio de arroz por pessoa/mês custa 10,50 pesos cubanos, equivalente a 40 centavos de dólar. Pela

"libreta" uma casa com 4 cubanos tem direito a retirar 4 pães (tipo cacetinho, mas doce) por dia, ao custo de 20 centavos de peso, ou seja, em torno de 2 centavos de dólar. Fora da "libreta", no mercado livre, como dizem, cada pãozinho custa 1 peso, ou seja, 10 centavos de dólar. Em 30 dias os 4 cubanos desta casa onde estou têm direito a retirar pela "libreta" 120 pães, ao custo de 6 pesos, ou 30 centavos de dólar. E por aí vai;

percebe-se que a tábua de salvação dos cubanos é a "libreta". Os preços em "la libre"

(mercado) são como no Brasil e em alguns casos bem mais caros por falta de mais indústrias na ilha. Um pacote de café pra passar, com 250 g. custa aqui 3,70 dólares. No Brasil em torno de 1,80 U$. 1 caixa de 1 L. de leite de vaca aqui custa U$ 2,00, no Brasil em torno de 70 centavos de dólar. Os preços de carne, queijo, presunto, roupas são parecidos com os do Brasil mas se tornam caríssimos para os cubanos que recebem salários baixos. Enquanto um professor de 40 horas no Brasil recebe em torno de 600 dólares por mês, aqui em Cuba o mesmo professor licenciado recebe apenas em torno de 800,00 pesos, ou seja, em torno de 35 dólares mensais.

As vantagens do consumo básico se apresentam, em especial no transporte público coletivo. Uma passagem de ônibus urbano aqui custa muito pouco, quase nada, uso todos os dias para ir ao centro de Habana, apenas 40 centavos de peso, ou seja, 04 centavos de dólar. Quase passe livre. Mas se você dá uma moeda de 1 peso eles não devolvem troco. Na entrada do coletivo você coloca o dinheiro em um cofre de vidro quase na porta. Eu troco 1 peso por 5 moedas de 20 centavos num banco aqui perto e tenho 2 passagens (ir e voltar) e ainda me sobra 20 centavos para a dona da casa comprar 4 pães na "libreta". Um peso representa R$ 0,20 centavos de real. E são ônibus bons, com música cubana de som ambiental, porém, como no Brasil e todos os países em desenvolvimento, lotam em horários de pico. Se você, numa parada, pergunta onde fica tal lugar, eles lhe ensinam onde descer e ainda fazem questão de pagar sua passagem. O governo além de possuir e arrendar os táxis, também arrenda muitas linhas de ônibus. Os motoristas pagam uma certa quantia por dia para o estado, que abastece os ônibus com preços menores, e os motoristas vão arrecadando. O que sobrar pertence a eles, às suas cooperativas não-agrícolas; mas se faltar têm que pagar para o estado o estipulado. Existem também os carros coletivos (aqueles dos anos 50 do século passado), na maioria de particulares que também alugam para motoristas, que cobram 10 pesos por pessoa e têm seus trajetos para determinadas regiões da cidade. 10 pesos correspondem no câmbio popular aqui de Habana 50 centavos de dólar. Estes carros correm com 4 ou 5 passageiros. As caminhonetes, jipes ou kombis levam mais pessoas e faturam mais. No centro da cidade existem os pontos destes táxis coletivos e nos horários de pico multidões fazem filas para pegar um carro, principalmente nos fins de tarde, a partir das 17:30 h. Também circulam os micro-ônibus cooperativados, tipo as lotações de Porto Alegre, que cobram 5 pesos, ou seja, 25 centavos de dólar, equivalente a R$ 0,80 centavos de real. Estes não podem levar passageiro em pé. O mais caro aqui são os táxis do aeroporto que cobram 25 dólares para levar o turista para o centro da cidade onde se concentra a maioria dos hotéis e casas que recebem estrangeiros.

Com relação à habitação, mais de 85% dos cubanos têm suas casas e apartamentos próprios. Só quem paga aluguel aqui é quem vem de outra província ou de outro país. O poderoso Ministério do Interior constrói anualmente muitos prédios em bairros das cidades onde coloca os interessados inscritos que passam a morar e a pagar uma prestação em torno de 5 a 12 dólares por 20 anos. Mas este programa, tipo o "Minha Casa Minha Vida", é só para os cubanos. Estrangeiro, como eu, pode conseguir um

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apartamento para alugar aqui no bairro AltaHabana por 50 a 100 dólares mensais. E se compra um apto modesto com 2 quartos por 10 a 20 mil dólares. Porém vi uma casa com 4 quartos, pátio, 2 garagens, bem ampla que a mulher está pedindo 90 mil dólares mas sai por até 75 mil dólares, me disse. Já os hotéis são caros e os mais baratos pedem em torno de 50 dólares a diária por pessoa. Os mais famosos, como Habana Libre, Hotel Nacional, Meliá, Inglaterra e outros 4 e 5 estrelas cobram mais de 200 dólares a diária.

As pensões, em Centro Habana e Habana Vieja, cobram em torno de 15, 20, 25 dólares a diária. Encontra-se casa que aluga um quarto individual, com ventilador, cama de casal, guarda-roupas, TV na sala, rádio, cozinha e lugar para lavar a roupa , por apenas 6 dólares por dia, um achado que ninguém acredita, e foi contato pelo Facebook. A proprietária está gostando do negócio, pois recebe de aposentadoria 10 dólares mensais, sobrevive de cuidar um idoso de 95 anos que lhe paga 30 dólares por mês e a ajuda de uma filha que mora na Europa e lhe manda 50 dólares todo mês. Do hóspede irá receber 180 dólares mensais e vai realizar seu sonho de comprar uma linha telefônica fixa para

"hablar com sua hija" da Hungria. A residência que hospeda tem que ser registrada e aprovada pelo Estado, e pagar um baixo valor como taxa ou imposto. A dona da casa onde fui morar já comprou um forno micro-ondas por 115 dólares (no Brasil vendem por 70 U$). Vai comprar uma TV de plasma por 400 dólares, pois tem suas manias e adora ver as novelas cubanas e brasileiras, o noticiero e os programas musicais. A velha é comunista ferrenha, castrista, ama Fidel e Raúl e Guevara e Camilo, e diz que morre pela revolução. Seu orgulho é ter pertencido à contra inteligência e ter sido presidenta do CDR do prédio. O CDR tem em todos prédios e quarteirões de bairros do país, é o Comitê de Defesa da Revolução, que vigia e denuncia os contrarevolucionários, os bandidos, ladrões, traficantes, agressores, malfeitores, foras da lei. É uma instituição de mais de 5 décadas em defesa do socialismo e da sociedade cubana. Arma essencial do regime. A maior tristeza de muitos velhos comunistas é esta: que o neto de 16 anos anunciou pra família que ao completar maioridade (18 anos) vai embora para os EUA, morar com um tio em Miami ou Boston. O guri me contou que a maioria dos estudantes secundaristas são consumistas, querem o capitalismo e as eleições dos líderes estudantis são uma farsa, indicados pelos diretores de escolas, sem debate entre estudantes, sem apresentação de chapas em aulas, com votação protocolar. Os estudantes socialistas estão concentrados nas universidades, e os do ensino primário não sabem o que são.

Mas o ideal consumista do capitalismo está muito forte na juventude, mesmo que o governo faça campanha pelas rádios, emissoras de TV e jornais todos os dias lembrando à população os feitos da Revolução. É uma pregação diária em muitos outdoors nas estradas, ruas e avenidas. O governo comanda e controla todos meios de comunicação, que são estatais, e controla os sindicatos e cooperativas. Mesmo que as estruturas sejam separadas e autônomas, existe uma conexão entre o partido comunista e o estado. Aqui tem sindicato para tudo, até para a nova categoria de trabalhadores: os contapropistas, que têm seus pequenos negócios (restaurantes, táxis, institutos de beleza, bares, cafeterias, pousadas, empresas de prestação de serviços, casas noturnas, oficinas, etc).

Greves e protestos são proibidos e quem se arrisca é detido para averiguações e interrogatórios, ou preso por má conduta social.

O que mais se vê por aqui são hospitais e escolas. Todos públicos, gratuitos e de qualidade. Tive que fazer um seguro obrigatório para estar na Ilha, onde paguei 2,5 dólares por dia, mais as taxas de 110 dólares para a imigração, pelo período de três meses (só um mês em Cuba o estrangeiro paga apenas os 20 dólares do visto de entrada). Estou ajudando a manter o regime, mas tenho direito a médico, dentista, emergência, hospital de graça, e se morrer por aqui o estado manda meu corpo para Porto Alegre, está na apólice. Em cada bairro tem um ou mais hospital e postos de

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atendimento, as policlínicas. Os médicos visitam os pacientes em suas casas nas cidades e interior. Os remédios são muito baratos para os cubanos. Quase nada. As farmácias são estatais.

E as escolas são muitas, em todos os bairros se vê a gurizada de uniformes entrando e saindo, em horário integral (das 7:30 às 16:30 h.) Eles se puxam na educação mesmo. O primário vai da 1ª até a 6ª série. O secundário vai da 7ª até a 9ª série. Depois vem o pré- universitário ou curso técnico, de 3 anos, e depois os cursos superiores. Só em Habana tem 14 universidades. E nas outras províncias existem muitas em todos os campos, principalmente os cursos de saúde para atender a demanda nacional e os programas de missões de saúde no exterior. Toda família tem um parente médico, dentista ou enfermeira fora de Cuba, atuando em outro país. No Brasil são 11 mil. Em Angola mais 10 mil. Na Venezuela, Equador, Bolívia, Paraguai, Argentina, Uruguai, Zimbawe, etc.

Dizem que tem mais de 50 mil profissionais de saúde cubanos atuando em todo o planeta. Aqui no nosso bairro tem 3 hospitais e umas 7 escolas, pelo que contei até agora. Estas conquistas da Revolução mantém o regime socialista de Cuba e são orgulho do povo. Quer te incomodar com o povo aqui é só falar mal do governo, do socialismo, pois mesmo com as dificuldades pontuais os cubanos amam Cuba acima de tudo e respeitam as regras estabelecidas nos Congressos do Partido Comunista e votadas pelos membros eleitos do parlamento. Os cubanos confiam no seu governo e não querem arriscar mudanças que retirem deles estas vantagens como os subsídios de alimentos na "libreta", saúde e educação de graça, transporte baratíssimo, taxas de luz na média de 1 dólar mensal e água a 0,20 centavos de dólar por mês, um botijão de gás por apenas 0,40 centavos de dólar, etc.

O problema maior aqui é a lentidão e o preço da internet. O telefone celular é caro mas todo mundo tem. Pelas ruas só se vê gente com celular. Ao redor dos hotéis e prédios públicos, onde existem pontos de sinal wi-fi, se concentram multidões. As lans estão sempre lotadas e com filas para as poucas máquinas. Só uma operadora (ETECSA -estatal, é claro) tem que atender esta demanda crescente, por isso o preço é caro. Pago 2 dólares por um cartão com senha para uma hora de conexão lenta. Os estrangeiros são os que mais sofrem pois estão acostumados com conexões mais eficientes. Um russo (como tem russos por aqui, casam com as cubanas e ficam na ilha por amor) me disse que em Moscou a internet é gratuita nas praças e parques, e funciona com alta velocidade. Mesmo assim os cubanos estão felizes, reclamam mas curtem mesmo é a música mais alegre e dançante do planeta. Os músicos são excelentes, talentosos, reis da guitarra solo e da percussão, mestres dos instrumentos de sopro. Tem escola de música por todo lado. “Casa de la música” em bairros e pelas cidades da ilha.

Assisti o 37º Festival do Novo Cine Latinoamericano com exibição de mais de 440 filmes de todos gêneros em 16 cinemas da capital, em Santiago e outras cidades.

Ingressos tanto para cubanos e estrangeiros custa muito pouco, 2 pesos por filme, ou seja, 10 centavos de dólar. Comprei um passaporte para ver 7 filmes por 10 pesos, 40 centavos de dólar. Assisti a muitos filmes: cubanos, mexicanos, colombianos, brasileiros, venezuelanos, peruanos, chilenos, paraguaios, costarriquenhos, etc. Em Havana, além dos filmes, acontecem seminários, conferências, entrevistas, palestras, lançamentos e variados eventos sobre cinema. A cultura é muito valorizada em Cuba e as rádios e TV (que não possuem espaço comercial) dão muito tempo da programação para os músicos, literatas, pintores, atores, historiadores e aos noticiários. Existem vários festivais de música, concursos literários e exposições de artes plásticas por todas as cidades da ilha. A Biblioteca Nacional José Martí (que visitei e doei meus livros recentes) está situada em um prédio na Praça da Revolução com 17 andares, 200 funcionários e um acervo de mais de 7 milhões de livros, todos catalogados e com

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acesso digitalizado. Possui galeria de arte, teatro, salas de leitura e de pesquisas com cabines individuais para pesquisadores. Também possui uma sala de braile com máquinas de escrever em braile, maquinas de audição e funcionários que fazem a leitura dos jornais e livros para os deficientes visuais usuários. Tem uma sala de música com todos os sistemas, desde o vinil até os CDs, DVDs e outras mídias atuais. Em Cuba, nas 15 províncias e 169 municípios, existem 412 bibliotecas funcionando e todas com salas de braile. Os deficientes aqui também são valorizados e incluídos na sociedade.

Livros usados e bons aqui se compra desde 5, 6, 10 pesos, ou seja, em média 0,50 centavos de dólar, até de 2 a 3 dólares. Porém há livros recém lançados que têm preço bem superior, de 5, 10, 15 e até 25 dólares.

Por estas e outras políticas que os cubanos não querem arriscar trocar de regime e de governantes. Preferem o PCC no comando. Os contrários existem mas são minorias. Os guris consumistas, secundaristas e pré-universitários, quando “cai a ficha” deles sobre o que é a essência do capitalismo, acabam ficando na ilha com mais de 230 praias tropicais do caribe com águas mornas e limpas e mulheres lindas desfilando. Mesmo ganhando pouco, mas com segurança e estabilidade. Uns preferem arriscar e partem para os EUA e outros países em busca de riqueza, mais conforto, por aventuras, mas sempre que dá eles enviam dinheiro e retornam. Amam o país.

Mesmo com as dificuldades de falta de água umas duas horas uma vez por dia, que mais da metade da população não possui chuveiro quente, a maioria dos cubanos ama e prefere Cuba socialista. Eles ficam perplexos quando lhes digo que no Brasil a cultura capitalista perdeu o controle da sociedade e que os marginais estão no controle, os ladrões entram nos ônibus com revólveres e assaltam o motorista e todos os passageiros, levando celulares, dinheiro, relógios, joias, bonés, tênis, etc. Não acreditam quando falo que no Brasil os bandidos usam meninos para seus crimes e que tiquitos de 12 anos andam de fuzis, pistolas e outras armas trabalhando para o crime nos morros das favelas. Não acreditam que os bandidos brasileiros atacam os motoristas nos semáforos, supermercados, shoppings e garagens para roubarem os carros e em muitos casos matam as vítimas. Ficam apavorados quando lhes digo que no Brasil os traficantes de drogas controlam os bairros e mandam na polícia e compram os juízes, e quando vão para a cadeia seguem comandando o crime com celulares dentro dos presídios. Os cubanos ficam enlouquecidos quando conto que os políticos no Brasil roubam bilhões do estado e das estatais e ainda recebem salários mensais em torno de 10 mil dólares.

Piram quando falo que no Brasil os bandidos matam para roubar, estupram mulheres e até idosas, invadem casas, empresas, bancos, explodem caixas eletrônicos e cometem crimes bárbaros contra as pessoas... Então me perguntam: “como podes viver no Brasil?” E me dizem: “Fica em Cuba, traz tua família, aqui pelo menos temos paz, tranquilidade, solidariedade... mesmo que nos falte algumas coisas, temos o principal que é a paz entre nós, segurança, saúde e educação gratuitas, a música alegre da salsa, o ron, o tabaco e as chicas.” Um cubano vendedor ambulante que me vende sorvete e manteiga na porta de casa (aqui é comum os ambulantes gritando para vender seus produtos, de tudo que se imagina) me disse que a direita no Brasil está tentando derrubar a presidenta Dilma, que o neoliberalismo quer acabar com os governos populares como os da Venezuela, Equador, Nicarágua, Bolívia, Chile, Uruguai e Brasil.

Mas que em Cuba não existe espaço para a direita se criar. Até mesmo os mais pobres têm esta visão política. Eles amam a revolução, gostam do socialismo que constroem e defendem estes princípios ideológicos com naturalidade. Pesquisei e vi esse sentimento na maioria do povo. Pero que vi los contras también. Minoria até então. As forças de oposição atacam via internet, com blogs, sites, emissoras online de rádio e televisão, na maioria produzida em Miami, a cidade dos cubanos anticomunistas que migraram. Não

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