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Academic year: 2021

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Reflexão sobre o papel da Educação Profissional no empoderamento dos jovens para o desenvolvimento económico do País

Desafios de mobilização de financiamento para projectos de impacto A utilização das línguas bantu como uma ferramenta para a promoção de turismo cultural em Moçambique

Os Objectos de Aprendizagem e a construção da literacia digital no Ensino à Distância

Gestão escolar democrática: papel dos conselhos de escola na gestão escolar democrática

Género no Ensino Técnico Profissional: o percurso da rapariga num espaço masculinizado

Diferenciação: promovendo a qualidade e relevância do ensino superior- experiência do Instituto Superior Dom Bosco

SUMÁRIO

5 11 23 34 47 59 65

(4)

É

com grande satisfação que chegamos a ter hoje nas mãos o primeiro número dos Cadernos das Publicações do Instituto Superior Dom Bosco (ISDB), precioso instrumento criado para concretizar e implementar o Ponto 3 do Plano Estratégico do ISDB 2017-2021 da excelência da oferta educativa pela promoção da investigação: “ Incentivar e consolidar a investigação/pesquisa pedagógico-metodológica e técnica no Ensino Profissional”. O Plano estratégico prevê uma série de acções para alcançar este objectivo: a) Reforçar a capacidade de pesquisa/investigação dos professores; b) Incentivar a publicação em conferências e revistas especializadas; c) Consolidar e aprimorar a qualidade da pesquisa das jornadas pedagógicas.

Com despacho 10/2019 de 05 de Agosto, a Direcção Geral do ISDB nomeou a comissão editorial dos “Cadernos do ISDB” e em seguida, o Conselho Superior do ISDB, reunido em sessão ordinária a 13 de Setembro de 2019 aprovou a criação deste órgão de publicação interna com a denominação de “Cadernos de publicação do ISDB”.

Esperamos que a leitura dos artigos e estudos científicos publicados semestralmente nos Cadernos do ISDB contribua na formação académica de qualidade dos nossos estudantes, incentive a pesquisa nos docentes, aprimore na nossa comunidade académica e educativa o desejo de sempre mais aprofundar, pesquisar e partilhar os saberes.

Aos membros da Comissão Editorial, aos técnicos e a todos os que directa ou indirectamente colaboraram na realização deste projecto vai a nossa profunda gratidão.

O Director Geral do ISDB

(Doutor Pe. Giuseppe Meloni)

APRESENTAÇÃO DOS CADERNOS DO ISDB

APRESENTAÇÃO DOS CADERNOS DO ISDB

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Reflexão sobre o papel da Educação Profissional no

empoderamento dos jovens para o desenvolvimento

económico do País¹

Autor: Pe. Giuseppe Meloni2

R

ecentemente, a revista “Dirigir & Formar” do Instituto do Emprego e Formação Profissional de Lisboa publicou um interessante artigo da Doutora Diana Aguiar Vieira do ISCAP – Politécnico do Porto com o seguinte título: “Transição para (ou durante) a vida profissional: quais as competências

mais importantes e como desenvolvê-las?” No artigo foi apresentado o resultado de um estudo realizado

junto de cerca de 800 empregadores, do qual se pode concluir que as competências consideradas actualmente como as mais importantes e valorizadas no mundo do trabalho são as pessoais e interpessoais (chamadas de soft skills):

1) Análise e resolução de problemas; 2) Criatividade e inovação;

3) Adaptação e flexibilidade; 4) Planeamento e organização; 5) Motivação para a excelência.

Segundo a autora, este resultado “está em linha com os resultados de estudos realizados noutros países” (2019/22, p. 37).

Para o contexto moçambicano e as metodologias da educação profissional em acto, parece que estas competências, embora contempladas nos quadrantes curriculares do saber ser e saber estar, na melhor das hipóteses, estejam relegadas num segundo plano, não sempre rigorosamente e cientificamente elaborado e estruturado. Tratando-se de competências pessoais e interpessoais, resulta necessário um conjunto de acções formativas para que os profissionais do futuro (que são os jovens em formação hoje) sejam habilitados num tipo de saber ser e saber estar no mundo do trabalho, que está a se manifestar como um fundamental não negociável ao saber fazer dado pelas competências técnico-científicas.

O Instituto Superior Dom Bosco, pela particular estruturação dos seus cursos, pela sua específica interpretação da Educação Profissional e pelas metodologias de ensino que entende praticar, contribui a desenhar um mapa formativo neste sentido. Fez e faz isso com um constante trabalho de pesquisa por volta deste molho de soft skills e uma metodologia clara de abordagem destas competências

1 Palestra apresentada no âmbito da abertura das Jornadas Pedagógicas de 2019 no ISDB 2 Doutor em Teologia pela Universidade de Lugano, Suiça.

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pessoais e interpessoais, que não pode ser estruturada sem ter em conta a especificidade cultural-espiritual dos directos interessados (em Moçambique). O ISDB faz isso afundando as raízes na experiência educativa salesiana que, animada pelo carisma de Dom Bosco, e corroborada pelas reformas pedagógicas das últimas décadas, faz do agir educativo profissional um laboratório sempre aberto, no qual os jovens educandos colaboram construtivamente a desenhar as práticas em que são destinatários e agentes ao mesmo tempo.

Todavia, já nos damos conta no ISDB, de que este trabalho investe em pleno questões ligadas á educação formal desde os primeiros anos da escola primária; invoca a revisitação do perfil e capacitação dos professores em termos de orientação vocacional, componentes psico-pedagógicas, metodologias de ensino centradas no aluno, com atenções específicas ao treinamento dessas competências pessoais e interpessoais, a revisão de modelos não suficientemente elásticos para permitirem a inserção de actividades educativas relacionadas com estas capacitações que necessitam de um certo cultivo, gradual e correspondente à evolução psicológica das várias fases da vida do aluno e estudante. Em uma palavra: o background educativo que encontramos não é propriamente terreno favorável ao cultivo destes soft skills.

Sentimos, entre outras, a urgência de fazermos um trabalho multidisciplinar com o objectivo de criar um conjunto de ferramentas necessárias à gradual formação destas competências nas novas gerações. Este tema deverá ser tratado num estudo próprio, sendo que, neste momento de início das Jornadas Pedagógicas ISDB 2019, se quer avançar uma proposta de reflexão, em vista de um possível entendimento partilhado sobre o sentido e a configuração destas competências chamadas de soft skills no panorama educativo profissional moçambicano, para um autêntico empoderamento dos jovens, tendo em vista o desenvolvimento holístico e não meramente económico do País que, actualmente, continua a ocupar os últimos lugares das estatísticas mundiais em termos de desenvolvimento humano.

De imediato, por exemplo, parece haver consenso sobre o que significa “análise e resolução de problemas”, mas a experiência do nosso Instituto Superior Dom Bosco, mostra que ao aparente consenso teórico não corresponde uma interpretação prática desta arte. Significa que os estudantes aprendem a teoria da análise e solução de problemas, mas depois na prática, não estão habilitados a se servirem desses conhecimentos. O entrave pode ser causado da ainda desequilibrada metodologia de ensino, que continua privilegiando a componente teórica, reduzindo tempos e espaços da prática. Ao mesmo tempo, percebe-se que a análise e resolução de problemas, embora indicada como primeira entre as competências soft, depende muito das outras capacidades pessoais e interpessoais. Por exemplo, só tendo uma forte motivação para a excelência, o jovem profissional estaria na condição de advertir a distância entre o bom e o melhor, e perceber esta distância como um problema a ser resolvido com criatividade e inovação. Isso mostra uma forte circularidade e interdependência dos

soft skills entre eles e que o resultado do estudo feito junto de 800 empregadores, apresentado pela

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fundamental para o desenvolvimento de outras e resultado da presença operativa das outras. Seria, portanto, essencial abraçar cientificamente o conjunto das sinapses que, num determinado contexto, se criam entre as competências chamadas de soft skills. Todavia, e por mera exigência expositiva, a classificação conclusiva dos resultados do estudo apresentado pode ser seguida numa primeira fase, para delinear um mínimo comum denominador descritivo das componentes singulares do quadro total.

A história do progresso humano, desde as passagens epocais que caracterizaram o longo percurso, que vai do Homo erectus (que viveu entre 1,8 milhões de anos e 300 mil anos atrás) ao Homo Sapiens sapiens, passando pelo Homo ergaster e pelo Homo sapiens, pode ser descrito como a não linear história das análises e resoluções de problemas aqui vistos como alavanca do progresso. Não linear, porque nem sempre as soluções escolhidas de princípio se revelaram como as melhores a longo prazo (os actuais problemas ambientais mostram claramente que algumas soluções carregam consigo efeitos colaterais, que acabam num problema maior daquele que se pretendia resolver).

No mare magnum da literatura especialista, na área do management, dedicada ao problemsolving, a análise das causas ou dos factores que concorrem ao surgimento do problema ocupa frequentemente o primeiro lugar, como arranque de um processo complexo de discernimento entre possíveis soluções, sua implementação e final avaliação. Todavia, a percepção do problema, a sua captação e nomeação, de um ponto de vista experiencial, não é sempre imediata e espontânea. Seja de um ponto de vista individual, seja numa colectividade, como dentro de um corpo ou sistema, um problema pode se gerar, instalar, enraizar e crescer sem manifestar sinais reveladores da sua presença (e quando se manifestam, infelizmente, as vezes é tarde demais para intervir!). A ciência médica nos habituou ao discurso “tempo” como frequentemente decisivo e discriminante entre uma possível intervenção terapêutica e uma declaração de impotência. Daqui o esforço de dotar o médico de instrumentos receptivos, capazes de detectar a tempo um problema fisiológico. Acontece que um check-up de rotina evidencia a tempo, um problema de saúde que, caso não detectado, teria o potencial de ser seriamente comprometedor.

Daí a fundamental importância de receptores de problemas, pessoas ou grupos dotados de sensibilidade, de reagentes, de radares e indicadores de problemas. Aprender a viver a própria vida profissional em estado de vigilância é um dos objectivos da assim chamada formação permanente, pois a rotina ou a ausência de inputs de descontinuidade, dilui os reagentes internos e externos do profissional ou grupos, abrindo o campo à metamórfica adaptação ao sistema próprio dos problemas, que assim em breve tempo se tornam estruturais.

Este aspecto chama atenção há pouco tratada espiritualidade profissional: involuída numa defensiva protecção do status quo quietista, a já enfraquecida receptividade do profissional fica retida no esforço de reconduzir ao mesmo todos os elementos de ruptura que, em si, poderiam ser reagentes para a emergência de um problema. Discernimento constante e avaliação contínua do próprio desempenho deveriam ser constitutivas do dia-a-dia do jovem em formação e deveriam ser estruturais na vida

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de uma empresa ou instituição. Porém acontece que são consideradas frequentemente como desagradáveis interferências na vida pessoal ou institucional, mas suportadas como policiamento ou invasão da privacy, até como injustas contestações da própria aptidão.

O papel da dimensão espiritual na formação do jovem profissional, do cultivo da vocação que se presume tenha passado por uma gradual e sempre mais esclarecida orientação, resulta imprescindível no processo de análise e resolução de problemas. A interpretação rotineira do exercício da própria tarefa de estudante, a mera e oportunista funcionalidade do agir profissional, visando o lucro pelo lucro, a progressiva redução das idealidades motivacionais no desenvolvimento dos trabalhos, constituem uma constante interferência na receptividade dos problemas e sucessiva qualidade da análise e programação de possíveis soluções.

Nota-se, porém, que estas qualidades que compõem essencialmente o mosaico desta particular competência profissional não são fortemente contempladas nos planos formativos curriculares da formação profissional em Moçambique. Nota-se, pelo contrário, uma desfasagem materialista, uma organização curricular configurada, segundo um horizonte de curto prazo, que não trabalha por volta dos fundamentais da maturidade profissional, que necessita das componentes vocacionais para florescer adequadamente e sustentar posturas a médio e longo prazos de uma carreira profissional que, dados os tempos, já se anuncia “grávida” de pontos de ruptura, desfasagens cuja resposta se encontra na prontidão e espírito de adaptação.

Além disso, é sabido e crónico o problema que a maioria dos profissionais em Moçambique se encontra a fazer algo pelo qual não tinha nem vocação nem atractivo. Frequentemente, imputa-se este problema à carência de oportunidades, à pobreza absoluta, à falta de emprego, a políticas educativo-profissionais mais alinhadas com as pretensões dos doadores do que à concreta realidade social.

Sem querer menosprezar este diagnóstico bastante vulgar, seria necessário empurrar a etiologia até tópicos pouco frequentados, questionar por exemplo, os modelos educativos formais e informais desde a infância. Seria possível notar a gravidade da acção frustrante e inibidora de todos os elementos de originalidade, ruptura, genialidade e expressão artística que, até violentamente, se abate sobre as crianças, constrangidas e ensardinhadas em salas de aula mais semelhantes a aviários. De que indústria cultural se trata aqui? Qual é o projecto de enlatizaçaõ em curso de implementação?

Este modelo vai-se confirmando ao longo da progressão do aluno que passa de classe automaticamente ou semi-automaticamente, mas não assinala progressos nas capacidades e qualidades pessoais chamadas de soft skills. Tende antes a se esconder/perder na massa informe que faz da imitação de aparências a virtude existencial mais alta. Não aprende, portanto, a captar os problemas, não se dedica com paixão à sua análise e solução, mas se torna cada vez mais perito na arte de esquivar os problemas, de pensar que cabe sempre a outrem a sua solução ou, pior, pratica a finíssima arte do fatalismo que invoca “maus espíritos” conjurantes contra ele segundo uma cega predestinação.

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Eram substancialmente estes uns dos Sapatos Sujos que Mia Couto, na sua famosa palestra de 7 de Março de 2005, tinha indicado como necessário descalçarmos para entrarmos na modernidade. Vale a pena aqui alistar estes Sete Sapatos Sujos que continuam a persistir e a impedir que os soft skills acima indicados encontrem terreno favorável para se enraizar nos jovens profissionais de hoje e de amanhã, e assim provocar um jump geracional em termos de desenvolvimento do País.

1) A ideia de que os culpados são sempre os outros;

2) A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho (o filósofo Severino Ngoenha chamou isso de Changuinismo);

3) O preconceito de que quem critica é um inimigo; 4) A ideia de que mudar as palavras muda a realidade; 5) A vergonha de ser pobre e o culto das aparências; 6) A passividade perante a injustiça;

7) A ideia de que, para sermos modernos, temos que imitar os outros.

Se, como nos informa a Doutora Diana Aguiar Vieira do ISCAP – Politécnico do Porto, esses soft

skills acima citados são considerados decisivos no mundo do mercado para a vida profissional do

presente e do futuro, então devemos repensar todo o sistema educativo formal em Moçambique, fazendo dele um sistema baseado em competências desde a escola primária, acompanhado por metodologias de ensino adequadas a esta tarefa.

Todavia, deixando de lado os máximos sistemas que implicam políticas inovadoras, cabe-me nesta palestra oferecer aos jovens em formação neste Instituto Superior Dom Bosco, algumas dicas sobre o mundo do trabalho e do mercado, e sobre o tipo de preparação que podemos e devemos aprontar para o nosso futuro.

Em primeiro lugar devemos desmitologizar os grandes proclames retumbantes nos nossos ouvidos nestes dias de campanha eleitoral, onde todos prometem trabalho aos jovens. Sendo que o sistema económico moçambicano, como nos ensinava João Mosca, não passa de uma grande bola de sabão, e que o PIB a dois dígitos previsto a partir do 2021-2022 não será reinvestido na criação do trabalho, mas sistematicamente drenado para o moinho da oligarquia dominante. A previsão é que os 30 milhões de moçambicanos em idade laboral no 2030 continuarão a lavar carros na rua, vender créditos nas esquinas, erguer uma banquinha de tomate no bairro, confeccionar pão e badjias para transeuntes.

A não ser que os jovens acordem e comecem a criar uma economia alternativa, uma economia paralela, onde seus investimentos não sejam 2M, unhas, tranças…divertidos, amenidades várias, aparências e superficialidades, mas comecem a investir em si mesmos, na própria formação e nas próprias ideias. Custa dizer, mas o trabalho em Moçambique não vai chover do céu, e se não aprendermos a criar trabalho e uma cultura de trabalho teremos uma sociedade fundamentada no

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assistencialismo, que é exactamente o que a oligarquia quer, como continuava a nos ensinar João Mosca no famoso artigo: A nossa pobreza é rentável.

Quanto ao estudante do ISDB que pode até se sentir uma formiguinha perante estes macro-problemas da sua sociedade, e viver da esperança de que o Idai poupe a sua casa enquanto faz desmoronar todas as outras, as verdadeiras palavras a dizer devem ser as seguintes: sacrifício, suor, empenho, esforço, determinação, disciplina, autocrítica, moderação, continência, responsabilidade, solidariedade, engajamento, comprometimento, identificação. Sei que é duro dizer isso, e até mais difícil ouvir isso, mas o problema de Moçambique é moçambicano. Como estudante do ISDB, funcionário do ISDB, professor do ISDB será que posso fazer algo para resolver o problema moçambicano do meu Moçambique?

Temos hoje estas jornadas pedagógicas que querem falar do protagonismo dos jovens no desenvolvimento económico do país. Acredito profundamente, que a maior riqueza de um país são as pessoas que o fazem e que um país desenvolve quando as pessoas que o fazem desenvolvem, na mente e no coração. Para isso serve a educação, a fazer desenvolver as pessoas, não deixando inerte todo o potencial que se encontra nelas. Quando falamos de Educação Profissional, alguém pensa de imediato na carpintaria, na electricidade, nas TIC´S etc. Eu acredito que o desenvolvimento económico do nosso país depende do nível de profissionalização da nossa mente e do nosso coração.

Posso ser um óptimo profissional na minha área de competência e com certeza irei fazer um óptimo trabalho, se o encontrar. Mas para fazer a diferença, para ser protagonista do desenvolvimento económico do país devo saber criar elementos de ruptura, caso contrário acabarei por ser uma peça do mesmo sistema actual que se auto-regenera de geração em geração. Se depois de 4 anos no ISDB não aprendo a pensar diferente e a agir diferente, então o futuro será a fotocópia do presente, eventualmente sobre carta colorida. Pior, poderíamos chegar a pensar que o desenvolvimento económico significa ter mais, possuir mais, engordar, ocupar mais espaço horizontal. Para quem pensa diferente e age diferente, o desenvolvimento económico é vertical, quando me elevo, quando me torno mais pessoa, mais humano, mais honesto, mas solidário, mais fraterno, mais hospitaleiro… quando provoco rupturas e abasteço com areia o motor da oligarquia liberalista asfixiante que cria e fomenta estruturas de morte a nível mundial e local. Espero nestas jornadas pedagógicas do ISDB que se crie uma plataforma de entendimento sobre este assunto. A todos os que nos vão ajudar e que vão contribuir a este entendimento, vai o meu mais sincero kanimambo.

Pe. Giuseppe Meloni Director Geral do ISDB

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Desafios de mobilização de financiamento

para projectos de impacto

P

ara as Nações Unidas² (2019), a mobilização de financiamento para a implementação dos objetivos de desenvolvimento sustentável (SDG’s), constitui um dos principais desafios pois, apesar de alguns progressos os investimentos considerados críticos permanecem sem alocação, devido a dessincronização na transição do sistema financeiro que não está a acompanhar as finanças para o desenvolvimento sustentável. Para MITADER³ (2016), Moçambique é um país que possui vários desafios dos quais salientam-se as desigualdades sociais e assimetrias regionais ou entre cidade e campo, apesar de ser no campo onde o paradoxo abundância e insuficiência é mais notável. As zonas rurais representam 90% do território nacional e acolhem cerca de 68% da população total. A ERGO, Lda, posiciona-se como um projecto de impacto que tem como visão impactar globalmente a indústria de processamento de alimentos na base de produtos locais, através de processos de inovação contínua orientados para agregação de valor e bem-estar das pessoas, actuando nas cadeias de valor de agro - processamento, pecuária e indústria a nível rural. Assim, constitui objectivo geral deste estudo demonstrar a viabilidade de um projecto de impacto como catalisador para o desenvolvimento integrado e sustentável do meio rural. Em termos metodológicos, será um estudo descritivo, de natureza qualitativa através de revisão literária e pesquisa documental, fundamentada por dados empíricos que salientam a pertinência do projecto à luz dos objetivos de desenvolvimento sustentável. Com o estudo pretende-se consciencializar sobre a importância de projectos de desenvolvimento sustentável como catalisadores para o desenvolvimento, e sobretudo o seu efeito multiplicador dado que os benefícios públicos excedem os dos investidores privados.

Palavras-chave: Empreendedorismo, Investimento de impacto, Desenvolvimento sustentável, Efeito-multiplicador, Desenvolvimento rural.

Introdução

Segundo o Banco Mundial4, o crescimento real do PIB de Moçambique desacelerou para 3,7% em 2017, contra 3,8% ocorrido em 2016, e bem inferior à média anual de 7% registado no período 2011-2015. A mesma fonte sustenta que embora a pobreza esteja a reduzir, o nível de desigualdade económica tem estado a aumentar (Banco Mundial, 2018¹). O modelo de crescimento é conduzido pela transição da agricultura para serviços, mas tem sido menos inclusivo. Famílias no quintil superior

Autor: António Sendi¹

1 Docente, Investigador, Consultor e Empreendedor

2 United Nations (2019), Financing for Sustainable Development Report 2019

3 Ministério da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural (2016), Programa Nacional de Desenvolvimento Sustentável 4 In https://www.worldbank.org/pt/country/mozambique/overview, acedido a 10 de Outubro de 2019, pelas 16:32

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de riqueza consomem 3 vezes mais do que as 40% mais pobres. Com efeito, um crescimento inclusivo requer foco em três áreas:

• Aumento da produtividade agrícola;

• Construção de uma economia mais diversificada; • Investimento em pessoas.

O país está a conhecer importantes transformações sociais, económicas, políticas e ambientais, decorrentes da descoberta e exploração de recursos naturais, com destaque para os minerais que representam uma oportunidade para tornar a economia nacional mais competitiva. Igualmente ocorrem profundas transformações ambientais, sobretudo devido as mudanças climáticas que podem perigar os ganhos de desenvolvimento alcançados e almejados.

Segundo o plasmado na END2, a diversificação da economia nacional constitui a base para um crescimento mais estável, abrangente e sustentável. O país precisa ampliar e diversificar a indústria para além dos recursos minerais, através da criação de parques industriais nas zonas com potencial de exploração agrícola, pesqueira e florestal, bem como, aproveitar o potencial faunístico, energético e turístico.

De acordo com MITADER³ (2016), Moçambique é um País que possui vários desafios dos quais salientam-se a desigualdade social e assimetrias regionais ou entre cidade e campo, apesar de ser no campo onde o paradoxo abundância e insuficiência é mais notável. As zonas rurais representam 90% do território nacional e acolhem cerca de 68% da população total.

O meio rural apresenta as seguintes características: • Ausência de infra-estruturas básicas;

• Precariedade de fontes de rendimento; • Ausência de serviços financeiros adequados; • Baixos níveis de produtividade;

• Prática de uso insustentável dos recursos naturais; • Predominância de agricultura de subsistência.

Para além destes, depara-se com alguns desafios estruturais designadamente (i) níveis baixos de alfabetização, (ii) desnutrição crónica, (iii) alta incidência de malária e HIV-SIDA, (iv) desigualdade de género, (v) vulnerabilidade as mudanças climáticas, e (vi) êxodo rural.

O Programa Nacional de Desenvolvimento Sustentável (PNDS) concebido no princípio do desenvolvimento integrado rural, pretende fomentar uma economia local na base da mobilização de projectos integrados e sustentáveis que possam promover a integração de cadeia de valor, ligações

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empresariais, uso de recursos locais, emprego, geração e distribuição de renda, desenvolvimento local e nacional.

A ERGO, Lda, posiciona-se como um projecto de impacto que tem como visão Impactar globalmente

a indústria de processamento de alimentos na base de produtos locais, através de processos de inovação contínua orientados para agregação de valor e bem-estar das pessoas, e a materialização do seu

plano ambicioso passa por atrair stakeholders que estejam comprometidos com o desenvolvimento sustentável e que possam, juntamente, partilhar riscos através de mecanismos de crowd funding e respectivos instrumentos específicos de diluição do risco.

Assim constitui objectivo geral deste estudo empírico, o seguinte:

• Demonstrar a viabilidade de um projecto de impacto como catalisador para o desenvolvimento integrado e sustentável do meio rural, e consequente mobilizar de financiamento para sua implementação.

Constuituem objectivos específicos, os seguintes:

1. Enumerar os desafios e oportunidades que as start ups, como a ERGO, Lda, têm na realidade moçambicana;

2. Descrever as necessidades de financiamento para a operacionalização do modelo operacional da ERGO, Lda;

3. Discutir o potencial de criação de valor numa óptica privada da ERGO, Lda; 4. Analisar o efeito multiplicador do projecto para os diversos stakeholders.

Revisão de literatura

Finanças para Desenvolvimento

Para as Nações Unidas1(2019), a mobilização de financiamento para a implementação dos objectivos de desenvolvimento sustentável (SDG’s) constitui um dos principais desafios pois, apesar de progressos recentes, os investimentos considerados críticos permanecem sem alocação, devido a dessincronização na transição do sistema financeiro que não está a acompanhar as finanças para o desenvolvimento sustentável; em paralelo, o risco sistémico está em crescente reflectindo profundas mudanças nos ambientes geopolítico, tecnológico, climático, e outros factores.

É assim que o Banco Mundial, introduziu o modelo de cascata para incrementar esforços com vista a alavancar o sector privado para o crescimento e desenvolvimento sustentável, através de soluções sustentáveis de financiamento ao sector privado para agregar valor (value for money) e alcançar padrões de responsabilidade social, ambiental e fiscal. (Banco Mundial, 2017)2.

Por outro lado, blended finance – pacote de financiamento constituído por fundos concessionais

1 United Nations (2019), Financing for Sustainable Development Report 2019

2 Banco Mundial (2017), Maximizing Finance for Development: Leveraging the Private Sector for Growth and Sustainable Develop-ment

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e comerciais, emerge como um instrumento que pode suportar projectos transformativos de alto impacto em sector que inicialmente não podem atrair fundos comerciais, mas que tem o potencial de tornar-se comercialmente viável ao longo do tempo, e o desenvolvimento de mercados. (IFC, 2018)3.

O financiamento em termos comerciais deve ser sempre a opção preferencial para evitar distorções no mercado, ou criar dependência de subsídios por parte do sector privado. Os casos em que se recomenda o uso de blended finance são os seguintes:

• Os benefícios públicos excedem os retornos dos investidores privados;

• É crucial não conceder subsídios acima do necessário (princípio do mínimo concessionável); • Atender desafios transitórios no mercado até que o negócio atinja um estágio que já não

precise de fundos concessionais.

Projectos de Impacto

Os projectos de impacto, ou empreendedorismo social, tem a particularidade de serem projectos que perseguem não apenas objectivos financeiros de curto prazo, mas também priorizam a necessária integração de considerações de natureza social e ambiental na formulação estratégica de longo prazo, criando-se assim o efeito multiplicador, e contribuindo para a ampliação dos benefícios a uma escala maior do que a dos projectos de natureza eminentemente económica.

Soluções criativas são necessárias em todos os aspectos de desenvolvimento, e inovação financeira pode jogar um papel de destaque, ajudando a obter financiamento necessário para promover crescimento sustentável e equitativo. Com efeito, parte significativa desse financiamento terá que ser mobilizado pelo sector privado, dado o gap de recursos financeiros para financiar a agenda de desenvolvimento sustentável:

Os projectos de impacto, à luz dos SDG’s podem mobilizar parcerias (alianças estratégicas) com parceiros nacionais incluindo o governo, e estrangeiros, onde a sua proposta de valor assenta-se na sua génese que integra o padrão ESG (environment, social and governance), e estes por sua vez

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inspirados no modelo tripple bottom line ou modelo 3P’s da sustentabildiade (people, profit and planet). Em atenção ao índice de infraestruturas de África 2018 (AfDB, 2018, p.81), Moçambique é o décimo pior país de África em termos de défice de infraestruturas, que é mais grave nas províncias nortenhas de Cabo Delgado e Niassa, cenário que penaliza o desenvolvimento da cadeia agrícola do país. São estimadas em cerca de 130-170 mil milhões de USD/ano as necessidades de investimento em infraestruturas e logística a nível do continente ao longo dos próximos anos para financiar os objectivos de desenvolvimento sustentável.

Por outro lado, estudos recentes das Nações Unidas (2014), aponta para entre 2,5-5 triliões de dólares por ano, as necessidades financeiras dos cerca de 49 países em desenvolvimento EMDE’s

(Emerging Markets and Developing Economies) canalizarem em projectos de investimentos para

alcançarem os SDG’s. Para UNEP FI (2018, p. 9)4 somente o continente africano possui um gap de recursos financeiros para investir para o alcance dos SDG’s de cerca de 1,3 triliões de USD por ano.

Abordagem Metodológica

Segundo Vergara (2007, p.35) a função da metodologia no trabalho é descrever o tipo de pesquisa e como ela será aplicada na condução do trabalho. É nesta parte do trabalho que se referem os procedimentos de colecta e de tratamento de dados, bem como as diferentes técnicas e abordagens de desenvolvimento do estudo.

A pesquisa que se propõe será realizada com base exploratória e descritiva: exploratória na perspectiva em que visa proporcionar a familiarização com o tema proposto, de modo a torná-lo mais explícito, e descritiva uma vez que poderá ser feita a descrição de conceito e demonstração da sua aplicabilidade num contexto real.

Quanto aos procedimentos técnicos, a modalidade escolhida foi o estudo de caso, que segundo Gil (2007, p.54) pode ser caracterizado como o estudo de uma entidade bem definida como um programa, uma instituição, um sistema educativo, uma pessoa, ou uma unidade social. Visa conhecer em profundidade o como e o porquê de uma determinada situação que se supõe ser única em muitos aspectos, procurando descobrir o que há nela de mais essencial e característico.

Assim, o presente estudo de carácter exploratório e descritivo sob a forma de um estudo de caso, teve o objectivo de descrever o business model de um projecto empreendedor nacional na forma de investimento de impacto, concebido à luz dos objectivos de desenvolvimento sustentável e virado a promoção do desenvolvimento rural sustentável e integrado.

Conforme Campello et al (2000), as revisões de literatura são estudos importantes quando o objectivo é identificar, conhecer e acompanhar o desenvolvimento da pesquisa em determinada área do conhecimento. Além disso, esse tipo de trabalho contribui para o desenvolvimento de novas pesquisas, uma vez que permite a identificação de lacunas do conhecimento e perspetivas futuras.

Para materializar o desiderato de discutir um modelo empresarial recente e pouco explorado a nível da academia, a presente pesquisa foi delineada sob o ponto de vista bibliográfico, através da consulta

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de fontes secundárias como sejam artigos científicos relevantes sobre a matéria, revisão documental exaustiva de especialidade sobre finanças para desenvolvimento e estratégias de mobilização de financiamento para investimento de impacto no contexto dos objectivos de desenvolvimento sustentável. A estratégia de pesquisa a ser usada será a qualitativa, e o nível de pesquisa adoptado será o explicativo.

Estudo de Caso – ERGO Group, Lda

A ERGO sendo uma start-up que actua na cadeia de valor de agro-processamento, pecuária e indústria, e incorpora nos seus processos de gestão um modelo orientado ao desenvolvimento sustentável e integrado. As suas actividades estão subjacentes aos objectivos de desenvolvimento sustentável (SDG’s) números 2 (fome zero), 5 (igualdade de género), 7 (energias renováveis) e 8 (desenvolvimento económico e emprego de qualidade), assim configura-se como um investimento de impacto, pois a pertinência e viabilidade da sua implementação incorpora objectivos económicos-financeiros, sociais e ambientais.

A sua cadeia de valor é composta por actividades de produção, processamento, empoderamento e distribuição de produtos e serviços alimentares conforme se apresenta abaixo:

A ideia da ERGO, LDA é eminentemente privada (visa o lucro como qualquer outra empresa) mas em última análise, têm um interesse público subjacente, designadamente a operacionalização de uma iniciativa impactante que pode gerar o desenvolvimento económico localmente, podendo o seu modelo de negócio ser replicado para outros pontos do país.

Assim, o principal recurso da ERGO, Lda é a sua ideia e know-how, e para a sua materialização conta com apoio de parceiros nacionais e internacionais que possam mobilizar, capital financeiro e tecnológico, experiência internacional, mercado e know-how; é assim que a ERGO está a mobilizar parcerias (alianças estratégicas) com parceiros nacionais incluindo o governo, e estrangeiros, onde a sua proposta de valor assenta- se na sua génese que integra o padrão ESG (environment, social and governance), e estes por sua vez inspirados no modelo tripple bottom line ou modelo 3P’s da

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Visão

Desenvolver o ecossistema empreendedor na cadeia de valor de agro-processamento pecuária e indústria, promovendo um desenvolvimento rural integrado e sustentável em prol dos SDG’s.

Missão

Impactar globalmente a indústria de processamento de alimentos na base de produtos locais, através de processos de inovação contínua orientados para agregação de valor e bem-estar das pessoas.

Valores

A ERGO norteia a sua actuação focada ao desenvolvimento integrado e sustentável, pautando pela observância de um código de valores tais como desenvolvimento rural, género, empoderamento, capital humano, humanismo, e partilha de conhecimento, que alicerçam a visão e missão. A concretização do seu código de conduta consolida os princípios de transparência e responsabilização que salientam o seu papel e pertinência como parceiro de operacionalização dos objectivos de desenvolvimento sustentável.

A ERGO orienta-se pelos objectivos de desenvolvimento sustentável plasmados no seu core

business, é assim que o seu modelo de actuação inspira-se nos seguintes objectivos:

• SDG # 2 – produção de alimentos com valor nutricional agregado e prazo de validade extendida, através de práticas inovadoras e técnicas agro-pecuárias sustentáveis, que possam contribuir para a melhoria da dieta e saúde das pessoas;

• SDG 5 # – orientamo-nos pela promoção de igualdade e equilíbrio de género, e empoderamento das mulheres, é assim que o nosso foco é no treinamento, capacitação e transferência de tecnologia e know-how para as mulheres, através de mentoring dirigido para as mulheres empreendedoras;

• SDG 7 # – a preocupação com um uso sustentável dos recursos naturais de forma a não prejudicar o ambiente, através da adopção da reciclagem e uso de re-utilização de disperdícios, e promoção do acesso a energia renovável a nível do meio rural;

• SDG 8 # – sendo um projecto de impacto, ele agrega valor não apenas para os investidores, como também para todos os stakeholders envolidos e em particular as comunidades que serão os receptores do projecto virado para o desenvolvimento rural e criação de infra- estruturas, e aos beneficiários desde empreendedores, estudantes, investigadores, colaboradores, e todos os agentes que farão parte do ecossistema de desenvolvimento empreendedor da cadeia de valor de agro-processamento, pecuária e indústria. Através do efeito multiplicador gerado pelo projecto, vai-se assegurar o estabelecimento de uma rede económica, mercado e oportunidades de negócio (linkages) entre os agentes participantes.

Sustentabilidade

As nossas acções não só visam a estruturação e operação de cadeias de valor nas indústrias de agro-negócio, pecuária e piscicultura, mas também contribuir para o desenvolvimento de um

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ecossistema empreendedor e dotar os stakeholders de capacidade, tecnologia e know-how para que eles possam ampliar as possibilidades de uso eficiente, sustentável e maneio de recursos naturais.

Objectivos

Constituem os objectivos estratégicos da ERGO, os seguintes: • Desenvolvimento e gestão de projectos nas indústrias de: • Agropecuária;

• Pesqueira;

• Agro-processamento; • Produção industrial;

• Reaproveitamento e reciclagem de produtos;

• Gestão de conhecimento nas áreas de empreendedorismo, liderança, gestão estratégica, gestão financeira para raparigas e mulheres (grupos desfavorecidos);

• Desenvolvimento de soluções de energias renováveis; • Inclusão e serviços financeiros.

Modelo de Negócio

A ERGO possui como estratégia de gestão e crescimento sustentável do negócio a integração vertical das actividades de produção, processamento e distribuição de produtos e serviços alimentares com valor nutritivo agregado.

O seu modelo de actuação é em forma de grupo de empresas ou unidades estratégicas de negócio (UEN), que integra projectos complementares e geradores de sinergia, contribuindo para a geração de escala e amplificação dos beneficios para diversos stakeholders.

A sua cadeia de valor é composta por actividades de produção, processamento, empossamento e distribuição de produtos e serviços alimentares conforme se apresenta abaixo:

Sendo um projecto de impacto que respeita o standar ESG (environment, social and governance), as suas actividades irão contribuir para o alcance dos seguintes impactos:

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Alinhado a isso, a ERGO está em contacto com potenciais financiadores a nível interno e externo. A nível interno, reuniu-se com a Câmara de Comércio de Moçambique, que deu indicações de existirem pacotes de financiamento orientado para empresas que actuam na cadeia de valor de agro-processamento, possuindo para tal memorandos com o BNI (Banco Nacional de Investimento) e o FNDS (Fundo Nacional de Desenvolvimento Sustentável).

Estas instituições oferecem soluções de financiamento a taxas concessionais (abaixo do nível de taxas comerciais) que podem variar de 2 a 10%, sabendo que as taxas de juro comerciais andam acima de 20%, ou na forma de fundos perdidos (esquemas de co-financiamento de até 60%), ou combinacão de ambas em que a empresa deve comparticipar com 40% os remanescentes 60% são considerados fundos perdidos. Através do Fundo de Desenvolvimento Agrário é possível obter financiamentos a taxas concessionais.

Soluções de Financiamento

A ERGO sendo uma start-up que actua na cadeia de valor de agro-processamento, pecuária e indústria, e incorpora nos seus processos de gestão um modelo de gestão orientado ao desenvolvimento sustentável e integrado. As suas actividades estão subjacentes aos objectivos de desenvolvimento sustentável (SDG’s) números 2 (fome zero), 5 (igualdade de género), 7 (energias renováveis) e 8 (desenvolvimento económico e emprego de qualidade), assim configura-se como um investimento de impacto, pois a pertinência e viabilidade da sua implementação incorpora objectivos económicos-financeiros, sociais e ambientais.

Esta categoria de empreendimentos, à luz dos objectivos de desenvolvimento sustentável (SDG’s), são elegíveis para obterem financiamento através da plataforma de finanças para o desenvolvimento, onde contam-se os investidores privados a nível doméstico (interno) e estrangeiro (externo). Este é o universo de fontes de financiamento que a ERGO está focada em desbloquear, e este estudo de caso tenciona demonstrar isso através das premissas do estudo e dos objectivos definidos.

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Tem também acordo com algumas seguradoras que podem emitir garantias que possam reduzir a exposição ao risco financeiro do projecto de investimento.

Entretanto, apesar destas “facilidades”, infelizmente esses fundos não estão a ser executados como deveriam e muitas das vezes os valores ficam retidos por falta de cumprimentos de alguns requisitos por parte das start-up’s, designadamente:

1. Um projecto bem elaborado e estruturado (plano de negócio);

2. Um off-taking agreement, ou “carta de conforto comercial” de um potencial comprador; 3. Garantia de fornecimento contínuo por parte dos fornecedores (ou uma carta de conforto); 4. Selo de qualidade emitido por uma certificadora que garante que a empresa cumpre todos os requisitos a nível, de higiene, segurança, qualidade, portanto, um Sistema de gestão de qualidade por todo o processo instalado.

É sabido que, por exemplo, os sistemas de gestão de qualidade são bastante onerosos e muitas empresas sobretudo as pequenas não tem capacidade para investir no desenvolvimento de um sistema de qualidade que possa culminar/merecer a atribuição de um selo ISO, devido ao seu alto custo (+/- $ 15.000).

Devemos ter em conta que, os investidores por um lado e as instituições financeiras por outro, não querem perder dinheiro, com efeito elas certificam se efectivamente as empresas que solicitam financiamento tem a capacidade de desenvolver (1) produtos e serviços úteis, (2) tenham mercado, (3) garantia de fornecimento contínuo, (4) um sistema de qualidade que assegure consistência da produção e competitividade da empresa, (5) capacidade de comparticipar no financiamento e (5.1) de retorno do crédito obtido.

Daí as exigências que elas apresentam serem requisitos que, apesar de bastante apertados e exigentes para start-up's, são necessárias para a sustentabilidade dos bancos e instituições de crédito bem como das próprias empresas.Estas são as considerações que devemos ter em conta na nossa análise, quer sob o ponto de vista da abordagem legal dos requisitos de financiamento de um projecto de impacto, bem na abordagem financeira.

Projectos de Investimento

A ERGO possui uma carteira de iniciativas, doravante designados de projectos, que pretende implementar em regime de parceria, de forma a operacionalizar o seu business model. A estruturação dos referidos projectos de investimento será em regime de especialidade, ajustando-se as suas especificidades de acordo com os requisitos dos financiadores.

Em todos os projectos, a lógica de modelação financeira priorizará a óptica privada este que será o critério pivot para assegurar a viabilidade económico-financeira e criação de valor a longo prazo para todos os stakeholders envolvidos, e em particular, dos shareholders da ERGO.

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De acordo com a matriz de projectos acima, podem-se identificar como prioritários os seguintes projectos de investimento:

1. Canal de distribuição de gelados e comida congelada (cold room 150t, 3 trucks 5t/each,

warehouse);

2. Redesenho/Update da embalagem;

3. Aquisição de máquina de empacotamento;

4. Aquisição e montagem máquina de processamento de maior capacidade; 5. Construção e instalação de unidades de produção de carne e peixe tilápia; 6. Instalação de sistema de gestão de qualidade ISO 9000;

7. Desenho e montagem de show room e restaurante.

Cada um dos projectos acima arrolados, possui um propósito específico mas todos complementam-se e concorrem para o projecto integrado da ERGO. São, assim, diferentes unidades de negócio com mercados, parceiros e perfis de risco distintos, corporizando a estratégia de diversificação por consentirem partilha de risco em termos de estruturação (modelo de parceria), e constituírem uma carteira de activos inversamente proporcionais.

Necessidades de financiamento da ERGO

Para a materialização do seu modelo de negócio integrado, a ERGO definiu algumas iniciativas (projectos de investimento) que corporizam a necessidade em termos de activos reais (imobilizado corpóreo e incorpóreo) no âmbito da sua estratégia de crescimento.

O objectivo da sua estratégia de crescimento, é de viabilizar suas operações (scale-up) de forma a aumentar a sua capacidade de produção para níveis industrializados de forma a alargar o seu mercado para clientes grossistas como supermercados e até exportação, complementado com a estratégia de diversificação do seu negócio passando a incorporar a comercialização de gelados através da representação comercial de uma marca internacional e fornecimento de outros produtos alimentares congelados.

Cada uma dessas iniciativas possui requisitos específicos em termos de mercado-alvo, estratégia operacional, vida útil, necessidade financeira e fonte de financiamento em curso, entretanto todas elas

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Bibliografia

AFRICAN DEVELOPMENT BANK (2018), Perspectivas Económicas em África 2018 BANCO MUNDIAL (2018), Relatório sobre Actualidade Económica do País

BANCO MUNDIAL (2017), Maximizing Finance for Development: Leveraging the Private Sector for Growth and Sustainable

Development

IFC (2018), Blended Finance – A Stepping Stone to Creating Markets

MINISTÉRIO DA PLANIFICAÇÃO, Estratégia Nacional de Desenvolvimento (2015-2035) MITADER (2016), Programa Nacional de Desenvolvimento Sustentável

UNITED NATIONS (2019), Financing for Sustainable Development Report 2019 UNEP FI (2018), Rethinking Impact to Finance the SDG’s

Sites electrónicos:

In https://www.worldbank.org/pt/country/mozambique/overview, acedido a 10 de Outubro de 2019, pelas 16:32 In https://worldinvestmentforum.unctad.org/financing-for-the-sdgs/, acessado em 16 de Julho de 2019

seguirão uma óptica de investimento privado para assegurar a sua viabilidade económico-financeira e consequente criação de valor a longo prazo, dado que os projectos estão orientados para o desenvolvimento de mercado.

A necessidade financeira global da ERGO ascende a USD 948.200, constituídos por activo fixo, equipamento e imobilizado incorpóreo que representam respectivamente 54,52%, 42,34%, e 3,13%.

PROJECTO (ASSET) CAPEX OBS:

SGQ 15.000 Desenvolvimento de sistema de gestão de qualidade e certificação

Desenho de embalagem 12.000 Re-desenho de embalagem mais atractivo, e com padrão internacional com vista a internacionalização Equipamento 200.000 Processamento de carne e de peixe

Facilities 400.000 Fábrica (1/2) e Store 1 (1/2) Loja 2 70.000 JN

Sistema de distribuição 165.000 1 cold room (150 t), 3 trucks (5 t), warehouse Subtotal 862.000

Contingency 86.200 Total 948.200

Tabale 1 - Necessidades de Financiamento da ERGO (Fonte: Autores com base em dados da empre-sa)

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A utilização das línguas bantu como

uma ferramenta para a promoção

de turismo cultural em Moçambique

D

escoberta dos valores patrimoniais passou a constituir uma componente fundamental na valorização das línguas bantu, facto que contribui para uma gestão eficiente do património cultural. A língua, para além de ser uma ciência, constitui também, um património, uma identidade cultural, pois é através dela que se estabelecem e reforçam laços interculturais. Uma vez que não existe turismo sem língua, turismo sem deslocação, turismo sem identidade ou cultura, a língua transforma-se numa ferramenta importante para a promoção e preservação da identidade local.

É neste contexto que, em Moçambique, a valorização das línguas bantu passou a desempenhar um papel muito importante, não só na área de formação educacional, como na sociedade em geral. Considerando que as línguas bantu são faladas em toda a zona austral de África, no âmbito deste trabalho, falar-se-á das línguas bantu, na perspectiva das línguas faladas em Moçambique, isto é, das línguas moçambicanas. Nesta comunicação, pretende-se abordar a importância das línguas bantu como uma ferramenta para a promoção do turismo cultural em Moçambique, e do seu contributo na gestão do turismo sustentável de destinos rurais, cujo objectivo é incentivar ao uso das línguas moçambicanas em destinos turísticos rurais e promovê-las para o desenvolvimento sustentável do turismo cultural. Para atingir o objectivo desejado, foram abordados os conceitos de línguas bantu, turismo sustentável e turismo cultural.

Palavras-chave: Línguas bantu; Turismo sustentável; Turismo cultura.

Introdução

O turismo cultural é, actualmente, o mais praticado pelos turistas, que o procuram com o intuito de descobrir, aprender e viver a história local de uma determinada comunidade sendo que estas descobertas acontecem, geralmente, em espaços rurais, através da língua. É o caso, por exemplo, do turista que se sente realizado quando visita os espaços rurais e, uma das experiências memoráveis que leva consigo é a de saber expressar uma palavra na língua local como, por exemplo: ‘nikombela

mati’ “peço água”; ‘Khanimambo’ “agradeço”; ‘na gongondza’ “peço licença”, etc.

Autora: Cecília Guambe¹

Resumo

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O uso da língua local na interacção turista - residente- colaborador é, assim, fundamental, daí que se possa afirmar que ela desempenha um papel preponderante no desenvolvimento desta actividade. Tratando-se de um património cultural, a língua local constitui uma herança que precisa de ser valorizada e preservada.

A importância da utilização da língua local como um contributo para uma gestão sustentável de destinos turísticos naturais foi sublinhada no estudo desenvolvido por Guambe (2012), na Reserva Especial de Maputo, intitulado “Turismo e desenvolvimento sustentável de destinos naturais. O envolvimento das comunidades locais, através da língua local, foi fundamental para a recolha dos dados utilizados no estudo. Para que tais comunidades se sentissem realmente incluídas neste processo e como tal mais colaborantes, os investigadores, depois do pré-teste efectuado no local da investigação, através da aplicação de questionários e, como conclusão do mesmo, sentiram a necessidade de elaborar um questionário na língua local, para além dos que já haviam sido elaborados nas línguas inglesa e portuguesa. Esta atitude contribuiu positivamente para a obtenção dos dados necessários ao estudo da gestão deste destino turístico.

Guambe (2012), no seu estudo sobre o desenvolvimento sustentável de destinos naturais faz menção à importância do envolvimento das comunidades locais na gestão de destinos turísticos, dado estas serem as que mais recursos consomem. Portanto, esta gestão só será realmente sustentável respeitando e valorizando os hábitos e costumes destas comunidades, o que implica o respeito pela língua.

Pereira (2010) sublinha que as línguas se assumem como meio de comunicação essencial indispensável no dia-a-dia dos proprietários de casas de Turismo no Espaço Rural (TER).

Uma vez que a cultura local está associada à identidade, gastronomia, usos e costumes, tradições e valores locais é, geralmente, em espaços rurais que se evidenciam estas componentes culturais.

Sendo o turismo, uma actividade intercultural construída com e através da língua, constata-se que é através dela que se estabelecem diálogos e trocas entre diferentes grupos culturais definidos pela raça, etnia, nacionalidade, língua, classe social, idade e género (Phipps, 2007). Essas trocas são, geralmente, realizadas através da língua inglesa considerada a língua internacional crescente do turismo e da viagem (Cronin, 2000, p.122). Através dela os turistas integram novas realidades. No entanto, não se excluem aqui outras línguas utilizadas. Segundo Pereira (2010), o turismo gere várias línguas num mesmo espaço e gere várias experiências interculturais de uma forma significativa. Isso acontece em momentos de grande simbolismo para o turista, momentos antecipados e associados, social, cultural e, muitas vezes, pessoalmente, como a felicidade. De forma a sobreviver no multilinguismo e nos mundos interculturais do turismo, falar línguas é, obviamente, uma vantagem. A utilização de uma língua diferente oferece uma mudança na rotina do dia-a-dia da língua e das vidas, oferece novas perspectivas, novos espaços e oferece uma nova forma de viver. Um dos exemplos apresentados por (Phipps, 2007), é o acto do pedido do pequeno-almoço que é feito de uma forma diferente, utilizando

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palavras e gestos diferentes. Quando um turista se expressa numa língua estrangeira está a explorar a identidade dessa língua e, nesse momento, deixa a língua materna e sua identidade no seu espaço e tempo (Cronin, 2000).

É neste contexto que nos permitimos afirmar que a língua constitui uma expressão e experiência turísticas. Assim, propomo-nos neste estudo, abordar o papel destas línguas na gestão e promoção do turismo cultural em Moçambique, com o principal objectivo de incentivar e motivar os gestores dos destinos turísticos a promovê-las, como um grande contributo para ultrapassar as barreiras linguísticas existentes entre os turistas e os residentes locais e como uma forma de divulgar as línguas moçambicanas a nível local, regional, nacional e internacional.

E uma vez que falar das línguas bantu é falar das línguas autóctones predominantes em África, isto é, das línguas locais de cada etnia, cada país, cada região, neste estudo falaremos das línguas bantu faladas em Moçambique, como o Ronga, o Changana, o Makhuwa, o Nyanja, o Sena, o Bitonga, o Chope, o Ndau, o Tewe, o Makonde, o Swahili e outras línguas, em que as mesmas poderão constituir um grande desafio e, ao mesmo tempo, um grande contributo para a promoção do turismo cultural em Moçambique.

Metodologia

Este estudo é mais qualitativo que quantitativo e centra-se na recolha de perceções ou sentimentos do sujeito investigador como um sujeito turístico. Para o desenvolvimento do mesmo, recorreu-se à pesquisa bibliográfica, e às fontes secundárias que abordam conceitos relacionados com as línguas bantu, com o turismo em espaço rural e o turismo cultural.

Revisão da literatura

O Turismo em Espaços Rurais (TER) ganhou relevo a partir do momento em que o turista começou a sentir-se pressionado com o seu dia-a-dia no meio urbano. Portanto, a necessidade de um descanso, de um ambiente calmo e do contacto com a natureza deu azo ao aparecimento de uma nova oferta turística que é o TER.

Silva (2007), citado por Pereira (2010), argumenta que a viagem turística, para o espaço rural, é realizada por pessoas que procuram algo diferente do seu dia-a-dia. A existência de uma população urbana cada vez mais numerosa, revela-nos pessoas submetidas a elevados níveis de stress, com menos tempo para descansar (menos horas de sono, trabalho ao fim-de-semana), e com mais preocupação relativamente a aspectos ambientais (contacto com a poluição das cidades, poucas áreas verdes). Estes fenómenos podem ser agravados por crescentes exigências em contextos de trabalho, por horários mais extensos e frequentemente alterados, por viagens realizadas para o local de trabalho nas quais o trânsito é intenso. Por tudo isso, pode-se considerar que as motivações dos turistas do

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TER são inúmeras, ao quererem “fugir” da vida urbana para encontrar, descobrir ou redescobrir a natureza, espaços para descansar e zonas calmas.

Segundo a Organização para a Coordenação e Desenvolvimento Económico (OCDE, 1994), o TER caracteriza-se não só como sendo um local onde se pode descansar e relaxar, mas também como uma actividade complexa de múltiplas facetas.

O TER vem dar resposta a novas necessidades e criar um novo tipo de turista, um turista mais alternativo, descrito como uma pessoa mais atenta à cultura, mais educada, mais preocupada com o ambiente e culturalmente mais sensível, mais curiosa e analítica. São pessoas que normalmente procuram uma alternativa ao turismo de massa, ou seja, buscam localidades mais pequenas que reflectem valores locais e modos de vida, que protegem a cultura local, a cozinha tradicional e o artesanato (Doswell, 1997 citado por Pereira, 2010).

O desenvolvimento do turismo em espaços rurais gera novas oportunidades de emprego e revitaliza as infra-estruturas e a economia rural, como uma opção de desenvolvimento. O turismo rural contribui para melhorar as condições sociais das comunidades residentes, ao beneficiarem das receitas geradas por esta actividade (Whelan, 1991). Esta actividade é vista como uma das indústrias alternativas para o desenvolvimento da economia local (Allen et al., 1993; Davis & Morais, 2004; Hassan, 2000; Long et al., 1990; McGehee & Andereck, 2004).

Apesar de vários estudos terem sido desenvolvidos em torno do TER, onde implicitamente se encontra o turismo cultural, é comum encontrar em várias literaturas (ex: Ashworth, 1994; Bonink, 1992; Cooper et al, 1998; Henriques, 2003; Yale, 1991; etc) o termo “Turismo Cultural”, associado, logicamente, às expressões turísticas como a gastronomia, as danças, as artes, os usos e costumes locais, os valores arqueológicos e patrimoniais, as tradições e por aí fora. Porém, embora a língua seja inerente a todas estas componentes, poucas são as literaturas que abordam a relação “Turismo e Língua”.

Língua

Por muito tempo, considerou-se a língua inglesa como a mais falada e como a que mais influência tem e, consequentemente, cria mais mercado. Este facto é mais evidente em países não falantes de língua inglesa, como é o caso de Moçambique que, até hoje, considera-se como um dos principais requisitos de acesso ao mercado de emprego, a língua inglesa. A existência de maior número de estrangeiros em estâncias turísticas em Moçambique e, maioritariamente, em lodges exige, realmente, que se tenha conhecimento básico de língua inglesa. Porém, com a valorização e promoção da identidade local, as línguas locais já começam a tomar o seu lugar de relevo no desenvolvimento da actividade turística. Portanto, podemos considerar que a língua é parte integrante do ser humano, a língua determina o comportamento do ser humano, e esta língua não é estática, ela é em função do

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Pereira (2010), no seu estudo sobre “As línguas aplicadas em Turismo em Espaços Rurais” sublinha que a actividade turística é a que mais poliglotas contrata para satisfazer as necessidades dos clientes-turistas e, no entanto, isso não significa que entendam melhor o cliente-turista. A língua traz com ela a sua cultura, a sua identidade e, se não existirem competências interpessoais e interculturais, as barreiras à comunicação criar-se-ão. No entanto, no seio desta comunicação através da língua, podem-se destacar alguns factores que permitem uma boa comunicação intercultural: as atitudes e competências pessoais, as capacidades linguísticas, a compreensão do comportamento comunicativo, a competência cultural (Pereira, 2010).

A língua constitui, hoje, um dos produtos turísticos mais atractivos de uma localidade. O turista actual sente-se ter vivido uma experiência turística plena quando, para além de ter degustado da gastronomia, procura conhecer os nomes da própria gastronomia na língua local, procura saudar as pessoas na língua local, procura pedir água, por exemplo, na língua local. Este constitui um dos momentos de lazer, de interacção e de experiência vivida pelo turista. Atentos a estas novas tendências, os gestores têm a obrigação de maximizar estes novos desejos dos turistas, planeando e implementando novas estratégias de gestão dos destinos rurais. É neste contexto que se enquadra o contributo das línguas bantu na gestão sustentável de destinos turísticos em Moçambique.

Esta gestão sustentável implica, obviamente, o envolvimento de todos os intervenientes, facto que contribui positivamente para a maximização dos efeitos positivos e para a minimização dos efeitos negativos. Portanto, o envolvimento de todos os intervenientes nesta actividade implica, necessariamente, o envolvimento das comunidades locais, dos fornecedores, dos operadores, dos visitantes, dos colaboradores. No entanto, para que as comunidades locais se sintam envolvidas na gestão e na promoção de destinos turísticos rurais é imperioso que os seus usos e costumes sejam respeitados e valorizados. De entre os referidos usos e costumes encontra-se, em peso, a língua.

Considera-se uma gestão sustentável de um destino turístico a partir da conservação dos recursos existentes desse destino, desde os bens livres até aos bens adquiridos. Portanto, a inclusão das comunidades locais na gestão e na promoção destes recursos é fundamental, uma vez que são as comunidades locais que mais beneficiam e consomem estes recursos (Guambe, 2012).

São vários os estudos desenvolvidos sobre a identidade cultural, como os dos autores (Landry e Wood, 2003). Neste estudo estes autores afirmam que a identidade cultural de um local se encontra presente em aspectos como a herança histórica, artística ou antropológica, os produtos locais ou a cultura popular.

A partir da reflexão acima apresentada, a ideia de utilizar as línguas bantu como uma ferramenta para a promoção do turismo cultural ganha um forte relevo, tendo em consideração que a língua é uma identidade cultural e, associado às atitudes e comportamentos do turista actual que, ao conhecer novos lugares, o seu principal objectivo é descobrir novas culturas e interagir com diferentes povos. Ao tomar esta atitude, descobre o seu próprio ser, o seu próprio carácter. Portanto, aqui reside mais uma componente da experiência turística.

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As línguas bantu em África

A situação sociolinguística da África pré-colonial continua praticamente uma grande incógnita. As tentativas de reconstituição dos movimentos migratórios têm sido feitas com base na actual dispersão linguística do continente (Ngunga, 2004). Ainda o mesmo autor sublinha que o termo “bantu” é, actualmente, usado nos estudos da linguística moderna para se referir a um grupo de cerca de 600 línguas faladas por perto de 220 milhões de pessoas numa vasta região da África contemporânea que se estende a sul de uma linha que vai desde os Montes Camarões (a sul da Nigéria), junto à costa atlântica, até à foz do Rio Tana (no Quénia), abrangendo os seguintes países: África do Sul, Angola, Botswana, Burundi, Camarões, Congo, Gabão, Guiné Equatorial, Lesotho, Madagáscar, Malawi, Moçambique, Namíbia, Quénia, República Democrática do Congo, Ruanda, Swazilândia, Tanzânia, Uganda, Zâmbia e Zimbabwe. As línguas bantu são, portanto, línguas aparentadas.

As línguas bantu são línguas aparentadas porque apresentam características fonético-fonológicas, morfossintáticas aparentadas.

Nos estudos desenvolvidos por Ngunga (2004, pp.33-35), citando Phillipson (1977), constata-se que a dispersão bantu, pelo continente africano deu-se em diferentes etapas, correspondentes a dez fases e, estes, por sua vez, marcados por dois momentos, ao longo de mais de dois mil anos: o primeiro momento vai desde o ano 1000 a.n.e., até aos anos 300- 400 da nossa era (n.e.), e um segundo momento que vai desde os anos 400-500 da n.e. até aos anos 1000-1110 da n.e.

Se as línguas bantu são o resultado das migrações de vários povos em África, pode-se admitir que já antes da nossa era (a.n.e.), existia o turismo, embora nenhum ser humano tenha aventado a hipótese desta ciência.

As línguas bantu em Moçambique

Moçambique é um país bastante heterogéneo em termos da situação linguística. Convivem no mesmo espaço geográfico diversas línguas: as autóctones de origem bantu, a portuguesa e algumas línguas asiáticas como o Urdu, o Paquistanês e o Árabe (Firmino, s/d). É um país que se pode considerar totalmente multilingue e multicultural tendo em conta a diversidade de culturas do seu povo. A maior parte da população de Moçambique fala com frequência as suas línguas maternas, que são as da família bantu. Estima-se que 40% da população moçambicana fala Emakhuwa, sendo a língua mais falada, mais conhecida e utilizada na região Norte de Moçambique (Nampula, e parte das províncias de Cabo Delgado, Niassa e Zambézia). Os restantes cerca de 60% distribuem-se pelas outras 26 línguas bantu existentes e faladas no território moçambicano. A língua Xichangana, a segunda mais falada, é predominante no sul do país e é amplamente falada nas províncias de Gaza e de Maputo.

Desta forma, a situação linguística de Moçambique favorece o uso massivo das línguas bantu no dia-a-dia dos moçambicanos, quer aos níveis formais, quer aos níveis informais. Todavia, tal não se verifica porque, à semelhança de muitas colónias africanas, Moçambique adoptou a língua do

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ex-Apesar de Moçambique ter como língua oficial o Português, poucos moçambicanos utilizam-na. Segundo os dados estatísticos, de um total de 23.515.934 milhões da população moçambicana, apenas 12.6 % fala o português em todas as províncias do país (INE, 2010). No estudo desenvolvido por Ngunga e Bavo (2011), sobre as práticas linguísticas em Moçambique, ditam que, num total 23.515.934 milhões da população apenas 10.8% fala o português, em todas as províncias do país. Estas evidências empíricas vêm a enfatizar o valor que as línguas moçambicanas têm e o potencial que poderá constituir, como um atractivo turístico.

Como exemplo, uma das práticas que se pode aproveitar como um atractivo turístico é a das cerimónias realizadas no âmbito de lançamento de pedra (para o início de uma construção: escola, fábricas, hospitais…), ‘ku phahla’ que significa ‘momento de contacto com os nossos antepassados’. Estas cerimónias são sempre feitas nas línguas moçambicanas e nunca na língua portuguesa. Nas zonas rurais, estas cerimónias são feitas mesmo quando se atribui um nome a um recém-nascido, como forma de o atribuir poder do seu antepassado, que pode ser um avô, bisavô ou trisavô e como forma de preservar e valorizar o nome.

As línguas moçambicanas, como uma identidade local, constituem um património histórico cultural que deve ser valorizado e preservado. A não valorização destas línguas pode levar à extinção ou perda dessa identidade. Um dos provérbios moçambicanos, na língua Swahili, citado por (Macamo, 2012), reforça a valorização das línguas como uma história, como um património, como uma identidade: “um povo sem memória, é um povo sem história; um povo sem história, é um povo sem alma”. Neste contexto, associamos a língua ao turismo cultural.

As práticas linguísticas em Moçambique

O uso das línguas moçambicanas, bem como a prática das mesmas, é fundamentado pela legislação moçambicana, e por alguns estudiosos. Eis os exemplos:

• As práticas linguísticas atuais favorecem o uso das línguas bantu em espaços formais, comummente associados ao Português (Langa, 2019a; 2019b).

• Constituição da República de Moçambique, Artigo 9° “O Estado valoriza as línguas nacionais como património cultural e educacional e promove o seu desenvolvimento e utilização crescente como línguas veiculares da nossa identidade”

• Os Currículos do Ensino Básico na modalidade do ensino bilingue, usando uma língua local (num total de 19 línguas) e o Português (Instituto Nacional para o Desenvolvimento da Educação – INDE; Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano – MINEDH, 2003; MINEDH, 2019)

• Uso das Línguas moçambicanas nos média de abrangência nacional: Rádio Moçambique (RM), Televisão de Moçambique (TVM) e Rádios Comunitárias, como por exemplo, a FORCOM (Fórum das Rádios Comunitárias).

Referências

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