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CLARICE, O SAGRADO E A VIA CRUCIS DO CORPO

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Academic year: 2021

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CLARICE, O SAGRADO E A VIA CRUCIS DO CORPO

Rosina Bezerra de Mello S. ROCHA1

Teresinha V. Zimbrão da SILVA2 Resumo

Neste trabalho, colocaremos para dialogar dois campos do conhecimento que ultimamente têm se aproximado no circuito acadêmico: Literatura e Teologia. Nossa proposta é refletir sobre a questão do sagrado em A via crucis do corpo, de Clarice Lispector, livro publicado em 1974. A obra é composta por treze contos cujo principal tema norteador é o sexo. O sagrado sugerido pelo título será compreendido aqui em interação com a materialidade do corpo. Tematizaremos a relação das personagens com os seus respectivos corpos e a via crucis por elas vivenciada até realizarem o seu religare consigo mesmas e com o mundo, experimentando a inteireza de corpo e alma, e assim renascerem, ressuscitarem.

Palavras-chave: Clarice Lispector; sagrado; corpo. Introdução

“Eu, que entendo o corpo. E suas cruéis exigências. Sempre conheci o corpo. O seu vórtice estonteante. O corpo grave.” (Personagem meu ainda sem nome) (LISPECTOR, 1974, p. 7) Este trabalho coloca em diálogo interdisciplinar duas áreas do conhecimento: a Literatura e a Teologia. A obra literária em estudo é de autoria da escritora Clarice Lispector, foi publicada originalmente em 1974, é composta por treze contos e se

1 Mestranda do PPG Letras: Estudos Literários da UFJF. E-mail: [email protected] 2 Profa. Dra. da Graduação e do PPG Letras: Estudos Literários da UFJF. E-mail:

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intitula A via crucis do corpo. A reflexão proposta tem como base questões relacionadas à encenação na linguagem, ao processo das personagens de descoberta do mundo e de si mesmas, e à compreensão do sagrado como em estreita interação com a materialidade corpórea. O corpo é entendido como mediador do sagrado e o trabalho procura mostrar a relação das personagens com os seus respectivos corpos e a via crucis vivenciada por elas, e narrada nos contos, até realizarem, de corpo e alma, o seu religare, e assim renascerem e ressuscitarem para uma nova vida, como o próprio Cristo, referência implícita no título da obra.

A via crucis do corpo

O trabalho acompanha a via crucis - o processo de descoberta do mundo e de si mesmas - das personagens clariceanas de A via crucis do corpo (LISPECTOR, 1974), até que estas alcancem de corpo e alma o religare, para assim renascerem e ressuscitarem como o Cristo. Os treze contos que compõem a obra foram escritos sob encomenda a partir de três fragmentos de histórias reais, cujo tema comum é o sexo. Nesses contos, as personagens vivenciam uma tensa relação com o próprio corpo, com suas identidades e, ao mesmo tempo, buscam a satisfação de seus desejos mais obscuros. Durante o processo, revelam-se a si próprias de modo erótico, às vezes, grosseiro, pois a força que move o seu caminhar para a experiência de uma sexualidade desviante da normatividade é consequência de desejos violentos e reprimidos. Esses desejos atingem inclusive as personagens mais idosas, revelam também identidades de gêneros que estavam oprimidas, constroem trios amorosos que não se constrangem com a obscuridade do que desejam. As ações e escolhas das personagens no decorrer da narrativa têm a força pulsante das águas que abrem e forjam seu caminho em direção ao mar, em direção ao seu destino.

Essa força pulsante, corpórea, atua na transformação das personagens. A vivência da sexualidade é a sua principal manifestação. Todos buscam a satisfação dos infinitos desejos do corpo, pois a percepção de mundo nos contos é corpórea. A concretude do corpo é o fio condutor das sensações causadas pela experiência de viver e transcender o cotidiano, concretude que embora sujeita a julgamento pelo olhar exterior, não é, de fato, julgada interiormente pelas protagonistas: o corpo é vida pulsante. Até mesmo a narradora-personagem-autora, criada para narrar os contos em primeira pessoa, manifesta sua alma através de sensações físicas.

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Em todos os contos da obra, há sempre presente uma posição de não-aceitação do existente, de contundente oposição à realidade e de uma intensa e crescente busca de si mesmo, fazendo as personagens seguirem um movimento em direção ao existir em sua inteireza. Nesse caminhar, há o encontro com o que há de mais genuíno dentro de si, pois na sua respectiva via crucis, no processo de descoberta do mundo e de si mesmas, as personagens entregam-se a forças que parecem proibidas, mas que na verdade as impulsionam no sentido de se religarem e se descobrirem vivas, pulsantes, vibrantes, enfim, renascidas e ressuscitadas.

Sua via crucis é realizada, portanto, por meio de transformações e descobertas que as conduzem ao autoconhecimento e ao conhecimento do mundo. Muitas vezes, as personagens estão paralisadas em seus processos até que um evento incomum, extraordinário, quebra esta situação paralisante e as impulsiona. Esse evento extraordinário é correspondente ao divisor de águas, transformador da existência, e a partir do qual se segue um novo rumo.

Ao terem contrariado seus instintos corpóreos, seus impulsos, elas tinham se distanciado de si mesmas: Aurélia era ‘desconectada’, Madre Clara vivia uma vida que não desejava, Miss Algrave, como sugere o seu próprio nome, sentia-se morta. Assim também se encontravam as demais personagens. Para viver é preciso a coragem de transgredir e desobedecer regras e normas e assim se dar a oportunidade de um dia se encontrar. E o caminho das personagens, sua via crucis, é o corpo. Cada uma das personagens, pouco a pouco, passo a passo, trilham seus caminhos corpóreos. Miss Algrave... Beatriz e Carmem... Aurélia... D. Cândida Raposo... Luísa/Carla... Cidinha... Madre Clara... Maria Angélica de Andrade... Cada uma a seu modo e risco. Enfim, através de sofrida via crucis, de algum modo conciliando-se com a sua instintividade e impulsividade, desafiando as convenções, as personagens conseguem o seu religare, de corpo e alma, e alcançam a experiência do renascimento, da ressurreição, tal como o Cristo.

A via crucis da narradora-personagem autora

Nos contos metaficcionais, a ficcionista faz a opção por problematizar o ato criador. Nesse sentido, a ação de escrever passa a representar um jogo encenado de dor, sofrimento, sedução, desejo, tensão. A encenação da dor começa com a frase, “vão me jogar pedras” (LISPECTOR, 1974, p.10). Percorre todo o livro no jogo de

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querer e não querer, de fazer padecer a alma e o corpo, de rejeitar e ainda assim desejar. No jogo da encenação adotado pela ficcionista, ela insinua uma derrota, encena uma desistência, revela uma culpa, expõe sentimentos contraditórios diante do seu ofício do fazer literário. Além disso, questiona o próprio valor como escritora consagrada dentro dos padrões literários vigentes, põe em xeque o valor canônico da literatura.

Ela altera, assim, o próprio caminhar. Transgride e enfrenta os padrões pré-estabelecidos. Decide não considerar a censura da crítica e mergulha no jogo da encenação. Entrega-se à tentação de escrever sobre um tema aparentemente proibido, o sexo, a vencer o desafio pessoal da escrita por encomenda, à experiência de superar-se. Essa vontade começa a ser revelada ainda durante o telefonema do editor. Essa mesma força que impele a narradora-personagem-autora à criação das histórias narradas em seus contos e à transgressão de padrões literários vigentes, promove o caminhar transformativo das protagonistas dos contos que cria. Ao ceder à exigência de uma escrita encomendada com tema e públicos específicos, a ficcionista adota o estilo simples, porém com um jogo polifônico, no qual dá voz a inúmeras vozes que eram e ainda hoje são silenciadas, como idosas, freiras, virgens, prostitutas, gays, entre outras.

Na verdade, o dizer nesta obra parece estar oculto, encenado, mascarado no diálogo com a narrativa bíblica aludida no título e na preocupação com o caminho doloroso, a via crucis a ser seguida. O jogo da resistência, a encenação da dor de escrever por encomenda, parecem fazer parte da força propulsora de criação da autora. Nesse sentido, a arte de extravasar a dor com criatividade está na essência da realização da ficcionista. Por outro lado, há a resistência e o medo da mudança. E é exatamente na resistência que o ato criativo se tensiona e se intensifica. Parece que o risco, o novo, o diferente, seduziram a ficcionista que, mesmo ciente de que lhe condenariam e atirariam pedras, sucumbiu à tentação de escrever por encomenda sobre um tema tão controverso como o sexo, e assim aceitou a escrita do livro e a sua via crucis.

Essa caminhada, essa via crucis, pode ser, portanto, entendida como uma representação do conflito vivenciado pela ficcionista ao ser colocada na condição de prostituir a sua arte, de se tornar uma escritora prostituta, cabível de ser punida com pedras pelos críticos. Ou ainda como representação do conflito de precisar posicionar-se diante dos filhos e de si mesma, escrevendo sobre um tema polêmico

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como o sexo, fazendo um livro erótico, enfrentando a sua autocensura e a dos demais. Ou ainda, o conflito entre obedecer à censura ou obedecer à força criadora que a impulsiona para a desobediência, para a transgressão. Toda escolha é sofrida, pois implica em, ao mesmo tempo, aceitar e rejeitar. Por este verdadeiro martírio “todos passam” (LISPECTOR, 1974, p. 44).

Romper com o estabelecido e o aparente foi a principal realização da narradora-personagem-autora e de suas personagens. Viver o processo de religar-se consigo mesmo e com a vida é doloroso, sofrido. A imagem a ser destacada é a da semente que, fecunda, rompe a casca e brota. As personagens romperam-se. Encontraram-se. Desabrocharam. Não há como resistir à ânsia de realizar-se. Se o processo for paralisado, causa dor, sofrimento, insatisfação. Despersonaliza e desintegra. A ânsia de autorrealização impulsiona a pessoa para a possibilidade feliz de encontrar-se consigo mesma e com o mundo.

Ao carregar a cruz, o corpo padece; ao morrer, apodrece. A ficcionista encontrou no jogo da encenação uma forma de dialogar com o seu próprio sofrimento ao aceitar a missão imposta pelo editor. Carregou a sua cruz durante os três dias em que se dedicou à escrita da maioria dos contos do livro. Seu espírito criativo lapidou com cuidado as palavras, gerou-as em seu corpo, deu-lhes à luz ao terceiro dia. Nos contos, os sofrimentos e tombos de cada uma das personagens remetem aos tombos e sofrimentos que Cristo experienciou na sua via crucis a caminho do Calvário. A ressurreição e o renascimento representam a vida nova não apenas do Cristo, mas de cada personagem do livro. É a transformação da morte em vida. Morre, portanto, a autora consagrada para nascer a autora transgressora e livre, sem medo dos julgamentos alheios, liberta no dia da “libertação dos escravos” (LISPECTOR, 1974, p. 63), renascida e ressuscitada depois de percorrer a sua ousada via crucis de escrever sobre e como quiser.

Considerações finais

“E bendiga toda a carne o seu santo nome para todo o sempre.”

(Salmo de David) (LISPECTOR, 1974, p. 7)

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O trabalho procurou refletir sobre a questão do sagrado em A via crucis do corpo, considerando o sagrado em interação com a materialidade do corpo, ou seja, considerando a possibilidade de relacionar o religare, vivenciado por cada personagem, ao resgatar o seu corpo de regras e convenções, a um evento sagrado de inteireza de corpo e alma, a um renascimento, a uma ressurreição. Sendo assim, procurou-se explicitar a relação das personagens com os seus corpos e a via crucis percorrida por elas ao longo da obra até realizarem o seu religare consigo mesmas e com a vida e, desse modo, renascerem e ressuscitarem. Não apenas as personagens encontraram seus caminhos, em paralelo, também a narradora-personagem-autora, ao produzir uma a obra diferenciada das outras até então publicadas, movida pela força do tornar-se quem se é desconsiderando os julgamentos alheios, percorreu a sua respectiva via crucis.

REFERÊNCIAS

GOTLIB, Nádia Battella. Clarice: uma vida que se conta. 2. ed. São Paulo: Ática, 1995. LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1974. MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Corpo: território do sagrado. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2000.

NUNES, Benedito. O drama da linguagem: uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1989.

REGUERA, Nilze Maria de Azeredo. Clarice Lispector e a encenação da escritura

em A via crucis do corpo. [livro eletrônico]. São Paulo: Editora UNESP, 2006.

SÁ, Olga. A escritura de Clarice Lispector. Petrópolis: Vozes; Lorena: FATEA, 1979. SARENTHÁ, Mário. Jesus Cristo ontem, hoje e sempre. São Paulo: Ed. Salesiana Dom Bosco, 1986.

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