RIBEIRO, Simone. Quem faz a educação? Narrativas, Conhecimentos e táticas de professoras da escola pública. Curitiba, PR: Appris, 2016 (269 p.).
QUEM FAZ A EDUCAÇÃO?
Por: Beatriz Souza Barral
“Quem faz a educação? Narrativas, conhecimentos e táticas de professoras da escola pública”, livro de Simone Ribeiro, foi organizado a partir de sua pesquisa no doutorado na Universidade Federal de Juiz de Fora. Seu trabalho acompanhou parte do processo de construção da Política Pública Municipal de Educação do Campo em Miradouro, Minas Gerais. Em sua escrita a autora adotará termos freqüentes ao meio rural, o que confere um charme à obra ao considerarmos sua temática de estudo.
Nesta leitura convidativa, o leitor acompanha a trajetória da autora. Suas escolhas pelos caminhos profissionais e acadêmicos, conscientes ou inconscientes, que a levaram a se aproximar da temática pesquisada. A leitura do livro não necessariamente precisa ser feita de forma linear.
No primeiro capítulo, “As sementes: marcas de uma trajetória”, Ribeiro faz uma auto-reflexão contidas na metáfora de três “sementes”. Ela utiliza este termo relacionando-o às escolhas que fez dentro do espaço/tempo por ela vivenciado, que carrega consigo em seu “embornal”. Essas escolhas não são apenas racionais, são também afetivas, históricas e políticas e a levaram até onde está atualmente: Professora doutora do Colégio de Aplicação João XXIII da Universidade Federal de Juiz de Fora.
A primeira semente: a diversidade epistemológica do mundo, conta sua trajetória acadêmica, profissional e o dilema: como agir para mudar o mundo? Na busca desta resposta, aproxima-se de autores como Michel de Certeau, Boaventura de Souza Santos e Carlo Ginzburg. Descobre que a resposta não é única e a realidade é construída.
A segunda semente: descobrindo a educação do campo, foca na experiência com a docência em curso superior. Aprofunda suas críticas a um saber que não corrobora
para mudar o mundo e, muitas vezes, auxilia a oprimir os que já são oprimidos. Como tutora do Projeto Veredas, ocorreu o primeiro contato com a realidade educacional rural do Brasil e com a classe multisseriada. Percebeu como o currículo escolar proposto não faz sentido para os que vivem no campo e a dificuldade de modificar o que foi naturalizado.
A terceira semente: a agricultura familiar na Serra do Brigadeiro, relata suas experiências como coordenadora de atividades formativas com agricultores (as) no Centro de Tecnologias Alternativas (CTA) com o objetivo de dialogar com os saberes tradicionais e científicos. Esta seria a primeira experiência profissional com agricultores e a reaproximou de suas raízes rurais. Considera este momento como um grande aprendizado em sua trajetória e começa a refletir sobre a imposição de uma monocultura racional, onde os saberes científicos são mais valorizados que os saberes tradicionais. Para isto recorre a Santos (2003).
No segundo capítulo, “Lançando as sementes na terra”, Simone nos conta a germinação de sua sementeira no trajeto percorrido. Uma trajetória nem sempre regular. Com toda a experiência acumulada com suas vivências pessoais e profissionais, reflete sobre a produção do conhecimento em nossa sociedade, o papel da pesquisa acadêmica, o pedestal do conhecimento científico. Segue crítica e nos conta o quanto é difícil esta postura.
Mas, aceitando a limitação da incompletude radical de todo conhecer, procurei manter-me firme na crítica ao modelo de pesquisa que, entre outras coisas, impõe o afastamento entre a pesquisadora e a realidade pesquisada, que nomeia e trata sujeitos como objetos de pesquisa, que coloca como condições, a priori, a neutralidade científica, o controle de variáveis, a generalização, ou seja, a busca por uma verdade universal (RIBEIRO, 2016, P.61).
Estas reflexões e inquietações levaram Simone a fazer a opção metodológica pela investigação narrativa que demanda uma aceitação pela proposta da pesquisa por parte dos profissionais da educação. E assim, ao dar voz aos seus interlocutores/as da pesquisa, tem a consciência de estar contando uma das narrativas possíveis. Era preciso que eles quisessem compartilhar os seus feitos, suas concepções e suas reflexões. A recepção foi boa e Ribeiro conseguiu um grupo de professoras de uma Escola do Campo, no município de Miradouro (MG), para compartilhar suas práticas e reflexões em rodas de conversas.
Esta escolha, deveu-se ao fato de que Miradouro, desde 2002, passava por um processo de construção de uma política municipal de educação do campo, desenvolvia vários projetos de valorização de suas possibilidades rurais. Com o
desejo de acompanhar como este processo chegava às escolas municipais, iniciou suas viagens aproximando-se de seu objeto de pesquisa e das pessoas que o comporiam.
Resolvido o quê pesquisar, foi preciso definir como pesquisar. A intenção foi a de registrar práticas realizadas pelas professoras de Miradouro que estivessem em sintonia com os princípios da Educação do Campo para que pudessem servir de referência para outras redes de ensino e municípios.
Nestas rodas os participantes falavam e se escutavam conforme Warschauer (1993) estes momentos trazem diálogos, narrativas, as maneiras próprias de pensar e sentir, não há um roteiro pré-determinado. As falas são atravessadas pelo pensar e sentir do outro. Daí o desafio de fazer que a roda produzisse falas espontâneas, contudo orientadas pela temática da pesquisadora. Então Ribeiro propôs que elas criassem um portfólio de suas práticas para serem apresentados na roda. Para complementar os dados colhidos na roda também foram realizadas entrevistas.
No terceiro capítulo, “Políticas Públicas de Educação: um caminho de idas e Vindas”, Ribeiro faz um breve histórico da Educação no Brasil, focando as ações que tinham impactos no meio rural. Buscou a emergência da Educação do Campo junto aos movimentos sociais. Na segunda parte ela narra como estes desencadearam o Movimento de Educação do Campo e a construção da Política Pública da Educação do Campo.
O relato histórico delata o descaso que o campo foi tratado nos últimos séculos pelo poder público. Denuncia indícios, nem sempre evidentes, por acontecerem nas entrelinhas das legislações. Mas o interesse governamental é o que prepondera, ora incentivando o êxodo rural, ora procurando manter o povo no campo. Ribeiro retrata estas ações: incentivo à agro exportação e a influência internacional, sobretudo dos EUA. Narra também a atuação dos povos tradicionais que ressignificam os “pacotes educacionais” importados e tentam conferir sentido à eles.
De forma breve, na primeira parte, inicia seu embasamento pelo período Getulista (década de 1930) e por Juscelino Kubitscheck (1956-1960) governos que enfatizaram a modernização e a industrialização nacional. No período de ditadura (1964-1985) predominou uma visão utilitarista e tecnicista da educação e após, na redemocratização, há o fortalecimento dos movimentos sociais com a população de trabalhadores se organizando e disputando espaços políticos. Na segunda parte, expõe a história da Educação do Campo, a partir da década de noventa,
demonstrando a importância dos movimentos sociais ligados a terra na construção de uma Política Nacional de Educação do Campo, um marco na história educacional com caráter social, pedagógico e político.
O capítulo quatro, “As Conversas”, Simone percebe a assimilação das professoras pelas Diretrizes Básicas para a Educação do Campo e como elas se fazem no cotidiano escolar. Este tópico traz falas reflexivas e questionadoras, como a da professora Luceni: “[...] que negócio é esse de Educação do Campo, esse povo da cidade está achando que a gente não tem educação?” (RIBEIRO, 2016, P. 149).
Iremos conhecer como as rodas de conversa foram organizadas, as atividades e dinâmicas propostas pela pesquisadora e o registro das falas das professoras e suas análises.
As conversas abordam temáticas como: a dicotomia rural e urbano, a desqualificação do rural, a política pública municipal de educação do campo e a estratégia de marketing realizada pela prefeitura para modificar a visão negativa do rural incorporada pela escola, à parceria dessa com os movimentos sociais de Miradouro, a chegada do termo Educação do Campo no município, o viver na “roça”, o êxodo rural, a nucleação das escolas rurais, o transporte escolar e o ser professor em uma escola de zona rural. E Com estas conversas, refletiram sobre o papel emancipatório em si.
Estas práticas estão registradas na seção Práticas Curriculares e Educação do Campo, as professoras apresentaram seus portfólios, neles se fundamentam as conversas sobre currículo para as escolas do campo. Neste capítulo está também registrada a última visita de Simone ao município cumprindo o cronograma de sua pesquisa. Na subdivisão “O Conhecimento das professoras em Escolas do Campo”, o encontro é aberto com uma dinâmica, os presentes são levados a lembrar das marcas positivas e negativas que a escola deixou em suas vidas. A conversa que se desenrola a partir destas lembranças reflete sobre o papel desta instituição na vida das pessoas.
Nossas lembranças nos desestabilizaram e nos fizeram olhar de outro jeito para o que acontece todo o dia e, de repente, perceber que havia algo ali que não tinha sido visto antes, é olhar para o mesmo e ver o diferente. E esta nova perspectiva pode ser o ponto de partida para construirmos a escola que sai da escola e se encontra com a vida (RIBEIRO, 2016, P. 225).
Ao reverem seus portfólios e as práticas desenvolvidas, as professoras se revêem e se ressignificam percebendo o quanto se modificaram ao repensar suas práticas e
conhecimentos. Deste modo, a autora retoma sua angústia inicial sobre os valores conferidos ao conhecimento científico e define:
Enquanto professora/pesquisadora, tenho a plena convicção de que o processo de criação de conhecimentos científicos, no qual estamos inseridas, eu e as professoras que são participantes ativas na pesquisa, é um processo social de produção de conhecimento. E, como tal, considera todos os espaços/tempos onde estamos inseridas, não existem fronteiras que delimitem a origem das reflexões que fizemos e que geraram conhecimentos (RIBEIRO 2016, P. 241).
Na conclusão, “Dos Frutos a novas Sementes”, Simone Ribeiro retoma seu “embornal” com as primeiras sementes lançadas, em sua releitura sobre sua escrita relembra vários registros, tão importantes quantos os que aqui estão, que não foram compartilhados neste momento. Mas, como já disse no início de seu livro, sempre temos que fazer escolhas. Hoje, carrega novas sementes e colhe os frutos das primeiras que foram lançadas.
Simone Ribeiro, em seu libro, compartilha com muita empatia suas experiências, ao passo que nos proporciona uma leitura agradável e imprescindível para aqueles que pesquisam a educação do campo e a metodologia de investigação narrativa.
Referências
SANTOS, Boaventura de S. Conhecimento Prudente para uma vida decente – ‘um discurso sobre as ciências’ revisitado. Porto: Edições Afrontamento, 2003
WARSCHAUER, Cecília. A Roda e o Registro – uma parceria entre professor, alunos e conhecimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.
Enviado em 28/09/2017 Aprovado em 20/12/2017