MORTALIDADE POR AIDS EM SÃO PAULO:
DEZOITO ANOS DE HISTÓRIA
Bernadette Waldvogel1 Lilian Cristina Correia Morais1
1 INTRODUÇÃO
O primeiro caso brasileiro conhecido de morte por Aids ocorreu em 1980, no Estado de São Paulo. Nestes dezoito anos de história, a Aids foi se tornando uma das principais causas de morte da população, incidindo principalmente nas idades jovens adultas e com maior intensidade no sexo masculino.
A obrigatoriedade da notificação dos casos de Aids no Brasil passou a vigorar em 1986, mas esse dado ainda hoje não representa a totalidade dos casos existentes da doença. Como observa Buchalla (1990), do Centro Brasileiro de Classificação de Doenças, a declaração de óbito pode ser particularmente importante no caso da Aids, podendo prover informações sobre a grande maioria dos casos.
As estatísticas de mortalidade podem ser utilizadas como indicadores da magnitude da doença e da localização de seus principais focos, permitindo avaliar a evolução dos casos fatais de Aids e seu alastramento nas diversas áreas geográficas do Estado de São Paulo e do país.
A Fundação Seade é a instituição, no Estado de São Paulo, responsável pela produção das estatísticas de óbitos e de nascimentos. Recebe, mensalmente, dos Cartórios de Registro Civil de todos os municípios paulistas, as declarações de óbitos e de nascimentos cor-respondentes aos eventos ocorridos e registrados no Estado. Através de um processo de produção que consiste na codificação, digitação e
1 Analistas de Projetos da Gerência de Indicadores e Estudos Populacionais da Fundação Seade.
consistência desses documentos, são elaboradas as estatísticas vitais paulistas que alimentam os sistemas estaduais e nacionais de morta-lidade e natamorta-lidade.
Desta forma, é possível avaliar a evolução da Aids desde os primeiros casos fatais registrados até o presente, assim como a sua distribuição em todo o território paulista. O detalhamento das infor-mações contidas nas declarações de óbito, como o sexo, a idade, as causas associadas, dentre outras, serve de instrumento para o moni-toramento da mortalidade e para o planejamento de ações na área de saúde para minimizar esta questão.
O objetivo deste trabalho é apresentar a evolução dos óbitos por Aids no Estado de São Paulo, considerando os diferenciais por sexo e idade. O território paulista será dividido em Capital e Interior e o período temporal explorado nesta análise será 1988/1997, período no qual a Aids passa a assumir uma maior representatividade dentre as causa de morte da população paulista.
2 PANORAMA DA EVOLUÇÃO DOS ÓBITOS POR AIDS NO ESTADO
A tendência atual da Aids como uma das principais causas de morte da população paulista parece, finalmente, iniciar uma rever-são, delineando um cenário mais otimista para este final de século, ao contrário do que se vislumbrava no início dos anos 90.
Após um crescimento contínuo durante dezesseis anos, o número de óbitos por Aids começa a diminuir em 1996 e 1997. A redução observada no Estado de São Paulo nestes dois anos foi de 28,5% no número total de óbitos por Aids. A população do sexo masculino apresentou redução maior que a população feminina, cujo número de óbitos por Aids só passou a diminuir no último ano, 1997, após uma constância entre 1995 e 1996.
A Tabela 1 e o Gráfico 1 descrevem bem a tendência dos óbitos por Aids para ambos os sexos. É importante observar que o volume dos óbitos masculinos é bem maior que o correspondente feminino, apesar de gradativamente a razão entre os sexos se reduzir. Em 1988, ocorriam 6,8 óbitos masculinos para cada caso fatal feminino e no último ano analisado, 1997, esta razão passa a 2,6.
Gráfico 1
EVOLUÇÃO DO NÚMERO DE ÓBITOS POR AIDS, SEGUNDO O SEXO
ESTADO DE SÃO PAULO – 1988/1997
Fonte: Fundação Seade. Sistema de Mortalidade por Aids – SAIDS.
Tabela 1
EVOLUÇÃO DO NÚMERO DE ÓBITOS POR AIDS E RAZÃO DE SEXO ESTADO DE SÃO PAULO – 1988/1997
Anos Sexo de sexoRazão
Total Homens Mulheres
1988 1.071 933 138 6,76 1989 1.661 1.429 232 6,16 1990 3.098 2.636 462 5,71 1991 4.218 3.496 722 4,84 1992 5.021 4.113 908 4,53 1993 6.433 5.163 1.270 4,07 1994 7.091 5.606 1.485 3,78 1995 7.739 5.850 1.889 3,10 1996 7.268 5.370 1.898 2,83 1997 5.532 3.982 1.550 2,57
Fonte: Fundação Seade. Sistema de Mortalidade por Aids – SAIDS.
0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 7000 8000 9000 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 A nos Número de óbitos
Comportamento semelhante ao verificado em relação aos óbitos por Aids pode ser constatado quanto ao número de casos notificados. Dados do Centro de Referência e Treinamento – DST/AIDS (Boletim Epidemiológico – março 1998) revelam uma re-dução, nos dois últimos anos, dos casos notificados de Aids na popula-ção paulista.
O Município de São Paulo é o campeão dos casos de Aids no Brasil, mas vai reduzindo, pouco a pouco, o seu peso relativo. Em 1988, 60% dos casos fatais da doença, no Estado de São Paulo, correspondiam à população residente na Capital. Neste ano, a popu-lação paulistana representava 31,5% da popupopu-lação total do Estado. Em 1997, o Interior do Estado já responde por 63% do óbitos por Aids e por 71,5% da população.
A queda da participação dos óbitos por Aids na Capital paulista, observada no Gráfico 2, não configura uma melhora e sim um agravamento do panorama da Aids no Estado. O que houve foi uma interiorização da doença com um extraordinário crescimento do número de casos no Interior. Dos 5.532 óbitos por Aids ocorridos e registrados no Estado de São Paulo, em 1997, 2.044 correspondem à população residente na Capital e 3.488 à residente no Interior.
Gráfico 2
CONCENTRAÇÃO ESPACIAL DOS ÓBITOS POR AIDS CAPITAL E INTERIOR DO ESTADO DE SÃO PAULO – 1988/1997
Fonte: Fundação Seade. Sistema de Mortalidade por Aids – SAIDS.
0 % 1 0 % 2 0 % 3 0 % 4 0 % 5 0 % 6 0 % 7 0 % 8 0 % 9 0 % 1 0 0 % 1 9 8 8 1 9 8 9 1 9 9 0 1 9 9 1 1 9 9 2 1 9 9 3 1 9 9 4 1 9 9 5 1 9 9 6 1 9 9 7 A n o s C a p it a l In t e rio r
Na Tabela 2 é possível verificar a evolução dos casos fatias da doença, para os dois sexos separadamente, ocorridos na Capital e no Interior do Estado de São Paulo. A razão de sexo encontrada na Capital foi superior à observada no Interior durante todo o período considerado, com exceção do último ano, 1997. É interessante obser-var, também, que o comportamento registrado pelos dois sexos é distinto segundo a área geográfica considerada. Para os homens resi-dentes na Capital, a tendência de aumento foi interrompida já em 1995 e para a mulheres a partir de 1996. No Interior, a reversão da tendência aparece com um ano de defasagem: 1996 para os homens e 1997 para as mulheres. Note-se que em todos os casos ocorre um momento de constância que antecede à maior queda registrada.
3 A MORTALIDADE POR AIDS EM SÃO PAULO
A análise do risco de morte por Aids na população paulista, a partir da relação entre o número de casos fatais e a população exposta ao risco, contribui para reforçar o cenário mais otimista de continui-dade de queda da mortalicontinui-dade por Aids, observada nos últimos anos.
Tabela 2
EVOLUÇÃO DO NÚMERO DE ÓBITOS POR AIDS E RAZÃO DE SEXO
CAPITAL E INTERIOR DO ESTADO DE SÃO PAULO – 1988/1997
Anos Capital de sexoRazão Interior de sexoRazão
Homens Mulheres Homens Mulheres
1988 571 69 8,28 362 69 5,25 1989 818 111 7,37 611 121 5,05 1990 1.449 220 6,59 1.187 242 4,90 1991 1.769 322 5,49 1.727 400 4,32 1992 1.995 380 5,25 2.118 528 4,01 1993 2.286 551 4,15 2.877 719 4,00 1994 2.419 584 4,14 3.187 901 3,54 1995 2.416 742 3,26 3.434 1.147 2,99 1996 2.201 739 2,98 3.169 1.159 2,73 1997 1.454 590 2,46 2.528 960 2,63
As taxas de mortalidade por Aids para a Capital são siste-maticamente superiores às do Interior, tanto para os homens quanto para as mulheres. Em 1988, a mortalidade masculina na Capital representava 3,5 vezes a correspondente ao Interior, enquanto a feminina representava o dobro. Em 1997, a relação entre estas taxas de mortalidade se reduz, chegando a 1,5 vezes a razão entre a Capital e o Interior, tanto para o sexo masculino quanto para o feminino.
O Gráfico 3 apresenta a evolução das taxas de mortalidade por Aids, para cada sexo separadamente e para as duas áreas geográ-ficas contempladas neste estudo: Capital e Interior do Estado de São Paulo. Depois de um crescimento continuando até a primeira metade da década de 90, as taxas de mortalidade por Aids passam a diminuir em momentos distintos, para cada categoria avaliada.
Gráfico 3
TAXAS DE MORTALIDADE POR AIDS, SEGUNDO SEXO ESTADO DE SÃO PAULO, CAPITAL E INTERIOR – 1988/1997
Fonte: Fundação Seade. Sistema de Mortalidade por Aids – SAIDS. 0,0 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 Anos ESP – H ESP – M Capital – H Capital – M Interior – H Interior – M
No ano de pico da mortalidade masculina por Aids na Capital, 1994, o volume de óbitos por esta causa chegou a representar 6% do total de óbitos ocorridos na população. No Interior, em 1995, esta proporção alcança 3,7%. No caso feminino, a concentração dos óbitos por Aids chega a 2,6% e a 1,9%, respectivamente para a Capital e o Interior, em 1995: ano de maior taxa de mortalidade por esta causa de morte.
O Gráfico 4 permite avaliar o peso dos óbitos por Aids e o quanto esta causa de morte interferiu na tendência geral da mortali-dade paulista, incidindo mais intensamente na população masculina e na população residente na Capital. A redução gradativa do peso desta causa na mortalidade paulista depende, também, do comportamento das demais causas de morte ocorridas no Estado. Entretanto, acom-panhando a importante redução registrada no número de óbitos por Aids nos últimos anos, é possível vislumbrar, com expectativa positiva, uma evolução mais favorável desta doença no futuro próximo. Para que isto ocorra é preciso que haja continuidade nos programas de prevenção e de tratamento da Aids desenvolvidos no Estado de São Paulo e no país como um todo.
4 A MORTALIDADE DIFERENCIAL POR IDADE
A Aids incide de forma bastante diferenciada nas diversas faixas etárias da população. Durante os dez anos destacados neste estudo, é possível observar uma concentração gradativa nas idades jovens adultas, para os casos fatais e para as taxas de mortalidade devidas à Aids. O pico de idade para a mortalidade da população masculina ocorre entre 30 e 34 anos e para a população feminina entre 25 e 29 anos.
Os Gráficos 5 e 6 apresentam a evolução das curvas de taxas de mortalidade por Aids segundo a idade, para o Estado de São Paulo, entre 1988 a 1997. Foram selecionados 5 momentos deste período temporal para melhor visualizar o comportamento destas taxas.
Gráfico 4
PROPORÇÃO DE ÓBITOS POR AIDS NO TOTAL DE ÓBITOS ESTADO DE SÃO PAULO, MUNICÍPIO E INTERIOR
1988/1997
Fonte: Fundação Seade. Sistema de Mortalidade por Aids – SAIDS.
Hom ens 0 1 2 3 4 5 6 7 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 A no Proporção
E stado M unicípio Interior
M ulheres 0,0 1,0 2,0 3,0 4,0 5,0 6,0 7,0 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 A no Proporção
Gráfico 5
TAXAS DE MORTALIDADE MASCULINA POR AIDS, SEGUNDO GRUPOS DE IDADE
ESTADO DE SÃO PAULO – 1988/1997
Fonte: Fundação Seade. Sistema de Mortalidade por Aids – SAIDS.
Gráfico 6
TAXAS DE MORTALIDADE FEMININA POR AIDS, SEGUNDO GRUPOS DE IDADE
ESTADO DE SÃO PAULO – 1988/1997
Fonte: Fundação Seade. Sistema de Mortalidade por Aids – SAIDS.
0,00 20,00 40,00 60,00 80,00 100,00 120,00 0-4 5-9 10-14 15-19 20-24 25-29 30-34 35-39 40-44 45-49 50-54 55-59 60-64 65-69 70-74 75 e +
Taxas (por 100.000 Hab)
1988 1990 1992 1995 1997 0 ,0 0 5 ,0 0 1 0,0 0 1 5,0 0 2 0,0 0 2 5,0 0 3 0,0 0 0- 4 5- 9 10 - 14 15 - 19 20 - 24 25 - 29 30 - 34 35 - 39 40 - 44 45 - 49 50 - 54 55 - 59 60 - 64 65 - 69 70 - 74 7 5 e +
Taxas (por 100.000 Hab.)
Observa-se que a maior concentração da mortalidade por Aids ocorre na população entre 20 e 54 anos. Mais uma vez, é possível constatar que as taxas de mortalidade masculinas são bem superiores às femininas. Por esta razão, os dois gráficos não puderam ser elabo-rados na mesma escala, uma vez que a mortalidade feminina apresen-tada em escala semelhante à masculina não permitiria avaliar as diferenças existentes entre os anos e entre as idades.
É interessante constatar que para a população masculina, a curva da mortalidade por idade, em 1997, regrediu ao nível registra-do em 1992, apesar de ainda representar a segunda causa de morte para a população jovem adulta. Esse fato representa um importante ganho para a sobrevivência da população paulista. A tendência cres-cente da mortalidade por Aids, que se projetava anteriormente, acen-tuava o cenário já preocupante da sobrevivência da população no Estado de São Paulo. O comportamento recente da mortalidade por esta doença abre uma nova perspectiva neste cenário.
Por outro lado, o agravante para a população feminina é o fato de a Aids representar a primeira causa de morte da população entre 20 e 44 anos. Ressalta-se que essa faixa corresponde, justamente, à idade reprodutiva e agrega grande parcela da população econonica-mente ativa. A mortalidade desse contigente populacional seria cerca de 15% menor se a Aids não tivesse surgido no conjunto de causas de morte e apresentado um crescimento tão acelerado.
O peso da Aids no conjunto das causas de morte, nas diversas faixas etárias da população, também atinge de forma distinta os dois sexos.
No ano em que no Estado de São Paulo o número de casos fatais de Aids, para o sexo masculino, atingiu seu máximo, 1995, a maior taxa de mortalidade foi verificada na faixa etária entre 30 e 34 anos, alcançando 100 óbitos por cem mil habitantes. O peso da Aids no total das causas de morte chegou a 20%, o que significa que a cada cinco homens deste segmento populacional que morreram, um foi vítima da Aids.
Para a população feminina, o pico da mortalidade por Aids ocorreu também em 1995, atingindo a população entre 25 e 29 anos, com uma taxa de 28 óbitos por cem mil habitantes. Neste caso, a Aids representa 23,5% do total das causas de morte, uma razão de quase uma vítima da Aids em cada quatro mulheres mortas neste ano.
5 A CONTRIBUIÇÃO DAS IDADES
NA TENDÊNCIA DAS MORTES POR AIDS
Para melhor compreender a tendência geral da mortalida-de por Aids e o panorama recentemente observado mortalida-de queda nos casos fatais desta doença, serão avaliadas as tendências distintas de cada faixa etária da população, considerando-se cada sexo separadamente. Os Gráficos 7 e 8 apresentam a evolução, entre 1988 e 1997, dos óbitos por Aids, segundo a faixa etária e o sexo.
Desde o início da série, a população masculina apresenta a maior ocorrência de óbitos por Aids correspondente à faixa etária entre 30 e 34 anos. Até 1993, a faixa entre 25 e 29 anos praticamente coincidia com a faixa etária posterior, descrevendo um comportamento distinto a partir de 1994, quando passa a diminuir e a se distanciar da idade 30 a 34 anos. A terceira faixa corresponde às idades 35 a 39 anos. Estas três faixas concentram quase 40% dos óbitos por Aids, em 1997. A população masculina entre 20 e 24 anos foi a primeira faixa etária significativa a registrar redução nos casos fatais de Aids, revertendo seu crescimento já em 1993.
Os homens paulistas, com idades entre 40 a 44 e 45 a 49 anos representam a quarta e a quinta posições, em 1997. As demais idades têm pouca representatividade na tendência observada pelos casos fatais de Aids, apenas 13,6% desse total, neste último ano.
Para a população feminina paulista, durante o período analisado, a faixa etária de maior concentração dos casos fatais de Aids corresponde às idades entre 25 e 29 anos, com exceção do ano de 1996, quando perde este lugar para a segunda posição ocupada pela faixa etária de 30 a 34 anos.
Também para as mulheres entre 20 e 24 anos, a tendência dos casos fatais de Aids se distingue das demais faixas etárias. A partir de 1993, o comportamento inicia uma reversão, alcançando em 1997 a quinta posição, precedida das idades entre 35 e 44 anos. As demais idades concentram apenas 13,1% dos óbitos por Aids, na população feminina.
Gráfico 7
ÓBITOS MASCULINOS POR AIDS, SEGUNDO GRUPOS DE IDADE ESTADO DE SÃO PAULO
1988/1997
Fonte: Fundação Seade. Sistema de Mortalidade por Aids – SAIDS.
Gráfico 8
ÓBITOS FEMININOS POR AIDS, SEGUNDO GRUPOS DE IDADE ESTADO DE SÃO PAULO
1988/1997
Fonte: Fundação Seade. Sistema de Mortalidade por Aids – SAIDS. 0 200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 Número de óbitos 0-4 5-9 10-14 15-19 20-24 25-29 30-34 35-39 40-44 45-49 50-54 55-59 60-64 65-69 70-74 75 e + 0 50 100 150 200 250 300 350 400 450 500 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 Número de óbitos 0-4 5-9 10-14 15-19 20-24 25-29 30-34 35-39 40-44 45-49 50-54 55-59 60-64 65-69 70-74 75 e +
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora ainda hoje a Aids represente uma das principais causas de morte da população jovem adulta residente no Estado de São Paulo, constata-se uma queda relevante no número de mortes provocadas por esta causa, assim como no número de casos notificados da doença, nos últimos anos. Mesmo considerando que as notificações apresentam certo grau de sub-registro, não correspondendo ao total de casos infectados, é possível afirmar que a diminuição verificada nos últimos anos seja real. Isto decorreria da associação entre a maior sobrevida dos doentes de Aids com a menor incidência da doença na população.
O aumento da sobrevida amplia a chance de recuperação dos doentes de Aids, uma vez que os avanços da ciência nesta área têm sido animadores. No futuro, novos medicamentos mais eficientes poderão minimizar, ainda mais, os efeitos negativos da doença e melhorar a qualidade de vida dos indivíduos infectados pelo vírus HIV. Ao incidir predominantemente na população em idade reprodutiva e economicamente ativa, a Aids tem assumido um papel de desestabilidador dos níveis de mortalidade da população. Entretan-to, a análise do comportamento recente das taxas de mortalidade por Aids permite acreditar na continuidade desta queda. A reversão dos níveis de mortalidade, com maior intensidade para a população mas-culina, mas também com uma reação posterior da população feminina, abrem uma nova perspectiva, mais otimista e positiva, para o futuro da sobrevivência da população paulista.
O acompanhamento detalhado da ocorrência dos casos fatais de Aids, nas diversas faixas etárias da população, representam um indicador sensível da situação mais geral desta doença.
A reversão apresentada no comportamento dos óbitos por Aids é um fato novo que merece ser aprofundado. Por si só não significa que a epidemia da Aids esteja controlada. Ainda se está distante do controle desta doença. As primeiras notícias que chegaram do Con-gresso Mundial ocorrido em Genebra, em julho de 1998, substituem a grande esperança de manter o vírus sob controle no organismo, anunciada no Congresso anterior de Vancouver (1996), por uma maior cautela quanto aos resultados do coquetel anti-Aids. A eliminação do vírus HIV foi postergada para um futuro ainda sem data.
Por ora, não se pode descartar a hipótese de que os núme-ros voltem a crescer no futuro próximo.
O monitoramento das mortes por Aids é uma vigilância que se faz necessária hoje e, quem sabe, sempre. O mapeamento das áreas mais críticas, dentro do estado e do país, constitui instrumento de planejamento das ações de saúde de iniciativa pública e privada. Toda a sociedade deve estar envolvida neste controle.
“Prevenir ainda é o melhor remédio”, diz a campanha. Este alerta deve fazer parte da rotina de toda a população, para que o cenário mais promissor, que parece se delinear hoje, se torne real amanhã.
7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BASTOS, F. I., BARCELLOS, C. Geografia social da Aids no Brasil.
Revista de Saúde Pública, São Paulo, v.29 n.1, fev. 1995.
BUCHALLA, C. M. et al. A AIDS/SIDA: as estatísticas de mortalidade
como fonte de informação. São Paulo: Centro Brasileiro de Classi-ficação de Doença, 1990. (Série Divulgação, 6).
FERREIRA, C. E. C., CASTIÑEIRAS, L. L. O rápido aumento da mortalidade dos jovens adultos em São Paulo: uma trágica tendên-cia. Revista São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v. 10 n. 2,
abr./jun. 1996.
FUNDAÇÃO SEADE. Sistema de Mortalidade por Aids. São Paulo,
1988/1997 (versão eletrônica).
MATIDA, L. H. Aids e a transmissão materno-infantil. Boletim Epi-demiológico, São Paulo, CVE, n. 1, mar. 1998. (CRT-DST/AIDS).
MERCHÁN-HAMANN, E. Grau de informação, atitudes e repre-sentações sobre o risco e a prevenção de Aids em adolescentes pobres do Rio de Janeiro, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio
de Janeiro, v. 11, n. 3, jul./set. 1996. (Ministério da Saúde. Funda-ção Osvaldo Cruz).
NOVELINO, M.S.F. Disseminação de informação sobre a epidemia de HIV/Aids para mulheres. Ciência da Informação, Brasília, v. 22 n.
3, set./dez. 1993. (MCT, CNPq, IBICT).
SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE. CRT–DST/AIDS. CVE.
Boletim Epidemiológico, São Paulo, v. 16, n. 1, mar. 1998.
SOUZA, M.R. As novas realidades da Aids no Brasil. Conjuntura Demográfica, São Paulo, n. 27/28, abr./set. 1994.
WALDVOGEL GIRALDELLI, B. Os números da Aids: São Paulo surpreende. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v. 6, n. 4,
out./dez. 1992.
WALDVOGEL, B. Monitoramento das mortes por Aids: uma vigilân-cia necessária. Conjuntura Demográfica, São Paulo, v. 27/28,
abr./set. 1994.
---. Aids: principal causa de morte na idade reprodutiva. Mulheres em Dados, São Paulo, n. 9, nov. 1997.