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KIERKEGAARD E O HOMEM INTERIOR

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Academic year: 2021

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KIERKEGAARD E O HOMEM INTERIOR

Inácio Pinzzetta

No ano de 1843, o jovem Søren Aabye Kierkegaard, então com trinta anos, escreve nove discursos edificantes, A repetição, Temor e Tremor, Enten – Eller (ou isto ou aquilo), com o subtítulo: Um fragmento de vida. É esta obra, Enten-Eller, editada por Victor Eremita, que torna Kierkegaard conhecido e famoso em Copenhague e em toda Dinamarca. A obra é extensa e composta de diversas partes, entre as quais o também famoso livro O diário do sedutor. O prefácio de Enten-Eller inicia assim: “Talvez, você, caro leitor, pôs um pouco em dúvida a exatidão da tese filosófica segundo a qual o exterior é o interior, e o interior, o exterior” (KIERKEGAARD, 1970, p. 3). Kierkegaard se refere aqui ao que Hegel trata a um dos temas que desenvolve na Ciência da Lógica. O início desse Prefácio assinala, em tom de típica ironia kierkegaardiana, um dos temas preferidos do filosófico dinamarquês, a saber, a interioridade do indivíduo, e que será desenvolvido nessa mesma obra, principalmente na Formação da personalidade. Pode-se ver uma estocada de ironia na pretensão de exatidão de uma tese filosófica contraposta com a dúvida. Por acaso ou não, - e se for por expressa intencionalidade de Kierkegaard, fica realçado o tom irônico - , na Formação da Personalidade encontramos o assessor Guilherme (Wilhelm), o segundo nome de Hegel (Georg Wilhelm Friedrich Hegel). Guilherme, funcionário do Estado, casado, pai de família, defende, numa longa carta que envia a um amigo seu, um Jovem Esteta, na qual contrapõe a vida ética e a vida estética, ou seja, a interioridade e a exterioridade. Critica o jovem esteta por viver na exterioridade, por viver disperso na multiplicidade das coisas exteriores. Ao longo de toda a Formação da personalidade, Guilherme estratifica os valores estéticos e os valores éticos, com a prevalência decisiva desses últimos para a vida e a felicidade do indivíduo. Os valores éticos não pulverizam e não anulam os valores estéticos com seus fascínios e seus encantos, os prazeres, a poesia e as delícias das cores e dos vinhos. O ético – o indivíduo ético – se concentra na sua interioridade, e faz dela

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sua moradia, ou seja, ele se encontra e se identifica consigo mesmo no seu mundo interior.

A história, feita de tempo, de espaço e suas circunstâncias, faz parte do indivíduo. O indivíduo está circunscrito e tem seu registro na história. Disso, o assessor Guilherme tem ciência. Após narrar para seu amigo esteta o entrelaçamento do indivíduo com a história, Guilherme conclui:

Deste modo, mesmo o indivíduo mais modesto possui uma dupla existência. Ele também tem uma história que não é apenas produto de seus próprios atos livres. No entanto, seus atos interiores lhe pertencem e lhe pertencerão em toda eternidade. Nem a história, nem a história universal podem tirar-lhes tudo isso. Seus atos interiores o acompanharão, para seu prazer ou para sua desgraça. Nesse mundo reina um aut-aut [ou-ou] absoluto. A filosofia, porém, não tem nada a fazer com essa esfera. (KIERKEGAARD, 1955, p. 31)

Aqui, pois, Kierkegaard explicita e elucida aquilo que dissera no Prefácio, a saber, não cabe à filosofia, com sua pretensão de cientificidade, apropriar-se do conteúdo da interioridade do indivíduo, mas sim, à ética que opera no limite com a esfera do religioso. Na verdade, mais tarde, em outras obras, principalmente nos Discursos edificantes, Conceito de Angústia, Doença para a morte e Obras do Amor, é que Kierkegaard trata da interioridade do indivíduo com a segunda ética, isto é, a ética no registro na inspiração divina, a ética revelada. Esta, e não a filosofia, de acordo com Kierkegaard está autorizada e é capaz de acessar os meandros da interioridade do ser humano, o indivíduo. O contributo da segunda ética, a ética revelada, que deriva do alto, e portanto, com o suporte divino, é o de dizer que o homem se encontra no seu estatuto de origem, no mal radical, transposto à linguagem teológica, pecado original ou hereditário, tema tratado em o Conceito de Angústia.

Essa ideia é tocada levemente, ou pelo menos acenada, ao longo da A alternativa, principalmente no seu final, no Ultimatum, quando Kierkegaard põe o indivíduo face a face com Deus, ou seja, sem a mediação da estética ou da ética, mas sim na atmosfera e na esfera do religioso. Ali, bem ali e apenasmente ali, o indivíduo pode, na sua mais profunda interioridade, se compreender a si mesmo na relação com o Absoluto. Nada, portanto, se interpõe entre o indivíduo e o Absoluto.

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Nessa relação se efetiva, em cada indivíduo, a reinvindicação de Jó, a saber, o encontro do eu com Deus, sem intermediações filosóficas ou teológicas. Equivale dizer: a relação da interioridade do indivíduo com Deus. Estamos, portanto, na esfera do religioso. Bem observa Vergote (VERGOTE, 1982, p. 117, v.2) que o religioso não significa necessariamente o âmbito do cristão. Quem circunscreve e delimita essa questão é Johannes Climacus em Post-Scriptum definitivo e não científico às migalhas filosóficas ao abordar a questão da falta cuja determinação de totalidade pertence à esfera religiosa. Conforme Johannes Climacus, não cabe à dialética o estudo e a investigação daquilo que constitui essencialmente o indivíduo, a saber, a interioridade, a consciência, a alma, o espírito. “A vida humana desanda na conversa fútil quando o existente não possui ele mesmo a interioridade, fonte e pátria de todas as determinações de totalidade”.(KIERKEGAARD, 1977, p, 222). São os discursos religiosos, e não a filosofia, que devem se ocupar da determinação de totalidade. O que caracteriza o discurso religioso é sua imbricação com a felicidade eterna e o modo como é tratado, a saber, de maneira existêncial e não pelo viés científico. (KIERKEGAARD, 1977, p. 222). Dizendo de outro modo, a filosofia e outras ciências que operam ou desejam investigar no âmbito científico, focam a vida corrente aqui e ali, parte sim, parte não, mas sem o interesse pela totalidade do indivíduo. Cabe, pois, segundo Johannes Climacus, à esfera religiosa, se ocupar da interioridade do indivíduo quando e onde a determinação de totalidade se apodera homem.

Já é hora de se perguntar: mas o que é a interioridade humana? Em Kierkegaard, no percurso de sua vasta obra, a resposta pode ser resumida assim: a consciência, o espírito, a alma. A interioridade, portanto, é a consciência de cada um, o espírito de cada um, a alma de cada um. De cada um, o seja, o indivíduo, o único na sua relação com Deus. Esse único, o indivíduo, não pode se perder no múltiplo, na massa, na soma dos números. A interioridade, em Kierkegaard, é o que dá nome e identidade a cada indivíduo. O homem é sua interioridade a qual se forma na sua relação consigo mesmo, e vista na sua totalidade, na relação que estabelece com o poder que o pôs (KIERKEGAARD, 2007, p. 20). Ninguém, portanto, é um número a mais na existência humana, com o intuito de ser um simples acréscimo. O número dilui o indivíduo na multidão e nela se perde, posto que a multidão é a mentira

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(KIERKEGAARD, 1986, p. 99-100). A verdade, pois, tem seu registro na interioridade do indivíduo, na consciência de cada um, quando se põe diante de Deus.

O ser humano, no seu estatuto originário, a saber, no início de seu percurso na existência, se encontra na não verdade, isto porém, não significa dizer que ele se encontra na mentira. Ele é inocente, simplesmente, isto é, no âmbito da existência em que é estrangulado pela angústia, circundado por todos os lados pelo nada que o embala na paz e no repouso, mas que ao mesmo tempo o deixa inquieto pela constante possibilidade que a angústia lhe permite por meio da liberdade. O que estrangula o homem nesse âmbito da inocência são as muitas possibilidades que se apresentam ao próprio homem na sua interioridade. O homem se debate consigo mesmo no nada onde se encontra, e se angustia porque toma consciência e conhecimento da possibilidade. É a possibilidade que se defronta com a própria possibilidade. Em resumo: é possível! (KIERKEGAARD, 2010, p. 45). De que possiblidade se trata aqui? Da possibilidade de escolha! Mas escolha do quê? O assessor Guilherme, em 1843, vai dizer que se trata da escolha ética, da pessoa escolher a si mesma, eleger de sair da multiplicidade da vida estética para recolher-se a si mesmo em sua interioridade. Antes da escolha, recolher-se esta for levada a cabo, o homem se encontra no âmbito da estética à qual o assessor Guilherme vai chamá-la de exterioridade, ou seja, o homem está fora de si mesmo, feito objeto de si mesmo se relacionando com outros objetos, estabelecendo, com isso, uma relação extrínseca a si mesmo. É o exterior se relacionando com o exterior, numa relação, portanto de superficialidade, sem raiz, sem profundidade. A esse âmbito da existência, isto é, estar fora de si mesmo, ao exterior de si mesmo, Guilherme não vai chamá-lo de loucura ou vertigem, mas de desespero. Este desespero tem sua origem no fato de o homem não ser ainda ou não ter iniciado ainda a ser o que deve ser, a tornar efetivo aquilo que sua interioridade lhe está a exigir, a saber, ser indivíduo e não múltiplo entre múltiplos. Esta é, pois, a razão principal de seu desespero que se configura ainda na eterna exigência da estética, sempre insaciável de desejo e mais desejo, muito bem representada, esta sede interminável de desejo, pelo patrono e modelo dos sedutores, D. Juan. O exterior é o ponto sobre o qual o esteta alicerça e fundamenta sua existência e toda vez que ele perde o objeto de seu desejo, desespera. Não é o caso de Jó, homem íntegro e reto, temente a Deus, que,

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numa aposta entre Deus e Satanás para ver se seu amor a Deus era mesmo gratuito, perde seus sete filhos e suas três filhas e toda sua riqueza: camelos, ovelhas, bois e jumentas. Jó não desespera posto que sua existência estava arquitetada na sua interioridade e esta, por sua vez, fundamentada em Deus. Os danos exteriores não arruinaram o tesouro interior do homem de Ur. “Aquele que vive esteticamente espera tudo de fora” (KIERKEGAARD, p 1955, 131), de tudo aquilo que lhe é exterior, e quando não alcança aquilo que deseja, desespera, e quando perde o que alcançou, desespera igualmente. Vê-se, pois, que o esteta é um desesperado, vive e se consome no desespero. O indivíduo ético, por sua vez, não desespera porque sua referência e o fundamento sobre o qual eleva sua existência não é a exterioridade mas a interioridade, ou seja, a sua própria consciência.

No estado de inocência, no nada que é capaz de produzir a possibilidade ante a possiblidade, existe a possibilidade unicamente como possibilidade. É possível! Esse “é possível”, como já vimos, engendra angústia. Na zona limite entre o estético e o ético encontra-se a possibilidade do aut-aut (ou –ou). “Graças a meu aut-aut aparece a ética. Não se trata da eleição de algo, nem da realidade do que se elegeu, mas da realidade da eleição. Isso é o decisivo” (KIERKEGAARD, 1955, p. 32). Transpõe, portanto, o zona limite estética-ética pelo ao de querer, da vontade de eleger. Esse é o momento decisivo, isto é, querer o querer, para então poder querer o eleger. O segundo passo, decorre dessa decisão, e se elege. Mas o que se elege, então? Quais são as possibilidades desse aut-aut? Eis como Guilherme descreve esse momento:

Quando tudo se tornou sereno, solene como uma noite estrelada, quando a alma está só no mundo, então aparece diante dela, não um ser superior, mas a potência eterna mesma, o ceu se entreabre, por assim dizer, e o eu se elege a si mesmo, ou melhor, se recebe a si mesmo (KIERKEGAARD, 1955, p. 33).

A pessoa, ao escolher a si mesma, continua sendo si mesma, e não outra pessoa. Não há uma negação de si mesma ou uma transformação em outra pessoa. Ao eleger-se a si mesmo, o homem se cria a si mesmo como um indivíduo preciso. Antes desse ato eletivo esse homem vivia no imediato, na exterioridade. Agora, se torna o que deve se tornar, possuindo-se a si mesmo como tarefa e não como possibilidade, tarefa contínua de devir o que deve ser em sua interioridade.

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se que na carta que o assessor Guilherme escreve ao seu amigo esteta, ao invés de utilizar o famoso imperativo socrático “conhece-te a ti mesmo” emprega este imperativo: “elege-te a ti mesmo”. O indivíduo ético, conhecendo a si mesmo, sua interioridade, não permite que ideias sedutoras o distraiam e se lance nos caminhos da exterioridade. Guilherme, ao utilizar o conceito de eleição no itinerário da formação da consciência e da criação da existência ética na vida do homem, pressupõe o imperativo socrático do conhecimento de si mesmo, assinala com isso a importância da vontade cotidiano do individuo. Ou seja, o conhecimento aponta para o âmbito do discernimento, e a eleição, para a esfera da vontade e sua consequente efetivação e concretização, como tarefa, desse conhecimento. Na interioridade, pois, do indivíduo, o conhecer-se a si mesmo e o eleger-se a si mesmo são princípios entrelaçados que criam o modo de vida ética na existência do indivíduo.

Um ano após a carta do assessor Guilherme, Vigilius Haufniensis em 1844, fala da escolha a partir de outro registro, a saber, da segunda ética, que opera no âmbito da revelação. Sua análise, portanto, se fundamenta nos dados oferecidos por essa ética, mais especificamente na narrativa mitológica bíblica conhecida como queda (do ser humano e sua consequente exclusão do paraíso de Deus) e a desenvolve levando em conta a estrutura psicológica e antropológica do individuo que se forma por sínteses do tipo corpo – alma; tempo-eternidade; finito-infinito; necessidade-possiblidade. Isso significa dizer que Vigilius Haufniensis se subsidia dos dados da revelação para compreender o indivíduo na sua interioridade. Esse propósito se evidencia no subtítulo do O conceito de angústia: uma simples reflexão psicológico-demonstrativa direcionada ao problema dogmático do pecado hereditário. Antropologia e teologia, portanto, se entrelaçam nessa obra em que Vigilius Haufniensis penetra profundamente na consciência humana. A escolha que o homem faz pelo mal, e no registro teológico, pelo pecado, possibilitada pela liberdade, traz uma dupla consequência cujo desdobramento é o de tirar o homem de seu estado de inocência, o que se constitui numa vantagem sobre os animais na medida que toma consciência de si mesmo, e por outro lado, o joga na perdição, e a partir de então, necessita de alguém que o redima e o salve. Essa escolha se lhe foi possível porque o pecado, pressupondo-se a si mesmo, ingressou na existência humana por um salto enigmático. Agora, então, todo o individuo, para encontrar a eterna felicidade,

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necessita penetrar no mais profundo de sua consciência, da sua interioridade, ou seja, ir além da ética e ir ao religioso, pelo salto da fé. Se por um lado, o pecado entra no homem por livre escolha do próprio homem, a fé, por outro lado, se efetiva como dádiva dada a esse homem, mas que lhe cabe aceitar ou não essa oferta. Ao fim e ao cabo, pecado (perdição) e fé (dádiva) estão enraizados na interioridade do indivíduo, o primeiro, fruto de uma escolha, a segunda, obra de aceitação de uma dádiva. E quando se diz que ambos estão enraizados na interioridade humana, com isso se está a afirmar, que apenas o próprio indivíduo tem acesso a esta profundidade, e dali, apenas ali, vai saber que diante de Deus está no pecado e em dívida, mas que diante de Deus, pela oferta da fé, pode salvar-se. Queda e elevação, perdição e salvação, operam na interioridade humana ou seja, na sua consciência, na sua alma. Quando pois, Guilherme, recorrendo à uma famosa expressão bíblica “perder sua alma” (Mc 8,36) diz que essa expressão está no registro da ética, está a afirmar que alma é a vida do homem, a sua consciência. No caso, a alma é o próprio homem. (KIERKEGAARD, 1955, p. 88)

No mesmo ano em que escreveu A alternativa (Enten – Eller), 1843, Kierkegaard, como já vimos, escreveu igualmente nove discursos, dentre os quais, para o objetivo deste nosso trabalho, destacamos O fortalecimento do homem interior. Ao escrever A alternativa, Kierkegaard manteve-se em constante referência com a filosofia grega. Apenas ao seu final, no Ultimatum, um sermão feito por um pastor da Jutlândia, sua referência principal é agora a Bíblia e nessa atmosfera religiosa põe o homem diante de Deus, onde e quando o indivíduo saberá que está no erro. A Alternativa opera no registro e no âmbito da estética e da ética e analisa o homem na perspectiva de sua relação com a exterioridade, - estética -, e de sua relação com a interioridade, - a ética. A estética manifesta o homem na sua relação com o mundo e nele busca a interminável satisfação e a consumação dos desejos. A estética, portanto, puxa o homem para fora de si mesmo. A ética, por sua vez, é a interioridade do homem, a consciência que se sabe a si mesma e que busca concretizar o que ele deve ser. É, pois, no âmbito na ética que o homem se cria a si mesmo e se sabe como indivíduo, e que tem como tarefa ser o que deve ser. Nesse âmbito da ética, cuja característica principal é a interioridade, o homem vive na interioridade, criou-se a si mesmo como interioridade, mas não é ainda homem

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interior. Nessa esfera, o homem, como indivíduo, se relaciona consigo mesmo, com sua consciência. Nem mesmo ao final da A alternativa, o individuo é conceituado como homem interior, pois está “apenas” diante de Deus. É necessário dar um passo, decisivo aliás, para alcançar esse estatuto. Esse passo, que a Bíblia chama de necessidade em nascer de novo, de acordo com o relato do evangelista João (Jo 3). Essa narrativa põe em cena dois personagens, Jesus e Nicodemos, no cenário de uma noite, e que portanto, remete ao âmbito do não manifesto, do escondido. O diálogo entre Jesus e Nicodemos é tecido de muita ironia. De um lado, Nicodemos, atua como na compreensão do nascimento na esfera da carne, e, do outro, Jesus, o nascimento é compreendido no âmbito do espírito. O contraposto nesse diálogo noturno é entre carne e espírito. A carne assinala para o nascimento, crescimento e morte. Um percurso, portanto, natural. O espirito, por sua vez, aponta para a imortalidade. O apóstolo João, na sua carta, realça a ironia nesse diálogo, na medida em retarda a Nicodemos a compreensão de que o diálogo a partir de Jesus transcorre numa linguagem metafórica. Enquanto Nicodemos compreende o nascimento no âmbito natural, Jesus propõe o nascimento espiritual, do alto (anothen). Em grego, a palavra anothen (Jo 3,3), pode significar: de novo ou do alto. O que Jesus insiste nesse diálogo é a necessidade do nascimento espiritual, condição para poder entrar no reino de Deus. Entra-se nesse reino de felicidade – o Reino de Deus - apenas espiritualmente. Esse é, pois, o ponto.

Esse novo nascimento ou nascimento do alto, no âmbito do espirito, Kierkegaard nesse discurso, O fortalecimento do homem interior, o dá como pressuposto, qual seja, o indivíduo não apenas está diante de Deus, mas está em Deus numa relação íntima sem mediação. Indivíduo e Deus se imbricam e se entrelaçam profundamente.

Efetivado esse novo nascimento, ou nascimento espiritual, o indivíduo continua sua existência cotidiana como todo e qualquer outro ser humano. Alguns indivíduos prosperam, outros enfrentam adversidades exteriores e interiores (espirituais). Para analisar o indivíduo nas diversas possibilidades possíveis, Kierkegaard se refere à carta de Paulo aos Efésios (Ef 3, 13-21). Paulo está em Roma, centro do mundo de então e vive na condição de prisioneiro. Roma, no entanto, não dá muita atenção a esse cidadão judeu e romano, pois não representa

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maiores perigos ao Império. Paulo, como se sabe, é um indivíduo renascido, movido, pois, pelo espírito. Nascido do alto. De Saulo, nascimento carnal, passa a ser Paulo, nascimento espiritual.

Tendo como referência o trecho da carta de Paulo, preso em Roma, aos cidadãos da Comunidade de Efésios, Kierkegaard, analisa no discurso Fortalecimento no homem interior a vida cotidiana do ser humano. Apresenta, inicialmente, o homem vivendo na prosperidade. Como, nesse âmbito, o homem pode justificar essa sua condição de vida na fartura? Aparentemente, é uma questão fácil de ser respondida, isto é, essa condição vida é fruto do esforço e do árduo trabalho que a pessoa empreendeu ao longo de suas jornadas. Esse indivíduo, no entanto, pode estar intimamente ligado a essa condição de exterioridade, e de repente, em vista de sua finitude, pode, de uma hora para outra, ser solicitado a comparecer diante de Deus. E agora? Como se apresentará diante do Senhor? O indivíduo que nasceu do alto, ou seja, do espírito, os bens materiais, não são a essência de sua vida. São frutos da graça e dádiva divina. É o caso de Jó. De Deus tudo provêm. A confiança de Jó em Deus permanece inabalável, porque Jó é um renascido espiritualmente. Para o indivíduo, porém, que não renasceu, os bens dessa vida são resultados do esforço humano. Os bens estão no registro da pura materialidade e não da gratuidade divina. Ao perderem-se os bens, tudo está perdido e portanto o homem perde-se a si mesmo e entra no desespero.

Por outro lado, Kierkegaard apresenta uma situação contrária, a saber, o homem vivendo na adversidade. Nesse âmbito, o homem não renascido, atribui esse seu estado de sofrimento, aos insucessos da vida. O homem renascido, porém, permanece firme nas suas jornadas e sabe que tudo isso é uma prova a que está sendo testado por parte de Deus, pois sabe que Deus testa a quem ama. No fundo, é a prova pela qual Jó teve que passar.

Nesse mesmo discurso, - O fortalecimento no homem interior -, Kierkegaard passa do âmbito dos sucessos ou dos fracassos materiais para a esfera do sofrimento interior do ser humano, propondo para a reflexão o quadro de um indivíduo vivendo em benesses, mas com problemas no seu foro intimo. O indivíduo que renasceu do alto, vai se dar conta que se trata de uma prova, de um teste que Deus faz a quem ama e, então, não se abala. Ou seja, o homem interior está

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estruturado e fundamentado em Deus, e não na exterioridade. Todos os frutos alcançados pelo seu suor podem ser destruídos, e nesse caso, o que será pulverizado é a exterioridade e não a interioridade, isto é, a alma. Perde-se o exterior, mas o núcleo, o que constitui a pessoa, o indivíduo, permanece, porque sustentado em Deus.

Ao fim e ao cabo, o que constitui, pois, a diferença essencial entre o homem estético e o ético, é que o ético se elegeu a si mesmo na sua interioridade, saindo do múltiplo para assumir-se como indivíduo. Por sua vez, o homem interior nasce na interioridade de sua consciência, elegendo a si mesmo, movido pela sua fé, numa relação íntima com Deus.

Quem ama a Deus é fortalecido em seu homem interior, e quem ama os outros, e apenas por meio desse amor aprendeu, por assim dizer, a amar a Deus, tivera apenas uma imperfeita educação; mas quem amou a Deus e neste amor aprendeu a amar os outros foi fortalecido no homem interior (KIERKEGAARD, 2000, p. 83)

O homem interior, portanto, põe seu primeiro fundamento da existência, não nele mesmo, mas em Deus. Ama, por primeiro a quem por primeiro o amou, para, então, a partir desse primeiro amor, amar o seu próximo. A referência primeira é o primeiro amor, Deus.

Dito de outro modo, à deriva de conclusão, o homem estético fundamenta sua existência na exterioridade, no mundo da multiplicidade. Sua vida se resume em desespero, porquanto não efetiva e satisfaz seus múltiplos e contínuos desejos. O homem ético, se recolhe na sua consciência, e movido pela vontade, elege querer o querer, e partir desse querer, escolhe a si mesmo, para efetivar o que ele mesmo deve ser. Essa é sua tarefa. Por fim, dando-se conta de que ele, como indivíduo, não pode ser fundamento de si mesmo, busca, movido pela dádiva da fé, outro fundamento no qual possa elevar sua existência, DeusA rigor, a partir da perspectiva kierkegaardiana, o homem interior é o indivíduo que assume sua interioridade ética, do dever ser o que deve ser, fundamentado no amor de Deus. É a interiorização que se interioriza a si mesmo em Deus. Estamos, pois, no âmbito da paixão da fé. O resto, a exemplo de Abraão, ficamos no silêncio.

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REFERÊNCIAS

KIERKEGA.ARD. S. Oeuvres Complètes: L´alternative. Paris: Éditons de l´Orante, 1970, v. 3.

_____________. Oeuvres Complètes: Post-Scriptum définitif et non cientifique aux miettes philosophiques. Paris: Éditons de l´Orante, 1977, v. 11.

__________. O desespero humano. São Paulo: Martin Claret, 2007. __________. O conceito de angústia. Petrópolis, 2010.

__________. Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor. Lisboa: Edições 70, 1986.

__________. Estética y ética em la Formación de la personalidade. Buenos Aires: Editorial Nova, 1955.

_________. Três discursos edificantes de 1843. Tradução de Henri N. Levinspuhl, 2000.

VERGOTE, H. H. Sens e répétition. Essai sur l´ironie kierkegaardienne. Paris: Cerf/Orante, 1982, v.1 e 2).

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