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Assis, Emerson F. Realismo e Racionalidade: o otimismo epistêmico

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA

Emerson Ferreira de Assis

Realismo e Racionalidade: o otimismo epistêmico em

questão

(exemplar revisado)

São Paulo 2013

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Emerson Ferreira de Assis

Realismo e Racionalidade: o otimismo epistêmico

em questão

Tese apresentada ao programa de Pós-Graduação em Filosofia do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Doutor em Filosofia sob a orientação do Prof. Dr. Caetano Ernesto Plastino. De acordo: (exemplar revisado) São Paulo 2013

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3 “Sejam quais forem o modo e os meios pelos quais um conhecimento se possa referir a objetos, é pela intuição que se relaciona imediatamente com estes e ela é o fim para o qual tende, como meio, todo o pensamento. Esta intuição , porém, apenas se verifica na medida em que o objeto nos for dado; o que, por sua vez, só é possível, [pelo menos para nós homens,] se o objeto afetar o espírito de certa maneira. A capacidade de receber representações (receptividade ), graças à maneira como somos afetados pelos objetos, denomina-se sensibilidade. Por intermédio, pois, da sensibilidade são-nos dados objetos e só ela nos fornece intuições; mas é o entendimento que pensa esses objetos e é dele que provêm os conceitos.Contudo, o pensamento tem sempre que referir-se, finalmente, a intuições, quer diretamente (directe), quer por rodeios (indirecte) [mediante certos caracteres] e, por conseguinte, no que respeita a nós, por via da sensibilidade, porque de outro modo nenhum objeto nos pode ser dado.”

Kant: Crítica da Razão Pura; Estética transcendental, parágrafo 1 - B33

“Pelas condições da nossa natureza a intuição nunca pode ser senão sensível, isto é, contém apenas a maneira pela qual somos afetados pelos objetos, ao passo que o entendimento é a capacidade de pensar o objeto da intuição sensível. Nenhuma destas qualidades tem primazia sobre a outra. Sem a sensibilidade, nenhum objeto nos seria dado; sem o

entendimento, nenhum seria pensado.

Pensamentos sem conteúdo são vazios ; intuições sem conceitos são cegas. Pelo que é tão necessário tornar sensíveis os conceitos (isto é, acrescentar-lhes o objeto na intuição) como tornar compreensíveis as intuições (isto é, submetê-las aos conceitos). Estas duas capacidades ou faculdades não podem permutar as suas funções . O entendimento nada pode intuir e os sentidos nada podem pensar. Só pela sua reunião se obtém conhecimento.”

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4 Agradecimentos

Muito especialmente ao professor Doutor Caetano Ernesto Plastino,

pela condução rigorosa da pesquisa, grande companheirismo e paciente

compreensão de minhas limitações.

Aos professores Osvaldo Pessoa e Pablo R. Mariconda, pelas valiosas

sugestões no momento do exame de qualificação e durante os cursos que

ministraram no departamento.

Aos professores visitantes que ministraram cursos e seminários no

departamento, em especial o professor Hugh Lacey pela possibilidade de

discutir ideias, além das valiosas sugestões.

À minha esposa Ana pelo apoio constante e paciência incomum.

Aos funcionários do departamento de pós-graduação do

departamento de Filosofia, da secretaria e da biblioteca, pela presteza nas

inúmeras solicitações.

À Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, pela

oportunidade de realização do trabalho de doutoramento.

À Coordenação de aperfeiçoamento de pessoal de nível Superior

(CAPES), pela bolsa concedida durante o desenvolvimento do trabalho na

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Resumo

Assis, Emerson F. Realismo e Racionalidade: o otimismo epistêmico em questão. 2013. 286 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.

O realismo científico é uma concepção filosófica da ciência que assume uma atitude epistêmica positiva em relação às melhores teorias científicas disponíveis, recomendando, sob algumas circunstâncias (em geral o atendimento de princípios metodológicos bem estabelecidos), a crença nas afirmações que estas teorias fazem a respeito do observável e do inobservável. Hilary Putnam, um dos nomes mais salientes no atual cenário filosófico anglofônico, é um autor que, mesmo tendo mudado diversas vezes concepções centrais de suas propostas filosóficas, tem no realismo científico um interesse perene. Em sua mais recente produção, tem defendido que a relatividade conceitual (uma marca característica de muitas abordagens antirrealistas acerca da ciência) é compatível com o realismo científico (Putnam: 2012; p. 63). Esse trabalho procurará investigar a possibilidade de sustentar a proposta de Putnam, analisando a relatividade conceitual e os pressupostos realistas no campo que efetivamente separa as posições realistas e antirrealistas da ciência: o entendimento do que as melhores teorias científicas afirmam sobre o inobservável. Antirrealistas são em geral agnósticos em relação às proposições sobre o inobservável, ou instrumentalistas em relação a essa parte da teorização científica, ao passo que realistas (sob as circunstancias acima evocadas) afirmam que é epistemicamente justificável acreditar na existência dos ditos “inobserváveis” e que a descrição científica dos mesmos “representa” características desses eventos ou objetos. Concluímos que a proposta de Putnam leva ao que o mesmo chama em “Ética Sem Ontologia” a uma “Objetividade sem Objetos”, uma forma de realismo local (aqui entendido como envolvimento direto com o processo de mensuração/interação do objeto ou evento), de caráter eminentemente estrutural e cujo pronunciamento ontológico mais significativo é de que o mundo responde e restringe nossas ações, e esse responder (uma metáfora adequada seria ressoar) nos permite conhecê-lo. Construímos imagens do mundo, mas uma ontologia final assim como uma narrativa absoluta dos eventos está fora de nossas possibilidades cognitivas.

Palavras-chave: Realismo, ontologia, realidade, dimensões de comprometimento.

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ABSTRACT

Assis, Emerson F. Realism and Rationality: the epistemic optimism in question. 2013. 286f. Thesis (Doctoral) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.

Scientific realism is a philosophical conception of science that assumes a positive epistemic attitude about the best available scientific theories, recommending, under some circumstances (usually the meeting of some well established methodological principles), the belief concerning what these theories claim about the observable and unobservable. Hilary Putnam, one of the most prominent names in the current Anglophonic philosophical scene, is an author even having changed central conceptions in their philosophical thought along time, keep scientific realism as an perennial interest. In his latest production, has argued that conceptual relativity (one hallmark of many anti-realists approaches about science) is compatible with scientific realism (Putnam 2012, p. 63). This work will seek to investigate the possibility of supporting what was proposed by Putnam, analyzing conceptual relativity and realistic assumptions in the field that effectively separates realistic and anti-realists conceptions of science: understanding what the best scientific theories say about unobservable. Anti-realists are at large agnostic about the unobservable or instrumentalists in relation to that part of scientific theorizing, while scientific realists ( under the circumstances mentioned above ) say the believe in the existence of said "unobservable" is epistemically justified, as the scientific description of that events or objects. We conclude the Putnam idea leads to what they call in "Ethics Without Ontology" for a "Objectivity without objects", a form of local realism (here understood as direct involvement with the measurement process / interaction with the object or event), eminently structural character and whose ontological statement more significant is the world responds and restricts our actions, and that answer (an apt metaphor would be resonate) allows us to meet him. We build images of the world, but an final ontology as well as an absolute narrative of events are out of our cognitive possibilities.

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SUMÁRIO

Resumo_______________________________________________ 5

Introdução_____________________________________________ 8

Capítulo 1: Realismos científicos e seus problemas_____________ 22

Capítulo 2: Observação, observabilidade e objetivo: Processos

epistêmicos e o status representacional das teorias e modelos____ 68

Capítulo 3: Putnam, relatividade conceitual e elementos epistemológicos fundamentais de uma interpretação da mecânica quântica______________________________________________149

Capítulo 4: O epistêmico e o cognitivo: Em busca de uma noção de realidade_____________________________________________194

Capítulo 5: Considerações finais: realismo sobre alguma coisa ou somente um antirrealismo a escolher? _____________________245

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Introdução

Uma das características mais notáveis da ciência moderna é que ela explica e prevê fenômenos que podemos observar postulando entidades que não podem ser observadas. Muitas das explicações científicas a respeito de diversos fenômenos, cotidianos e nem tão cotidianos, apelam para entidades que são pequenas demais para serem vistas - a TV funciona porque os elétrons estão sendo emitidos na direção da tela fazendo-a iluminar-se em determinados padrões, que constituem as imagens; a cor dos olhos de um sujeito é tal qual porque o sujeito herdou dos pais o DNA que estabelece a cor dos olhos, segundo certas regras de permutação que implicam certas probabilidades; a febre surge porque um vírus ataca o sistema imunológico.

Algumas explicações recorrem a entidades que são tão grandes, ou estão tão longe – a radiação de estrelas distantes apresenta uma frequencia ligeiramente menor do que o esperado porque o universo (grande demais para ser visto) está em expansão; mas este não está se expandindo tão rápido quanto se pensava dado que contém "matéria escura" - objetos (por exemplo, planetas, mas outras coisas ainda a serem “descritas”) que não emitem luz no espaço, por isso não podem ser detectados por meio de observações astronômicas normais, mas afetam o campo gravitacional. E algumas entidades não são observáveis não por causa de seu tamanho, forma ou distância, mas simplesmente por causa de sua natureza – objetos de metal são atraídos para um imã devido ao campo magnético; a massa (inercial) de um objeto faz com o mesmo resista à aceleração,

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mas nem o campo magnético nem a própria massa podem ser diretamente observados .

Entidades desse tipo estão presentes na maior parte das teorias da ciência moderna. Mas o fato de que nós, seres humanos que construímos essas teorias, não as observamos diretamente – isto é, por meio dos sentidos desarmados - levanta a questão: sabemos, se o sabemos, que essas entidades estão realmente “lá”? De que forma o sabemos ou podemos saber? Estas perguntas dividem os filósofos da ciência em dois grandes grupos: realistas científicos - que acreditam na realidade das entidades teóricas - e antirrealistas – que são agnósticos ou instrumentalistas acerca das entidades teóricas inobserváveis.

A distinção entre o que é observável e o que é inobservável está presente de longa data na filosofia e, em particular, nas investigações filosóficas acerca da ciência. Mais ainda, tal oposição é encarada como fundamental por muitas escolas filosóficas (particularmente aquelas abertamente orientadas pelas convicções empiristas). Seguindo Smart (1963, cap. II), coisas como mesas, pedras, árvores e estrelas existem no mundo; são objetos físicos macroscópicos incontroversos. Por outro lado, entidades microscópicas de diferentes teorias científicas como prótons, nêutrons, elétrons, mésons, fótons, DNA, entre outros, têm continuamente sua existência e suas respectivas descrições colocadas em xeque. Muitos filósofos, inspirados não raro pelas declarações de natureza epistemológica de cientistas do calibre de Niels Bohr (1957[2008]), afirmam que conceitos desse tipo não fazem referência ao estoque de entidades do mundo, mas são dispositivos conceituais para prever e manipular o comportamento de objetos macroscópicos tais como pedras e voltímetros. De certo modo, tal abordagem entende, por exemplo, a palavra “elétron” como um

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conceito útil pertencente a uma teoria física, que permite aos usuários dessa teoria falar de maneira mais cômoda a respeito de observações efetuadas de objetos macroscópicos, por exemplo, um traço em uma câmara de nuvens (de Wilson). De modo mais preciso, inobservável, como o termo indica, se relacionaria àquilo que não pode ser observado. Sendo mais justo, entretanto, inobservável diz respeito àquilo que não pode ser constado diretamente pelos sentidos (Chakravartty, 2007; cap. 1, pág. 4). Muito do debate entre realistas e antirrealistas pode ser dissolvido, possivelmente, se for levada em conta essa premissa, embora não haja consenso acerca desse posicionamento no âmbito da Filosofia da Ciência. Enquanto conceito filosófico, “inobservável” é o sucessor do que no empirismo lógico era chamado de “conceito teórico”.

Essa distinção entre o que é observável e o que é inobservável passa a ser fundamental na filosofia moderna, em especial para os empiristas, como já mencionado. Assim, seguindo van Fraassen (1980), a postura empirista sugere a crença no que a ciência tem a dizer somente sobre o que é observável; o que a ciência diz sobre o inobservável, pode ou não fazer referência a coisas existentes no mundo, mas não são dignas de crédito dado que o método de acesso (cognitivo) a tais entidades é necessariamente indireto.

Se esse debate permanecesse nos compêndios de filosofia, a situação seria menos problemática. No entanto, a querela epistemológica acaba por influenciar as concepções de ciência e do valor cognitivo do conhecimento científico, tanto do homem comum, essa figura tão menosprezada pela filosofia (com exceção, talvez, da escola pragmatista) quanto do cientista em formação (Pietrocola: 1999; Westphal & Pinheiro: 2004). O homem comum, por seu lado, desde que não afetado por qualquer problema psiquiátrico ou cerebral, crê que conhece as coisas que estão ao seu alcance: as

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pedras, mesas e árvores incontroversas, tal como sugere Smart. Isso significa que ele acredita que suas crenças a respeito de cadeiras, mesas, automóveis etc. correspondem às características dos objetos em questão. Ele sabe (ou pelo menos pensa saber) que a cadeira é de madeira e a mesa é marrom. Cientistas (particularmente os praticantes das ciências naturais), pelo menos alguns, em alguns momentos, parecem crer também que os objetos ao seu alcance são objetos do conhecimento. No entanto, para além dos objetos cotidianos incontroversos, nossas cadeiras, mesas e árvores, o cientista pensa estarem ao seu alcance, por meio de diferentes meios experimentais e teóricos, elétrons, quarks, genomas, entre outras “entidades” propostas pelas melhores teorias científicas disponíveis. O homem comum, embora nem sempre compreenda perfeitamente essas entidades, acredita no poder da ciência em conhecer e manipular esses objetos, e nisso parece ser seguido pelos cientistas (que em geral são muito mais cautelosos em suas afirmações acerca da crença nas proposições científicas, preferindo termos como “trata-se de um bom modelo”; “tal teoria dá conta dos resultados experimentais”, etc.). Essa crença mais ou menos ingênua na existência e na veracidade das descrições das entidades do mundo é o chamado realismo de sendo comum ou ingênuo (p.ex. Giere: 2006, pág. 4).

Em sua crença ingênua, o homem comum acredita que a ciência, em sua busca pela verdade, produz conhecimento do mundo (isto é, conhecimento acurado do real). Estar de posse do conhecimento científico parece equivaler à posse da verdade. Entretanto, as análises críticas que diferentes filósofos realizaram no decorrer do século XX (evocadas brevemente acima) colocaram em xeque essa imagem científica do senso comum, mostrando que o conhecimento científico é parcial, falível, permeado de valores.

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Admitindo, por força do hábito, que o conhecimento seja crença verdadeira justificada, o conhecimento científico, interpretado pela filosofia do século XX, mostrou-se como crença, mas a questão de sua justificação ainda está em aberto, tanto quanto a questão do que significaria dizer que o conhecimento científico seja verdadeiro.

Assim sendo, o quadro geral que se apresenta na filosofia da ciência em relação ao valor cognitivo das teorias científicas pode ser sumarizado como segue: de um lado (chamemos essa concepção de “realismo”) se sustenta a crença nas teorias científicas e em sua capacidade de descrever o modo como é constituída a realidade; tal confiança se sustenta seja pela incrível e crescente capacidade de construção de tecnologias cientificamente informadas, seja pela capacidade da ciência em explicar e prever os mais diferentes fenômenos. A ciência parece conhecer a realidade, pois tem sido bem sucedida em dominá-la. Entretanto, seguindo diferentes trajetórias, diferentes filósofos tentaram mostrar que a suposição de que o controle da natureza é um indício de conhecimento da natureza não é uma inferência tão óbvia (p. ex., Adorno e Horkheimer: 1947[2002]; Lacey: 1999). O que divide estas últimas interpretações da concepção realista são, por assim dizer, temas de natureza extra epistêmica que implicam a discussão ou questionamento epistêmico da ciência.

De outro lado, e mais tradicionalmente, o ceticismo seletivo proposto pelas abordagens empiristas recusa parte fundamental da concepção realista da ciência (que é a aceitação da descrição proposta acerca do inobservável como verdadeira ou aproximadamente verdadeira). No entanto, se entre o realismo e as críticas de natureza sociológica da ciência o debate se dá em geral recorrendo a termos extra epistêmicos, o debate entre realistas e empiristas se dá essencialmente nos mesmos termos (p. ex., o valor da observação; das previsões bem sucedidas; das teorias bem

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testadas e aceitas pela comunidade científica; o uso de instrumentos científicos; etc).

O que separa realistas e empiristas no campo da filosofia da ciência é a valoração que cada um dá aos elementos metodológicos e epistemológicos entendidos como presentes na atividade científica, valorações tais que implicam discordância direta em relação a amplitude possível da ontologia científica (ou melhor, da crença de natureza ontológica aceitável baseada nas melhores teorias científicas disponíveis). Exemplo simples: a distinção observável e inobservável é fundamental a qualquer posição empirista; já para o realista, ela é dispensável (Maxwell: 1962), embora compreensível no interior de uma postura realista. A previsão de fatos novos interessa a realistas e empiristas, mas o peso epistêmico que cada um atribui a tal fenômeno é distinto. Nesse sentido, entre a concepção realista e as abordagens alinhadas com o empirismo o debate se dá em um contexto de conceitos metodológicos e epistemológicos que não estão em questão: um debate propriamente antes que um questionamento radical.

Assim, a ciência, como atividade humana complexa que é, apresenta diversas faces passíveis de análises distintas. Essa multidimensionalidade da atividade científica, sem adentrar muito na questão, levou ao surgimento de um domínio cultural bem determinado, hoje conhecido como Science Studies. Neste amplo campo de possibilidades que são os Science Studies, a questão do status cognitivo das teorias científicas poderia ser discutida a partir de ângulos distintos, p. ex. uma interpretação sociológica do conhecimento produzido, uma análise histórica da formação, manutenção e reformulação do conhecimento científico efetivamente produzido, etc. No entanto, reconhecendo e admitindo todas essas possibilidades, esse trabalho considerará uma questão bastante

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específica: a natureza das proposições e conceitos relacionados ao inobservável, o que pode ser expresso nas questões sobre o que pode ser filosoficamente inferido do que as melhores teorias científicas disponíveis afirmam (i) sobre a existência dos ditos “inobserváveis” e (ii) do status cognitivo das descrições científicas desses “inobserváveis”.

Desse modo, metodologicamente, dados os interesses deste trabalho e suas limitações, não serão consideradas as críticas de natureza extra epistêmicas. Por outro lado, é importante salientar que a recusa em tratar essas questões não implica a recusa de legitimidade de tais questionamentos, tampouco se recusará a análise de autores fortemente associados a essa tradição crítica.

Dado que o interesse deste trabalho é a análise da natureza epistêmica de uma classe específica de proposições no corpo de conhecimento científico (as proposições a respeito do inobservável), o debate realismo x antirrealismo é o lócus em que a questão tem maior saliência, e logo a leitura dos termos básicos em que se dá esse debate é uma decorrência natural da escolha do objeto de pesquisa, embora a questão possa apresentar interesse para além do debate em que ela ocorre com centralidade. O tema que divide essas “posições” filosóficas é exatamente a crença ou não a respeito do que é afirmado, pelas teorias científicas, sobre elementos que estão para além da observação imediata realizada pelos sentidos desarmados1.

Realismo e de volta ao realismo

1 Note-se que o realismo é uma posição filosófica com dimensões metafísica, epistêmica e semântica

características. Qualquer concepção filosófica que recuse uma dessas dimensões pode ser encarada como antirrealista. Essas dimensões serão discutidas no capítulo 1

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As questões sugeridas por este trabalho estão fortemente presentes no debate estabelecido a respeito do realismo científico. E é na obra de Putnam que este tema possui abrigo perene, ainda que o próprio Putnam seja um filósofo amplamente conhecido por mudar suas opiniões, alguma vezes de maneira radical.

O percurso de Putnam na trilha do realismo começa já no início de sua carreira. Nesse primeiro momento, Putnam defende um realismo de amplo sentido, mas inegavelmente com uma orientação para o realismo científico que, conforme ele mesmo diz (Putnam: 2012, cap. 4) nunca abandonou. O primeiro resultado importante desse período, em relação ao tema, é o famoso argumento do milagre, o qual será discutido em profusão no capítulo 1.

O ano de 1976 marca o início da primeira guinada do realismo putniano. É nesse ano que surgem os elementos fundamentais do que ficaria rotulado como realismo interno. Essa remodelação do que deveria ser considerado como um realismo sustentável tem múltiplas fontes, que vão evoluindo no tempo, a aqui esboçamos apenas os aspectos elementares.

O primeiro desenvolvimento importante é a percepção de que há uma forma de realismo que Putnam chama de Realismo Metafísico. Muito dessa percepção se deve creditar às críticas construtivistas que ganham espaço no final dos anos de 1960 e 1970, em especial as aprofundadas discussões acerca da relatividade conceitual, que passa a ser um dos temas da tópica de Putnam a partir desse momento. O desenvolvimento da percepção de Putnam envolve o questionamento da interpretação realista (agora qualificada como metafísica) marcada pelas seguintes teses (Putnam: 1977):

(i)

Que o mundo consistiria em uma totalidade fixa de

objetos não dependentes da mente.

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(ii)

Que há exatamente uma descrição completa e

verdadeira do modo como o mundo é.

(iii)

Que verdade envolve algum gênero de relação

correspondencial entre os termos da linguagem e

coisas externas ou conjuntos de coisas externas.

(iv)

Esse primeiro conjunto caracterizaria o “Ponto de

Vista do olho de Deus”, uma avaliação externalista

do conhecimento.

(v)

Que há uma distinção clara entre as propriedades das

coisas “em si mesmas” e propriedades que são

projetas por nós, sujeitos cognitivos, nas coisas.

(vi)

A suposição de que as teorias, em especial a Física,

entendida como a ciência fundamental, encontra

as propriedades das coisas como elas são “em si

mesmas”.

(vii)

A suposição de forte (possivelmente radical) distinção

entre fato e valor.

Baghramian: 2008; pág. 24.

O chamado do argumento do modelo teórico é aquele que fundamentalmente coloca tais suposições em xeque. Este é, de certo modo, um desenvolvimento do argumento quineano da inescrutabilidade da referência. O argumento do modelo teórico (que apresenta pelo menos três diferentes versões ao longo do tempo) essencialmente afirma, baseado nos resultados dos teoremas de Skolem, que qualquer linguagem é semanticamente indeterminada, significando isso que a referência dos termos de uma linguagem não pode ser univocamente determinada. É um resultado diretamente

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contrário ao realismo metafísico que, definido por Putnam, afirmaria a existência de uma totalidade fixa (de objetos e propriedades), as quais a teoria (ou teorias de partes dessa totalidade) deveriam corresponder (univocamente).

Frente ao argumento do modelo teórico, as suposições (ii) e (iii) são derrubadas e, ato contínuo, a precariedade das outras suposições sem a sustentação daquelas leva Putnam a um novo entendimento do que seria o realismo. Esse novo entendimento, cujo rótulo é de um realismo interno é marcado substancialmente por algumas ideias precisas. A primeira e talvez a mais importante seja a de que o realismo interno seja uma avaliação científica da ciência. De certo modo essa interpretação viria, se sustentada, a coadunar-e com a leitura original do argumento do milagre cuja vindicação, por assim dizer, traria apoio ao realismo interno. No entanto, como os críticos apontaram e o próprio Putnam reconhece (Putnam: 2012, cap. 4), essa pretensão não foi das mais felizes (argumentaremos a razão pela qual essa pretensão parece descabida no capítulo 1, quando considerarmos que o realismo científico é melhor descrito como uma “posição” filosófica).

A segunda ideia marcante do realismo interno é o verificacionismo semântico. O abandono da noção de que verdade seria um gênero de correspondência leva Putnam a afirmar que a noção de verdade deve ser entendida de modo epistêmico, isto é, a verdade seria a assertibilidade garantida sob condições ideais de pesquisa. É nesse sentido que o realismo putniano pode ser considerado interno: não há um ponto arquimediano no qual poderíamos sentar e contemplar a verdade; a verdade assim entendida seria radicalmente não epistêmica e ainda nossas melhores teorias, que instanciassem

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todos os valores cognitivos bem estabelecidos, que alcançassem adequação empírica fora de questão, poderiam ser falsas. Isso se apresenta à Putnam como um contrassenso. No entanto, o verificacionismo semântico presente no realismo interno acaba por convertê-lo, segundo o próprio Putnam e alguns críticos, em uma forma de antirrealismo.

A partir dos anos de 1990, Putnam revisa novamente suas posições fundamentais e, reencontrando os filósofos pragmatistas e Wittgenstein à sua maneira, passa a defender uma forma de realismo que é chamada de realismo direto ou realismo natural. Tal como sugere, essa nova abordagem pretende ser um meio termo entre as fantasias do realismo metafísico e as tendências idealistas do realismo interno. Essa nova abordagem pode ser caracterizada como abandonando a visão epistêmica da verdade em benefício de uma visão minimalista, o resgate do realismo do senso comum via dissolução da noção de “dados sensoriais”, afirmando que a percepção se dá a respeito dos objetos e não de “irritações das terminações nervosas” depois “interpretados como” sendo a respeito de objetos. Outra importante tese, e essa aparentemente controversa, é a sustentação de que a relatividade conceitual – também o pluralismo conceitual, distinção feita a partir do seu “Ética Sem Ontologia” – seja compatível com as pretensões realistas fundamentais. Um adendo que é preciso frisar: seja qual for o rótulo que Putnam associa a suas pesquisas, o realismo científico em sentido geral – entendido como a crença de que as teorias científicas produzem conhecimento sobre o mundo – está presente em toda a obra de Putnam. O realismo direto não abandona o científico nem se opõe a ele, mas constitui um quadro que, se

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se pode notar que ainda incompleto, nos permite divisar o que deve ser tomado em consideração na busca de uma visão humana do que seja a realidade (Monroy et ALL: 2008, pág. 241).

São as propostas dessa mais recente fase da produção filosófica putniana que pretendemos ter como guias no caminho reflexivo instanciado por esse trabalho. Para tanto, no capítulo 1 apresentaremos uma breve revisão da literatura em torno do realismo científico, os principais argumentos em sua defesa como as críticas mais severas e contumazes. No capítulo discutiremos a dicotomia observável x inobservável, tentando entender seu papel no debate realismo x antirrealismo e procurando encaminhar elementos fundamentais do realismo direto sugerido por Putnam. No capítulo 3 avançaremos a aproximação da proposta putniana com a interpretação relacional da mecânica quântica, procurando encontrar a passagem do realismo direto ou natural ao realismo científico orientado pelos mesmos princípios, essencialmente uma visão direta de percepção (que se realiza por meio da ideia de que o ser humano é ao cabo um “aparato” de detecção).

No capítulo 4 discutiremos as implicações da posição advogada, em especial o forte viés naturalizado apresentado, tendo em conta a forte oposição de Putnam a esse tipo de abordagem epistemológica. A questão da relatividade conceitual e do pluralismo conceitual serão discutidos mais detidamente, e a questão da relatividade cognitiva colocada sob esse pano de fundo. Será sugerida uma forma fraca de relatividade cognitiva, derivada da particular interpretação do acesso cognitivo que é sugerida ao longo dos capítulos 2 e 3, compatível com as

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formas de relatividade e pluralismo conceitual advogadas por Putnam.

Por fim, no capítulo 5 tentaremos responder à questão crucial: se somos realistas, somos realistas sobre o que? Será sugerido que o realismo direto de Putnam apresenta-se como uma forma de realismo local (aqui entendido como envolvimento direto com o processo de mensuração/interação do objeto ou evento), de caráter eminentemente estrutural e cujo pronunciamento ontológico mais significativo é de que o mundo responde e restringe nossas ações, e esse responder (uma metáfora adequada seria ressoar) nos permite conhecê-lo. Construímos imagens do mundo, mas uma ontologia final assim como uma narrativa absoluta dos eventos está fora de nossas possibilidades cognitivas. Em contrapartida, uma nova objetividade “sem objetos” passa a ser inteligível, assim como parece garantida a independência metafísica do mundo em relação à mente. Se esta é uma forma de realismo que merece o rótulo é uma questão a ser debatida, embora os insights que ela permite divisar a respeito da prática científica nos pareçam significativos.

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Capítulo 1

Realismos científicos e seus problemas

O realismo científico pode ser definido como uma interpretação filosófica da atividade científica e seu produto característico, as teorias científicas. Embora essa definição elementar seja mais ou menos trivial, precisar exatamente o conteúdo da mesma não é tarefa simples: se 5 realistas forem reunidos em uma sala, possivelmente de lá saiam 6 teorias realistas distintas (Chakravartty, 2011). Uma visão panorâmica da literatura a respeito do tema demonstra que há uma infinidade de caracterizações do realismo, além de pequenos matizes que cada autor associa ao tema, matiz que acaba por dar nascimento a uma compreensão particular do que seja o realismo científico. Por outro lado, pode-se ver, nas diferentes variantes dessa posição, um conjunto de ideias comuns, em especial a atitude epistêmica positiva em relação aos resultados da investigação científica, não importando se as proposições científicas fazem referencia ao observável ou ao inobservável (Hacking: 1983, parte A, cap. 1; Chakravartty: 2007, cap. 1; Chakravartty: 2011).

Bas van Fraassen assim define o realismo:

“A ciência objetiva nos dar, em suas teorias, uma história literalmente verdadeira de como o mundo é, e a aceitação de

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uma teoria científica envolve a crença de que ela é verdadeira. Esse é o enunciado correto do realismo científico.”

van Fraassen: 1980; p. 8 [tradução nossa] Por outro lado Boyd sugere uma definição mais refinada:

“Por ‘realismo científico’ filósofos tipicamente entendem uma doutrina que podemos pensar como incorporando quatro teses centrais:

(i) “Termos teóricos” nas teorias científicas (isto é, termos não observáveis) deveriam ser pensados como expressões que referem putativamente; teorias científicas deveriam ser interpretadas “realisticamente”.

(ii) Teorias científicas, interpretadas realisticamente, são confirmáveis e de fato frequentemente confirmadas como aproximadamente verdadeiras pela evidência científica ordinária em conformidade com padrões metodológicos ordinários.

(iii) O progresso histórico da ciência madura é em grande parte uma matéria de aproximações sucessivamente mais acuradas da verdade a respeito de fenômenos observáveis e inobserváveis (ambos). Teorias mais recentes tipicamente são construídas sobre o conhecimento (observacional e teórico) incorporado em teorias prévias.

(iv) A realidade que as teorias científicas descrevem é em grande parte independente de nossos pensamentos ou comprometimentos teóricos.”

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Antirrealistas como van Fraassen, embora concordem que todas as proposições científicas sejam verdadeiras ou falsas, defendem que as teorias científicas descrevem o mundo apropriadamente somente em seus aspectos observáveis. É preciso frisar que no contexto filosófico, a observação diz respeito à percepção com os sentidos desarmados (Shapere: 1982). Nesse contexto, parece haver um consenso generalizado no que diz respeito às proposições acerca de observáveis: estas possuem valor de verdade determináveis, e portanto menos problemático é o status cognitivo das proposições cujo conteúdo é passível de observação (evidentemente, trata-se de uma aparência, como ressalta, entre outros, Popper, 1934[1993]; Kuhn, 1962[2003]). Logo, fica evidente que realismo em filosofia da ciência (ou realismo científico) é fundamentalmente uma tese mais forte: afirma-se, segundo essa orientação filosófica, que (i) entidades inobserváveis propostas pelas teorias empiricamente bem sucedidas existem, e (ii) a descrição científica de tais entidades corresponde, pelo menos aproximadamente, a como essas entidades e processos se comportam no mundo, e no limite podem ser avaliadas em relação à sua verdade ou falsidade.

Conforme ressalta Maxwell (1962), a distinção entre observável e inobservável é fundamental às posturas empiristas, mas dispensável para realistas, em especial os científicos, dado que estes aceitam proposições de ambos os domínios. O cerne de seu argumento encontra-se na dificuldade em traçar uma linha de distinção clara entre o que seria a observação com os sentidos desarmados em oposição aos sentidos auxiliados, uma distinção que fosse adequada aos desenvolvimentos da ciência contemporânea, que não está em questão. Dado todo o conhecimento disponível hoje a respeito das complexas operações neurofisiológicas envolvidas na percepção sensorial humana, e levando em conta como esse

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conhecimento foi desdobrado recentemente nos campos da filosofia e da compreensão da percepção (Bonjour: 2007), o tipo de argumentação proposto por Maxwell pode ser fortalecido. Não se trata de afirmar que a observação (tal como acima entendida) não faz sentido à ciência contemporânea, mas o ato perceptivo já é um ato mediado por processos neurofisiológicos complexos, emulados, em certo sentido, pelos aparatos desenvolvidos para a observação científica (Shapere: 1982).

Evocando muito brevemente a orientação corrente em relação ao conceito de observacionalidade, podemos assumir a caracterização do mesmo tal como proposta por van Fraassen, que pensa ‘observacionalidade’ como um conceito ‘fuzzy’. Isso significa que, como conceito ‘vago’, nenhuma definição explícita poderá captar o sentido (ou pelos menos todos os sentidos, ou os sentidos mais relevantes), sem impor torções incompatíveis com a prática científica ou com os comprometimentos empiristas.

Entretanto, como apontou Maxwell, persiste o problema para o programa do empirismo construtivo que advoga Bas van Fraassen (e para qualquer orientação empirista em filosofia da ciência): caracterizar o observável. No livro “A imagem científica” (1980) afirma o autor holandês, a título de caracterização, que o observável é uma questão antropocêntrica (observável é observável para a comunidade epistêmica em questão); deve ser determinado pelas melhores teorias (científicas) disponíveis. Algumas afirmações associadas a essa concepção são:

“X é observável se há condições que são tais que, se X nos estiver presente nessas condições, então vamos observá-lo.”

“(...) sendo em parte função dos limites que a ciência revela sobre a observação humana, a distinção é antropocêntrica. Mas uma vez que a ciência coloca os observadores humanos entre os sistemas físicos que ela

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pretende descrever, ela mesma também se confere a tarefa de descrever distinções antropocêntricas. É desta maneira que mesmo o realista científico deve respeitar a distinção entre os fenômenos e o transfenomenal no retrato científico do mundo.”

“Dar uma olhada nas luas de Júpiter através de um telescópio me parece ser um caso claro de observação, uma vez que, sem dúvida, os astronautas vão ser capazes de vê-las também de perto. (...) Mas a suposta observação de micropartículas em uma câmara de vapor me parece um caso claramente diferente – se estiver correta nossa teoria sobre o que ali acontece. (...) Assim, apesar de ser a partícula detectada por meio da câmara de vapor, e essa detecção estar baseada em observação, claramente, esse não é um caso de estar a partícula sendo observada.”

“teorias diferentes podem nos fornecer caracterizações diferentes do que é observável”; os limites da observabilidade, por conseguinte, “não podem ser descritos uma vez por todas”

van Fraassen: 1980 [2007], p. 40, 113, 41, 110, respectivamente2 da tradução brasileira.

O problema da observabilidade é tratado por van Fraassen tomando como critério fundamental a adequação empírica de uma classe de submodelos. As teorias científicas são modelos e, internos a estes, subsistem submodelos ou subestruturas empíricas (consistentes com o modelo mais geral) que se referem especificamente aos elementos observáveis do domínio científico em questão.

A caracterização da noção de observabilidade é, no mínimo, internamente confusa na economia da obra. Define-se o que é observável por meio dos modelos científicos, mas o que é observável está contemplado de antemão pelas teorias científicas. Cabe à ciência, segundo o empirismo construtivo, determinar em sua evolução os modelos que vão caracterizar os elementos observáveis.

2 É preciso dizer que tais observações são desenvolvidas e refinadas em outras obras, tais como “The

Empirical Stance” e “Scientific Representation”. Para iniciar a discussão, focaremos a atenção nessas proposições iniciais apresentadas na obra de 1980 [2007].

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A adequação empírica, único critério legítimo para a aceitação de uma teoria científica segundo o empirismo (em especial o empirismo construtivo, como é apresentado por van Fraassen), é determinada pela teoria. “Para delinear o que é observável, contudo, devemos olhar para a ciência – e possivelmente para aquela mesma teoria – já que isso é também é uma questão empírica.” (van Fraassen, 1980 [2007], p. 57).

Outro aspecto central da posição de van Fraassen em relação à observabilidade é a de que a mesma é uma distinção antropocêntrica. Os limites da observação humana são os critérios base para tal distinção. “O organismo humano é, do ponto de vista da física, certo tipo de aparato de medição. Como tal, ele tem certas limitações inerentes – que serão descritas em detalhes em estágios avançados da física e da biologia” (van Fraassen, 1980 [2007], p. 17). Enfim, o que é observável é aquilo que, tendo presente a comunidade epistêmica adequada (indivíduos com sentidos normais para os padrões científicos vigentes), é visível a olho nu. Se de fato devemos concordar com a aproximação do organismo humano com um aparato – científico – de medição, a imposição de sua centralidade – ou melhor, do seu papel “definicional” no que diz repeito ao que é observável ou não, sem mais, parece precária.

Observação, tal como evocado acima em linhas gerais, é poder visualizar algo sem a utilização de instrumentos, é poder “ver” objetos por meio dos sentidos desarmados. O exemplo da observação (e da observabilidade) das luas de Júpiter (van Fraassen:1980; pp.16-17) em oposição à ‘observação’ de micropartículas em uma câmara de vapor é bastante significativa a respeito desse ponto na obra do holandês.

Em termos gerais o que foi delineado é a reafirmação da impossibilidade de uma distinção linguística (que se colocava, como

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veremos no capítulo 2, sob o rótulo de termos teóricos em oposição aos termos observacionais), sem apresentar uma alternativa criterial suficientemente adequada para o problema da distinção observável x inobservável. A questão dirigida ao empirismo é uma distinção entre observável e inobservável. Dizer que essa distinção depende das teorias, que não pode ser dada de uma vez por todas, não resolve o problema, transfere a questão para a prática científica que em geral não reflete sobre o conceito e, quando o usa, se distancia radicalmente daquilo que os empiristas chamam de observação (Shapere: 1982).

No interior do projeto empirista parece ser insatisfatória a caracterização de van Fraassen, entretanto, aponta em uma direção interessante: a noção de observabilidade, sendo fuzzy (portanto, admite uma maior ou menor pertinência de cada proposição particular sob escrutínio) e dependente das melhores teorias científicas disponíveis (que produzem, por assim dizer, dispositivos que ampliam a capacidade humana de interação com entidades e processos, muitos dos quais inacessíveis por meio dos sentidos ‘desarmados’), abre espaço para uma caracterização da observabilidade como um conjunto de propriedades disposicionais do objeto ou processo sob investigação e as possibilidades de interação (manipulação) de uma determinada comunidade epistêmica com estas particulares propriedades. Esta seria, sem dúvida, uma interpretação do conceito mais próxima daquela corrente na prática científica que, não atendendo rigorosamente ao empirismo “do filosófico” pode, sem dúvida, lançar luz à discussão e, em especial, ajudar na compreensão da noção de observação no interior da postura antirrealista, e mesmo para o realista, embora conceitualmente não seja indispensável uma nítida separação entre observável e inobservável para este último, assumir uma assimetria

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cognitiva entre detectável e indetectável é algo muito presente para a ciência prática e deve, portanto, importar à uma concepção filosófica da prática científica, tal como o realismo científico.

Hacking (1983) faz uma defesa do realismo científico (em seu caso, “realismo de entidades”) por meio de um tipo de estratégia que frisa a manipulação das entidades e processos que é sustentada pelas teorias científicas, e parece apresentar, como um efeito colateral benéfico, uma estratégia interessante na conceitualização da noção de observabilidade. Mais recentemente, e no âmbito de uma concepção empirista construtiva da ciência, Bueno (2011) avança nessa direção, tentando tratar, sob uma ótica empirista, o problema da evidência visual obtida por meio de instrumentos como microscópios (que é introduzir a mediação na observação, embora uma mediação que vai de encontro ao sentido da visão, que seria aquele que, na visão tradicional do empirismo, é o proto tipo modelar da observação).

Por outro lado, parece razoável e bastante reconhecido (Maxwell: 1962; Hacking: 1983; Churchland: 1979 [1986]) que a observabilidade não deve estar ligada à questão ontológica, ou seja, se a extensão das categorias observável e inobservável depende do contexto, da conveniência ou das melhores teorias disponíveis, o mesmo, evidentemente, não pode ser dito a propósito das categorias existente e inexistente. O mesmo diga-se a propósito do chamado argumento do continuum: “Embora haja, certamente, uma transição contínua da observabilidade à inobservabilidade, qualquer discurso acerca de uma continuidade da existência tout court à não existência é, obviamente, destituído de sentido.” (Maxwell: 1962). É evidente a intenção de Maxwell de mostrar que a atitude de negar a existência de referentes para os termos não observacionais é, essencialmente, destituída de sentido, salvo sob uma prova forte de impossibilidade

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referencial para estes elementos das teorias científicas. Essencialmente, isso envolveria mostrar que todos os métodos inferenciais (eventualmente indiretos, como a abdução) possíveis necessariamente não levariam, sob qualquer condição, a descrições adequadas sob o inobservável. Por outro lado, o desenvolvimento concreto da ciência parece indicar que essa suposição é demasiadamente forte (o que é exemplificado nas descobertas de toda a galeria de partículas “anti”, em especial os pósitrons, sugeridos por Dirac em 1928. Cf. Caruso: 1997). Não por outra razão, devemos supor, van Fraassen escapa a esse tipo de crítica, sustentando que a atitude em relação ao inobservável deve ser o agnosticismo.

Com efeito, se o desenvolvimento de instrumentos de potência e definição cada vez maiores desloca a linha que separa observáveis de inobserváveis cada vez mais para o ‘lado observável’ do espectro, não faria sentido o argumento paralelo de que algumas entidades existem em um contexto e não em um outro, ou que hoje em dia elas são atuais e antigamente, por exemplo, antes da invenção do microscópio, eram destituídas de realidade3.

Traçar uma linha distintiva entre observacional e teórico é acidental e, acima de tudo, função da fisiologia humana e do estado de desenvolvimento do conhecimento e da tecnologia. Pessoa (2011) sugere, de maneira muito interessante, a necessidade de teorias a respeito dos sentidos tanto quanto dos instrumentos de medição usados nas ciências para validar as observações provindas de qualquer das fontes, indo de encontro aos problemas colocados pelas reflexões filosóficas acerca do problema da percepção (como apresentados, p. ex., por Bonjour: 2007).

3 É preciso notar que o professor Otávio Bueno publicou (2011) na revista Scientia Studia um interessante

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Isto parece levar justificadamente a uma convicção: mesmo a percepção consiste (pelo menos parcialmente) na exploração conceitual da informação natural contida nas sensações ou estados sensoriais (Churchland: 1979 [1986]). Por seu turno isso sugere uma intrigante questão: quão “eficiente” o ser humano, instrumentalmente desarmado, pode ser como instrumento na exploração dessa informação? A resposta provável (e Quine já frisou isso em mais de uma ocasião) é de que não muito eficiente ou, antes, não tão eficiente quanto seria necessário para o estabelecimento de uma prática científica madura, e logo, por que insistir em um privilégio antropocêntrico na determinação daquilo que é ou não observável? Retornaremos a esse ponto posteriormente.

Dimensões do realismo científico

Seguindo van Fraassen, certas posições filosóficas, tratando antes de atitudes, comprometimentos, perspectivas de aproximação, etc, do que em crenças como o mundo é, devem ser encaradas como “posições” (van Fraaseen: 2002). Assim, se o empirismo construtivo é uma posição antes que uma teoria filosófica (ou científica), o realismo científico parece se qualificar também como uma posição filosófica (usando outra conceituação, tal posicionamento parece poder ser inferido de Searle: 1995, cap. 7 e 8).

A posição do realismo científico envolve prioritariamente o comprometimento com o objetivo de descrever o mundo apropriadamente, nos âmbitos do observável e do inobservável. Esse compromisso é, contudo, derivado de um compromisso anterior, que parece ser o cerne das concepções realistas da ciência, a saber, a afirmação da existência de um mundo independente da mente, de qualquer capacidade cognitiva para conhecê-lo (Putnam: 1975; 1981;

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Hacking: 1983, cap. 1; Chakravartty: 2007, cap. 1 e 2; Searle: 1995, cap. 8).

É do comprometimento com esta tese que deriva o imperativo axiológico do realista, a afirmação de que o objetivo da teorização é a descrição adequada de um mundo independente da mente. Admitida a existência do mundo e o propósito de descrevê-lo adequadamente, coloca-se naturalmente a questão de sua cognoscibilidade, especialmente por meio da razão e, por derivação segunda, o significado epistemológico do conhecimento obtido (suposto que ele seja obtido).

O realismo científico sustenta como sua tese epistemológica que os métodos desenvolvidos pelas melhores teorias científicas - as empiricamente mais adequadas, precisas, capazes preditiva e explicativamente - levam ao conhecimento do mundo tal como ele é. Mais precisamente, as teorias maduras- aquelas que apresentam as características acima elencadas – são bem sucedidas em manipular e prever fenômenos; esse tipo de sucesso é um indício de que as teorias em questão representam adequadamente a realidade, segundo o realista. Naturalmente, por implicação indireta da tese epistemológica, tradicionalmente admitiu-se como um dos pilares da posição do realismo científico que a ciência ambiciona a verdade e que tem tido sucesso em sua busca, se entendermos verdade como representação da realidade e sucesso como capacidade preditiva e de manipulação (veja-se, por exemplo, como van Fraassen define o realismo, pág. 23, acima).

Como já mencionado, a questão crucial no debate realismo versus antirrealismo na filosofia da ciência parece repousar, por um lado, sobre o questionamento do status cognitivo que se pode atribuir às

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descrições das entidades inobserváveis4 propostas pelas teorias científicas, e por outro, a possibilidade de justificar a crença em sua existência. A discussão concentra-se sobre a possibilidade de se afirmar a “existência” das mencionadas entidades, por meio dos métodos científicos de justificação teórica. Em linhas gerais, o realismo científico pretende comprometer-se com a crença de que as entidades inobserváveis utilizadas pelas teorias científicas em seu cabedal explicativo (das teorias bem sucedidas, naturalmente) merecem o status de “existentes” e, mais ainda, que a descrição das mesmas é pelo menos aproximadamente verdadeira.

Pode-se sumarizar esse ponto dizendo que o realismo científico se caracteriza por um ‘pacote’ de teses (embora, seguindo a sugestão de van Fraassen, se o realismo cientifico for encarado como uma posição, seus comprometimentos não seriam propriamente teses, mas orientações, valores, etc. e portanto mais adequado seria afirmar que o realismo científico teria dimensões de comprometimento) que compõem uma postura ou visão filosófica geral a respeito da realidade, do status cognitivo e por implicação dos métodos adequados à atividade científica (estas últimas as duas questões nucleares da filosofia da ciência). Em primeiro lugar podemos afirmar o componente metafísico desse pacote:

• Ontologicamente, o realismo científico compromete-se com a existência de um mundo ou realidade que não dependente da mente (não raro isto se diz: uma totalidade fixa de objetos independentes da mente). Isso significa que a existência da realidade não está vinculada

4 Nossa proposta é descartar a idéia de entidade inobservável por meio da resignificação de observável. Em

seu lugar aparecerá a idéia de inobservado, em relação ao qual o ceticismo é legitimo. Essa resignificação não está discutida no texto até o momento, logo ainda se considera inobservável como um conceito legítimo cujo sentido é o original de “impossível de ser observado por meios empiricamente adequados”.

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à capacidade humana de conceitualizá-la. O realista (científico em particular) admite a possibilidade da existência de entidades ditas inobserváveis, logo recusa a observabilidade como critério de existência.

A tese epistemológica do realismo científico pode ser assim formulada:

• Alegações teóricas da atividade científica, principalmente aquelas oriundas de ciências maduras, constituem conhecimento sobre o mundo, em todos os seus aspectos (observáveis e inobserváveis). Teorias preditivamente bem sucedidas (ou seja, maduras e não ad-hoc) descrevem, pelo menos aproximadamente, como a realidade independente da mente é, quais são seus objetos fundamentais, suas relações e interações. Em especial, as entidades teóricas inobserváveis5 utilizadas na explicação dos fenômenos observáveis, sob certas circunstâncias, devem ser admitidas como existentes e sua descrição entendida como pelo menos aproximadamente verdadeira.

Por fim, a tese ontológica e a epistemológica (ou simplesmente metafísica do realismo científico) parecem demandar o conteúdo da tese semântica, que pode assim ser formulado:

5 Seguindo a semântica tradicional do termo “observável”, um meio passo interessante na resignificação do

conceito é admitir como inobservável aquilo que não pode ser percebido com os sentidos ‘desarmados’ (sem ajuda de algum instrumento). Isso implica uma subdivisão da categoria de entidades inobserváveis: uma primeira, de inobserváveis que não são detectados a menos que instrumentos sejam utilizados para ampliar a capacidade de observação humana (radiotelescópios na observação de quasares, por exemplo) e outros que são teoricamente inobserváveis (espaço absoluto na mecânica racional newtoniana, por exemplo). A distinção é importante quando do tratamento dos comprometimentos ontológicos do realismo e, além disso, pretende-se que a segunda classe deve ser dissolvida, enquanto a primeira incorporada no escopo dos observáveis.

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• Proposições (alegações) teóricas da atividade científica têm valor de verdade intrínseco, isto é, elas devem ser interpretadas literalmente. Se as teorias fazem afirmações sobre um mundo independente da mente, e o mundo é uma totalidade fixa, então somente uma descrição correta desse mundo é possível. As proposições ou alegações das teorias científicas possuem valor de verdade (são verdadeiras ou falsas). Entretanto, admitida a tese epistemológica e o falibilismo, o programa realista acaba se comprometendo, pelo menos em algumas aproximações, com a criação de uma semântica adequada não só para a noção de verdade – mais precisamente, para esta noção de verdade por correspondência que subjaz a essa orientação filosófica - mas uma concepção de verdade aproximada, já que, segundo o realista científico, sob certas circunstâncias as afirmações científicas são não verdadeiras mas (pelo menos) aproximadamente verdadeiras.

Esse pacote de teses sublinha dois aspectos gerais do realismo que são centrais a essa postura filosófica, que podem ser ilustrados. Qualquer postura realista e, em especial o realismo científico, faz afirmações sobre a existência de certas entidades. O realista do senso comum, em face de impressões sensoriais que lhe indicam mesas, pedras, a Lua etc., afirma a existência desses objetos e, mais ainda, que esses objetos possuem características alcançáveis pela cognição humana: a mesa é quadrada ou redonda, de madeira, granito ou outro material; a Lua é (aproximadamente) esférica etc. O segundo aspecto essencial a uma postura realista relaciona-se à

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afirmação de independência. O fato de que um determinado objeto existe e têm determinadas propriedades não depende da mente humana ou dos referenciais conceituais utilizados em sua análise. Nesse sentido, para o realista, o mundo é o que é, e o fato de a Lua ser esférica não depende do que se diga a seu respeito6. É patente que os princípios de realidade e existência abrigam muitos tipos de realismo, e posturas tipicamente antirrealistas podem, em alguma medida, admitir esses princípios (p. ex. Worrall: 1989, pp. 153-154; Psillos: 1999, pp. 105–108)

A presença desses princípios, que podem ser divisados em boa parte da tradição de reflexões enquadráveis sob o rótulo de metafísica, é um indício de que o realismo científico é herdeiro, em alguma medida, das preocupações da metafísica tradicional, e logo dos dilemas fundamentais que ela abarca. Assim sendo, realismo científico é uma postura filosófica em relação à atividade científica e o status cognitivo da teorização científica, sendo impossível caracterizá-lo por meio de uma única proposição tida como “O Princípio” realista. Essa postura se substancializa por meio de compromissos em diversos âmbitos que podem ser organizadas em subconjuntos de proposições de caráter semântico, epistêmico e ontológico (em conjunto, as proposições epistêmicas e ontológicas formam o que se pode chamar metafísica realista, seguindo de certo modo a concepção tradicional de metafísica). Os compromissos centrais endossados pelos partidários do realismo científico – na maioria dos casos pelo menos – caracterizam as teses do pacote realista, como acima evocamos. Essas teses são capturadas facilmente na

6 Evidentemente objetos como faróis ou mesas têm sua existência e propriedades dependentes da mente

humana, pois são criações humanas. Mas essa dependência enquanto objeto de conceito não aflige o realista, pois, também é óbvio, mesmo que realizando uma ideia humana, que depende deste ou daquele referencial conceitual, deste ou daquele objetivo pragmático, o objeto farol, mesa, etc. passa a existir e ser independente de qualquer mente humana. No âmbito dos objetos naturais e suas relações, as afirmações de existência e independência parecem ser ainda mais óbvias e plausíveis.

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formulação de Boyd do realismo científico, tal como a apresentamos na página 23 acima.

Argumentos pró-realismo científico7

O Argumento do milagre ou da ausência do milagre

O principal argumento elencado na sustentação das pretensões do realismo científico, bastante plausível a primeira vista, é que ou as teorias científicas descrevem apropriadamente o mundo (ainda que apenas aproximadamente), ou o seu incrível sucesso preditivo só poderia ser obra de um milagre (Putnam: 1975, p.73; Boyd: 1983, p. 49). Trata-se do famoso argumento do milagre.

O primeiro passo na construção do argumento passa pela afirmação de que a inferência da melhor explicação (IBE; conf. p. ex. Lipton:1991[2004]) é uma ferramenta epistêmica padrão do cientista, e deve estar disponível como método inferencial para o filósofo. Assim, notemos: história das ciências maduras foi constituída por uma sequência de teorias reconhecidamente bem sucedidas no nível observacional. Qual seria, então, uma condição suficiente para explicar esse sucesso? Qual ou quais características as teorias de Einstein as fizeram mais capazes de fazer previsões de sucesso em relação à de Newton? A melhor explicação, segundo o realista, seria a de que essas teorias tinham capturado mais verdade sobre o mundo. Dado que essas teorias bem sucedidas fazem afirmações a respeito de entidades e processos considerados inobserváveis, afirmações que sustentam as previsões e observações efetuadas no âmbito do

7 As duas seções seguintes foram baseadas em Chakravartty: 2011. Entretanto, muitos autores discutem

essa tópica tendo em vista a construção de seus próprios argumentos. Sugerimos também Psillos:1999, cap. 1 e 2; Leplin: 1997.

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observável, seria um mistério total se teorias tão bem sucedidas no nível observacional não fossem pelo menos aproximadamente verdadeiras naquilo que dizem a respeito do inobservável, de que o que elas dizem sobre as estruturas subjacentes da realidade não fosse mais do que uma “ficção útil”. Assim sendo, na consagrada expressão de Putnam, o realismo seria “a única filosofia que não faz o sucesso da ciência um milagre".

O realismo científico, portanto, sob essa perspectiva, apresenta-se como uma teoria explicativa da ciência. Essa teoria trata as proposições científicas, a respeito de observáveis e inobserváveis, literalmente: elas são verdadeiras ou falsas dependendo da sua correspondência com os fatos. Está evidentemente inscrito no realismo científico, segundo essa caracterização, a suposição epistemológica de que os métodos científicos são adequados para produzir uma descrição acurada da realidade. Em suma, seria possível descobrir quais sentenças seriam verdadeiras e, de maneira suplementar, visto que a ciência acumula conhecimento e domínio sobre o real, se afirmaria que ela progride rapidamente em direção a uma descrição completa e verdadeira da realidade.

Entretanto, como mostrou Laudan, teorias científicas parecem apresentar um histórico ruim se o critério utilizado na avaliação for a veracidade de suas proposições ou, equivalentemente, sua estabilidade referencial: a famosa indução pessimista. O que teorias antigas bem sucedidas afirmavam existir – como o calórico – à luz de nosso atual conhecimento, não existe. Assim, o que poderia garantir que no futuro nossas “entidades” ainda vigorem no estoque de entidades aceitas pelas futuras melhores teorias científicas? Em face deste argumento tornou-se corrente entre realistas uma meta mais modesta para a ciência, qual seja, a produção de teorias

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aproximadamente verdadeiras. Contudo, pode-se perguntar como isso se relaciona com a realidade objetivada pelo realismo? Como uma descrição aproximada pode levar ao conhecimento do real? Mais ainda, a crítica de Laudan, como se pode depreender, atinge da mesma forma a pretensão de verdade aproximada (se basearmos a verdade, ainda que aproximada, em sucesso instrumental ou explicativo, a suposta indução persiste pois o sucesso instrumental ou explicativo não parece garantir estabilidade referencial).

O argumento do milagre sustenta que se deve, dado o fantástico sucesso na manipulação do mundo, preditiva e explicativamente, crer que essas entidades inobserváveis supostas ou postuladas (a) realmente existem e (b) são aproximadamente tais como as descrevem as teorias científicas maduras. Como já mencionado, é em relação aos inobserváveis que as principais argumentações — e objeções — têm lugar no debate entre realistas e antirrealistas. Analisemos o argumento detidamente.

O cerne do argumento do milagre é uma intuição poderosa: o argumento parte da premissa aparentemente bem estabelecida de que as melhores teorias científicas disponíveis são extraordinariamente bem-sucedidas. Por meio destas teorias são realizadas previsões, retrodições e explicações nos domínios de investigação científica os mais diversos, no mais das vezes com uma precisão impressionante. Essas previsões não raro envolvem intrincadas manipulações causais de fenômenos (que fundamentam, não raro, o domínio tecnológico). O que explicaria esse sucesso? Uma explicação, intuitivamente plausível e elencada no rol de argumentos realistas, é que as melhores teorias são verdadeiras (ou aproximadamente verdadeiras, ou descrevem corretamente um mundo de entidades, propriedades, leis, estruturas, etc., independente da mente).

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