Revista Acadêmica de Ciência Equina v. 01, n. 1 (2015)

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Revista Acadêmica de Ciência Equina v. 01, n. 1 (2015)

Revista Acadêmica de Ciência Equina v. 01, n. 1 (2015), p. 41 – 46

ISSN 2526-513X

OCORRÊNCIA DE MARSILEA ANCYLOPODA EM ÁREAS DE CAVALOS EM PASTEJO E POTENCIAL RISCO DE INTOXICAÇÃO

OCCURRENCE OF MARSILEA ANCYLOPODA IN PASTURE AREAS AND ITS POTENTIAL RISK OF POISONING

Juliana Skalski1, João Ricardo Dittrich2, Paulo Henrique Labiak Evangelista3, Daniele Sato Mara4, Jaqueline Dittrich5, João Paulo Gomes de Carvalho6

1 Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias na UFPR.

2 Professor do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

3 Professor Doutor do Departamento de Botânica da Universidade Federal do Paraná.

4 Zootecnista e Oficial da Polícia Militar do Paraná.

6 Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias na UFPR.

RESUMO

Espécies vegetais presentes em área utilizada para pastejo de equinos, bovinos e ovinos foram identificas a fim de investigar casos de intoxicação observados em animais mantidos no local. A área estudada localiza-se no Parque Ambiental Aníbal Khury, município de Almirante Tamandaré, Região Metropolitana de Curitiba, Estado do Paraná, sendo adjacente ao rio Barigui e sujeita a alagamentos frequentes. Relatos históricos sugerem que, quando utilizada para o pastejo, os animais apresentam sintomatologia nervosa e, em alguns casos, seguida de óbito. O levantamento botânico indicou a presença de várias espécies vegetais utilizadas como forrageiras e também a presença da planta Marsilea ancylopoda, a qual é incomum em pastagens da região. As espécies do gênero Marsilea são pteridófitas que contém o princípio tóxico tiaminase, podendo desencadear problemas neurológicos quando ingeridas por herbívoros monogástricos. A toxicidade da Marsilea é relatada na literatura para equinos, ovinos, caprinos, bovinos, suínos e humanos. Áreas de várzea podem ser favoráveis ao desenvolvimento desta planta e a utilização das mesmas como áreas de pastejo pode acarretar na intoxicação dos animais e até óbitos.

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ABSTRACT

The plant species occupying a pasture area were identified in order to investigate previous cases of intoxication of animals kept in the site. The studied area is located in the Environmental Park Aníbal Khury, in the city of Almirante Tamandaré, which is in the metropolitan area of Curitiba, in the Paraná State. The place is adjacent to the Barigui River, which implies in frequent floodings. Previously, when the area was used for cattles, horses and sheep grazing, some animals presented neurological disorders and, in some cases, died. Numerous plant species were identified, most of them recognized as foraging species. Nevertheless, we also identified the plant Marsilea ancylopoda in the area, although it is unusually seen in this region of Paraná. The plant species belonging to the genus Marsilea spp. are pteridophytas which contain harmful substances to livestock, such as the thiaminase enzyme. When they are ingested, they may cause neurological diseases. In the literature, the toxicity of Marsilea spp. is reported on horses, sheep, goats, cattle, pigs and also on humans. Flooded lands may promote the growth and development of these plants. So, its use for grazing is not recommended since the livestock may get intoxicated or even die.

Keywords: Marsilea ancylopoda, toxic plants, thiaminase, beriberi

INTRODUÇÃO O gênero Marsilea

O gênero Marsilea (Marsileaceae) é composto por mais de 65 espécies, distribuídas por quase todo o mundo. As plantas desse gênero se caracterizam por apresentarem folhas compostas por dois pares de folíolos, lembrando um trevo de quatro folhas (Figura 1). Desta característica derivam os nomes populares de trevo-de-quatro-folhas ou trevo-de-água, sendo também chamada de european waterclover nos EUA e de nardoo na Austrália, onde algumas espécies são bastante comuns (USDA-NRCS, 2012; CSIRO, 2004).

Consideradas plantas aquáticas, as espécies de Marsilea podem crescer em águas rasas paradas ou com suave correnteza, áreas sazonalmente alagáveis, pântanos, lamaçais, lagos e esgotos à beira de estradas. Quando crescem na lama são eretas, na água podem ser flutuantes ou submersas. A maioria das espécies é perene, rizomatosa e altamente polimórfica. As folhas quadrilobadas são em geral dispostas numa única roseta em torno de um curto caule que permanece enterrado. A presença dessas plantas já foi registrada em inúmeros tipos diferentes de solo, que vão desde areias até argilas. (CSIRO, 2004; OFFORD, 2006)

Segundo a Lista de Espécies da Flora do Brasil, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, já foram identificadas cinco espécies de Marsilea no Brasil, sendo elas Marsilea ancylopoda, Marsilea crotophora, Marsilea deflexa, Marsilea minuta e Marsilea polycarpa, encontradas em Roraima, Pará, Amazonas, Maranhão, Piauí, Pernambuco, Bahia, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul (WINDISCH, 2010).

TOXICIDADE DA MARSILEA

Os princípios tóxicos das plantas do gênero Marsilea são a tiaminase I e glucosídeos norsesquiterpenicos, particularmente o ptaquilosídeo (SIMMONDS, 2000). Compostos semelhantes são encontrados em outras pteridófitas amplamente

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reconhecidas como tóxicas, como Pteridium aquilinum, Cheilanthes sieberi (ambos os compostos) e Equisetum spp. (tiaminase), e também em angiospermas como Amaranthus blitoides e Malva parviflora (tiaminase) (OFFORD, 2006; RIET-CORREA, 1998). Em Marsilea a concentração de tiaminase I pode ser até 100 vezes maior que em Pteridium aquilinum, sendo que as maiores concentrações são encontradas nos brotos, no início da primavera e após pastejo intenso (MCCLEARY et al, 1980). Relatos da toxicidade da Marsilea são bastante comuns, tendo sido registrados para equinos, ovinos, caprinos, bovinos, suínos e humanos (SIMMONDS, 2000; MORAN, 2004).

A tiaminase é uma enzima capaz de destruir a tiamina (vitamina B1) dividindo-a em pirimidina e tiazol, antes que esta seja absorvida no intestino, levando a deficiência dessa vitamina. Seus efeitos tendem a ser mais pronunciados em monogástricos porque nos ruminantes adultos a vitamina B1 é naturalmente sintetizada por microrganismos presentes no rume (SANTOS, 2010).

A tiamina ou vitamina B1 é uma vitamina hidrossolúvel que funciona como uma importante coenzima em diversas vias do metabolismo dos carboidratos, desempenhando um papel, embora ainda não bem definido, nas funções nervosas e cerebrais. A tiamina difosfato tem sido identificada como cofator de várias enzimas do Ciclo de Krebs, atuando na conversão de piruvato e lactato em acetato e do alfa-cetoglutarato em succinato; no metabolismo da glicose (cofator da trancetolase na via das pentoses-fosfato); oxidação do acetil-CoA; e na participação na condução do impulso nervoso (GONÇALVES et al, 2009; SANT’ANA, 2009). A tiamina não possui estoques por longos períodos e apresenta rápida renovação no sangue. Assim, um suprimento contínuo torna-se necessário (GONÇALVES et al, 2009). Como está envolvida no metabolismo da energia, sua carência resulta em comprometimento da glicólise e da produção de ATP. No encéfalo, com a redução da síntese de ATP, ocorre diminuição da eficiência da bomba de sódio e potássio, resultando em retenção de sódio, aumento da pressão osmótica no interior da célula e, consequentemente, alteração no volume celular devido a maior atração de água, levando a formação de lesões de polioencefalomalácia (SANT’ANA, 2009). Em humanos a deficiência dessa vitamina induz ao aparecimento de duas síndromes distintas, a síndrome de Wernicke-Korsakoff e o beribéri. (SANTOS, 2010).

O quando clínico relacionado à ação da tiaminase, é caracterizado por depressão, confusão, desinteresse pelo entorno, aparente cegueira, pressionar de cabeça contra o solo ou paredes e decúbito com convulsões episódicas e leva a morte dentro de poucos dias (RADOSTITS, 2000). Outros sinais observados em equinos após intoxicação por plantas com esses mesmos princípios tóxicos são balançar de um lado para outro, incoordenação da marcha, tal como cruzar das patas dianteiras e hipermetria dos membros posteriores, postura anormal incluindo arquear das costas e agachamento, tremor muscular, irregularidade cardíaca, bradicardia. Em estágio terminal, os animais caem facilmente, ficam em decúbito, são pouco sensíveis a estímulos externos, fazem movimentos convulsivos e há aumento da frequência cardíaca e da temperatura corporal. Nos casos de intoxicação por Marsilea spp. são observados sinais adicionais que incluem apoiar a cabeça perto do chão, relinchar, cegueira parcial, acenar de cabeça, espasmos das orelhas, e bocejos frequentes (RADOSTITS, 2000).

A maioria dos relatos de intoxicação de animais por Marsilea sp são provenientes da Austrália. A planta é apresentada como tóxica para cabras por Simmonds (2000) e para equinos por Offord (2006). McCleary et al (1980) relatou a ocorrência de um surto de polioencefalomalácia em ovinos na região da bacia do rio

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Gwydir, no estado de New South Wales, na Austrália, no verão de 1974-75, associado a uma alta proliferação de Marsilea drummondii. Mais de 2200 ovinos morreram, 600 em uma só propriedade, após ingerirem Marsilea drummondii e outras espécies de samambaias. Os animais respondiam a tratamento com tiamina intravenosa 200 mg. É também da Austrália o mais conhecido relato de morte de pessoas por ingestão de Marsilea sp: em 1861, Robert O'Hara Burke e William John Wills, membros de uma expedição de exploração do Continente Australiano, morreram com sintomas de beribéri, após se alimentarem de Marsilea drummondii. (MORAN, 2004).

SOBRE A OCORRÊNCIA DE MARSILEA NO PARQUE AMBIENTAL ANÍBAL KHURY

O Parque Ambiental Aníbal Khury está localizado no município de Almirante Tamandaré - PR, na Região Metropolitana de Curitiba, a 1 km do centro da cidade e a 10 km do centro de Curitiba. Nesta área de 220 hectares está localizada a sede do 4º Esquadrão do Regimento de Polícia Montada da Polícia Militar do Paraná, que utiliza as baias e piquetes disponíveis para manter os cavalos utilizados no patrulhamento montado, éguas com cria e os que estejam momentaneamente afastados de suas atividades, além de manter um pequeno rebanho de ovinos.

Neste parque há uma área específica de aproximadamente 10 ha, adjacente ao rio Barigui, que foi utilizada como piquete para alimentação de herbívoros até o ano de 2007. A frequente ocorrência clínica de animais, principalmente equinos, com sintomatologia nervosa e óbitos, levou a não utilização desta área para o pastejo a partir do referido ano. No ano de 2012, após detalhado levantamento das espécies vegetais presentes foram identificadas Cynodon sp., Paspalum sp., Pennisetum sp., Trifolium repens, Leersia hexandra, Axonopus sp., Lotus corniculatus e Desmodium sp. como forrageiras conhecidas e Marsilea ancylopoda, Cyperus sp., Heteranthera reniformis, Polygonum acuminatum, Tropogandra diuretica, entre outras, como espécies diversas. A Marsilea ancylopoda está presente de forma generalizada na área avaliada e em alguns locais é a planta dominante (Figura 1). A presença desta planta é incomum em áreas de pastagens da referida região.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A produção e manutenção de herbívoros, principalmente nas regiões metropolitanas das grandes cidades, têm como consequência maior pressão na utilização de áreas inadequadas e até impróprias como pastagens. Esta pressão acarreta na utilização indevida das margens de rios e áreas sujeitas a frequentes alagamentos. A não utilização destas áreas é de extrema importância para a proteção da água e segurança dos animais. Áreas de várzea podem ser favoráveis ao desenvolvimento das espécies de Marsilea e a utilização das mesmas como áreas de pastejo podem acarretar na ingestão voluntária ou involuntária das plantas, consequente quadro de intoxicação e até óbito.

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Figura 1: Visão aproximada da área utilizada para pastejo de herbívoros com predomínio de Marsilea ancylopoda.

Foto dos autores.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à Polícia Militar do Paraná, particularmente ao Regimento de Polícia Coronel Dulcídio, por permitir a identificação das espécies vegetais presentes na área.

Referências

CSIRO. Marsilea drummondii A.Braun. Water for a Healthy Country. Taxon Attribute Profiles. Disponível em: <http://www.anbg.gov.au/cpbr/WfHC/Marsilea-drummondii/index.html> Acesso em: 25/05/2012

GONÇALVES, L.C., BORGES, I., FERREIRA, P.D.S. Alimentação de gado de leite. Belo Horizonte: FEPMVZ, 2009.

MCCLEARY, B. V.; KENNEDY, C. A.; CHICK, B. F. Nardoo, bracken and rock ferns cause vitamin B1 deficiency in sheep. Agricultural Gazette of New South Wales, Vol. 91, No. 5, 1980.

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MORAN, R. C. 2004. História Natural das Samambaias. Tecc Editora, Florianópolis. 352 p.

OFFORD, M. Plants Poisonous to Horses: an Australian Field Guide. Sidney: Rural Industries Research and Development Corporation, 2006. p 62.

RADOSTITS, O.M., GAY, C.C., BLOOD, D.C., HINCHCLIFF, K.W. Veterinary Medicine: A Textbook of the Diseases of Cattle, Sheep, Pigs, Goats and Horses. 9a ed. Elsevier, 2000.

RIET-CORREA, F. Intoxicações em equinos no Brasil. Ciência Rural, Santa Maria, V. 28, n. 4, p. 715-722, 1998.

SANT’ANA, F.J.F., et al. Polioencefalomalácia em ruminantes. Pesq. Vet. Bras. 29(9):681-694, setembro 2009.

SANTOS, B.J.M. Aspectos clínicos e patológicos da intoxicação experimental por Pteridium arachnoideum (Dennstatiaceae) em equinos. 2010. Dissertação (Mestrado). Curso de Pós – Graduação em Medicina Veterinária. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010.

SIMMONDS, H. The palatability, and potential toxicity of Australian weeds to goats. Sidney: Rural Industries Research and Development Corporation, 2000.

USDA, NRCS. Marsilea quadrifolia L. The PLANTS Database. National Plant Data Team, Greensboro, NC 27401-4901 USA. Disponível em: <http://plants.usda.gov/java/profile?symbol=MAQU > Acesso em 19/04/2013.

WINDISCH, P.G. 2010. Marsileaceae in Lista de Espécies da Flora do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <http://floradobrasil.jbrj.gov.br/2010/FB091501> Acesso em 25/05/2012

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