FRAGILIDADE AMBIENTAL E USO DAS TERRAS NO MUNICÍPIO DE IVINHEMA-MS
CARLOS SIQUEIRA PEIXOTO
DOURADOS
2016
UNIVERSIDADE FEDERAL DA GRANDE DOURADOS FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA – PPGG
CARLOS SIQUEIRA PEIXOTO
FRAGILIDADE AMBIENTAL E USO DAS TERRAS NO MUNICÍPIO DE IVINHEMA-MS
DOURADOS, MS
2016
CARLOS SIQUEIRA PEIXOTO
FRAGILIDADE AMBIENTAL E USO DAS TERRAS NO MUNICÍPIO DE IVINHEMA-MS
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Geografia Strictu Senso Área de Concentração: Produção do Espaço Regional e Fronteira em nível de Mestrado, da Faculdade de Ciências Humanas, da Universidade Federal da Grande Dourados, em Dourados (MS) como requisito para obtenção do título de Mestre em Geografia.
Orientador: Prof. Dr. Charlei Aparecido da Silva
Coorientador: Prof. Dr. Sérgio Henrique V. Leme de Mattos
DOURADOS, MS
2016
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP).
Ficha catalográfica elaborada automaticamente de acordo com os dados fornecidos pelo(a) autor(a).
©Direitos reservados. Permitido a reprodução parcial desde que citada a fonte.
P378f Peixoto, Carlos Siqueira
Fragilidade ambiental e uso das terras no município de Ivinhema - MS/
Carlos Siqueira Peixoto -- Dourados: UFGD, 2016.
116f. : il. ; 30 cm.
Orientador: Charlei Aparecido da Silva
Co-orientador: Sérgio Henrique Vannucchi Leme de Mattos
Dissertação (Mestrado em Geografia) - Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Federal da Grande Dourados.
Inclui bibliografia
1. Ivinhema -MS. 2. Uso das terras. 3. Fragilidade ambiental. I. Título.
CARLOS SIQUEIRA PEIXOTO
FRAGILIDADE AMBIENTAL E USO DAS TERRAS DO MUNICIPIO DE IVINHEMA-MS
DISSERTAÇÃO PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE
EXAMINADORES
_________________________________________________
Prof. Dr. Charlei Aparecido da Silva (Orientador) FCH – UFGD
_________________________________________________
Prof. Dr. Lindon Fonseca Matias - Unicamp / Membro Titular
_________________________________________________
Prof. Dr. Marcos Norberto Boin – UFGD / Membro Titular
_________________________________________________
Prof. Dr. Edvaldo Cesar Moretti – UFGD / Membro Suplente
DOURADOS, MS
2016
EPIGRAFE
O que permite a distinção entre vigília e sonho, imaginário e real, subjetivo e objetivo é a atividade racional da mente, que apela para o controle do ambiente (resistência física do meio ao desejo e ao imaginário), para o controle da prática (atividade verificadora), para o controle da cultura (referência ao saber comum), para o controle do próximo (será que você vê o mesmo que eu?), para o controle cortical (memória, operações lógicas). Dito de outra maneira, é a racionalidade que é corretiva.
Por Edgar Morin (2000, pg.28)
AGRADECIMENTOS
O fato de estar ou não estar nesta lista não diferencia o carinho e gratidão por aqueles que contribuíram com minha jornada na Universidade Federal da Grande Dourados.
Primeiramente agradeço a Deus por me dar sabedoria, coragem e persistência.
Por sempre me guiar pelos milhares de quilômetros rodados em cima de uma “caranga”
motocicleta, sobre sol forte, madrugada fria e chuvosa, noites escuras e luas espetaculares que iluminavam meu caminho em um planalto que não acabara mais.
Essas intensas mudanças de paisagens contribuíam para minha reflexão geográfica deste pedaço de chão.
Agradeço a minha família, que sempre esteve por perto me auxiliando, encorajando a nunca desistir, meu pai, minha mãe, sem palavras sua importância em minha vida.
Aos amigos e colegas, de Pós-Graduação que sempre estiveram ao meu lado quadro precisei, seja no aconchego de seus lares, ou na luta por aquilo que acreditamos.
Ao meu orientador Prof. Dr. Charlei Aparecido da Silva no qual contribui muito com a minha formação, mas também me ensinou a ser mais humano, sincero e a conviver com o caos. Lembro de suas primeiras palavras ao telefone quando passei na seleção: “O corpo não sei a quem pertence seu Carlos, mas a alma é minha”.
Ao professor Dr. Marcos Norberto Boin, pela sua disposição em contribuir com a minha formação, pelo companheirismo nas atividades de campo e geoprocessamento.
Ao professor Dr. Sérgio Mattos pela coorientação.
Em peso aos amigos e colegas do LGF: Bruno, Nathalia, Maísa, Patrícia Ferreira, Patrícia Martins e o grande amigo Fabio Orlando Eichenberg por me fazer acreditar na pós-graduação, obrigado pelo incentivo, pelo acolhimento em sua residência sempre que preciso.
A CAPES pelo apoio financeiro com a bolsa e demais custeios em eventos científicos.
Grato a todos!
SUMÁRIO
LISTA DE FIGURAS... 10
LISTA DE TABELAS... 12
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ... 13
RESUMO ... 14
ABSTRACT ... 15
INTRODUÇÃO ... 16
CAPÍTULO 1 ... 22
TEORIA GEOSSISTÊMICA E A ESCALA DE ANÁLISE GEOGRÁFICA ... 22
1.1 TEORIA GEOSSISTÊMICA ... 23
1.2 ESCALA DE ANÁLISE GEOGRÁFICA ... 27
CAPÍTULO 2 ... 31
CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DA PESQUISA ... 31
2.1 CARACTERIZAÇÃO SOCIOECONÔMICA ... 32
2.2 INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E ELABORAÇÃO DAS CARTAS DE USO DAS TERRAS ... 35
2.3 O USO DAS TERRAS NO MUNICÍPIO DE IVINHEMA ... 39
CAPÍTULO 3 ... 46
METODOLOGIA E CARACTERIZAÇÃO DO GEOSSISTEMA DE IVINHEMA (MS) ... 46
3.1 MÉTODOS , PROCEDIMENTOS E TÉCNICAS ... 47
3.2 LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO ... 47
3.2.1. Os dados secundários e sua importância ... 47
3.2.2 A aquisição de dados primários, os trabalhos de campo ... 48
3.3 A ESCALA E O TÁXON DE ANÁLISE ... 50
3.4 O GEOSSISTEMA DO MUNICÍPIO DE IVINHEMA ( MS ) ... 54
3.4.1 Clima ... 54
3.4.2 Hidrografia ... 60
3.4.3 Geologia ... 63
3.4.4 Relevo ... 66
3.4.5 Solos ... 68
3.5 TRATAMENTO DE IMAGEM SRTM E GERAÇÃO DE MAPA DE HIPSOMETRIA E DECLIVIDADE ... 71
CAPÍTULO 4 ... 76
EROSÃO DE SOLOS, IMPACTOS AMBIENTAIS: A RELAÇÃO HOMEM NATUREZA ... 76
4.1 O HOMEM E O SOLO ... 77
4.2 EROSÃO DO SOLO ... 78
4.3 TIPOLOGIA DAS EROSÕES DO SOLO ... 79
4.3.1 Erosão hídrica ... 80
4.4 OS PROCESSOS EROSIVOS NO GEOSSISTEMA DE IVINHEMA ( MS ) ... 83
CAPÍTULO 5 ... 91
FRAGILIDADE AMBIENTAL DO MUNÍCIPIO DE IVINHEMA ... 91
5.1 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DA FRAGILIDADE AMBIENTAL ... 92
5.2 METODOLOGIA ... 95
5.3 FRAGILIDADE POTENCIAL ... 99
5.4 FRAGILIDADE EMERGENTE ... 102
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 106
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 108
APÊNDICES ... 113
ANEXOS ... 117
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Esboço de uma definição teórica de geossistema. ... 29
Figura 2 - Produção Agrícola no município de Ivinhema em 2014. ... 34
Figura 3 - A expansão da cana-de-açucar no municipio de Ivinhema. Elaboração e Organização: Peixoto (2016) ... 35
Figura 4 - Chave de interpretação das imagens OLI/Landsat 5 e 8. ... 37
Figura 5 - Paisagens utilizadas para a classificação supervisionada. ... 38
Figura 6 - Porcentagem de uso das terras no ano 2000. ... 41
Figura 7 - Uso das Terras em 2000... 42
Figura 8 - Porcentagem de uso das terras no ano 2015. ... 43
Figura 9 - Uso das Terras em 2015... 44
Figura 10 - Atividade de campo como subsidio para a elaboração das cartas. ... 49
Figura 11 - Mapeamento sistemático das unidades de paisagens. ... 52
Figura 12 - Taxonomia da escala de estudo do geossistema de Ivinhema. ... 53
Figura 13 - Classificação climática da área de estudo. ... 56
Figura 14 – Gráfico Termopluviométrico para o município de Ivinhema (MS) 1961 – 1990. Fonte: ZEE/MS, 2002. ... 57
Figura 15 - Precipitação mensal no município de Ivinhema (MS) em 2015. ... 58
Figura 16 - Estragos causado pela chuva em janeiro de 2016. ... 59
Figura 17 - principais rios do município de Ivinhema - MS. ... 61
Figura 18 - Hidrografia do município de Ivinhema. ... 62
Figura 19 - Geologia do município de Ivinhema. ... 65
Figura 20 - Relevo do município de Ivinhema. ... 67
Figura 21 - Perfil de solos encontrados em Ivinhema - MS. ... 69
Figura 22 - Carta de Solos do Município de Ivinhema... 70
Figura 23 - Classes hipsométricas atribuídas a área de estudo. ... 71
Figura 24 - Classes de declividade da área de estudo... 72
Figura 25 - Hipsometria do município de Ivinhema... 73
Figura 26 - Declividade do município de Ivinhema. ... 74
Figura 27 - Erosão hídrica. ... 81
Figura 28 - Erosão laminar na área de estudo. ... 81
Figura 29 - Erosão laminar na área de estudo. ... 82
Figura 30 - Formação de ravinas na área urbana de Ivinhema (MS). ... 82
Figura 31 - Voçorocas no município de Ivinhema (MS). ... 83
Figura 32 - Localização das erosões ... 84
Figura 33 - "Buracão I", voçoroca na área urbana do município de Ivinhema - MS. .... 85
Figura 34 - "Buracão II", voçoroca com ravinas laterais na área urbana de Ivinhema - MS. ... 86
Figura 35 - Percentual por tipo de erosão. ... 87
Figura 36 - Distribuição das erosões de acordo com o uso das terras. ... 88
Figura 37 - Síntese das erosões no município de Ivinhema. ... 89
Figura 38 – Camadas Raster e pesos utilizados no conjunto dos componentes utilizados
para obter a fragilidade ambiental. ... 98
Figura 39 - Classes de Fragilidade Potencial. ... 100
Figura 40 - Fragilidade potencial do município de Ivinhema. ... 101
Figura 41 – Classes de fragilidade emergente. ... 102
Figura 42 - Fragilidade emergente do município de Ivinhema. ... 105
LISTA DE TABELAS
Tabela 1- Estimativa populacional do município de Ivinhema (MS). ... 32
Tabela 2- Produção agrícola no município de Ivinhema (MS). ... 34
Tabela 3 - Dados das imagens Landsat utilizadas no trabalho. ... 36
Tabela 4 – Área de uso das terras no município de Ivinhema – MS. ... 40
Tabela 5- Tipos de erosões identificadas no município de Ivinhema (MS) ... 84
Tabela 6 - Distribuição da erosão conforme tipo e o uso das terras ... 87
Tabela 7- Classes de tipos de geologia e seus respectivos graus de fragilidade. ... 96
Tabela 8 - Classes de tipos de solos e seus respectivos graus de fragilidade. ... 96
Tabela 9 – Classes de relevo e seus respectivos grau de fragilidade. ... 97
Tabela 10 – Classes de declividade e seus respectivos grau de fragilidade. ... 97
Tabela 11 – Tipos de uso e coberturas das terras e seu grau de proteção. ... 97
Tabela 12 - Índice de avaliação da fragilidade potencial. ... 100
Tabela 13 – Índice de avaliação da fragilidade emergente. ... 103
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
CPRM Serviço Geológico do Brasil GPS Global Positioning System
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística INMET Instituto Nacional de Meteorologia
INPE Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais LANDSAT Land Remote Sensing Satellite
MDE Modelos Digital de Elevação
MEC Massa Equatorial Continental
MPA Massa Polar Atlântica
MTA Massa tropical Atlântica
MTC Massa Tropical Continental
MS Mato Grosso do Sul
OLI Operational Land Imager
SEPLAM Secretaria de Planejamento
SIDRA Sistema IBGE de Recuperação Automática SIG Sistema de Informações Geográficas
SIRGAS Sistema de Referência Geocêntrico das Américas SOMECO Sociedade e Melhoramentos e Colonização SRTM Shuttle Radar Topography Mission
TGS Teoria Geral dos Sistemas
TM Thematic Mapper
UPG Unidade de Planejamento e Gestão USGS United States Geological Survey UTM Universal Transversa de Mercator
ZEE-MS Zoneamento Ecológico-Econômico do Mato Grosso do
Sul
RESUMO
O modelo de colonização privado implantado no município de Ivinhema- MS em 1957, pela SOMECO-SA, teve como objetivo a derrubada da mata para a exploração da madeira e consequentemente a venda de sítios e chácaras.
Passados décadas, o cenário no campo mudou e o uso das terras tornou-se mais intenso o que provoca novas dinâmicas pouco estudadas. Para avaliar esse cenário, foi elaborado duas cartas de uso e ocupação (2000 e 2015) que permitiram identificar e quantificar as parcelas de cada tipo de uso (vegetação nativa, silvicultura, pastagens, lavoura temporária e solo exposto). Para analisar as mudanças ocorridas nesse período utilizou-se imagens de satélite OLI/Landsat 5 e 8, dos respectivos anos (2000 e 2015). Essas cartas revelam a expansão da atividade agrícola (soja, milho e cana-de-açúcar), o que representa um aumento das áreas no período de aproximadamente 500%. O inventário cartográfico do geossistema (geologia, relevo, solos, hidrografia, clima, declividade, hipsometria, cobertura e uso das terras) revelam que os fluxos de matéria e energia já ultrapassaram os níveis de resiliência, demonstrado pelo grande número de processos erosivos identificados no geossistema. A fragilidade ambiental emergente na área estudada, demonstra-se vulnerável ao uso e ocupação das terras, principalmente a expansão da monocultura de cana-de- açúcar. Essa atividade associada a outras de cultivo rotativo representam um médio grau de fragilidade e ocupa 47% da área do geossistema, isto indica que as proposições de cenários futuros sejam ainda piores.
PALAVRAS CHAVE: Ivinhema-MS, Uso das terras, Fragilidade ambiental.
ABSTRACT
The private settlement model implemented in Ivinhema-MS country in 1957, by SOMECO-SA, had the objective of clearing the forest for the exploitation of wood and consequently the sale of estate and farmstead. After decades, the scenary in the countryside has changed and the use of land has become more intense which causes new dynamics little studied. In order to evaluate this scenary, two use and occupation charts (2000 and 2015) were used to identify and quantify the plots of each type of use (native vegetation, silviculture, pasture, temporary and exposed soil). OLI / Landsat 5 and 8 satellite images of the respective years (2000 and 2015) were used to analyze the changes that occurred during this period. These charts reveal the expansion of agricultural activity (soybean, maize and sugar cane), which represents an increase in areas in the period of approximately 500%. The mapping of the geosystem (geology, relief, soil, hydrography, climate, slope, hypsometry, land cover and use) reveals that the flows of matter and energy have already surpassed the levels of resilience, demonstrated by the large number of erosive process identified in the Geosystem.
Emergent environmental fragility in the study area is proving vulnerable to the use and occupation of land, mainly the expansion of sugar cane monoculture. This activity associated with other rotational crops represents a medium degree of fragility and occupies 47% of the geosystem area, this indicates that the future scenary propositions are even worse.
KEYWORDS: Ivinhema, Land use, Environmental fragility.
INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem por objetivo estudar a dinâmica do uso das terras no município de Ivinhema – MS. Para tanto, estudos acadêmicos necessitam de uma base teórica que assinale a metodologia e os pressupostos da pesquisa apontados na proposição inicial.
Dessa forma, foi eleita a Teoria Geral dos Sistemas (TGS) de Ludwig Von Bertalanffy 1 (1977), que surge como uma perspectiva de análise nas ciências, sendo introduzida na Geografia com pressupostos de uma visão sistêmica. Esse modelo passa a ser amplamente discutido nas escolas da Geografia no século XX, principalmente na escola russa por Sotchava (1962) e Bertrand (1972) na escola francesa. No Brasil os expoentes Christofoletti (1980), (1981) e Monteiro (2001) apresentaram as primeiras proposições teóricas e metodológicas referenciando a teoria Geossistêmica, contribuindo para o desenvolvimento da Geografia Física.
Na concepção sistêmica, Bertalanffy (1977) reconhece que a proposição de modelos é essencial para o rompimento de analogias simplistas (reducionismo), o que visa a hierarquização dos elementos do sistema e a correlação entre os demais processos desencadeados. O teórico refere-se à elaboração de uma concepção de mundo pós- moderno, articulado por diversas formas de poder, desenvolvimento econômico/desigual, informacional, explosão demográfica, e inserido em uma diversidade de ecossistemas em diferentes lugares do planeta.
De modo similar o campo das ciências é fragmentado, e necessita de novos métodos e técnicas para analises mais complexas que surgem da demanda de excedentes provocadas pelas constantes mudanças nos sistemas de produção.
Face ao exposto, a geografia no campo das ciências sociais insere-se na perspectiva de constituir um esboço conceitual e metodológico e passa a ater-se nos pressupostos da teoria sistêmica. O que reforça o campo da geografia, principalmente a geografia física, campo este que muitos consideravam como ciência da descrição do planeta Terra.
Deriva como pressuposto teórico e metodológico a concepção de geossitema dos estudos de Sotchava (1962); e Bertrand (1972), postulam acerca da concepção de
1
Teoria Geral dos Sistemas – A obra original é de 1933, deriva da insistência de Bertalanffy discordar do
pensamento cartesiano, unificando os campos das ciências sociais.
geossistemas terrestres e o que os difere são as categorias de análise principalmente na escala do espaço geográfico.
O geossistema é um sistema natural, complexo e integrado onde há circulação de energia e matéria e onde ocorre a exploração biológica, inclusive aquela praticada pelo homem. Pela ação antrópica poderão ocorrer apenas alterações no sistema, afetando algumas de suas características, porém estes serão perceptíveis apenas em microescala e nunca com tal intensidade que o Geossistema seja totalmente transformado, descaracterizado ou condenado a desaparecer (TROPPMAIR; GALINA; 2006, p. 81).
A área de estudo enquadra-se como um subsistema aberto que neste estudo trataremos como geossistema, com características físicas similares ao geossistema da região a UPG- Rio Ivinhema. Porém, com dinâmicas de uso ocupação diferenciadas, um dos pressupostos analisado neste estudo.
O município de Ivinhema – MS, emancipa-se de um modelo de colonização privado visando a comercialização das terras por meio de loteamento de frações da área urbana e rural pela (SOMECO/SA) no amo de 1957, o que consolidou um sistema fundiário visando especificamente o lucro pela renda da terra (SOMECO, 1984).
Segundo Lima (2006) as transformações da paisagem na região tinham como objetivo um certo desenvolvimentismo, e havia precedentes de que a mata marcava o fim de uma era de retrocesso e o começo da era do desenvolvimentismo. Portanto a derrubada da mata e a comercialização da madeira são o marco inicial de análise da dinâmica do uso das terras na região.
Dada à relevância dos processos ocorridos na região e a dinâmica da ocupação do espaço, esse trabalho frisa verificar o uso e ocupação das terras na região a partir do ano 2000, e na contemporaneidade, e se a fragilidade ambiental é do meio físico que ao ser ocupado deflagra os processos de degradação.
Os cenários de uso das terras neste trabalho são fundamentais para compreender as dinâmicas da relação natureza e sociedade. Se por um lado, os cenários nos trazem a dimensão das paisagens naturais do passado, por outro demonstra com clareza como as paisagens foram alteradas na tentativa de satisfazer o sistema socioeconômico hegemônico.
Segundo Verdum (2012, p. 10) “estudar a relação natureza e sociedade na
perspectiva de análise de paisagem é possível compreender, em parte, a complexidade
do espaço geográfico em um determinado momento”. Para o autor os mosaicos de
paisagem são importantes para que possamos entender como as estruturas estabelecidas no local se organizam.
Para fim desse estudo a fundamentação teórica e metodológica e analítica que foram notoriamente abordadas a partir da concepção sistêmica de Bertalanffy (1977); as concepções de paisagem e geossistema de Bertrand (1972); Christofoletti (1999) com seu modelo de geossistema e sistema socioeconômico que diante da complexidade de elementos da paisagem do município de Ivinhema-MS, torna-se fundamental como modelo de análise; a concepção de paisagem de Verdum (2012) que contribui com a análise dos cenários e perspectivas de compartimentação de paisagens no geossistema de Ivinhema-MS.
A concepção de um modelo geossistêmico podemos considerar como parte de estudos dos elementos físicos, como o relevo, solos, hidrografia, clima e vegetação em determinada escala formam a ideia de ambiente natural que oscila entre o equilíbrio e desequilíbrio. Esse ambiente natural está sujeito a intervenções antrópicas, que transformadas passam a formar mosaicos de interação a um sistema socioeconômico, esteticamente alterado com forma e função especifica. São resultantes das transformações territoriais carregadas de elementos históricos culturais relacionadas as práticas humanas.
O presente estudo é fruto da perspectiva de análise sistêmica. Visa, objetiva, correlacionar às dinâmicas do uso e ocupação das terras, e possíveis impactos que incidem na dinâmica territorial do município de Ivinhema e aproxima da concepção de Lima (2006).
A transformação da paisagem dessa região intensificou-se a partir do momento em que se iniciou o processo de colonização, que introduziu na área lavouras, pastagens artificiais e extração de madeira de forma indiscriminada. A abertura das propriedades por processos rudimentares, fazendo-se uso quase que exclusivamente da roçada, derrubada e queimada da vegetação de floresta ia transformando a paisagem rural em lavoura e pastagem. (LIMA, 2006, p.98).
A dinâmica territorial iniciou-se a partir do processo de colonização da região
Sul do então Estado de Mato Grosso em meados do século XX. Nessa inserção atropo-
natural 2 , o território foi submetido a transformação social que modificaram a paisagem natural dando lugar a formas complexas.
Pinto Junior et al (2014) destaca a nova dinâmica territorial estabelecida pelo setor canavieiro na UPG-Ivinhema (MS) como:
A criação de estruturas e infra-estruturas para esse aporte transforma as paisagens locais e inserem novas dinâmicas na vida dos munícipes, tanto na área rural como urbana. As transformações, no que tange aos impactos na paisagem, se associam cujo matiz forma uma complexa relação que nem sempre são identificáveis imediatamente. No cotidiano as transformações socioeconômicas, os impactos ambientais negativos não são compreendidos imediatamente, esses são suprimidos em função de ganhos econômicos, a paisagem se transforma sobrepondo os tempos e as transformações são acompanhadas no ir e vir e com isso um novo mosaico vai formando- se. Novas plantas industriais, novas usinas, surgem, passam a fazer parte do contexto da paisagem, o caminho antes demarcado pela monotonia do relevo e da pastagem incorpora a cana-de-açúcar como elemento essencial do tempo presente e das novas dinâmicas (PINTO JUNIOR, SILVA E BEREZUK, 2014, p.42).
Nesse contexto, as transformações socioeconômicas presentes no cenário atual deixam claro que o ganho econômico é mais importante que o custo ambiental e social.
A técnica se apresenta com a ideia de desenvolvimento como entreposto para justificar o progresso da humanidade fazendo com que a relação homem-natureza vivencie um tecnocentrismo, ou seja, o paradoxo: Progresso/Desenvolvimento, versus Dominação da Natureza. Não podemos afirmar que a técnica é a responsável pelos problemas ambientais contemporâneos, mas sim, quem faz o uso dela, como afirma Gonçalves:
“Apesar da técnica ser um sistema organizado, ordenado, visando um maior controle que se possa ter de seus efeitos, todavia ela está inserida em um mundo complexo onde convivem o caos e a ordem” (GONÇALVES, 2013, p.79).
Em longo prazo a atual dinâmica econômica e social, e a maneira em que o homem se apropria dos recursos naturais, colocam em risco os recursos hídricos, a vegetação, a fauna, o solo provocando um desequilíbrio ambiental, gerando impactos ambientais de diversas magnitudes. Dessa forma podemos associar o estágio atual da sociedade como a forma que faz uso da técnica, como o homem domina através dos meios de produção na natureza.
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