Domestic Violence, Drug Addiction and Pregnancy in Adolescenc
Case Study
Violência Doméstica, Toxicodependência e Gravidez na Adolescência
Estudo de Caso
Paula Orchiucci Miura, Gislaine Martins Ricardo Passarini, Loraine Seixas Ferreira, Leila Salomão de
La Plata Cury Tardivo
Instituto de Psicologia, Departamento Psicologia Clínica, Universidade de São Paulo
São Paulo, Brasil
[email protected], [email protected], [email protected], [email protected]
Dora Mariela Salcedo Barrientos
Escola de Artes, Ciências e Humanidades, Curso Obstetriz, Universidade de São Paulo
São Paulo, Brasil [email protected]
Rui Alexandre Paquete Paixão Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação,
Universidade de Coimbra Coimbra, Portugal [email protected]
Abstract — Teenage pregnancy constitutes a high-risk pregnancy may cause physical damage and biopsychosocial for both the teen and the baby. Some cases of teenage pregnancy can emerge from conditions in which the teen was the victim of domestic violence later in life and before all its vulnerabilities also started using drugs. Front this problem, this paper aims to present and analyze the case of a pregnant teen victim of prolonged domestic violence and drug abuse, using a case study qualitative research with a semi-structured interview. The patient was observed at the Emergency Department of Obstetrics, University Hospital (University of São Paulo). Case study evidence the importance of domestic violence at the beginning of the primary relationships, disturbing maturation of physical, mental and emotional teenager evolution and triggering the development of psychopathology. Therefore patient appeared more susceptible to the use and abuse of alcohol and other drugs. Regarding pregnancy, this appears as an acting of patient because the experienced traumatic situations in their earliest relationships, and seems to repeat his story now with her daughter, reproducing the cycle of violence.
Keywords - enage pregnancy; domestic violence; drug addict.
Resumo — A gravidez na adolescência constitui-se uma gestação de risco podendo causar danos físicos e biopsicossociais tanto para a adolescente quanto para o bebê. Alguns casos de gravidez
na adolescência podem emergir de condições em que a adolescente foi vítima de violência doméstica no decorrer da vida e diante de todas as suas vulnerabilidades também iniciou o uso de droga. Frente essa problemática, este artigo tem como objetivo apresentar e analisar o caso de uma adolescente grávida vítima de violência doméstica ao longo da vida e toxicodependente.
Trata-se de um "estudo de caso" baseado numa entrevista semi- estruturada. Esse estudo foi realizado no Pronto Atendimento de Obstetrícia do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo. Conclui-se que a violência doméstica vivenciada no início das relações primordiais afetou gravemente o amadurecimento, físico, psíquico e emocional da adolescente, desencadeando o desenvolvimento de psicopatologias. Diante dessas consequências, a adolescente apresentou-se mais suscetível ao uso e abuso de álcool e outras drogas. Com relação à gravidez, esta aparece como uma atuação da paciente devido às situações traumáticas vivenciadas em suas relações primordiais, e parece repetir sua história agora com sua filha, reproduzindo o ciclo da violência.
Palavras Chave – gravidez na adolescência; violência doméstica; toxicodependência.
I. I NTRODUÇÃO
O presente artigo apresenta e analisa o caso de uma
adolescente grávida vítima de violência doméstica e
toxicodependente, com intuito de aprofundar os dados da pesquisa desenvolvida por Barrientos [1].
II. G RAVIDEZ NA A DOLESCÊNCIA
A gravidez na adolescência, segundo a Organização Mundial da Saúde [2], constitui-se uma gestação de risco, com múltiplas repercussões possíveis em termos de danos psicossiais e de saúde materno-fetal. No que se refere ao ponto de vista biológico, os riscos que mais se destacam são:
hemorragias, trabalho de parto prolongado, complicações a longo prazo, prematuridade, lesões durante o parto, morte perinatal e baixo peso ao nascer. Do ponto de vista psicossocial, encontram-se: abandono dos estudos, inserção precoce na vida laboral, descompasso na integração psicossocial, pouco preparo para o desenvolvimento de uma relação satisfatória com os filhos, etc. [3].
Um estudo apontou que a população de adolescentes mães de 2001 para 2008, no Brasil, diminuiu, contudo esse percentual tem aumentado consideravelmente, nas famílias com até um salário mínimo, o que indica uma correlação entre a gravidez na adolescência e renda familiar. Esse estudo também demonstrou que a gravidez na adolescência afeta a escolarização, especialmente àquelas de classe social mais baixa (menos de 30%) e concluiu que o abandono escolar e a falta de participação no mercado de trabalho decorrem tanto da maternidade na adolescência quanto da condição sócio econômica em que viviam previamente [4].
Apesar da diminuição da população de adolescentes mães, a gravidez precoce ainda gera preocupação, pois a fecundidade na adolescência ainda é alta (em 2007 as mães com idade entre 15 e 17 anos representaram 20% dos partos realizados no país [5]).
Com relação aos aspectos psicodinâmicos da gravidez na adolescência, Blos [6] e Deutsch [7] oferecem contribuições importantes. Esses autores entendem a gravidez e a maternidade na adolescência como dificuldades no desenvolvimento psicossexual da menina em decorrência de conflitos infantis não solucionados que impedem a elaboração dos lutos da adolescência.
No entendimento de Blos [6], a gravidez precoce decorre de uma fixação ao período pré-edípico, mais especificamente à mãe pré-edípica, devido tanto por privação, quanto pela superestimulação. A gestação na adolescência pode ser entendida como uma atuação, relacionada ao desejo da menina vingar-se da mãe por sentir que ela a rejeita. Nesse sentido, a razão pela qual muitas adolescentes engravidam é a identificação com a mãe fálica (daí decorre o caráter de exibição da pseudo-heterossexualidade). Em um movimento regressivo, em direção à mãe pré-edípica, a menina busca recriar uma situação perdida, em que mãe e bebê constituíam uma unidade. Enquanto a criança é dependente delas sentem satisfação na maternindade, mas quando percebem o movimento de indenpendência do filho se volta contra ele, a consequência disso é a infantilização da criança.
Blos [6] ressalta que o relacionamento com as figuras parentais pode afetar a escolha objetal das adolescentes. O autor demonstrou o quanto a falta da mãe pode dificultar o
estabelecimento de novas relações, pois as necessidades emocionais decorrentes desta, expressas por expectativas elevadas e excesso de idealização impedem o estabelecimento de uma relação baseada na realidade e assim, as frustrações com o objeto real são inevitáveis e tornam a relação insustentável.
Deutsch [7] parece concordar com a hipótese de Blos [6], de que a gravidez precoce seria uma atuação que estaria relacionada a uma fixação de caráter oral e pré-edipiano à mãe. Ela entende que a menina frente à exigência de amadurecimento, buscou reviver a união mãe-filha por meio de uma gestação. Nesse contexto, no nível de realização da fantasia, o parceiro sexual da menina corresponderia ao lugar da mãe na relação primitiva e o ato sexual em si, e a consequente fecundação, o restabelecimento da unidade mãe- filha.
Para além disso, como esse impulso para engravidar não se origina de um desejo edipiano de ter um filho, tampouco em um modelo de maternidade assistente (como uma assistente da mãe para cuidar do filho), muito menos de um desejo de mulher em ser mãe e por isso, constitui-se mais como uma atuação com característica compulsiva, que pode persistir e tender a se repetir. Nesse sentido, a autora não considera a possibilidade de controlar tal fenômeno por meio de instruções ou pílulas anticoncepcionais em decorrência do caráter compulsivo da atuação [7].
Em geral, a relação entre a adolescente mãe e seu filho também não se estabelece de modo satisfatório, sendo frequente o abandono do filho desde o seu nascimento. Além disso, a gravidez precoce não contribui para o desenvolvimento da verdadeira maternidade, provoca ainda que “um efeito inibidor ainda maior” [7, p.107].
III. V IOLÊNCIA D OMÉSTICA
A violência doméstica não é apenas uma problemática da realidade brasileira, pesquisas bibliográficas revelam que a violência contra a criança e adolescente está presente em todo o mundo, tanto em países desenvolvidos, como em desenvolvimento [8, 9, 10].
Black [11] pesquisaram a vida sexual de adolescentes que haviam sido maltratados antes dos 12 anos e verificaram correlações entre a vivência de maus tratos na infância com a iniciação sexual precoce, o relacionamento sexual estabelecido com múltiplos parceiros, não utilização de métodos contraceptivos e prevenção de doenças venéreas, bem como com a ocorrência de gravidez na adolescência.
O abuso infantil (físico, sexual e emocional) torna-se um fator de risco para as vítimas ao longo de toda a vida. No âmbito da saúde física, observou-se que aqueles que foram vitimados tendem a desenvolver comportamentos prejudiciais à mesma, como fumar, beber, usar drogas, comer em excesso;
além de terem maior dificuldade em mudar e manter hábitos
mais saudáveis. Essas pessoas são ainda mais sensíveis a
eventos estressantes, de forma que a resposta imunológica é
afetada negativamente. As experiências traumáticas também
afetam o modo como a vítima se percebe, suas competências e
autoconceito, de tal modo que, ao longo da vida ela tende a se
perceber como incapaz e ineficaz afetando a satisfação pela vida e o bem estar psicológico [12].
Estudos também demonstram a relação ao trauma (violência física e/ou sexual) com a personalidade bordeline.
Skill [13] constataram em uma pesquisa desenvolvida com 41 pacientes com personalidade borderline, que 76% desses pacientes relataram terem sido vítimas de violência sexual na infância e 50% afirmaram terem sofrido o abuso de forma contínua. Outro estudo realizado por Hallie e Paris [14]
apontou que os pacientes borderline relataram significativamente as falhas nos cuidados maternos e paternos durante sua infância, diante disso, apontou para a importância das teorias psicodinâmicas sobre a infância de pacientes borderline e para a teoria da falha biparental no desenvolvimento desta psicopatologia.
No Brasil, dados no Ministério da Saúde referente aos 27 municípios participantes do VIVA (Vigilância de Violência e Acidentes), entre 01/08/2006 e 31/07/2007, mostram que o sexo feminino é a principal vítima das violências doméstica e sexual. O mesmo dado se repete nos dados do VIVA de 2011, tendo 69.83% dos casos de violência doméstica, sexual e outros tipos cometida contra mulheres [15].
Segundo Pinto Jr. [16], a violência doméstica desencadeia sofrimento, uma vez que a experiência abusiva à qual a criança ou o adolescente foi submetido provoca um desequilíbrio psíquico, à medida que não pode ser representada ou simbolizada pela vítima. Pinto Jr. e Tardivo [17] apontaram que a violência doméstica é um fator de risco para o desenvolvimento de crianças e adolescentes, produzindo efeitos na identidade, distúrbios de personalidade e adaptação social. Dessa forma, as vítimas podem desenvolver diferentes tipos de transtornos, como: físicos, relacionados à dificuldade de sono e alimentação; comportamentais, como abuso de drogas, condutas autodestrutivas, fugas e baixo rendimento escolar; emocionais, expressado por sentimentos de medo, agressividade, culpa, vergonha, baixa auto-estima, desconfiança e transtorno de estresse pós-traumático; sexuais, com masturbação compulsiva, excessiva curiosidade sexual, exibicionismo e confusão de identidade sexual; e por fim, sociais, com déficit em habilidades sociais, isolamento e condutas antissociais. Os autores ressaltam ainda que esses efeitos perduram ao longo do desenvolvimento, mesmo após medidas de proteção serem tomadas.
IV. T OXICODEPENDÊNCIA E A G RAVIDEZ NA A DOLESCÊNCIA
O jovem, na ânsia pela identidade e diante da angústia de não saber “quem é”, pode se identificar com figuras negativas (criminosos, drogadictos...) ou ainda iniciar uma vida sexual precocemente como uma defesa maníaca, como uma possibilidade real de existir e adquirir uma identidade adulta ao invés de “não ser” ninguém [18]. Uma pesquisa desenvolvida por [19] junto a mulheres dependentes de cocaína tipo crack demonstrou que as usuárias expostas a traumas durante a infância ou a adolescência iniciam o uso de drogas em idades mais precoces que aquelas cujo trauma ocorreu na vida adulta.
Estudos apontaram que fatores como famílias disfuncionais, evasão escolar, desemprego e baixa capacitação profissional contribuem para a manutenção de uma situação socioeconômica desfavorável, bem como para a alta prevalência do uso de cocaína e maconha pelas adolescentes grávidas e de transtornos psiquiátricos [20, 21]. Outra pesquisa que corrobora com esses resultados, apontou que o uso de substâncias químicas, como maconha e álcool, apresenta uma correlação com o fenômeno da gravidez na adolescência, uma vez que em muitos casos, a experiência com drogas antecede a gravidez na adolescência. Desse modo, é mais frequente o uso de tais substâncias entre adolescentes que engravidaram se comparado a adolescentes que nunca engravidaram [22].
Tardivo [23] confirma que a falta de referências pode levar a situações muito graves: como o abuso de substâncias, atitudes violentas contra si ou contra outros jovens. Ao pesquisar adolescentes brasileiros, em que 95% da população era descendente de diferentes povos indígenas, a autora verificou que a aculturação desses jovens, a falta de um referencial identitário estabelecido com a origem dos pais, levaram à negação quase coletiva desses jovens sobre a origem familiar e à identificação com o que é de mais nefasto na cultura branca, como o uso das drogas, a violência para consigo mesmo (suicídio) e para com os outros jovens (homicídio), além de comportamentos sexuais promíscuos e gravidezes indesejadas e precoces. Dessa forma, diante da angústia de não saber “quem é”, esses jovens identificaram-se com o pior na cultura branca, pois esta ainda hoje é mais valorizada socialmente em relação à cultura indígena.
V. I NSTRUMENTOS E P ROCEDIMENTOS
O presente artigo tem como objetivo apresentar e analisar o caso de uma adolescente grávida vítima de violência doméstica e toxicodependente.
Yin [24] afirma que o estudo de caso deverá ser utilizado quando: “a) as questões “como” e “por que” são propostas; b) o investigador tem pouco controle sobre os eventos; c) o enfoque está sobre um fenômeno contemporâneo no contexto da vida real” (p. 22). Dessa forma o autor define que essa investigação empírica se aplica quando há a pretensão de compreender, de forma aprofundada, um fenômeno da vida real e atual, cujo entendimento está atrelado a “importantes condições contextuais” (p. 39). Com isso, o estudo de caso serve para explicar, descrever, ilustrar e explorar situações demasiadamente complexas, que não podem ser explicadas por um raciocínio de causa e efeito.
Esta pesquisa foi realizada junto a adolescente grávida
que compareceu ao Pronto Atendimento (PA) da obstetrícia do
Hospital Universitário da Universidade de São Paulo
(HUUSP), situado no Campus da Universidade de São Paulo
[1]. Foi utilizado como instrumento a entrevista semi-
estruturada, a qual foi gravada e transcrita, garantindo o
anonimato e o sigilo; o respeito à privacidade e à intimidade e
ainda garantindo-lhe a liberdade de participar ou declinar
desse processo no momento em que desejasse, respeitando as
recomendações do Conselho Nacional de Saúde, conforme
resolução 466/2012 [25].
O responsável pela adolescente participante assinou o Termo de Consentimento e a adolescente assinou o Termo de Assentimento. Todos os preceitos éticos foram observados e o estudo aprovada pelo Comitê de Ética do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (Parecer nº 1214/12 e Registro SISNEP-CAAE: 0043.0.196.198-11).
Os dados obtidos na entrevista semi-estruturada foram interpretados e analisados segundo a Análise de Conteúdo fundamentando-se na proposta de Bardin [26].
VI. E STUDO DE C ASO : A H ISTÓRIA DE T AÍS
Taís
1tem 18 anos e está grávida. Na infância foi abandonada pela mãe e pelo pai. Sua mãe é usuária de droga (crack) e moradora de rua. Foi criada pela avó materna, que é alcoolista, maltratou fisicamente e foi negligente com a neta.
A adolescente descreve sua vida como um sofrimento, ela prefere ficar na rua do que em casa com a avó, devido aos maus tratos inflingidos por esta.
Aos 12 anos Taís conta que se casou e que se separou aos 16. Logo após a separação conheceu seu atual companheiro, pai do filho que está esperando, Wagner (30 anos). Quando ele tinha 24 anos, sofreu uma lesão medular devido a ter tomar uma “injeção de maneira errada” (sic) e ficou paraplégico. Ele já foi usuário de drogas, mas quando ela o conheceu, já não usava mais drogas, apenas bebia. Taís o acha muito “cabeça”
(sic), considera-o uma pessoa que a ajuda sempre que precisa, conversando, acolhendo.
Taís começou a fumar maconha aos 15 anos, inflluenciada pelo ex-marido, e por volta dos 16 anos iniciou o uso de cocaína, incentivada por uma amiga. Mesmo não conseguindo parar de usar drogas, nega que seja drogadicta. Para ela viciado em drogas é aquele que começa a roubar dentro e fora de casa para comprar drogas, mas como ela não tem essa atitude não se considera uma drogadicta.
Com relação as condições sócio econômicas, Taís apresenta as características apontadas por Novellino [4] no início do texto, pois é uma adolescente grávida de classe social baixa, parou os estudos na 8ª série e não trabalha. Ela vive com o companheiro na casa da sogra em uma residência de três cômodos e moram nesta casa quatro adultos (Taís, Wagner, sogra e cunhado), onde apenas a sogra trabalha e o companheiro recebe aposentaria por invalidez.
E com base nos aspectos psicodinâmicos, percebe-se pela sua história de vida, que Tais não teve oportunidade de experienciar sua espontaneidade, seu processo de continuar-a- ser [27], ou melhor, seu processo de continuar se desenvolvendo foi interrompido. Logo nos primeiros momentos de vida, a adolescente não pôde agir conforme suas necessidades, ela teve que reagir se defendendo do ambiente ameaçador e, a consequência disso, parece ter sido o desenvolvimento de um falso self patológico, constituindo-se com a função de defender e proteger o verdadeiro self.
1
Nome fictício, atendida com consentimento.
1