PROGRAMA DE MESTRADO BOLONHA EM HISTÓRIA
IZAÍAS GOMES DE ASSIS
HISTÓRIA DA LITERATURA DE CORDEL:
DE PORTUGAL PARA O BRASIL (1851-1921)
LISBOA 2022
IZAÍAS GOMES DE ASSIS
HISTÓRIA DA LITERATURA DE CORDEL:
DE PORTUGAL PARA O BRASIL (1851-1921)
Dissertação especialmente elaborada para obtenção do grau em Mestre em História na especialidade História Moderna e Contemporânea.
Orientadora: Prof.ª Dra. Maria de Fátima Reis ____________________________________
LISBOA 2022
IZAÍAS GOMES DE ASSIS
HISTÓRIA DA LITERATURA DE CORDEL:
DE PORTUGAL PARA O BRASIL (1851-1921)
Data de aprovação 09/05/2022 Banca examinadora:
________________________________________
Doutora Maria de Fátima Marques Dias Antunes Reis
Professora Associada com Agregação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Orientadora)
_______________________________________
Doutor António Adriano de Ascensão Pires Ventura
Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Presidente)
______________________________________
Doutor Jean Marcel Carvalho França
Professor Titular da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Arguente)
O jaguar rende-me culto, A serpente a meus pés morre;
No que chegar minha ira Só um poder o socorre, Digo ao rio: pare aí:
A água para e não corre.
O DIABO1
1 Do folheto Peleja de Manoel Riachão com o diabo de autoria do poeta Leandro Gomes de Barros. (BARROS, 2016, p. 2)
AGRADECIMENTOS
Agradeço a todos que contribuíram para que esse trabalho fosse realizado:
Ao cabo Assis (in memoriam), que muitas vezes me levou aos folguedos, boi de reses, João redondos, circos, quadrilhas, cantorias e me ensinou a amar a literatura de cordel. Foi desse exímio contador de causo que ouvi por diversas vezes as estórias de Quingalaquingu; das três patacas de ouro; de José, o menino que falava com animais, da briga do porco-espinho com a onça, da mulher dos sete pares de sapatos e de muitas outras. Pai, saiba que toda essa bagagem cultural valeu a pena.
A minha esposa, Isvá da Silva Costa Gomes, que sempre esteve ao meu lado e me apoiou em tudo. Muitas e mutas vezes, ela me viu amanhecer aos estudos.
Ao amigo, Arievaldo Vianna (in memoriam), que me orientou como proceder nas pesquisas na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional do Brasil. Às vezes, passávamos horas ao telefone discutindo sobre literatura de cordel.
Ao amigo paraibano, José Paulo, residente em Guarabira PB, que às vezes, me orientou, ensinou e cedeu parte de seu acervo cordelístico digitalmente. Esse está sempre de prontidão me contando tudo, nos mínimos detalhes, sobre as histórias e controvérsias biográficas dos nossos poetas de bancada.
A minha orientadora, doutora Fátima Reis, pelas orientações e paciente ao se dispor enfrentar esse desafio comigo. Ela que me despertou para eu averiguar o que era ou não poesia de cordel nos folhetos de Portugal.
A Maria do Carmo Vale, assistente técnico do Museu Nacional de Arqueologia de Portugal. Foi ela que trouxe caixas e mais caixas cheias de folhetos de cordel para eu verificá- los um por um.
RESUMO
Essa dissertação apresenta a história dos folhetos da literatura poética de cordel portuguesa e brasileira. Ela limita-se ao espaço temporal de 1851 a 1921, com algumas exceções. Esse trabalho demonstra que a poesia popular de Portugal influenciou diretamente no surgimento da poesia popular do Brasil. O trabalho esclarece que as principais estrofes: quadras, sextilhas e décimas foram as modalidades que mais se desenvolveram, entre o povo, na virada dos séculos XIX/XX nesses dois países. Demostra-se que pelo menos três grandes escolas de poesia popular surgiram no Brasil nesse período: a do Rio de Janeiro, a do Nordeste e a do Norte. O trabalho informa que o poeta Leandro Gomes de Barros, da escola de poesia popular nordestina, foi o responsável por modelar a forma de escrever poesia de cordel no Brasil, tal qual se conhece na atualidade.
Palavras chave: Literatura de cordel, sextilha, folheto, poesia popular, redondilha maior
ABSTRACT
This dissertation presents the history of booklets of Portuguese and Brazilian poetic cordel literature. It is limited to the span of 1851 to 1921, with some exceptions. This work demonstrates that popular poetry from Portugal directly influenced the emergence of popular poetry in Brazil. The work clarifies that the main stanzas: courts, sextiles and tenths were the modalities that most developed among the people at the turn of the 19th/20th centuries in these two countries. It is shown that at least three great schools of popular poetry emerged in Brazil during this period: those in Rio de Janeiro, the Northeast and the North. The work informs that the poet Leandro Gomes de Barros, from the Northeastern School of Popular Poetry, was responsible for shaping the way of writing string poetry in Brazil, as it is known today.
Keywords: Cordel Literature, Sextile, Brochure, Popular Poetry, Large Round
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 8
1. O QUE É LITERATURA DE CORDEL? ... 13
1.1 O QUE SE ENTENDE POR LITERATURA DE CORDEL EM PORTUGAL ... 13
1.2 O QUE SE ENTENDE POR LITERATURA DE CORDEL NO BRASIL ... 21
2. OS TEXTOS POÉTICOS DA LITERATURA DE CORDEL PORTUGUSA DO SÉCULO XIX ... 27
2.1 EM BUSCA DE DOCUMENTOS ... 27
2.2 A POESIA ORAL EM PORTUGAL NO SÉCULO XIX ... 29
2.3 OS FOLHETOS E SUAS CARACTERÍSTICAS ... 31
2.3.1 As quadras (estrofes de quatro versos) ... 32
2.3.2 As sextilhas (estrofes de seis versos) ... 35
2.3.3 As décimas (estrofes de dez versos) ... 44
2.3.4 Outras modalidades ... 47
3. CHEGADA DA LITERATURA DE CORDEL NO BRASIL ... 48
3.1 A IMPRENSA NO BRASIL NO SÉCULO XIX ... 48
3.2 A ESCOLA LITERÁRIA DE POESIA DE CORDEL DO RIO DE JANEIRO ... 49
3.2.1 O poeta Trovoada ... 51
3.2.2 A chegada do Santaninha ... 53
3.2.3 Um cordel em Língua crioula... 59
3.2.4 A poesia contra a escravidão... 62
3.2.5 Um poeta popular burguês ... 66
3.3 A ESCOLA LITERÁRIA DE POESIA POPULAR NO NORDESTE BRASILEIRO ... 69
3.3.1 Quem foi o primeiro? ... 69
3.3.2 Folhetos de versos por toda parte ... 74
3.3.3 A poética de Leandro Gomes de Barros ... 76
3.3.4 Silvino Pirauá, o amigo de Leandro ... 85
3.3.5 Athayde, surge o grande poeta-editor ... 87
3.3.6 A consolidação da literatura de cordel nordestina ... 90
3.4 A ESCOLA LITERÁRIA DE POESIA POPULAR NO NORTE DO BRASIL ... 94
3.4.1 Antonio Mulatinho um potiguar em Manaus ... 94
3.4.2 Outros poetas populares nordestinos no Norte do país ... 98
3.4.3 Firmino Teixeira do Amaral na Região Norte ... 99
3.4.4 A Editora Guajarina em Belém/PA ... 103
4 COMPARAÇÃO DOS CORDÉIS DE PORTUGAL COM OS FOLHETOS DO BRASIL ... 107
4.1 AS QUADRAS ... 108
4.2 AS SEXTILHAS ... 110
4.3 AS DÉCIMAS ... 115
4.4 OUTRAS ESTRUTURAS POÉTICAS ... 123
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 125
REFERÊNCIAS BIBIOGRÁFICAS ... 128
LIVROS E DISSERTAÇÕES ... 128
FOLHETOS AUTORAIS ... 131
FOLHETOS ANÔNIMOS ... 132
8 INTRODUÇÃO
A Literatura de Cordel, ou seu substrato, chegou ao Brasil – ou à terra que depois seria assim denominada – a bordo das primeiras caravelas. É próprio do homem, em seu constante deslocamento geográfico, levar consigo, além dos conhecimentos que lhe garantem a sobrevivência, a sua cultura.2
Nesse texto o pesquisador Marco Haurélio comenta sobre as origens da Literatura de Cordel brasileira. Alguns estudiosos do assunto discordam da ideia de que a poesia popular brasileira tenha alguma origem lusitana. Então de onde surgiu a poesia popular do Brasil? É possível identificar uma origem comum para a poesia oral e a impressa dos poetas populares tupiniquins?
O objetivo desse trabalho não é analisar estritamente a poesia oral que existia concomitantemente em Portugal e Brasil por diversos séculos. A existência da poesia oral rimada e metrificada em Portugal precede à Chegado dos Portugueses à América. Sabe-se que era abundante a existência de poesias nos jornais brasileiros, ainda no início do século XIX.
Mas não é sobre essa poesia impressa de que se trata esta obra.
Essa dissertação tenta demonstrar como se deu a transição da poesia oral para a escrita em folhetos. Pois a poesia que se publicava nos jornais brasileiros tinha um público distinto e seleto: a elite; a qual era leitora daqueles escritos. A poesia publicada em folhetos era popular, ou seja, escrita para o povo ler. De baixo valor aquisitivo, esses folhetos eram vendidos onde o povo frequentava: feiras, mercearias, festas de santos etc.
Se formos analisar a poesia oral brasileira, afim de deduzir que nossa literatura de cordel vem exclusivamente dessa poesia; podemos então dizer que a poesia oral brasileira é 100% de origem europeia. Portanto não é o objetivo dessa obra verificar a poesia publicada nos jornais do Brasil, tão pouco verificar a poesia recolhida da oralidade nos rincões do Brasil.
Nesta dissertação analisarei como se deu o processo de surgimento e consolidação da literatura popular em versos do Brasil. Falarei sobre a Literatura de Cordel Popular que existia em Portugal antes e durante o surgimento dos primeiros folhetos de cordel dos poetas brasileiros. Verifica-se que a poesia popular portuguesa em meados do século XIX era predominantemente escrita em redondilha maior (versos de sete sílabas poéticas). Essa forma de fazer versos populares também foi adotada pelos cordelistas do Brasil.3
2 (HAURÉLIO, 2019, p 13)
3 Nesta dissertação eu denomino as brochuras de “folhetos de cordel” e chamo os textos de “poesia de cordel”.
Às vezes, uso o termo “cordel” como sinônimo do folheto ou do poema. “Cordelista” é o poeta que escreve poema de cordel. Essa é uma palavra nova que se popularizou nas últimas décadas no Brasil.
9 Falarei sobre a diferença entre a poesia de cordel popular portuguesa dos demais ramos da Literatura de Cordel Portuguesa como um todo. Explicarei que o Teatro de Cordel é um compêndio de textos escritos para serem encenados. A poesia de cordel a qual foi escrita para o povo, de fato, ler tinha outro formato poético e estético. Mostrarei as evidências de que existiu em Portugal uma produção de folhetos voltada para a população de baixa renda e de pouca escolaridade consumir.
A Literatura de Cordel Brasileira surgiu em diversos pontos do país, quase ao mesmo tempo, mas prosperou a partir do Nordeste brasileiro. Essa é a minha linha de pesquisa. Irei relatar que surgiram três escolas de literatura de poesia de cordel no Brasil entre a segunda metade do século XIX e início do século XX. A Escola de Literatura de Cordel do Rio de Janeiro, a Escola de Literatura de Cordel do Nordeste e a Escola de Literatura de Cordel do Nortel.
Demostrarei que concomitantemente, a poesia popular de Portugal e a poesia popular brasileira desenvolveram-se e consolidaram-se por volta do período agora em análise (1851- 1921). Mostrarei que tal a poesia popular portuguesa, a do Brasil também era predominantemente em versos de sete sílabas poéticas. Irei mostrar que, de fato, o que houve na literatura de cordel brasileira foi uma aceitação maior dos escritores e dos leitores pelas estrofes de seis versos (sextilhas). Sobre isso afirmou o pesquisador Marco Haurélio:
O Cordel conheceu cumes e abismos, passou por transformações e se adaptou aos novos tempos. Algumas características básicas definidoras, como a preferência dos autores pelos versos em redondilha maior (de sete sílabas poética), com predominância da sextilha, além de temáticas que mesclam o regional ao universal, permanecem.4
Antes da análise dos folhetos do Brasil, irei analisar alguns folhetos da poesia de cordel portuguesa. Neste trabalho eu faço a distinção ou subdivisão da literatura de cordel portuguesa.
Pois a compreensão do que é Literatura de Cordel em Portugal é muito ampla. Estudarei apenas os folhetos da poesia popular de Portugal escritos com estrofes e versos regulares.5 Textos do chamado “Teatro de cordel” não são objetos desse estudo.
Boa parte dos folhetos portugueses que analisei encontram-se no acervo de literatura de cordel do Museu Nacional de Arqueologia de Portugal. Esclareço que há um equívoco dos arquivistas em catalogar vários tipos de folhetos como se fossem de “cordel”. Então para fácil
4 (HAURÉLIO, 2019, p 13)
5 Entende-se por poema de estrofes regulares aquele que tem estrofes padronizadas, ou seja, com as mesmas quantidades de versos. Versos regulares são aqueles compostos dentro do mesmo metro, ou seja, com a mesma quantidade de sílabas poéticas em todo o texto.
10 compreensão e comparação eu analisei, preferencialmente, os folhetos de Portugal que tinham semelhança textual com os folhetos da poesia de cordel brasileira. Não levei em conta apenas a aparência editorial e sim a poética contida nos textos desses dois países.
Sobre a similaridade dos folhetos de cordel de Portugal e do Brasil, Márcia Abreu diz que existiu apenas uma coincidência editorial quanto ao formato e distribuição dos folhetos. O cordel brasileiro em quase nada se compara ao de Portugal, diz ela: “O daqui tem uma uniformidade que parece não existe no de lá”.6 Descordando de todo pesquisador que cita as origens do cordel brasileiro em Portugal essa pesquisadora lançou o seguinte desafio:
Outros, mais categóricos, afirmam uma “origem ibérica” “incontestável”, mas não dizem por quê. Todos concordam, entretanto, que material português sofreu alterações em contato com a realidade brasileira: fala-se em
“adaptação”, “recriação”, “transformações”, “desdobramentos”, fusão entre
“literatura popular ibérica” e a “prática dos poetas improvisadores”, sem que jamais se tenha tentado um cotejo entre as duas condições de produção ou entre os textos efetivamente produzidos em Portugal e no Brasil.7
Essa pesquisadora comparou os poemas dos cordelistas nordestinos escritos no início do século XX com os poemas dos cordelistas portugueses escritos entre os séculos XVI e XVIII.
Isso é uma predisposição de muitos que analisam os folhetos de Portugal para compará-los aos do Brasil. Nesta dissertação farei o real confronto entre as poesias populares desses dois países.
Compararei as poesias que eram escritas paralelamente entre meados do século XIX e início do século XX com a mesma pegada poética.
É certo que nas terras de Portugal todo material impresso que se vendia pendurado em barbantes (cordéis) prosas, poesias, orações, receitas, teatros etc era alcunhado de literatura de cordel, como Márcia Abreu observou.8 Porém ela limitou-se apenas a explicar as semelhanças editoriais dessas literaturas, que achava ser distintas. Mas se existiu uma produção de folhetos em Portugal em contemporaneidade com os do Brasil (entre meados do século XIX e início do século XX) por que não as confrontar?
Podemos afirmar que a pesquisadora não trouxe nada de novo; pois essa classificação já estava pré-definida em Portugal desde o final do século XIX. O que Márcia buscou saber foi justamente a diferença entre os folhetos impressos em Portugal e os folhetos da poesia de cordel brasileira produzidos em épocas diferentes. Ela ainda disse o seguinte, para dar ênfase a sua teoria:
6 (ABREU, 1999, p. 23, 70, 88, 108)
7 (ABREU, 1999, p. 17)
8 (ABREU, 1999, p. 21)
11 No Nordeste têm grande relevâncias as cantorias, espetáculos que compreendem a apresentação de poemas e desafios. O estilo característico da literatura de folhetos parece ter iniciado seu processo de definição nesse espaço oral, muito antes que a impressão fosse possível.9
Aderaldo Luciano é outro pesquisador que também discorda de a hipótese do cordel brasileiro ter suas origens na poesia lusitana. Ele foi mais além do que Márcia Abreu em suas conclusões, pois afirmou que a sextilha surgiu primeiro na poesia de cordel brasileira para depois ser utilizada nas cantorias. Assim escreveu ele:
O que aconteceu foi justamente o contrário: a sextilha escrita é que influenciou a sextilha oral dos cantadores [..] O cordel não é a versão escrita do universo dos cantadores e repentistas nordestinos, é produto estritamente escrito, tendo inclusive, o cordel, influenciado as modalidades da cantoria.10
Mas afinal como surgiu a literatura de cordel brasileira? Surgiu dela mesmo “do nada”
ou das cantorias nordestinas ou das terras de além-mar? Nesta dissertação mostrarei que tanto a poesia oral como a poesia de cordel brasileira tiveram suas origens na Poesia Popular Portuguesa.11 Pois se a forma que Aderaldo e Marcia falam é a construção das estrofes predominantemente em sextilha, então vamos comparar os folhetos e as cantorias produzidos nesses dois países na segunda metade do século XIX.
Após o confronto das duas literaturas populares eu mostrarei o que tem de novo no cordel brasileiro: a poética. A poética é típica de cada grupo de poetas (no tempo e espaço em que vivem). Isso envolve o vocabulário dos mesmo bem como o regionalismo expresso em seus versos. Nesse caso era normal que além das histórias medievais da Europa os poeta do Nordeste brasileiro escrevessem poemas sobre o sertanejo, cangaceiros, sertão, seca etc.
Atualmente no Brasil, existe um pensamento nacionalista, que tenta provar, de que muitas de nossas coisas não tiveram origens em Portugal. Isso é um revisionismo que muitas vezes é falho. Em Portugal se produzia cordel em décima, sextilha e quadra, ipsis litteris as que Leandro Gomes de Barros, Silvino Pirauá, Francisco das Chagas Batista e João Martins de Athayde iriam publicar mais tarde no Brasil. Os poetas brasileiros utilizaram uma forma poética já existente. Entendo que Leandro Gomes de Barros apenas sistematizou sua produção de folhetos e tornou-se o maior de todos os poetas de cordel (do Brasil e de Portugal).
9 (ABREU, 1999, p. 73, 74)
10 (LUCIANO, 2012, p. 35, 83)
11 Para melhor compreensão do leitor neste trabalho eu chamo de “Literatura Popular” o conjunto de poesia oral e poesia impressa, essa ora denominada “de cordel”.
12 Para melhor compreensão do leitor, nesta dissertação eu falo da literatura de cordel poética de Portugal como sinônimo da Literatura de Cordel do Brasil. Pois a literatura de cordel brasileira é essencialmente poética. Também as considero como poesia popular. Eu entendo como poesia popular, não a poesia simplesmente escrita por poetas que não são d’alguma
“Academia”. Para mim poesia popular é aquela escrita com vocabulários de simples compreensão para o povo.
Aderaldo Luciano discorda da ideia de que exista poesia erudita e poesia popular. Para ele o que existe é poesia boa ou ruim. O pesquisador Arnaldo Saraiva faz uma discussão do que é popular e do que é populismo. Nesta dissertação não entrarei nesse mérito, visto que meu objetivo é mostrar como se deu a transição da poesia popular de Portugal para o Brasil. Após a abordagem histórica farei a comparação dos folhetos desses dois países.
13 1. O QUE É LITERATURA DE CORDEL?
1.1 O QUE SE ENTENDE POR LITERATURA DE CORDEL EM PORTUGAL
O advento da imprensa na Europa fez circular em Portugal, a partir do século XVI, vários folhetos, que posteriormente foram designados de Literatura de Cordel. Essa nomenclatura se popularizou, provavelmente no início século XIX. Devido a isso os pesquisadores portugueses denominaram de literatura de cordel o conjunto de textos escritos e impressos em formatos de livretos, folhetos e folhas soltas entre os séculos XVI e XX.12 A maior parte dessas obras, como pode ser observado no Acervo da Fundação Calouste Gulbenkian13 e no livro Catálogo de Literatura de cordel14 trata-se de folhetos contendo peças teatrais (em verso ou prosa ou misto dessas), de alguns poemas e histórias em prosa.
Observa-se também que há outros gêneros literários enquadrados nessa modalidade, ora denominada Literatura de Cordel. Então o ato de classificar e denominar o que é literatura de cordel em Portugal confunde alguns pesquisadores do assunto. Pois sua classificação, está relacionada com a coincidência do formato editorial, e isso engloba vários gêneros literários – populares ou não. Estão catalogados nessas e em outras antologias físicas ou on-line textos de muitos autores consagrados pela crítica literária como os mestres da arte de escrever. Nesse compêndio também se inclui textos religiosos, entremezes, poemas, crônicas e várias peças de teatro tanto em prosa como em versos.
Sabe-se, decerto, que colecionadores e pesquisadores da segunda metade do século XIX agrupavam todos folhetos de cunho literário como sendo literatura de cordel. O pesquisador Sousa Basto escreveu em 1897 o livro intitulado: Carteira do artista, apontamentos para historia do Theatro portuguez e brasileiro. Nessa obra ele nomeia alguns folhetos de Comédias de cordel e faz uma lista de vários deles. A essa lista ele chama de Peças de cordel.15
Muitos folhetos foram classificados como literatura de cordel, sem ao menos haver uma discussão do que era, ou não literatura de cordel. A partir do início século XX até os dias de hoje, os pesquisadores, colecionadores e arquivistas seguiram o modelo de classificação adotada no final século XIX. Sousa Basto diz ter visto em folhetos O auto de Santa Bárbara, esse de autoria de Affonso Alvares. Porém Basto afirma que foi a companhia de José Ferreira
12 Ver um entendimento conceitual e histórico em Carlos Ceia, e-Dicionário de Termos Literários, disponível em https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/literatura-de-cordel/
13 Essa Fundação é guardiã o espório de Albino Forjaz de Sampaio, esse autor do livro Teatro de cordel em 1922 Confira em
https://www.biblartepac.gulbenkian.pt/ipac20/ipac.jsp?session=1353583Q33T28.686479&profile=ba&menu=ta b13&ts=1353583733243#
14 (BARATA e PERICÃO, 2006)
15 (BASTOS p. 188, 577, 717)
14 a partir de sua contratação pelo Pateo das Arcas em 1716, e assim ele escreveu: Foi esta companhia que começou a apresentar essa incalculável e riquíssima coleção de comédias de cordel, em que tanto se manifestou a originalidade.16
No livro Catálogo da Literatura de Cordel, seus autores José Oliveira Barata e Maria da Graça Pericão, catalogaram o espólio da coleção Jorge de Faria. Estão presentes na coletânea obras de Gil Vicente, Camões, Shakespeare e até de Nietzsche. Provavelmente, a classificação desses folhetos foi feita pelo próprio Jorge de Faria. Os organizadores (Barata e Pericão) apenas a catalogaram. Sobre a controversa classificação que se faz dos folhetos portugueses escreveu Carlos Nogueira:
As discrepâncias na definição deste universo editorial acentuam-se hoje com a inserção no seu conceito, a par das formas que seguem a tradição do cordel – folhetos e folhas volantes, com configurações muito diversas –, de obras que, mais ou menos acidentalmente, por razoes de analogia material e conteudística, se incluem neste tipo de literatura.17
Os folhetos de cordel se espalharam desde o século XVI na Península Ibérica. Os textos de Gil Vicente eram amplamente divulgados nessas folhas volantes. Só após a morte desse bardo que seus herdeiros publicaram suas obras em coleções volumosas. Sobre isso Teófilo Braga escreveu em 1867 o seguinte:
As obras de Gil Vicente pertenceram, antes de se acharem coordenadas em volume, á litteratura popular, denominada de cordel, [..] Essas obras meudas, aqui designadas, eram as folhas volantes ou, como chamam os hespanhoes, pliegos sueltos de la litteratura de cordel.18
Teófilo Braga nesta mesma obra diz que os magros folhetos de cordel eram lidos entre os sapateiros e quejantes, sendo alguns em prosas e outros rimados. Ele faz alusão ao teatro de cordel que era abundante devido aos escritos do cego Baltasar Dias.19 Fica claro que Braga está referindo-se aos folhetos populares, não àqueles que eram lidos nos salões e teatros. É essa literatura lida entre os vendedores de queijos e sapateiros que analisarei nos capítulos 2 e 4 desta dissertação.
16 (BASTOS, 1897, p. 187)
17 (NOGUEIRA, 2004, p. 3)
18 (BRAGA, 1867, p. 29)
19 (BRAGA, 1867, p. 188)
15 Nogueira, bem como outros pesquisadores,
chega à conclusão de que além dessa problemática de classificação editorial do que viria a ser denominado de cordel, o fato de muitos confundirem literatura de cordel com literatura popular também atrapalha quem pesquisa o tema.
Diante disso, designar, classifica ou nomear o que é ou não cordel em Portugal torna-se algo dificílimo.
Quando se estuda a literatura de cordel no Brasil vemos claramente uma distinção mais evidente de que a Literatura de cordel brasileira é de fato uma literatura popular.20
Nas coletâneas de livretos, folhetos e folhas soltas e outros impressos que pesquisei em acervos físicos ou digitais de Portugal, eu pude evidenciar
que não existe uma classificação nem subclassificação temática do cordel português. Nesses escritos há entremezes, poemas, romances, prosas, crônicas até mesmo textos religiosos (literatura de evangelização) e tratados de paz entre nações etc. Então é comum atribuir o termo literatura de cordel aos textos que foram reproduzidos em livretos, folhetos ou folhas soltas.
Entre os textos ditos como literatura de cordel portuguesa estão os escritos pelo cego Baltasar Dias, o qual os produzia no século XVI. Dias escrevia tanto em prosa como em verso e recebeu autorização do Rei D. João III em 1537 para ter exclusividade na publicação de suas obras, como se registra:
Dom Joham etc., a quantos esta minha carta virem faço saber que Baltesar Dias, ceguo da ylha da Madeira me disse por sua petyçam que tem feitas algũas obras assy em prosa como em metro, as quaes foram já vistas e aprouadas e algũas dellas ymprimidas, segundo podia ver por um pubrico estromento que perante mim apresentou.
E por quanto elle quer ora mandar ymprimir as ditas obras que tem feitas e outras que espera de fazer, por ser homem pobre e nam ter outra ymdustria para viver por o caricimento de sua vista senam vender has ditas obras, me pidia ouvesse por bem, por lhe fazer esmolla, dar-lhe de privilegio pera que pessoa algũa nam possa ymprimir nem vender suas obras sem sua licença, com certa pena.
20 No caso, a Literatura de Cordel Brasileira foi inscrita no Livro de Registro das Formas de Expressão do IPHAN, em setembro de 2018 como Patrimônio Cultural do Brasil.
Vide http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/1943
Sem qualquer critério ou classificação, folhetos de sermões religiosos também fazem parte das coletâneas de cordéis Portugal a fora.
16 E visto todo por mim, ey por bem e mando que nenhum ymprimidor emprima as obras do dito Baltesar Dias, ceguo, que elle fyzer asy em metro como em prosa, nem livreiro algum nem outra nenhũa pesoa as venda sem sua licença, sob pena de quem ho contrairo fyzer pagar XXX cruzados, ametade catyvos e a outra ametade para quem o acusar. E porém, se elle fyzer algũas obras que toquem em cousa de nossa santa fee, nam se ymprimam sem primeiro serem vistas e enjaminadas por mestre Pedro Marguallo, e vindo por elle vistas, e achando que não falla em cousa que se nam deva fallar, lhe pase diso sua certidam, com a qual certidam hey por bem que se ymprimam as taes obras e doutra maneira nam.
Notefyquo asy a todos corregedores, juízes, justiças, oficiaes e pesoas a que esta minha carta for mostrada, e mando que asy se cumpra sem duvida nem embarguo algum. Dada em minha cidade d’Évora aos XX de fevereiro.
Anrique da Mota a fez, anno do nacimento de noso senhor Jesu Christo de mil D e XXXVII anos.21
A poesia desse poeta é muito citada em obras que tentam associar, ou desassociar o cordel brasileiro com o de Portugal (analisarei em capítulos posteriores esse assunto sobre semelhanças e diferenças dos folhetos populares de ambos países). Na época de Baltasar Dias outros cegos também receberam autorização para comercializar seus folhetos. Devido a isso a literatura de cordel portuguesa também ficou conhecida como literatura de cegos.22
Dentre os vários subgêneros da Literatura de cordel Portuguesa “O Teatro de cordel” é bem estudado e, portanto, o melhor catalogado. Sobre esta temática Albino Forjaz de Sampaio escreveu em 1922 um livro de estudos intitulado: Teatro de cordel.23Nessa obra o autor analisa diversos folhetos da literatura de cordel portuguesa, os quais tratam-se de entremezes, farsas, monólogos etc. Esses textos escritos, para serem encenados, não podemos nem dizer que eram literatura popular. Aliás, ao analisar os folhetos produzidos em Portugal, e eventualmente na Espanha, é difícil diferenciar literatura popular de literatura de cordel. Sobre isso escreveu Carlos Nogueira: “Como problema indissociável deste eixo terminológico ressalta a associação sinonímica constrangida entre conceitos de literatura de cordel e de literatura popular”.24
Márcia Abreuanalisou alguns arquivos em Portugal e constatou que, de fato, os cordéis lusitanos estão agrupados não devido à semelhança textual ou de gênero, mas sim por causa do formato padronizado dos folhetos. Sobre o equívoco que os pesquisadores fazem ao confundir o conceito de “cordel” com o de “literatura popular”. Ela esclareceu:
21 (Apud GOMES, 1983, p 41, 42)
22 Vide Carlos Nogueira. A Literatura de Cordel Portuguesa. eHumanista. Journal of Iberian Studies, vol. 21, Santa Barbara, California, 2012, pp. 195-222,
disponível em https://www.ehumanista.ucsb.edu/volumes/21
23 Disponível em: https://archive.org/details/subsidiosparahis00samp/page/2/mode/2up
24 (NOGUEIRA, 2004)
17 Parece que toda a dificuldade reside no fato de não querer assumir que não há, realmente, nada que unifique esse material, a não ser a questão editorial. A chamada literatura de cordel é uma fórmula editorial que permitiu a divulgação de textos de origens e gêneros variados para amplos setores da população.25
Essa mesma pesquisadora, de acordo com seus estudos em campo, diz o que era literatura de cordel em Portugal: “Não se trata, portanto, de uma modalidade literária, de um gênero, literário, e sim de um gênero editorial”.26 Ela discorre sobre a ideia de que os editores não diferenciavam o público leitor de “cordel” de letrado ou de popular, visto que isso era irrelevante às vendas.
Albino Forjaz de Sampaio também notou que os folhetos do teatro de cordel receberam tal nomenclatura de Literatura de cordel, não devido a pertencerem a um gênero e sim era uma designação bibliográfica nascida do fato de os cegos ou papelistas que o vendiam exporem o material “pendente dum barbante pregado nas paredes ou nas portas”.27Esse autor ainda nos idos da década de 1920 via dificuldade em definir o que era literatura de cordel. Ele também ressaltou que o teatro de cordel nunca fora estudado ou citado pelos grandes pesquisadores de seu tempo.
Arnaldo Saraiva, um dos maiores pesquisadores da atualidade sobre o tema literatura de cordel portuguesa, diz que nem toda literatura de cordel é popular. Ele chama de literatura marginalizada, sendo aquela ignorada, esquecida, censurada, marginal/lizada pelos poderes literários culturais ou políticos por razoes de linguagem ou de produção e circulação no mercado. Ele diz que uma vez que tantos autores quanto público dessa literatura não pertencem exclusivamente às camadas populares.28
Parece que o conceito de Saraiva não ajuda muito a distinguir o que é ou não cordel.
Está longe de pesquisadores definirem, de fato, o que é literatura de cordel em terras lusitanas.
Pois enquanto Saraiva fala de uma literatura marginalizada pelas elites, vemos alguns poemas de cordel sendo declamados e cantados em teatros por pessoas famosas - ditas eruditas - da época como o folheto DECIMAS QUE COMPÔZ RICARDO JOSE´ FORTUNA E RECITOU O MARAVILHOSO ACTOR THEODORICO BAPTISTA DA CRUZ NO TEATRO
25 (ABREU, 1999, p.23)
26 (ABREU, 1999, p.25)
27 (SAMPAIO, 1922)
28 Vide: SARAIVA, 1975
18 PORTUGUEZ DA RUA DOS CONDES NA FARSA INTULADA O TUTOR ENTALLADO NA ENFERMARIA DOS DOIDOS.29
Seguindo essa mesma linha de folheto temos “ELYSA, E LUSO, OU O TEMPLO DE VENUS, ELOGIO DRAMATICO, OFFERECIDO A SUA MAGESTADE O SENHOR D.
JOAÕ VI, REI CONSTITUCIONAL DO REINO-UNIDO DE PORTUGAL, BRAZIL, E
ALGARVES, E REPRESENTADO NO
THEATRO NACIONAL DA RUA DOS
CONDES, PARA CELEBRAR O
ANNIVERSARIO DO FAUSTISSIMO DIA 15 DE SETEMBRO DE 1820 / JOSÉ MARIA DA COSTA E SILVA; [INTROD.] DE MANOEL BAPTISTA DE PAULA”.30 Há outros folhetos digitalizados e disponíveis no site da Fundação Calouste Gulbenkian, os quais foram compostos para serem encenados nesse referido teatro.31
Nos folhetos comercializados pelos cegos era comum ter alguns versos apelativos ao leitor para comprar tal obra. Vemos isso no folheto poético Noite da serração da Velha no Prezente Anno de 1806, que provavelmente é uma reimpressão do século XVIII.
Se queres, ó leitor desocupado,
Saber em breve tempo a minha historia, Dá teu dinheiro ao cego remendado, E aguça desde já tua memória:
Não ouviras successo sublimado, Nem algum cazo digno d’alta gloria;
Mas em frase ouvirás pouco pomposa A serração da velha tão famosa.
E depois de gastares teu dinheiro,
Não digas mal de mim, que isso he loucura;
Mas antes com semblante prazenteiro O teu disgosto simular procura:
Recata-te porem do companheiro,
29 Disponível para consulta presencial na Biblioteca do Museu Nacional de Arqueologia, sob o título de Literatura de cordel, localização: LC/JLV/Cx. 11 (BMNARQ) - 8365
30Disponível em: https://baimages.gulbenkian.pt/images/winlibimg.aspx?skey=&doc=130827&img=11126
31 Vide: https://gulbenkian.pt/biblioteca-arte/colecoes/colecoes-digitais/colecoes-textuais/
Folheto com poemas escritos para serem declamados no teatro de Lisboa em 1830
19 Que, em tu voltando costas, já murmura,
Dizendo que és doudinho por papéis, Gastando em obra tal quarenta reis.32
O folheto apresenta uma narrativa em tom jocoso. Em outro folheto poético por título a DEZEGANO DOS RAPAZES OU SUCESSOS DA SERRAÇÃO DA VELHA DESTE PREZENTE ANNO DE 1786, vemos novamente o cego vendedor falando ao leitor que compre tal fascículo.
Meu amigo leitor, Leitor querido, Não posso ser mais largo, nem comprido;
Esta obra jocoza aqui te entrego, Uza de compaixão com o pobre cego:
Gaba-lhe este papel, dize que he bom, Inda que lhe não aches tom nem fom:
Bem vês quem quer que es, que esta obrazinha, Para dar mil vinténs foi armadinha:
Poem em comparares jà todo o cuidado, Não fique o meu fentido hoje frustrado;
Se queres ver o fim, que o papel tem, Não te demores mais, dá cá vintém.33
A exclusividade dos cegos vendedores, os quais tinham autorização do Governo Português para comercializarem seus impressos, aos poucos perdeu a valia. Na segunda metade do século XIX os folhetos já eram comercializados e escritos por autores não cegos. Observa- se isso na lavra de folhetos da segunda metade do século XIX que circulavam nos grandes centros de Portugal.
A prática de o escritor falar com o leito continuou ao longo do século XIX. O poeta falava com seu público letrado nas primeiras ou últimos estrofes do folheto. Isso demonstra que o consumidor do produto, de fato, era o povo. Esses folhetos eram produzidos não para declamar em salões ou teatros e sim para serem lidos, quiçá decorados em ambientes mais humildes. Observa isso no folheto de 1790 intitulado: Vida do façanhoso Roldão, extraído do livro de Carlos Magno.
“Leitor Amigo Leitor, Que lêz talvez soletrando, Aqui lerás as façanhas
Que nem mesmo tu has sonhado:
32 NTT – R.M.C. nº 3011. Cx. 336. Noite da serração da Velha no Prezente Anno. Obra muito Jocoseira. Offerecida aos seus herdeiros, e a todas as pessoas de bom gosto, para seu divertimento. Folheto de autor anônimo. Lisboa:
Na Officina de Nunesiana. Com licença da Meza do Desembargo do Paço. 1806.
33 Sem autoria. DEZEGANO DOS RAPAZES OU SUCESSOS DA SERRAÇÃ DA VELHA DESTE PREZENTE ANNO DE 1786.
Lisboa: Officina de Domingos Gonsalves, 1786. Disponível para consulta presencial na Biblioteca do Museu Nacional de Arqueologia, sob o título de Literatura de cordel, localização: LC/JLV/Cx. 13 (BMNARQ) - 8408
20 Em rija proza já viste
A vida sempre famoza, Hoje este heroe vai sobindo Por entre rima vistoza: [...]
Parece que estremeceste?
Parece que descoraste?
Porém não temas, não temas, Lé sua vida: pasmaste?34
A história da Princesa Magalona, um clássico medieval, escrito e produzido em vários países da Europa, teve uma impressão na França em 1482 já em formato de brochura. Isso apenas três décadas após a invenção da imprensa na Alemanha. O formato editorial, - econômico – deve ter agradado o público e isso não tinha nada a ver com questões literárias.
Esse mesmo formato foi adotado em Portugal e em outros países da Europa.
O formato e tamanho dos folhetos das coleções disponíveis seguiu um padrão quase inalterável durante três séculos. Eram folhetos no tamanho 14x21cm (aproximadamente meio oficio) contendo sempre páginas múltiplas de quatro: 4, 8, 12, 16, 20, 24 etc. A maioria desses folhetos não era numerado. O papel desses folhetos era uma espécie áspera, semelhante ao papel jornal que temos nos dias atuais; porém de gramatura maior. Alguns desses folhetos eram costurados com uma linha para amarrar as folhas do folheto. Porém observa-se que apareceu no século XIX folhetos de tamanho menores (11x14cm = ¼ de ofício) e com papel jornal de gramatura mais fino.
34 (Apud ABREU, 1999 p. 70)
21 Como clássicos, com várias tiragens de impressão, da Literatura de cordel portuguesa temos as histórias de Pedro Malasartes, da Princesa Teodora, da Princesa Magalona, de Roberto do Diabo, de Zé do Telhado entre outros. Alguns textos não eram peças para encenação, portanto não podemos classificá-los como Teatro de cordel e sim literatura de cordel portuguesa. Dentre todos estes textos eu encontrei
um vasto material produzido no século XIX, em especial na segunda metade do século. Esse material cordelístico que analisei e trago aqui neste estudo são os folhetos de poesia.
Os folhetos que em capítulo posterior analisarei foram escritos para serem lidos. A função de ser encenar em teatro e rua não terá mais nesses folhetos, apesar de que os folhetos do teatro de cordel continuarão paralelamente sendo publicados, sempre no tamanho maior (14x21cm).
A forma e tipo de letra dos folhetos da segunda metade do século XIX são diferentes: bem legíveis e compreensíveis e escritos em português moderno. Nesta dissertação, para melhor compreensão do estudo e comparação com os folhetos do Brasil, classifico esses folhetos de
poesia como Popular Literatura Poética de Cordel Portuguesa.
1.2 O QUE SE ENTENDE POR LITERATURA DE CORDEL NO BRASIL
A Literatura de cordel no Brasil, desde sua origem em meados do século XIX até os dias de hoje, produzida em folhetos, folhas soltas ou livros, sempre foi escrita em versos rimados.
Não se concebe a ideia de cordel brasileiro em prosa. Segundo a maioria dos pesquisadores esses folhetos de poesia têm suas origens na literatura oral do Brasil e na popular lusitana. Souto maior diz que dessa fusão nasceu a poesia popular nordestina.35
Marcia Abreu discorda dessa versão histórica. Ela afirma que a literatura de cordel brasileira não herdou nada da literatura de cordel lusitana, a não ser o formato editorial (livretos com 4,8,16 ou 32 páginas). Ela critica todos os pesquisadores que utilizaram expressões como:
35 (Apud ABREU, 1999 p.16)
Folheto impresso no início do século XIX.
Observa-se o tipo de letra legível e em português moderno.
22
“adaptou-se”, “incorporou novas formas”, “reinventou-se”, “recriou-se” para, com falácias, demonstrarem que o cordel do Brasil teve influência literária direta dos folhetos lusitanos.36
É fato que a presença da imprensa fixou mais ou menos inalterável à forma da literatura escrita, distanciando-a da literatura oral.37 A expressão “literatura de cordel” bem como seu modo de comercialização e exposição vem devido à semelhança de nossos folhetos com os de Portugal.38 A pesquisadora Márcia Abreu a define assim o cordel brasileiro:
Cordel é um gênero poético, uniforme constituída por versos metrificados, compostos em sua maioria por sextilhas, setilhas e décimas em redondilhas maiores - versos de sete sílabas poéticas.39
A literatura de cordel brasileira é essencialmente poética, e tal qual existe hoje teve origem no Nordeste do Brasil.40 Suas origens remontam as cantorias de viola sertanejas, apesar de que essa forma poética editorial nasceu no meio urbano. Porém existiu outros polos de literatura popular no Brasil, que de alguma forma, desapareceram ou se fundiram com a forma poética que se estabeleceu no Nordeste do Brasil na virada dos séculos XIX/XX. No Brasil também existe a confusão entre o que é folheto de cordel e poesia de cordel. Mas os pesquisadores são quase unânimes em afirmar que nossa poesia de cordel é essencial em sua forma popular (escrita do povo para o povo).
No Brasil ao final do século XIX se escrevia e publicava algumas quadrinhas emparelhadas. Elas caíram em desuso nos folhetos do início do século XX, em especial nos que eram publicados no Nordeste brasileiro.41 A sextilha é a principal modalidade do cordel brasileiro, porém Câmara Cascudo ressalvou que essa forma de escrever versos existe em Portugal, pelo menos desde 1557. Ele não cita em sua obra folhetos brasileiros escritos em quadras. Apenas faz alusão à algumas quadrinhas recolhidas da tradição oral sertaneja.42
No Nordeste Brasileiro nossos folhetos adquiriram características próprias de uma forma peculiar. A cantoria e as modinhas típicas dos sertões influenciariam nesse processo mais do que os versos de Portugal afirmar Marcia de Abreu.43 Segundo essa autora os folhetos de cordel do Brasil não derivaram dos folhetos de Portugal, pois o que faz eles serem parecidos é
36 (ABREU, 1999 p.88,108,110,112,119)
37 (CASCUDO, 1994 p.32)
38 (BATISTA, 1977 p. i; SILVA, 2005 p.18)
39 (ABREU, 1999 p.88,108,110,112,119)
40 A Academia Brasileira de Literatura de Cordel é um grupo de poetas guardiões da forma poética desse gênero.
Saiba mais em: http://www.ablc.com.br/
41 (CASCUDO, 1984, p.23)
42 Veja a análise detalha em: CASCUDO, Luis da Câmara. Vaqueiros e cantadores. Belo Horizonte: Itatiaia. 1984.
43 (ABREU, 1999 p.73)
23 apenas o formato e modelo da impressão. Essa corrente de teoria literária afirma que nossos folhetos de cordel surgiram da oralidade no interior do Nordeste brasileiro; principalmente do romanceiro, das cantorias de viola e das modinhas cantadas nos teatros e salões de festa.44
Essas modinhas e poesias de cordel eram considerados sinônimos pelo público, conforme afirmou o pesquisador Humberto Peregrino45 Os editores de cordel no Pará chamavam esses folhetos de Literatura Sertaneja.46 Alguns poetas de cordel do Brasil se auto denominavam de trovadores. Os poetas que na maioria das vezes eram os próprios vendedores de suas obras não conheciam o termo Literatura de cordel, salvo exceções. Eles e o público comprador os chamavam de romances, folhetos ou simplesmente versos. Esse termo passa a ser empregado por estudiosos a partir de 1970, fazendo alusão ou comparação aos folhetos lusitanos.47
Por volta dos anos de 1980 os próprios poetas de bancada aceitaram e passaram a utilizar o adjetivo cordelista referindo-se a si mesmos. Alguns começaram expor seus livretos à venda (em ambientes fechados, nunca na feira) dependurados em cordões (cordéis). Sobre o fato Liêdo escreveu: “A exposição dos folhetos em cordão (cordel) existe sim, mas não é regra e isso não caracteriza ou autentica qualquer livreto a ser chamado de cordel”.48
Os primeiros folhetos de cordel oriundos do Nordeste brasileiro foram impressos no meado do século XIX em gráficas de Recife-PE. Devido a esses e outros fatores os cordelistas brasileiros são predominantemente nordestinos (PEREGRINO, 1984 p.68, 81). Sobre isto Gonçalo Ferreira indaga: “Por que exatamente no Nordestes?” (SILVA, 2005 p.18) “As condições sociais e culturais do Nordeste favoreceram e contribuíram para a difusão dos folhetos primeiro por esta região e depois para o todo país” responde Sebastião (BATISTA, 1977 p. v). Sobre a produção dos primeiros folhetos populares no Brasil Márcia Abreu explica:
Não se sabe quem foi o primeiro autor a imprimir seus poemas, mas Leandro Gomes de Barros foi o responsável pelo início da publicação sistemática. Em folheto editado em 1907, ele afirmava escrever poemas desde 1889.49
Outros pioneiros a produzirem cordel continuamente no Brasil, juntos com Leandro foram Silvino Pirauá e Chagas Batistas. Esses três paraibanos eram residentes na capital pernambucana entre o final do século XIX e o início do século XX. Foi a partir dos escritos
44 (ABREU 1999 p. 73-90)
45 (PEREGRINO,1984 p. 43, 67).
46 (SALLES, 1985, p.152)
47 (ABREU 1999 p. 17)
48(PEREGRINO, 1984 p.19)
49 (ABREU, 1999 p.91)
24 desses vates que se consolidou o formato de como é conhecido hoje o cordel nordestino. Esse cordel nordestino espalhou-se por todo os rincões do Brasil de tal modo que na segunda década do século XX eles já eram lidos nas cinco regiões do país.
Francisco das Chagas Batista que foi amigo e editor/impressor de Leandro Gomes de Barros afirma em seu livro Cantadores e poetas populares que Leandro foi o fundador da popular litteratura poética de cordel no Nordeste.50 Aliás, Batista dedica seu livro ao bardo e escreveu assim no epílogo: Á memória de Leandro Gomes de Barros. O maior poeta popular do seu tempo, o que mais contribuiu para o folk-lore nordestino.
A ideia de que os folhetos de cordel do Brasil era uma manifestação folclórica foi difundida pelos próprios poetas de bancada, bem como pelos pesquisadores. Nos primórdios, era comum vir estampado nas capas dos folhetos a expressão: folk-lore brasileiro.51 Essa visão de que o cordel brasileiro seja uma coisa folclorista
é ultrapassada. Hoje os pesquisadores veem o cordel também como literatura e não apenas como folclore.
Certa feita, perguntaram ao professor Raymond Cantel da Universidade de Sorbonne, na França, estudioso do assunto, qual seria a definição mais compacta que se poderia dar ao cordel: - Poesia narrativa impressa? imediatamente ele completou POPULAR. Então a definição simples e reduzida do que é cordel: - poesia narrativa, popular, impressa – passou a vigorar entre estudiosos. Porém essa frase deixa mais lacuna do que, de fato, explica o que é cordel. Afinal cordel é só narrativa? Qualquer narrativa poética é cordel? Que tipo de poesia é ou não cordel?
A resposta de que cordel é narrativa poética popular impressa é manca, pois precisa de muito complemento, e impossivelmente, alguém poderá dar a definição mais próxima da correta
50 (BATISTA, 1929 p. 114)
51 Vide: BARROS, Leandro Gomes de. A peleja de Manoel Riachão com o diabo. [S.l.: s.n.], [19 --].
Observa-se a expressão FOLK-LORE NORDESTINO nesse folheto de Leandro Gomes de Barros
25 do que é Literatura de cordel em apenas uma frase usando dois ou três verbos apenas. Sobre essa polêmica escreveu o pesquisador Aderaldo Luciano:
O cordel, por nossa classificação, compreende o narrativo, o dramático o lírico, compreendendo a poética clássica, mas também se estende a todos os gêneros da modernidade e baixa modernidade.52
No Brasil literatura de cordel é sinônimo de poesia popular. Sobre isso Raymond Cantel também se expressou em carta dizendo: Mas, eis que surgem novas perguntas; Cordel para ser popular tem que ter autor não erudito ou o público tem que ser o povo? Ou tem que ter esses dois elementos em conjunto para ser considerado cordel? Mas se cordel é um gênero poético, onde se encaixa, então os escritos dos poetas eruditos que escrevem ipsis litteris como Leandro Gomes de Barros?
O poema Sextilhas de Frei Antão de outro nordestino Gonçalves Dias publicado em formato de livro no ano de 1848 é ipsis litteris como as estrofes que vão predominar no cordel brasileiro, porém não é uma narrativa poética. Bem, como frisou Aderaldo Luciano, se cordel não é apenas narrativa, porque não classificar a poesia de Dias como poema de cordel?
Os primeiros folhetos tinham apenas os títulos escritos em caixa-alta, sem nenhuma gravura na capa. Eles eram chamados de folhetos sem capa ou de capas cegas. (MACHADO, 1980 p.48). Depois os editores notaram que os folhetos com figuras poderiam chamar mais atenção e, consequentemente vender mais. Surgiram então os primeiros clichês de zinco e mais tarde a xilogravura. Sobre o assunto Liêdo comenta:
Conhecidos por esta denominação, entre seus próprios poetas, os folhetos sem capa pertencem ao período mais antigo da poesia popular. Sua característica é a ausência do clichê de zinco ou de madeira. [...] É desse período que vem a tradição de confeccionar as capas com papel colorido para dar melhor aparência aos folhetos.53
A primeira xilogravura apareceu no Nordeste em um folheto de cordel em 1907, em uma página interna do folheto (FRANKLIN, 2007 p. 15). Isso não significa que virou prática comum desde aquela época. João Martins de Athayde, o maior de todos editores de cordel, ignorou a produção de xilogravura nos cordéis que ele publicava (FRANKLIN, 2007 p. 20).
Quando Athayde colocava alguma xilogravura era por falta de clichê de metal (PEREGRINO, 1984 p. 139).
52 (LUCIANO, 2012 p. 85)
53 (MARANHÃO, 1981 p. 27)
26 A literatura de cordel brasileira, que é essencialmente poética desde seus primórdios, é muitas vezes associada, desassociada ou confundida com a literatura de cordel portuguesa.
Também nossa literatura popular em versos é associada e confundida como à cantoria de viola nordestina, que é outra modalidade, coirmã, da literatura de cordel.
Podemos a partir de uma ideia já formalizada dizer que literatura de cordel no Brasil são textos poéticos produzidos com certa uniformidade (ou não) com estilos de estrofes (as mais usuais: sextilha, setilha, décimas e raramente as oitavas e quadras) predefinidas e quase em sua totalidade escritas em versos heptassilábicos (redondilhas maiores). Esses poemas geralmente são narrativas editadas em folhetos que seguem padrões editoriais de 8 a 48 páginas (raramente aparecem cordéis de 4 páginas ou os de 56 ou 64 páginas) Porém além de serem produzidas dentro dessas constâncias têm suas variantes. Pois seguem muitas das vezes uma métrica oral e os poetas limitam-se ao vocabulário coloquial, e em algumas vezes, se utilizam de rimas e expressões não aceitas na dita poesia erudita.
Esses folhetos começaram a ser produzidos na segunda metade do século XIX (precisamente no Nordeste brasileiro) e são editados até os dias de hoje com muitas tiragens.
Considera-se como real fundador dessa poesia popular o poeta paraibano Leandro Gomes de Barros (1865-1919), ele produzia e comercializava seus textos no estado do Pernambuco, aos arredores de sua capital: Recife. Desta cidade e seguindo os modelos adotados por Leandro, outros poetas nordestinos começaram a produzir seus textos ainda na segunda metade do século XIX
O modelo poético de cordel que surgira em Recife com Leandro Gomes de Barros logo se espalhou por todo o Nordeste e ramificando-se na Região Norte e depois no Sudeste do Brasil. Então todos os textos produzidos que seguiam certos padrões e que foram editados de maneira rude foram alcunhados de poesia popular e tardiamente associados à literatura do povo português também foram alcunhados de Literatura de Cordel.
A principal modalidade de estrofe empregada no cordel nordestino é a sextilha simples (que rimam o final dos versos pares no esquema ABCBDB). Os pesquisadores são quase unânimes em atribuir a Leandro Gomes de Barros e/ou a seu parceiro de poesia popular e contemporâneo Silvino Pirauá (1848-1913) a introdução desse tipo de sextilha na poesia popular e impressa brasileira. Também, ainda no início do século XX, foram introduzidos outros tipos de estrofes na composição poética da literatura de cordel tupiniquim tais como:
quadras, setilhas, oitavas e décimas.
27 Então, os poemas populares que foram e que são publicados no Brasil escritos com esses tipos de estrofes iremos chamá-los de literatura de cordel. São textos poéticos com certas regras técnicas, os quais geralmente são publicados em folhetos, mas ultimamente vêm sendo publicados em livros. Seus autores na maioria das vezes assinam seus textos e são eles distintos dos autores tido como clássicos brasileiros. Para efeitos de estudo, a classificação desses folhetos torna-se muito mais simples do que a classificação lusitana. Pois no Brasil tudo que se conhece como literatura de cordel é poesia rimada e metrificada, mesmo que de forma oral e rudimentar.
As definições de cordel para o suporte e não para o conteúdo mudou com o tempo.
Hoje chama-se cordel conteúdo e não ao suporte. É quase unânime entre os pesquisadores de poesia popular a ideia de dizer que o cordel brasileiro não é uma forma editorial e sim um gênero literário. Gênero esse composto por poemas que tenham um princípio básico: métrica, rima e oração.
Os folhetos de cordel do Brasil, tomaram forma e vida própria, podemos comparar nossa literatura popular em versos como certos sabores de bolos; feitos em formas portuguesas, mas com ingredientes do Brasil. Assim tivemos e temos diversos sabores, porém sabendo que tudo feito dentro de um padrão literária já existente em Portugal.
2. OS TEXTOS POÉTICOS DA LITERATURA DE CORDEL PORTUGUSA DO SÉCULO XIX
2.1 EM BUSCA DE DOCUMENTOS
Quem pesquisa a literatura de cordel portuguesa, ao compará-la com os folhetos de cordel do Brasil acaba caindo em dois erros. O primeiro equívoco é associar-se à ideia de que literatura de cordel em Portugal são compêndios de textos (populares e eruditos) que foram impressos em folhetos, brochuras e livretos a partir do século XVI e que se estendeu essa produção até meados do século XIX. O segundo erro é comparar a poesia impressa nos folhetos brasileiros com toda a poesia produzida em Portugal durante esses quatros séculos. A poesia que aparece nos folhetos brasileiros, em especial: nos nordestinos, é uniforme, como bem observou Marcia Abreu. Então temos que analisar se houve uma poesia parecida com essa no solo português para podermos comparar, ou não, e verificar quais são as semelhanças e diferenças.
Marcia Abreu analisou mais de quinhentos folhetos em Portugal a maioria dos séculos XVII e XVIII e quase nada do século XIX, concluindo assim que aquela produção literária não deu origem à poesia de cordel brasileira, por ser bastante diversa dessa. Essa pesquisadora
28 esteve a analisar folhetos na Torre do Tombo, na Fundação Calouste Gulbenkian e na Biblioteca Nacional, todos esses órgãos na cidade de Lisboa. Ela chegou a fazer uma lista com os nomes dos folhetos que foram enviados para o Brasil-colônia, de acordo com registros encontrados na Torre do Tombo. Mas a literatura poética de cordel que surge no Brasil é na segunda metade do século XIX, quando o Brasil era um império e na efervescência da libertação dos seus escravizados.
Percorri o mesmo caminho que Abreu fez; pesquisei nos três lugares onde ela foi, além disso fui em alguns alfarrábios (sebos no Brasil) e adquiri alguns folhetos raros. Mas a minha busca era por folhetos poéticos e escritos e produzidos por poetas lusitanos vividos no século XIX, portanto contemporâneos dos primeiros escritores cordelistas do Brasil. Nesta minha busca descobrir que na Biblioteca do Museu Nacional de Arqueologia guardava um acervo de cordéis; então fui lá pesquisar. Para alegria do pesquisador, eu tive acesso a todas as caixas que continham folhetos da literatura de cordel portuguesa. Um calhamaço de todo tipo de folhetos produzidos entre os séculos XVI e XX.
Encontrei nessas caixas os mesmos folhetos que a maioria dos pesquisadores citam ao comparar os folhetos desses dois países. Nessa coletânea tinha desde folhetos contendo textos de Luís de Camões e Gil Vicente, passando pelos escritos do Cego Baltasar Dias, tratados de paz entre Portugal e Espanha, Actos, Entremezes, Folhetos de evangelização religiosos até encartes de jornais com propagandas diversas. Material farto para qualquer pesquisador desatento estudar e ratificar a teoria de Marcia Abreu: de que o cordel português é totalmente diferente do brasileiro e não uniforme.
Porém em uma daquelas caixas amarrotadas de folhetos encontrei muito folheto poético produzido no século XIX, em especial na segunda metade e algumas dezenas deles eram produção do início do século XX. Era justamente o material que eu precisava para analisar e comparar com os folhetos poéticos que estavam surgindo ao mesmo tempo no Rio de Janeiro, Nordeste brasileiro e na virada do século na Região Amazônica. Para efeitos de comparação nesta obra eu analisarei e farei uma comparação entre os folhetos de Portugal e do Brasil que surgiram entre os anos de 1863 e 1922, esporadicamente para exemplificar ou elucidar alguns questionamentos eu poderei citar folhetos que foram produzidos fora dessa linha temporal.
Nesta minha pesquisa no Mosteiro dos Jerônimos (Onde fica a biblioteca do Museu de Arqueologia) na freguesia de Belém encontrei aproximadamente sessenta folhetos poéticos produzidos na segunda metade do século XIX. Na sua maioria (95%) são folhetos poéticos escritos em versos rimados de sete sílabas poéticas (redondilhas maiores). Desses pouco mais
29 da metade foram escritos em quadras com versos emparelhados (quem rimam os versos pares) exatamente dez folhetos tinham textos em estrofes de seis versos (sextilhas) com versos emparelhados rimados (rimam os versos pares); os demais folhetos cerca 40% são textos produzidos em estrofes de dez versos (décimas de sete sílabas poéticas).
Não encontrei nessa busca folhetos com sextilhas corridas (que rimam o primeiro com o segundo verso, e logo em seguida rima o terceiro com o sexto verso e o quarto rima com o quinto verso) também não encontrei folhetos produzidos com estrofes de sete versos (setilhas).
Entre esses folhetos rimados pouquíssimos (menos de 1% deles) continha quadras ou décimas com versos de dez sílabas poéticas (versos decassílabos). Encontrei nesses folhetos uma certa uniformidade, a maioria com textos narrativos ou descritivos. Nesses folhetos os autores abandonaram o esquema de escrever poemas com estrofes variadas (como era comum nos escritos poéticos dos séculos XVI e XVII) e se habituaram a escrever seus textos com estrofes padronizadas com os mesmos tipos de estrofes tal como os poetas de cordel do Brasil também vão fazer.
Poemas escritos em versos heptassilábicos já eram comuns na Península Ibérica desde antes da formação da língua portuguesa. Registros mostram que nos séculos XII e XIII já se escrevia em redondilha maior em Portugal. Os primeiros sonetos também eram nessa modalidade de versos. A Escola Literária Provençal considerava os versos em sete sílabas poéticas uma arte menor, por ser de fácil composição e ser o metro do povo. Caiu em desuso pela elite literária portuguesa entre os séculos XVI e XVII, mas entre o povo essa modalidade de compor poemas sempre esteve presente, principalmente nas cantigas e no teatro popular.
Mas a redondilha maior foi reintroduzida na poesia erudita peninsular a partir do século XVIII.
2.2 A POESIA ORAL EM PORTUGAL NO SÉCULO XIX
Na poesia que depois entrará para o cânone da literatura erudita não se ver muito poemas de sete sílabas poéticas, mas essa era dominada pelo povo português. devido ser de fácil composição e memorização. Talvez seja por isso que não vemos os poetas clássicos escreverem narrativas enormes nessa modalidade. As grandes epopeias foram escritas em versos decassilábicos. Porém no romanceiro popular português está rechaçado de poemas heptassilábicos.
As canções, os fados, os improvisos faziam parte da vida do povo interiorano de Portugal do século XIX. Nos festivais culturais de cada região era como vê cantadores, poetas, declamadores. O mais esperado eram os duelos de improviso. Sobre esses desafios assim registrou Alberto Pimentel: “Um dos piques que mais relevo dão aos serões é o cantar ao
30 desafio, um duello de improvisos entre uma cachopa e um moço, que teem bossa de repentistas”.54
Pimentel recolheu da oralidade alguns poemas gravados na memória do povo português.
Eis o registro de um duelo entre os gêneros feminino e masculino.
A RAPARIGA
Faia baixo, não accordes O meu pai que está a dormir.
Se não vens p'r'a minha terra, Um dia p'r'a tua hei de ir.
O RAPAZ
Não se me dá que elle aecorde, Nem que aqui me veja estar;
Que eu já o tenho por sogro, E alguém o pode jurar.55
Canções assim em quadra era muito comum atravessar gerações pela oralidade. Um exemplo clássico é o poema Menina que vai passando, o qual tem várias versões inclusive no Brasil. Fernando Pires de Lima registrou duas versões desse poema no Romanceiro minhoto em 1943. Vejamos as duas versões a primeira em quadra e a segunda em sextilha:
QUADRAS
Menina, que vai passando Com a sua canastrinha:
Deixe ver a sua fruta, Se ela é verde ou madurinha.
A minha fruta é boa:
Quem quer a pode comprar.
É laranja escolhida
Para gente particular.88,89
SEXTILHAS
Menina que vai passando Com a sua canastrinha, Deixe ver a sua fruta, A ver se ela é madurinha.
A laranja para ser boa Deve ter a tona lisinha.
A minha laranja é boa,
54 (PIMENTEL. 1905. p 127.)
55 (PIMENTEL. 1905. p 128.)